sexta-feira, 28 de junho de 2024

O debate-empate entre Biden e Trump

O debate que os candidatos presidenciais americanos sustentaram ontem à noite em Atlanta, não parece ter tido consequências importantes na corrida eleitoral. Os juízos opinativos da imprensa americana estão em linha com o alinhamento dos próprios jornais, em que uns apoiam Biden e outros apoiam Trump, pelo que os efeitos políticos do debate só serão conhecidos mais tarde. Na sua edição de hoje o jornal nova-iorquino Newsday diz que o debate presidencial foi um combate de palavras, o que significa que não se pode classificar o debate como decisivo, enquanto se escreveu que o debate não foi mais do que “90 minutos miseráveis”.
Porém, alguns títulos e algumas afirmações que se podem ler nas entrelinhas de diversa imprensa, parecem mostrar que Joe Biden esteve pior que Donald Trump. O jornal New York Post diz que “assistimos ao fim da presidência de Biden”, que esteve triste, resmungão e até tropeçou, enquanto o britânico Evening Standard escreveu que “Biden estragou tudo”.
O facto é que os Democratas parecem ter ficado em pânico com o desempenho de Joe Biden, havendo quem tenha começado a sugerir a nomeação de um candidato mais jovem para a convenção de agosto do Partido Democrata, lembrando talvez o sucesso histórico de jovens como John Kennedy ou Bill Clinton. 
Donald Trump foi classificado como “o pior presidente da história americana” e foi acusado, uma vez mais, de ter sido o responsável pela insurreição de 6 de janeiro de 2021.Os dois candidatos divergiram em relação à guerra na Ucrânia, pois Biden disse que Putin era “um criminoso de guerra” que quer estender a guerra até aos estados vizinhos que pertencem à NATO, enquanto Trump se referiu a Zelensky como “o maior vendedor do mundo”.
Foi um combate de palavras, ou um debate-empate, que o mundo seguiu com muita atenção e ficado à espera da reacção dos eleitores americanos.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

EUA: Biden e Trump em debate televisivo

Hoje à noite, na cidade de Atlanta vai acontecer o primeiro confronto presencial da campanha presidencial americana entre o candidato e actual presidente Joe Biden e o candidato e ex-presidente Donald Trump. A América e o mundo estarão atentos às palavras, aos gestos, às reacções e às gaffes destes dois homens de 81 e 78 anos de idade, que nas eleições do dia 5 de novembro de 2024 procuram ser escolhidos para dirigir a mais poderosa nação do mundo, num tempo de grande perturbação, em que há quem afirme que estamos no limiar de uma terceira guerra mundial.
O debate é organizado pela estação televisiva CNN e, como já foi estudado pela academia, a transmissão dos debates eleitorais tem um poderoso efeito sobre as opções do eleitorado americano. Assim, ambos os candidatos aceitaram o convite da CNN para um debate de 90 minutos que, inevitavelmente, incluirá dois intervalos comerciais, tendo concordado em aceitar as regras e o formato do debate, que ocorrerá sem a presença de público (para evitar aplausos ou apupos) e em que haverá um só microfone ligado de cada vez (para garantir que não haja interrupções, nem que os discursos se sobreponham).
Numa altura em que a luta eleitoral em França está muito acesa, com os franceses a ir às urnas no próximo domingo para escolher os 577 membros da sua Assembleia Nacional, o jornal francês La Dépêche du Midi dedica a sua edição de hoje ao debate entre Trump e Biden e à “nuit américaine”, mostrando como é importante para o futuro do mundo.
A pouco mais de quatro meses das eleições, as sondagens mais recentes mostram que os dois candidatos estão tecnicamente empatados, com Joe Biden a ter 44% das intenções de voto e Donald Trump a receber 43%, embora Joe Biden tenha aprovação negativa em 45 dos 50 estados americanos. 
Neste contexto de incerteza, o debate desta noite é mesmo muito importante.

domingo, 23 de junho de 2024

Uma justa vitória e a alegria portuguesa

A selecção nacional de futebol bateu ontem em Dortmund a selecção turca por 3-0, teve uma prestação que um jornal desportivo português classificou como “exibição de luxo” e já está apurada para a fase seguinte do Euro 2024. 
Foi uma tarde memorável para os adeptos portugueses do futebol, não só pela exibição e pelo resultado, mas também porque o entusiasmo de cerca de 12 mil portugueses que estiveram no estádio calou os 40 mil turcos que foram surpreendidos por uma equipa muito talentosa e muito eficaz. “O apoio que sentimos foi brutal”, disse Bernardo Silva, que marcou o primeiro golo português.
Todos os jornais portugueses, generalistas ou desportivos, destacam hoje este grande êxito futebolístico com manchetes e fotografias, mas a surpresa surge na edição do diário francês L’Équipe, que publicou uma fotografia da festa portuguesa a toda a largura da primeira página e escolheu a frase “Ronaldo encanta”, acrescentando em sub-título que “CR7 se tornou o melhor passeur da história do Euro, ao oferecer um golo a Bruno Fernandes”.
O seleccionar Roberto Martinez, que até aprendeu português e canta o hino nacional, referiu-se ao segundo golo de Portugal dizendo que “esta jogada devia ser mostrada em todas as academias”, pois mostra que o futebol é um jogo de equipa e que Ronaldo, aos 39 anos de idade, é um exemplo para os mais jovens.
Naturalmente, todos os portugueses estão satisfeitos e felizes com a nossa selecção de futebol, embora "ignorem" os sucessos desportivos de atletas como Fernando Pimenta e João Almeida, entre outros. Contudo, é pena que nos tempos que correm não haja muitos mais temas para além do futebol, que façam os portugueses felizes.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

As práticas culturais portuguesas em Goa

No século XVI o nosso país foi uma potência marítima à escala global e os portugueses “por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da Taprobana”, tendo sido pioneiros do primeiro esboço da moderna globalização e do primeiro encontro de culturas entre o ocidente e o oriente. Passados cerca de quatro séculos, já pouco resta desse tempo de hegemonia económica e tecnológica dos portugueses, ou da influência cultural que exerceram em tantas geografias distantes.
Essa realidade é observável em diversas regiões marítimas da orla do oceano Índico e, mais recentemente, começa a observar-se também em Macau, em Timor e em Goa.
Por isso, quando na sua edição de hoje o jornal O Heraldo, que desde 1900 se publica em Goa, inclui com destaque de primeira página um anúncio sobre as festas de São João que se realizam em Utorda Beach, no distrito de Salcete, não é apenas uma curiosidade, mas também é um exemplo da sobrevivência da língua portuguesa num território cujas línguas oficiais são o inglês e o concanim. Festejar o São João e não o Saint John, é um pequeno acontecimento mas que é culturalmente relevante, pois mostra que algumas práticas culturais portuguesas têm sobrevivido à natural e progressiva indianização cultural do estado de Goa que, pela natural evolução da vida local, vem acontecendo desde 1961.

Sanjoaninas: a festa maior dos Açores

As nove ilhas do arquipélago dos Açores constituem uma região autónoma integrada na República Portuguesa desde 1976. No conjunto das ilhas ou na especificidade de cada uma, os seus espaços físicos e culturais distinguem-se e impressionam o visitante, quer pela exuberância da paisagem marítima, quer pela singularidade das suas práticas culturais, tanto religiosas como profanas.
De entre todas as ilhas destaca-se a ilha Terceira, pelo seu relevante protagonismo na História de Portugal e por ser a mais “festeira” de todas as ilhas do arquipélago, havendo uma expressão popular que afirma que “os Açores são oito il,has mais um parque de diversões” (que é a ilha Terceira). É na ilha Terceira que se apresentam os bailinhos de Carnaval, que desfilam as marchas populares e que o povo vibra com as touradas à corda mas, sobretudo, se organizam as grandes festas no Verão, em especial nas cidades da Praia da Vitória e de Angra do Heroísmo. Na cidade de Angra, que a UNESCO classificou em 1983 como património da Humanidade, festejam-se as famosas Sanjoaninas, que são consideradas as maiores festas lúdicas dos Açores e que, nesta edição de 2024, celebram os 50 anos do 25 de Abril, sob o tema “Angra: teu nome é Liberdade”.
Entre os dias 21 e 30 de junho, as Sanjoaninas 2024 vão encher as ruas da cidade de Angra do Heroísmo com concertos, gastronomia, tauromaquia, desporto, desfiles, exposições e marchas populares, num encontro de tradição e modernidade em que a marca libertadora do 25 de Abril vai estar presente.
Para quem alguma vez assistiu às Sanjoaninas, facilmente concluiu que a ilha Terceira e a cidade de Angra são mesmo um parque de diversões…

quinta-feira, 20 de junho de 2024

As alianças militares na Ásia Oriental

O líder russo Vladimir Putin visitou a Coreia do Norte esta semana, tendo sido a primeira visita que fez ao país nos últimos 24 anos embora, em menos de um ano, tenha tido um segundo encontro com Kim Jong-un.
Putin foi recebido na cidade de Pyongyang em festa e como um grande amigo, não lhe faltando um tapete vermelho e uma grande cerimónia na Praça Kim Il-sung, com banda militar e danças sincronizadas, como mostra a fotografia publicada pelo The Guardian. Os dois países são aliados desde o fim da guerra da Coreia (1950-1953), mas tornaram-se mais próximos desde a intervenção russa na Ucrânia, que teve o apoio do regime de Kim Jong-un.
A Coreia do Norte é um importante produtor de armamento e tem seguido uma política militarista, agressiva e anti-americana, pelo que este encontro entre Putin e Kim Jong-un, causou natural alarme em Washington e Seul, pois vai muito para além do fornecimento de armas e munições, constituindo uma aliança estratégica que foi formalizada num acordo de parceria global já assinado, que prevê a prestação de ajuda mútua em caso de agressão contra qualquer das partes. Nessa altura, segundo refere a imprensa, Putin referiu declarações dos Estados Unidos e de outros países da NATO sobre o fornecimento à Ucrânia de armas de longo alcance, aviões F-16 e outro armamento para atacar o território russo. Na mesma linha tem actuado Jens Stoltenberg, o secretário-geral da NATO, que usa e abusa de um discurso agressivo para o qual ninguém o mandatou. 
Portanto, temos a escalada em marcha. Provavelmente só as eleições nos Estados Unidos, em França e no Reino Unido poderão mudar o preocupante rumo dos acontecimentos.

Felipe VI e os seus dez anos de reinado

No dia 19 de junho de 2014 o parlamento espanhol proclamou Felipe VI como Rei de Espanha, depois do seu pai Juan Carlos I ter abdicado, num momento em que o então chefe de Estado estava envolvido em polémicas relacionadas com a sua vida íntima e comportamentos pessoais considerados pouco éticos, a que se somaram suspeitas de corrupção que afectavam também outros membros da família real. Felipe VI tinha então 46 anos de idade e, desde então, tem procurado regenerar a imagem da Monarquia, através de medidas concretas de que se destaca a rejeição da herança material do seu pai e o corte com abusos que aconteciam até na sua própria família.
De acordo com a Constituição de 1978, a Espanha é constituída por 17 comunidades autónomas e duas cidades autónomas, dotadas de autonomia legislativa e executiva e, no seu artigo 2º, reconhece e garante “o direito à autonomia das nacionalidades e regiões que compõem o Estado”, dentro da “indissolúvel unidade da Nação espanhola, pátria comum de todos os espanhóis”. Desta forma, a Espanha tem o espanhol como língua oficial, mas tem quatro línguas co-oficiais, que são faladas em seis das 17 comunidades: galego, basco, catalão e aranés. Significa que, perante um quadro tão diverso, o Rei é o símbolo maior de unidade nacional.
Ontem assinalaram-se dez anos de reinado de Felipe VI, com muitas cerimónias e celebrações, parecendo ter havido uma grande unanimidade em torno da sua “ejemplaridad, lealtad y transparencia”, como mostram as primeiras páginas dos principais jornais espanhóis, como por exemplo o Heraldo de Aragón. Porém, a vida política de Felipe VI não tem sido fácil, porque embora tenha havido apenas dois primeiros-ministros durante o seu reinado, respectivamente Mariano Rajoy (PP) e Pedro Sánchez (PSOE), tem-lhe cabido manter um papel de equilíbrio na crise resultante das reivindicações independentistas da Catalunha e na gestão de todas as assimetrias regionais do Reino de Espanha. 
No entanto, o que todos os portugueses desejam é que a Espanha se conserve estável, próspera, pacífica e, sobretudo, seja um bom vizinho.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Um feliz início português no EURO 2024

Ontem aconteceu o arranque português do EURO 2024 com uma vitória “arrancada a ferros” sobre a República Checa, a que agora se vem chamando Chéquia. Antes não se falava noutra coisa que não fosse esse jogo, os jogadores e os adeptos, com cansativas e nada imaginativas reportagens televisivas apresentadas por inúmeros jornalistas que as suas empresas, certamente muito prósperas, fizeram deslocar para a Alemanha. 
Se Luís de Camões cá estivesse, certamente, iria repetir os seus tão cantados versos da estrofe terceira do Canto I de Os Lusíadas:
         Cesse tudo o que a Musa antiga canta 
         Que outro valor mais alto se alevanta.
De facto, "outro valor mais alto se alevantou" e não se falou noutra coisa, como se não houvesse acontecimentos e notícias em Portugal, nem guerra na Ucrânia e em Gaza, nem tensões em Taiwan e no mar da China Meridional, nem eleições em França e no Reino Unido, nem disputas entre Biden e Trump, nem ondas de calor em várias regiões dos Estados Unidos, nem incêndios no Pantanal. Os media e os jornalistas portugueses estavam em Leipzig obcecados com a selecção nacional, acompanhavam os treinos e tratavam de excitar os seus auditórios.
Veio o jogo e correu bem, porque o jovem Francisco Conceição, que entrara menos de dois minutos antes, marcou o golo da vitória aos 92 minutos. Todos vimos esse momento decisivo, que foi um alívio para milhões de portugueses! Os jornais portugueses, generalistas ou desportivos, deram destaque fotográfico a esse momento.
Como curiosidade, a equipa portuguesa bateu dois recordes: Cristiano Ronaldo tornou-se o primeiro atleta a jogar seis fases finais de Europeus de futebol e, com 41 anos e 113 dias de idade, Pepe passou a ser o mais velho jogador de sempre a jogar num Europeu.
Segue-se a Turquia. Voltaremos a falar destes assuntos futebolísticos.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Que o cessar-fogo chegue à Ucrânia

No passado fim-de-semana, por iniciativa do Swiss Federal Council, realizou-se em Bürgenstock, uma estância turística situada em território suiço, uma cimeira com a designação de Summit on Peace in Ukraine, para a qual foram convidados 160 países e organizações internacionais, dos quais houve a participação de 92 países e 8 organizações.  
Na imprensa internacional de hoje – e tive acesso a várias dezenas de jornais – procurei alguma informação sobre a cimeira, mas verifiquei que o assunto não teve destaque de primeira página nos jornais internacionais de referência, como The Washington Post, The Wall Street Journal, The New York Times, The Times, The Guardian, El País, Le Monde, Le Figaro e muitos outros. Apenas vi o assunto ser tratado na primeira página do Le Temps de Genève, do Frankfurter Allgemeine, do La Stampa e do nosso Público, o que mostra que o assunto não foi notícia, ou não foi notícia importante. De facto, há que reconhecer que se tratou de uma operação de marketing a que muita gente se sujeitou desnecessariamente, pois ninguém imagina que o cessar-fogo, as negociações e a paz, possam nascer de cimeiras deste tipo, com tanta gente e tantos assessores. No final da cimeira houve 77 países e quatro organizações que assinaram um comunicado final de apelo à paz com condições simétricas às que a Rússia anunciara dois dias antes, o que mostra quanto a Diplomacia tem que trabalhar. O Brasil, a Índia, a África do Sul, a Arábia Saudita, o México e a Indonésia, foram alguns dos países que se recusaram a assinar o comunicado final. Escreveu-se que a cimeira produziu zero resultados e, de facto, nada de novo aconteceu.
O conflito já dura há tempo demais e já todos viram que ninguém vencerá. A indústria da guerra enriquece, mas todos perdem, sobretudo os povos da Ucrânia. Cada uma das partes foi longe demais e os riscos da escalada são enormes e muito perigosos. Há que procurar a paz com persistência, mas há que fazê-lo com uma abordagem de discrição que gere condições mínimas de confiança entre as partes, com uma abertura para cedências à rigidez das suas actuais posições e, naturalmente, com a "presença" de Zelenshy, Putin, Biden e Xi Jinping.
Certamente que a paz não se conquista com cimeiras como a de Bürgenstock, nem com os discursos de Stoltemberg, de Von der Leyen e, até, do pequeno Macron.

domingo, 16 de junho de 2024

Chico Buarque, 80 anos de vida e talento

Na próxima quarta-feira, o cidadão brasileiro Francisco Buarque de Hollanda que nasceu no Rio de Janeiro no dia 19 de junho de 1944, celebra o seu 80º aniversário. Na sua edição de hoje, o jornal O Globo antecipa com destaque de primeira página, a sua homenagem a “um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos”, como cantor, compositor, violinista, dramaturgo, actor e escritor.
A obra de Chico Buarque chegou a Portugal em 1966 quando venceu o Festival de Música Popular Brasileira com a música “A Banda” e lançou o seu primeiro álbum, que abriu as portas do mercado português à música brasileira. Os grandes nomes da música popular brasileira que os portugueses admiram, vieram todos depois de Chico Buarque – João Gilberto, Tom Jobim, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Elis Regina, Maria Bethânia, Nara Leão, Gal Costa e tantos outros.
Chico Buarque em 1975 escreveu “Tanto Mar”, uma canção dedicada a Portugal que teve duas versões. A primeira data de 1975 e saudava a revolução do 25 de Abril, dizendo:
Sei que estás em festa, pá / Fico contente / E enquanto estou ausente / Guarda um cravo para mim.
A segunda versão, com letra modificada depois de Novembro de 1975, foi gravada em 1978 e dizia:
Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / E inda guardo renitente / Um velho cravo para mim.
Os portugueses depressa reconheceram o talento de Chico Buarque e, em 1996, o Presidente Jorge Sampaio condecorou-o com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2019 foi-lhe atribuído o “Prémio Camões” que, devido ao obscurantismo político e cultural de Jair Bolsonaro, só veio a receber em 2023. Nesse dia, em Queluz, perante os presidentes de Portugal e do Brasil, Chico Buarque referiu-se ao seu pai, o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, “de quem herdei alguns livros e o amor pela língua portuguesa”. 
Aqui fica a nossa modesta homenagem ao grande Chico Buarque!

sexta-feira, 14 de junho de 2024

O futebol e o entusismo pelo Euro 2024

Começa hoje na Alemanha a 17ª edição do Campeonato Europeu de Futebol, organizado pela União das Associações Europeias de Futebol (UEFA), que é habitualmente conhecido como o UEFA Euro 2024 ou, apenas, como o Euro 2024. O famoso jornal L’Équipe, que se publica em Paris, dedica toda a sua edição de hoje a esta festa do futebol.
Serão 24 equipas nacionais a competir para chegarem até ao dia 14 de julho, quando se disputará a final em Berlim. Milhões de europeus – e eu sou um deles – estarão em frente dos televisores a ver os “artistas da bola” e a apoiar as suas selecções, mas a mostrar, também, que o ambicioso projecto europeu que vem sendo construído desde o Tratado de Roma de 1957, ainda não ultrapassou os condicionalismos históricos que caracterizam a Europa das Nações, nem os seus nacionalismos, nem os seus egoismos.
Dentro do campo todos vão procurar esmagar o adversário e ganhar, mesmo que tenham que enganar os árbitros, ou simular penaltis, ou inventar agressões, porque o povo exige-lhes que marquem golos e ganhem, enquanto os governantes carecem de vitórias que lhes sirvam para instrumentalizar as populações.
Nas 16 anteriores edições os vencedores foram a Alemanha e a Espanha (3 vezes cada), a Itália e a França (2 vezes cada) e a Rússia, a Holanda, a Dinamarca, a República Checa, a Grécia e Portugal (uma vez cada).
As equipas estão distribuídas por seis grupos e a equipa portuguesa integra o Grupo F, com as selecções da República Checa, da Turquia e da Geórgia. Os nossos jogadores são talentosos e experientes e os nossos governantes já anunciaram que irão assistir aos jogos. Bem ao seu estilo, o Presidente da República até pediu aos jogadores para só regressarem a Portugal no dia 15 de julho, isto é, como campeões europeus de futebol.
Provavelmente é pedir muito

A paz ainda será possível na Ucrânia?

Na pátria de Gutemberg é enorme a produção de jornais e revistas, embora o nosso desconhecimento da língua alemã torne muito difícil a interpretação das notícias, das reportagens ou dos comentários. Porém, mesmo sem conhecer a língua, a nossa atenção centrou-se na capa da edição de ontem da revista alemã Stern, que é publicada em Hamburgo e tem quase oito milhões de leitores (cerca de 11,5% da população alemã com 14 anos ou mais). A capa reproduz uma ilustração que mostra Zelensky e Putin a cumprimentarem-se sobre o símbolo da paz e do amor. Como era bom que em vez de uma ilustração fosse uma fotografia!
Com a ajuda dessa ferramenta extraordinária que é o Google, fiz a tradução. O título “Ist frieden noch möglich?” significa “A paz ainda é possível?”, enquanto o subtítulo diz que “A semana das negociações: como esta guerra poderia terminar sem o afundamento da Ucrânia".
Estas considerações aparecem no mesmo dia em que o G7 aprova “um pacote de 50 mil milhões de dólares para a Ucrânia” e em que Jens Stoltenberg “pede aos membros da NATO que reconsiderem os limites no envio de armas para a Ucrânia”. Há uma semana foi Macron, já chamado o petit Napoléon, que anunciou “a transferência para a Ucrânia de caças franceses Mirage 2000-5 e um programa de formação de soldados”. Há cerca de um mês, também Rishi Sunak anunciou “um pacote adicional de 500 milhões de libras para fornecer rapidamente munições, defesa antiaérea, drones e apoio de engenharia”.
Paralelamente, vários países prometeram aviões F-16, embora vão dizendo que “não podem ser usados para atacar território russo” e até aquele nosso promissor ministro chamado Nuno Melo já anunciou que “Portugal vai instruir militares ucranianos na utilização de carros de combate”. Ninguém fala em paz, apesar de todos os dias verem os horrores da guerra pela televisão. Só a revista Stern pergunta se a paz ainda é possível, mostrando que todo este belicismo é perigoso e que não é da vontade dos europeus, como se sabe pelo Eurobarómetro e se viu na França e na Alemanha nas recentes eleições europeias.

As festividades em honra de Santo António

Ontem foi o Dia de Santo António, ou o Dia de Santo António de Lisboa, pois o santo casamenteiro que foi Doutor da Igreja nasceu nesta cidade em 1195, vindo a falecer em Pádua em 1231. Lisboa é, portanto, a cidade onde mais se comemora este santo na sua vertente profana, sobretudo na noite de 12 de junho, quando se realizam inúmeros arraiais populares e nos bairros tradicionais se comem sardinhas assadas um pouco por todo o lado, havendo ainda o sempre espectacular desfile das marchas populares na principal avenida da cidade. Porém, as festas de Santo António, realizam-se em muitas outras cidades e vilas portuguesas, mas também no estrangeiro, sobretudo nas comunidades católicas e em especial na diáspora portuguesa.
No Brasil, logo que chega o mês de junho diz-se que “vai começar a festança”, porque se sucedem as festas dos Santos Populares – Santo António, São João e São Pedro. As primeiras são as tradicionais festividades em honra de Santo António, que têm uma forte componente religiosa e ocorrem, sobretudo, no estado do Maranhão e na cidade de São Luís, onde se misturam a religiosidade e a cultura maranhense, como refere a edição de ontem do jornal O Imparcial
Segundo refere aquele jornal que se publica na cidade de São Luís, os festejos sempre aconteceram numa das mais antigas igrejas da cidade, construida em 1867 para completar a grandiosidade do Convento de Santo Antônio inaugurado em 1625, que incorpora a capela do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, doada pelos Franciscanos para a Irmandade do Bom Jesus dos Navegantes. No entanto, como se verifica na consulta da programação dos festejos, eles acontecem em cada uma das igrejas da cidade e em muitas localidades maranhenses.

domingo, 9 de junho de 2024

Eleições europeias e guerra na Ucrânia

As eleições parlamentares europeias estão em curso neste fim-se-semana nos 27 estados-membros da União Europeia e, por dever cívico e direito de cidadania, já tratei de votar, embora sem grande entusiasmo. Por cá pouco se sabe sobre o que faz essa instituição que aloja 720 deputados privilegiados e novos-ricos, que ninguém conhece ou sabe o que fazem. Por isso, a ideia de promover temidos, bugalhos ou cotrins a deputados europeus não entusiasma ninguém. Com eles ou sem eles, tudo fica na mesma. Por cá, como na generalidade dos estados-membros, estas eleições servem apenas para consumo interno e para avaliar conjunturas locais, isto é, se Montenegro e PNS, ou Pedro Sánchez e Alberto Feijóo, continuam empatados, se Macron continua em perda para Marine Le Pen, e assim sucessivamemente. Os dois grandes grupos políticos europeus – o Partido Popular europeu (democrata-cristão) e o Partido Socialista Europeu (socialista/social democrata) – têm perdido espaço para a extrema-direita, para os verdes e para os liberais e, por isso, também aí há a curiosidade de ver como evolui a votação de hoje.
A guerra na Ucrânia e a busca da paz deveriam ser a principal preocupação dos europeus. Provavelmente, a maioria dos deputados e dos políticos europeus desconhece os horrores da guerra por que passaram os seus avós e não levantam a sua voz a pedir aos irmãos desavindos da Rússia e da Ucrânia que parem com a catástrofe da guerra e com a escalada que ameaça o mundo e que tratem de construir a paz. Preferem criar narrativas e meias-verdades para alimentar as opiniões públicas e apoiar a florescente indústria militar, à custa da destruição de um país. Hoje o jornal Público apela a que se vote pela Europa e destaca a figura de Camões, pois estamos a celebrar o seu 5º centenário. Daí que aqui citemos as estâncias XCV e XCVI do Canto IV de’Os Lusíadas, para relembrar o aviso do “velho do Restelo”:

Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama!

[…]

A que novos desastres determinas / De levar estes reinos e esta gente?

Quem diria que Joe Biden e Emmanuel Macron, Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, mas também todos os políticos europeus, deveriam ler Os Lusíadas e aprender com o nosso Luís de Camões?

sexta-feira, 7 de junho de 2024

O Dia D como pretexto para mais guerra

No dia 6 de junho de 1944, as tropas aliadas sob o comando do general Dwight Eisenhower desembarcaram nas praias da Normandia e iniciaram a invasão que levou à libertação da França e à derrota do nazismo alemão, cujo líder era Adolfo Hitler. Foi há oitenta anos que as tropas americanas, inglesas e canadianas enfrentaram a chamada “muralha do Atlântico”, num dia que ficou assinalado na História como o Dia D, embora os franceses gostem de lhe chamar o Jour-J, como se vê na capa da edição de hoje do jornal La Dépêche du Midi.
O desembarque da Normandia foi a maior invasão marítima da história do mundo, teve a participação de quase cinco mil veículos de desembarque e de assalto, que foram escoltados por 289 navios e apoiados por 277 draga-minas que, nesse dia, desembarcaram 156 mil homens que atravessaram o canal da Mancha. No primeiro dia da Operação Overlord, nenhum dos objectivos aliados foi atingido e houve cerca de dez mil baixas, incluindo 4.414 mortos confirmados, enquanto do lado alemão houve cerca de mil baixas.
Esta data costumava ser um dia de homenagem a todos os 156 mil homens que desembarcaram naquele dia 6 de junho, honrando os vivos e os mortos, numa evocação histórica de reconciliação, de repúdio da guerra e de apelo à paz. Porém, o presidente Emmanuel Macron, com o apoio de Joe Biden, Olaf Scholz e Rishi Sunak, transformou esta efeméride num estranho e imprudente passo relativamente à guerra da Ucrânia, ao comparar as situações da França de 1944 e da Ucrânia de 2024. Naturalmente que o anfitrião convida quem quiser para as suas festas e, por isso, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky lá esteve, sem que ele ou a Ucrânia tenham alguma coisa a ver com o Dia D, o que apenas contribui para a escalada da guerra e para afastar a paz que o próprio Macron antes tanto procurou.
Não sei o que faz correr o pequeno Macron, de quem os franceses já pouco gostam e que tanto quer, a exemplo de Napoleão, levar os seus soldados para as fronteiras orientais da Europa.