quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Já chegou o fim da crise? Não sei…

A Comissão Europeia entusiasmou-se com as últimas notícias da economia e, perante um desemprego que está ao seu mais baixo nível desde 2008, um investimento que está a aumentar, umas finanças públicas mais equilibradas e um sistema bancário que se fortaleceu, decidiu anunciar o fim de uma crise que durou dez anos e que foi a pior por que passou a União Europeia na sua história de seis décadas.
Hoje, o diário ABC deu um enorme destaque a esta notícia, que pode ser verdadeira ou não, mas que é prematura. Embora pareçam já estar ultrapassados os tempos do subprime e as situações de grande dificuldade que levaram a intervenções e resgates, de diferente extensão e natureza, na Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Chipre, esta declaração é precipitada, mesmo considerando que o produto global da UE28 esteja a crescer a 2%. Esta euforia dos burocratas de Bruxelas também está a passar por Portugal, impulsionada por um clima de generalizada confiança e de estabilidade política, mas sobretudo pela excelência dos resultados das exportações e do turismo. Segundo as previsões do Banco de Portugal a economia portuguesa irá crescer 2,5% em 2017, que é superior àquele que se prevê para o conjunto da UE28, pelo efeito do enquadramento internacional de recuperação da procura interna, do investimento e do emprego. Dizem que é a retoma que aí está, mas ainda é cedo para se tirar essa conclusão.
Embora estejam anunciadas estas perspectivas favoráveis, será bom que as nossas autoridades não se esqueçam do enorme endividamento dos agentes económicos, do elevado desemprego de longa duração e do acentuado envelhecimento da população, para além de, ao contrário do que afirma a Comissão Europeia, não sabermos se os nossos bancos estão realmente mais fortes do que há dez anos atrás. Que as coisas estão a andar bem é uma evidência que deixa o Passos e a Cristas bem nervosos, mas será que se pode anunciar o fim da crise?

A escalada do confronto agudiza-se

A Coreia do Norte vem desenvolvendo desde há vários anos um programa nuclear e um programa de mísseis que muito tem preocupado a comunidade internacional e, em especial, os países daquela região asiática, mas também os Estados Unidos. As tentativas levadas a efeito para travar esses programas não têm resultado e apenas têm conduzido o regime de Pyongyang e o seu líder Kim Jong-un à intensificação do seu discurso ameaçador, sobretudo contra os Estados Unidos. Depois do lançamento do seu primeiro míssil balístico intercontinental com capacidade para atingir o território americano, o nível das suas ameaças aumentou e a tensão entre os dois países acentuou-se. Esse lançamento terá constituído “um sério aviso” aos Estados Unidos, mostrando que a Coreia do Norte estava em condições de lançar um míssil balístico intercontinental contra o território americano “a qualquer momento e a partir de qualquer lugar”.
Entretanto, aconteceu um segundo lançamento de um míssil balístico intercontinental e soube-se que a Coreia do Norte conseguiu produzir ogivas nucleares com as dimensões adequadas para serem transportadas pelos seus mísseis. O tom da sua ameaça subiu de tom, havendo notícias de que nos arsenais norte-coreanos haverá várias dezenas de ogivas nucleares.
Donald Trump reagiu às ameaças norte-coreanas e, de acordo com o Newsday e outros jornais, afirmou que “eles enfrentarão fogo e fúria como o mundo nunca viu”. Por outro lado, há repetidas mensagens a avisar Kim Jong-un que com as suas ameaças está a arriscar a destruição do seu povo e do seu próprio país.  
A situação é muito complexa e perigosa, até porque está nas mãos de dois obstinados. Ali ao lado, a China permanece atenta e, aparentemente, quer ser apenas espectadora. Porém, tudo parece convergir no sentido de uma tempestade perfeita.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A China a avisar Pyongyang e Washington

Menos de duas semanas depois da Coreia do Norte ter levado a efeito o seu segundo teste com um míssil de longo alcance, que parece ter sido bem sucedido, as forças navais chinesas realizaram um programa de exercícios ofensivos e defensivos em que participaram navios de superfície, submarinos, aviação naval e forças da guarda costeira chinesa. Esses exercícios realizaram-se no mar Amarelo, que separa a costa oriental da República Popular da China da costa ocidental da península da Coreia e, segundo foi anunciado, visaram testar o grau de treino táctico e operacional chinês, as suas armas e as suas tropas de desembarque, tendo incluído intercepção aérea e assaltos anfíbios. Os analistas têm defendido que estes exercícios foram uma advertência ao regime de Pyongyang e uma clara mensagem a informar que a República Popular da China não se alheará do que possa acontecer na região, sobretudo se a ameaça de guerra se vier a concretizar. Porém, certamente estes exercícios também foram um aviso para os Estados Unidos e para Donald Trump, a lembrar-lhes que naquela região ninguém poderá ignorar as forças navais chinesas.
Na primeira página da sua edição de hoje, o jornal South China Morning Post que se publica em Hong Kong, destacou uma fotografia dos exercícios realizados, na qual se observam duas unidades navais chinesas a disparar osseus mísseis. Quer dizer que a República Popular da China se continua a afirmar como uma grande potência militar e a avisar, tanto Pyongyang como Washington.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Reconciliação nacional em Moçambique

Moçambique é um grande país da costa oriental africana cuja língua oficial é o português e que absorveu na sua cultura nacional muitos traços da cultura portuguesa. Administrado pelo regime colonial português, a partir de Setembro de 1964 o território moçambicano veio a ser palco de uma guerra entre as forças da frente de libertação nacional (Frelimo) e as Forças Armadas Portuguesas, que só terminou na sequência da revolução portuguesa do 25 de Abril de 1974, com um cessar-fogo declarado no dia 8 de Setembro do mesmo ano. A independência foi proclamada a 25 de Junho de 1975, mas a euforia da libertação durou pouco. Alguns dissidentes da Frelimo, apoiados financeira e militarmente pelos regimes racistas do sul da África, formaram um partido da resistência nacional moçambicana (Renamo) e, ainda no ano de 1977, o conflito armado e a guerra civil estavam instalados. Estima-se que morreram um milhão de moçambicanos e que foram desalojados cinco milhões. Foi demasiado duro para um país em que todos apostavam no progresso. A guerra terminou em 1992 por mediação internacional e em 1994 realizaram-se eleições gerais multipartidárias sob a supervisão das Nações Unidas. 
A paz formal durou cerca de vinte anos, mas em 2013 o conflito armado reacendeu-se  nas regiões norte e centro do país. Apesar das inúmeras negociações, tem sido difícil conseguir um novo acordo de paz que garanta a reconciliação nacional e um clima de confiança entre todos os moçambicanos.
Por isso, o anunciado encontro entre o Presidente da República de Moçambique, Filipe Jacinto Nyusi, e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, que decorreu na Gorongosa, província de Sofala, foi um passo muito desejado pelos moçambicanos e pelos amigos de Moçambique, tendo sido aplaudido pelo diário moçambicano Notícias. Além de desejado, o encontro entre Nyusi e Dhlakama foi muito animador pois deixou as portas abertas ao diálogo, à paz e à reconciliação nacional. Continuar a ler

O fim do longo reinado de Usain Bolt

A corrida de 100 metros é uma das mais antigas provas do calendário olímpico e foi sempre considerada a prova rainha do atletismo, deixando gravado nos anais do desporto os nomes de atletas famosos como Jesse Owens e Carl Lewis. Nos Jogos Olímpicos de Pequim que se disputaram em 2008 surgiu uma nova estrela na velocidade pura que venceu a corrida de 100 metros. Era natural da Jamaica e chamava-se Usain Bolt. A partir de então, Bolt dominou as principais corridas de velocidade e triunfou nos Jogos Olímpicos de 2008, 2012 e 2016 e nos Mundiais de 2009, 2013 e 2015, para além de muitas participações em estafetas vencedoras.
Apresentou-se agora em Londres nos Mundiais de 2017, naquela que anunciou ser a sua última corrida, mas não foi além de um terceiro lugar, tendo sido derrotado pelo norte-americano Justin Gatlin, o seu  velho rival.
Justin Gatlin é cinco anos mais velho do que Bolt e nunca lhe tinha ganho numa grande final dos Jogos Olímpicos ou dos Mundiais. Antes, vencera os Mundiais de 2005 e  os Jogos Olímpicos de 2004 em Atenas, em que batera o português Francis Obikwelu. Depois de um longo percurso de castigos por doping e de derrotas, Justin Gatlin repetiu o título conquistado doze anos antes após uma corrida feita em 9,92 segundos, o que também é significativo. Porém, no final da corrida de Londres, Gatlin fez questão de se ajoelhar perante Usain Bolt, numa atitude simbólica e reverencial que muitos jornais registaram. Um desses jornais foi o diário catalão La Vanguardia que destacou essa  fotografia na sua primeira página. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

De novo o consumo e o endividamento

A economia portuguesa parece estar a crescer actualmente acima de 3%, que é o ritmo mais elevado dos últimos 17 anos, mas apesar desta expansão do Produto Interno Bruto, o peso da dívida pública no PIB que é o indicador mais utilizado para apreciar essas variáveis, continua a aumentar.
A razão é simples: o endividamento está a crescer mais do que o crescimento do produto, ou dito de outra maneira, os portugueses tendem a consumir o que têm e o que não têm, embora em termos de realidade macroeconómica não seja aexactamente assim, porque o aumento do consumo gera emprego e bem-estar.
O Banco de Portugal, que é a entidade responsável pelo apuramento destes valores, anunciou que em finais de Junho a dívida pública portuguesa atingia 249 mil milhões de euros, um máximo histórico em termos absolutos e que corresponde a um aumento de 4% relativamente ao período homólogo do ano anterior. Assim, o rácio da dívida em relação ao PIB estará nos 130,5%, embora seja de admitir que se venha a situar nos 128,5%, segundo anuncia o FMI e o Banco de Portugal. O problema, portanto, está uma vez mais no crédito que está a fazer com que os portugueses se endividem e é caso para perguntar se são as famílias que pedem dinheiro emprestado e os bancos emprestam, ou se são os bancos que aliciam as famílias com créditos e as famílias não resistem. O facto é que esta euforia económica tem um lado incómodo. 
O crédito à habitação já atingiu os valores de antes da crise e o crédito ao consumo recuperou os valores de antes da troika. Segundo apurou o Jornal de Notícias, em 2016 ”os portugueses pediram à banca 17 milhões de euros por dia” e, nos primeiros cinco meses de 2017, os novos empréstimos ao consumo já contabilizam um valor total de 1650 milhões de euros. O governo e as autoridades monetárias certamente que estão atentas a esta complexa geometria variável entre o bem-estar dos portugueses, o consumo, o endividamento, a dívida global, o emprego e o investimento. O passado recente, em que os portugueses recorriam ao crédito e consumiam para além do seu rendimento, ainda está na nossa memória. Há que ter cuidado!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Neymar Jr. e a loucura das transferências

Neymar da Silva Santos Júnior ou Neymar Jr. é um futebolista brasileiro com 25 anos de idade que desde 2013 tem pertencido à equipa do Barcelona FC. É o maior ídolo do futebol brasileiro, mas os brasileiros não se conformam que exista Cristiano Ronaldo e Leonel Messi e que Neymar não seja a figura máxima do futebol mundial. A transferência de Neymar do futebol brasileiro para Barcelona terá custado cerca de 86 milhões de euros e nas cinco épocas em que representou o clube catalão, o jogador disputou 145 jogos e marcou 84 golos. Agora, naquilo a que o jornal A Bola chama de loucura, aconteceu a transferência de Neymar do Barcelona para o Paris Saint-Germain.
Foram anunciados 222 milhões de euros para pagamento ao Barcelona da cláusula de rescisão, mas o negócio implica ainda o pagamento de 80 milhões de euros ao fisco espanhol e 40 milhões para comissões de agenciamento. Segundo o jornal português, o negócio pode superar os 700 milhões de euros com salários, prémios e impostos.
É, realmente, uma loucura!
O mundo do futebol agitou-se e hoje as capas dos jornais desportivos europeus destacam esta transferência pelos números colossais que envolve e porque nada disto acontecera antes. No entanto, os tons são bastante diferentes entre os catalães e os franceses, porque enquanto os catalães se mostram demasiado irritados e escrevem “Bom voyage”, “Au revoir” ou “Hasta nunca” a denunciar um mau perder, os franceses revelam-se empolgados com a “transferência do século”. No meio de tudo isto, talvez agora os brasileiros possam vir a ter o melhor jogador do mundo a consagrar pela FIFA, uma coisa que tanta falta lhes parece fazer.
Depois disto, havemos de continuar a gostar de futebol porque é uma arte, mas o negócio do futebol é cada vez mais isso mesmo.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Fiestas Colombinas e Huelva ali tão perto

A cidade espanhola de Huelva é a capital da província de Huelva, que pertence à comunidade autónoma da Andaluzia, distando cerca de 50 quilómetros da fronteira portuguesa. Tal como Vigo, Badajoz ou Ayamonte, também Huelva atrai os portugueses pela sua proximidade e vitalidade económica, mas também pelo seu interesse histórico.
Na periferia da cidade situa-se o município de Palos de la Frontera, uma pequena localidade das margens da ria de Huelva, de cujo porto partiram no dia 3 de Agosto de 1492 as caravelas La Pinta e La Niña e a nau Santa Maria, sob o comando de Cristovão Colombo e com a companhia dos irmãos Pinzón. Foram estes navios que rumaram ao desconhecido e julgaram ter chegado à Índia. Por isso, aqueles territórios tomaram o nome de Índias de Castela e, ainda hoje, as ilhas das Caraíbas são conhecidas como as West Indies.   
Nas proximidades fica o mosteiro franciscano de La Rabida, onde Cristovão Colombo se recolheu antes de iniciar a sua viagem, bem como o Muelle de las Carabelas, um espaço museológico onde podem ser visitadas as réplicas dos navios de Colombo.
Porém, quer Huelva quer Palos de la Frontera têm outros motivos históricos de interesse e, também, as Fiestas Colombinas, que comemoram o dia da partida dos três navios de Cristovão Colombo que chegaram ao continente americano. São seis dias de festa e de alegria, sobretudo na área do Recinto Colombino, isto é, na área a sul da cidade onde se encontra o Monumento a la Fe Descobridora ou Monumento a Colón de 37 metros de altura e que foi doado pelos Estados Unidos em 1929.
Hoje, o diário Huelva información dedica a sua primeira página às Festas Colombinas com uma fotografia do iluminado Monumento a Colón.

Paris vai receber as Olimpíadas de 2024

A imprensa francesa está eufórica com a mais que provável realização em Paris dos Jogos Olímpicos de 2024, embora a decisão final só venha a ser tomada no próximo dia 13 de Setembro, quando os 95 membros do Comité Olímpico Internacional se reunirem na cidade peruana de Lima.
A realização dos Jogos Olímpicos é um objectivo de qualquer grande cidade, porque a promove, a prestigia e a torna atractiva. Desta vez foram cinco as cidades que apresentaram processos de candidatura à realização da 33ª Olimpíada: Hamburgo, Roma, Budapeste, Boston e Paris. Boston foi a primeira desistente por falta de apoio popular mas, em sua substituição, apareceu Los Angeles. Depois, por insuficiência de recursos financeiros ou de apoio governamental, as várias candidaturas foram desistindo até ficarem apenas Paris e Los Angeles. Então, estas duas cidades chegaram a um acordo, ficando a organização dos Jogos de 2024 entregue a Paris e a organização dos Jogos de 2028 entregue a Los Angeles.
A cidade de Paris e a França perseguiam desde há vários anos o objectivo da realização dos Jogos Olímpicos e tinham apresentado candidaturas que foram derrotadas em 1992, 2008 e 2012. Agora, antes mesmo do anúncio oficial, o entusiasmo domina a imprensa francesa: “cette fois, c’est gagné” titulou o jornal Le Parisien.
Para o desporto português, depois das longínquas jornadas olímpicas do Rio de Janeiro (2016) e de Tóquio (2020), a realização dos Jogos ao pé da porta pode proporcionar condições para um bom resultado. Mas ainda falta tanto tempo.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A modernização do poder militar chinês

A República Popular da China comemora hoje o 90º aniversário das suas PLA (Chinese People’s Liberation Army) e, no passado domingo, festejou o acontecimento com uma invulgar demonstração de força em Zhurihe, na região autónoma da Mongólia. Pela primeira vez, essa exibição de força não aconteceu em Pequim na famosa praça de Tiananmen, que é um símbolo do poder e do centralismo chinês, tendo o diário China Daily destacado na sua primeira página que a parada demonstrou a evolução e modernização das PLA. As fotografias que foram divulgadas mostram o Presidente Xi Jinping, enquanto secretário-geral do Partido Comunista Chinês e comandante-chefe das Forças Armadas, uniformizado de fato camuflado a passar revista às tropas.
As PLA são a maior força militar do mundo com cerca de 2.285.000 efectivos e têm um orçamento superior a 150 mil milhões de dólares, que em termos nominais só é superado pelos Estados Unidos, correspondendo a cerca de 1.3% do PIB chinês.
Nos últimos decénios as PLA têm-se modernizado muito rapidamente e desenvolvido a sua indústria militar, o que é visível nas capacidades navais e aéreas que demonstra.
Embora este tipo de demonstrações militares seja uma prática corrente nos países que se reclamam do comunismo, o facto é que nesta altura bem nos podemos interrogar se esta exibição é para impressionar a Coreia do Norte ou os Estados Unidos. É natural que seja para impressionar o Donald, para que pense duas vezes antes de se meter em aventuras.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Onda de violência aumenta na Venezuela

A disputa política que está a acontecer na Venezuela teve ontem mais um episódio doloroso, com uma dezena de mortos e com a violência a atingir grandes proporções em Caracas, mas também em todo o país. Foi o dia das eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte (ANC) que, segundo tem sido afirmado, se destina apenas a assegurar a possibilidade do Presidente Nicolás Maduro e os seus apoiantes se manterem no poder e a anular o papel do Parlamento que por larga maioria se lhes opõe.
Hoje, as notícias divergem e enquanto umas afirmam a vitória do governo, outras anunciam a derrota da deriva autoritária, o que significa que as partes estão extremadas. A própria imprensa venezuelana é o espelho dessa divergência e aparece hoje com títulos bem diversos, conforme o seu alinhamento político. Uns escolheram títulos como “8 089 320 votaron por la paz” (Ultimas Noticias) ou “Gobierno califica jornada de victoria constituyente” (El Universal), enquanto outros escreveram “Fracasó fraude constituyente” (El Nacional) ou “Electa ANC en medio de muertes y violencia” (El Informador) ou, ainda, “16 muertos durante elección de ANC chavista” (Diário 2001).
Curiosamente, a notícia destas eleições não tem destaque significativo na imprensa da América do Sul e até a imprensa brasileira quase a ignora, apesar de estar bem perto dos acontecimentos. A Espanha é o único país em que a generalidade da imprensa destaca a crise da Venezuela nas suas primeiras páginas, caso do diário La Razón, ilustrando-a com a expressiva fotografia da explosão de um petardo lançado pelos opositores ao regime de Maduro à passagem de uma coluna de polícias motorizados da Guarda Nacional Bolivariana. Dezenas de jornais espanhóis escolheram essa fotografia para ilustrar as suas edições.
O facto é que a tensão e a violência aumentam e não há notícia de quaisquer tentativas internas ou internacionais para chegar a um acordo, apesar de se verificar uma quase unânime condenação internacional do regime de Maduro. É preciso que o clima de guerra civil seja travado a tempo.

sábado, 29 de julho de 2017

Portugal e a grave crise venezuelana

No dia 14 de Abril de 2013, após a morte de Hugo Chávez, os venezuelanos elegeram Nicolás Maduro para seu presidente com 50,66% dos votos. A luta contra o chavismo já vinha de trás mas acentuou-se a partir de então, até porque o país atravessava uma profunda crise económica e social. Seguiram-se eleições parlamentares no dia 6 de Dezembro de 2015 e a oposição venezuelana unida em torno da Mesa de Unidade Democrática (MUD) conseguiu 56,3% dos votos, enquanto o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) que suporta Nicolás Maduro, se ficou pelos 40,9% dos votos. Pela primeira vez desde 1999, o chavismo e Nicolás Maduro perderam o controlo da Assembleia Nacional, o que originou que o país ficasse nas mãos de duas forças políticas opostas, embora ambas igualmente legitimadas pelo voto popular.
Desde então, a oposição tem procurado destituir Maduro por todos os meios legais, mas também através de manifestações, greves e outras acções de protesto que têm deslizado para confrontos de grande violência. A confusão e o caos instalaram-se na Venezuela com a degradação da vida pública e o aumento de actos de violência, assaltos e ajustes de contas. A falta de comida é cada vez mais sentida e referem-se 113 mortos em consequência dos confrontos. A imprensa internacional está atenta à gravidade da situação e a revista The Economist destacou o caos venezuelano na capa da sua última edição. Muitos observadores já descrevem um clima de guerra civil e muitas comunidades, como por exemplo a enorme comunidade portuguesa da Venezuela, parece já ter optado por regressar a Portugal por razões de segurança.
A mediação internacional parece ser a única via para encontrar uma solução rápida e honrosa para o país e para as partes em confronto. Nessa perspectiva, não há dúvidas que a diplomacia portuguesa pode prestar um grande serviço à causa da paz na Venezuela, em diferentes planos, isto é, através de António Guterres nas Nações Unidas ou de Augusto Santos Silva no Palácio das Necessidades. Se assim fosse e resultasse bem, era um sucesso maior que uma final europeia com golo de Éder...

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Mbanza Kongo inscrita pela UNESCO

A 41ª reunião do World Heritage Committee da UNESCO, realizada na cidade polaca de Cracóvia, decidiu no passado dia 9 de Julho inscrever o centro histórico de Mbanza Kongo, no norte de Angola, na sua Lista do Património Mundial. Foi a primeira vez que um sítio angolano foi classificado pela UNESCO e o jornal Cultura – Jornal Angolano de Artes e Letras deu o devido destaque a este acontecimento de grande importância cultural para a preservação do património angolano.
Mbanza Kongo foi a capital do antigo reino do Congo, tendo sido fundada antes da chegada dos portugueses àquela região que aconteceu em finais do século XV e que a baptizaram como São Salvador do Congo. Pouco tempo depois, no ano de 1549, por influência dos missionários católicos portugueses, foi construída uma igreja que em 1596 foi elevada ao estatuto de catedral e que é considerada a mais antiga da África Sub-Saariana. O historial da cidade refere a realização de conversões em massa naquela região, mas algumas guerras civis ocorridas no século XVII levaram ao seu abandono, até que no início do século XVIII a cidade foi definitivamente reocupada.
Depois da independência de Angola a cidade voltou a chamar-se Mbanza Kongo e hoje é sede de um município da província do Zaire.
Segundo informa a UNESCO, a área agora classificada mostra, como em nenhum outro local sub-saariano, a influência causada pela chegada dos portugueses e a introdução do Cristianismo e situa-se junto da residência do rei do Congo, da árvore sagrada, dos lugares funerários e dos vestígios das casas de pedra construídas pelos portugueses segundo as técnicas europeias.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Os oportunistas políticos vivem do fogo

Os incêndios florestais continuam a devastar a zona centro do país, mas o incêndio de Pedrógão Grande e a tragédia que então aconteceu ainda estão presentes na memória dos portugueses, apesar de já ter passado mais de um mês.
Essa tragédia e a calamidade que nos está a atingir deveriam ser factores de unidade nacional, de reflexão crítica sobre a solução a adoptar no futuro e de coesão em torno da tarefa de reconstrução emocional e material daquela região mas, provavelmente na linha preconizada por esse estratega-caceteiro que é Paulo Rangel, tem sido usada como oportunidade política. Sim, Rangel classificou a tragédia de Pedrógão como uma oportunidade política! Porém, o que tem sido dito por Passos Coelho e por Assunção Cristas, depois repetido por alguns dos seus mais fiéis seguidores, tem sido uma vergonha e revela a enorme mediocridade e insensibilidade desses dirigentes ambiciosos que pouco têm para oferecer ao país.
Nunca o aproveitamento político foi tão longe e foi tão miserável. Desde a exigência da demisssão da ministra da Administração Interna, passando pela tese dos suicídios inventada por Passos Coelho ou pela insistência quanto ao número de bombeiros feridos, até ao recente ultimato para publicação das listas das vítimas de Pedrógão e à ameaça de uma moção de censura ao governo, tudo tem servido para insultar os governantes, com a repetida insinuação de que escondem a verdade aos portugueses. Tem sido um vale tudo. A partir de um simples boato, de uma declaração ou de uma notícia não confirmada, que a comunicação social dos jovens enviados especiais à procura de emprego repete e amplifica acriticamente, Cristas e Passos têm-se revelado oportunistas sem escrúpulos. Pegam nos microfones e, como se os portugueses tivessem memória curta e desconhecessem o mal que nos fizeram quando foram subservientes à troika, tratam de aproveitar a terrível conjuntura do fogo florestal para servir os seus interesses políticos. Nem o exemplo do Presidente da República os trava no seu alarido social. Até parece que vivem do fogo e da desgraça de tanta gente.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Timor Leste e o seu futuro político

Nas eleições legislativas ontem realizadas em Timor Leste, a Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (FRETILIN) dirigida por Mari Alkatiri obteve 168.422 votos, enquanto o Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT) liderado por Xanana Gusmão conseguiu 167.330 votos, isto é, verificou-se uma diferença de apenas 1092 votos, o que é realmente um acontecimento! Este resultado faz com que dos 65 assentos do parlamento timorense, haja 23 cadeiras a ocupar pelos deputados da FRETILIN, 22 assentos a ocupar pelos eleitos do CNRT e que haverá 20 lugares a ser ocupados pelos restantes partidos, sendo que o Partido da Libertação Popular (PLP) do ex-Presidente Taur Matan Ruak ocupará 8 cadeiras. 
Este resultado é muito problemático e pode gerar uma situação de grande instabilidade política porque o provável governo de Mari Alkatiri estará sempre em minoria, a não ser que faça uma coligação com o seu adversário mais directo. Por isso, Xanana Gusmão está mais uma vez no centro da vida política timorense, tal como tem acontecido desde há mais de quarenta anos.
Acontece que estas eleições legislativas foram as primeiras realizadas exclusivamente pelas autoridades timorenses e já foram consideradas as mais tranquilas de sempre, não tendo sido registados quaisquer incidentes graves durante a campanha eleitoral ou no dia da votação. Essa circunstância é uma boa indicação quanto ao futuro político do país, que vai continuar nas mãos experientes de homens que vieram da Resistência e da luta armada.
Por isso, existe um clima de confiança no país, até porque Francisco Guterres, o Presidente da República de Timor Leste eleito em 20 de Março e que também é oriundo da FRETILIN, é um patriota e um companheiro de percurso de Alkatiri e de Xanana, o que vai certamente favorecer uma solução de estabilidade política e de boa governabilidade. É, também, o que esperam aqueles que, como nós, conhecem a ilha de Timor.