quinta-feira, 30 de junho de 2022

A Escócia e a sua luta pela independência

A Escócia é um país que em 1707 se uniu com a Inglaterra e formou a Grã-Bretanha, a qual mais tarde se associou com o País de Gales e com a Irlanda do Norte, passando a constituir o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda ou, simplesmente, Reino Unido.
Os escoceses, que são mais de cinco milhões de pessoas, têm uma forte identidade nacional e profundos sentimentos autonomistas, havendo muitos deles que defendem ideais independentistas.
Em 2014, após um acordo entre os governos do Reino Unido e da Escócia, foi realizado um referendo em que foi perguntado aos eleitores se “a Escócia deve ser um país independente?”, tendo havido 44,7% que votaram sim e 55,3% que votaram não.
Seguiu-se em 2016 um referendo geral sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia em que o brexit ganhou com 51,9% dos votos, mas a Escócia votou maioritariamente pela permanência na União Europeia com 62% dos votos. Esse resultado mostrou um maior distanciamento de Edimburgo em relação a Londres e, no dia seguinte à votação, a primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon que lidera o Partido Nacional Escocês pró-independência, afirmou que um segundo plebiscito pela independência da Escócia estava em cima da mesa. Porém, as vicissitudes por que passou o brexit e a pandemia de covid-19 atrasaram essa intenção, até que as excentricidades de Boris Johnson e o sucesso do seu partido nas eleições locais do ano passado, fizeram renascer a ideia de um segundo plebiscito que Nicola Sturgeon quer que seja realizado no dia 19 de Outubro de 2023. No entanto, o governo escocês não tem autonomia total para realizar esta consulta popular e precisa da prévia autorização do Supremo Tribunal, ou seja, a intenção de Sturgeon é, por agora, apenas isso.
O jornal The National, the newspaper that supports an independence, foi o jornal escocês que mais destaque deu à intenção de realizar um segundo referendo e diz aos seus leitores que têm apenas 16 meses “to save Scotland from Westminster”.

Novo aeroporto revela uma “nau à deriva”

Esta manhã o país foi surpreendido com uma notícia sobre o novo aeroporto de Lisboa veiculada pelo jornal Público, que informava que o governo “quer o Montijo em 2026 e Alcochete em 2035” e publicava uma fotografia aérea da área aeroportuária do Montijo. Assim, segundo anunciava o jornal com base num despacho do Ministério das Infraestruturas, a intenção é avançar com as obras no Montijo para que em 2026 possa ser uma infraestrutura complementar da Portela, ao mesmo tempo que se começa a avançar com uma nova infraestrutura aeroportuária a construir de raiz no Campo de Tiro de Alcochete para concluir em 2035, altura em que o aeroporto da Portela será encerrado e libertará a cidade de Lisboa dos seus indesejáveis efeitos ambientais. O mesmo despacho indicava que o processo de Avaliação Ambiental Estratégica em curso passava a ser da responsabilidade do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
A notícia deixou-me optimista, porque era o início do fim de um problema que se arrasta há 53 anos! De facto, foi através do Decreto-lei 48.902, de 8 de Março de 1969, que o governo de Marcello Caetano criou o Gabinete do Novo Aeroporto de Lisboa (GNAL) destinado "a empreender, promover e coordenar toda a actividade relacionada com a construção do novo aeroporto de Lisboa". Desde então avançou-se e recuou-se, envolveram-se interesses contraditórios, perdeu-se tempo e gastou-se dinheiro, houve um incontável número de opiniões expressas por especialistas e não especialistas e até houve soluções tão diversas como a Ota e Beja, Alverca, Alcochete e o Montijo.
Parecia que, finalmente, o problema ia agora começar a ser resolvido. Aleluia, pensei eu! Porém, foi sol de pouca dura. O despacho do Ministério das Infraestruturas foi precipitado e rapidamente foi revogado. Aparentemente, nem o 1º Ministro, nem o Presidente da República, nem os partidos da oposição foram ouvidos numa matéria de relevante interesse nacional. Uma gaffe monumental a manchar ainda mais esta história de incompetência e hesitação de 53 anos. O recuo foi uma humilhação política para o ministro e um sinal de descontrolo do governo. Tal como na Saúde ou na Justiça, na Educação ou na Administração Pública, a nau governativa parece andar à deriva e, nos tempos que correm, isso é muito mau.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Os franceses e a loucura do Tour de France

Nos últimos dias temos assistido impotentes ao aumento da escalada em que navega a generalidade dos líderes europeus, do Atlântico aos Urais, com a NATO a considerar a Rússia como a sua maior e mais directa ameaça e a Rússia a prometer resposta às decisões da NATO. A tensão está a aumentar e não há notícias quanto a possíveis diligências diplomáticas para terminar com a “operação especial” desencadeada por Vladimir Putin. 
Entretanto, a Ucrânia vai sendo destruída apesar de todo o armamento que recebe, enquanto o povo ucraniano continua a sofrer as consequências da guerra e a ser vítima de uma enorme tragédia humanitária. Nesse contexto, é bem curioso que, nas suas últimas edições, uma parte da imprensa francesa, nomeadamente o jornal Le Parisien, não tenha destacado como manchete a guerra da Ucrânia ou a cimeira da NATO, tendo-se centrado na 109ª edição do Tour de France, que se inicia na próxima sexta-feira. 
Esse destaque resulta do facto de Julian Alaphilippe, bicampeão mundial e estrela maior do ciclismo francês que corre pela equipa belga Quick-Step Alpha Vinyl, ter sido preterido da equipa que vai disputar o Tour por não estar ainda recuperado de uma queda que sofreu no dia 24 de Abril na clássica Liége-Bastogne-Liége, em que perfurou um pulmão, partiu duas costelas e teve um ombro deslocado. Os franceses parece estarem mais desolados com a ausência de Julian Alaphilippe do Tour, do que com o que se passa em torno da guerra na Ucrânia e, certamente, até ao dia 24 de Julho, não vão pensar noutra coisa que não seja o Tour, que é a sua maior loucura desportiva.

terça-feira, 28 de junho de 2022

A cimeira da NATO e a escalada da tensão

Iniciou-se hoje em Madrid a cimeira da NATO em que participam os chefes de estado ou os chefes de governo dos países membros e que ocorre quando a invasão russa da Ucrânia já dura há mais de quatro meses. Por isso, a Rússia vai estar no centro desta reunião como o “inimigo” e não deixa de ser curioso que em 2010, na cimeira de Lisboa, tinha sido considerada um “parceiro”. Como as coisas se alteraram em tão pouco tempo! 
Sobre a cimeira de Madrid o jornal francês Le Figaro escreve na sua edição de hoje que a NATO está em “conselho de guerra” perante a Rússia e, de facto, as declarações de vários dirigentes que estão presentes em Madrid mostram que estão dispostos a continuar a apoiar militarmente a Ucrânia e a resistir à invasão russa, num quadro operacional que se tem agravado e que é muito complexo, até porque acontece numa situação de crise económica em agravamento. 
A situação vem-se revelando cada vez mais como um confronto entre a Rússia e os Estados Unidos, ou entre a Rússia e a NATO, embora também haja quem inclua a China nesta equação e daí que a Austrália, o Japão e a Coreia do Sul também estejam presentes nesta cimeira da NATO como convidados. O falcão Jens Stoltenberg, que é o secretário-geral da NATO, tem-se desdobrado em declarações e tem anunciado que vai ser aprovado um novo conceito estratégico que deverá definir a Rússia como a maior e mais directa ameaça aos países da NATO, que deverá ser alargada a NATO com a adesão da Suécia e da Finlândia à organização e que vai ser aprovado o reforço de meios e forças de alta prontidão, sendo avançado o número de 300.000 soldados que serão colocados nas fronteiras orientais da NATO. 
Porém, o que o Stoltenberg não diz é que a China vai “estar” na cimeira, que voltamos à corrida aos armamentos e que os riscos de uma terceira guerra mundial são cada vez maiores. Chama-se a tudo isto uma preocupante escalada.

sábado, 25 de junho de 2022

Uma obra ímpar: os painéis de S. Vicente

Na História de Portugal há alguns assuntos menos esclarecidos que têm suscitado dúvidas e incertezas, dando origem a algumas teorias explicativas, mas que permanecem como enigmas. Os painéis de S. Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves, são um desses casos sobre o qual já se escreveram centenas de monografias e muitos milhares de páginas com hipóteses e interpretações múltiplas e discordantes.
O facto é que o famoso políptico que consta de seis painéis e que terá sido concluído por volta de 1470, é a mais importante pintura da arte portuguesa, representando a Corte e os vários estratos da sociedade portuguesa quinhentista, impressionando quem a vê em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Os painéis foram acidentalmente descobertos em 1882 no Paço Patriarcal de São Vicente de Fora e, depois de restaurados, foram expostos pela primeira vez em 1910 na Academia de Belas Artes de Lisboa. Desde então surgiram inúmeras teses sobre os painéis e a sua origem, sobretudo em relação à iconografia e à identidade das 58 personagens cujos retratos constituem o essencial da obra, havendo centenas de propostas quanto à sua identificação. Os painéis tiveram duas operações de restauro global e várias intervenções pontuais ou selectivas, mas urgia estudá-los, conservá-los e restaurá-los.
A oportunidade do estudo e do restauro do políptico surgiu com a assinatura de um protocolo mecenático entre o MNAA, o Grupo de Amigos do MNAA, a Direcção-Geral do Património Cultural e a Fundação Millennium bcp, que vem sendo desenvolvido desde há dois anos com a coordenação de Joaquim Caetano, o director do MNAA. De acordo com o que já se sabe, os painéis que vão sair desta intervenção serão mais próximos dos originais e quanto à identificação das personagens, terão ficado dissipadas as dúvidas sobre a identidade do homem de chapéu à moda da Borgonha, que será mesmo o infante D. Henrique.
Em boa hora, a E - Revista do Expresso deu a conhecer esta iniciativa de grande interesse cultural e que, certamente, será inspiradora de muitos mais projectos desta natureza.

A Ucrânia e a sua adesão à União Europeia

A actual União Europeia nasceu no dia 25 de Março de 1957 com o Tratado de Roma, que instituiu a Comunidade Económica Europeia e tinha apenas seis membros. Depois, com os sucessivos alargamentos chegou aos 28 membros mas, com a saída do Reino Unido, são agora 27. Desde 1986 que Portugal faz parte desse espaço de prosperidade, de tolerância e de ambiguidade, onde têm cabido diferentes culturas, línguas, histórias, religiões e níveis de desenvolvimento muito diversos. 
Porém, o projecto inicial de Jean Monnet e de Robert Schuman, que foi consolidado por homens como Konrad Adenauer, François Mitterrand, Helmut Kohl e Jacques Delors, sobredimensionou-se, atravessa evidentes dificuldades de coesão e vem-se desenvolvendo a várias velocidades. 
Para além dos 27, há actualmente cinco candidatos reconhecidos para a adesão, respectivamente a Turquia desde 1987, a Macedónia do Norte desde 2004, o Montenegro desde 2008 e a Albânia e a Sérvia desde 2009, havendo ainda dois países com o estatuto de potenciais candidatos: a Bósnia-Herzegovina e o Kosovo. Na sequência da invasão russa da Ucrânia e da teimosia com que as partes em conflito persistem naquela guerra, os 27 aprovaram o estatuto de candidatos à adesão da Ucrânia e da República da Moldávia o que, segundo o jornal catalão La Vanguardia, deu origem à frustração entre os líderes dos Balcãs ocidentais por verem os seus processos de adesão ultrapassados. 
Esta medida do Conselho Europeu tem natureza exclusivamente política, é demagógica e apenas pretende enganar os ucranianos, pois todos os 27 líderes europeus, incluindo o português António Costa, sabem que a entrada da Ucrânia na União Europeia iria alterar todo o actual contexto de equilíbrio, pois seria grande demais e o seu maior país, acrescentaria 40 milhões de habitantes com um produto per capita de 28,9% em relação à média europeia, o que tornaria a Ucrânia a principal beneficiária das ajudas comunitárias de pré e de pós-adesão. Mesmo que sejam solidários, muitos europeus dificilmente aceitariam que possam deixar de ser beneficiários das ajudas comunitárias de que agora beneficiam. Talvez daqui a trinta anos...

Aproximam-se as eleições gerais no Brasil

Faltam cerca de cem dias para a realização da primeira volta das eleições gerais no Brasil que estão agendadas para o dia 2 de Outubro e estima-se que 148 milhões de brasileiros irão às urnas, o que significa que este país é uma das maiores democracias do mundo.
Nessas eleições serão escolhidos o presidente, o vice-presidente e os deputados do Congresso Nacional, mas também os governadores, os vice-governadores e os deputados das assembleias legislativas estaduais, mas o interesse das eleições centra-se sobretudo na escolha do presidente da República. Nesta altura estão anunciadas doze pré-candidaturas, embora todas as sondagens indiquem que a luta eleitoral será entre o actual presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De entre as inúmeras sondagens divulgadas destaca-se a que é regularmente apresentada pela Datafolha, o instituto de pesquisas do Grupo Folha a que também pertence o jornal Folha de S. Paulo, que na sua última edição revelou que actualmente Lula recolhe 47% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro se fica por 28%, o que mostra que Lula poderá ser eleito logo à primeira volta. No entanto, uma outra sondagem realizada pela PoderData, um instituto do grupo de comunicação Poder360, indica que na hipótese de uma segunda volta, o candidato Lula da Silva tem 52% de intenções de voto, contra 35% do actual presidente.
Porém, há outras sondagens como a do Instituto de Pesquisas Gerp de Niterói-RJ, que indica que os dois candidatos estão tecnicamente empatados com 39 e 37% das intenções de voto. Significa, portanto, que há sondagens para todos os gostos, embora pareça que Luiz Inácio Lula da Silva se encaminha para regressar ao Palácio do Planalto e volte a presidir aos destinos do Brasil.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

BRICS falam para o mundo a uma só voz

Os BRICS são um grupo de cinco países ditos emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – que foi constituído em 2009, embora a África do Sul só nele tenha ingressado em 2011, os quais realizam uma cimeira anual em que cada um dos países participa através dos respectivos líderes de governo. O grupo não constitui um bloco económico nem uma associação de comércio, mas sobretudo um “clube político” ou uma "aliança", que visa converter o seu crescente poder económico numa maior influência geopolítica à escala mundial.
Actualmente, os BRICS são detentores de mais de 21% do PIB mundial, formando o grupo de países que mais crescem no planeta. Além disso, representam 42% da população mundial, 45% da força de trabalho e o maior poder de consumo do mundo, destacando-se também pela abundância dos seus recursos naturais e das condições favoráveis que atualmente apresentam para a sua exploração.
Este ano, a XIV Cimeira dos BRICS realizou-se em Pequim e ontem lá estiveram Xi Jinping, Vladimir Putin, Jair Bolsonaro, Narendra Modi e Cyril Ramaphosa. No actual quadro de guerra e de envolvimento euro-americano no conflito resultante da invasão russa da Ucrânia, esta "aliança" tem uma enorme importância. Pela primeira vez desde que ordenou a invasão da Ucrânia, Vladimir Putin encontrou-se com grandes líderes mundiais que, aparentemente, não o criticaram. Nenhum dos 75 pontos da Declaração de Pequim desta XIV Cimeira dos BRICS faz referências à invasão russa, nem critica Vladimir Putin. Naturalmente, o jornal chinês Global Times dá um grande destaque a esta Cimeira, à qual todos os agentes da geopolítica devem estar atentos.

Ainda as festas de São João e as fogueiras

A noite de São João decorreu com grande animação e, através de longas transmissões televisivas, todos puderam acompanhar os festejos que ocorreram no Porto e em Angra do Heroísmo. Em tempos de grande preocupação pela crise económica que se desenha e da agitação social que sempre a acompanha, mas também pelo prolongamento da guerra e da tensão nas fronteiras europeias e das suas imprevisíveis consequências, é caso para dizer que “tristezas não pagam dívidas” e daí que o povo se tenha divertido a ver as marchas e os fogos-de-artifício, a bater com martelinhos e com alhos-porros, a comer sardinhas assadas e outros petiscos, sempre a cantar e a dançar. Foi, segundo pudemos ver na televisão, uma grande festa popular, que até levou ao Porto o senhor Presidente da República para se divertir e conviver com o seu povo.
Porém, os festejos de São João são diferentes em todas as comunidades mas, no imaginário popular, as fogueiras são um elemento essencial e são mesmo o traço comum de todos os festejos joaninos, sobretudo nas pequenas comunidades rurais que ainda sabem conservar as tradições ancestrais. Curiosamente, sabe-se lá porquê, as fogueiras de São João são pouco mencionadas no noticiário português, ao contrário do que acontece na Galiza, onde a imprensa publica fotografias e textos alusivos. 
Hoje na sua primeira página, o jornal Faro de Vigo publica uma fotografia a quatro colunas de “La noche más corta… y esperada”, acrescentando que “las hogueras atraen a miles de personas y plantan cara al mal tiempo en el primer San Xoan multitudinario desde que estalló la pandemia”.
Ainda bem que as memórias das fogueiras de São João da nossa infância não se perdem, ao menos na vizinha Galiza!

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Sanjoaninas 2022, a grande festa de Angra

Amanhã, dia 24 de Junho, é o Dia de São João e a próxima noite é a Noite de São João.
O nascimento de João Baptista é uma festa cristã que celebra aquele que profetizou o advento ou a chegada do Messias na pessoa de Jesus Cristo, tendo-o baptizado. É uma festa religiosa marcada por grande devoção e por missas e procissões, mas que evoluiu para um festival pagão de características populares, com práticas diferentes em cada comunidade. Alguns desses festivais enraizaram-se no gosto popular e tornaram-se elementos identitários de algumas comunidades, como por exemplo as festas das cidades do Porto, de Braga ou de Angra do Heroísmo.
É muito ingrato escrever sobre estas festas, sobretudo porque têm características muito diferentes, mas atrevo-me a salientar as famosas Sanjoaninas, que se realizam na cidade de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, que envolvem, com grande entusiasmo, uma cidade e uma ilha. Durante alguns dias as Sanjoaninas têm de tudo, incluindo torneios desportivos e mostras de artesanato, concertos e espaços gastronómicos, desfiles de filarmónicas, fogo-de-artifício, bailes populares e muitas outras iniciativas em que participam milhares de pessoas. Porém, são as touradas de praça e à corda e, sobretudo, as marchas de São João, que mais caracterizam as Sanjoaninas de Angra do Heroísmo, a competir em criatividade e entusiasmo popular com as Festas da Senhora da Agonia e com tantas outras festas populares em que Portugal é rico.
O desfile das marchas de São João é realmente uma manifestação de grande animação e criatividade popular e a televisão nunca deixa de as transmitir em directo.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Chuvas e inundações a perturbar a China

A edição de hoje do jornal Shanghai Daily publica uma impressionante fotografia da parte inundada da cidade de Shangrao, na província chinesa de Jiangxi. Esta província, tal como o sul e o leste da China, sobretudo as províncias de Guangdong e Fujian, estão a ser afectadas pelas mais intensas chuvas dos últimos decénios, tendo provocado inundações, deslizamentos de terras e forçando à evacuação de centenas de milhares de pessoas. As chuvas fortes e persistentes atingiram o nível mais alto desde 1961 e têm continuado a encher os rios que transbordam e inundam vastíssimas áreas.
A extensão das áreas inundadas e os prejuízos económicos levaram o governo chinês a destinar fundos de emergência para apoiar os governos locais no controlo das inundações e no socorro às populações que foram desalojadas das suas casas.
Esta ocorrência veio juntar-se a muitas outras que vêm afectando o nosso planeta, algumas das quais aqui temos referido, que resultam das alterações climáticas. Assim, em diferentes partes do mundo sucedem-se as anomalias climáticas sob diversas formas, pelo que as inundações na China são mais um alerta para que sejam universalmente tomadas as medidas políticas necessárias para “salvar o nosso planeta”, enquanto é tempo.  

A retoma do turismo de navios de cruzeiro

As cidades portuárias das orlas atlânticas e mediterrânicas europeias têm beneficiado da indústria do turismo dos cruzeiros que se desenvolveu nos últimos decénios, mas esse tipo de turismo esteve inactivo devido às restrições sanitárias que foram adoptadas durante a pandemia de covid que surgiu em 2019. 
Neste ano de 2022, essa actividade parece ter recuperado todo o seu dinamismo e a procura parece estar a ultrapassar as melhores expectativas e a superar a procura dos tempos anteriores à pandemia. O jornal El Correo que se publica em Bilbao, a capital da comunidade autónoma do Euskadi ou País Basco, na sua edição de hoje dá notícia da presença simultânea de três navios de cruzeiro de grandes dimensões no Puerto de Getxo, na periferia da cidade de Bilbao, respectivamente o MSC Virtuosa (331 metros), o Enchanted Princess (330 metros) e o Seabourn Ovation (221 metros). Segundo o jornal, “la estampa inusual de los tres barcos juntos ne se volverá a repetir hasta el 4 de octubre” e houve oito mil pessoas, das quais cinco mil eram turistas e três mil tripulantes, que estiveram no porto de Getxo.
Um elevado número de autocarros recolheu os passageiros que se inscreveram para as várias excursões, com destaque para a visita ao Museu Guggenheim e à cidade de Bilbau, mas também para outros circuitos, como Gernika e San Sebastian.
As autoridades portuárias e turísticas bascas estão eufóricas. Este ano, houve 32 navios que já visitaram o Euskadi, mas até ao fim do ano esperam-se oito dezenas de navios de cruzeiro que, a verificar-se, baterá o recorde histórico de 59 navios de cruzeiro que, num só ano, atracaram no Puerto de Getxo.

terça-feira, 21 de junho de 2022

A reforma do Serviço Nacional de Saúde

Nos últimos tempos o espaço mediático português tem sido dominado pelas notícias relativas ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), com manchetes sensacionalistas em que é destacado o encerramento de serviços de urgência hospitalares de várias especialidades.
O SNS foi criado em 1979 na sequência de um preceito constitucional aprovado em 1976, que garantia o direito à proteção da saúde, a prestação de cuidados globais de saúde  e o acesso a todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica e social. O SNS tem sido referido como um dos maiores sucessos da Democracia portuguesa e há quem o considere um dos melhores da Europa, mas é uma grande nau que navega por águas nem sempre mansas, apesar de nunca ter tido tantos profissionais nem tantos recursos como tem actualmente. Porém, as coisas não correm bem nos hospitais públicos e vários serviços de urgência têm estado encerrados, o que significa que não há um regular funcionamento destas instituições democráticas, enquanto os hospitais privados engordam.
Desde há muito tempo que é sabido que o SNS precisa de reformas, porque tanto os profissionais como os utentes mudaram muito nos últimos anos. Todo o mundo é composto de mudança e, enquanto utentes, “vemos, ouvimos e lemos” e não podemos ignorar, como se acentuam as diferenças entre os serviços hospitalares públicos e privados. O SNS está debilitado devido à péssima gestão hospitalar, à enorme promiscuidade entre o serviço público e o privado, à baixa produtividade de alguns hospitais e serviços, à concorrência dos hospitais privados, ao absentismo de algumas classes profissionais da área da saúde e aos incontornáveis interesses corporativos envolvidos.
Nada disto é novo, mas tudo isto tem demorado muito tempo a ser corrigido, sem se saber exactamente porquê. Tal como na Justiça, na Educação e noutras funções sociais, é necessário reformar e adaptar aos novos tempos, mas os sucessivos governos e os grandes partidos preferem fazer como a avestruz e esconder a cabeça na areia. 

segunda-feira, 20 de junho de 2022

A democracia e a alternância de poder

Ontem realizaram-se importantes eleições em Espanha, na França e na Colômbia, todas elas a mostrar que, como um dia disse Winston Churchill, “a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros". De facto, ao contrário da Autocracia e da Oligarquia, a Democracia permite que, através do voto, os cidadãos escolham periodicamente aqueles que os devem representar no exercício do poder, o que significa que “o povo é quem mais ordena” ou a possibilidade da alternância e da moderação desse poder. Assim aconteceu ontem em três diferentes países.
Na Andaluzia, que é a segunda maior comunidade autónoma espanhola e a mais populosa com quase nove milhões de habitantes, realizaram-se as eleições regionais e o Partido Popular conseguiu eleger 59 deputados, o que lhe garante a maioria absoluta no parlamento andaluz, onde têm assento 109 deputados. Foi claramente derrotado o PSOE, o partido tradicionalmente mais votado e que governou a Andaluzia desde 1982 até 2018, pois apenas conseguiu eleger 30 deputados. A democracia funcionou e houve alternância de poder.
Em França realizaram-se as eleições parlamentares para eleger os 577 deputados para a Assembleia Nacional, com a coligação Ensemble!, que apoia o presidente Macron, a conseguir a maioria ao eleger 245 deputados, mas ficando longe da maioria absoluta de 289 deputados. As surpresas vieram da NUPES, a coligação de esquerda de Mélenchon que elegeu 131 deputados e da União Nacional de Marine le Pen, que elegeu 89 deputados. Por isso, os próximos tempos não serão fáceis para Macron. A democracia funcionou e houve alternância de poder.
Na Colômbia realizou-se a 2ª volta das eleições presidenciais e mais de 22 milhões de colombianos deram a vitória a Gustavo Petro, um economista e ex-combatente do grupo armado M-19 que obteve 50,47% dos votos e que, dessa forma, se tornou o primeiro presidente de esquerda do país. A democracia funcionou e houve alternância de poder.
Para ilustrar estas vitórias da Democracia escolhemos a capa do jornal el Colombiano que se publica em Medellin, a segunda maior cidade da Colômbia.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Scholz, Macron, Draghi e a visita a Kiev

Como hoje alguém escrevia no jornal Expresso e embora seja cruel afirmá-lo, “já estamos todos fartos da guerra na Ucrânia”, bem como das aparições diárias de Zelensky a pedir armas, das professoras-comentadoras que falam nas televisões e dos repetitivos serviços dos enviados especiais dos diferentes canais televisivos. Porém, a visita que os líderes da Alemanha, da França e da Itália ontem fizeram a Kiev veio lembrar-nos que a guerra continua e que os riscos de uma escalada bélica persistem. A deslocação de Scholz, Macron e Draghi foi um acontecimento político importante, não só porque aparenta ser a retoma da iniciativa europeia neste conflito, mas também porque significa “a homenagem da Europa à coragem ucraniana”, como salientava hoje o jornal Le Figaro.
Naturalmente que a deslocação destes três líderes não foi apenas para mostrar solidariedade e para prometer apoio militar e à reconstrução do país, além do seu acordo para uma futura adesão à União Europeia. A sua missão teve um outro objectivo que não foi revelado. Eles foram os porta-vozes dos europeus, cujos pontos de vista eles necessariamente conhecem, através de uma sondagem feita pelo European Council on Foreign Relations (ECFR) que foi realizada em dez países europeus. Essa sondagem foi divulgada na edição de 15 de Julho do jornal Público e mostra que existe um grande consenso entre os europeus na identificação do principal responsável pela guerra na Ucrânia. Assim, para 73% dos inquiridos o principal responsável pelo conflito é a Rússia, embora 15% considerem que o principal responsável pela guerra é a própria Ucrânia, ou a União Europeia, ou os Estados Unidos. 
No que respeita ao desejável fim do conflito na Ucrânia, a sondagem mostra que a Europa está dividida entre uma paz rápida (ou campo da paz) com 35%, ou a punição da Rússia pela guerra (ou campo da justiça) com 20%. Nos limites extremos encontram-se a Itália com 52% dos inquiridos no campo da paz e 16% no campo de justiça e a Polónia com 16% dos inquiridos no campo da paz e 41% no campo da justiça, enquanto em Portugal há 31% de inquiridos no campo da paz e 21% no campo da justiça.
Certamente que a sondagem da ECFR, que traduz as posições da opinião pública europeia, esteve presente no encontro de Olaf Scholz, Emmanuel Macron e Mario Draghi com Volodymyr Zelensky.