sexta-feira, 31 de julho de 2026

"Ceuta, invadida", obriga-nos a pensar

A pressão migratória sobre a Europa continua a ser muito intensa e esse é um dos temas políticos, económicos e humanitários mais complexos da actualidade, colocando desafios à gestão das fronteiras, à integração dos migrantes nas sociedades de acolhimento e à cooperação entre os diferentes estados-membros da União Europeia. 
Este movimento migratório tem raízes essencialmente económicas, mas também resulta do crescimento demográfico, de conflitos armados, de efeitos das alterações climáticas e de perseguição política ou religiosa, mas representa sempre uma fuga à pobreza, à fome e, de uma forma geral, às condições indignas em que vivem milhões de pessoas no mundo, esquecidas pelos ricos e poderosos que se vão ocupando a fazer guerras. A Grécia, a Itália e a Espanha são os destinos mais procurados pelos migrantes através do mar Mediterrâneo mas, actualmente, a rota do Mediterrâneo Ocidental parece ser a que está a ser mais usada e, por terra ou por mar, a cidade autónoma espanhola de Ceuta é um dos objectivos dos migrantes legais ou ilegais que querem entrar na Europa.
Nas últimas horas, segundo informaram as autoridades espanholas, cerca de 49.000 migrantes entraram no enclave de Ceuta em apenas 24 horas, a nado ou saltando vedações, havendo já o registo de 19 mortos. Este número de entradas representa um aumento de quase 50% na população da cidade que tem 83.600 habitantes, resultando numa pressão insustentável sobre alojamentos e alimentos, vendo-se muitas centenas de jovens migrantes a dormir nas ruas, enquanto mais migrantes continuam a entrar no território. 
O jornal ABC diz hoje que Ceuta foi “invadida”, mas toda a imprensa espanhola se mostrou alarmada. E tem boas razões de alarme, porque se trata uma de violação da integridade territorial da Espanha e do espaço comunitário, que não tem ar de ser espontânea e terá sido "organizada" pelo governo marroquino. Esta situação vem provar quão irresponsáveis e incompetentes são os líderes europeus que continuam a assustar-nos com a ameaça russa e que não sabem o que são direitos humanos, nem que há outros tipos de ameaças ao nosso modo de vida e bem estar. 
Como dizia o Velho do Restelo no Canto IV d’Os Lusíadas, “deixas criar às portas o inimigo, por ires buscar outro de tão longe”.  Nem mais, nem menos.

1 comentário:

  1. Fome! Desespero! Dois mundos, de costas voltadas para o outro, o mais forte. Não tenho palavras...

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