sábado, 10 de março de 2012

Prefácios inoportunos e impróprios

Não é vulgar, mas aconteceu. O autor do livro Roteiros VI decidiu divulgar o respectivo prefácio antes da respectiva publicação, mas não foi por estratégia comercial. Dizem que é um público ajuste de contas com o anterior Primeiro Ministro e, de facto, ele que tanto poupa os amigos e nunca tomou posição sobre o caso BPN, revela-se implacável para com o homem com quem cohabitou politicamente durante vários anos. É muito estranho. É mesmo muito estranho.
Logo na primeira frase do seu texto é referida uma campanha eleitoral “muito dura, sobre a qual este não é ainda o momento de escrever”. Porém, ele escreve sobre outros momentos mais recentes como “a crise política de 2011” como se fosse um comentador e ignora a sua condição de político que mais tempo tem de poder em Portugal e que, por isso, tem muitas responsabilidades “no estado da nação”.
No complexo momento que atravessamos que tanto necessita de consensos, este capítulo do prefácio é absolutamente inoportuno e impróprio da equidistância e da solenidade de que se devem revestir as intervenções do supremo magistrado. O eleitorado já fez o julgamento político do anterior Primeiro-Ministro, que deixou a cena política e não se pode defender. Porquê agora tanta “coragem política”? Por causa das desgraçadas declarações sobre as suas reformas que esta semana levaram 40 mil portugueses a pedir a sua demissão numa petição entregue na Assembleia da República? Pela sua acentuada quebra de popularidade que os estudos de opinião têm assinalado? Pela abortada deslocação a uma escola com receio de enfrentar os protestos de um grupo de jovens? Para que nos esqueçamos do despesismo presidencial?
O autor do prefácio deixou-se arrastar por instintos mesquinhos e sem elevação nem grandeza pessoal, uniu a oposição socialista e, sobretudo, mostrou que se a nossa crise se agravar, o supremo magistrado não tem condições para a gerir.
E isso é muito mau.
.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Messi: no hay otro igual

O moderno futebol é um espectáculo e um negócio, que apaixona e mobiliza multidões em todo o mundo, que enche os estádios, que atrai milhões de espectadores televisivos e que gera muitos milhões de receitas publicitárias. O nosso quotidiano é cada vez mais atravessado pelo futebol, pois as nossas rádios e as nossas televisões, muitas vezes de forma absolutamente desproporcionada, enchem-nos de relatos, entrevistas, comentários, debates, reportagens e fait divers, como se a dimensão do futebol superasse todas as outras dimensões da nossa vida. Dizem-nos tudo a respeito dos futebolistas, da sua vida pessoal e dos seus ganhos milionários. Cansam-nos com jogadores, treinadores, dirigentes, árbitros, comentadores e adeptos. Porém, apesar de todo este exagero informativo, a faceta artística e emocional do futebol deixa pouca gente indiferente a esse espectáculo singular.
Como espectáculo, o futebol é feito por artistas e Lionel Messi, um argentino de 24 anos de idade, é um deles. No recente jogo do F. C. Barcelona com os alemães do Bayer Leverkusen a contar para a Champions League, o pequeno e talentoso Messi marcou 5 golos, o que nunca acontecera no historial desta competição. Foi uma prestação artística inesquecível. A revista Time de 6 de Fevereiro já dedicara a sua primeira página a King Leo, coisa que nunca antes acontecera com um futebolista, considerando-o o melhor do mundo. Dizem que é melhor do que Pelé e Maradona e que vale 140 milhões de euros (o record pertence a Ronaldo que em 2009 custou 94 milhões de euros ao Real Madrid). Em Espanha diz-se que Messi não é deste mundo. Que é incomparável. Que é estratosfércio. Que no hay otro igual.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O Brasil optimista e feliz

O Brasil parece ser o país mais optimista do mundo ao liderar pela quarta vez consecutiva o ranking do Índice de Felicidade Futura (IFF), feito pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, a partir de dados recolhidos em 158 países.
No entanto, essa conclusão não tem qualquer rigor científico e só pode ser simbólica, pois os conceitos de felicidade e de optimismo utilizados não são esclarecidos nem são claros, nem tão pouco são definidos os critérios utilizados para prever a felicidade futura nos países. É, apenas, um ranking curioso.
O estudo assenta na comparação entre a felicidade presente (em que o Brasil ocupa a 23ª posição) e a felicidade esperada para 2015 em que o Brasil surge na 1ª posição. Ora o Brasil passa por uma fase muito entusiástica da sua existência com a próxima realização do Mundial de Futebol em 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, além de que os brasileiros são naturalmente optimistas, olham a vida de uma forma positiva, acham que a vida vai melhorar e isso é reflectido no seu estado de espírito.
Assim, é com simpatia que o mundo lusófono olha para este ranking que é liderado pelo Brasil, no qual os Estados Unidos ocupam a 14ª posição, a Irlanda a 16ª, o Reino Unido a 26ª, a Itália a 56ª, a Alemanha a 62ª, a Grécia a 145ª e Portugal, imagine-se, a 146ª.
O ranking vale pouco e não é para ser levado a sério, mas é agradável ver o Brasil optimista e feliz lá na frente. Quando se vive sob a ameaça de um contágio financeiro vindo do Mediterrâneo Oriental, era bem mais desejável que houvesse um contágio optimista e feliz a chegar-nos do Atlântico Sul.

segunda-feira, 5 de março de 2012

É uma pouca vergonha!

No passado fim de semana o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) realizou o seu IX Congresso num hotel de Vilamoura, o que em tempos de crise nos deixa muito desconfiados sobre quem vai pagar essa factura.
Para além dos interessantes discursos do Presidente do Sindicato e da Ministra da Justiça, que referiram as “indecorosas margens de impunidade” que ainda persistem na sociedade portuguesa e o anúncio de uma elevada prioridade ao combate à corrupção e à criminalidade cometida no exercício de funções públicas, o Congresso serviu para nos desalentar.
De facto, a existência deste sindicato é, só por si, uma verdadeira aberração sem sentido e o facto do Congresso ter sido patrocinado é outra aberração. O Sindicato devia dar um exemplo de contenção, mas preferiu exibir um novo-riquismo serôdio e despropositado.
Como é possível que os magistrados do Ministério Público aceitem ser patrocinados por quatro bancos e uma seguradora, além de outras empresas? Como é possível sujeitarem-se a ter media partners, a quem pagaram viagem e estada no hotel de Vilamoura, coisa que só o Público assumiu?
Para completar este promíscuo quadro, o Congresso incluia um aliciante "programa social para acompanhantes", o que lhe retira qualquer credibilidade profissional.
A Ministra da Justiça avalizou tudo isto com a sua presença.
Assim, a minha confiança na independência da Justiça fica ainda mais abalada.
Um amigo que muito estimo diria: é uma pouca vergonha!


domingo, 4 de março de 2012

A irresponsável ganância dos Bancos

Foi hoje largamente divulgado que a crise e o desemprego têm conduzido a uma situação de crescente dificuldade dos devedores para cumprir as suas obrigações e dos credores para assegurar as respectivas cobranças.
Esta situação do incumprimento resulta do excessivo endividamento dos portugueses e, em muitos casos, dos elevadíssimos juros que contratualmente lhes são cobrados pelo que, nos termos da lei, os credores recorrem à penhora de bens, de contas bancárias ou de salários. Estima-se que actualmente haja cerca de cem mil pessoas com os seus salários penhorados, embora a lei limite a penhora até um terço do montante salarial.
Normalmente, as dívidas dizem respeito a contratos celebrados com entidades que financiam aquisições a crédito, sobretudo sociedades financeiras e bancos, prestadores de serviços de telecomunicações, entre outros.
Esta situação já constitui um grave problema social e, mais uma vez, estamos perante um caso em que a ganância das entidades financeiras arrastou milhares de pessoas para esta situação. Todos nos lembramos do incentivo da publicidade bancária para que as pessoas recorressem ao crédito para consumir, viajar, comprar casa, mudar de carro, antecipar salário, para tudo comprar. Parecia um assalto à carteira de cada um. Agora condenam-se as pessoas que foram iludidas e se excederam, mas ninguém acusa a irresponsável ganância dos Bancos e dos seus gestores, que enriqueceram à custa de tudo isto.
Não podemos ter memória curta!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Não nos estraguem o nosso futebol!

Hoje disputa-se um jogo de futebol entre o S. L. Benfica e o F.C. Porto e toda a comunicação social dedica muito espaço e muito tempo a esse acontecimento, como resposta ao interesse público que desperta. Porém, quando estivermos a ver o jogo, não podemos deixar de anotar que quase não há jogadores portugueses em campo e de pensar no significado desportivo e económico desse facto.
O Correio da Manhã titulava hoje que os chamados "três grandes" pagam 11 milhões de euros por mês em salários e que, nos últimos anos, os encargos com os jogadores dispararam. Esse tipo de encargos é assustador pois conduz a um endividamento excessivo que, em relação a esses três clubes, já passa dos mil milhões de euros e que está a ser agravado com juros cada vez mais elevados. Ora, os modernos clubes de futebol são empresas e, como tal, não são eternas pois nascem, crescem e morrem.
O seu modelo de financiamento assenta em receitas televisivas e de bilheteira, na venda de patrocínios e de merchandising e, ainda, na venda de direitos desportivos de jogadores. Este modelo está ameaçado pois há cada vez menos público nos estádios, menos patrocinadores, menos merchandising e menos possibilidade de recorrer à banca, o que pode originar muitos problemas no futuro próximo.
Os habituais perdões do Estado - a tal promiscuidade entre o futebol e a política – os negócios e os totonegócios, os estádios que ainda estamos a pagar, os activos fictícios e outras habilidades, já não são solução.
Pede-se aos dirigentes que repensem tudo isso, para que não nos apareça por aí mais uma troika especializada em futebol. Por favor, não nos estraguem o nosso futebol!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A nova vocação atlântica da Espanha

O jornal madrileno ABC anuncia hoje, em primeira página e com grande destaque, que a Espanha está a negociar com os Estados Unidos, certamente no âmbito da NATO, a sua participação no esforço de defesa e segurança atlânticas, através da sua adesão ao sistema de defesa anti-míssil balístico.
Segundo informa o jornal, a Espanha cederia a sua Base Naval de Rota e afectaria as suas fragatas da classe F-100 a esse projecto, que teriam de incorporar novo software de detecção e dotar-se de novos mísseis de intercepção. Da parte americana o projecto implica o estacionamento de quatro das suas fragatas em Rota, o que se traduzirá na presença de cerca de 1.200 militares e técnicos americanos, bem como de mais de 2.000 familiares, o que teria grande impacto económico na baía de Cadiz.
O jornal refere que se trata de um retorno espanhol ao atlantismo, uma doutrina que advoga uma maior cooperação entre as duas margens do Atlântico, mas esta vocação atlântica espanhola é uma novidade porque a Espanha sempre foi uma potência continental, embora agora se esteja a virar para o mar. São novos interesses, como é bom de ver, de natureza essencialmente económica e não militar.
No caso português, que tem a maior zona económica exclusiva da União Europeia e cujos interesses estratégicos também passam pelo Atlântico Sul onde se situam o Brasil e Angola, a vocação atlântica de Portugal é uma evidência geográfica e histórica. Infelizmente, nós temos o ignorante Cadilhe e outros que por aí andam a cadilhar a quererem devolver submarinos, como se Portugal fosse uma coisa mercantil e não tivesse nove séculos de História e tanto mar.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Meryl Streep interpreta A Dama de Ferro

Decorreu no passado domingo a 84ª cerimónia de atribuição dos óscares da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que consagrou O Artista, um filme francês a preto e branco, como o Melhor Filme do Ano. Além desse prémio, o filme que homenageia a história do cinema e recorda a transição do cinema mudo para o cinema sonoro em Hollywood, conquistou mais quatro óscares, distinguindo Jean Dujardin como o Melhor Actor, mas também os melhores Director, Banda Sonora Original e Guarda Roupa.
A imponente cerimónia foi transmitida para todo o mundo pela televisão e os jornais dedicaram-lhe grandes reportagens. Porém, não foi menor o impacto mediático da atribuição do óscar de "Melhor Actriz" à actriz americana Meryl Streep pelo seu desempenho no filme A Dama de Ferro, no qual interpreta a figura de Margaret Thatcher. O filme apresenta a história daquela Primeira-Ministra Britânica desde os seus primeiros passos na vida política, com especial ênfase no período entre a sua tomada de posse e a crise das Ilhas Falklands de 1982. Foi a terceira vez que a actriz de 62 anos de idade foi galardoada pela Academia de Hollywood, o que até agora só acontecera com Ingrid Bergman, Jack Nicholson e Walter Brennan, que apenas são superados por Katharine Hepburn que, ao longo da sua carreira, recebeu quatro óscares.
Vale a pena ver A Dama de Ferro não só pela interpretação de Meryl Streep, mas também para recordar o cenário de crise de 1982, que está a mostrar alguns sinais de se poder reacender.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Cadilhe, os submarinos e o BPN

Desde o ano de 2004 que Miguel Cadilhe tem, insistentemente, levantado a sua voz contra a compra de dois submarinos pelo Estado Português, tendo afirmado ser "irracional" e "chocante" que um país com necessidades de investimento, gastasse "larguíssimos milhões" na compra de submarinos. Desde então não se calou e, agora, veio defender que os submarinos que custaram um “balúrdio”, sejam devolvidos à Alemanha. Cadilhe está no seu direito de não gostar de submarinos nem saber para o que servem, mas não sabe o que é a dignidade nacional e é um ignorante naquilo que não sejam contabilidades e habilidades com IVA.
Cadilhe é um homem indiferente ao nosso secular passado histórico, ignorante da nossa identidade cultural e das dimensões da nossa soberania. Ele não sabe que somos um povo independente há muitos séculos, uma nação que foi pioneira no encontro universal de culturas e que navegou “por mares nunca dantes navegados”. Ele ignora que somos heróis do mar, um nobre povo, uma nação valente e imortal.
Cadilhe parece ter sido um bom estudante, mas há milhares deles em Portugal. Porém, poucos tiveram a vidinha que Cadilhe tem tido e ele lá saberá porque andou sempre pelas administrações dos bancos. Sempre a somar.
Quando em 2002 deixou o BCP foi-lhe atribuída uma pensão vitalícia de 10 mil euros! Depois, em tempo de vacas gordas, foi para o BPN onde à entrada exigiu e conseguiu receber um PPR de 10 milhões de euros, depositados na seguradora Zurich, isto é, fora do grupo SLN (DN, 5-11-2008). Além disso, Cadilhe ganhava um salário de 700 mil euros brutos por ano no BPN (CM, 5-11-2008). Mais tarde, o seu patrão Oliveira e Costa veio afirmar que Cadilhe custou 2,5 vezes mais do que ele próprio ganhou em dez anos (Visão, 26-5-2009). Em síntese, Cadilhe tem sido um glutão e também tem as mãos muito sujas nesse charco que tem sido o BPN.
Agora Cadilhe sugere que sejam devolvidos os submarinos. Eu sugiro que Cadilhe devolva tudo o que recebeu do BPN que está a ser pago por todos nós e que tenha vergonha.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Crise em Espanha, alarme em Portugal

A maré recessiva que está a atingir toda a Europa também está a ameaçar a Espanha, onde em 2012 se estima uma quebra de 1% no PIB e onde o desemprego já atinge actualmente o astronómico valor de 22.9%.
A Espanha é um dos maiores países da União Europeia, não só pela sua riqueza cultural, mas também pela sua dimensão territorial (a 2ª maior área territorial da UE27) e pelos seus 45 milhões de habitantes (o 5º mais populoso país da UE27). Sendo a única fronteira terrestre portuguesa é, só por isso, muito importante para Portugal, para além de se ter vindo a fortalecer uma solidariedade ibérica que tem reforçado as afinidades e atenuado as rivalidades históricas.
Agora que tanto se fala em contágios, torna-se evidente que as boas e as más coisas que acontecem em Espanha se repercutem em Portugal com muita intensidade - a Espanha é o principal mercado para as nossas exportações, é o maior investidor estrangeiro em Portugal e é responsável pelo maior fluxo turístico que se dirige ao nosso país.
A notícia da previsível quebra de 1% do produto espanhol em 2012 é destacada com preocupação pelo jornal El Periódico de Barcelona, mas também é um evidente sinal de alarme para Portugal, pois significa menos exportações, menos investimentos e menos turistas. Ora isso são muito más notícias para a economia portuguesa e para a sua recuperação.

A redescoberta do Brasil

A Europa está a passar por uma profunda crise, quaisquer que sejam as perspectivas por que seja observada. No aspecto económico, que é apenas uma dessas perspectivas, as previsões para 2012 apontam para uma recessão de 0.3% para a Zona Euro (EA17), com quase uma dezena de países a ter um crescimento negativo, enquanto se estimam crescimentos de 1.8% para os Estados Unidos, de 3.3% para a Rússia, de 3.6% para a América Latina e crescimentos muito maiores para os países emergentes da Ásia.
Com a crise e a recessão instaladas na Europa é natural que se acentue o desemprego que já atinge 10.4% na EA17 e 9.9% na EU27. Por isso, a procura de emprego no estrangeiro está a transformar-se numa opção em muitos países europeus e o Brasil aparece como um destino privilegiado.
No caso português, estamos perante uma verdadeira "redescoberta do Brasil", pois só entre Dezembro de 2010 e Junho de 2011, houve mais de 52 mil pessoas que pediram residência permanente no Brasil, a que devem ser acrescentados os vistos para trabalho temporário, os estudantes, os investigadores e até os ilegais.
O Diário do Comércio, um jornal económico de São Paulo, na sua edição de 23 de Fevereiro abordou este tema e, para ilustrar esse movimento dos europeus em direcção ao Brasil para encontrar trabalho, escolheu a bela Terra Brasilis de Lopo Homem, uma carta portuguesa de 1519 que pertence ao chamado Atlas Lopo Homem-Reineis ou Atlas Miller, que constitui um mais belos exemplos da cartografia portuguesa do século XVI.
O jornalismo sai sempre favorecido com estas boas ideias!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Homenagem a Zeca Afonso

José Afonso morreu em Setúbal no dia 23 de Fevereiro de 1987 com 57 anos de idade e, passados 25 anos sobre o seu desaparecimento, o seu legado cívico continua a ser lembrado, não só por ter sido um inspirado músico, mas também por ter sido o rosto de muitas das nossas utopias.
No período de incerteza e de grande dificuldade que estamos a atravessar, resultante de uma situação criada pela mediocridade política de uns e pela ganância financeira de outros, que iludiram a generalidade da nossa população e desperdiçaram o capital de esperança criado em 1974 e, mais tarde reforçado com a integração europeia, a evocação de Zeca Afonso e da sua mensagem é um acto de justiça e tem um significado muito estimulante e encorajador nestes tempos difíceis.
As homenagens vão multiplicar-se hoje e pelos próximos dias. A voz de Zeca Afonso vai ouvir-se em sessões de homenagem a realizar em várias cidades do país e até no estrangeiro. Provavelmente, algumas estações de rádio e de televisão vão associar-se a este tributo nacional. Ao menos nestas datas. Nas nossas casas será uma oportunidade para voltar a ouvir muitas das canções que o nosso imaginário retém, pois o exemplo cívico e a voz de Zeca Afonso continuam a ser hoje necessários, como estímulo às nossas energias e às nossas esperanças em dias melhores.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A Alemanha tem muitos telhados de vidro

A Alemanha passa o tempo a fazer insinuações e acusações aos seus parceiros, procurando tutelá-los e humilhá-los, mas não é uma sociedade perfeita. Por isso, bom seria que os seus responsáveis fossem mais cuidadosos a atirar pedras, porque também têm muitos telhados de vidro, alguns bem antigos e outros mais recentes. A demissão do presidente Christian Wulff, ontem anunciada num discurso de quatro minutos, por causa do seu eventual envolvimento num alegado caso de corrupção, demonstra exactamente isso.
Wulff declarou que cometeu erros e que a Alemanha "precisa de um presidente que tenha a confiança de uma larga maioria e não só de uma maioria". A chanceler Merkel, que tanto o apoiara, também comentou o acontecimento e afirmou que a demissão de Wulff é a “prova do respeito que ele tinha pelo cargo e mostra dignidade".
Esta demissão tem, contudo, dois aspectos muito curiosos. O primeiro é a falsa ideia de que a Alemanha não é corrupta, pois são conhecidos muitos casos de pagamento de luvas e de subornos para a venda de material militar e, no ranking dos países por níveis de corrupção elaborado pela Transparência Internacional, a Alemanha encontra-se na 14ª posição (Portugal ocupa a 32ª posição).
O segundo aspecto é que os Presidentes não são infalíveis, cometem erros e devem ter a confiança de uma larga maioria da população.
Christian Wulff compreendeu isso e demitiu-se. Obviamente, a Democracia continua.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Emergência social

Ontem o INE divulgou os números do desemprego e hoje todos os jornais destacaram essa notícia em primeira página. O jornal Público foi aquele que melhor ilustrou essa notícia, com um gráfico que mostra a evolução da taxa de desemprego em Portugal na última década, que mais do que quadruplicou e já atinge 14%. O Presidente da Comissão Europeia, que hoje ocasionalmente se encontrava em Lisboa, declarou que “Portugal está numa situação de emergência social devido à escalada do desemprego”.
Haverá cerca de 1200 mil desempregados. Há 250 mil que procuram emprego há mais de dois anos. O desemprego jovem é de 35%. Há 108 mil licenciados sem emprego. Há 885 novos desempregados por dia. São números calamitosos que nos avisam e nos perturbam seriamente.
O problema é gravíssimo e há que fazer qualquer coisa já. Há uma geração inteira sem perspectivas de emprego e a quem foi dito que desista e que emigre. Há sinais de conflito entre quem tem emprego e quem está desempregado, entre quem é incluído e quem é excluído socialmente. Os desempregados de longa duração perderam a esperança. Os jovens desinteressam-se pelos problemas dos mais velhos que morrem no esquecimento e na solidão. O risco de desagregação social é evidente.
A solução deste problema, que é o mais grave da sociedade portuguesa, é política e no nosso quadro constitucional passa pelos partidos. Porém, os nossos principais partidos têm-se alternado no poder e são igualmente responsáveis por esta calamidade, pois apenas representam os seus próprios interesses, com líderes que estão reféns dos seus aparelhos partidários, cuja fome saciam com empregos, cunhas, contratos e festas. Estamos em emergência social como disse Durão Barroso, mas a mediocridade e a miopia reinantes parecem não perceber isto. Portugal precisa de menos austeridade e de mais políticas de promoção do emprego! Custe o que custar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

No BdP há zero de austeridade!

Na sua edição do passado dia 13 de Fevereiro, o Correio da Manhã voltou a tratar de algumas polémicas da vida do Banco de Portugal (BdP), noticiando em primeira página que o “Banco de Portugal paga salário médio de 4842 euros por mês”, que foi calculado através da divisão do total das despesas com pessoal previstas para 2012 (114,5 milhões de euros) por 1689 funcionários.
O jornal dedica duas das suas páginas interiores à divulgação de alguns detalhes dos gastos do Bdp, com informações sobre subsídios e facilidades para a aquisição de habitação permanente ou secundária, mas também com informação das despesas com a Quinta da Fonte Santa em Caneças, onde os filhos dos funcionários podem exercitar-se em equitação. A notícia refere também que o BdP contratou por ajuste directo e sem consulta a outras entidades, dois escritórios de advogados para processos judiciais no valor de 1,3 milhões de euros.
Como já sabíamos, ali é tudo em grande!
Ao contrário do que sucede com a generalidade dos portugueses, o BdP mantém os subsídios de férias e de Natal aos seus funcionários, que também terão direito a gozar a terça-feira de Carnaval, ou seja, desde os privilégios remunerativos até à pequena questão do Carnaval, o BdP não dá bons exemplos à sociedade portuguesa. Em vez de se mostrar como um sólido pilar do nosso Estado, o BdP coloca-se à margem das nossas dificuldades e comporta-se como uma agência ao serviço das instituições internacionais e da troika que tanto nos estão a atrofiar.
Na realidade, no BdP há zero de austeridade!