sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Ucrânia: a geopolítica em cima da mesa

Ontem foi assinado em Mink um acordo para um cessar-fogo no leste da Ucrânia, devido à acção conjunta de François Hollande e Angela Merkel que, ao contrário dos americanos, pensam que a solução do conflito ucraniano não está na escalada da guerra e, por isso, procuram a paz com muita persistência. Segundo foi difundido, o acordo quase esteve abortado mas acabou por acontecer, embora muitos comentadores não acreditem nele. Depois dos intensos combates que se têm travado e que já causaram tanta morte e tanta destruição, o anunciado cessar-fogo é, para já, um animador primeiro passo para a resolução do conflito.
Porém, a situação é mesmo muito complexa e não pode deixar de causar preocupações. A Ucrânia vive uma situação económica e financeira desesperada que tem gerado muita instabilidade, enquanto os rebeldes pró-russos continuam a ganhar terreno, o que denuncia o forte apoio russo que têm recebido.
A Ucrânia é um enorme país com 603 mil km2 e 50 milhões de habitantes, mas uma análise do seu mapa revela que há duas ucrânias ou há duas nações naquele imenso território: uma ucrânia que tem a capital em Kiev, em que a população fala ucraniano e que votou em Yulia Tymoshenko e, mais recentemente em Petro Poroshenko, mas também uma outra ucrânia que tem a “capital” em Donetzk, que fala russo e que tinha votado em Viktor Yanukovich e que agora não votou em Poroshenko. A primeira quer estreitar os seus laços com o ocidente e com a União Europeia, mas a outra quer reforçar as suas ligações à Rússia. Parece não haver conciliação possível e quando isso acontece, a solução é o divórcio. Nas pessoas como nos países. Porém, como pano de fundo desta questão renasceu a tensão dos tempos da guerra fria, o reaparecimento das áreas de influência e a tensão russo-americana. É uma situação muito perigosa e a geopolítica está em cima da mesa. Para os russos, a ocidentalização da Ucrânia é uma ameaça, mas para os ocidentais a ameaça está em Vladimir Putin e na sua estratégia de manter ou alargar as suas fronteiras de segurança. Cenários destes já não eram imagináveis há muito tempo.

O caça Rafale anima a indústria francesa

A França deve estar eufórica com a notícia hoje divulgada por vários jornais que anunciaram que há “um primeiro cliente estrangeiro para o Rafale” ou que destacaram os trinta anos de que o Rafale necessitou para convencer o mercado internacional, significando não só uma vitória industrial e comercial, mas também um êxito tecnológico.  Foi François Hollande que anunciou, ele próprio, o primeiro contrato de exportação do caça francês fabricado pela Dassault Aviation, no valor de 5 mil milhões de euros, que envolve o fornecimento ao Egipto de 24 aviões de combate e de uma fragata. Em tempo de crise é uma excepcional notícia para a economia e para o orgulho franceses. 
O historial deste avião representa uma persistente luta dos franceses para dispor de um avião concebido para concorrer com outros projectos aeronáuticos europeus e, também, uma resposta ao pedido da Marinha e da Força Aérea francesas para disporem de um aparelho do tipo “canivete suiço”, apto para todo o tipo de missões, incluindo o combate aéreo, o ataque ao solo e a recolha de informações, podendo aterrar ou descolar de um porta-aviões e com a capacidade de transportar um míssil nuclear. Além disso, o novo avião deveria poder substituir com vantagem os Jaguar, Crusader, Mirage F1, Mirage 2000, Etendard e Super-Etendard, tendo a Marinha e a Força Aérea francesas fixado as suas necessidades futuras em 286 unidades.
Marcel Dassault arrancou com o projecto Rafale, mas veio a falecer poucos meses antes do primeiro voo do novo avião, que aconteceu em 1986. Em 1993 o Rafale aterrou pela primeira vez num porta-aviões, em 2001 entrou ao serviço da Marinha francesa e em 2006 da Força Aérea, tendo tido o seu baptismo de fogo no Afeganistão. Depois esteve na Líbia onde atacou as colunas blindadas de Kadhafi às portas de Benghazi, no Mali onde travou os jihadistas na sua marcha para Bamako e, mais recentemente, no Iraque onde atacou o ISIS. O sucesso das suas missões foi reconhecido e daí ter nascido esta primeira encomenda que anima a indústria aeronáutica francesa e que, segundo o jornal  Les Echos, relança o Rafale.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

José Mourinho é um verdadeiro artista

A edição de hoje da France Football destaca uma grande reportagem com o treinador português José Mourinho. Trata-se de um acontecimento relevante no plano mediático porque aquela revista francesa tem uma enorme reputação no campo do futebol internacional, não só pela sua qualidade editorial, mas também porque em 1956 criou o Ballon d’Or que anualmente premiava o melhor futebolista do ano na Europa e que em 2010 se fundiu com o prémio atribuído pela FIFA para se transformar no FIFA Ballon d’Or. Não há muitos portugueses que, em qualquer domínio, tenham conseguido notoriedade internacional, mas o treinador Mourinho é um deles, tendo sido considerado pela FIFA como o melhor treinador do mundo em 2010. O seu palmarés desportivo como treinador é muito rico e inclui 20 títulos, dos quais duas Ligas dos Campeões e sete Campeonatos Nacionais  em Portugal (2), Inglaterra (2), Itália (2) e Espanha (1).
A revista classifica-o como “l’emmerdeur”, isto é, o homem que desafia, que incomoda, que cria encrencas. É, seguramente, um enorme elogio. De facto, só saem do anonimato e triunfam no competitivo mundo do futebol (como em outras actividades humanas) aqueles que desafiam os equilíbrios existentes, que são capazes de inovar e que têm a receita para mobilizar os seus públicos, quer sejam adeptos, leitores, consumidores ou eleitores. Mourinho tem sido exemplar nesse aspecto e, como diria o humorista, ele é mesmo um verdadeiro artista.

O estranho caso das contas no HSBC

Um grupo de jornalistas – o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação – com a colaboração de alguns informáticos, procederam a investigações e vieram agora revelar que o ramo suiço do banco britânico HSBC Private Bank, promovia a constituição e mantinha milhares de contas resultantes de práticas ilícitas, desde a mais usual fuga ao fisco, até ao branqueamento de capitais da mais duvidosa origem, como o tráfico de drogas e de armamento. Entre a clientela haveria empresários, políticos, desportistas e até suspeitos de ligações a actividades terroristas. O caso referia-se a 2008 e os montantes apurados superavam os 180 mil milhões de euros, o que correspondia aproximadamente ao PIB de Portugal! Já se chamou a este caso o SwissLeaks e também o HSBCLeaks, dizendo-se que se trata apenas da ponta de um iceberg.
Na clientela haveria 611 clientes portugueses ou residentes em Portugal, cujas contas ascenderiam a 856 milhões de euros, havendo uma cliente de Vila Real cuja conta ascendia a 227 milhões de euros. Hoje, o Jornal de Notícias informa sobre “três portugueses com 585 milhões em contas na Suiça”. Este caso vem demonstrar duas coisas importantes.
A primeira é que como se vê, uma vez mais, para a ganância do sistema bancário vale tudo. Porém, ainda havia quem pensasse que o sistema bancário suiço estava acima de qualquer suspeita, quando afinal se revela ainda mais ousado que os seus pares e se tornou um activo agente de práticas ilícitas.
A segunda é que foi anunciado que as autoridades nacionais já terão começado a actuar, mas o facto é que destes montantes, haverá uma parte que que terá sido regularizada através de amnistias fiscais. As autoridades não sabiam deste caso ou fizeram que não sabiam? Assim, parece ficar evidenciado que o Ministério Público dorme ou acorda quando lhe apetece.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Afinal ainda há “jobs for the boys”

O assunto não é novo, mas só de vez em quando aparece nos jornais: os partidos que estão no governo mantém a prática, já denunciada desde há muitos anos, de criar uma administração paralela de assessores, consultores e outros amigos, para além de fazerem nomeações partidárias para os cargos de topo da Administração Pública, comportando-se como verdadeiras agências de emprego para boys e girls.
Tem sido um espectáculo lamentável e ridículo que, ao longo dos anos, nos tem permitido assistir ao aparecimento de muitos dirigentes públicos medíocres e incapazes, sem qualquer qualificação nem idoneidade, além de muitas vezes serem uns serventuários do poder que se comportam como uns verdadeiros lambe-botas. A partir de certa altura foram estabelecidos concursos destinados à escolha dos dirigentes da Administração Pública, para despartidarizar e dar transparência às nomeações. Porém, o Jornal de Negócios a propósito das nomeações para os centros distritais da Segurança Social, revela hoje que “PSD e CDS ocupam todos os lugares na Segurança Social”. De facto, segundo noticia aquele jornal, o governo já fez 14 das 18 nomeações, sendo 11 dirigentes com ligações ao PSD e três com ligações ao CDS.
Por ter contornos tão escandalosos, o assunto chegou ao Parlamento onde esteve o presidente da Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CRESAP) que, apesar de ter assegurado que escolhe os melhores, não teve resposta para o facto de “100% dos escolhidos serem do PSD e do CDS, como antes eram do PS”.
Significa que está tudo na mesma e que, quanto a transparência, até piorou. Há tempos, o Diário de Notícias (edição de 6-12-2012) informava que “Boys de Portas e Passos dominam a Segurança Social”. Hoje, mais de dois anos depois, aquele jornal bem pode continuar a escrever o mesmo título.
Com este sistema viciado, em que uma parte da sociedade que está enfeudada aos partidos políticos se apropria da máquina do Estado, todos perdemos. A Democracia sai enfraquecida e não há forma de ultrapassarmos as injustiças, a desigualdade e o nosso crónico atraso económico e social.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Foi você que pediu um Gaugin?

Durante mais de cinquenta anos o Nafea Faa Ipoipo, pintado em 1892 no Tahiti por Paul Gaugin, esteve exposto no Kunstmuseum na cidade suiça de Basileia, por empréstimo dos seus proprietários suiços. Segundo revelou a imprensa internacional, quer nos Estados Unidos, quer no Reino Unido, esta pintura que representa duas jovens mulheres polinésias ao ar livre, foi agora vendida a um comprador do Qatar por 300 milhões de dólares (263,3 milhões de euros) e, assim sendo, ter-se-à tornado no quadro mais caro de sempre, ultrapassando Os jogadores de cartas (1895) de Paul Cézanne, comprado em 2011 a um armador grego pela Casa Real do Qatar por 219,4 milhões de euros. 
A identidade do comprador não foi revelada, embora seja provável que seja a Casa Real do Qatar, que tem sido considerada como o maior investidor mundial em arte contemporânea, ou o organismo que gere os museus do Qatar, o que será mais ou menos a mesma coisa.
O que é curioso é o facto de serem dois pintores franceses impressionistas e contemporâneos que estão a atrair as atenções do emirado do Qatar. Porém, não é apenas no Qatar que o interesse pela arte está em alta e que o mercado da arte está a passar por uma fase muito dinâmica como consequência da incerteza dos mercados financeiros, pois a procura de arte como investimento e reserva de valor está a aumentar um pouco por todo o mundo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A missão de procurar a paz na Ucrânia

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O que está a ser feito é exactamente o que deve ser feito. François Hollande e Angela Merkel puseram-se a caminho. Ontem aterraram em Kiev e encontraram-se com Petró Poroshenko. Hoje voam para Moscovo e vão encontrar-se com Vladimir Putin. A sua missão é mediar o conflito ucraniano que opõe o governo de Kiev aos separatistas pró-russos de Donetsk e Luhansk. Vários jornais europeus, como por exemplo o Le Figaro, dizem que esta missão de mediação é última oportunidade para evitar a guerra que, em algumas regiões do leste da Ucrânia, já está de facto a acontecer.
A generalidade dos países europeus apoia a Ucrânia, mas os seus dirigentes resistem a pisar a linha vermelha do envio de armamento, pois isso significaria hostilizar a Rússia e atirar gasolina para a fogueira, embora a Polónia e os países bálticos discordem dessa posição e já estejam a enviar armamento para Kiev. Os Estados Unidos também ponderam essa hipótese e John Kerry estará hoje em Kiev, provavelmente para estudar esse assunto.
No lado russo está difundida a ideia de que já há unidades militares aliadas a combater ao lado do exército ucraniano, criando o ambiente anti-ocidental necessário para justificar uma intervenção mais musculada, pelo que se agora for decidido armar a Ucrânia, os russos terão o argumento decisivo que lhe faltava para intervir directamente no solo ucraniano. O assunto é muito sério. É preciso evitar tudo isso. Nos conflitos que sempre assolaram e destruiram a Europa, sabemos como começam, mas nunca sabemos como acabam. 
A iniciativa de Hollande e Merkel só pode ser elogiada, até porque não é habitual. E deseja-se que seja bem sucedida. Se tivesse havido semelhantes iniciativas na Jugoslávia, no Iraque, na Líbia ou na Síria, para não citar outros casos, o mundo teria sofrido menos e tudo seria diferente.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A esperança espanhola chama-se Podemos

No corrente ano de 2015 a nossa vizinha Espanha vai ter eleições locais e autonómicas em Maio e, no final do ano, terá eleições gerais que, de acordo com a lei, se realização até ao dia 20 de Dezembro. Será, portanto, um ano em que os espanhóis vão ser chamados às urnas para responder a muitas perguntas, embora a crise económica e social e, em especial, a austeridade e o desemprego sejam os temas dominantes nas disputas eleitorais. O PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e o PP (Partido Popular) têm sido os grandes protagonistas do processo político espanhol, alternando maiorias e assegurando o governo do país. Porém, em consequência da crise económica e social, do elevado desemprego e da continuada austeridade, surgiram condições para a formação de uma nova força política que de imediato mobiliou o cansaço e o descontentamento dos espanhóis. Foi criado em Janeiro de 2014 e foi baptizado como Podemos. Quatro meses participou nas eleições europeias, obteve 7,98% dos votos e conquistou 5 cadeiras no Parlamento Europeu.
O sucesso do Podemos de Pablo Iglésias despertou uma onda de entusiasmo em Espanha, semelhante ao que se passou na Grécia com o Syrisa de Alexis Tsipras. O barómetro de Janeiro do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), um organismo governamental autónomo, revelou que o Podemos já é a segunda força política espanhola com 23,9% das intenções de voto e que está apenas a três pontos do PP, que continua a ser o primeiro partido espanhol. Hoje, o diário ABC destaca exactamente a fulgurante ascensão de um partido que rejeita a austeridade, a má governação e a sujeição às imposições estrangeiras.
Faltam alguns meses para as eleições legislativas espanholas, mas o fenómeno Podemos pode abrir um novo capítulo na história espanhola e, naturalmente, também nos outros países da Europa do Sul. Até lá, aguardemos o que vai acontecer no imbróglio grego…

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A escalada da guerra domina a Ucrânia

Foi em Abril de 2014 que começaram os confrontos militares no Leste da Ucrânia e, passados cerca de 8 meses, já estão contabilizados mais de 5 mil mortos e 1,2 milhões de refugiados e, como hoje diz o jornal luxemburgês Le Quotidien, a Ucrânia está à beira do precipício.
Assim, uma vez mais, temos o continente europeu confrontado com uma guerra dentro das suas fronteiras geográficas e culturais e com uma tragédia que nos recorda um passado histórico de conflitualidade, sem que os seus dirigentes se entendam e consigam impor a negociação, o cessar-fogo e a resolução pacífica deste conflito.
Na Ucrânia há uma parte que quer virar-se para a prosperidade da União Europeia e outra parte que quer manter os seus laços tradicionais com a Rússia e, do intenso combate político em que o país se envolveu, resultou o confronto militar. Os combates entre as forças regulares do exército ucraniano e os independentistas das autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk intensificaram-se nos últimos tempos e o número de mortos continua a aumentar, com as televisões a mostrar as imagens brutais da morte, do sofrimento e da destruição. Os separatistas pró-russos anunciaram a intenção de criar uma frente única para unir as duas frentes de combate activas, apelaram à urgente mobilização de 100 mil combatentes e ameaçaram estender a guerra a todo o território ucraniano.
Perante este cenário em que os separatistas pró-russos parecem estar a consolidar e alargar posições no terreno, o governo de Kiev teme uma invasão russa e acusa o governo de Putin de já estar a intervir no terreno, pelo que os Estados Unidos estão a ponderar uma resposta com o envio de auxílio militar que poderá incluir sistemas antiaéreos, anti-morteiro e antitanque. embora a Alemanha e a França não apoiem essa solução.
Muitos analistas já consideram que os tempos da “guerra fria” estão de volta e, como hoje escreveu o diário Le Quotidien, a Ucrânia está à beira do precipício, sobretudo porque não há dirigentes capazes de fazer qualquer coisa pela negociação e pela paz ou, então, são mais sensíveis aos seus interesses económicos do que às tragédias humanas dos outros.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

As novas estratégias para a Ásia do Sul

No dia 26 de Janeiro comemorou-se na Índia o Dia da República, evocando a aprovação em 1950 da Constituição da União Indiana que instituiu a república, embora tenha sido mantida a ligação à Commonwealth. Esse dia é mais festejado que o próprio Dia da Independência e, em Nova Delhi, consta de uma monumental parada militar que percorre os 5 quilómetros da Rajpath e demora 3 longas horas. Desfilam o Exército, a Marinha e a Força Aérea. Desfilam as Polícias. Desfilam tanques, mísseis e carros de combate. Desfilam tropas com turbantes de todas as cores montando cavalos e camelos. Desafilam motociclistas acrobatas. Desfilam grupos de dança. É um impressionante festival de cor e de sincronismo. Um imponente airshow mostra todo o tipo de aviões e helicópteros a sobrevoar a parada militar, com destaque para os Sukhois e para os MiGs. No sentido de reforçar a unidade nacional, cada um dos 28 Estados federados faz-se representar no monumental desfile por um carro alegórico, onde é evidenciada a sua história e a sua realidade cultural.
A parada do Dia da República é um grande espectáculo e este ano, pela primeira vez, teve a participação das mulheres das Forças Armadas e direito a transmissão televisiva internacional.
Todos os anos o Dia da República tem um convidado especial que este ano foi Barack Obama, que desta forma se tornou o primeiro presidente americano a visitar a Índia por duas vezes, por poderosas razões de realpolitik. Com a China, a Rússia e o Paquistão ali tão perto, uma nova estratégia e uma nova aliança parecem ter sido ensaiadas neste encontro entre Obama e Modi, o primeiro ministro da Índia.
Barack Obama viu ali um contra-poder à sua rival China, viu como a Rússia é a principal fornecedora de equipamento militar à Índia e viu o esforço de “indigenisation”, isto é, a vontade indiana de se tornar num produtor e exportador de equipamento militar.
Narendra Modi viu ali o amigo do seu arqui-rival Paquistão, viu um novo aliado em relação às pretensões territoriais chinesas e à sua influência no oceano Índico e viu um investidor que pode trazer o capital e a tecnologia de que a Índia carece para se desenvolver.   
A última edição do India Today diz que Obama e Modi reescreveram um reviravolta nas relações entre os dois países e, com euforia, escolheu como título: REUNITED STATES. Um sugestivo título!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O lamentável esquecimento do caso BPN

O caso BPN está associado às mais negras nuvens e aos mais tenebrosos abutres que assolaram Portugal nas últimas décadas, mas muitas vezes parece ter caído no esquecimento da comunicação social e da opinião pública. É lamentável que assim suceda e não será difícil imaginar porque assim acontece.
No entanto, a tragédia do BPN é uma vergonha nacional pelos seus contornos criminosos e de absoluta indignidade, tendo mostrado que os portugueses não viveram acima das suas possibilidades, mas que quem assim viveu foram muitos banqueiros, empresários, gestores e políticos ligados ao regime e, em especial, àquilo a que o portismo e os seus amigos abusivamente chamaram o “arco da governação”.
A edição deste fim de semana do semanário Expresso veio lembrar-nos que o caso BPN existiu, ao anunciar em primeira página que o “Estado só recuperou €540 milhões do BPN”, que correspondem apenas a 12,9% dos 4,2 mil milhões de euros de créditos em dívida de clientes e accionistas que foram considerados activos tóxicos. Segundo a Parvalorem, a entidade pública responsável pela recuperação desses créditos, entre 2010 e 2014 foram recuperados 310 milhões de euros em dinheiro e o restante em valores imóveis. É muito pouco, muitíssimo pouco. É inadmissível. Só pode ser por falta de vontade.
O governo tinha anunciado em devido tempo que queria recuperar as dívidas do BPN e, nessa altura, foi divulgado que havia 13 mil créditos em contencioso. Não se compreende como persiste a impunidade de tanta gente, sobretudo dos administradores do BPN antes da sua nacionalização e dos seus amigos, que compraram e venderam acções sem nunca as pagar e beneficiaram de créditos sem que lhes exigissem garantias.
É caso para perguntar se a Justiça também tem dois pesos e duas medidas.

O monarca absoluto de Angola

Angola parece viver tempos de incerteza, depois de um período de grande expansão, havendo quem afirme que se está a caminhar para o “desastre político e social”. A situação economica e social tende a agravar-se devido à extrema dependência do país em relação ao petróleo, cujo preço está em queda e que em 2015 se espera represente uma quebra de 12 mil milhões de euros na receita petrolífera, mas também porque o país está viciado nas importações, nos gastos supérfluos com fundos públicos e com as muitas centenas de carros de luxo das elites.
O Presidente da República e titular do Poder Executivo que está no poder há 35 anos, é acusado pela oposição e até por alguns sectores do MPLA, de não ter apoiado a diversificação da economia, de ter pactuado com a corrupção e de ter imposto os seus amigos e correlegionários como parceiros a todos os estrangeiros que querem investir ou fazer negócios em Angola.
Poucos jornais denunciam esta situação. Um deles é o folha 8 que se publica em Luanda e que é independente do governo e tem uma linha editorial que é muito crítica do regime angolano, pelo que já foi ameaçado de ser suspenso por denunciar os seus excessos. Na sua edição de ontem, o jornal inclui uma entrevista com Marcelino Moco, jurista e doutorando na Universidade de Lisboa, ex-secretário geral do MPLA, ex-primeiro ministro e ex-secretário executivo da CPLP que, embora rejeite pertencer à oposição angolana, manifesta preocupação “quando se vive da distribuição de avultadas riquezas líquidas a familiares, a servidores pessoais e aos que se calam a algum preço, alto ou baixo” As críticas de Marcelino Moco vão mais longe, ao afirmar que “para proteger completamente os interesses pessoais do actual e longevo titular da Presidência da República, o Tribunal Constitucional (deve ler-se ‘tribunal presidencial eduardista’) concluiu a proclamação do actual Presidente da República em monarca absoluto, depois de ter proclamado o filho José Filomeno dos Santos seu príncipe herdeiro”. E Marcelino Moco faz uma promessa: “Se um dia eu voltar ao governo, que nunca será neste regime completamente amoral e atrapalhado com a ideia de acumulação de capital para parentes e servidores, saberei rodear-me de pessoal competente nessas áreas”.
É assim a vida em Angola, onde reina um monarca absoluto.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Como eles sacodem a água do capote

Não temos acompanhado a verdadeira novela que tem sido o processo BES, porque são assuntos de grande complexidade técnica e que só têm servido para me incomodar, sobretudo porque revelam a enorme podridão que tem afectado algumas das nossas supersestruturas politico-económicas e alguns dos seus desonestos agentes.
Por isso, foi com alguma surpresa que tomamos conhecimento de uma carta dirigida à Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES, em que o seu antigo Presidente afirma ter-se encontrado com Cavaco Silva, Passos Coelho, Maria Albuquerque, Carlos Moedas, Durão Barroso e Paulo Portas, isto é, a nata do nosso regime político. O Presidente do BES conhecia todas estas pessoas e várias vezes integrou comitivas presidenciais e ministeriais. Certamente conviveu com eles aqui e acolá. Provavelmente até passaram férias conjuntamente num qualquer local exótico. Por isso, estes encontros não foram visitas de cortesia, mas foram visitas institucionais para informar sobre a situação de degradação que se vivia no BES e para pedir apoio. Significa, portanto, que todas estas pessoas e entidades estavam informadas do que se passava no BES, como de resto muito mais gente anónima suspeitava.
Porém, quando rebentou a bronca do BES e do GES, até porque era tempo de praia, cada um tratou de sacudir a água do capote à sua maneira. Ninguém era amigo do Salgado, ninguém conviveu com Salgado.
Agora a carta enviada à Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES veio ressuscitar a questão, ao revelar que o Presidente do BES se tinha encontrado duas vezes com o Presidente da República, o que significa que ele conhecia a situação.  Muitos portugueses que tinham confiado no BES reagiram de imediato, pois tinham perdido as suas poupanças. Lembraram que em Julho de 2014, na Coreia do Sul, o Presidente da República tinha garantido que os “Portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo”, de acordo com as garantias e as informações que recebera do Banco de Portugal. E eles confiaram. Agora, quando todas essas declarações ainda estão disponíveis na internet e estão gravadas na nossa memória, num verdadeiro jogo de palavras, o irritado Presidente veio dizer que nunca disse o que disse e acusou os jornalistas de mentirem. Ele é, sem dúvida, um grande sacudidor da água do capote.

Dijsselbloem & Varoufakis: o desencontro

Jeroen Dijsselbloem e Yanis Varoufakis encontraram-se ontem em Atenas. O primeiro é o ministro das Finanças dos Países Baixos e presidente do Eurogrupo e o segundo é o ministro das Finanças da Grécia. Ao contrário do que sucedeu na reunião entre Alexis Tsipras e Martin Schulz em que este, de acordo com a imprensa, gostou do que ouviu e saiu optimista do encontro, manifestando agrado com a intenção grega de dar prioridade ao combate à emergência e à injustiça sociais e à evasão fiscal, os senhores Dijsselbloem e Varoufakis estiveram demasiado tensos na conferência de imprensa final, quase nem se cumprimentaram e, cada um ao seu modo, mostrou que não estava politicamente preparado para aquele número. É caso para dizer que as conversas entre a União Europeia e a Grécia começaram mal e que esse facto não augura nada de bom.
Dijsselbloem e Varoufakis não estiveram bem. Não foi um encontro. Foi um desencontro. Não é assim que se negoceia ou se abrem as portas para negociar. Jeroen Dijsselbloem portou-se como um cobrador de fraque e repetiu o discurso obcessivo, intransigente e humilhante que os gregos tinham acabado de rejeitar nas urnas. A outra parte não gostou. Varoufakis esqueceu a sua condição de devedor e, animado pela recente vitória eleitoral, mostrou alguma sobranceria e repetiu o discurso anti-austeridade e anti-troika. A outra parte não gostou. 
O assunto é demasiado complexo e demasiado importante para o futuro da Europa e, por isso, a maioria dos líderes europeus mostra-se muito cautelosa nas suas declarações, embora haja algumas excepções. Uma dessas excepções acontece em Portugal. É um Portugal radical! É lamentável a obcessão de quem, ao fim de quase quatro anos, não só não conseguiu suster a nossa dívida externa e criou um problema social muito grave, como agora se mostra “mais papista do que o Papa” e se coloca ao lado dos falcões e da ganância dos mercados, revelando uma absoluta insensibilidade em relação à tragédia social grega.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Uma grande derrota da jihad em Kobani

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Depois de 134 dias de cerco, a cidade curda síria de Kobani, situada na fronteira com a Turquia, foi libertada pelas forças curdas do YPG - as unidades de defesa do Partido da União Democrática (PYD) que é o principal partido curdo da Síria - que resistiram aos jihadistas com a ajuda dos peshmerga (forças iraquianas curdas) e dos ataques aéreos da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos.
Os quatro meses de combates levaram ao abandono da cidade pelos seus 50 mil habitantes e deixaram a malha urbana completamente arrasada e sem água, electricidade ou mantimentos, mas livre dos jihadistas que abandonaram a cidade e que são agora perseguidos pelos arredores.
Kobani tornou-se o símbolo da resistência ao movimento jihadista e esta vitória já é considerada um enorme revés para as forças do Estado Islâmico, mas também a sua primeira grande derrota na campanha militar visando a expansão do seu autoproclamado califado. Essas forças terão perdido cerca de mil combatentes e grande quantidade de material de guerra mas, sobretudo, perderam a reputação que pretendiam criar de absoluta invencibilidade e de não poderem ser travados por ninguém.
O jornal independentista catalão ara que se publica em Barcelona, foi um dos raros órgãos de comunicação que hoje destacou esta notícia e compara a resistência de Kobani à resistência de Stalinegrado em 1942-1943 e de Sarajevo em 1992-1996. 
Porém, a libertação de Kobani não é apenas uma derrota para a jihad, mas é também uma significativa vitória para a nação curda. Certamente, esta vitória vai estimular o nacionalismo curdo e recolocar em cima do futuro tabuleiro negocial, a aspiração de reunir numa só pátria e num só território nacional os 28 milhões de curdos hoje dispersos sobretudo pela Turquia, mas também pelo Iraque, Irão, Síria, Arménia e Azerbeijão.