terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Uma grande vitória para Mário Centeno

O Ministro Mário Centeno foi ontem eleito para presidir ao Eurogrupo, um grupo informal dos Ministros das Finanças dos Estados-membros da União Europeia cuja moeda oficial é o euro, que se reune mensalmente para ajustarem a coordenação das suas políticas económicas. Assim, a partir do próximo dia 13 de Janeiro, Mário Centeno substituirá o holandês Jeroen Dijsselbloem e desempenhará a função de presidente do Eurogrupo nos próximos dois anos e meio.
É um motivo de satisfação para Portugal e um enorme elogio para a política orçamental portuguesa e, sobretudo, para Mário Centeno. Ele é um dos raros portugueses doutorados em Harvard, por acaso a primeira ou segunda melhor universidade do mundo na área económica e, por isso, tem uma qualidade académica bem diferente da ignorância exibida por outros economistas que por aí circulam. O Finantial Times, em título de primeira página, escreveu que "Centeno wins race to be eurogroup head" e começa a noticia da seguinte maneira: "Harvard educated economist Mario Centeno...". Portanto, a sua eleição é o reconhecimento da credibilidade do governo portugués e da forma como foi preparada a candidatura, mas também da qualidade académica do candidato, um aspecto que por cá tem sido muito pouco salientado.
Muitos políticos e comentadores, provavelmente dominados pela tradicional inveja lusitana, têm posto em causa esta escolha, duvidando da capacidade de se ser, simultaneamente, presidente do Eurogrupo em Bruxelas e ministro das Finanças em Portugal. Porém, Mário Centeno tem respondido a esses profetas, que até parece que gostavam que as coisas corressem mal para por uma vez terem razão, com a sua sobriedade habitual e até garantiu que o seu novo cargo nada muda na relação com os parceiros parlamentares portugueses. A escolha de Centeno é uma valente bofetada em Cavaco Silva, Passos Coelho, Marques Mendes, Carlos Costa e nessas figurinhas menores que são Teodora Cardoso e Maria Albuquerque, porque todos eles desconfiaram da capacidade de Centeno, ao contrário de Merkel e de Macron. Grande Centeno!
Independentemente dessas vozes “que não chegam ao céu”, o facto é que com Mário Centeno a presidir ao Eurogrupo, a imagem e a credibilidade de Portugal no mundo melhoram consideravelmente e o país bem precisa disso, depois de vários anos em que se deixou humilhar.
Wolfgang Schäuble tinha razão: Mário Centeno é mesmo o “Ronaldo do Ecofin”.

O Brexit é mais difícil do que se pensava

Num referendo realizado em Junho de 2016 verificou-se que 51,9% dos britânicos votaram pela saída da União Europeia, pelo que governo iniciou um processo de negociações conhecido por Brexit. Nesse processo, as dificuldades têm sido enormes, não só pela estreita margem de votos que levou à decisão de saída, mas também pelas diferentes opções dos quatro “países constituintes” do Reino Unido, respectivamente a Escócia, Gales, a Inglaterra e a Irlanda do Norte.
Ontem, numa reunião em Bruxelas encontraram-se o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker e a Primeira-Ministra britânica Theresa May, tendo como agenda a discussão do futuro dos cidadãos europeus que vivem no Reino Unido e dos britânicos que vivem na União Europeia, isto é, as questões da livre circulação de pessoas e mercadorias, bem como o futuro do livre comércio.
Porém, acontece que na única fronteira terrestre do Reino Unido, que separa a República da Irlanda da Irlanda do Norte, poderão vir a ser reinstalados os normais controlos fronteiriços, o que altera substancialmente a vida dos cidadãos da Irlanda do Norte, que até votaram maioritariamente contra o Brexit. Daí que se procure um estatuto de excepção para a Irlanda do Norte diferente do resto do Reino Unido, mas essa solução foi vetada pelo DUP (Democratic Unionist Party) que é o quarto maior partido britânico e que suporta o governo de Theresa May, que não aceita qualquer solução que afaste Belfast de Londres. Porém, essa hipótese de estatuto de excepção e de permanência no mercado único agrada aos que estiveram e estão contra o Brexit, sobretudo os escoceses e a cidade de Londres, que votaram maciçamente pela permanência na União Europeia. Com este imbroglio, Theresa May saíu derrotada e humilhada. Não houve acordo e essa foi a notícia do dia da imprensa britânica. Entretanto, muitos britânicos, com Tony Blair à cabeça, pedem um segundo referendo porque "as pessoas têm o direito de mudar de ideias".

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A super-Lua de que os americanos gostam

Aconteceu ontem que o nosso satélite natural esteve, em simultâneo, em fase de Lua Cheia e no ponto da sua órbita mais próximo da Terra, o chamado perigeu, isto é, a uma distância de 357.492 quilómetros. A coincidência dessas duas situações não é frequente mas suscita muita curiosidade porque a Lua aparenta ser maior do que o habitual, sobretudo quando está próxima do horizonte, mas essa impressão é apenas uma ilusão de óptica.
O fenómeno é conhecido como a super-Lua. As super-Luas não são um fenómeno inédito, podendo acontecer várias vezes por ano e, muito proximamente, nos dias 1 e 31 de Janeiro de 2018, voltarão a acontecer e a Lua aparecerá na esfera celeste e parecerá ser 14% maior e 30% mais brilhante, segundo informam os observatórios astronómicos.
O acontecimento é muito apreciado pelos profissionais e pelos curiosos da fotografia e, embora tivesse sido possível observá-lo em todo o mundo, parece que só os grandes jornais americanos não se dispensaram da publicação de uma fotografia da super-Lua. Assim aconteceu com o The Wall Street Journal, mas também com o The Washigton Post e o USA Today, por exemplo, que nas suas edições de hoje publicaram na sua primeira página uma fotografia da Lua a transitar em Washington sobre o Capitólio. O interesse destes jornais pela super-Lua reflecte apenas o interesse dos seus leitores, isto é, os americanos gostam como ninguém da super-Lua.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A tragédia que tanto enlutou a Argentina

Sem surpresa, a Marinha da Argentina anunciou ontem que dava por terminada a operação de busca e resgate dos 44 tripulantes do submarino ARA San Juan, desaparecido desde há duas semanas no Atlântico Sul, por já ter passado "mais do que o dobro do tempo de busca” recomendado pelas práticas internacionais nestas situações.
Significa que as autoridades argentinas consideram que a guarnição não sobreviveu ao episódio ocorrido no dia 15 de Novembro, quando o submarino navegava de Ushuaia para a sua base em Mar del Plata e que, infelizmente, não há vidas para salvar.
No entanto, as operações de busca prosseguem para que o submarino possa ser localizado e, desde que foi anunciado o seu desaparecimento, têm estado envolvidos navios e aviões de inúmeros países com as mais desenvolvidas tecnologias utilizadas nestas emergências, estando anunciado o envolvimento nesta operação de 28 navios, nove meios aéreos e cerca de quatro mil pessoas. Trata-se, portanto, de uma operação multinacional em larga escala que está em marcha com a solidariedade que caracteriza a comunidade marítima.
Qualquer ocorrência marítima em que se perdem vidas humanas é sempre trágica, mas no caso do desaparecimento do submarino ARA San Juan torna-se dramática, pela longa e dolorosa ansiedade dos familiares dos tripulantes que durante vários dias esperaram por notícias. Ontem a Marinha da Argentina anunciou a má notícia e, hoje, o jornal Crónica que se publica em Buenos Aires, presta homenagem aos 44 submarinistas argentinos e classifica-os como heróis.
A Argentina emocionou-se e está de luto.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Angola e Portugal: acabem com os amuos!

Nos dois últimos dias realizou-se em Abidjan, na Costa do Marfim, a 5.ª Cimeira União Africana - União Europeia que reuniu os dirigentes dos 55 Estados-membros da União Africana e dos 28 Estados-membros da União Europeia, que teve como tema central o investimento na juventude.
O tema é importante porque a maioria da população africana tem actualmente menos de 25 anos de idade e se estima que, até meados deste século, uma em cada quatro pessoas no mundo será africana. Por isso, a cimeira procurou definir orientações no sentido de se investir nos jovens africanos e na sustentabilidade das suas vidas, através da educação e das infraestruturas, mas também da paz, da segurança e da boa governação.
Nestas cimeiras, acontecem sempre muitos encontros bilaterais e, de entre eles, revestiu-se de particular interesse o encontro entre o Presidente João Lourenço de Angola e o 1º Ministro António Costa de Portugal. No seguimento desse encontro ao mais alto nível, o ministro angolano das Relações Exteriores, Manuel Augusto, garantiu que as relações entre Angola e Portugal “são excelentes”, mas que estão “ensombradas por um caso específico que releva da actuação da justiça portuguesa”, referindo-se ao caso que envolve o antigo vice-presidente angolano Manuel Vicente, que está acusado pela justiça portuguesa por corrupção activa na forma agravada, branqueamento de capitais e falsificação de documentos. O ministro angolano salientou que Angola respeita a separação de poderes e que a única coisa que pretende é que o poder judicial português tenha em conta os interesses de Portugal e de Angola, o que foi destacado hoje pelo jornal O PAÍS em notícia de primeira página.
Sobre o mesmo assunto, António Costa afirmou que o caso transcende o poder político e é da exclusiva responsabilidade das autoridades judiciárias portuguesas, mas também disse que os dois países estão a ultrapassar as dificuldades económicas recentes e que isso “permite encarar com optimismo e confiança o crescimento das relações económicas nos próximos anos” e reafirmar Angola como o principal parceiro português em África.
Os portugueses precisam de Angola e os angolanos precisam de Portugal. Acabem, portanto, com os amuos.

R.I.P. Belmiro de Azevedo

A notícia surgiu inesperada e anunciava que o empresário Belmiro de Azevedo falecera aos 79 anos de idade.
Nunca o encontrei e, provavelmente, não tinhamos concepções de vida parecidas, mas ouvi-o muitas vezes, desassombrado e directo, a comentar a vida política e económica portuguesas, com objectividade, com inteligência e com frontalidade. Porém, não era essa a faceta que mais admirava no homem que reergueu a Sonae e que estendeu a sua actividade a diversas áreas da nossa actividade económica como a distribuição (Continente e Modelo), o jornal Público, as telecomunicações (Optimus) e o retalho especializado (Worten, Vobis, Bonjour, Sportzone), entre outras.
Num país em que há uma enorme lacuna de empreendedores que assumam riscos empresariais, que transformem os nossos recursos e que acrescentem valor aos nossos produtos e serviços, o engenheiro Belmiro de Azevedo foi um pioneiro na gestão e na inovação mas, sobretudo, foi um dos maiores criadores de emprego que Portugal conheceu depois da revolução de 1974.  Nos sectores de actividade em que se envolveu e, em especial, no sector da distribuição, foi um criador de muitos milhares de empregos directos e indirectos. Serão cerca de 40 mil trabalhadores directos que hoje têm um posto de trabalho permanente naquilo a que se chama o “universo Sonae”, que Belmiro de Azevedo criou.
Logo que a notícia da sua morte foi conhecida, sucederam-se inúmeras declarações de elogio e de homenagem a um homem que, sendo rico, se comportava como um grande trabalhador e com hábitos sociais muito moderados. 
Homens destes fazem muita falta a Portugal.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O conflito catalão para além da política

A questão da Catalunha que está a mobilizar os constitucionalistas e os independentistas para as eleições de 21 de Dezembro, tem uma dimensão política que prevalece sobre todas as outras, mas também tem uma importante dimensão económica. Porém, nos últimos dias revelou-se uma dimensão cultural ou patrimonial que está a interessar a Espanha e que é hoje tratada no diário catalão elPeriódico.
O Real Monasterio de Santa Maria de Sigena ou Sijena remonta ao século XII e fica situado nas proximidades de Huesca na comunidade autónoma de Aragão, cuja capital é Saragoça. Nele professaram rainhas e princesas, solteiras ou viúvas, pelo que ao longo dos séculos o mosteiro acumulou preciosidades e riquezas de incalculável valor histórico e artístico. Porém, em 1983 as monjas residentes venderam 97 obras de arte religiosa do mosteiro à Generalitat da Catalunha, o que levou as autoridades de Aragão a exigir a devolução imediata dessas obras com mais de três séculos, porque “são parte da história e do património artístico de Aragão”.
O caso chegou aos tribunais. Houve sentença favorável a Aragão em Abril de 2015  e, em Julho de 2016 foram devolvidos 51 objectos que estavam expostos no Museu Diocesano de Lleida, mas o assunto não ficou arrumado. O Departamento de Cultura da Generalitat da Catalunha recusou-se a devolver 44 obras, algumas delas do século XV e únicas no mundo, com o argumento de que a decisão judicial tomada em 1ª instância iria ser revogada na instância superior e que, além disso, porque o transporte das peças era muito arriscado devido a serem muito frágeis.
Até que com a aplicação do artigo 155 da Constitução, que suspendeu a autonomia catalã, o ministro Iñigo Méndez de Vigo passou a acumular o cargo de ministro da Cultura do governo espanhol com a responsabilidade pela cultura catalã, tendo determinado que se proceda imediatamente ao cumprimento da sentença judicial, isto é, que o Museu de Lleida devolva as referidas 44 peças ao mosteiro de Sijena. Significa que o famoso 155, para além dos problemas políticos que resolve ou adia, também resolve outro tipo de problemas.
Para os independentistas esta decisão do ministro foi provocatória e pode ser mais uma pequena acha para a fogueira catalã.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Aprovação do Orçamento reforça Governo

A Assembleia da República aprovou ontem o Orçamento do Estado para 2018 (OE2018) com os votos favoráveis do PS, Bloco de Esquerda, PCP, Os Verdes e PAN e os votos contra do PSD e do CDS, o que significa que foi aprovado por 56% dos 230 deputados. De acordo com a imprensa, o OE2018 consagra menos impostos para as famílias e mais impostos para as empresas com lucros muito elevados, o que se traduz em boas notícias para grande parte dos contribuintes, dos reformados, dos senhorios e dos desempregados.
Em termos técnicos, o Orçamento do Estado inclui em cada ano o montante das despesas autorizadas e a previsão das receitas, pelo que é o documento que assegura a actividade financeira do Estado e, por isso, está muito condicionado pela situação da dívida e do défice públicos. Porém, o Orçamento é mais complexo porque discrimina inúmeras receitas e despesas que afectam o rendimento e a vidas das pessoas, daí resultando que a proposta inicial apresentada pelo Governo acaba por receber muitas alterações para satisfazer interesses muito diversos e para assegurar que é votado favoravelmente. Negociar o Orçamento é sempre uma procura de equilíbrio entre o desejável e o possível, entre as necessidades ilimitadas e os recursos escassos.
Sem Orçamento o Governo não pode governar e, por isso, também é um instrumento de luta política, em que cada partido intervém em função do seu próprio interesse e das suas futuras perspectivas eleitorais. É natural que uns queiram uma coisa e outros defendam outra. O que não é natural é que quem dirige o CDS e porque não sobe nas sondagens, mantendo-se com os habituais 7%, esteja a perder a compostura e a revelar falta de educação, mostrando demasiada agressividade e insultando continuadamente António Costa e o seu governo.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A tradição britânica ainda é o que era

Todos os jornais de referência ingleses publicam hoje na sua primeira página uma fotografia alusiva à cerimónia do render da guarda que ontem se realizou em Buckingham Palace, a residência oficial da Rainha da Inglaterra, e esse destaque resulta do ineditismo de uma cerimónia que se realiza desde 1660, isto é, há 357 anos.
Durante esse longo período, a guarda foi sempre assegurada por um dos cinco Foot Guards Regiments da Army's Household Division, mas ontem essa responsabilidade passou temporariamente para a Royal Navy, numa acção de propaganda inserida numa declaração governamental que instituiu o ano de 2017 como o Year of the Navy.
Cerca de noventa marinheiros destacados de 45 unidades e estabelecimentos da Royal Navy foram especialmente preparados para a cerimónia realizada na manhã de ontem que, como sempre, teve a presença de muitos turistas que aplaudiram. As fotografias publicadas nos diferentes jornais, como por exemplo no The Times, mostram o contraste entre a altura do marinheiro Alex Stacey e a considerável estatura do granadeiro que é rendido. A cerimónia vai ser repetida nas próximas semanas nas instalações reais do castelo de Windsor, da Torre de Londres e do St. James's Palace, naturalmente para promoção da Royal Navy. A questão é saber-se porque tudo isto acontece para animar os ingleses e se tem alguma relação com o Brexit.
Em Portugal também temos, não diariamente, mas no terceiro domingo de cada mês pelas onze horas, a cerimónia pública do render da guarda no Palácio de Belém que é um grande espectáculo de cor e som, que atrai muita gente. Será o que o Presidente da República se lembra de promover essa cerimónia e lhe dá para substituir temporariamente a GNR pela Marinha?

sábado, 25 de novembro de 2017

Há ou não paz duradoura na Colômbia?

Durante algumas dezenas de anos a Colômbia foi um palco onde actuaram contra o governo nacional diversos grupos armados de inspiração revolucionária, tendo resultado desse conflito mais de 250 mil mortos.
Há um ano Juan Manuel Santos, o presidente da Colômbia, e Rodrigo Londoño, codinome "Timochenko", o principal dirigente das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), assinaram em Havana um cessar-fogo que terminava com mais de cinquenta anos do conflito armado. Mais recentemente, também o ELN (Exército de Libertação Nacional) e o governo colombiano reunidos em Quito anunciaram um cessar-fogo, que estabelece uma trégua que, desejavelmente, conduzirá a um cessar-fogo definitivo. Significa que os 7000 guerrilheiros das FARC entregaram as armas e que os 1500 guerrilheiros do ELN estão com as armas descarregadas.
As FARC já decidiram transformar-se num partido político, sem armas, baptizado como Força Alternativa Revolucionária do Comum, de forma a manter a sigla FARC e apresentar-se ao eleitorado colombiano com uma rosa vermelha como símbolo, enquanto na eleição presidencial que se realizará no dia 27 de Maio de 2018 irá apresentar como seu candidato Rodrigo Londoño, o médico de 59 anos de idade que é o seu principal dirigente.
Quem não está no convento, não sabe o que lá vai dentro. Há, por isso, muitas coisas que nós não sabemos. Quando hoje o diário El Colombiano se questiona ¿Un año en paz?, apenas reflecte as grandes dificuldades por que passa o processo de paz, com uns a entender que se foi longe demais (os apoiantes do governo) e outros a considerar que os compromissos assumidos estão por cumprir (os ex-guerrilheiros), havendo quem ainda ande de armas na mão.
De facto, há muitos e complexos problemas para resolver e a entrega do Prémio Nobel da Paz a Juan Manuel Santos em 2016, não pode descansar a comunidade internacional nem as Nações Unidas, que tanto se empenharam neste processo. A paz na Colômbia já deu passos importantíssimos, mas ainda falta muito para lá chegar sem retorno.

Um novo e melhor caminho para Angola

A República Popular de Angola tem desde o  dia 26 de Setembro de 2017 um novo Presidente, escolhido nas eleições gerais realizadas no dia 23 de Agosto. Depois de Agostinho Neto e de José Eduardo dos Santos, o terceiro presidente angolano chama-se João Lourenço.
Em menos de dois meses, o novo Presidente mostrou trabalho e determinação, pois procedeu à exoneração das administrações de várias empresas estatais dos sectores dos diamantes, minerais, petróleos, comunicação social, banca comercial pública e Banco Nacional de Angola, anteriormente nomeadas por José Eduardo dos Santos. No entanto, a decisão mais surpreendente foi a exoneração de Isabel dos Santos, filha do anterior Presidente, do cargo de presidente da Sonangol, bem como o afastamento de alguns membros da mesma família de altos cargos da administração angolana.
A oposição tem elogiado a “revolução” que está a ser feita por João Lourenço que nos seus discursos tem salientado a vontade de moralizar a sociedade angolana e de combater eficazmente as práticas correntes de gestores e de funcionários que lesam o interesse público. Porém, as corajosas medidas que estão a ser tomadas não são do agrado geral e há algum mal-estar no seio do MPLA entre os apoiantes das novas políticas e os chamados “eduardistas” que, de certo modo, têm sido o alvo das medidas de saneamento da sociedade que estão a ser tomadas.
Era conhecido o apoio dos Estados Unidos às iniciativas de João Lourenço, mas a sua visita a Pretória e o entusiasmo com que ontem foi recebido pelo Presidente Jacob Zuma, abrem novas e muito positivas perspectivas para Angola, mas também para o entendimento e a cooperação futuros do sul da África. O Jornal de Angola referiu-se a um dia histórico e é verdade, sobretudo se pensarmos que, ainda há bem pouco tempo, os dois países estiveram envolvidos numa dura e prolongada guerra.
Quando regressar a Luanda, João Lourenço chegará mais forte e mais confiante quanto ao caminho que iniciou para fazer de Angola um país melhor.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Mugabe e o 25 de Abril do Zimbabwé

Na passado dia 15 de Novembro eclodiu um movimento militar no Zimbabwé a partir de Harare, tendo os militares bloqueado os acessos aos edifícios do governo e do Parlamento e ocupado as instalações da televisão. Ouviram-se explosões na cidade e foi anunciado que o Presidente Robert Mugabe estava detido e sob a protecção dos militares. A intenção dos militares não era clara, mas insistiram que não se tratava de um golpe de estado. Sucederam-se episódios diversos e a população começou a agitar-se nas ruas para exigir a demissão de Mugabe, não só pelos seus 93 anos de idade e 37 anos de poder, mas pelas suas práticas ditatoriais e comportamentos impróprios num estado democrático.
Mugabe ainda reapareceu em público mas recusou demitir-se. Na passada terça-feira, dia 21, não aguentou a pressão e renunciou à presidência através de uma carta enviada ao presidente do Parlamento em que dizia: “Eu, Robert Gabriel Mugabe, entrego formalmente a minha renúncia como Presidente do Zimbabwé com efeito imediato. Renunciei para fazer uma transferência de poder tranquila”.
O herói da independência que lutou com armas na mão contra o regime racista de Ian Smith e que estava no poder desde a independência do país em 1980, foi esquecido. O povo não lhe perdoou os excessos e saiu à rua para celebrar festivamente o seu afastamento. Em Harare ouviu-se um monumental concerto de buzinas e houve festa por todo o lado. Tudo normal em situações como esta.
O que não foi normal foi esta operação político-militar que, sem tiros nem confrontos, conseguiu afastar um ditador firmemente agarrado ao poder. Até parecia um 25 de Abril no Zimbabwé. A imprensa internacional acompanhou de perto esta situação e The Economist até dedicou a sua primeira página à queda do ditador.

Uma oportunidade para a paz na Síria

Desde há muito tempo que as notícias sobre a guerra na Síria eram muito escassas e que era muito difícil compreender a evolução de um conflito em que há muitos e bem diferentes envolvimentos e alianças. Porém, nas últimas semanas surgiram notícias de algumas derrotas do Daesh, quer no Iraque, quer na Síria, embora nem sempre se soubesse quem derrotou quem.
Apesar deste quase vazio de informações, nos últimos dias pudemos ver Hassan Rohani a declarar a derrota final do Daesh, depois ver Bashar Al-Assad a visitar a Rússia e a ser abraçado pelo seu Presidente e, por fim, ver Vladimir Putin a juntar à mesma mesa em Sochi, os seus colegas presidentes da Turquia, Recep Tayyp Erdogan e do Irão, Hassan Rohani. Significa que, em poucos dias, muita coisa parece ter mudado.
O jornal Tehran Times publica hoje a fotografia do encontro Putin-Erdogan-Rohani que abre uma enorme janela de oportunidade para acabar com o conflito, depois de seis anos de guerra que fizeram mais de 330 mil mortos. Vladimir Putin mostra-se confiante e declarou que serão necessárias concessões de todas as partes, incluindo do governo sírio, embora todos já tenham dado o seu acordo para a convocação de um congresso do povo sírio essencial para o estabelecimento de um diálogo inclusivo no país, a que se deve seguir uma reforma constitucional e eleições livres.
Nas últimas semanas e com o apoio russo, o regime sírio recuperou grande parte do seu território que estava sob o controlo de grupos rebeldes e extremistas e, segundo foi declarado, mais de 98% do território está agora nas mãos das forças do governo sírio, enquanto estão a ser eliminados alguns focos de resistência. É mesmo uma oportunidade para a paz na Síria.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A seca severa ou extrema que nos afecta

A península Ibérica e em especial a sua faixa ocidental, que o mesmo é dizer Portugal e a Galiza, estão a passar por um prolongado período de seca, cujas consequências podem tornar-se dramáticas. O ano de 2017 é um dos mais quentes desde que há registos e diversas regiões portuguesas e espanholas estão a sofrer com a falta de água e com o calor extremo porque choveu apenas 30% do que era habitual e as temperaturas médias têm estado três graus acima do que seria normal.
La Voz de Galicia informava ontem que a Galiza necessita de tanta chuva  [nas próximas semanas] como a que caiu em todo o ano de 2017 e tem em acção muitas medidas restritivas em relação ao consumo da água.
Nas regiões do interior e do sul de Portugal continental, porque a precipitação é muito inferior ao normal, também se atravessa um prolongado período de seca severa e extrema, com a agravante de não terem ocorrido as habituais chuvas do início do Outono que teriam desagravado a situação. Os rios e as ribeiras estão secos e as barragens com níveis de água residuais, havendo já necessidade de fazer transvases para acudir a situações de emergência. Muitas explorações agrícolas estão em risco de perder colheitas por falta de água e o governo admite racionar a água para consumo doméstico através das medidas tomadas ou a tomar pelas autarquias.
Esta alarmante situação é uma consequência das alterações climáticas que têm afectado o nosso planeta e, o que é muito preocupante, é que este cenário tende a agravar-se no futuro com temperaturas mais elevadas e menos chuva. Até há pouco tempo tudo isto parecia uma história de ficção promovida por cientistas da Geofísica e do Ambiente, mas agora a dura realidade das alterações climáticas está a bater-nos à porta. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Macau e Timor estão unidos pela História

Entre o território da ilha de Timor, onde está estabelecida a República Democrática de Timor-Leste e o território de Macau, que é uma região administrativa especial da República Popular da China, existem afinidades históricas cujo denominador comum é Portugal, apesar de estarem separadas por 3.666 quilómetros.
No período da expansão marítima para o Oriente, os navegadores e os mercadores portugueses chegaram aos mares da China em 1513 e estabeleceram-se em Macau em 1557, tendo chegado a Lifau na ilha de Timor em 1514 e fundado a povoação de Dili em 1769. Os estabelecimentos de Macau e Timor estavam então sob a tutela do Vice-rei da Índia que residia em Goa, mas em 1844 a cidade de Macau e os estabelecimentos de Solor e Timor foram desligados do Estado da Índia e das autoridades de Goa, passando a constituir a província de Macau, Solor e Timor, com um governador residente em Macau e um governador subalterno em Timor, dele dependente.
Quase dois séculos depois, esses territórios pertencem hoje à China, à Indonésia e a Timor-Leste, mas a ligação íntima entre Macau e Timor que então nasceu por via administrativa e sob a bandeira portuguesa, ultrapassou muitas circunstâncias.
Não admira, por isso, que a edição do hojemacau destaque na primeira página da edição de hoje a fotografia de Mari Alkatiri, o primeiro-ministro de Timor-Leste, a propósito de uma moção de censura ao governo minoritário da Fretilin que a oposição timorense apresentou no Parlamento, por este ainda não ter apresentado o seu programa. É um mari de problemas, titula o jornal.
Entretanto, o presidente timorense Francisco Guterres Lu-Olo já avisou o governo e a oposição que a sua missão é servir o país, tal como todos fizeram conjuntamente na sua luta pela independência nacional.