sábado, 4 de janeiro de 2020

Qasem Soleimani e a alta tensão no Irão


O assassinato do general Qasem Soleimani tem dominado o noticiário internacional e gerou uma invulgar onda de preocupações, a par de um generalizado apelo para a contenção das partes. Da leitura da imprensa internacional há duas ideias que se destacam: do lado americano a declaração de Donald Trump de que “we took action to stop a war… not to start a war”, enquanto do outro lado se fazem duras ameaças no sentido de que seja vingado o seu herói assassinado. Ambas as ideias pretendem satisfazer as opiniões públicas internas, num caso para reeleger Donald Trump e fazer esquecer o seu processo de impeachment, enquanto no outro se trata de uma reacção à humilhação que foi o assassinato de Bagdad, para dar coesão ao actual regime.
Durante o dia de hoje puderam ouvir-se os comentários de inúmeros especialistas sobre os acontecimentos ocorridos em Bagdad e as suas opiniões quanto ao que pode acontecer nos próximos tempos, mas não se viu ninguém a ter a ousadia de fazer previsões, até porque as políticas americana e iraniana têm sido demasiado errantes naquela região.
Porém, a imagem de capa da edição de hoje do Iran Daily talvez esclareça alguma coisa, pois não é apenas uma homenagem ao general Qasem Soleimani, a quem se atribui o principal mérito pela derrota do Daesh, mas é também um elemento mediático de mobilização popular em torno da figura do mártir e de apoio à “harsh revenge” prometida pelo ayatollah Ali Khamenei. Para continuar a desafiar a América de Trump, o regime iraniano também precisava de ter o seu mártir e foi o próprio presidente dos Estados Unidos que o criou. 
Nesta incerteza, associo-me aos que estão preocupados quanto ao que possa acontecer e, como dizia o outro, previsões só depois do jogo…

Angola e o episódio da Baixa de Cassanje


O Jornal de Angola assinala hoje o Dia dos Mártires da Repressão Colonial, evocando o massacre da Baixa de Cassanje que “abriu caminho para a liberdade” e “inspirou a luta de libertação nacional”.
Aconteceu há 59 anos, no dia 4 de Janeiro de 1961. Os trabalhadores agrícolas das plantações algodoeiras da companhia luso-belga Cotonang, na Baixa de Cassanje, decidiram fazer um protesto contra as suas condições de trabalho, armaram-se de catanas e canhangulos e desafiaram as autoridades portuguesas, destruindo plantações, casas e pontes, num movimento incentivado pela recente independência do ex-Congo Belga, uma vez que os povos do Congo e daquela região de Angola tinham raízes étnicas comuns e, por isso, se os povos do Congo já eram independentes, os povos de Angola também tinham essa aspiração. Os colonos portugueses foram os primeiros a reprimir o protesto, mas as tropas coloniais foram também chamadas e o terrível massacre aconteceu.
Os relatos destes acontecimentos diferem, pois enquanto o Jornal de Angola refere que “foram brutalmente mortos mais de vinte mil camponeses pelas tropas coloniais”, alguns estudos já produzidos concluem que “teria havido entre duzentas e trezentas mortes entre os revoltosos”. Só o rigor da História poderá esclarecer a dimensão deste trágico acontecimento, mas é evidente que a verdade está bem longe dos números que a propaganda anti-colonial então criou e que a soberana República Popular de Angola repete, certamente para estimular os sentimentos de unidade nacional e para manter acesa “a chama gloriosa da independência nacional”.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A perigosa escalada americana no Irão


Os jornais americanos anunciaram esta manhã que um ataque aéreo americano desencadeado ontem à noite nos arredores da cidade iraquiana de Bagdad, provocou a morte do general iraniano Qasem Soleimani. Esta acção foi de imediato interpretada como uma retaliação pelo recente ataque à Embaixada dos Estados Unidos em Bagdad, levada a cabo por manifestantes e milicianos iraquianos, mas também foi classificada como um assassinato de Estado.
Qasem Soleimani era uma importante figura do regime iraniano e era o comandante da Força Quds, uma unidade especial do Exército dos Guardas da Revolução Islâmica que tem a missão de equipar e treinar movimentos revolucionários islâmicos em países estrangeiros, dependendo directamente do líder supremo, o ayatollah Ali Khamenei. Segundo informa hoje o The Washington Post o general Soleimani estava em Bagdad para desenvolver planos destinados a atacar diplomatas e militares americanos, tanto no Iraque como nas regiões vizinhas, pelo que esta acção teve o objectivo de impedir o desenvolvimento dos eventuais planos de ataque iranianos que Soleimani pudesse estar a preparar. O Irão já confirmou a morte do seu general, atribuindo-a a um “acto de terrorismo internacional” e prometeu vingança contra os Estados Unidos pelo “seu aventureirismo”.
O Iraque parece ser o local da disputa ou do confronto entre o Irão e os Estados Unidos e alguns comentadores internacionais têm afirmado que esta escalada americana e esta iniciativa de Donald Trump são perigosas e podem ser o início de uma guerra de consequências imprevisíveis, pelo que a União Europeia, a Rússia e a China já pediram contenção às duas partes. Actualmente haverá cerca de 5.000 soldados americanos no Iraque com o objectivo de combater o que resta do Daesh e para apoiar as forças de segurança iraquianas, além de algumas centenas de funcionários diplomáticos. Naturalmente, o que se espera desta grave situação é que os ânimos se acalmem.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Os incêndios catastróficos na Austrália

As notícias e as imagens que nos vão chegando da Austrália são muito alarmantes, pois há enormes áreas do continente australiano que estão a arder. É uma grande catástrofe sob todos os pontos de vista. As previsões para os próximos dias são preocupantes pois esperam-se ventos fortes, altas temperaturas e baixa humidade, o que já levou a primeira-ministra da Nova Gales do Sul a declarar que tudo será feito para prevenir o que pode ser "um sábado horrível"
Os incêndios florestais que desde Novembro têm fustigado o país, sobretudo no referido estado de Nova Gales do Sul, onde já foi declarado o estado de emergência, atingiram proporções nunca antes observadas e são, sem dúvida, mais uma expressão das alterações climáticas e do aquecimento global com que se confronta o nosso planeta. É uma catástrofe com uma dimensão por agora inimaginável porque alguns milhões de hectares já arderam, o que representa uma área maior do que a área de países como a Dinamarca ou a Holanda. Segundo revelam as notícias, cerca de 1300 casas já foram reduzidas a cinzas, havendo milhares de pessoas desalojadas e cerca de 50 mil casas estão sem electricidade, além de já terem acontecido quase duas dezenas de mortes. As consequências ambientais também estão a ser uma calamidade em relação ao mundo animal, enquanto os fumos e as cinzas tornaram irrespirável o ambiente das cidades australianas e já chegaram à Nova Zelândia.
Hoje, vários jornais ingleses, nomeadamente The Times, The Guardian, The Daily Telegraph e o Financial Times, publicaram a mesma fotografia da catástrofe australiana, em que se pode ver um canguru a fugir de um cenário de fogo absolutamente apocalíptico.
Essa expressiva fotografia “vale mais do que mil palavras”!

Airbus e Boeing: Europa vence a América

Num período em que a França tem estado sob grande tensão social, quer pela acção dos coletes amarelos, quer pelas greves patrocinadas pelos sindicatos que contestam o plano para unificar o sistema de pensões, os franceses tiveram agora uma notícia que lhe alimenta a auto-estima e o orgulho nacional: a Airbus entregou 863 aviões em 2019 e tornou-se o principal fabricante de aeronaves do mundo, muito à frente da sua rival Boeing, que está a sofrer os efeitos da crise desencadeada pelo Boeing 737MAX, que está proibido de voar e tem a sua produção interrompida. A dimensão do resultado obtido pela Airbus assume maior expressão quando comparada com a Boeing que, de Janeiro a Novembro de 2019, entregou “apenas” 345 aviões.
A produtividade da Airbus aumentou 7,9% em relação a 2018 mas, apesar do esforço feito, a construtora europeia não conseguiu atingir o seu ambicioso objectivo de fazer entre 880 e 890 entregas em 2019. Entretanto, na sua carteira de encomendas estão registados cerca de seis mil pedidos de unidades para satisfazer, o que é um recorde sem precedentes na história da indústria aeronáutica.
Porém, este sucesso da Airbus não resulta apenas da crise por que passa o seu rival mas é, também, uma consequência da sua acertada gestão que descentralizou a produção de Toulouse para Mobile nos Estados Unidos, passando por Tianjin na China e por Hamburgo na Alemanha.
O jornal La Dépêche que se publica em Toulouse, a cidade onde estão os cérebros europeus que enfrentaram (e parece terem vencido) a indústria aeronáutica americana, dedica hoje a sua primeira página a este nº1 mundial. No domínio da tecnologia aeronáutica, a Europa vence a América e, para o Donald, esta notícia deve ser aterradora, até porque é mais uma realidade que mostra que o seu slogan make America great again não está a resultar.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O ano de 2019 em revista


O ano de 2019 termina hoje e o JTM - Jornal Tribuna de Macau tratou de o passar em revista, destacando na sua primeira página alguns acontecimentos importantes da vida da Região Administrativa Especial de Macau.
A circunstância de se tratar de um dos jornais macaenses que utiliza a língua portuguesa já é relevante, mas essa relevância é acrescida com a publicação das fotografias que, no domínio do património, simbolizam uma importante parcela da herança cultural portuguesa em Macau, isto é,  as fachadas da igreja jesuíta de São Paulo e da Santa Casa da Misericórdia. A revista do ano trata ainda de outros temas e, fotograficamente, destaca a recente visita do presidente Xi Jinping por ocasião das comemorações do 20º aniversário da transferência de Macau da soberania portuguesa para a soberania chinesa, assim como a visita de 21 horas que Marcelo Rebelo de Sousa fez a Macau do dia 30 de Abril para o dia 1 de Maio.
A fotografia do Presidente da República de Portugal é expressiva do seu incontrolado populismo, que é bem maior que a sua alta popularidade. Lá estão as selfies e os abraços a que, por motivos óbvios, faltam as declarações que faz por tudo e por nada, que se tornaram na sua imagem de marca cada vez mais insuportável.
Às suas reconhecidas qualidades pessoais de inteligência, cosmopolitismo e cultura, o Presidente da República tem acrescentado um incontrolado apetite pela popularidade, traduzida num gosto por aparecer e por ser visto, ou de falar para os microfones dos estagiários, que estão a tornar este seu primeiro mandato presidencial numa canseira para quem vê televisão. Era bom que corrigisse esta sua enorme ânsia populista porque nem ele, nem os portugueses, precisam dela. 
O ano de 2019 termina hoje e daqui se deseja um ano de 2020 com paz, progresso e estabilidade para a comunidade, mas também com muita saúde para quem visita a ruadosnavegantes.

domingo, 29 de dezembro de 2019

O futebol e os treinadores portugueses

O diário francês L’Équipe anuncia hoje o despedimento do treinador da equipa de futebol da Association Sportive de Monaco Football Club, conhecida simplesmente como Mónaco. Esse treinador era o português Leonardo Jardim. 
Jardim tem um palmarés futebolístico notável pois já foi campeão na Grécia e em França, mas a escassez de vitórias no clube monegasco ditaram o seu despedimento. No turbulento mundo do futebol os diversos interesses em presença, incluindo os adeptos, os patrocinadores, os investidores e muitos outros agentes que se movem nesse circo, exigem vitórias às suas equipas e quando elas não acontecem os treinadores são despedidos, embora quase sempre com chorudas indemnizações. Curiosamente, embora de sinal contrário, também um jornal brasileiro anuncia hoje a contratação do treinador português Jesualdo Ferreira, o que mostra que a vida dos treinadores de futebol é um corrupio de instabilidade entre contratações e despedimentos, ou entre entradas e saídas.
Porém, estes dois casos recordam-nos que os treinadores de futebol portugueses estão na moda e são contratados um pouco por todo o mundo. Tanto quanto julgo saber há treinadores portugueses em França, na Inglaterra, na Itália, na Grécia, na Eslováquia, na Lituânia e na Ucrânia, mas também no Brasil, no México e  na Colômbia. Depois, também encontramos treinadores de futebol portugueses na China e na Coreia do Sul, na Arábia Saudita e no Qatar e, ainda, em Moçambique, Cabo Verde, Camarões e Argélia. Portanto, há pelo menos 18 países onde trabalham treinadores de futebol portugueses de primeiro plano. 
É claro que Portugal goza hoje de uma mais notoriedade e melhor imagem nos países onde estes treinadores trabalham e, naturalmente, também se espera que a economia portuguesa tire algum proveito da eventual importação de capitais, como contrapartida desta exportação de talentos.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Exercícios navais do Irão, Rússia e China


A edição de hoje do diário Iran Daily anuncia com grande destaque que modernos navios do Irão, da Rússia e da China saíram do porto iraniano de Chabahar, iniciando quatro dias de exercícios navais no mar de Oman e na área norte do oceano Índico, com o objectivo de “melhorar a segurança do comércio marítimo internacional e combater a pirataria e o terrorismo”. O exercício foi baptizado com o nome de código Marine Security Belt e, segundo foi anunciado, vai incluir diversos exercícios tácticos, como tiro ao alvo, resgate de navios assaltados, combate a incêndios e outros exercícios combinados, mas na realidade trata-se de uma grande operação de comunicação em que a Rússia e a China mostram ao Ocidente e ao mundo que são aliados do Irão e que “o Irão não pode ser isolado”.
Para os Estados Unidos e para a sua política errática na região do Golfo este exercício multinacional conjunto mostra que, de facto, já existe uma coligação militar de apoio ao Irão e que a influência militar americana na região já não é o que era. Por isso, a repetida intenção de Donald Trump de hostilizar a República Islâmica do Irão e as suas frequentes ameaças de desencadear um ataque contra o seu território e as suas eventuais instalações de produção de engenhos nucleares, foram fortemente abaladas com a realização deste exercício e com a formalização desta forte aliança, sendo considerado que a diplomacia americana falhou no seu propósito de isolar internacionalmente o Irão, tal como falhara na tentativa de controlar a guerra na Síria. Porém, o que não deixa de ser preocupante para a paz no mundo é a forma como todos os grandes interesses se posicionam no Médio Oriente e no Golfo.

Jair Bolsonaro e a violência no Brasil


A escolha que os brasileiros fizeram para ocupar o Palácio do Planalto e servir o país como presidente tem-se revelado muito controversa ou errada, porquanto os estudos de popularidade mostram que 38% da população considera que Jair Bolsonaro e o seu governo são maus ou péssimos e que só 29% o consideram bom ou óptimo. Esta queda na popularidade de Jair tem-se acentuado nos últimos meses e a notícia agora divulgada pelo jornal O Globo sobre os registos para posse de armas de fogo vai certamente acelerar essa queda de popularidade.
Esses registos aumentaram 48% durante os primeiros onze meses do governo de Jair Bolsonaro, passando de 47,6 mil registos em 2018 para 70,8 mil registos desde Janeiro até Novembro de 2019, significando o registo médio de cinco armas de fogo em cada hora. Esse número só não é mais elevado porque o elevado preço de uma pistola ou revólver não é comportável com o poder de compra da maioria da população brasileira.
Os brasileiros armam-se e correm o risco de fazer do país um Far West dos tempos modernos em que tudo se resolve a tiro. É um enorme recuo civilizacional. A liberalização da posse e do porte de armas foi uma das promessas da campanha eleitoral de Bolsonaro em 2018, para reduzir a violência no Brasil… um país em que, segundo o Fórum de Segurança Pública, se verificaram 57.341 assassinatos nesse mesmo ano de 2018. Com as medidas tomadas pelo governo de Bolsonaro e a proliferação de armas que agora se verifica também a preocupação da população brasileira cresce em relação ao aumento da violência num país, onde a insegurança e a taxa de homicídios é muito elevada.
O Brasil merecia uma orientação que privilegiasse a harmonia e não o confronto.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Um eclipse para ser visto na Ásia do Sul

Ocorreu ontem o último eclipse da década e apesar do fenómeno ter sido observado apenas numa faixa do nosso planeta entre a Arábia Saudita e as ilhas Guam, no oceano Pacífico, o jornal catalão ara foi um dos poucos jornais mundiais que relataram aquele evento astronómico e que hoje ilustraram a sua edição com expressivas imagens.
Tratou-se de um eclipse solar anelar em que a Lua, a Terra e o Sol se alinharam perfeitamente com a Lua a interpor-se entre a Terra e o Sol, “escondendo-o” da Terra e deixando ver apenas os seus contornos “incandescentes”.
O fenómeno é relativamente raro e é conhecido como “anel de fogo” devido ao círculo de luz com que se apresenta, tendo sido observado numa faixa de países da Ásia do Sul, Pacífico Ocidental e Oceania, designadamente na Arábia Saudita, Qatar, UAE, Oman, Índia, Sri Lanka, Malásia, Singapura, Indonésia, Austrália e Filipinas. 
As reportagens televisivas mostraram imagens do acontecimento nesses diferentes países onde foram colocados telescópios e televisores nas ruas e nos pontos mais elevados das cidades, para que as populações pudessem assistir ao fenómeno em segurança, mas também mostraram os milhares de pessoas que com óculos com filtros especiais acompanharam este evento. 

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Um Feliz Natal e um Bom Ano Novo


Estamos em plena época de Natal em que se celebra o nascimento de Jesus Cristo. É uma grande festa religiosa em toda a Cristandade, embora também seja comemorada por muitas comunidades não cristãs, sendo assumido sempre como um período de paz e de harmonia entre os homens e de solidariedade entre os diferentes estratos sociais ou comunidades.
Além de festa religiosa, o Natal também é um feriado em muitas comunidades onde as populações e as famílias conservam práticas e costumes tradicionais, simbolizadas em elementos como o presépio, a árvore de Natal, uma gastronomia específica - que inclui o bolo-rei, as rabanadas, o bacalhau, o perú ou o polvo - o ritual da troca de presentes e de mensagens ou outras práticas culturais e religiosas. Porém, o presépio e a árvore de Natal são os símbolos maiores da época natalícia e decoram as casas para criar um cenário festivo apropriado, sobretudo para as crianças, mas também as ruas e as praças das cidades com luminosas e atraentes decorações.
Nos últimos tempos, a sociedade de consumo “inventou” o Pai Natal que, vindo das neves da Lapónia num trenó rebocado por renas, traz os presentes para as crianças. A moda pegou e o Natal deixou de ser a grande festa das famílias para, cada vez mais, se tornar no símbolo do despesismo e do consumo de inutilidades.
Porém, ainda há quem resista ao consumismo a que foi conduzido o Natal e celebre esta data como símbolo da harmonia entre todos os homens e da solidariedade para com os mais necessitados. Esse é, também, o meu Natal. Por isso, mesmo sem recorrer às fantasias do Pai Natal, aqui ficam expressos os meus votos de um Feliz Natal e um Bom Ano Novo para todos os que regularmente lêem ou comentam os textos publicados na ruadosnavegantes.

domingo, 22 de dezembro de 2019

A calamidade dos incêndios na Austrália

A edição de hoje do jornal The Sunday Telegraph que se publica em Sydney dedica a sua primeira página aos incêndios de enorme dimensão que estão a acontecer na Austrália. Embora os incêndios florestais sempre tenham feito parte da história australiana, verifica-se que nos últimos anos se tornaram mais frequentes e mais devastadores e, naturalmente, a situação australiana é mais um exemplo dos efeitos impressionantes do aquecimento global do nosso planeta.
Os piores incêndios que já ocorreram na Austrália verificaram-se em 2009 no estado de Victoria, mas os que actualmente alastram por todo o território australiano, em especial na costa oriental e nos estados da Nova Gales do Sul e de Queensland, estão em vias de bater todas as marcas históricas. De facto, a actual vaga de incêndios florestais começou em meados de Novembro, muito antes da temporada australiana de incêndios que tem início em Dezembro e se estende até Março, tendo já queimado um milhão de hectares de floresta, o que faz aumentar as preocupações das autoridades e da população australiana. Os arredores da cidade de Sydney estão sob ameaça e têm sido invadidos por intensos fumos que, de resto, já atravessaram o oceano Pacífico e chegaram à Argentina a cerca de 12 mil quilómetros de distância!
A passada quarta-feira, dia 18 de Dezembro, entrou para a história australiana como o dia mais quente de sempre, com as temperaturas máximas médias a atingir os 41,9 graus. No dia anterior, a cidade de Nullarbor foi o local onde se registou a mais elevada temperatura que atingiu 49,9 graus, quando a temperatura máxima média do país foi de 40,9 graus.
O jornal The Sunday Telegraph veicula as apreensões das populações australianas em tempo de Natal.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A morna : de Cabo Verde para o mundo

Depois de em 2009 ter visto o centro histórico da cidade da Ribeira Grande, conhecido como Cidade Velha, ser classificado pela Unesco como património da Humanidade, a República de Cabo Verde viu agora aprovada a candidatura da morna a património cultural imaterial da Humanidade.
A morna é um género musical típico e é considerada a música-rainha de Cabo Verde, sendo uma mistura de estilos musicais com fortes raízes africanas e com influências da modinha luso-brasileira. É geralmente acompanhada por viola, cavaquinho, violino e piano, mas o instrumento clássico da morna é o violão, introduzido em Cabo Verde no século XIX.
Segundo um texto divulgado pela comissão de candidatura, a morna é uma canção melancólica “interpretada em crioulo cabo-verdiano por uma voz solista, homem ou mulher, apesar de existirem mornas apenas instrumentais, versando temas lírico-passionais e sendo muito vinculada ao sentimento do amor, ao sofrimento, à saudade, à ternura, à tristeza, à ironia e à boa ou má sorte do destino individual”.
Durante muitos anos a morna esteve confinada ao arquipélago de Cabo Verde e era pouco conhecida no exterior, até que surgiu Cesárea Évora que internacionalizou a morna cabo-verdiana. Por isso, o semanário Expresso das Ilhas ilustrou a primeira página da sua última edição com a fotografia de Cesárea, a rainha da morna que faleceu em 2011. Para quem ouviu a morna ser cantada no Mindelo há mais de cinquenta anos e depois viu Cesárea Évora actuar em Lisboa algumas vezes, a sua classificação pela Unesco é um motivo de grande satisfação e de aplauso.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

O Donald acusado e a América a tremer


Pela terceira vez em 243 anos da história dos Estados Unidos a sua Câmara dos Representantes acusou formalmente o Presidente com vista à sua destituição do cargo, ao aprovar ontem dois artigos de destituição, um por “abuso do poder” e outro por “obstrução à justiça”. O primeiro artigo de destituição era relativo ao abuso de poder e teve o voto favorável de 230 e a desaprovação de 197 deputados da Câmara dos Representantes, enquanto o segundo artigo que era relativo à obstrução à justiça, teve 229 votos favoráveis e 198 votos desfavoráveis. 
Os grandes jornais americanos encheram as suas primeiras páginas com a frase Trump impeached e o processo segue agora para o Senado que tem competência exclusiva sobre o assunto e avaliará se o Presidente dos Estados Unidos deve ou não ser demitido do seu cargo, isto é, fará o julgamento de Donald Trump. O Senado é presidido pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça e é composto por uma centena de senadores que actuam como jurados, mas é necessária uma maioria de dois terços dos senadores (67 em 100) para que as suas decisões sejam efectivas. Porém, a maioria republicana do Senado irá certamente rejeitar a acusação e “salvará” Donald Trump.
O processo nasceu da eterna luta entre Republicanos e Democratas, sobretudo quando se aproximam as eleições presidenciais de 2020, a que se juntou o particular comportamento populista e mentiroso de Donald Trump, mas o pretexto mais próximo foi a campanha de pressão montada sobre o presidente da Ucrânia, na qual Trump é acusado de pressionar ou “exigir” que fosse anunciada a abertura de investigações contra os Democratas americanos e em especial contra Joe Biden, que é um dos possíveis adversários de Trump nas eleições de 2020.
Naturalmente, pouco se pode esperar deste julgamento, mas o facto é que a reduzida credibilidade do Donald tem feito tremer o prestígio das instituições democráticas americanas.

domingo, 15 de dezembro de 2019

Salvador e a Baía: história e modernidade


A cidade de Salvador é a capital do estado brasileiro da Bahia e foi fundada por Tomé de Sousa na orla de uma grande baía, onde chegou em 1549 com três naus, duas caravelas e um bergantim que tinham saído de Lisboa com um milhar de colonos, soldados e missionários, com ordens do rei de Portugal para fundar uma cidade-fortaleza que seria baptizada como São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Até 1763 a cidade foi a sede da administração colonial portuguesa, tendo sido depois transferida para a cidade do Rio de Janeiro.
Hoje, a cidade de Salvador é a sede do terceiro município mais populoso do Brasil com cerca de 2,6 milhões de habitantes, só ultrapassado por São Paulo e Rio de Janeiro, sendo conhecida pela sua arquitectura colonial portuguesa, pela sua cultura marcadamente afro-brasileira e pelas suas características climáticas e paisagísticas tropicais.
A grande baía de Todos-os-Santos é limitada a oriente pela cidade de Salvador e a ocidente pela ilha de Itaparica, que tem 239 km2 de superfície, isto é, a ilha de Itaparica fica em frente da cidade de Salvador, do outro lado da baía, a cerca de 13 km de distância. Dizem os roteiros que os ferry-boats demoram uma hora nessa travessia. Porém, o governador Rui Costa anunciou ontem que um consórcio integrando três empresas chinesas venceu o concurso para a construção de uma ponte Salvador-Itaparica num investimento de seis mil milhões de reais, dos quais 25% serão da responsabilidade do Estado. É o maior projecto de infraestruturas realizado no Brasil nos últimos anos e, com 12,3 km de extensão, a ponte será a segunda maior da América Latina. O consórcio terá um ano para elaborar o projecto e quatro anos para a sua construção, ficando com a gestão e administração do empreendimento por 30 anos. 
A cidade de Salvador e o Estado da Bahia, bem como cerca de dez milhões de pessoas, já estão em festa e a nova ponte vai seguramente inspirar o Carnaval baiano, como hoje sugere o jornal Tribuna da Bahia.