domingo, 7 de fevereiro de 2021

Quando as pistas da neve se tornam dunas

O noticiário corrente da imprensa dos países da Europa ocidental está centrado na evolução da pandemia e nos problemas com a falta de vacinas ou com a sua abusiva utilização, para além das coisas do futebol, parecendo por vezes que não há outros assuntos com interesse. Porém, diversos jornais franceses destacam hoje um fenómeno surpreendente e invulgar ocorrido nas regiões sudeste e leste do país, que “pintou” a paisagem de amarelo alaranjado. Tratou-se do efeito do siroco, um vento quente e seco, que sopra desde o deserto do Saara, muitas vezes sob a forma de tempestades de areia e que habitualmente se dissipa sobre o mar Mediterrâneo, embora por vezes atinja o sul da Itália e mesmo as praias da Riviera francesa.
O fenómeno acontece nos meses de Verão mas muito raramente, mas desta vez aconteceu em pleno Inverno e atingiu diversas regiões francesas, sobretudo a Auvérnia-Ródano-Alpes e a Lorena, a mais de quinhentos quilómetros de distância. No departamento de Isère e na sua capital que é a cidade de Grenoble, “le ciel est devenu jaune”, segundo salienta o jornal local Le Dauphiné, enquanto na vizinha estação de desportos de Chamrousse houve chuva de areia e as montanhas que estavam cobertas de neve se transformaram em dunas, pelo efeito da queda de partículas de areia em suspensão, como mostra uma fotografia que o jornal publicou em primeira página. O fenómeno não é nada comum, pelo que até parece tratar-se de mais um efeito das alterações climáticas que se estão a verificar no nosso planeta.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Os cinco sentidos em tempo de pandemia

Em vez de insistir nas notícias sobre as eventuais irregularidades na distribuição das vacinas, ou sobre a falta de computadores portáteis nas escolas ou, ainda, sobre os resultados do futebol no dia anterior, o jornal Público destaca as especiarias na primeira página da sua edição de hoje. Num tempo de uma enorme especulação jornalística, quando não de descaradas e desonestas mentiras numa competição pelo sensacionalismo e de luta pelas audiências, trata-se de uma boa opção editorial daquele diário, até porque todos começamos a ficar cansados de ouvir tantos irresponsáveis que nos entram em casa através das televisões e de ver manchetes de jornais que nos querem fazer crer que tudo corre mal no país, o que não é verdade.
A imagem da capa do jornal Público recorda-nos os cinco sentidos de que o ser humano dispõe, que lhe facilitam o convívio com o ambiente que o rodeia – visão, audição, olfato, paladar e tacto – permitindo-lhe a captação de imagens, sons, sabores, odores e formas.
Assim, um bailado desperta-nos a visão, a música alimenta-nos a audição e um perfume estimula-nos o olfato, enquanto as especiarias nos entusiasmam não só com a diversidade das suas cores e com a intensidade dos seus odores mas, sobretudo, porque são um estímulo incontornável para o paladar.
Em tempos de pandemia e de confinamento, a activação dos nossos sentidos é uma necessidade para a manutenção de uma saudável forma física e mental, não só para resistir aos efeitos da crise pandémica, mas também para evitar os efeitos perniciosos das distorções da comunicação social e de muitos dos seus agentes. Por isso, hoje vou exercitar o meu paladar e vou recorrer ao take away, procurando consolar-me na ementa do Delhi Darbar, ali na lisboeta Avenida de Roma.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Marta Temido, a pandemia e o aplauso

Atravessamos uma enorme crise pandémica cujas consequências vemos expressas todos os dias em comunicados que nos dão a dimensão de uma tragédia, mas para além desta realidade há uma crise económica e social que se vai revelando e cujos contornos são imprevisíveis. 
Vivemos num templo absoluto de incerteza para o qual não estávamos preparados e, quando estas situações acontecem, revelam-se as pessoas que se mostram à altura das circunstâncias e aquelas que “abandonam o barco”, que fogem às suas responsabilidades e se refugiam na crítica ao que corre menos bem.
Na primeira linha deste combate estão o SNS e os profissionais de saúde que, todos os dias, se arriscam nos hospitais e nos centros de saúde, mas do outro lado está a irresponsável crítica das ordens profissionais, o oportunismo dos que pretendem tirar vantagem da situação que vivemos e, sobretudo, o lamentável comportamento de muitos jornalistas, muitas vezes mentiroso, manipulador e ausente de ética profissional. Numa altura em que deveriam cumprir o seu dever social de transmitir confiança à população e apoiar os esforços das autoridades de saúde, muitos jornalistas fogem ao esclarecimento dos telespectadores, dos ouvintes ou dos leitores, procurando descobrir sensacionalismo naquilo que sai da norma ou que não correu bem. Alguém já chamou a este vergonhoso comportamento o “assador mediático”, para o qual contribuem jornalistas e comentadores irresponsáveis. Naturalmente que há erros mas, tal como dizia Bento de Jesus Caraça, que não receava o erro porque estava sempre pronto a emendá-lo, também agora se emendam os erros de um plano que, por definição, tem que ser flexível e ajustado às novas evidências.
Assim, aqui se presta homenagem a Marta Temido, a corajosa Ministra da Saúde, que para além de enfrentar as incertezas desta pandemia e os inoportunos ataques de alguns adversários políticos, ainda tem que conviver com muitos daqueles que desprestigiam a ética e a deontologia jornalísticas. Bravo!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Cristiano Ronaldo, o grande recordista

O futebol é um dos fenómenos culturais mais importantes nas sociedades modernas, pois atrai o interesse geral e alimenta uma imprensa desportiva que trata de esmiuçar tudo o que diz respeito ao jogo e, em especial, em relação aos jogadores, aos técnicos, às claques e a todo o fait divers dessa actividade que, ao mesmo tempo, é um desporto, um espectáculo e um negócio.
A imprensa desportiva dá uma enorme importância às estatísticas, sobretudo às estatísticas do golo, que é o momento central do futebol. Os jogadores que marcam os golos, conhecidos como artilheiros ou pontas de lança, tornam-se as figuras principais do espectáculo e as estatísticas tratam de nos dizer quem marcou mais golos com o pé esquerdo ou com o pé direito, de cabeça ou de livre directo. Os outros jogadores parecem ter pouca importância, a não ser o guarda-redes quando defende um penalti ou quando dá um frango.
Neste quadro, há estatísticas para todos os gostos. Porém, segundo nos revelam hoje as estatísticas do diário espanhol Marca, os dois golos que Cristiano Ronaldo ontem marcou em Milão à equipa do Inter na primeira mão da Taça de Itália, tornaram-no o maior goleador da história do futebol, tendo ultrapassado o checo Josef Bican e o famoso Pelé, que partilhavam o topo desta lista com 762 golos. O jornal espanhol descrimina os golos de Cristiano Ronaldo: 102 com a selecção nacional, cinco com o Sporting, 118 com o Manchester United, 451 com o Real Madrid e 87 com a Juventus. Nenhum jornal português, desportivo ou generalista, falou desta performance de Cristiano Ronaldo, mas não há dúvidas ele é o mais importante português da actualidade e que a sua notoriedade e prestígio internacionais não deixam espaço para mais ninguém.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Uma tempestade de neve em Nova Iorque

A cidade de Nova Iorque está aproximadamente na mesma latitude da cidade de Lisboa, mas por causa das correntes marítimas e de outros factores meteorológicos, as temperaturas nas duas cidades dos dois lados do Atlântico têm diferenciais da ordem dos 15 a 20 graus durante o inverno. Por isso, todos os anos, vemos os grandes nevões que cobrem Nova Iorque e a região nordeste dos Estados Unidos, enquanto na orla continental portuguesa não há quedas de neve, as temperaturas são amenas e por vezes há dias primaveris.
Este ano as tempestades de neve foram mais intensas do que habitualmente e a cidade de Nova Iorque está em estado de emergência, com a neve a acumular-se desde há cerca de 48 horas e a atingir meio metro de altura. Como é habitual, a rede de transportes está bloqueada, enquanto os aeroportos e as escolas estão encerrados por algumas horas ou dias e, este ano, a tempestade fez com que a campanha de vacinação em curso na cidade e na região tivesse que ser suspensa, tal como as consultas marcadas nos hospitais.
O New York Post destacou hoje a notícia da tempestade de neve e chamou-lhe a snovid-21, por analogia com a covid-19, salientando que ao confinamento mais ou menos forçado devido ao covid-19, se juntou agora o confinamento devido ao snovid-21, embora a neve tenha tornado o cenário mais agradável à vista. O jornal ilustra a sua capa com um nova-iorquino protegido contra o frio e diz que, neste caso, eles até já têm máscaras. Em tempo de tanta angústia não fica mal um pouco de humor…

domingo, 31 de janeiro de 2021

Palmeiras ganhou e o exagero é português

Em tempos da preocupante pandemia que não nos larga, com as televisões a insistir no lançamento do pânico sobre a população através de um condenável sensacionalismo, o futebol é um dos escapes que vamos tendo nos espaços do nosso confinamento, para além da leitura, da música ou da escrita. 
O futebol, enquanto espectáculo colorido, dinâmico e por vezes com a harmonia de um bailado, suscita muito entusiasmo e, se não nos deixarmos levar pelo fanatismo e pelos excessos dos dirigentes, dos jornalistas e dos comentadores, é realmente um espectáculo muito atraente e divertido. 
Os portugueses gostam de futebol e actualmente a sua selecção é campeã da Europa. Há jogadores e treinadores portugueses um pouco por todo o mundo e, muitos deles, com reconhecido sucesso. Ontem, um desses treinadores, que se encontra no Brasil e se chama Abel Ferreira, levou a equipa da Sociedade Esportiva Palmeiras de S. Paulo, ou simplesmente Palmeiras, à vitória na Taça Libertadores da América, que é a maior prova entre clubes profissionais de futebol da América do Sul e uma espécie de Taça dos Campeões Europeus. A prova desperta grande entusiasmo em toda a América do Sul e os argentinos e os brasileiros, com 25 e 20 vitórias para cada um, têm dominado a competição que já foi ganha por equipas de sete diferentes países.
Tanto a imprensa brasileira como a imprensa portuguesa destacam essa notícia nas suas edições de hoje, mas o jornal A Bola ultrapassa todos e transforma o treinador Abel Ferreira num conquistador, o que é um exagero, mesmo para um jornal que como o seu nome diz, só se interessa pela bola de futebol. É mesmo um "patrioteirismo sem sentido" e a euforia brasileira foi bem mais contida. Portanto, parabéns ao treinador, mas nem tanto ao mar nem tanto à terra

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Vendée Globe 2021: oitenta dias de mar

Começaram a chegar a Les Sables-d’Olonne, na costa atlântica francesa, os participantes na 9ª Vendée Globe, a famosa regata em que os participantes fazem a circum-navegação do planeta em monocascos e em solitário, sem escala e sem assistência, passando obrigatoriamente pelos três cabos de referência do hemisfério sul – cabo da Boa Esperança, cabo Leeuwin e cabo Horn. 
As imagens transmitidas pelas televisões mostraram as dificuldades de uma prova desta natureza, longa, solitária e sem assistência, em que os participantes enfrentam todas as meteorologias, incluindo tempestades e calmarias, mares agitados e ausências de visibilidade. Terminar uma prova destas é um feito náutico e desportivo notável. 
Nesta edição, houve 33 velejadores que partiram no dia 8 de Novembro de Les Sables-d’Olonne. Ontem ainda estavam em prova 25 concorrentes e oito deles cortaram a linha de chegada em menos de 24 horas, o que mostra como a prova foi competitiva. Yannick Bestaven, um velejador francês de Saint-Nazaire de 48 anos de idade, foi o vencedor com o veleiro Maître Coq IV e concluiu a prova em 80 dias, 3 horas, 44 minutos e 46 segundos, o que significa que não foi batido o record de 74 dias, 3 horas, 35 minutos e 46 segundos conseguido em 2017. 
Apesar da melhoria tecnológica das embarcações, o factor determinante nesta prova é o vento, pois determina as velocidades dos veleiros e condiciona as rotas, tornando-as mais ou menos longas. Assim, enquanto em 2017 o navegador francês Armel Le Cléac’h percorrera 21.638 milhas, neste ano de 2021 o velejador Yannick Bestaven percorreu cerca de 28.584 milhas, isto é, mais alguns milhares de milhas, pelo que gastou mais seis dias na prova. 
Hoje o jornal L’Équipe presta-lhe uma justa homenagem.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O património ameaçado em Velha Goa

Embora o território de Macau tivesse gozado sempre de grande autonomia e quase pudesse ser classificado como um estado-nação governado por um Senado ou assembleia de moradores, durante os primeiros três séculos em que hasteou a bandeira portuguesa dependeu do vice-rei da Índia, instalado em Goa. Essa ligação administrativa e institucional durou até 1844 quando foi criada a província de Macau, Timor e Solor, dirigida por um governador nomeado em Lisboa, mas dessa relação histórica ficaram memórias e empatias, até porque os goeses são, ainda hoje, uma importante comunidade no território de Macau. Por isso, os jornais macaenses de língua portuguesa tratam muitas vezes os assuntos culturais goeses, sobretudo em relação à defesa e preservação da língua e do património portugueses em Goa. 
Ontem o jornal hoje macau publicou um artigo intitulado “Valha-nos Portugal”, com chamada de primeira página, em que o arquitecto goês Fernando Velho apela à intervenção de peritos portugueses para salvar a Basílica do Bom Jesus em Velha Goa, que está ameaçada pelas chuvas. Este monumento foi construído entre 1594 e 1605, faz parte do grupo de igrejas e conventos que a Unesco classificou em 1986 como Património Mundial e alberga o túmulo em prata de S. Francisco Xavier, considerado como o apóstolo do Oriente. 
No entanto, a preservação do património de origem portuguesa nos países da orla do oceano Índico, é um problema de cada um dos países onde se localizam. Se for do seu interesse, esses países podem pedir o apoio das instituições portuguesas. Porém, sejam elas públicas ou privadas, não podem ter qualquer intervenção nesse domínio sem que as autoridades locais a solicitem ou autorizem. Há protocolos culturais com alguns desses países, nomeadamente com a Índia. Que sejam activados ou reactivados. Que a Basílica do Bom Jesus e outros monumentos de origem portuguesa possam ser preservados.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

A Índia, o Republic Day e a grande parada

Ontem foi o Republic Day, um feriado nacional que na República da Índia celebra o dia 26 de Janeiro de 1950, a data em que entrou em vigor a Constituição e o novo país se tornou realmente independente do Reino Unido.
A independência da Índia tinha sido declarada ao mundo por Jawaharlal Nehru às primeiras horas do dia 15 de Agosto de 1947 e o seu discurso dessa madrugada inspirou o título do mais famoso livro sobre a conturbada independência da Índia, escrito por Dominique Lapierre e Larry Collins: Freedom at midnight. Foi então necessário redigir e aprovar um texto constitucional que substituísse a legislação colonial britânica que estava em uso e essa nova Constituição entrou em vigor no dia 26 de Janeiro de 1950. Essa data passou a ser o Dia da República que todos os anos é assinalada com “pompa e circunstância”, como nenhuma outra festa nacional indiana, destacando-se nessas celebrações a grandiosa India’s Republic Day Parade que se realiza em Nova Delhi, sempre com a presença de um Chief Guest ou Convidado de Honra, que em 1992 foi Mário Soares. 
Apesar da pandemia, a parada foi uma vez mais espectacular, não tanto pela apresentação de sofisticadas armas como se podem ver nas paradas de Moscovo, Beijing ou Pyongyang, mas pelo colorido e pelo exotismo dos fardamentos dos militares que participam no interminável desfile de batalhões das forças de terra, mar e ar indianas. Este ano a India’s Republic Day Parade foi ofuscada por milhares de agricultores indianos que foram a Nova Delhi protestar contra as reformas levadas a efeito pelo governo, rompendo barricadas, enfrentando a polícia e escalando as paredes do simbólico Red Fort de New Delhi. Segundo refere a imprensa, Rahul Gandhi e Pryanka Gandhi Vadra, os líderes do Partido do Congresso actualmente na Oposição, juntaram-se ao protesto em solidariedade com os agricultores. Acontece que estes dois dirigentes são bisnetos de Jawaharlal Nehru, netos de Indira Ghandi e filhos de Rajiv Ghandi e Sonia Gandhi, isto é, pertencem à mais importante família de políticos indianos... e, diz o destino, que um dia serão primeiros-ministros da Índia, tal como o pai, a avó e o bisavô.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

As eleições presidenciais de 2021

As eleições presidenciais realizaram-se ontem e 60,7% dos eleitores portugueses renovaram o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, o que significa que reconheceram mérito na forma como se conduziu como Presidente da República Portuguesa nos últimos cinco anos. Tem sido sempre assim desde 1974, isto é, o presidente em exercício sempre renovou o seu mandato e este ano não se esperava outra coisa. 
A vitória foi expressiva e não deixa qualquer margem para dúvidas, devendo assinalar-se que a campanha eleitoral decorreu sem casos e em boa ordem democrática, mas os comentadores tratarão de fazer as suas análises nos próximos dias. 
Por mais cinco anos, Marcelo Rebelo de Sousa vai ser o Presidente de todos os portugueses, mesmo daqueles que não votaram nele. O desafio vai agora ser bem mais difícil porque continuamos sem saber como vai evoluir a crise pandémica que se transformou numa grave crise sanitária, económica e social, nem sabemos como resistirá o governo ao desgaste provocado por um tão prolongado combate à pandemia, muitas vezes sob a crítica e a incompreensão dos seus adversários políticos que, mesmo sob o temporal, não lhe dão tréguas. 
Marcelo Rebelo de Sousa tem o apoio dos portugueses, é inteligente, culto e cosmopolita, mas o estilo marcelista é demasiado populista e de calculismo nos afectos, o que não é do meu agrado, tal como a sua ânsia de ser visto e admirado por toda a gente. Tem vivido obcecado com a sua imagem e cheguei a temer que o seu excessivo apego aos microfones e às câmaras, que encheu horas de telejornais, provocasse fenómenos de rejeição, porque por vezes o povo farta-se. Porém, o povo não se fartou e deu-lhe um expressivo voto de confiança. 
Pois que seja feliz e nos ajude a vencer a grave situação que o país atravessa.

Aniversário

Completam-se hoje dez anos sobre a data em que a ruadosnavegantes entrou na blogosfera e é com satisfação que assinalamos aqui esse facto, pois significa que conseguimos vencer o desafio a que nos propusemos de navegar sem qualquer programa pré-estabelecido, apenas por gosto pessoal e sem estar sujeitos a quaisquer constrangimentos partidários, religiosos, clubísticos ou de outra natureza. 
Durante dez anos estivemos envolvidos num exercício de escrita que muito nos ajudou a vencer a tendência para a atrofia do espírito e a combater a rigidez do pensamento, a que a idade naturalmente nos conduz. Aqui foram publicados 2856 textos sobre os mais diversos temas, uns mais oportunos e interessantes, mas outros mais enviesados e aborrecidos, mas seguindo sempre o nosso próprio pensamento na escolha temática e nas abordagens aos relatos, às opiniões, às críticas ou aos elogios. 
Algumas dezenas de leitores acompanharam regularmente o que aqui escrevemos, alguns deles a partir de locais geograficamente bem distantes, como nos revelam os nossos amigos do Google analytics. Estamos-lhes gratos e, de maneira especial, agradecemos aos leitores/amigos que nos animaram com os seus comentários. 
Há dez anos iniciamos a ruadosnavegantes com um texto intitulado “Eleições Presidenciais 2011” e, curiosamente, vamos iniciar a caminhada do nosso décimo primeiro ano de vida editorial com um texto que vamos intitular “Eleições Presidenciais 2021”, o que mostra que continuaremos a seguir a mesma forma de intervenção no espaço público. 
Naturalmente, iremos procurar que os nossos leitores continuem a encontrar aqui alguns assuntos interessantes.

domingo, 24 de janeiro de 2021

O voto como afirmação de confiança

Hoje temos eleições presidenciais e, apesar das restrições a que estamos obrigados para evitar a propagação do covid-19, todos devemos ir votar. Votar é um dever e um direito e muitos portugueses ainda se lembram dos tempos em que não havia eleições ou, se as havia, nada mais eram do que encenações com que o antigo regime disfarçava as suas posturas não democráticas. 
Hoje vamos votar e cada um escolhe o candidato que melhor corresponda aos seus ideais e anseios, que melhor o represente ou que melhor nos represente a todos enquanto comunidade organizada, que desde há muitos séculos partilha território, língua, tradições e história. Hoje, nas assembleias de voto, haverá sete candidatos perfilados para receberem os nossos votos. Entre os candidatos há homens e mulheres, há conservadores e há progressistas. Todos apresentaram os seus programas e as suas ideias no espaço público em liberdade e sem quaisquer restrições. Os eleitores estão esclarecidos e podem livremente escolher. Assim, o que se deseja é que cada eleitor vá votar e que ninguém fique indiferente, porque hoje não se escolhe apenas um Presidente. O acto de votar é, em si mesmo, um sinal de resistência à crise pandémica que nos atormenta e nos ameaça. O nosso voto não escolhe apenas um Presidente da República, pois é também um sinal de confiança no futuro.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Biden and the morning after in America

Ontem foi o primeiro dia da presidência de Joe Biden como 46º Presidente dos Estados Unidos da América e é curiosa a forma como duas das mais prestigiadas revistas internacionais, como são The Economist e a Time, ilustraram as suas primeiras páginas. Até parece que abandonaram a sua rivalidade editorial e que combinaram a escolha da mesma temática para as suas primeiras edições da era pós-Trump. Se a Time mostra um Joe Biden pensativo perante o pandemónio em que encontrou o seu gabinete presidencial, já The Economist mostra Joe Biden de calças arregaçadas, armado de balde e esfregona, pronto para limpar as paredes vandalizadas da Casa Branca. 
Qualquer das ilustrações transmite na perfeição a realidade que terá sido o encontro do novo presidente dos Estados Unidos com os espaços da Casa Branca onde vai trabalhar, para conduzir a América com prosperidade e paz, para unir os americanos e para restaurar o prestígio dos Estados Unidos no mundo. Será a partir desta casa, que o seu antecessor deixou desgovernada e abandonada de uma forma irresponsável, que Joe Biden vai procurar que os Estados Unidos possam ser o farol do mundo na Política e na Economia, na Ciência e na Cultura. O mundo precisa que a mais poderosa nação do planeta seja uma referência e não seja um foco de permanente instabilidade como aconteceu durante a governação do empresário Donald John Trump, um dos quatro presidentes que não conseguiu ser reeleito e o único da história americana que teve dois impeachments.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

A grave situação pandémica portuguesa

A situação pandémica em Portugal atingiu proporções muito dramáticas e já estão contabilizados 9.686 óbitos, enquanto os indicadores “novos casos por dia”, “internamentos, “internamentos em UCI” e “óbitos” continuam a aumentar, sem que seja possível fazer o achatamento da curva de progressão da pandemia. 
Jornal de Notícias destaca na primeira página da sua edição de hoje um sugestivo gráfico que mostra a evolução daqueles indicadores nos últimos cinquenta dias, onde fica a dúvida se ainda estamos perante uma segunda onda, ou se já entramos numa terceira onda, como afirmam alguns especialistas. A situação é demasiado grave e, nos últimos dias, o número diário de novos infectados chegou a cerca de catorze mil, enquanto os hospitais se aproximam da saturação e alguns profissionais de saúde estão próximos da exaustão. 
Não se conhece a explicação para esta situação, mas alguns invocam os relaxamentos natalícios, outros a euforia pela chegada das vacinas, outros ainda a faltas de medidas adequadas por parte das autoridades sanitárias. Mesmo numa situação tão grave como aquela que nos ameaça, não faltam os protagonistas do costume que que aparecem nas televisões a criticar e a dramatizar, em vez se unirem às autoridades para ajudar a vencer a crise. Não faltam especialistas, nem jornalistas, nem políticos para apontar todos os males ao governo e às autoridades sanitárias, como se fossem marginais e não zelassem pelo interesse público. No caso dos jornalistas é lamentável o esforço que fazem para construir a sua notícia verdadeira ou falsa, mas tão sensacionalista quanto possível, mesmo que para isso tenham que alarmar a população, criticar as autoridades sanitárias ou desacreditar o Serviço Nacional de Saúde. É um jornalismo da treta que não percebe como são difíceis os tempos que atravessamos.

A Democracia é frágil mas prevaleceu

“A Democracia é frágil mas prevaleceu”, afirmou Joe Biden no seu discurso de posse como 46º presidente dos Estados Unidos e essa foi a frase escolhida pelo Diário de Notícias para título da sua edição de hoje. 
Depois da turbulência gerada por essa figura que foi o derrotado Trump, que se revelou insignificante e menor, havia uma quase angústia pelo que poderia acontecer no dia 20 de Janeiro em Washington. Porém, as cerimónias decorreram com toda a normalidade, dentro da anormalidade que é a situação pandémica que se vive, mas também da ameaça de que pudessem surgir eventuais perturbações causadas pelos mais fanáticos apoiantes do anterior presidente. Afinal, parece que a cena do Capitólio foi “só fumaça” e que, embora de muita gravidade, foi mais uma das trapalhadas em que se meteu o anterior inquilino da Casa Branca. 
O Donald saiu pela porta pequena e, a menos que tenha deixado o terreno minado, em breve vai ser esquecida a sua desastrada passagem pela Casa Branca, apesar de ter atraído muitos milhões de votantes. O mundo vai respirar melhor e espera-se que os Estados Unidos possam rapidamente restaurar o seu prestígio no mundo e que se imponham pelo exemplo. Joe Biden e Kamala Harris afirmaram o seu desígnio de unir os americanos e revitalizar a democracia americana e, no seu discurso, o novo presidente apontou o objectivo de “fazer da América um farol para o mundo”. Cada vez mais, o mundo precisa de faróis que o guiem, mas também é necessário que Biden e Harris sejam os faroleiros de que a América precisa.