quinta-feira, 24 de março de 2022

Os 50 anos do 25 de Abril e da liberdade

Ontem completaram-se 17.500 dias de vida do regime democrático português nascido em 25 de Abril de 1974, que acabou com a ditadura imposta ao povo português desde 28 de Maio de 1926, que também durara exactamente 17.500 dias. Hoje, a democracia portuguesa ultrapassa o tempo de duração da ditadura e é caso para dizer que atingiu a sua maioridade. Disse Winston Churchill que “a democracia é a pior forma de governo, com excepção de todas as demais”. É uma bela frase que traduz uma verdade, como sabem aqueles que em Portugal conheceram e podem comparar o que foram o outro regime e o que é este que temos.
Porém, a celebração do 25 de Abril não pode ser apenas a evocação de uma data histórica e libertadora, mas deverá ser um ponto de partida para que possamos construir uma sociedade melhor, mais informada, mais culta, mais sadia, mais justa e mais solidária. Essa é a mensagem do 25 de Abril que havemos de preservar.
Ontem, no Pátio da Galé em Lisboa, começaram as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril com uma cerimónia solene e institucional, que teve a presença das mais altas figuras do Estado e que teve transmissão televisiva em directo em que, para além dos discursos circunstanciais, houve uma vertente cultural com espaço para a poesia e para a música. A presença do histórico Bula, o carro de combate ou chaimite que recolheu Marcelo Caetano no quartel do Carmo na tarde do 25 de Abril, tal como os cravos vermelhos em algumas lapelas, foram os sinais mais simbólicos dessa madrugada libertadora de há quase cinquenta anos. Incluída na cerimónia que foi simples e cheia de dignidade, foi encerrada uma cápsula do tempo, contendo um conjunto de objectos e de materiais, para ser aberta apenas em 2074.
A imprensa não deu qualquer importância àquela cerimónia, mostrando-se mais interessada no anúncio do XXIII Governo Constitucional, na evolução da guerra na Ucrânia e no jogo de futebol desta noite entre Portugal e a Turquia.
A revista Visão foi a excepção que se saúda e destacou-se na evocação dos 17.500 dias de liberdade que nos trouxe o 25 de Abril de 1974. Na capa da sua edição de hoje, aquela revista homenageia Salgueiro Maia, o capitão que a História consagrou como o símbolo maior desse dia libertador.

terça-feira, 22 de março de 2022

Os amigos de Putin e as eleições francesas

A edição de hoje do diário francês L’Humanité, um jornal que tem 117 anos de idade e que até 1994 foi o órgão oficial do Partido Comunista Francês, exibe na sua capa uma fotografia em que Vladimir Putin cumprimenta Marine Le Pen, mostrando a palavra “fascínio” como título dessa imagem. Depois, em sub-título, o jornal acrescenta que “seduzidos pelo autoritarismo do chefe do Kremlin, Marine Le Pen e Éric Zemmour reforçaram os laços políticos, ideológicos e financeiros com o regime russo”, isto é, a extrema-direita está fascinada com Putin.
Entretanto, as eleições presidenciais francesas vão realizar-se nos próximos dias 10 e 24 de Abril e as últimas sondagens indicam as seguintes intenções de voto: Emmanuel Macron (27.5%), Marine Le Pen (20%), Jean-Luc Mélenchon (15%), Valérie Pécresse (10%) e Éric Zemmour (10%). As mesmas sondagens indicam que Macron será o vencedor na segunda volta, qualquer que seja o seu adversário.
Porém, com a invasão russa da Ucrânia, tanto Marine Le Pen como Éric Zemmour, ambos candidatos de extrema-direita, estão a enfrentar dificuldades devido às suas “positions pro-Russes”, pelo que vêm conduzindo uma “opération volte-face”. Já o candidato de esquerda Jean-Luc Mélenchon que admirava a política de Putin, foi o primeiro a desligar-se das posições de Moscovo, logo que começou a invasão da Ucrânia.
O tema da invasão russa da Ucrânia tem animado a campanha eleitoral francesa e, segundo o jornalista Benjamin Konig, a extrema-direita francesa e uma parte da direita estão profundamente ligadas ao “régime poutinien”. Poucos imaginariam isso.
Naturalmente, a actual crise na Ucrânia está bem presente na campanha eleitoral francesa e muitos candidatos têm apelado à retirada das tropas russas, mas também à não-intervenção da NATO, dos Estados Unidos e da União Europeia.

segunda-feira, 21 de março de 2022

O Saara Ocidental, a Polisário e Marrocos

O Saara Ocidental é um território litoral atlântico situado a sul de Marrocos, a norte da Mauritânia, limitado a ocidente pelo oceano Atlântico e a oriente pela Argélia e pela Mauritânia. É uma região desértica com cerca de 260 mil quilómetros quadrados de extensão e com cerca de seiscentos mil habitantes, mas que é rica em recursos naturais, principalmente fosfatos e pescas. 
Até 1975 foi uma colónia espanhola, tendo sido então iniciada a descolonização do seu território nos termos preconizados pelas Nações Unidas. O Acordo de Madrid assinado pela Espanha, Marrocos e Mauritânia, estipulava uma administração tripartida do território e em 1976 a Espanha abandonou o território. De imediato, a Frente Polisario (Frente Popular de Liberación de Saguia el Hamra y Rio de Oro), que já lutara contra o regime colonial espanhol, declarou a independência da República Árabe Saaraui Democrática. O Reino de Marrocos reagiu e ocupou militarmente uma grande parte do território e construiu um muro com mais de 2.740 quilómetros de extensão para isolar os separatistas saarauis, enquanto a Mauritânia se retirou do território. A partir de então e com o apoio da Argélia, a Frente Polisário iniciou uma guerra contra Marrocos e, apesar da desproporção de forças, conseguiu manter a sua luta até 1991, quando foi conseguido um cessar-fogo. Durante anos o processo de paz não vingou porque a presença militar marroquina se reforçou, o que originou muitas manifestações civis do povo saaraui que foram reprimidas com violência. A Espanha, enquanto potência administrante, sempre exigiu um referendo para que o povo saaraui escolhesse o seu destino, ao que Marrocos sempre se opôs, pelo que havia uma persistente tensão entre os governos espanhol e marroquino.
Agora, inesperadamente, o governo espanhol mudou de posição e parece aceitar que o Saara Ocidental venha a fazer parte do Reino de Marrocos, ao acolher uma proposta de autonomia apresentada pelos marroquinos, como ponto de partida para a resolução do conflito. Esta posição espanhola que não está de acordo com as orientações das Nações Unidas, foi criticada pela Argélia e pela China, mas também pela oposição espanhola que considera esta posição uma “traição histórica” ao povo saaraui. O jornal El Mundo que se publica em Madrid, diz mesmo que Sánchez "entrega el Sáhara 46 años después".

sábado, 19 de março de 2022

Marcelo em visita oficial a Moçambique

O presidente Marcelo Rebelo de Sousa está em visita oficial a Moçambique, o país que ele tem referido em diversas ocasiões como a sua segunda pátria. É muito positivo que os presidentes dos países amigos se encontrem, que partilhem informações e que reforcem laços de solidariedade, sobretudo quando estão a passar por situações difíceis, como acontece com Moçambique, devido à insurgência armada de natureza terrorista que afecta o distrito de Cabo Delgado que já provocou mais de três mil mortes e mais de oitocentos mil deslocados, mas também devido aos efeitos catastróficos provocados por fenómenos meteorológicos, designadamente depressões tropicais e cheias devastadoras. 
Quando um país passa por essas situações, a visita de um presidente amigo, cosmopolita e popular é, certamente, muito estimulante e muito apreciada pelas autoridades locais. A imprensa local, nomeadamente o jornal O País, destacou a visita como um grande acontecimento político.
O presidente Marcelo tem boas memórias da terra, pois o seu pai foi o governador-geral de Moçambique entre 1968 e 1970. Por isso, quando ontem esteve no palácio presidencial da Ponta Vermelha, que foi a sua residência quando o pai foi governador, declarou: “Sinto-me em Moçambique como se estivesse em casa. É a minha segunda pátria. E aqui, literalmente, neste palácio como se estivesse em casa”. Portanto, Marcelo foi um privilegiado pois viveu num palácio e não teve que andar durante dois anos de camuflado e G3 pelo Niassa e Cabo Delgado, então chamados os estados de Minas Gerais.
O presidente Marcelo fez-se acompanhar por uma comitiva cuja dimensão desconhecemos, mas que incluía muitos jornalistas, exactamente como o comentador Marcelo gosta, para encher os nossos noticiários televisivos com a sua imagem e os seus palpites sobre tudo e mais alguma coisa, incluindo assuntos que são da competência do Governo.  Como diria o famoso Diácono Remédios, não havia necessidade...

quinta-feira, 17 de março de 2022

A Ucrânia e os negócios do armamento

A Crimeia é uma península situada na orla setentrional do mar Negro e uma república autónoma da Ucrânia, mas foi invadida e anexada pela Rússia em 2014, na sequência do movimento conhecido por Euromaidan, que destituiu o presidente Yanukovych. Nessa altura, o conflito entre russos e ucranianos, ou entre a ligação à Rússia ou à União Europeia, acentuou-se e a Rússia decidiu ocupar a Crimeia. Essa invasão foi condenada pela comunidade internacional, especialmente pelos países europeus, mas a Rússia argumentou com os fortes laços históricos e culturais que mantinha com a Crimeia e com os resultados de um referendo. Porém, os Estados Unidos e a União Europeia consideraram esse referendo ilegítimo e, em Julho de 2014, anunciaram um pacote de sanções contra a Rússia em que se incluía o embargo de armamento, que proibia “a venda, fornecimento, transferência ou exportação directa ou indirecta de armas e material conexo”.
Passaram-se oito anos e a Rússia invadiu o território da Ucrânia, dando origem a uma guerra de grande violência, com muita destruição, muitos refugiados e muita apreensão. Numa altura em que é unânime a condenação da Rússia e em que se procura o cessar-fogo e a paz, a notícia de que um terço dos estados-membros da União Europeia exportou armamento para a Rússia, violando o embargo decretado em 2014, é muito chocante e revela a hipocrisia que domina as relações internacionais. A informação foi hoje divulgada pelo jornal Público, com base nas revelações do consórcio Investigate Europe e indica que mísseis, foguetes, torpedos, bombas e cargas explosivas, mas também “equipamento de imagem, aviões com os seus componentes e drones” foram fornecidos à Rússia e que, segundo o jornal, poderão estar a ser usados na Ucrânia.
A França foi o país que mais exportou para a Rússia, utilizando uma lacuna na legislação que proíbe a venda de equipamento militar àquele país, seguindo-se a Alemanha, Itália, Áustria, Bulgária, República Checa, Croácia, Finlândia, Eslováquia e Espanha. 
Haverá hipocrisia maior do que esta?

terça-feira, 15 de março de 2022

A Ucrânia, as balas e a comunicação

Na guerra que está a devastar a Ucrânia há todos os pontos de vista que nos chegam diariamente através de notícias e de comentários, com argumentos a favor ou contra cada uma das partes, uns mais moderados e outros mais radicais.
Hoje o jornal El País e alguns outros jornais, publicaram uma curiosa fotografia, captada durante a emissão do principal noticiário nocturno da televisão russa, intitulado Vremya, que é transmitido no Piervy Kanal. Enquanto a jornalista lia as notícias em directo, uma pessoa colocou-se atrás dela com um cartaz onde se lia, em russo e em inglês, “não à guerra”, “parem a guerra”, “não acredites na propaganda” e “russos contra a guerra”. Significa que, mesmo na Rússia, não há unanimidade quanto à guerra, como mostrou a mensagem exibida em directo na televisão russa. Aquela imagem tem o efeito de uma bala.
A comunicação mostra-se uma arma tão decisiva como os aviões, a artilharia ou os mísseis e, nessa medida, ocorre-nos uma famosa teoria sociológica ou modelo de comunicação que vingou sobretudo no período entre as duas guerras mundiais e que teve no sociólogo americano Harold Lasswell um dos seus principais teorizadores. Chamou-se a teoria hipodérmica ou a teoria das balas mágicas, porque no processo de comunicação compara a mensagem à injecção de uma seringa que afecta todo o corpo humano, ou a uma bala que atinge cada pessoa e a massa de público, produzindo poderosos efeitos políticos, sociais e culturais. Assim, através da propaganda, da publicidade e de outras técnicas, mais ou menos assumidas, a comunicação de massa tem características manipuladoras junto do público. Embora a teoria tenha sido criticada durante muitos anos, o facto é que veio a ter sucesso por considerar semelhantes os efeitos das mensagens e das balas.
Hoje, provavelmente, os mesmos académicos que criticaram a teoria de Lasswell poderão estar a rever as suas críticas.

segunda-feira, 14 de março de 2022

Clausewitz e a gasolina sobre a fogueira

Ontem o jornal The New York Times escolheu para título da sua primeira página a frase “U.S. will send more arms, defying Moscow” e, na sua edição de hoje, o mesmo jornal escolheu o título “Moscow hits military base near Poland”. Estes dois títulos mostram como a situação na Ucrânia é complexa. Num dia é dito que “os americanos vão mandar mais armas para a Ucrânia, desafiando Moscovo” e, no dia seguinte, é dito que “Moscovo atinge uma base militar ucraniana perto da fronteira polaca”.
A base militar atacada pela Rússia está localizada em Yavoriv, a cerca de vinte quilómetros da fronteira polaca e, segundo o noticiário internacional, servia de campo de treino das forças ucranianas e de voluntários estrangeiros, sob a supervisão de instrutores estrangeiros, sobretudo americanos e canadianos, bem como ponto de recolha da ajuda militar disponibilizada por vários países à Ucrânia. 
É um caso evidente da lei de talião, ou de “olho por olho, dente por dente”, que mostra que o verdadeiro combate não é entre russos e ucranianos e que, portanto, uns e outros, estão a ser vítimas das lutas pela hegemonia mundial.
De imediato, alguma imprensa internacional tratou de atirar mais gasolina para a fogueira, trazendo a NATO “para o barulho” e escrevendo títulos como “war reaches Nato border” (The Times), “Russia strikes near Poland border” (The Wall Street Journal) ou “Putin bordea el territorio Otan” (El País).
Karl von Clausewitz, um general prussiano que participou nas guerras napoleónicas e que também foi um grande pensador, escreveu há quase duzentos anos que “a guerra nada mais é que a continuação da política por outros meios”. A guerra desencadeada no dia 24 de Fevereiro com a invasão russa da Ucrânia, confirma a tese de Clausewitz. Há que parar com a guerra e reconduzir o conflito bélico ao seu patamar político.

domingo, 13 de março de 2022

A intervenção do Papa pode trazer a paz

A famosa revista The New Yorker que se dedica sobretudo à cobertura da vida cultural da cidade de Nova Iorque, vulgarmente conhecida como a Big Apple, tem uma circulação semanal superior a um milhão de exemplares e tem leitores não só na grande metrópole dos Estados Unidos, mas também em todo o território americano. O seu conteúdo consta de críticas, ensaios, reportagens de investigação e, por vezes, textos de ficção. A sua característica urbana e cosmopolita, bem como os seus comentários sobre a vida da cidade, a cultura popular e as suas práticas, associados ao seu humor inteligente e perspicaz, conferem a esta revista uma enorme reputação, quer entre o público, quer entre a comunicação social americana.
Na sua mais recente edição, a revista publica uma gravura de homenagem à Ucrânia e ao seu líder Volodymyr Zelensky e inclui um artigo intitulado “O Papa, os Patriarcas e a batalha para salvar a Ucrânia”, assinado por Paul Elie, no qual faz uma pergunta: outros Papas conseguiram temperar tiranos; Francisco pode fazer alguma coisa sobre Vladimir Putin?
O longo texto aborda o tradicional papel dos Papas na mediação dos conflitos e refere o encontro do Papa Francisco, o líder da Igreja Católica Apostólica Romana, com Kirill, o Patriarca do Cristianismo Ortodoxo Russo, que aconteceu em Havana em 2016 e que foi o primeiro entre os líderes das duas Igrejas, desde o Cisma de 1054. Assinaram então uma declaração conjunta e prometeram esforços no sentido da reconciliação das duas Igrejas. Francisco e Kirill estenderam as mãos e a esperança era grande.
Porém, seis anos depois, os apelos do Papa e a declaração conjunta de 2016 estão mortos. O patriarca Kirill já elogiou a invasão russa, enquanto o Papa Francisco tem condenado a guerra em termos gerais, sem nomear a Rússia de Putin como agressora. Porém, a diplomacia religiosa funcionou durante a 2ª Guerra Mundial com Pio XII, esteve activa na crise de Cuba de 1962, na crise polaca de 1980 no apoio ao sindicato Solidariedade e em muitas outras ocasiões. 
Francisco e a Igreja Católica têm autoridade moral e devem usá-la. É o que diz Paul Elie.

A Ucrânia já vai no 18º dia de guerra

A guerra continua a devastar a Ucrânia, apesar de já ter havido alguns encontros entre ucranianos e russos para negociar um cessar-fogo que trave a tragédia humana, a violência e a destruição de um país. Como pontos de bloqueio às negociações parecem estar as condições impostas por cada uma das partes, pois os russos exigem que a Ucrânia se renda e os ucranianos exigem que a Rússia se retire do seu território. Uma negociação exige que cada uma das partes faça cedências e, nem uns nem outros, parecem dispostos a fazê-las, enquanto no terreno tudo se parece agravar.
Os diversos mediadores que mantêm canais de comunicação, tanto com Putin como com Zelensky, têm encontrado posições irredutíveis das partes e não há sinais de que se alterem nos próximos dias. Nenhuma das partes quer perder a face e aceitar um recuo ou uma derrota. Putin continua a ameaçar a Ucrânia com mais guerra, enquanto Zelensky se afirma preparado para resistir e vencer.
Entretanto, já ambos perderam, tal como a nossa Europa que vem assistindo a uma situação que não se imaginava e que está a mostrar que as suas lideranças não estão à altura do momento histórico que atravessamos. Onde deixaram isto chegar! Na sua última edição a revista Der Spiegel mostra a imagem de Putin envolvido em armas e escreve que “ele pode voltar”, numa insinuação às circunstâncias que levaram à tragédia que envolveu a Europa há oitenta anos. Seria uma catástrofe inimaginável.
Por isso, é preciso dizer não à guerra. É a altura de apoiar os refugiados ucranianos, mas não é a altura para avaliar quem são os bons e quem são os maus desta guerra, ou quem mais usa a mentira, ou quem mais se excede. Todas as guerras são feitas de excessos, como sabem os que nelas andaram metidos. Por isso, é necessário incentivar as partes a entenderem-se, muito depressa, para encontrar saídas que não sejam humilhantes para ninguém. É que já vão no 18º dia de guerra e o sofrimento já não tem medida.

sexta-feira, 11 de março de 2022

A detecção do 'Endurance' 107 anos depois

Quando a generalidade da imprensa internacional trata da guerra na Ucrânia e de todos os problemas humanitários e militares que ela suscita, há um jornal internacional que escolhe um tema de capa bem diferente. Trata-se do jornal suíço Le Temps, que desde 1998 se publica na cidade de Genève e que é um diário francófono, generalista e de cobertura nacional. Na sua edição de hoje optou por contar a história de um veleiro de três mastros chamado Endurance e de Ernest Shackleton, em vez de repetir as notícias, verdadeiras ou não, que nos chegam da Ucrânia a um ritmo tão repetitivo quanto a publicidade comercial, parecendo querer afastar-se de toda a manipulação noticiosa que está a contaminar a verdade. Para a capa do jornal foi escolhida uma das famosas fotografias do Endurance, captadas em 1916 por Frank Hurley, o fotógrafo da expedição.
Ernest Shackleton foi um explorador britânico que, depois de ter participado em três expedições à Antártida, organizou a Expedição Transantártica Imperial que pretendia atravessar a Antártida, passando pelo Polo Sul. A sua equipa embarcou no Endurance e largou das águas britânicas em Agosto de 1914, mas no dia 19 de Janeiro de 1915 ficou preso num banco de gelo no mar de Weddell. Depois de muitos meses e de muitas peripécias, o navio cedeu à pressão do gelo e o seu casco de madeira foi esmagado, afundando-se nas águas austrais geladas no dia 21 de Novembro de 1915. Dispondo apenas de uma pequena embarcação salva-vidas, Ernest Shackleton decidiu procurar auxílio na estação baleeira da Geórgia do Sul, situada a quase dois mil quilómetros de distância. Foi uma aventura bem-sucedida porque, apesar de todas as dificuldades, Shackleton conseguiu que todos os seus 28 companheiros fossem salvos.
Cento e sete anos depois, o Endurance foi localizado e fotografado a dez mil pés de profundidade no mar de Weddell por uma equipa científica patrocinada pelo Falklands Maritime Heritage Trust, que saiu da Cidade do Cabo a bordo de um navio quebra-gelos. As fotografias obtidas mostram que o navio está muito bem preservado e que até o seu nome podia ser visto estampado na popa, o que deu origem à afirmação de que “a preservação está para além da imaginação”
Uma bela história em tempo de guerra.

Macau evoca Camões e ‘Os Lusíadas’

A propósito da celebração dos 450 anos da publicação d’Os Lusíadas, decorre amanhã um congresso internacional em que participam especialistas de várias partes do mundo, incluindo o território de Macau, como se pode observar na notícia da primeira página da edição de hoje do jornal Tribuna de Macau, que publica a fotografia do busto de Camões que se encontra na chamada gruta de Camões, existente no Jardim Luís de Camões em Macau.
Este jardim é um dos mais aprazíveis locais da cidade, com um luxuriante verde orlado de frondoso arvoredo e carreiros sinuosos, havendo formações rochosas e algumas peças escultóricas disseminadas pelo seu espaço. Numa das formações rochosas a que uma escadaria dá acesso, encontra-se a gruta de Camões, um importante elemento da memória e da cultura macaense de raiz portuguesa. Porém, a relação do poeta com Macau é um assunto com mais dúvidas do que certezas, porque não se conhecem documentos que esclareçam a verdade histórica, daí resultando muita imaginação e muita especulação, embora ao longo dos anos tenha prevalecido a ideia de que Camões terá vivido em Macau e terá escrito uma parte da sua obra exactamente nesta gruta.
Neste congresso haverá um discurso do sultão Hidayatullah Sjah, o rei de Ternate (que no século XVI foi a “capital portuguesa” das Molucas), estando asseguradas comunicações por académicos indonésios, macaenses, iranianos, turcos, goeses e especialistas de outras origens, que reconhecem na expansão marítima portuguesa um movimento pioneiro na globalização e no encontro de culturas. 
O que é realmente curioso é o facto de um jornal macaense escolher a fotografia do busto de Camões para ilustrar a primeira página da sua edição.

quinta-feira, 10 de março de 2022

A conflitualidade na Europa das pátrias

A Europa é uma realidade cultural muito heterogénea e daí que, muitas vezes, seja usada a expressão “Europa das pátrias” para a caracterizar. A unidade europeia existe na geografia mas só avançou no plano político depois da 2ª Guerra Mundial, embora subsistam enormes diferenças culturais que resistem aos efeitos sociológicos e económicos da mundialização cultural.
Nesse sentido, o conflito da Ucrânia no qual estão concentradas todas as atenções, tende a fazer esquecer outros sinais de instabilidade associados aos nacionalismos que, embora de outra escala e adormecidos ou não, estão presentes no panorama político europeu. É o caso da Córsega, a ilha francesa do Mediterrâneo que tem cerca de 340 mil habitantes e onde existe uma significativa corrente nacionalista e independentista, que em tempos se agrupava na FLNC (Fronte di Liberazione Naziunale Corsu). Um dos seus líderes chama-se Yvan Colonna, tem 61 anos de idade e está condenado a prisão perpétua por homicídio de um autarca corso em 1998.
Há dias, na prisão de Arles, no sul de França, Colonna foi atacado e gravemente ferido por um companheiro de prisão, encontrando-se em coma. Surgiram protestos violentos em que as autoridades francesas foram acusadas de não terem dado resposta ao pedido de Colonna para ser transferido para uma prisão corsa. Na cidade de Ajaccio, a capital, os manifestantes atacaram a Polícia e o Palácio da Justiça com pedras e bombas incendiárias, enquanto em Bastia e Calvi foram utilizados cocktails Molotov e houve mais de duas dezenas de polícias feridos.
Na sua edição de hoje, o jornal corse matin refere a escalada das manifestações e dos motins que explodem por toda a ilha e escreve que os separatistas corsos que lutaram pela independência durante décadas, estão de novo nas ruas, depois do seu principal movimento (FNLC) ter deposto as armas em 2014.
Para além das preocupações com a Ucrânia que dizem respeito a todos, os franceses ainda têm estes problemas adicionais.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Sim ao cessar-fogo e à paz na Ucrânia!!!

A edição de ontem do jornal espanhol elEconomista.es inclui na sua primeira página um mapa da Ucrânia, em que a parte ocidental está colorida com as cores nacionais azul e amarelo, enquanto a parte oriental apresenta dois tons de castanho que parecem ser as cores das repúblicas rebeldes. Aparentemente a linha que separa as duas partes é o rio Dnieper e a legenda que acompanha o mapa refere que “Putin quiere partir Ucrania por el eje entre Kiev y Odesa”. O mapa sugere várias coisas aos não especialistas em geopolítica, como a partilha da Alemanha em 1945 ou a divisão da Checoslováquia em 1993. 
Quando a guerra na Ucrânia já vai no seu 13º dia, pouco sabemos sobre o que realmente se passa em termos operacionais e das perdas e ganhos de cada uma das partes, embora saibamos que há mais de dois milhões de refugiados e uma enorme destruição que está a ser provocada nas cidades. Todos já perceberam, tanto nos teatros da guerra como fora deles, que não haverá vencedores. Todos já perceberam que há muitos ucranianos que culturalmente querem ligar-se à Europa e muitos outros que querem ligar-se à Rússia. Todos já percebemos que as principais cidades estão a ser destruídas. O sofrimento do povo e a tragédia são indescritíveis. O cessar-fogo é absolutamente necessário, mas a paz e a concórdia entre os ucranianos não parece ser possível durante muitos anos.
Nessas condições tem muito interesse um artigo escrito em 2014 pelo antigo secretário de Estado americano Henry Kissinger no jornal The Washington Post com o título “To settle the Ukraine crisis, start at the end” (edição de 5 de março de 2014).
Desse artigo destaco as seguintes passagens:

- Com demasiada frequência, a questão ucraniana é apresentada como um confronto: se a Ucrânia se junta ao Oriente ou ao Ocidente. Mas para que a Ucrânia sobreviva e prospere, não deve ser o posto avançado de nenhum dos lados contra o outro – deve funcionar como uma ponte entre eles.

- O oeste é em grande parte católico; o leste em grande parte ortodoxo russo. O oeste fala ucraniano; o leste fala principalmente russo. Qualquer tentativa de uma ala da Ucrânia de dominar a outra – como tem sido o padrão – levaria eventualmente à guerra civil ou à ruptura

- Devemos buscar a reconciliação, não a dominação de uma facção.

- Internacionalmente, devem seguir uma postura comparável à da Finlândia. Essa nação não deixa dúvidas sobre sua feroz independência e coopera com o Ocidente na maioria dos campos, mas evita cuidadosamente a hostilidade institucional em relação à Rússia.

Kissinger dixit. Há muita gente a procurar o cessar-fogo e a paz: turcos, chineses e israelitas, bem como algumas personalidades internacionais com Macron na primeira fila. Talvez lhes seja útil lerem o texto de Kissinger que está disponível na internet.

domingo, 6 de março de 2022

Volodymyr Zelensky novo herói mundial

A invasão russa do território ucraniano iniciou-se na madrugada do dia 24 de Fevereiro e, portanto, vai no seu décimo primeiro dia de guerra e de resistência, de combates, de bombardeamentos e de destruições, enquanto mais de um milhão de refugiados já atravessou as fronteiras. É uma enorme catástrofe que ninguém imaginava e não há diferendos ou razões, nem provocações ou ameaças, que justifiquem esta tragédia.
No dia 2 de Março, a Assembleia Geral das Nações Unidas condenou a invasão russa com 141 votos a favor, cinco votos contra e 35 abstenções, mas as partes não deram ouvidos aos apelos da comunidade internacional e, no terreno, continuaram os combates e as destruições. Aparentemente, as partes não dão sinais de moderação, com os russos a continuar os seus ataques para ganhar posições e com os ucranianos a resistir na defesa da sua terra, apesar da desproporção de forças. É uma dura prova para todos, tanto para os que combatem, como para os que abandonam as suas cidades, como para aqueles que assistem à derrocada das suas casas.
Volodymyr Zelensky, o presidente da Ucrânia, tem sido o rosto da resistência e da coragem ucranianas, aparecendo na primeira linha de defesa do seu país. Muitas publicações internacionais destacam a sua corajosa liderança, como sucede na última edição da revista brasileira IstoÉ, que publica a sua fotografia e a frase “o novo herói mundial”. Num conflito que é muito complexo e que nasceu de erros e provocações acumuladas pelas duas partes, o presidente Volodymyr Zelensky é um exemplo de coragem que está a impressionar o mundo.

sábado, 5 de março de 2022

A Europa recebe os refugiados ucranianos

Sabe-se pouco sobre a evolução operacional da guerra da Ucrânia, porque as informações que vamos recebendo são muito contraditórias, embora pareça que nenhuma das partes esteja a registar sucessos suficientes que lhes garantam posições mais favoráveis na mesa de negociações. Do que não há dúvidas é da enorme destruição que está a tomar conta das cidades ucranianas, da ameaça do conflito se estender para além do território ucraniano e das multidões de refugiados que estão a chegar à Polónia, à Hungria, à Moldova, à Eslováquia e à Roménia, mas também à Rússia e à Bielorrússia.
Segundo revelou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), apenas numa semana de guerra registou-se um milhão de refugiados, havendo muitos deles que já deixaram os países de acolhimento e seguiram para outros destinos, incluindo Portugal.
A mais recente edição da revista americana Newsweek dedica a sua primeira página aos refugiados e informa que as previsões apontam para que o seu número possa chegar aos quatro milhões, sobretudo se o cessar-fogo tardar e os combates prosseguirem.
Porém, a tragédia dos refugiados também tem uma expressão interna, porque uma parte da população abandona as zonas de combate para fugir aos bombardeamentos e procura refúgio em zonas mais isoladas do país.
Não restam dúvidas de que com tantos refugiados e com tanta destruição, o cessar-fogo tem que ser conquistado rapidamente, mas não sei se aqueles que podem influenciar os caminhos da paz estão a fazer tudo o que deviam, isto é, não sei se o exemplo do Papa Francisco, que visitou a embaixada russa no Vaticano para “expressar a sua preocupação com a guerra”, tem quem siga o seu exemplo. A Europa que deveria ser a mediadora deste conflito, preferiu outro caminho.