domingo, 3 de abril de 2022

Salgueiro Maia, o maior capitão de Abril

O jornal Público evoca na sua edição de hoje o 30º aniversário da morte de Fernando Salgueiro Maia, o capitão que no dia 25 de Abril de 1974 comandou a coluna de blindados que saiu de Santarém e se dirigiu para Lisboa. Na capital começou por ocupar o Terreiro do Paço onde resistiu às forças que se lhe opuseram e, ao fim da tarde, montou o cerco ao quartel do Carmo, forçando a rendição de Marcelo Caetano, o presidente do Conselho de Ministros. Com a sua enorme coragem e grande determinação, Salgueiro Maia deu o principal passo para o derrube da ditadura do Estado Novo e para a instauração da democracia, tornando-se muito justamente num dos maiores símbolos dessa data libertadora, a par de Otelo Saraiva de Carvalho e de outros militares.
Salgueiro Maia morreu em 1992 por doença, quando tinha 47 anos de idade. Apesar de lhe terem sido abertas todas as portas do poder, sempre recusou privilégios ou cargos confortáveis e bem remunerados com que o sistema costuma proteger os mais ambiciosos ou os menos escrupulosos. Essas circunstâncias tornaram-no um militar respeitado, tanto pelos seus companheiros, como pelos seus adversários. O povo compreendeu o seu destacado papel na mudança do regime político, bem como a sua coragem física e a sua generosidade cívica. O seu nome passou a fazer parte da toponímia das nossas cidades e vilas, inspirou criadores e autores, dando origem a manifestações culturais de toda a ordem, na literatura, na música, no cinema e na arte urbana. O filme Salgueiro Maia, o implicado que vai estrear brevemente, é um dos mais recentes tributos à memória do capitão que “nunca quis ser herói”.
Aqui lhe presto, também, a minha grata homenagem.

sábado, 2 de abril de 2022

A desejável neutralidade para a Ucrânia

A guerra da Ucrânia ocupa a informação portuguesa desde há mais de um mês, através da presença de muitos enviados especiais no terreno e de inúmeros comentadores e comentadoras nos estúdios, cujas notícias, opiniões e comentários são repetidos demasiadas vezes, como se fizessem parte de um programa de propaganda organizada.
Apesar disso, hoje sabe-se pouco sobre o que realmente se passa no terreno, embora possamos ver cenários de grande tragédia humana e de grande destruição patrimonial, que as televisões nos mostram durante horas e horas. O cessar-fogo já deveria ter acontecido, mas há quem não esteja interessado nele, apesar das negociações estarem a dar alguns bons passos, segundo tem sido divulgado, designadamente quanto a uma futura neutralidade ucraniana e à sua não integração na NATO.
A questão russo-ucraniana tornou-se um problema mundial. Na Eslováquia, um dos sete países que tem fronteiras com a Ucrânia e que é um pequeno país que pertence à União Europeia e à NATO, o jornal Denník N que se publica em Bratislava, deu hoje espaço de primeira página a um curioso cartoon com as cores ucranianas e com um guarda-chuva que protege o país dos bombardeamentos, russos ou outros, escrevendo Akú neutralitu by brali Ukrajinci que, em tradução feita pelo google significa, que neutralidade aceitariam os ucranianos. O cartoon é inteligente e insinua uma Ucrânia neutral, em que o guarda-chuva da neutralidade protege o país de todas bombas, venham elas de onde vierem.
Para além da questão da neutralidade ucraniana e da integração na União Europeia, há as questões mais complexas das autonomias ou das independências no Donbass, da ocupação russa da Crimeia, do estatuto da cidade autónoma de Sebastopol, dos acessos ucranianos ao mar Negro e da compatibilização no mesmo país de duas línguas, duas culturas e duas religiões, para além das feridas que irão persistir durante muito tempo na sociedade ucraniana em relação às suas próprias comunidades e à Rússia.
É mesmo um desafio muito difícil, mas não pode deixar de ser procurada uma rápida solução para a Ucrânia com a ajuda da comunidade internacional. A neutralidade como tem a Áustria ou a Finlândia pode ser uma solução.

quinta-feira, 31 de março de 2022

A guerra e a destabilização da economia

Os jornais espanhóis anunciam hoje que a inflação no país atingiu 9.8%, que é o valor mais alto desde 1985, enquanto foi anunciado que a inflação na Bélgica se situa nos 8.31% e na Alemanha nos 7.3%. Estes valores da inflação não se verificavam desde há cerca de quarenta anos e estão a alarmar as economias, os consumidores e as empresas europeias. No mês passado a taxa de inflação na Zona Euro já tinha acelerado para 5.8%, o que é um máximo histórico e um aviso do que poderá acontecer nos próximos tempos. A estabilidade dos preços, tal como o modelo social e outras conquistas civilizacionais que têm beneficiado os europeus e que nos acompanhavam desde há muitos anos, poderão estar em causa devido à actual aceleração da inflação.
De uma forma simples, a inflação define-se como a subida dos preços. O preço é o ponto de encontro entre a oferta e a procura: quando a oferta aumenta o preço baixa, mas quando a oferta baixa o preço sobe. É o que está a acontecer agora: há menos produção e há menos oferta, pelo que os preços aumentam.
O mundo tornou-se global, interdependente e muito competitivo, tal como os sistemas produtivos que procuram economias de escala e custos de produção mais baixos. As matérias-primas, os componentes, a energia ou as patentes de que as empresas carecem, chegam-lhe de muito diferentes origens. Quando acontece uma guerra como aquela que está a devassar o território ucraniano, há rupturas na logística, quebras na produção, o quadro económico destabiliza e alteram-se as expectativas das empresas e dos consumidores. A diminuição da produção gera a diminuição da oferta de bens e serviços e os preços sobem, arrastados sobretudo pelos custos da energia e da alimentação.
Por agora, é uma incógnita prever até onde poderá ir esta destabilização da economia e a forma mais ou menos severa como afectará Portugal.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Portugal no Catar com sonhos na bagagem

Goste-se ou não se goste de futebol, alinhe-se ou não na alienação que faz daquela arte uma fantochada, ou apreciem-se ou não as aberrantes discussões televisivas a respeito das futebolices, o facto é que a selecção nacional de futebol ganhou ontem à Macedónia do Norte e garantiu a sua presença nos Mundiais do Catar, que se realizarão a partir de 21 de Novembro. Foi uma alegria ver os dois golos do Bruno Fernandes! Foi uma alegria ver o Pepe e o Danilo como dois generais a comandar a defesa! Foi uma alegria ver o entusiasmo do público, cantando o hino nacional e agitando bandeiras!
Todos os povos precisam destas pequenas-grandes coisas para se animarem, para reforçarem a sua autoestima e até para darem mais sentido às suas vidas, para assim poderem ultrapassar as suas frustrações do presente ou as suas ansiedades quanto ao futuro. A ausência do Catar seria quase uma humilhação para a orgulho português, mas também para alguns outros povos que se vão rever naquela equipa.
Os jogadores estão de parabéns, tal como a estrutura organizativa que os apoia e o treinador da equipa, que é um homem de sorte, por dispor de um tão vasto leque de talentosos e experientes futebolistas. Foi ele quem declarou que “vamos atrás do sonho”, que hoje faz o título do jornal A Bola, a pensar que é possível fazer boa figura no Catar e, quem sabe, até chegar à vitória. De facto, o sonho comanda a vida, como escreveu António Gedeão no poema Pedra Filosofal, ou pelo sonho é que vamos como disse Sebastião da Gama. Esta curiosa ligação da arte do futebol à arte poética é realmente muito estimulante e até resgata o futebol de uma teia de duvidosos interesses e de gente pouco recomendada que dele vive.
Portanto, viva o futebol propriamente dito, mas só esse!

A grande aventura iniciou-se há 100 anos

No dia 30 de Março de 1922, os comandantes Gago Coutinho e Sacadura Cabral partiram do rio Tejo, em frente de Belém, no seu hidroavião monomotor Fairey F III-D Mk II de nome Lusitânia, para percorrerem mais de 4.500 milhas até ao Rio de Janeiro e fazerem pela primeira vez a travessia aérea do Atlântico Sul.
Hoje perfazem-se cem anos sobre esse acontecimento que foi bem-sucedido e foi realizado no contexto das comemorações do primeiro centenário da Independência do Brasil. Os portugueses e os brasileiros aclamaram vibrantemente, com entusiasmo e orgulho, os dois corajosos marinheiros-aviadores portugueses, como mostrou a imprensa da época.
A viagem só foi concluída no dia 17 de Junho porque, por razões técnicas e meteorológicas, houve necessidade de recorrer a três aparelhos, pois o primeiro perdeu-se durante a amaragem junto aos penedos de São Pedro e São Paulo e o segundo perdeu-se no mar entre aqueles penedos e o porto do Recife, tendo sido o terceiro aparelho – o hidroavião Santa Cruz – que concluiu a viagem. Para além do sucesso aeronáutico, o voo permitiu concluir que era possível realizar com precisão voos de grande distância, utilizando os mesmos métodos da navegação marítima, através da adaptação do sextante que foi idealizada por Gago Coutinho e que depois foi adoptado durante algumas décadas pela navegação aérea.
Embora a viagem tenha demorado setenta e nove dias, o tempo efectivo de voo foi apenas de sessenta e duas horas e vinte e seis minutos.
Esta efeméride vai ser devidamente evocada, estando divulgado o Programa das Comemorações da 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul (1922-2022), em que participam a Academia de Marinha, a Sociedade de Geografia de Lisboa, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Portuguesa da História.
Entretanto, o hidroavião Santa Cruz resistiu ao tempo e está conservado no Museu de Marinha, constituindo uma bela página de História ao Vivo e, entre algumas evocações que vão sendo feitas na comunicação social, destaca-se e saúda-se a última edição da revista Visão História.

terça-feira, 29 de março de 2022

O cessar-fogo, a paz e o futuro da Ucrânia

Quando se começam a observar alguns sinais de que as partes em confronto no território ucraniano estão a revelar algum cansaço, começando a flexibilizar as suas posições de princípio e a encaminhar-se para um cessar-fogo – pelo menos é isso que parece aos observadores não especialistas, como é o nosso caso – a edição de ontem do jornal inglês The Guardian veio dizer que Putin quer dividir a Ucrânia em duas partes, tal como aconteceu com a Coreia depois da 2ª Guerra Mundial. Ao mostrar a bandeira ucraniana invertida, a imagem da capa dessa edição sugere mesmo a divisão do país, cujo território só é superado territorialmente na Europa pela Federação Russa.
Não se sabe se é uma boa solução, mas o facto é que tem sido seguida em vários conflitos recentes, uns armados (Coreia e Jugoslávia) e outros não armados (Checoslováquia).
No dia 9 de Março escrevemos aqui, na Rua dos Navegantes, um texto intitulado “Sim ao cessar-fogo e à paz na Ucrânia”, em que transcrevemos algumas passagens de um artigo publicado por Henry Kissinger na edição de 5 de Março de 2014 do The Washington Post intitulado “To settle the Ukraine crisis, start at the end”, que está disponível na internet.
Entre outras coisas importantes e oportunas, Kissinger escreveu que “devemos buscar a reconciliação, não a dominação de uma facção” e, também, que “com demasiada frequência, a questão ucraniana é apresentada como um confronto: se a Ucrânia se junta ao Oriente ou ao Ocidente”, acrescentando, “mas para que a Ucrânia sobreviva e prospere, não deve ser o posto avançado de nenhum dos lados contra o outro – deve funcionar como uma ponte entre eles”.
O presidente Joe Biden é uma das principais chaves para resolver o problema ucraniano, pois os líderes europeus deram-lhe demasiadas asas. Porém, ele bem pode ler o texto de Henry Kissinger, que foi o Prémio Nobel da Paz em 1973, ou se preferir, ir falar pessoalmente com ele, pois parece que, aos 98 anos de idade, conserva a lucidez suficiente para o aconselhar a “buscar a reconciliação” e a não atirar gasolina para a fogueira, como fez na Polónia.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Ukraińcy, Polacy, jesteśmy z wami!

Quando a guerra na Ucrânia já decorre há mais de um mês e somos confrontados com uma batalha de contra-informação e de propaganda que nos deixa sem saber a verdadeira evolução bélica do conflito, o presidente dos Estados Unidos viajou para a Europa para discutir com os aliados europeus a invasão russa e os problemas que ela representa para a paz e para os equilíbrios mundiais. Durante a sua estada em Bruxelas, o presidente Joe Biden participou numa cimeira da NATO, mas também em reuniões com a União Europeia e com o G7. 
Encontraram-se todos e isso é positivo. Houve unanimidade dos membros da NATO com vista ao reforço da sua presença nas fronteiras da Ucrânia e em todos os países da Aliança, tendo sido reafirmado o compromisso de defesa mútua com base no artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte. Para além do reforço militar nas fronteiras da NATO, da condenação da iniciativa bélica de Putin e do anúncio de solidariedade para com o povo ucraniano, os Estados Unidos anunciaram o fornecimento de armamento à resistência ucraniana e o aumento de fornecimento de gás à Europa para reduzir a dependência da Rússia, isto é, fez dois bons negócios.
Depois de dois dias em Bruxelas, Joe Biden voou para a Polónia, certamente para imitar o discurso que John Kennedy pronunciou em Berlim em Junho de 1963, quando disse a famosa frase: “eu sou um berlinense!” Agora foi Joe Biden a querer ficar na História, pelo que foi a Varsóvia dizer “Ukraińcy, Polacy, jesteśmy z wami” (Ucranianos e polacos, estamos convosco). Esse foi o título escolhido pelo jornal Gazeta Wyborcza para acompanhar a fotografia de capa da sua edição do dia em que Joe Biden chegou à Polónia.
Essa visita tem apenas um significado simbólico e faz parte da sua propaganda interna, pois nada contribuiu para o apaziguamento entre os dois blocos, nem para que chegue o desejado cessar-fogo. Por isso, os europeus não alinharam neste número em que Biden foi lançar gasolina na fogueira, ao chamar “criminoso de guerra”, “ditador assassino” e “carniceiro” ao Vladimir, afirmando que “não pode continuar no poder”. Emmanuel Macron, que tanto tem procurado o entendimento entre as partes, não gostou nada do que ouviu e tratou de pôr água na fervura.
Muito gostam os americanos de dar tiros nos pés.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Ucrânia: um mês de guerra e de tragédia

Desde há muito tempo que aqui tem sido expressa a vontade de que termine a guerra na Ucrânia, que não haja mais mortes nem mais destruições, que cesse o movimento de muitos milhares de refugiados e que a paz regresse à Ucrânia. É sabido que não haverá vencedores e que nenhuma das partes vai aceitar a derrota, mas o cessar-fogo e a paz só serão possíveis se ambos fizerem cedências, sem perder a face perante os seus povos e o mundo.
Desde o dia 24 de Fevereiro que Putin é o agressor e que Zelensky é o agredido, mas o que se deseja agora é que cesse imediatamente a tragédia que está a destruir a Ucrânia. Depois, na mesa das negociações, haverá uma extensa agenda de acusações e de exigências, em que entra a história e a economia, a geopolítica e as relações internacionais e, de uma forma mais geral, uma nova arquitectura para o futuro do mundo, pois nada vai ser como antes. O que está a acontecer na Ucrânia é apenas a ponta do iceberg da instabilidade mundial, que tem estado adormecida desde o fim da Guerra Fria, da implosão do império soviético e da queda do muro de Berlim.
Aparentemente nada correu bem a Putin, não só no plano militar, mas sobretudo na reacção internacional que provocou na Europa e nos Estados Unidos, que se uniram perante a ameaça comum. Embora a guerra da informação não esteja necessariamente alinhada com a verdade, ao fim de um mês de operações em território ucraniano, parece que os russos encontraram inesperadas dificuldades e que, segundo hoje destaca o jornal Libération, a Ucrânia passou de uma fase defensiva e de resistência para uma fase ofensiva.
Porém, talvez se possa pensar que se trata de movimentações tácticas para ganhar posições no tabuleiro das negociações que se seguirão ao ansiado cessar-fogo, pois prosseguem as discretas negociações entre as partes, para além de de que há diversas diplomacias envolvidas nesse processo. No entanto, é preciso que ambas as partes apareçam como vencedoras e sem a carga de uma humilhante derrota.

quinta-feira, 24 de março de 2022

O louco entusiasmo turco pelo futebol

Esta noite realiza-se um jogo de futebol entre as selecções de Portugal e da Turquia, em que ambas as equipas procuram arranjar um lugar no grupo de 32 selecções que vão competir no Campeonato Mundial de Futebol da FIFA, que se vai realizar no Qatar entre os dias 21 de Novembro e 18 de Dezembro.
Contrariamente ao que é habitual, a comunicação social portuguesa tem colocado o futebol em plano secundário por andar envolvida com acontecimentos bem mais importantes para a nossa sociedade e, por isso, poucas têm sido as referências ao jogo com os turcos, aos jogadores e ao noticiário futebolístico que serve para mobilizar e excitar a chamada tribo do futebol.
Porém, na consulta que fizemos à imprensa turca e com a ajuda do amigo google, verificamos que as coisas por lá não se passam da mesma maneira. O entusiasmo pelo futebol é enorme e a hipótese da selecção turca estar no Qatar está na ordem do dia, havendo um jornal chamado Foto, que não só anuncia que hoje a Turquia tem um jogo histórico, como destaca que não são necessárias tácticas, porque o que é preciso é vencer. As imagens que ilustram a primeira página são demonstrativas do entusiasmo ou até do fanatismo com que os turcos encaram este jogo.
Acontece que a Turquia ocupa cerca de metade da orla meridional do mar Negro e está apenas a cerca de quatrocentos quilómetros da península da Crimeia e, por isso, é com surpresa que se vê a imprensa a colocar o calor futebolístico turco acima das preocupações sobre o que se está a passar do outro lado do mar Negro. 
Agora, vou ver o jogo porque preciso de me distrair e, naturalmente, espero que a vitória fique por cá, porque também precisamos de alguma coisa que nos anime.

Os 50 anos do 25 de Abril e da liberdade

Ontem completaram-se 17.500 dias de vida do regime democrático português nascido em 25 de Abril de 1974, que acabou com a ditadura imposta ao povo português desde 28 de Maio de 1926, que também durara exactamente 17.500 dias. Hoje, a democracia portuguesa ultrapassa o tempo de duração da ditadura e é caso para dizer que atingiu a sua maioridade. Disse Winston Churchill que “a democracia é a pior forma de governo, com excepção de todas as demais”. É uma bela frase que traduz uma verdade, como sabem aqueles que em Portugal conheceram e podem comparar o que foram o outro regime e o que é este que temos.
Porém, a celebração do 25 de Abril não pode ser apenas a evocação de uma data histórica e libertadora, mas deverá ser um ponto de partida para que possamos construir uma sociedade melhor, mais informada, mais culta, mais sadia, mais justa e mais solidária. Essa é a mensagem do 25 de Abril que havemos de preservar.
Ontem, no Pátio da Galé em Lisboa, começaram as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril com uma cerimónia solene e institucional, que teve a presença das mais altas figuras do Estado e que teve transmissão televisiva em directo em que, para além dos discursos circunstanciais, houve uma vertente cultural com espaço para a poesia e para a música. A presença do histórico Bula, o carro de combate ou chaimite que recolheu Marcelo Caetano no quartel do Carmo na tarde do 25 de Abril, tal como os cravos vermelhos em algumas lapelas, foram os sinais mais simbólicos dessa madrugada libertadora de há quase cinquenta anos. Incluída na cerimónia que foi simples e cheia de dignidade, foi encerrada uma cápsula do tempo, contendo um conjunto de objectos e de materiais, para ser aberta apenas em 2074.
A imprensa não deu qualquer importância àquela cerimónia, mostrando-se mais interessada no anúncio do XXIII Governo Constitucional, na evolução da guerra na Ucrânia e no jogo de futebol desta noite entre Portugal e a Turquia.
A revista Visão foi a excepção que se saúda e destacou-se na evocação dos 17.500 dias de liberdade que nos trouxe o 25 de Abril de 1974. Na capa da sua edição de hoje, aquela revista homenageia Salgueiro Maia, o capitão que a História consagrou como o símbolo maior desse dia libertador.

terça-feira, 22 de março de 2022

Os amigos de Putin e as eleições francesas

A edição de hoje do diário francês L’Humanité, um jornal que tem 117 anos de idade e que até 1994 foi o órgão oficial do Partido Comunista Francês, exibe na sua capa uma fotografia em que Vladimir Putin cumprimenta Marine Le Pen, mostrando a palavra “fascínio” como título dessa imagem. Depois, em sub-título, o jornal acrescenta que “seduzidos pelo autoritarismo do chefe do Kremlin, Marine Le Pen e Éric Zemmour reforçaram os laços políticos, ideológicos e financeiros com o regime russo”, isto é, a extrema-direita está fascinada com Putin.
Entretanto, as eleições presidenciais francesas vão realizar-se nos próximos dias 10 e 24 de Abril e as últimas sondagens indicam as seguintes intenções de voto: Emmanuel Macron (27.5%), Marine Le Pen (20%), Jean-Luc Mélenchon (15%), Valérie Pécresse (10%) e Éric Zemmour (10%). As mesmas sondagens indicam que Macron será o vencedor na segunda volta, qualquer que seja o seu adversário.
Porém, com a invasão russa da Ucrânia, tanto Marine Le Pen como Éric Zemmour, ambos candidatos de extrema-direita, estão a enfrentar dificuldades devido às suas “positions pro-Russes”, pelo que vêm conduzindo uma “opération volte-face”. Já o candidato de esquerda Jean-Luc Mélenchon que admirava a política de Putin, foi o primeiro a desligar-se das posições de Moscovo, logo que começou a invasão da Ucrânia.
O tema da invasão russa da Ucrânia tem animado a campanha eleitoral francesa e, segundo o jornalista Benjamin Konig, a extrema-direita francesa e uma parte da direita estão profundamente ligadas ao “régime poutinien”. Poucos imaginariam isso.
Naturalmente, a actual crise na Ucrânia está bem presente na campanha eleitoral francesa e muitos candidatos têm apelado à retirada das tropas russas, mas também à não-intervenção da NATO, dos Estados Unidos e da União Europeia.

segunda-feira, 21 de março de 2022

O Saara Ocidental, a Polisário e Marrocos

O Saara Ocidental é um território litoral atlântico situado a sul de Marrocos, a norte da Mauritânia, limitado a ocidente pelo oceano Atlântico e a oriente pela Argélia e pela Mauritânia. É uma região desértica com cerca de 260 mil quilómetros quadrados de extensão e com cerca de seiscentos mil habitantes, mas que é rica em recursos naturais, principalmente fosfatos e pescas. 
Até 1975 foi uma colónia espanhola, tendo sido então iniciada a descolonização do seu território nos termos preconizados pelas Nações Unidas. O Acordo de Madrid assinado pela Espanha, Marrocos e Mauritânia, estipulava uma administração tripartida do território e em 1976 a Espanha abandonou o território. De imediato, a Frente Polisario (Frente Popular de Liberación de Saguia el Hamra y Rio de Oro), que já lutara contra o regime colonial espanhol, declarou a independência da República Árabe Saaraui Democrática. O Reino de Marrocos reagiu e ocupou militarmente uma grande parte do território e construiu um muro com mais de 2.740 quilómetros de extensão para isolar os separatistas saarauis, enquanto a Mauritânia se retirou do território. A partir de então e com o apoio da Argélia, a Frente Polisário iniciou uma guerra contra Marrocos e, apesar da desproporção de forças, conseguiu manter a sua luta até 1991, quando foi conseguido um cessar-fogo. Durante anos o processo de paz não vingou porque a presença militar marroquina se reforçou, o que originou muitas manifestações civis do povo saaraui que foram reprimidas com violência. A Espanha, enquanto potência administrante, sempre exigiu um referendo para que o povo saaraui escolhesse o seu destino, ao que Marrocos sempre se opôs, pelo que havia uma persistente tensão entre os governos espanhol e marroquino.
Agora, inesperadamente, o governo espanhol mudou de posição e parece aceitar que o Saara Ocidental venha a fazer parte do Reino de Marrocos, ao acolher uma proposta de autonomia apresentada pelos marroquinos, como ponto de partida para a resolução do conflito. Esta posição espanhola que não está de acordo com as orientações das Nações Unidas, foi criticada pela Argélia e pela China, mas também pela oposição espanhola que considera esta posição uma “traição histórica” ao povo saaraui. O jornal El Mundo que se publica em Madrid, diz mesmo que Sánchez "entrega el Sáhara 46 años después".

sábado, 19 de março de 2022

Marcelo em visita oficial a Moçambique

O presidente Marcelo Rebelo de Sousa está em visita oficial a Moçambique, o país que ele tem referido em diversas ocasiões como a sua segunda pátria. É muito positivo que os presidentes dos países amigos se encontrem, que partilhem informações e que reforcem laços de solidariedade, sobretudo quando estão a passar por situações difíceis, como acontece com Moçambique, devido à insurgência armada de natureza terrorista que afecta o distrito de Cabo Delgado que já provocou mais de três mil mortes e mais de oitocentos mil deslocados, mas também devido aos efeitos catastróficos provocados por fenómenos meteorológicos, designadamente depressões tropicais e cheias devastadoras. 
Quando um país passa por essas situações, a visita de um presidente amigo, cosmopolita e popular é, certamente, muito estimulante e muito apreciada pelas autoridades locais. A imprensa local, nomeadamente o jornal O País, destacou a visita como um grande acontecimento político.
O presidente Marcelo tem boas memórias da terra, pois o seu pai foi o governador-geral de Moçambique entre 1968 e 1970. Por isso, quando ontem esteve no palácio presidencial da Ponta Vermelha, que foi a sua residência quando o pai foi governador, declarou: “Sinto-me em Moçambique como se estivesse em casa. É a minha segunda pátria. E aqui, literalmente, neste palácio como se estivesse em casa”. Portanto, Marcelo foi um privilegiado pois viveu num palácio e não teve que andar durante dois anos de camuflado e G3 pelo Niassa e Cabo Delgado, então chamados os estados de Minas Gerais.
O presidente Marcelo fez-se acompanhar por uma comitiva cuja dimensão desconhecemos, mas que incluía muitos jornalistas, exactamente como o comentador Marcelo gosta, para encher os nossos noticiários televisivos com a sua imagem e os seus palpites sobre tudo e mais alguma coisa, incluindo assuntos que são da competência do Governo.  Como diria o famoso Diácono Remédios, não havia necessidade...

quinta-feira, 17 de março de 2022

A Ucrânia e os negócios do armamento

A Crimeia é uma península situada na orla setentrional do mar Negro e uma república autónoma da Ucrânia, mas foi invadida e anexada pela Rússia em 2014, na sequência do movimento conhecido por Euromaidan, que destituiu o presidente Yanukovych. Nessa altura, o conflito entre russos e ucranianos, ou entre a ligação à Rússia ou à União Europeia, acentuou-se e a Rússia decidiu ocupar a Crimeia. Essa invasão foi condenada pela comunidade internacional, especialmente pelos países europeus, mas a Rússia argumentou com os fortes laços históricos e culturais que mantinha com a Crimeia e com os resultados de um referendo. Porém, os Estados Unidos e a União Europeia consideraram esse referendo ilegítimo e, em Julho de 2014, anunciaram um pacote de sanções contra a Rússia em que se incluía o embargo de armamento, que proibia “a venda, fornecimento, transferência ou exportação directa ou indirecta de armas e material conexo”.
Passaram-se oito anos e a Rússia invadiu o território da Ucrânia, dando origem a uma guerra de grande violência, com muita destruição, muitos refugiados e muita apreensão. Numa altura em que é unânime a condenação da Rússia e em que se procura o cessar-fogo e a paz, a notícia de que um terço dos estados-membros da União Europeia exportou armamento para a Rússia, violando o embargo decretado em 2014, é muito chocante e revela a hipocrisia que domina as relações internacionais. A informação foi hoje divulgada pelo jornal Público, com base nas revelações do consórcio Investigate Europe e indica que mísseis, foguetes, torpedos, bombas e cargas explosivas, mas também “equipamento de imagem, aviões com os seus componentes e drones” foram fornecidos à Rússia e que, segundo o jornal, poderão estar a ser usados na Ucrânia.
A França foi o país que mais exportou para a Rússia, utilizando uma lacuna na legislação que proíbe a venda de equipamento militar àquele país, seguindo-se a Alemanha, Itália, Áustria, Bulgária, República Checa, Croácia, Finlândia, Eslováquia e Espanha. 
Haverá hipocrisia maior do que esta?

terça-feira, 15 de março de 2022

A Ucrânia, as balas e a comunicação

Na guerra que está a devastar a Ucrânia há todos os pontos de vista que nos chegam diariamente através de notícias e de comentários, com argumentos a favor ou contra cada uma das partes, uns mais moderados e outros mais radicais.
Hoje o jornal El País e alguns outros jornais, publicaram uma curiosa fotografia, captada durante a emissão do principal noticiário nocturno da televisão russa, intitulado Vremya, que é transmitido no Piervy Kanal. Enquanto a jornalista lia as notícias em directo, uma pessoa colocou-se atrás dela com um cartaz onde se lia, em russo e em inglês, “não à guerra”, “parem a guerra”, “não acredites na propaganda” e “russos contra a guerra”. Significa que, mesmo na Rússia, não há unanimidade quanto à guerra, como mostrou a mensagem exibida em directo na televisão russa. Aquela imagem tem o efeito de uma bala.
A comunicação mostra-se uma arma tão decisiva como os aviões, a artilharia ou os mísseis e, nessa medida, ocorre-nos uma famosa teoria sociológica ou modelo de comunicação que vingou sobretudo no período entre as duas guerras mundiais e que teve no sociólogo americano Harold Lasswell um dos seus principais teorizadores. Chamou-se a teoria hipodérmica ou a teoria das balas mágicas, porque no processo de comunicação compara a mensagem à injecção de uma seringa que afecta todo o corpo humano, ou a uma bala que atinge cada pessoa e a massa de público, produzindo poderosos efeitos políticos, sociais e culturais. Assim, através da propaganda, da publicidade e de outras técnicas, mais ou menos assumidas, a comunicação de massa tem características manipuladoras junto do público. Embora a teoria tenha sido criticada durante muitos anos, o facto é que veio a ter sucesso por considerar semelhantes os efeitos das mensagens e das balas.
Hoje, provavelmente, os mesmos académicos que criticaram a teoria de Lasswell poderão estar a rever as suas críticas.