segunda-feira, 16 de outubro de 2023

O novo jornalismo e o valor das palavras

A selecção francesa de râguebi perdeu ontem por 29-28 com a equipa sul-africana e foi eliminada na Rugby World Cup. Quando um país inteiro esperava que a sua equipa pudesse conquistar pela primeira vez o título mundial e sonhava festejá-lo em directo e ao vivo no dia 28 de Outubro no Stade de France, em Paris, esta derrota foi demasiado dura para os franceses. Nas suas edições nacionais ou regionais de hoje, toda a imprensa destaca a derrota dos blues e o jornal Midi Libre que se publica em Montpellier, destaca essa notícia com o título “si cruel”. Porém, o fim do sonho francês teve repercussão generalizada em toda a imprensa francesa que hoje utiliza títulos como “tellement cruel”, “terrible désillusion”, “le rêve brisé”, “point final”, “à pleurer” ou “une cruelle défaite”, ignorando tudo o que se passa no mundo, incluindo o noticiário do Médio Oriente, a crise da Ucrânia, os problemas dos refugiados, as alterações climáticas ou até o desgoverno em que se move a União Europeia que, pela mão de Ursula von der Leyen, se tornou um peão irrelevante e sem voz na política internacional.
Numa altura em que o mundo ainda está chocado com a barbaridade do que está a acontecer no Médio Oriente, não deixa de ser curioso que a palavra cruel que tem servido para classificar as acções do Hamas, também sirva para classificar uma derrota num simples jogo de râguebi.
As palavras devem ter um significado preciso, mas o novo jornalismo tende cada vez mais a usá-las de uma forma desproporcionada, ou até inverdadeira, para satisfazer as emoções dos seus leitores e não para relatar factos com verdade e objectividade.

sábado, 14 de outubro de 2023

Israel e Palestina: parar enquanto é tempo

O jornal l’Humanité foi fundado em 1904 por sindicalistas franceses, ligou-se depois ao Partido Comunista Francês de que foi órgão oficial até 1994 e, desde então, pertence a uma sociedade anónima por acções e recebe subvenções do Estado. Hoje reclama-se dos valores dos seus fundadores que eram “a luta pela paz, a comunhão com o movimento operário e a independência face aos grupos de interesses presentes na sociedade”.
Na sua edição deste fim-de-semana, a propósito da grave situação que se vive na Faixa de Gaza, o jornal faz um veemente apelo: cessez le feu!
Quando se folheia a imprensa estrangeira, verifica-se que geralmente ela está alinhada com um dos lados do conflito, nuns casos para condenar a crueldade dos ataques do Hamas e, em outros casos, para condenar a dureza da vingança israelita. O facto é que a violência é enorme e estamos perante uma gigantesca catástrofe de morte e destruição. Nesta altura, as brutais acções de guerra conduzidas por ambas as partes já estão a ser classificadas como “crimes de guerra”, designadamente pelas Nações Unidas. É nesse contexto e por razões humanitárias, que a mensagem do jornal l’Humanité tem todo o sentido e deve ser apoiada, ao mesmo tempo que devem ser retomadas todas as iniciativas que conduzam à paz e à coexistência pacífica entre israelitas e palestinianos. Já passaram demasiados anos sem que o problema fosse resolvido, devido à oposição dos extremistas de ambos os lados e dos seus aliados internacionais.
A Europa deveria assumir o papel de pacificador e de moderador neste conflito mas, uma vez mais, alguns dos seus dirigentes a começar pela incansável Ursula, que confunde Hamas com Palestina, apressaram-se a tomar partido sem cuidar de pensar que estão a prejudicar os interesses dos europeus. 
Muito gosta a Europa de dar tiros nos pés...

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

A gravidade da crise israelo-palestiniana

A guerra entre Israel e o Hamas tomou conta das preocupações mundiais, porque se trata de um conflito mais sério do que qualquer outro daqueles que estão a acontecer no nosso planeta. O conflito entre árabes e judeus dura desde 1948 e poucos dirigentes têm tido a sensibilidade de levar à prática as Resoluções das Nações Unidas, que aprovaram a criação de um estado judeu e de um estado palestiniano. Como hoje escreveu um conhecido opinion maker, “já era tempo de este clube de idiotas que governam o mundo aprenderem alguma coisa de útil sobre o passado”, mas o facto é que muito pouco tem sido feito no sentido de garantir, simultaneamente, a autodeterminação e a soberania do povo da Palestina e a segurança do estado de Israel. Os direitos do povo palestiniano têm sido ignorados pelo estado de Israel perante a indiferença dos países mais poderosos, mas nada justifica o fanatismo e a bestialidade com que o Hamas atacou Israel no dia 7 de Outubro, com níveis de crueldade importados do Daesh e que são repudiados pelo mundo civilizado. Torna-se necessário que a anunciada e compreensível ofensiva israelita contra o Hamas seja proporcional e não siga os padrões do criminoso fanatismo daquela organização, pois há mais de dois milhões de palestinianos na Faixa Gaza e só uma minoria estará ao lado do Hamas.
O mundo está cada vez mais inseguro e aqueles que têm poderes para arbitrar e para moderar, raramente cedem aos seus interesses estratégicos e comerciais, esquecendo quase sempre que, nestes conflitos, os maus não estão todos de um lado, nem os bons estão todos do outro lado, o que exige vontade de conciliação e de negociação.
O facto é que árabes e judeus, ou Israel e a Palestina, estão a passar por tempos muito perigosos para a paz mundial e, embora seja justa a punição daqueles que usaram de crueldade e mataram civis inocentes, há que evitar “lançar gasolina para a fogueira”, como fazem certos dirigentes e muitos mass media mundiais.
Na sua edição de ontem, o jornal argelino Le Jeune Indépendant ignora a crueldade do Hamas, destaca “os cinco dias de bombardeamentos selvagens” e anuncia que “les ghazaouis seuls face a l’atrocité sioniste”, o que mostra como há leituras e interpretações bem diversas sobre o que está a acontecer no Médio Oriente.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

As guerras e as lições de Clausewitz

A guerra está instalada nas fronteiras da Europa e as lições de Clausewitz tornam-se muito actuais, apesar de terem sido escritas há quase duzentos anos. Foi em 1832 que, postumamente, foi publicado um livro sobre guerra e estratégia militar intitulado “Da Guerra”, que desde logo se tornou uma referência nas doutrinas militares, tal como o seu autor Karl von Clausewitz, um general prussiano que, entre muitos outros princípios, escreveu que “a guerra é uma simples continuação da política por outros meios”. Quando nos nossos dias, depois de muitos anos de paz, de progresso e de prosperidade dos povos europeus, vemos a violência, a brutalidade e a desumanidade da guerra, as lições de Clausewitz são lembradas por muita gente. As situações de guerra entre a Rússia e a Ucrânia, tal como entre Israel e a Palestina, são “a simples continuação da política por outros meios”. Em ambos os casos, não terão sido acauteladas as realidades históricas e as aspirações dos povos, tendo imperado a intransigência negocial e uma lógica belicista. Os políticos das grandes potências não só deviam cuidar do bem-estar e da segurança das suas populações, mas também deveriam assumir a responsabilidade pela promoção da cooperação internacional, pelo apaziguamento das tensões, pela arbitragem de contenciosos e pela preservação da paz no mundo, mas não foram capazes de encontrar entendimentos e soluções negociadas para as históricas conflitualidades que afectam as regiões actualmente em guerra. Objectivamente, os políticos das grandes potências, sobretudo os que têm assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, não só contribuíram como, em alguns casos, estimularam a guerra, para satisfação das suas ganâncias económicas ou estratégicas.
Hoje o Daily News, um dos principais jornais de Nova Iorque, anuncia o contra-ataque israelita e a imagem utilizada mostra a enorme violência da guerra na Faixa de Gaza.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Um conflito que muito inquieta o mundo

No passado sábado, o grupo fundamentalista islâmico Hamas lançou um violento ataque contra Israel a partir da Faixa de Gaza, de que resultaram centenas de mortos e um número ainda indeterminado de reféns. De acordo com todos os relatos a acção do Hamas foi de grande brutalidade e desumanidade e, de imediato, o estado de Israel anunciou que estava em guerra, reagindo com o bombardeamento de várias instalações do Hamas na Faixa de Gaza e com o cerco total desse território, cortando o abastecimento de água, electricidade, combustíveis e víveres. Sucederam-se as condenações internacionais ao ataque do Hamas e as declarações de apoio a Israel e ao seu direito a defender-se, mas também foram expressas algumas posições a defender um cessar-fogo e negociações que procurem (uma vez mais) implementar as Resoluções das Nações Unidas – a criação e a coexistência pacífica entre um estado judeu e um estado árabe. 
O secretário-geral das Nações Unidas criticou o ataque do Hamas, mostrou-se preocupado pela possibilidade deste conflito alastrar e pela situação humanitária na Faixa de Gaza, tendo apelado às autoridades israelitas e palestinianas para permitirem a entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, mas também a libertação dos reféns em poder do Hamas. Nas suas declarações, António Guterres “reconheceu as reivindicações e os apelos do povo palestiniano, mas que nada pode justificar este tipo de actos de terror, assassinato e rapto de civis”, mas também “lembrou a Israel que as operações militares devem ser conduzidas em estrita conformidade com o direito humanitário internacional", isto é, com respeito pelos civis.
Como hoje destaca em manchete o jornal La Voix du Nord, que se publica na cidade francesa de Lille, é um conflito que inquieta o mundo.

O brilho português na Rugby World Cup

A equipa portuguesa despediu-se ontem da Rugby World Cup com uma vitória por 24-23 sobre as Ilhas Fiji, o que constituiu um feito desportivo extraordinário. Com participações nos Mundiais de 2007 e 2023, esta foi a primeira vitória portuguesa num mundial da modalidade, num jogo fantástico sob os pontos de vista desportivo e emocional, que a RTP2 transmitiu em directo a partir de Toulouse. Na sua edição de hoje o jornal A Bola esqueceu as suas habituais manchetes futebolísticas e, com toda a justiça, prestou homenagem ao admirável feito conseguido pelos Lobos.
Este resultado entusiasma muito, mas também surpreende. A surpresa resulta do facto do râguebi português ter poucos praticantes e não ter estatuto internacional, mas soube tirar partido dos lusodescendentes que jogam regularmente em França e que constituem metade da equipa portuguesa.
Com a vitória sobre as Ilhas Fiji, o empate com a Geórgia e as derrotas com a Austrália e Gales, a equipa portuguesa classificou-se em 14º lugar nesta prova, entre as vinte selecções que integram a elite do râguebi mundial. Agora que terminou a primeira fase e que Portugal, tal como a Austrália, a Escócia e a Itália, ficou pelo caminho, há oito selecções que continuam em prova: Gales e Argentina, Irlanda e Nova Zelândia, Inglaterra e Ilhas Fiji, França e África do Sul.
Porém, os desportistas portugueses não vão esquecer tão depressa a emocionante e merecida vitória sobre Fiji por 24-23, no dia 8 de Outubro de 2023, em Toulouse.

domingo, 8 de outubro de 2023

E de repente, aí está mais uma guerra

O mundo foi surpreendido ontem com um poderoso ataque do Hamas contra o estado de Israel, lançado a partir da Faixa de Gaza, em que foram dirigidos milhares de rockets sobre o território israelita, ao mesmo tempo que um número indefinido dos seus militantes se infiltrava em território israelita, matando e sequestrando militares e civis. Israel foi apanhado de surpresa mas já reagiu, tendo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu avisado a população de que o país está em guerra, como se pode ler hoje na manchete do jornal Corriere della Sera.
A Faixa de Gaza é um pequeno território na orla mediterrânica com 365 km2 de superfície, cujo maior comprimento são 41 km, que é governado desde 2007 pelo Hamas que venceu as eleições legislativas de 2006.
O Hamas é um grupo fundamentalista islâmico de origem palestiniana que foi fundado em 1987, cujo lema é “Alá é o nosso princípio, o Profeta o nosso modelo, o Corão a nossa Constituição e a jhiad o nosso caminho”, pelo que os seus objectivos de luta são a autodeterminação da Palestina, a recuperação dos territórios palestinianos ocupados e, naturalmente, a destruição do estado de Israel.
A violência do ataque do Hamas surpreendeu o mundo, mas todos esperam uma resposta proporcional de Israel, a quem os Estados Unidos ofereceram imediato apoio.
Numa altura em que tantos discutem uma saída para a guerra na Ucrânia que tanta tragédia está a causar, a iniciativa do Hamas veio “lançar gasolina sobre a fogueira” da instabilidade mundial. A Humanidade passa por tempos difíceis e, perante estas graves situações de conflito, a generalidade dos países prefere anunciar os seus alinhamentos, em vez de apelar à sua resolução pacífica e negociada. Aqui, temos a particularidade de ser o Supremo Magistrado da Nação a querer aparecer, a ir a todas e a atropelar o governo, que é a entidade responsável pela condução da nossa política externa. Ele sabe disso, mas não resiste e insiste…

sábado, 7 de outubro de 2023

A guerra na Ucrânia e a luta de Zelensky

A guerra na Ucrânia está a revelar-se cada vez mais uma grande tragédia e a necessidade de um cessar-fogo é cada vez mais evidente. Apesar de haver horas seguidas de noticiários televisivos e dezenas de comentadores, não sabemos o que realmente se passa no terreno, nem nas chancelarias. Há narrativas para todos os gostos, Putin e Zelensky foram longe de mais no radicalismo dos seus discursos e nunca haverá vencedores nesta guerra, pois todos sairão derrotados. Qualquer que seja o seu desenvolvimento, as marcas desta guerra irão perdurar por muitos anos em todo o mundo. Porém, nas últimas semanas houve algumas novidades, com Volodymyr Zelensky a andar numa roda-viva a procurar apoios e a ouvir promessas de “apoio duradouro”, mas também alguns conselhos para se sentar à mesa de negociações. No dia 18 de Setembro foi a Nova Iorque para falar na Assembleia Geral e no Conselho de Segurança das Nações Unidas, encontrou-se com Lula da Silva, discutiu com Joe Biden e ficou a saber que o apoio americano já não é o que foi. No dia 22 seguiu para o Canadá onde, depois dos encontros muito tensos que tivera nos Estados Unidos, foi recebido com grande entusiasmo. De regresso à Ucrânia, esteve na reunião do passado dia 2 de Outubro, que juntou em Kiev os ministros dos Negócios Estrangeiros de 24 dos 27 estados-membros da União Europeia, o que aconteceu pela primeira vez fora das suas fronteiras. No dia 4 de Outubro, Zelensky reuniu em Granada com a chamada Comunidade Política Europeia que junta os líderes de cerca de cinquenta países e, no dia 5, assistiu como convidado à reunião do Conselho Europeu.
Volodymyr Zelensky esteve em todas estas reuniões e em todas voltou a ter um apoio mais ou menos unânime, tendo pedido “um escudo de defesa para o inverno”, não só para enfrentar a agressão russa, mas também pela necessidade de “salvar a unidade da Europa”. Porém, fala-se cada vez mais em fadiga e as opiniões públicas americanas e europeias parecem cansadas. Zelensky nunca estivera tanto tempo fora do país, mas sentiu necessidade de bater a todas as portas, pois já percebeu que a promessa de “apoio enquanto for necessário” ou de “apoio duradouro”, se está a tornar hesitante ou menos firme. Como escreveu o La Vanguardia, o principal jornal da Catalunha, “Zelensky implora a Europa que no desfallezca en su ayuda a Ucrania”.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

McCarthy e a agitação política americana

O deputado republicano Kevin McCarthy, que era o speaker da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, foi destituído do seu cargo na sequência de uma votação em que oito deputados da direita radical do seu partido se aliaram com a minoria democrata e o afastaram por 216 votos contra 210. Toda a imprensa americana destacou esta notícia. Uma situação destas nunca tinha acontecido na história americana e, de acordo com a imprensa, tanto o partido Republicano como a Câmara dos Representantes “estão no caos”, numa altura crítica para o país devido à necessidade de um acordo sobre o orçamento do próximo ano, mas também em relação ao apoio à Ucrânia, ao inquérito de impeachment a Joe Biden e à campanha presidencial que se aproxima. As explicações que a imprensa internacional dá para esta situação são pouco convincentes, pois não pode ser apenas uma questão de rivalidades pessoais entre os deputados Kevin Mc Carthy e Matt Gaetz, ou de combate político entre os dois blocos partidários americanos.
Estão decorridos quase três anos sobre a vitória eleitoral de Joe Biden e a invasão do Capitólio, mas “seis em cada dez republicanos ainda não acreditam que Joe Biden ganhou legitimamente em 2020”. Desde então, os republicanos e o ex-presidente Donald Trump, têm alimentado um intenso combate político a que os americanos não estavam habituados, não só como elemento da normal luta pelo poder nas sociedades democráticas, mas também porque parece serem crescentes as dúvidas quanto ao apoio futuro à Ucrânia que está a ser demasiado caro. Provavelmente, a destituição de Kevin McCarthy está relacionada com as crescentes dúvidas sobre esse problema e o facto é que, de repente, em Kiev e em Granada, os europeus têm procurado alternativas à assistência americana à Ucrânia.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Regiões francesas aspiram à autonomia

Depois da Rússia e da Ucrânia, a França é o maior país da Europa, estando dividida em 18 regiões, das quais 13 pertencem à França Metropolitana e cinco à França Ultramarina. Entre as regiões metropolitanas encontram-se a Córsega e a Bretanha, ambas com identidades culturais específicas, línguas próprias e aspirações autonomistas.
A Córsega tem a sua capital em Ajaccio e é uma ilha mediterrânica onde existem movimentos independentistas com fortes raízes históricas, que por vezes se têm manifestado por via violenta. Recentemente, o presidente Emmanuel Macron, em visita à ilha, propôs um prazo de seis meses para que o governo corso e os partidos locais encontrem uma forma de autonomia política limitada, mas que assegure que a ilha se mantenha no seio da República Francesa, eventualmente com um estatuto semelhante ao das comunidades autónomas espanholas ou das duas regiões autónomas portuguesas.
A Bretanha tem capital em Rennes e é uma península do noroeste da França, onde também existe uma distinta identidade cultural e fortes aspirações autonomistas, incrementadas sobretudo pela imposição da língua francesa contra a vontade local de preservar as línguas e dialectos locais, como o bretão e o galo.
O problema corso e o problema bretão não têm as mesmas características em relação ao centralismo de Paris, mas a edição de hoje do jornal Le Télégramme mostra que a “abertura” de Emmanuel Macron relativamente à Córsega, deixou os bretões com vontade de seguir o exemplo corso.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Os telemóveis perturbam a vida da escola

Todos conhecemos os benefícios que as comunicações móveis trouxeram ao mundo, mas tem havido uma excessiva dependência, ou uma quase escravatura das pessoas em relação ao telemóvel, como facilmente se verifica na vida quotidiana. Essa dependência tem sido estudada, sobretudo no que respeita à sua utilização nas escolas, tendo-se tornado um tema muito polémico. 
Há quem defenda que os telemóveis são úteis para a segurança dos alunos por permitirem que eles comuniquem com os pais, com a escola ou com as autoridades, mas também há quem afirme que os telemóveis afectam a saúde mental dos alunos, que dificultam a socialização juvenil e que constituem uma perturbação constante nas salas de aula. O uso excessivo ou inadequado do telemóvel pelos alunos, nas salas de aula ou em casa, através de smartphones, tablets ou laptops, afecta o desempenho dos estudantes porque distrai e perturba negativamente a aprendizagem. Vários países já decidiram proibir o uso de telemóveis nas escolas e, segundo hoje anuncia o Daily Mail, a Inglaterra vai proibir o seu uso nas escolas públicas, tanto nas aulas como nos intervalos e, segundo o referido jornal, “será um alívio para milhões de pais e professores”. 
Um relatório da Unesco, a agência das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, publicado no início do corrente ano, concluía que o uso de telefones nas salas de aula era um factor de perturbação, de limitação da aprendizagem e de menor rendimento escolar.
O anúncio hoje divulgado pelo governo inglês representa uma decisão corajosa e acontece depois de muitos anos de debate, embora haja escolas que já proíbem a utilização de telemóveis pelos alunos, que são obrigados a entregá-los todas as manhãs. 

sábado, 30 de setembro de 2023

A “escultura de Picasso” no Guggenheim

Bilbau é uma cidade espanhola que é a capital da Biscaia, uma das três províncias da Comunidade Autónoma do País Basco, ou Euskadi. Com um património histórico importante e enquadrada numa atraente paisagem de mar e montanha, a cidade também se tornou num polo de atracção turística, sobretudo depois do Museu Guggenheim Bilbao ter sido aberto ao público em 1997. A cidade passou a receber milhares de turistas para ver aquela imponente construção, embora muitos deles fiquem desolados com a quase vulgaridade dos conteúdos. Este equipamento cultural foi concebido pelo famoso arquitecto americano Frank Gehry, é coberto exteriormente com placas de titânio e é atravessado por uma artística ponte elevada. É uma construção sumptuosa cujo exterior é mais impressionante que o seu interior, cujas características são mais de centro cultural e menos de museu. Apesar disso, é hoje um símbolo da arte contemporânea, pelas colecções de arte moderna que mostra na sua exposição permanente e pelas suas exposições temporárias.
A direcção do museu está atenta a novas iniciativas e às oportunidades da tecnologia, sobretudo o scanning e a impressão 3D, que abriram as portas a novas formas de produção artística, como a recriação de obras do passado. É o caso da obra do pintor malaguenho Pablo Picasso, uma parte da qual foi recriada em escultura. O Museu Guggenheim Bilbao expõe actualmente 54 obras em escultura produzidas a partir da obra pictórica de Picasso. O jornal El Correo, de Bilbao, destacou na sua edição de ontem esta exposição da “escultura de Picasso” e o facto é que Museu bem precisa de iniciativas como esta, porque só o edifício é pouco...

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Cooperação no Espaço, rivalidade na Terra

Depois de 371 dias no espaço, o astronauta americano de origem salvadorenha Francisco Carlos Rubio, ou simplesmente Frank Rubio, regressou à Terra a bordo da nave espacial russa Soyus MS-23, juntamente com os cosmonautas russos Sergey Prokopyev e Dmitri Petelin. A nave aterrou nas estepes do Kazaquistão depois de ter efectuado 5.963 órbitas à Terra e, na sua edição de ontem, o The Wall Street Journal deu grande destaque a este acontecimento. A missão foi iniciada no dia 21 de Setembro de 2022 a bordo de uma nave russa e estava previsto ter uma duração de seis meses na Estação Espacial Internacional, mas uma avaria provocada por uma colisão com lixo espacial, impediu o regresso da nave. Em Fevereiro de 2023 a NASA e a Roscosmos chegaram a acordo para trazer os astronautas de regresso à Terra, o que aconteceu agora. O inesperado prolongamento desta missão resultou de atrasos na preparação na equipa de substituição constituída pela americana Loral O’Hara e pelos russos Oleg Kononenkop e Nikolai Chub, que chegaram à Estação Espacial Internacional no dia 15 de Setembro. Este imprevisto tornou Frank Rubio no recordista da maior permanência de um americano no espaço, embora o recordista mundial seja o russo Valeri Polyakov que esteve 437 dias seguidos em órbita a bordo da estação espacial Mir, entre Janeiro de 1994 e Março de 1995. Porém, o que é de salientar neste acontecimento é a boa cooperação espacial mantida entre a Rússia e os Estados Unidos, o que nos obriga a pensar nas razões porque não param a guerra na Ucrânia, ou a perguntar que interesses separam estes dois cooperantes espaciais.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

O reaparecimento do “legado do medo”

No último texto que aqui publicamos foi tratado o ex-jornalismo independente e era referida uma comunicação de massas que produz e reproduz ideologias mascaradas de independência e neutralidade em relação aos interesses comerciais, políticos e até do próprio Estado. Os efeitos sociais dos mass media são intensos e são estudados desde há muitos anos, até existindo a “teoria das balas mágicas” que afirma que o processo de comunicação de massas é equivalente ao que se passa numa carreira de tiro, pois bastava atingir o alvo para que este caísse.
No actual contexto em que a comunicação social é um negócio, o jornalista deixou de ser um profissional independente e de valores próprios, para passar a partilhar os valores do seu patrão ou da sua empresa. Esta realidade tem-se agravado nos últimos anos e aplica-se à imprensa, à radio e à televisão. Nessa linha de pensamento, também o iluminado Marshall McLuhan afirmou que a rádio e a televisão estavam a fazer do nosso planeta uma “aldeia global”. De facto, são bem conhecidos os efeitos sociais e culturais dos mass media e, há poucos anos, um jornalista português de referência dizia que “a televisão vende sabonetes e até vende presidentes da república”.
Quando, na sua edição de hoje, o Diário de Notícias diz que “40% dos juízes admite que comunicação social influencia decisões”, confirmamos aquilo que há muito tempo era uma evidência e ficamos preocupados com os correios da manha e outros pasquins que, servindo duvidosos valores e princípios, utilizam a difamação, a inverdade, o sensacionalismo, a violação do segredo de justiça e o “vale tudo”, para estimular os julgamentos e as condenações na praça pública. Assim se ressuscita aquilo que os cientistas sociais americanos designam por “legado do medo”, isto é, o medo dos jornais e das televisões, o medo da difamação e da propaganda, o medo da suspeita malévola e sem fundamento, o medo das redes sociais, isto é, o medo da comunicação de massas.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Os jornais e o ex-jornalismo independente

Os tradicionais meios de comunicação social ou mass media são a imprensa, a rádio e a televisão, mas com o aparecimento de novos suportes como a internet e as redes sociais, a imprensa e a rádio têm perdido influência no espaço mediático. Dessa forma, esses meios de comunicação têm menos leitores e menos ouvintes, as suas audiências regridem, as suas receitas publicitárias descem e as suas equações económicas tornam-se mais difíceis de resolver. Por isso, o jornalismo e os jornais independentes são cada vez mais raros, sendo os leitores e os ouvintes confrontados com manipulações e inverdades de toda a ordem.
No caso dos jornais – mas não só nos jornais – a sobrevivência “obriga” a que os seus espaços cedam a lógica noticiosa e informativa, às lógicas da publicidade comercial e da propaganda política. Assim, para que possam “sobreviver”, os jornais disponibilizam e vendem cada vez mais o seu espaço para fins não informativos, deixando de ser suportes com notícias, para se transformarem em plataformas ao serviço de quem paga para vender produtos, serviços ou ideias. É, evidentemente, o fim do jornalismo independente.
No passado dia 19 de Setembro a primeira página do The New York Times era ocupada com um anúncio das malas de alumínio da marca Rimowa e no dia 21 de Setembro o diário espanhol ABC cedia toda a sua primeira página para expressar a sua gratidão à Coca-Cola, “por estos 25 años juntos”. Ontem foi a Folha de S. Paulo e outros jornais brasileiros, que publicaram em primeira página, um “informe publicitário” relativo à reunião do G20 do próximo ano no Rio de Janeiro, numa evidente cedência à propaganda do governo brasileiro.
Nestes casos, o The New York Times, o ABC e a Folha de S. Paulo puderam facturar muitos milhares para equilibrar a sua tesouraria, mas cada um deles “violou” a sua independência jornalística e abalou a sua credibilidade junto dos seus leitores.