sábado, 18 de novembro de 2023

Só Zelensky acredita na vitória ucraniana

A guerra na Ucrânia já decorre há quase dois anos, com muitas mortes, muita destruição e muito sofrimento, mas nos últimos tempos tem sido esquecida, sobretudo depois dos acontecimentos de Gaza de 7 de Outubro, que alteraram a agenda das preocupações mundiais. Muitos dos dirigentes europeus e americanos que andaram em repetida procissão até Kyev, com destaque para Ursula von der Leyen e Jens Stoltenberg, devem ter-se cansado, ou devem ter feito contas ao dinheiro que estavam a gastar. A tão badalada contraofensiva de Kyev foi mais uma operação de propaganda ocidental do que uma operação militar no terreno. O volume e o ritmo dos apoios militares, financeiros e humanitários de que a Ucrânia necessita para lutar, parece ter abrandado, enquanto Volodymyr Zelensky tem batido a todas as portas possíveis à procura de auxílio. Algumas operações militares ucranianas têm sido bem-sucedidas, mas o facto é que um quinto do território ucraniano continua ocupado pelos russos.
Há dois dias, o jornal DNA de Strasbourg escrevia que “en Ukraine, un nouvel hiver de guerre arrive”, lembrando a dureza dos meses que se aproximam, devido ao frio, à falta de alojamentos e de electricidade em várias regiões, mas também devido à continuada acção dos russos e à indiferença daqueles que podem levar ao cessar-fogo e â paz. Há muito tempo que não se falava da Ucrânia, mas a fadiga e a dúvida quanto ao futuro têm aumentado. Na sua última edição, a revista TIME avisa que “o apoio global à guerra está a diminuir” e reproduz o lamento do próprio Zelensky que quase assume a impossibilidade de continuar a guerra, afirmando: “Ninguém como eu acredita na nossa vitória. Ninguém”.
Prevalece o discurso dos maus e dos bons, da confrontação, da ajuda militar, dos mísseis e dos F-16, dos drones e dos tanques, mas ninguém fala de paz. Neste quadro, é oportuno perguntar a razão por que as partes não se entendem, não só os ucranianos e os russos, mas todos aqueles que têm enganado os ucranianos com promessas de utopias e não acabam com a guerra para sossego do povo ucraniano, mas também de todos nós. Sentem-se à mesa e conversem, pois o que não falta são árbitros.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

O aperto de mão que o mundo esperava

Os presidentes dos Estados Unidos e da China, ou os senhores Joe Biden e Xi Jinping, encontraram-se frente a frente numa cimeira bilateral em São Francisco, na Califórnia, no âmbito do fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC). 
Como foi noticiado pela imprensa “foi o aperto de mão que o mundo esperava”. 
Segundo foi divulgado pelo The Washington Post e pela imprensa americana, o encontro decorreu durante mais de quatro horas, tendo sido tratados os problemas económicos e comerciais pendentes entre os dois países e discutidas várias questões diplomáticas que preocupam o mundo, como as guerras na Ucrânia e em Gaza e, naturalmente, a questão de Taiwan, que a China pretende integrar pacificamente no seu território através de um processo de reunificação, mas que continua a não ter o apoio americano. Porém, mais importante do que os assuntos que possam ter sido discutidos, a retoma do diálogo entre os dois líderes foi o melhor resultado desta cimeira que o mundo tanto esperava, pois pode travar as escaladas belicistas que por vezes afectam as suas relações, mas também pode ser um contributo para atenuar as actuais tensões internacionais. No fim, realizou-se uma conferência de imprensa em que Joe Biden considerou as conversas havidas como “algumas das discussões mais construtivas e produtivas” que já tivera com Xi Jinping, acrescentando que “o que estamos a tentar fazer é mudar a relação para uma fase melhor”. No entanto, o ambiente de grande cordialidade que caracterizou o encontro entre os dois líderes, não escondeu a enorme competição que travam em todos os domínios e até parece ter sido afectado por algumas declarações finais de Joe Biden, consideradas agressivas pelos chineses, mas que teriam sido utilizadas para servirem na campanha eleitoral americana, o que levou as autoridades chinesas a considerá-las irresponsáveis e inamistosas, ou seja, na cimeira nem tudo aconteceu como parece, apesar de ter acontecido “o aperto de mão que o mundo esperava”.

O rei Carlos III e a nova moeda do Canadá

No passado dias 14 de Novembro o rei Carlos III da Inglaterra celebrou o seu 75º aniversário e a Royal Canadian Mint apresentou em Winnipeg, as novas moedas do sistema monetário canadiano que serão postas em circulação a partir de Dezembro, em que se destaca a efígie de Carlos III.
Formalmente, Carlos III é o rei ou chefe de Estado do Canadá, tal como acontece nos quinze reinos da Comunidade das Nações (Commonwealth of Nations), onde se incluem também a Austrália e a Nova Zelândia. Esta comunidade faz parte da Commonwealth propriamente dita, que é uma organização intergovernamental de 56 estados independentes, sem especial ligação ao rei da Inglaterra, pois até inclui 33 repúblicas.
Portanto, as novas moedas e notas canadianas terão a efígie de Carlos III e substituirão as peças monetárias que circulam desde 1953 com a efígie da rainha Isabel II. O desenho da efigie de Carlos III foi criado pelo artista canadiano Steven Rosati, tendo sido escolhido de entre 350 propostas que se candidararam e que foi aprovado pelo palácio de Buckingham.
A edição de ontem de Le Journal de Montréal, critica subtilmente a decisão de escolher a figura de Carlos III, tal como o Bloc Québécois, um partido nacionalista que defende a independência da província do Quebec, pois “o governo de Trudeau não respeitou a opinião pública” e, em vez de “homenagear aqueles que lutaram pela democracia e contribuíram para a história do país, optaram por promover a monarquia em vez da democracia”. Por caminho diferente andou a Austrália que, sendo uma monarquia da Commonwealth of Nations e ter Carlos III como o seu rei, se recusou a introduzir a sua efígie nas notas e moedas australianas, quebrando uma prática que se verificava desde 1923. Na província do Quebec desabafou-se com um "oh, my God", mas na Austrália o rei foi simplesmente ignorado.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Haja sensatez e respeito na vida pública

A ventania gerada pelo Ministério Público no dia 7 de Novembro afectou a política portuguesa, mas parece que não passou disso mesmo, embora tivesse deixado grandes estragos – a queda de um primeiro-ministro que gozava de elevada reputação e prestígio na Europa e de um governo de maioria absoluta, com a economia em convergência com a União Europeia, com contas certas e com bom nível de emprego, com a dívida pública (em relação ao PIB) a diminuir e que vinha gerindo as incertezas do covid e das guerras, que negociava com médicos, com professores e que assumira a questão da habitação como uma das suas prioridades. Porém, alguém quis introduzir a instabilidade e a incerteza na política portuguesa, sem cuidar de pensar na verdade e nos efeitos induzidos das suas iniciativas, tratando de criar narrativas que sugerem prevaricação, corrupção activa e passiva de titular de cargo político, tráfico de influência e recebimento indevido de vantagem. Tudo suspeitas “vagas e genéricas” como decidiu o juiz de instrução que analisou o processo instaurado pelo Ministério Público e que o jornal Público hoje anuncia.
De acordo com a Constituição da República, “ao Ministério Público compete representar o Estado, exercer a acção penal, defender a legalidade democrática e os interesses que a lei determina”. É caso para perguntar se a procura de investimento estrangeiro em Portugal não é do interesse do Estado e se, perante localizações alternativas desse investimento, não é do interesse do Estado influenciar esses investidores para que invistam em Portugal e não na Eslováquia, em Marrocos ou na Irlanda? Levantou-se a suspeita e esqueceu-se que, segundo os preceitos constitucionais, os cidadãos portugueses têm direito “ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra e à reserva da intimidade da vida privada e familiar”, o que parece não ter sido acautelado.
Dias antes, já o qualificado académico José Pacheco Pereira dissera que “se aquilo é motivo de crime, todos os governos desde o 25 de Abril poderiam ser indiciados” e, interrogado sobre esse assunto, o experiente advogado Manuel Magalhães e Silva disse que “a montanha não pariu um rato, mas tão só uma formiga”.
Os livros de Sociologia ensinam que a vida humana é um processo de interacção social e cultural de influenciação da vida quotidiana, que é muito semelhante aos mecanismos que regem a economia internacional. Alguém se lembraria de instaurar um processo a quem conseguiu que a Volkswagen trouxesse uma das suas fábricas para Palmela? Ou alguém se lembraria de instaurar um processo a quem vier a ser capaz de travar a saída da fábrica de Palmela para Pamplona, ou para Osnabrück, como tanto se tem falado? 
Haja sensatez e respeito na apreciação da vida pública!

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

A enorme agitação da política espanhola

As eleições legislativas espanholas realizadas no passado dia 23 de Julho tiveram resultados muito complexos no que respeita à formação de uma maioria do governo. O partido mais votado foi o Partido Popular (PP) de Alberto Núñez Feijóo, que conseguiu 136 deputados, enquanto o PSOE de Pedro Sánchez se ficou pelos 122 deputados. Assim, cada um destes dois partidos tem procurado fazer alianças para conseguir a maioria de 175 deputados das Cortes, que é necessária para governar. Alberto Feijóo teve o apoio do Vox, o partido franquista de Santiago Abascal, juntando 169 deputados, o que não lhe assegurou a investidura. Pedro Sánchez aliou-se com o Sumar da antiga ministra Yolanda Diaz e conseguiu 153 deputados, mas decidiu fazer acordos com os diversos partidos regionais, incluindo os partidos nacionalistas catalães e bascos, para conseguir a maioria de 175 deputados. Parece que conseguiu esse objectivo. Porém, o partido Junts per Catalunya (JxCat) de Carles Puigdemont, o antigo presidente da Generalitat que está exilado na Bélgica desde 2017, exigiu como contrapartida do apoio do seu partido, a amnistia pelos crimes de que está acusado pela Justiça espanhola, que já foram de sedição e agora são apenas de peculato pelo uso de dinheiros públicos para organizar um referendo ilegal sobre a independência da Catalunha e desobediência.
A opção de Sánchez é controversa e, antes mesmo da sua aceitação ou rejeição pelo Parlamento e pelo rei Filipe VI, ontem mais de um milhão de espanhóis vieram para a rua em todas as cidades espanholas em protesto contra as cedências feitas aos independentistas. A imprensa espanhola é unânime na crítica a Pedro Sánchez e diz que “España se levanta contra la amnistia de Sánchez”, enquanto o jornal ABC dedica toda a sua primeira página a esta crise e escreve: “No” a la amnistía. A agitação política é enorme e, provavelmente, a saída desta crise passará por novas eleições.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

A desordem mundial e a crise portuguesa

Na sua edição de hoje, o jornal católico francês La Croix destaca como manchete um tema de interesse geral que designa como “a desordem mundial”. A análise publicada refere que a ordem mundial resultante da Guerra Fria se está a desmoronar, pois “nem é totalmente unipolar, nem verdadeiramente multipolar”, ao mesmo tempo que estão a emergir médias potências que desafiam a influência americana, como se vê nos conflitos que estão a perturbar a paz mundial. Segundo o citado jornal, “les conflits en Ukraine et au Proche-Orient confirment la perte de vitesse des États-Unis sur la scène internationale”.
O tema desenvolvido pelo jornal é de grande actualidade, como se vê naqueles conflitos, em que parece não haver quem possa travar a guerra e onde as acusações de violação dos direitos humanos e da prática de crimes de guerra são uma constante. Os Estados Unidos podem ser determinantes na resolução destes dois conflitos, mas as suas próximas eleições presidenciais não ajudam, para além de que nos teatros de guerra subsistem questões culturais de fundo a dificultar o encontro de soluções. No caso da Ucrânia é muitas vezes ignorado que há, pelo menos, "duas ucrânias" sob o ponto de vista cultural e religioso, enquanto no Médio Oriente é referido que “il faut sortir de la vision occidentale du conflit”, isto é, não são os mísseis, os tanques, os drones e a destruição de vidas e de cidades que, em ambos os casos, vão decidir os conflitos, mas tão só uma arbitragem que respeite as realidades culturais em conflito.
Bom seria que o jornal La Croix e a sua análise sobre “le désordre mondial”, pudessem ser lidos pelos responsáveis políticos mundiais. É neste preocupante quadro geopolítico mundial que agora vai entrar a crise que, certamente, vai minar a felicidade dos portugueses.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

António Costa, a crise e o que vem aí

O primeiro-ministro António Costa demitiu-se ontem e a sua demissão foi aceite pelo presidente da República. O país que bem conhece aquele governante há muito tempo e que há menos de dois anos lhe dera uma maioria absoluta nas eleições, foi apanhado de surpresa. Agora, aproxima-se uma grande crise política e muita instabilidade em Portugal. 
Ontem, durante a manhã, o Gabinete de Imprensa do Ministério Público tinha emitido um comunicado em que informava que estavam em curso “diligências de busca para identificação e apreensão de documentos e outros meios de prova de interesse para a descoberta da verdade”, pois poderão estar em causa “factos susceptíveis de constituir crimes de prevaricação, de corrupção activa e passiva de titular de cargo político e de tráfico de influência”. O comunicado acrescentava que o Ministério Público emitira mandados de detenção do chefe de gabinete do primeiro-ministro e da constituição como arguido de outros suspeitos, designadamente do Ministro das Infraestruturas. Depois, o comunicado levantava suspeitas sobre o próprio primeiro-ministro e informava que “tais referências serão autonomamente analisadas no âmbito de inquérito instaurado no Supremo Tribunal de Justiça, por ser esse o foro competente”.
António Costa deve ter ficado em estado de choque perante este comunicado, tendo entendido que o poder judicial estava a interferir na política governamental e decidiu demitir-se. Foi um acto de grande dignidade e o país avaliará quem tem razão.
Acontece que, nos últimos anos, a sociedade portuguesa tem sido confrontada com frequentes insinuações de supostos ilícitos de muitos dirigentes políticos e empresariais, que mais parecem acções de perseguição pessoal e levam a “julgamentos na praça pública”, em vez de procurarem a verdade. Muitas vezes, os factos nem precisam de ser provados, pois alguma comunicação social encarrega-se da repetição das insinuações que, de tanto repetidas, passam a ser tomadas como verdadeiras, num quase “terrorismo mediático”. A conta-gotas, aparecerão agora as fugas de informação que os "pasquins de serviço" tratarão de manipular, para corromper a democracia e a sociedade. Este tipo de teia judicial-mediática que visa a eliminação política de dirigentes e o descrédito da democracia, é vulgar na América Latina, mas também já chegou a Portugal. Há quem lhe chame “golpe de estado judicial”.
Na política não há insubstituíveis, mas eu presto a minha homenagem a António Costa pela sua dedicação à causa pública.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

MRS: atropelado pelas próprias palavras

Desde o dia 24 de Agosto, quando Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) deixou a algarvia praia de Monte Gordo para visitar a ucraniana cidade de Kyev, que não era sujeito de notícia neste espaço pois, lamentavelmente, o facto de falar sobre tudo e a toda a hora, tornou as palavras presidenciais um não-assunto. Porém, na passada sexta-feira, durante uma visita ao Bazar Diplomático, no Centro de Congressos de Lisboa, MRS encontrou-se com o chefe da missão diplomática da Palestina em Portugal e disse-lhe que “alguns palestinianos não deviam ter começado” esta guerra com Israel, confundindo a Palestina com o Hamas e esquecendo o historial de conflito entre Israel e a Palestina. O assunto é melindroso e MRS, ou distraiu-se, ou não percebeu isso. Nem o local, nem o tom utilizado foram apropriados e as críticas surgiram de todos os sectores políticos e sociais, incluindo de alguns amigos.
Houve depois uma tentativa de emenda, mas nada foi emendado. No domingo, numa atitude de narcisismo, de grande demagogia e de um populismo insuportável, MRS saiu do seu palácio – não para ir ao Multibanco, nem para comer um gelado – mas para ir ver a manifestação que no Jardim Afonso de Albuquerque exigia um cessar-fogo em Gaza, exactamente como têm feito as Nações Unidas e quase todo o mundo. Porém, o Presidente da República não pode andar a ver manifestações…
Como se viu, MRS rodeou-se de ajudantes de campo e de seguranças, o que significa que este seu capricho presidencial, nos custou bom dinheiro em horas extraordinárias a ser pagas àqueles servidores do Estado. As imagens televisivas mostraram o protesto contra as anteriores declarações presidenciais e o Presidente da República a ser confrontado e insultado por alguns manifestantes, tendo havido quem o acusasse de já não ser comentador e até de ser uma vergonha. Quem anda à chuva molha-se e MRS nunca passara por uma situação como esta, pelo que o humor de Ricardo Araújo Pereira não o poupou.
Muitas prestações presidenciais começam a roçar a banalidade e o ridículo e, nesse aspecto, MRS tende a aproximar-se cada vez mais do venerando Chefe do Estado, que foi o Almirante Américo Tomaz e viveu naquele mesmo palácio entre 1958 e 1974.

domingo, 5 de novembro de 2023

Os condenáveis excessos de Netanyahu

A guerra na Faixa de Gaza prossegue com uma violência extrema que não poupa nada nem ninguém e sem que Israel dê ouvidos à comunidade internacional, que exige uma pausa humanitária ou um cessar-fogo, bem como o estabelecimento de corredores humanitários para assegurar o apoio a cerca de dois milhões de palestinianos que estão cercados e sujeitos a intensos bombardeamentos. As imagens televisivas mostram indescritíveis níveis de destruição, a que se juntam os ataques a campos de refugiados e a ambulâncias, que matam civis e que, como tal, são classificáveis como crimes de guerra, tão graves como as barbaridades cometidas pelo Hamas. O mundo desaprova esta reacção desproporcionada e vingativa do governo de Israel, parecendo evidente que, na linha da política expansionista que adoptou desde 1948, está a aproveitar a crueldade da acção do Hamas para continuar a expulsar os palestinianos dos seus territórios, o que configura uma situação de genocídio. O governo de Israel está cada vez mais isolado e até os Estados Unidos que são os seus principais aliados, defendem uma “pausa humanitária”, a protecção da população civil e muita moderação, enquanto os países árabes da região começam a unir-se contra a intervenção israelita.
A situação é acompanhada em Portugal pelas televisões e custa a ver como há tantos vira-casacas, isto é, gente que passou de um apoio evidente aos israelitas, para a condenação dos seus bárbaros bombardeamentos, ou gente que começou a criticar Guterres e agora considera que ele teve a palavra certa, no local e no tempo certos. Um grande número de comentadores, em vez de mostrar moderação, prefere alinhar com o radicalismo vingativo de Benjamin Netanyahu e da sua gente, defendendo que os bombardeamentos israelitas e as mortes de civis são simples e inevitáveis efeitos colaterais, no que mostram uma enorme insensibilidade.
Na sua edição de hoje, o jornal argelino Le Jeune Indépendant noticia o bombardeamento deliberado de ambulâncias e utiliza a expressão “le nazisme sioniste”, o que parece traduzir uma crescente unidade árabe contra os israelitas e a sua estratégia de expansão territorial à custa dos palestinianos. 

sábado, 4 de novembro de 2023

Invernias e tempestades: elas aí estão!

A costa ocidental da Europa foi afectada esta semana pela tempestade Ciarán, que foi classificada como “uma das mais mortíferas dos últimos anos a atingir o continente”, com ventos que atingiram os 200 quilómetros por hora e que provocaram forte agitação marítima, o que afectou o tráfego marítimo e obrigou ao encerramento de vários portos. Diversos países reportaram situações de chuva e neve intensas, que perturbaram os movimentos aeroportuários, a circulação ferroviária, o fornecimento de energia eléctrica e, de uma forma geral, a vida quotidiana das pessoas. Registaram-se inundações, queda de árvores e houve o registo de, pelo menos, 16 mortes em vários países.
A imprensa espanhola, francesa e inglesa deu notícia desta tempestade e ilustrou várias das suas edições com as imagens, sempre espectaculares, da agitação marítima e dos seus efeitos. As costas basca e cantábrica, na orla sul do golfo da Biscaia, foram particularmente afectadas e a fotografia da capa do jornal El Correo, que se publica em Bilbao, é apenas um exemplo da fúria das ondas. Em Portugal, que não estava no centro da depressão, o mais grave acontecimento provocado pela tempestade Ciarán, foi o naufrágio de um veleiro dinamarquês ao largo de Peniche, no qual pereceram quatro pessoas. Porém, o que é de ter em conta é que o tempo das invernias e das tempestades está de volta...

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

As riquezas naturais e culturais dos Açores

O aeroporto da Ilha do Pico e a montanha
Uma visita às ilhas dos Açores, mesmo nesta época do ano em que a meteorologia é mais imprevista, é sempre um acontecimento muito emocionante. As ilhas açorianas, sobretudo no Grupo Central e em especial nas chamadas ilhas de baixo, mostram sempre “a frescura das manhãs em que se chega”, como se lhes referiu Fernando Pessoa. As suas paisagens marítimas animadas pelo voo das gaivotas, dos cagarros e dos garajaus, mais o intenso azul do mar, o verde das pastagens salpicadas por mansas vacas e o casario branco das povoações onde se destacam as torres das igrejas, são um deslumbramento e moldam um quadro de ruralidade e de tranquilidade que contrasta com o quotidiano agitado que se vive nas cidades.
A situação periférica destas ilhas atlânticas foi sempre um handicap que penalizou os açorianos em muitas das suas aspirações, mas que permitiu o desenvolvimento de práticas culturais específicas de grande qualidade estética, profanas e religiosas, observáveis por exemplo nas festividades do Divino Espírito Santo e na arquitectura dos impérios, mas também na música, na literatura e em diversas artes manuais, desde o scrimshaw ao bordado e, ainda, nas artes da construção naval e da baleação.
Depois de revisitar todo este rico panorama natural e cultural, o visitante fica naturalmente mais enriquecido e, certamente, com vontade de conhecer as particularidades culturais de cada ilha e até de cada comunidade dentro da mesma ilha.
A fotografia aqui publicada foi captada ontem em contraluz e mostra o aeroporto da ilha do Pico e, em segundo plano, a montanha mais alta de Portugal com 2.351 metros de altitude.

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Mesmo na guerra, não pode valer tudo

No passado dia 7 de Outubro os radicais islâmicos do Hamas decidiram atacar Israel a partir da Faixa de Gaza e fizeram-no de uma forma cruel, bárbara e selvagem, provocando muitas mortes e a captura de mais de duzentos reféns. O mundo ficou horrorizado com as atrocidades cometidas e muitas vozes anunciaram o óbvio, isto é, que Israel tinha o direito de se defender.
Desde então já se passaram 25 dias, em que as Israel Defence Forces (IDF) sob o comando de Benjamin Netanyahu, o líder do radical partido Likud, têm punido severamente a Faixa de Gaza sem distinguir o Hamas do povo palestiniano, o que configura uma situação de grave violação das leis da guerra, que é simétrica e tão condenável como o radicalismo do Hamas. Netanyahu tem rejeitado todos os apelos internacionais e das Nações Unidas para um cessar-fogo e tem respondido que “this is time for war”. Ele quer vingança, quer alargar o território de Israel e quer expulsar os palestinianos da sua terra, continuando a ignorar a Resolução 181 de 29 de Novembro de 1947 da Assembleia Geral das Nações Unidas, que determinava a criação de um estado judeu e de um estado árabe no território da Palestina, até então sob mandato britânico. A acção de Netanyahu e das IDF começa a enquadrar-se na prática de genocídio. 
Na sua edição de hoje o jornal The Washington Post noticia com destaque de primeira página que “strikes devastate Gaza refugee camp”. Trata-se do campo de refugiados de Jabaliya, criado em 1948 no norte de Gaza para abrigar parte dos 700.000 palestinianos que os israelitas tinham expulsado das suas terras da Palestina, antes e durante a guerra israelo-árabe de 1948. Actualmente este campo de refugiados terá cerca de 100.000 pessoas e no dia 9 de Outubro já tinha sido alvo de um ataque aéreo que matou 50 pessoas. Ontem o campo de Jabaliya voltou a ser atacado pela aviação israelita, que assumiu a responsabilidade por esse ataque, alegando que visava a eliminação de um alto comandante do Hamas. Segundo a imprensa internacional o ataque matou e feriu centenas de pessoas, mas o resultado ainda está por apurar. António Guterres ficou chocado com o bombardeamento de um campo de refugiados e com esta catástrofe humanitária. Nós também.
Mesmo na guerra, não pode valer tudo.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Springboks e Lobos na festa do râguebi

A equipa da África do Sul, conhecida como os Springboks, ganhou a 10ª edição da Rugby World Cup e tornou-se a selecção com mais troféus nesta prova ao arrecadar pela 4ª vez o Webb Ellis Trophy, por ter batido na final a equipa da Nova Zelândia, conhecida como os All Blacks.
O mérito da vitória sul-africana é indiscutível, mas o triunfo foi difícil. Nos quartos de final venceram a França por 29-28, nas meias-finais bateram a Inglaterra por 16-15 e na final derrotaram a Nova Zelândia por 12-11, isto é, foram três vitórias tangenciais em jogos mata-mata e todas conseguidas no Stade de France, em Saint-Denis.
Nelson Mandela que faleceu em 2013, deve ter-se sentido muito orgulhoso no seu túmulo. Durante muitos anos o râguebi era tido na África do Sul como um desporto-símbolo do apartheid e a população negra tinha-o como um dos símbolos da opressão branca. Em 1995 a Rugby World Cup realizou-se na África do Sul e foi o então presidente Nelson Mandela que juntou todos os sul-africanos, negros e brancos, em torno do apoio à sua selecção que, nesse ano, ganhou o seu primeiro Mundial. O râguebi tornou-se desde então no novo símbolo da unidade nacional sul-africana e o jornal The Citizen, que se publica em Joanesburgo, destacou essa grande vitória desportiva.
Nesta recente Rugby World Cup a selecção portuguesa, que na gíria da modalidade é conhecida como os Lobos, esteve em destaque e pelos resultados obtidos, ficou posicionada no 13º lugar do ranking mundial do râguebi, que é o segundo desporto colectivo mais praticado no mundo, com quase sete milhões de jogadores registados em mais de 170 países.
Estão de parabéns os Springboks, mas também os nossos Lobos!

domingo, 29 de outubro de 2023

Aníbal, Maria e os seus 60 anos de amores

Quando o mundo se mostra muito apreensivo pelo que vai acontecendo na Faixa de Gaza; quando constatamos a pequenez dos líderes que governam a Europa; quando gente de todos os continentes chega à Europa em busca de uma vida melhor; quando quase nada se sabe sobre o que se passa na Ucrânia; quando a corrida presidencial americana já está na estrada; quando se anunciam greves em Portugal e a privatização da TAP não é consensual; quando a África do Sul conquista a Rugby World Cup e o Benfica não ganha ao Casa Pia; e quando muitos mais assuntos de interesse vão acontecendo, verificamos que dois jornais portugueses de referência, respectivamente o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias, destacam em manchete nas suas edições de hoje um não-assunto, que é a história dos amores de Aníbal e Maria que, sessenta anos depois do seu casamento, ainda não sabem “qual de nós se apaixonou primeiro”. Chama-se a isto um “furo jornalístico” e é notável, pois nem a Caras nem a Maria, nem a Lux nem a Nova Gente, conseguiram dar essa notícia em primeira mão. Teve honras de muitas páginas no Notícias Magazine.
Tanto Boliqueime como São Bartolomeu de Messines, mas certamente todo o Algarve e, talvez mesmo todo o país, receberam com emoção a notícia do 60º aniversário deste casamento e puderam ver a fotografia do casal enquanto jovem, quem sabe se a antever o ano de 1985, o passeio à Figueira da Foz, a rodagem do seu carro novo e a sua ascensão ao poder.
É caso para felicitarmos editorialmente estes dois jornais por este "jornalismo de primeira qualidade", bem como o seu proprietário que é a holding Global Media Group, presidida pelo empresário Marco Galinha!

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Viva o secretário-geral António Guterres!

Na passada terça-feira o secretário-geral das Nações Unidas interveio no Conselho de Segurança para pedir um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza por razões humanitárias e para acabar com o “sofrimento épico” do povo palestiniano. António Guterres afirmou que os bombardeamentos israelitas representam “uma punição colectiva do povo palestiniano” e uma violação do Direito Internacional, afirmando também que os ataques do Hamas foram “terríveis”, mas não aconteceram do nada. Segundo Guterres “o povo palestiniano foi submetido a 56 anos de ocupação sufocante”, tendo visto “as suas terras serem continuamente devoradas por colonatos e assoladas pela violência, a sua economia sufocada, as suas casas demolidas e as pessoas a serem deslocadas”. O representante de Israel reagiu e pediu a Guterres que se demitisse imediatamente, acusando-se de patrocinar o terrorismo do Hamas, enquanto o governo israelita parece ter cortado relações com as Nações Unidas. É sabido que, desde sempre, o estado de Israel não cumpre as decisões das Nações Unidas e, no actual conflito, tem resistido aos pedidos internacionais de contenção e tem massacrando diariamente a Faixa de Gaza, o que já está a ser visto como um genocídio. António Guterres foi corajoso e cumpriu os seus deveres de secretário-geral, defendendo os mais fracos e a Carta das Nações Unidas, sem deixar de condenar inequivocamente “os actos de terror horríveis do Hamas”, mas denunciando também os bombardeamentos israelitas. A imprensa internacional não dá qualquer destaque a este “número” feito por Israel e não critica as afirmações de António Guterres que, pelo contrário, tem sido elogiado pela sua coragem e coerência. É um não-assunto. O que é curioso é o facto de haver em Portugal alguns comentadores que “são mais papistas do que o Papa” e que trataram de se aliar aos radicais israelitas, embora aparecendo travestidos de especialistas neutrais.