sábado, 17 de fevereiro de 2024

Toulouse e a audácia da nova arquitectura

A cidade de Toulouse é a capital da região da Occitânia e é a quarta maior cidade da França, depois de Paris, Marselha e Lyon. Localiza-se no sul da França, próximo da fronteira com a Espanha e, na sua área metropolitana, vivem cerca de um milhão e meio de pessoas.
A cidade é o centro da indústria aeroespacial europeia e a sede do gigante aeronáutico AIRBUS, mas também do sistema de posicionamento Galileo, do sistema de satélite SPOT e de outros importantes centros e indústrias de alta tecnologia. Porém, a cidade não tinha um edifício que, pela dimensão e modernidade, estivesse à altura do seu prestígio e ambição. Na sequência de um concurso lançado pelo município de Toulouse, em 2017 foi escolhido um promotor parisience – a Compagnie de Phalsbourg – para desenvolver um projecto imobiliário no centro da cidade – a Tour Occitanie – que se previa ficasse concluído em 2022 e que iria constituir o primeiro aranha-céus da cidade. Tratava-se de um edifício urbano com 150 metros de altura e 38 pisos, incluindo 13.000 m2 de escritórios, mais de cem unidades habitacionais, dois restaurantes, um bar-restaurante panorâmico no topo da torre, um hotel de quatro estrelas e dois mil m2 de lojas. O projecto foi entregue ao famoso arquitecto Daniel Libeskind, em associação com Francis Cardete, um arquitecto local, mas a “audace architecturale” do projecto teve adversários que o consideraram um “désastre environnemental”. Daí que tivessem surgido dois recursos judiciais sucessivos para impedir a construção da Tour Occitanie.
Os tribunais declararam agora que Toulouse vai ter o seu aranha-céus e, na sua edição de ontem, o jornal La Dépêche du Midi dava essa notícia com grande destaque, com uma antevisão do que será a Tour Occitanie e a sua audaciosa arquitectura.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Bruxelas não toma medidas contra Israel

Desde há mais de quatro meses que as Israel Defence Forces (IDF) têm massacrado o povo palestiniano na Faixa de Gaza com destruidores bombardeamentos, a pretexto de perseguirem os radicais do Movimento de Resistência Palestiniana, conhecido pelo acrónimo Hamas. O mundo tem condenado a brutalidade israelita e o Tribunal de Haia decretou que o governo de Benjamin Netanyahu tem de tomar medidas para “prevenir o genocídio”. São referidos cerca de 30 mil mortos palestinianos e as imagens da destruição falam por si. António Guterres tem sido a voz que, tendo condenado o Hamas, tem considerado a “inaceitável” violência israelita em Gaza.
Nos últimos tempos, depois de muitos silêncios mais ou menos cúmplices, alguns líderes mundiais têm condenado Israel, com Joe Biden a considerar que a sua resposta em Gaza “tem sido excessiva”. Também o ministro britânico David Cameron tem insistido com Israel para “interromper o ataque a Rafah” onde cerca de 1,5 milhões de palestinianos estão cercados, enquanto Emmanuel Macron exprimiu “a firme oposição da França à ofensiva israelita em Rafah”. Como diria um conhecido grupo humorista português “há aí palhaços que falam, falam, falam e não os vejo a fazer nada”.
Hoje, o jornal El País informa que a “Espanha reclama que Bruxelas adopte medidas contra Israel” e esta posição espanhola distingue-se como um acto de coragem, quando comparado com a generalizada hipocrisia daqueles que se limitam a condenar Israel, mas continuam a fornecer-lhe tudo o que precisa e nada fazem para travar Netanyahu. A União Europeia deveria fazer ouvir a sua voz na condenação de Israel e tomar medidas concretas, como reclama a Espanha, mas isso ainda não foi feito, enquanto ainda é recordada a inacreditável visita de solidariedade e apoio que Ursula von der Leyen e Roberta Metsola fizeram a Israel em outubro de 2023, onde invocaram o “direito de Israel a defender-se” e, naturalmente, apoiaram a vingança de Netanyahu. 
Bruxelas  cala-se e, naturalmente, quem cala consente... 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Chegou ao fim "a doce ilusão do Carnaval"

Ontem foi a terça-feira de Carnaval e hoje, que é quarta-feira, todos os que se divertiram estão perante “a doce ilusão do Carnaval”, como rezam algumas canções brasileiras. Todos os nossos canais televisivos dedicaram extensos espaços às festividades e mostraram a maior ou menor extravagância dos desfiles carnavalescos. Próximo da fronteira portuguesa, o Carnaval de Badajoz atraiu milhares de pessoas para assistirem a um desfile que durou dez horas e em que participaram 10 mil pessoas, integradas em 54 comparsas ou grupos carnavalescos, 35 carros alegóricos e 16 grupos menores.
Um júri escolheu a comparsa Caribe como vencedora do primeiro prémio do Gran Desfile 2024, que assim obteve a sua terceira vitória em 18 anos, tendo-se apresentado com trajes de criação própria que custaram mais de 200 euros cada um.
Porém, na sua edição de hoje, o jornal La Crónica de Badajoz destaca que a cidade “transbordou” de Carnaval, mas ilustrou a sua primeira página com a fotografia da principal figura da comparsa Caretos Salvavidas que, com 220 elementos, incluindo 115 bailarinos e 73 músicos, foi uma das mais numerosas que se apresentaram. Certamente, muitos portugueses atravessaram a fronteira para assistir aos desfiles de Carnaval em Badajoz, mas estando anunciado pelo jornal Linhas de Elvas, a apresentação de grupos de mascarados e de trapalhões nas ruas do Alandroal, Arronches, Campo Maior, Elvas e Fronteira, ficamos sem saber quais foram as escolhas dos entusiastas carnavalescos daquela região alentejana.

A comunicação social como arma política

O jornal New York Post, um tablóide conservador americano que é o nono jornal de maior circulação nos Estados Unidos, é também o mais antigo jornal do país, pois foi fundado em 1801. Nos últimos tempos, o jornal tem-se destacado por tomar parte na campanha para as eleições presidenciais, por promover notícias e comentários contra o presidente e candidato Joe Biden. Há poucos dias chamava-lhe “velho” e, na sua edição de hoje, de forma depreciativa, chama-lhe “a marca”. Diz o jornal que Tony Bobulinski, um parceiro de negócios da família Biden, testemunhou no inquérito que está em curso visando Joe Biden, que foram feitos negócios em que “o vice-presidente Joe Biden era a marca que o filho Hunter e o irmão James estavam a vender por todo o mundo”, o que o jornal ilustra com uma embalagem de detergente da “marca Biden”.
Esta notícia é uma curiosidade em dois sentidos. Por um lado mostra como há quem se aproveite das suas ligações pessoais ou políticas para abrir portas e fazer negócios e, por outro, mostra como a imprensa escrita, ou televisiva, aproveita estes casos para difamar um qualquer cidadão com objectivos políticos, antes de ser provada a sua culpabilidade. Neste caso, uma declaração de um tal Bobulinshi serviu para “queimar Biden” perante os leitores do New York Post.
Por cá temos ambas as coisas como mostram dois casos recentes, isto é, temos gente que se aproveita do nome do pai para meter cunhas ou fazer negócios, mas também temos canais televisivos e jornalistas que se prestam a entrevistar ex-gestores da TAP, fora de tempo e com evidentes objectivos político-partidários.
A lição é simples: não há informação independente e temos que duvidar cada vez mais daquilo que dizem as televisões, os jornais e a internet.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Os estrangeiros e a identidade nacional

O jornal La Vanguardia que se publica em Barcelona, destaca na sua edição de hoje que em 40 anos, a Catalunha passou de 2% para 21% de população estrangeira. As autoridades catalãs anunciaram em 1987 que tinha sido ultrapassada a barreira dos 6 milhões de habitantes mas, 36 anos depois, registam-se 8 milhões de habitantes. Uma vez que o crescimento demográfico natural da Catalunha é negativo, isto é, há mais mortes que nascimentos, o principal motor desta tendência está na imigração. De acordo com os dados oficiais, só no último ano a Catalunha acrescentou mais 140.000 habitantes à sua população e passou a ser a comunidade espanhola que mais cresce, com a circunstância de 40% dos seus habitantes entre os 25 e os 40 anos ter nascido no estrangeiro.
O problema não é apenas catalão, pois acontece um pouco por toda a Europa e é muito complexo, pois tem a ver com inúmeras variáveis, como a preservação das identidades nacionais, as necessidades de mão-de-obra, o desenvolvimento das economias, a solidariedade e os direitos humanos, a segurança nacional, entre muitas outras.
Segundo os mais recentes dados estatísticos, Portugal também tem um problema semelhante ao da Catalunha. No ano de 2023 viviam em Portugal 798.480 cidadãos estrangeiros em situação legal, ou em regularização pelos serviços oficiais, correspondentes a 7,6% da população portuguesa e eram, sobretudo, brasileiros (29%), britânicos (6%), cabo-verdianos (5%), italianos (4,4%), indianos (4,3%) e romenos (4,1%). De acordo com a Pordata, o número de estrangeiros em Portugal duplicou em dez anos, tendo a nacionalidade portuguesa sido atribuída a cerca de meio milhão de pessoas, sobretudo oriundas dos países lusófonos, embora um em cada três deles viva em risco de pobreza.
Ocorre-me citar, sem quaisquer comentários, um excerto da estância 189 da Miscellania de Garcia de Rezende, publicada em Évora em 1554:
       Vemos no reyno metter / tantos captivos crescer / & iremse hos naturaes / 
       que se assi for, seram mais / elles que nos, a meu ver.
Porém, Garcia de Rezende não está cá para alertar sobre este problema.

Diogo Ribeiro é nome de gente famosa

Diogo Ribeiro foi um famoso cartógrafo português que em 1518 foi trabalhar para o rei Carlos I de Espanha na Casa de Contratación em Sevilha. Foi ele que desenhou os mapas utilizados por Fernão de Magalhães na sua viagem às Molucas por ocidente, que se tornou na primeira viagem de circumnavegação. Embora se tivesse naturalizado espanhol e passasse a ser conhecido como Diego Ribero, o seu nome português não se perdeu. Mais de 500 anos depois, o nome de Diogo Ribeiro volta a subir ao patamar dos famosos, através de um nadador de 19 anos de idade que nasceu em Coimbra e que se tornou o primeiro português campeão do mundo de natação, ao vencer a prova dos 50 metros mariposa nos 2024 World Aquatics Championships, que se está a disputar em Doha, no Qatar.
A natação é uma modalidade desportiva muito exigente e não tem tradição em Portugal, pelo que a proeza individual de Diogo Matos Ribeiro é realmente notável, no que tem de talento, trabalho e determinação. Ninguém imaginava que isso pudesse acontecer. No panorama desportivo nacional é difícil encontrar paralelo com este êxito de Diogo Ribeiro e, talvez, só Fernando Pimenta (canoagem) e Rui Costa (ciclismo), tenham conseguido ser "campeões do mundo". Não me ocorrem outros exemplos, mas esta circunstância não desvaloriza os nossos campeões olímpicos, nem os nossos desportistas de valor internacional que se têm distinguido em outras modalidades colectivas ou individuais.
O sucesso deste "campeão do mundo" foi tão importante que foi destacado pela imprensa portuguesa, tendo o jornal A Bola quase esquecido o futebol na sua edição de hoje e dedicado a sua primeira página ao Menino de Ouro. 
O meu aplauso a este jovem nadador que deu uma grande alegria aos desportistas portugueses!

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Carnaval: a fantasia, o excesso e a euforia

O Carnaval aí está e as televisões enchem-nos com as imagens dos festejos e dos desfiles, da euforia e do excesso, do deslumbramento e da extravagância.
O Carnaval é, sobretudo, um festival típico do cristianismo ocidental que ocorre 47 dias antes da Páscoa, com características diferenciadas em cada região, mas que representa sempre um desvio do quotidiano social e da realidade, com as pessoas a usarem máscaras e trajes de fantasia para se apresentarem com uma identidade diferente e entrarem no reino da utopia, “pra tudo se acabar na quarta-feira”, como escreveram Chico Buarque e Edu Lobo. As festas e os desfiles do moderno Carnaval tornaram-se um acontecimento turístico e embora não tenham perdido as suas características de festa popular, são o ex-libris de cidades tão diferentes como o Rio de Janeiro, Barranquilla e Santa Cruz de Tenerife, ou Veneza e Nice, ou ainda Nova Orleans e Toronto. Porém, o Carnaval do Rio de Janeiro é reconhecido pelo Guiness World Records como o maior do mundo, no qual participam diariamente cerca de dois milhões de pessoas. Na sua escala, o Carnaval também se festeja em Portugal um pouco por todo o país, tendo-se tornado um cartaz turístico em muitas localidades como Ovar e Torres Vedras, Sesimbra e Loulé, Nazaré e Mealhada, entre outras.
Apesar de não ser apreciador do Carnaval nem dos seus excessos, gosto sempre de destacar o Carnaval da ilha Terceira, com os seus bailinhos, que são uma expressão única e excepcional da cultura popular açoriana. Numa outra perspectiva, também se destaca a exuberância do Carnaval nas ilhas Canárias, onde o jornal La Provincia, um diário de Las Palmas, na sua edição de ontem destacava a jovem Katia Gutiérrez, uma carnavalera de 26 anos de idade, que foi eleita como a Reina del Carnaval de Las Palmas de Gran Canaria, mas que também foi “corazonada la Reina de los Carnavales del Mundo”. 
Pois que os carnavaleros de todo o mundo se divirtam!

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Um naufrágio em que não houve vítimas

O jornal El Diario Vasco que se publica na cidade de Donostia-San Sebastián, destaca na sua edição de hoje o afundamento do pesqueiro Maria Reina Madre, publicando uma sugestiva fotografia de primeira página a seis colunas. O pesqueiro hasteava bandeira francesa e tinha a sua base no porto galego de Burela, um dos mais importantes portos de pesca da costa cantábrica, tendo largado na madrugada de quinta-feira, com 14 homens a bordo, em direcção ao porto de Pasages, nas vizinhanças San Sebastián, onde seria submetido a uma revisão técnica periódica de rotina, antes de seguir para águas francesas onde se dedicaria à pesca da pescada. 
Cerca de 24 horas depois, na manhã de sexta-feira, o pesqueiro navegava a norte da costa guipuzcoana a cerca de nove milhas do porto de S. Sebastián, quando a maioria da tripulação ainda dormia. Nessa altura foi detectada a entrada abundante de água a bordo e, como referiu um dos tripulantes, “nos despertaron con el agua en el camarote”. De imediato foi emitido um pedido de socorro que foi recebido às 08.57 horas no Centro de Coordenação e Salvamento Marítimo de Bilbau, que mobilizou o salva-vidas Órion e um helicóptero Helimer 21, alertando também a navegação naquela área como é a prática de solidariedade entre as gentes do mar. Às 09.12 horas o mestre do pesqueiro decidiu que 13 dos tripulantes abandonassem o pesqueiro e embarcassem numa balsa salva-vidas. 
O salva-vidas Órion chegou às 09.35 horas, recolheu os homens que estavam na balsa e, depois, resgatou o mestre do pesqueiro que, corajosamente, não abandonara o seu navio. Todos os 14 homens do pesqueiro seguiram depois, sãos e salvos, para o porto de Pasages. Foi tudo muito rápido e a prontidão dos serviços espanhóis de salvamento marítimo foi exemplar. A edição de hoje do jornal El Diario Vasco divulgou esta boa notícia, ao publicar a fotografia do afundamento do Maria Reina Madre que ocorreu pelas 14.31 horas.

O próximo presidente dos Estados Unidos

A questão da avançada idade dos candidatos à presidência dos Estados Unidos é um assunto debatido desde há muito tempo, mas nos últimos dias tomou novas proporções. Os dois mais prováveis candidatos às eleições de 5 de novembro de 2024 são Joe Biden pelo Partido Democrata e Donald Trump pelo Partido Republicano que, nessa altura, terão 82 e 78 anos de idade, respectivamente. Ambos procuram contornar a questão da sua avançada idade e ambos evitam referir-se a essa situação desfavorável, pois a diferença de idades entre ambos é apenas de três anos e cinco meses. Aparentemente, ambos os prováveis candidatos estão “fora de prazo”, pelo que os seus partidos e o eleitorado americano estão muito preocupados com esse cenário presidencial e essa preocupação tem sido veiculada pela imprensa americana.
Na sua edição de ontem, o jornal New York Post classificava Joe Biden como um “homem idoso com memória fraca”, acusando-o de ser “demasiado senil para governar”. São cada vez mais frequentes as notícias sobre as suas capacidades mentais, a sua desgastada memória e os seus problemas cognitivos, que têm constituído argumentos poderosos para Donald Trump e para os seus apoiantes. Porém, a candidata Nikki Haley, que concorre com Trump pela nomeação pelo Partido Republicano, também tem usado a idade de Trump como argumento a favor da sua candidatura.
Assim, tanto os Estados Unidos como o mundo, olham com grande apreensão para o próximo inquilino da Casa Branca. Ambos têm a experiência de lá já terem vivido, mas ambos se encontram limitados pela idade, o que vai introduzir ainda mais incerteza no panorama internacional, num tempo de grande e crescente complexidade.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Jair Bolsonaro está a contas com a Justiça

Muitos recordam os acontecimentos ocorridos em Brasília no passado dia 8 de janeiro de 2023, quando milhares de pessoas invadiram e vandalizaram os edifícios monumentais que representam os três poderes da República Federativa do Brasil, respectivamente o Palácio do Planalto (poder executivo), o Congresso Nacional (poder legislativo) e o Supremo Tribunal Federal (poder judicial). Foi um ataque efectuado por uma multidão de bolsonaristas, a fazer lembrar Washington e o assalto dos fanáticos de Donald Trump ao Capitólio, com a mesma contestação aos resultados eleitoriais e o mesmo tipo de rejeição da democracia.
Jair Bolsonaro estava ausente nos Estados Unidos, mas todos acreditaram que era ele que, de facto, estava a dirigir os graves acontecimentos que então ocorreram em Brasília e que configuravam a prática de um golpe de estado. Por isso, a Polícia Federal tem prosseguido, desde então, as suas investigações para apuramento de responsabilidades na organização criminosa de um golpe de estado. Segundo foi já revelado pela investigação e foi divulgado pela imprensa, “foi montada uma organização criminosa, com seis núcleos (desinformação, incitação aos militares, jurídico, operacional, inteligência paralela e núcleo de oficiais de alta patente), para actuar em tentativa de golpe de Estado e manter Jair Bolsonaro no poder”.
A edição de hoje do Correio Braziliense, mas também outros jornais brasileiros, dão conta da organização que “preparou o golpe”, incluindo os nomes dos golpistas e as suas atribuições e o jornal O Estado de S. Paulo escolheu como título de primeira página a frase "investigação aponta conspiração golpista de Bolsonaro e generais".
Nas diligências efectuadas pela Polícia Federal na sede do Partido Liberal, a que pertence Bolsonaro, foi encontrada uma minuta das acções a desenvolver para consumar o golpe, havendo já sólidas provas “que mostram que oficiais de alta patente tiveram participação activa na tentativa antidemocrática”.
Nesse sentido, o ex-presidente Jair Bolsonaro é o principal alvo da Polícia Federal e está proibido de sair do país, tendo o seu passaporte sido apreendido.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

A corrida científica para a Antártida

A Antártida é o continente que rodeia o pólo Sul e que, por isso, está coberto de gelo permanente em quase toda a sua extensão. Tem 14 mil quilómetros quadrados de superfície, sendo maior que a Austrália, não tem população permanente, não pertence a nenhum país e não tem qualquer governo. Alguns países reivindicam a posse de algumas áreas, casos do Reino Unido, Nova Zelândia, França, Noruega, Austrália, Chile e Argentina, enquanto os Estados Unidos e a Rússia não reconhecem nenhumas reivindicações territoriais na Antártida, reservando-se o direito de fazer as suas próprias reivindicações. Em 1959 os países que tinham reclamações territoriais assinaram o Tratado da Antártida, considerando o território politicamente neutro e comprometendo-se a suspender as suas pretensões por período indefinido e a permitir todas as actividades de carácter científico em regime de cooperação.
Actualmente há 29 países que possuem bases científicas na Antártida, algumas delas ocupadas em permanência e outras ocupadas apenas no Verão, calculando-se que no Inverno a população da Antártida é de mil pessoas e no Verão será de cerca de quatro mil pessoas.
A República Popular da China tinha quatro estações de pesquisa que construíu entre 1985 e 2014, mas acaba de inaugurar a sua quinta base que está localizada na baía da Terra Nova do mar de Ross, numa área em que os Estados Unidos, a Nova Zelândia, a Coreia do Sul, a Itália, a Alemanha e a França também possuem estações de pesquisa. 
O jornal Shanghai Daily destaca na sua edição de hoje a inauguração desta estação, publicando a fotografia das suas instalações, que parecem excelentes e podem acolher 80 pessoas no Verão e 30 pessoas no Inverno. Segundo o referido jornal, “a nova estação consolidará os interesses antárticos da China e ajudará a torná-la num concorrente líder nos assuntos polares, quando há menos de dez anos era apenas um actor secundário naquelas regiões”.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

A Índia e o Código Civil Português

Quando em Dezembro de 1961 as Forças Armadas Indianas invadiram o Estado Português da Índia, o novo comando militar declarou que todas as leis portuguesas continuavem em vigor. Depois, através da 12ª emenda de 1962, a Constituição da Índia passou a incluir as leis portuguesas de Goa e, nessas condições, muitas das disposições do Código Civil Português, incluindo o Direito sucessório, assim como as leis do casamento, do divórcio, da adopção e outras, continuaram válidas em Goa e sem qualquer contestação. O caso de Goa é único na Índia, pois nos outros estados a lei não é uniforme, varia em função da religião e tem regras diferentes, nomeadamente para o casamento, para o divórcio e para a sucessão. Durante muitos anos, os juristas goeses defenderam, em conferências e em outras intervenções públicas, que “o código civil português” deveria ser aplicado em toda a Índia.
Hoje, o jornal The Pioneer que se publica desde 1865 em diversas cidades indianas, referindo-se ao estado de Uttarakhand, que é um dos 28 estados da Índia e que faz fronteira com a China e com o Nepal, titula que “Uttarakhand scripts history” ao apresentar um inovador projecto de lei do Código Civil Uniforme. Este código refere-se ao conjunto de leis aplicáveis a todos os cidadãos e não se baseia na religião, quando se trata de casamento, divórcio, herança e adopção, entre outros assuntos pessoais, incluindo a proibição total da poligamia e do casamento infantil.
A Assembleia Legislativa de Uttarakhand, que tem 70 membros, dos quais 47 do BJP que é o partido do governo, vai votar e aprovar brevemente esta proposta que está em linha com o que se passa em Goa, que desde 1961 manteve o Código Civil Português de 1867. Naturalmente, esta notícia enche de satisfação aqueles que em Goa, juristas ou não juristas, sempre defenderam “as leis portuguesas” e apoiaram que o seu código civil fosse adoptado por todos os estados indianos. Se fosse vivo, o meu amigo jurista Dr. Manohar Usgaocar estaria eufórico.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Os Açores votaram na continuidade

Realizaram-se ontem as eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores ou, de forma mais simples, as eleições regionais açorianas, que resultaram da não aprovação do Orçamento dos Açores para 2024 e da consequente queda do Governo Regional, presidido por José Manuel Bolieiro.
Estas eleições antecederam em cerca de um mês as eleições para a Assembleia da República, que se realizarão no dia 10 de março, pelo que os politólogos e os comentadores trataram de produzir diktats sobre as sondagens, os resultados e a eventual influência dos resultados regionais no plano nacional.
As eleições decorreram sem quaisquer incidentes, conforme anuncia na sua edição de hoje o Açoriano Oriental, o mais antigo jornal português, pois foi fundado em 1835. Estavam inscritos 229.830 eleitores e votaram 115.662, o que significa que houve uma abstenção de 49,67%, que é menor do que nas eleições de 2020. Os resultados apurados mostram que seis das nove ilhas açorianas trocaram o seu sentido de voto relativamente às anteriores eleições de 2020, pois as ilhas de São Miguel, Terceira, Pico, São Jorge e Graciosa que tinham votado PS votaram agora AD, enquanto a ilha do Corvo que antes tinha votado numa coligação local, votou agora PS.
Os resultados apurados nas 156 freguesias açorianas foram os seguintes: Aliança Democrática (42,08% - 26 deputados), Partido Socialista (35,91% - 23 deputados), Chega (9,19% - 5 deputados), Bloco de Esquerda (2,54% - 1 deputado), Iniciativa Liberal (2,15% - 1 deputado) e PAN (1,65% - 1 deputado).
O novo governo reconduzirá José Manuel Bolieiro como presidente do Governo Regional. Faltando-lhe três deputados para ter a maioria parlamentar de que necessita, parece ir governar sem alianças, o que para uns significa continuidade, para outros estabilidade e para outros, ainda, instabilidade.
Porém, os açorianos escolheram como escolheram e, agora, merecem ser bem servidos.

Angola evoca o início da sua luta armada

A edição de ontem do Jornal de Angola evocou o início da luta armada de libertação nacional angolana acontecido há 63 anos e escolheu como título da sua primeira página que a “bravura dos Heróis abriu caminho para a liberdade”. Depois, o lead da notícia assinala que o dia 4 de fevereiro de 1961 é a data em que um grupo de nacionalistas angolanos pegou em armas e deu início à luta armada “que levou à Independência Nacional 14 anos depois, a 11 de novembro de 1975”.
Naquele dia 4 de fevereiro foram assaltadas as duas principais prisões de Luanda, respectivamente a Casa de Reclusão Militar e o Forte de São Paulo, não só para libertar os presos políticos, mas também para chamar a atenção internacional para Angola, enquanto território português submetido ao domínio colonial. Essa acção foi organizada por cerca de uma centena de activistas angolanos e dela resultou a morte de cerca de quatro dezenas de assaltantes e de sete polícias. A partir de então, embora repartido por três movimentos políticos rivais – MPLA, UNITA e FNLA – o combate contra o regime colonial aconteceu primeiro no Norte e, depois, no Leste de Angola. Foram cerca de 14 anos de guerra em que, sob o ponto de vista militar, parece não ter havido vencedores nem vencidos, mas que terminou na sequência do movimento do 25 de abril de 1974 em Portugal. O Acordo de Alvor de Janeiro de 1975, foi assinado entre o governo português e aqueles três movimentos, pretendendo estabelecer uma partilha de poder equilibrada, mas não teve sucesso.
No dia 11 de novembro de 1975, nasceu a República Popular de Angola sob a presidência de Agostinho Neto, mas o país entrou numa guerra civil que durou até 2002. Tinham sido 41 anos de guerra e, por isso, os angolanos celebram a paz e o início da sua luta armada de libertação nacional.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

O agravamento da crise no Médio Oriente

Na madrugada do passado dia 28 de janeiro, uma base militar logística americana instalada no território da Jordânia foi atacada por drones, daí resultando a morte de três soldados americanos e de mais de três dezenas de feridos. Estes soldados foram as primeiras vítimas mortais americanas nesta região desde o dia 7 de outubro, quando teve início a guerra entre Israel e o Hamas.
O ataque foi atribuído a grupos pró-Irão activos na Síria e no Iraque e, de imediato, o presidente Joe Biden juntou-se ao luto pela morte destes soldados e declarou que os Estados Unidos iriam retaliar. Logo que as urnas dos soldados regressaram a casa e foram recebidas por Joe Biden e outros dignitários americanos, as forças dos Estados Unidos lançaram ataques com aviões e bombardeiros contra 85 alvos com ligações à Guarda Revolucionária Islâmica que se localizam na Síria e no Iraque, causando 34 mortos e significativas destruições. Joe Biden não só assumiu a responsabilidade por esta resposta como afirmou que a retaliação ”continuará de acordo com o calendário e nos locais que decidirmos”. Muitas vozes se levantaram contra a desproporcionalidade da reacção americana que, seguramente, pretendeu mostrar ao eleitorado americano que o candidato Joe Biden é um homem que defende a América com coragem e com energia…
Embora os Estados Unidos tenham vindo a repetir que pretendem evitar que o conflito no Médio Oriente alastre e continuemos a ver Antony Blinken a visitar regularmente a região com esse objectivo, há quem considere que este incidente parece aproximar os Estados Unidos de um conflito directo com o Irão. De facto, nos últimos quatro meses, os Estados Unidos não só estiveram ao lado de Israel sem nunca se demarcarem claramente da violência que tem sido exercida sobre Gaza, como já intervieram no Líbano, no Iémen, no Iraque e na Síria, violando a soberania e a integridade territorial desses países e a Carta das Nações Unidas.
Os Estados Unidos abandonaram o Afeganistão em Agosto de 2021 depois de uma ocupação militar que durou vinte anos, mas não é claro se pretendem ou não voltar a envolver-se numa guerra no Médio Oriente. Provavelmente, Joe Biden só quer impressionar o eleitorado americano e a capa da edição do Daily News dá-lhe uma boa ajuda…