segunda-feira, 4 de março de 2024

Super Tuesday e corrida de octogenários

Para os eleitores americanos amanhã é a Super Tuesday, ou a Super Terça-feira, pois em 15 estados e um território – Arkansas, Califórnia, Colorado, Maine, Massachusetts, Minnesota, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee, Texas, Utah, Vermont, Virgínia e no território de Samoa Americana – serão realizadas as eleições primárias. Os eleitores irão escolher os delegados desses espaços à Convenção Nacional de cada um dos dois grandes partidos americanos e tudo aponta para que Donald Trump e Joe Biden irão ser os escolhidos, pelo que parece assente que irão repetir o duelo presidencial de 2020.
As sondagens indicam, para ambos os partidos, que aqueles candidatos estão em larga vantagem face aos seus concorrentes. Porém, enquanto as hostes de Trump parecem estar a viver uma onda de grande dinamismo, as fileiras de Biden estão a sentir a falta de entusiasmo dos eleitores, bem como as fragilidades do actual presidente que continua com valores de popularidade muito baixos.
O duelo presidencial que se avizinha na mais poderosa nação do planeta é importante para o mundo e a edição de hoje do jornal alemão Tagesspiegel, que se publica em Berlim, destaca o duelo da Super Terça-feira que, de forma indirecta, amanhã vão travar Joe Biden e Donald Trump. A campanha eleitoral americana é uma verdadeira corrida de octogenários e aqueles que têm o privilégio de ter chegado aos oitentas, sabem muito bem que “a condição já não é o que era”, como nos sugere uma conhecida frase publicitária que nos diz que “a tradição já não é o que era”. Todos gostariam que nessa corrida estivessem corredores mais novos e, por isso, o mundo está muito apreensivo com a escolha que os americanos vão fazer.

domingo, 3 de março de 2024

Eleições e sondagens para todos os gostos

Na sequência da demissão do primeiro-ministro António Costa, vão realizar-se no próximo domingo as eleições antecipadas para escolher os deputados da nova Assembleia da República. É um momento importante da nossa vida colectiva e, por isso, é desejável que os cidadãos se esclareçam, que façam escolhas e que aconteça uma alargada participação eleitoral.
Vivemos em democracia e, por isso, são várias as forças políticas que se apresentam ao eleitorado com os seus candidatos, os seus programas e as suas intenções, em campanhas eleitorais dinâmicas e dispendiosas, muitas vezes transformadas numa desproporcionada festa e num rodopio de promessas, em que o esclarecimento dos eleitores é a coisa que menos interessa. Os debates televisivos também não servem para esclarecer os eleitores, pois não passam de exibições de candidatos e de uma verdadeira caça ao voto.
Os efeitos das campanhas eleitorais são muito limitados, como Paul Lazarsfeld já concluira em 1944 na sua obra de referência The People’s Choice, pois o seu objectivo é apenas o de fidelizar os eleitores que já fizeram as suas escolhas e de atrair os eleitores ainda indecisos. As sondagens de opinião realizadas e divulgadas durante a campanha eleitoral, tal como as campanhas eleitorais, também visam a mobilização dos indecisos.
No caso das eleições parlamentares do próximo domingo, há quatro ou cinco sondagens que satisfazem todos os gostos, mas que enganam os eleitores, pois umas dizem que o A vai ganhar ao B, enquanto outras garantem que é o B que vai ganhar ao A. As empresas de sondagens ganham com este negócio e os meios de comunicação social que as divulgam, mostram os seus alinhamentos partidários disfarçados de independência e de objectividade. Hoje temos a sondagem da Aximage para o JN/DN/TSF (PS com 33,1% contra 29,6% da AD), a sondagem do ICS e ISCTE para a SIC/Expresso (AD com 21% contra 20% do PS) e a sondagem da Universidade Católica (AD com 33% contra 27% do PS). Com resultados tão diferentes, algumas destas sondagens não podem ser sérias. São manipulações da realidade sociológica para influenciar os eleitores. São mentiras que se disfarçam de seriedade.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Israel e a cumplicidade da Europa

A indiferença do irresponsável e perigoso belicismo de Macron e de Ursula von der Leyen, que ontem aqui foi denunciado, bem como os seus silêncios sobre o que se passa na Faixa de Gaza e a não condenação de Israel pela sua desproporcionada violência e desumanidade, teve ontem mais um doloroso episódio. Segundo relata, na sua edição de hoje, o jornal inglês The Guardian, um numeroso grupo de palestinianos famintos e desesperados, aglomerou-se em torno dos camiões de ajuda humanitária recém-chegados à periferia da cidade de Gaza, na esperança de conseguir comida. Naturalmente, a situação deve ter-se tornado caótica e, impressionadas pela confusão a que assistiam, as tropas israelitas decidiram intervir e abriram fogo sobre os civis palestinianos que, em pânico, começaram a fugir, tendo muitas deles sido atropelados pelos camiões ou espezinhados pela multidão. Como consequência dos tiros e dos atropelamentos terão morrido 112 pessoas e mais de 760 ficaram feridas neste incidente, que foi considerado como um dos mais mortíferos desde o início da guerra em Gaza. Embora estes números não tenham sido confirmados de forma independente, um porta-voz israelita limitou-se a afirmar que “foi uma resposta limitada”.
O facto é que foi mais uma grande tragédia e, de imediato, vários países juntaram-se às Nações Unidas para repudiar este episódio e para exigir uma investigação independente, com os países árabes à cabeça, nomeadamente a Turquia, que salientou que se tratou de “mais um crime contra a Humanidade”.
Exceptuando o jornal The Guardian, a generalidade da imprensa europeia não noticiou ou não deu destaque a este grave incidente, nem são conhecidas quaisquer declarações relevantes de líderes europeus sobre este caso, isto é, continua a haver muita cumplicidade da Europa que não condena os excessos israelitas. 

A miopia de Macron e de Von der Leyen

Alguns líderes europeus andam muito desorientados e parece que não dão prioridade aos grandes problemas com que os seus povos se defrontam, como acontece com as alterações climáticas, a transição energética, a crise migratória, o envelhecimento da população, a desigualdade económica e social, o populismo político e, nas últimas semanas, a contestação dos agricultores.
Ouvimos o que dizem Emmanuel Macron e Ursula Von der Leyen, entre outros dirigentes europeus, parecendo que o único problema da Europa é o conflito da Ucrânia, que é cada vez mais um barril de pólvora e sobre o qual não falam em paz, mostrando um belicismo inaceitável e uma firme condenação da Rússia. Porém, esses mesmos dirigentes, ainda não assumiram uma firme condenação de Israel, isto é, condenam a Rússia e apoiam a Ucrânia, mas não condenam Israel nem apoiam a Palestina. São dois pesos e duas medidas.
Macron e Von der Leyen estão a prestar um mau serviço à União Europeia e aos europeus. No caso de Israel devem pesar-lhe na consciência os mais de 30.000 palestinianos mortos em Gaza, dos quais dois terços são mulheres e crianças, como hoje revelou o jornal Libération
Macron e Von der Leyen estão a revelar-se irresponsáveis promotores de uma catástrofe que muitos anunciam, havendo mesmo quem os acuse de estarem a criar as condições que podem provocar uma terceira guerra mundial, ao assumirem-se como defensores da guerra e como importantes fornecedores do armamento que alimenta as guerras na Ucrânia e em Gaza.
Ucrânia e Rússia, Gaza e Israel. Duas guerras. Duas necessidades urgentes de paz.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Efeitos colaterais da guerra na Ucrânia

As declarações de Emmanuel Macron na “Conférence de Soutien à l’Ukranie” que se realizou em Paris na passada segunda-feira foram muito criticadas e alguns comentadores declararam que o presidente da França foi longe demais.
Depois de dois anos de guerra na Ucrânia e de tanta destruição, parece evidente que é necessário parar e negociar. Não há alternativa. A Europa está farta de ver imagens da brutal tragédia e de ouvir falar de mísseis e de drones, de Leopards e de F16.
Ao sugerir o envolvimento de tropas da NATO na Ucrânia, o presidente Macron mostrou que não conhece o pensamento dos europeus, revelando um perigoso grau de ambição pessoal e de irresponsabilidade. Se isso viesse a acontecer, seria o início de uma guerra de proporções inimagináveis. A derrota da Rússia, que Macron e outros líderes desejam, deve ser procurada à mesa das negociações e não pela via das armas.
A Polónia acompanha com redobrada atenção a situação ucraniana, que é demasiado complexa em vários sentidos, mas a solidariedade europeia também é complexa, como revela a edição de hoje do jornal polaco Gazeta Wyborcza, que se publica em Varsóvia. Enquanto anuncia em primeira página que “a França não descarta a intervenção da NATO na Ucrânia”, o principal destaque da edição é o protesto dos agricultores polacos que bloquearam estradas e passagens fronteiriças, tendo realizado “a maior manifestação de sempre” no centro de Varsóvia, para exigir ser protegidos da concorrência desleal. O protesto polaco é, sobretudo, contra a importação intensiva de cereais ucranianos no espaço comunitário, que a União Europeia isentou de taxas alfandegárias devido à invasão russa.
E aqui está como a Polónia, que historicamente sempre foi ameaçada pela Alemanha e pela Rússia, vê com simpatia a eventual presença da NATO na Ucrânia, mas não vê com bons olhos a solidariedade europeia para com a Ucrânia.

Emmanuel Macron pequenino e tão vulgar

Após dois anos de guerra na Ucrânia e numa altura em que o Papa Francisco pede uma “solução diplomática em busca de uma paz justa e duradoura”, o presidente francês Emmanuel Macron decidiu convidar “os aliados da Ucrânia” para se reunirem em Paris, numa cimeira destinada a garantir a derrota da Rússia. Quando os Estados Unidos parecem cada vez mais afastar-se do conflito ucraniano, o presidente Macron decidiu “pôr-se em bicos de pés”, afirmando que “nous ferons tout ce qu’il faut pour que la Russie ne puisse pas gagnar cette guerre”, tendo anunciado novos fornecimentos de armas ao regime de Kiev e recusado excluir o envio de tropas ocidentais no futuro. 
"Escolheu a escalada", com hoje refere um jornal francês. Esta declaração feita perante duas dezenas de chefes de estado e de governo causou um “choque eléctrico” e deixou Macron isolado, como hoje noticia o jornal Le Figaro e outros jornais franceses. Numa sondagem online que está activa no jornal La Dépêche du Midi, verifica-se que 90% dos franceses criticam esta posição “imprudente” e solitária de Macron, enquanto Joe Biden, Olaf Scholz e vários líderes europeus se demarcaram destas declarações, recusando o envio das suas tropas para o teatro de guerra ucraniano.
Perante as trágicas imagens que diariamente nos chegam da guerra e da catástrofe humanitária que está criada na Ucrânia, o senhor Macron deveria imaginar soluções para poupar o sacrifício dos ucranianos, em vez de “lançar gasolina para a fogueira”, até porque parece ignorar a grave situação que lhe está a bater à porta, de que são exemplo as manifestações dos agricultores europeus em mais de uma dezena de países e em várias cidades como Bruxelas, Varsóvia, Paris ou Madrid.
Em vez de dirigentes excepcionais de que a Europa tanto precisa, vemos Emmanuel Macron a revelar-se como um homem pequenino, vulgar e com um estatuto que até envergonha os franceses.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Jair Bolsonaro nega tentativa de golpe

A cidade brasileira de São Paulo assistiu ontem a uma grande manifestação convocada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que juntou um pico de cerca de 185 mil pessoas na avenida Paulista, segundo foi calculado a partir de 43 fotos aéreas feitas durante a manifestação e que foram tratadas por um software específico utilizado pela Universidade de São Paulo. A manifestação foi convocada para protestar contra as investigações em curso relativas à suspeita de participação do próprio Bolsonaro na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, que negou ter tentado fazer um golpe e reclamou a sua inocência.
Bolsonaro, alguns ex-ministros, assessores e militares são alvo de um inquérito dirigido pelo Supremo Tribunal Federal, que investiga o assalto à Praça dos Três Poderes, os actos de vandalismo praticados e a tentativa de golpe de Estado.
Segundo a edição de hoje do jornal Folha de São Paulo, o ex-presidente Jair Bolsonaro declarou que “o que eu busco é a pacificação, é passar uma borracha no passado, é buscar maneira de nós vivermos em paz”. Pediu a concliação entre os brasileiros e a amnistia “para aqueles pobres coitados que estão presos em Brasília”, dirigindo-se a todos os 513 deputados e 81 senadores para promoverem um projecto nesse sentido.
Esta manifestação e este quase apelo de Bolsonaro à pacificação, estará certamente a ser trabalhada porque, embora suscite dúvidas quanto à sua sinceridade, pode ser uma janela de oportunidade para a construção de uma renovada unidade nacional da sociedade brasileira e para o reforço da democracia.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Dois anos de guerra entre Moscovo e Kiev

Passaram dois anos desde o dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia e, nas suas edições de hoje, muitos jornais europeus evocaram essa data. O diário inglês The Independent é um desses jornais e destaca em primeira página que “se a Ucrânia perder, o Ocidente será o próximo”, acrescentando que em dois anos de guerra pelo menos 10.582 civis ucranianos morreram, 19.875 foram feridos e que se estima que 70.000 soldados ucranianos foram mortos.
Nenhum dos muitos jornais que evocaram o dia 24 de fevereiro de 2022 e a guerra que desde então tem devastado as regiões do Leste da Ucrânia, fala em paz ou nos caminhos da paz, apesar dos sentimentos dos cidadãos europeus revelados no recente estudo do European Council on Foreign Relations. Como principal conclusão, esse estudo revela que 37% dos cidadãos europeus reclamam por negociações de paz, com destaque para os gregos (47%), os espanhóis (44%), os italianos (43%) e, até mesmo, os portugueses (35%).
Apesar desse sentimento nacional a favor da paz, o Supremo Magistrado da Nação veio dizer que “Portugal apoiará a Ucrânia pelo tempo que for preciso” e o ministro cravinho afirmou que “temos que redobrar os esforços de apoio à Ucrânia”. Numa altura de grande inquietação quanto ao nosso futuro, com demasiados problemas internos para serem resolvidos, aqueles dois responsáveis portugueses podiam ter falado da paz por que anseiam tantos europeus, mas não o fizeram. Referiram lugares comuns e a frase “o tempo que for preciso”, já antes repetida muitas vezes, quando se podiam ter aconselhado com António Guterres, que hoje afirmou que "chegou a hora de haver paz". É sabido que nunca é fácil parar com a guerra nem com todas as desgraças humanitárias e patrimoniais que a acompanham e, de forma especial, não é fácil acabar com esta guerra russo-ucraniana, que tem contornos de guerra civil ou de afrontamento entre superpoderes.
É cada vez mais evidente que nesta guerra não haverá vencedores e que todos serão perdedores, pelo que é cada dia mais urgente calar os canhões e atender à vontade dos 37% de europeus e 35% de portugueses que aspiram por negociações de paz.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

R.I.P. Artur Jorge

Com 78 anos de idade faleceu ontem o cidadão Artur Jorge Braga de Melo Teixeira, conhecido no mundo do futebol apenas como Artur Jorge. 
Foi um talentoso futebolista que, como avançado, integrou as equipas do FC Porto, Académica de Coimbra, SL Benfica e CF Os Belenenses, mas também a selecção nacional que representou 16 vezes. A partir de 1980 iniciou uma carreira de treinador de futebol, tornando-se o primeiro treinador português a triunfar na Liga dos Campeões Europeus na época de 1986-1987, quando a equipa do FC Porto bateu a equipa do Bayern de Munique em Viena. Enveredou depois por uma carreira internacional treinando várias equipas em França, Espanha, Holanda, Arábia Saudita, Rússia e foi seleccionador das selecções de Portugal, Suiça e Camarões. Hoje há vários treinadores com sucesso internacional, mas Artur Jorge foi o primeiro.
Era um universitário, um intelectual e um homem de cultura, que deixou obra poética publicada, mas também teve intervenção cívica em defesa dos valores da liberdade e da democracia, pelo que sempre foi uma referência do futebol português, sobretudo porque olhava para o futebol como uma arte e não como o negócio em que se tem transformado.
A imprensa portuguesa, sobretudo a imprensa desportiva, homenagearam-no nas suas edições de hoje, enquanto os jornais franceses L’Équipe, Le Parisien e Le Figaro, também lembraram a sua memória e, nas suas edições de hoje, anunciaram a sua morte nas suas primeiras páginas.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Os novos aviões comerciais chineses

Está a decorrer até ao dia 25 de fevereiro em Singapura, o famoso Singapore Airshow 2024 “onde os melhores da aviação se encontram”, como anuncia a sua promoção. Este evento realiza-se bienalmente desde 2008 e é o maior mercado asiático dos sectores aeronáutico e aeroespacial, onde se encontram a oferta e a procura mundiais, através das grandes empresas e das delegações governamentais e militares de alto nível. Este ano regista-se a participação de mais de mil empresas e são esperados mais de 50.000 participantes comerciais provenientes de mais de 50 países. Para além dos seus aspectos de apresentação tecnológica e de promoção comercial, o airshow foi enriquecido com a participação de equipas de acrobacia aérea da Índia, Indonésia, Austrália, Coreia do Sul e Singapura, bem como de um Airbus A350-1000, que é a maior aeronave bimotora da Europa com 74 metros de comprimento e que pode acomodar até 366 passageiros.
Porém, a China parece estar a assumir o maior protagonismo no Singapore Airshow 2024, pois apresentou dois aviões de passageiros C919 fabricados pela Commercial Aircraft Corporation of China (Comac) e três jactos ARJ21, que se estrearam com demonstrações de voo.
Durante muito tempo a China esteve ausente da competição aeronáutica mundial, dominada pelo duopólio Airbus/Boeing nas aeronaves com mais de 100 assentos mas, apesar da sua forte dependência da tecnologia ocidental, parece agora querer concorrer com aquelas empresas. Segundo revelou o jornal Shanghai Daily, duas empresas chinesas de serviços aéreos – a Tibet Airlines e o Henan Civil Aviaation Development and Investment Group – assinaram contratos para a aquisição de 40 aviões C919 e 16 unidades ARJ21. É um começo, mas só o tempo dirá se a indústria aeronáutica chinesa tem pés para andar num caminho em que estão bem instalados a Airbus e a Boeing.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Ucrânia: europeus querem paz negociada

Doze países europeus, incluindo Portugal, participaram num estudo de opinião sobre o conflito na Ucrânia organizado pelo European Council on Foreign Relations que, desde ontem, está disponível na internet.
A principal conclusão deste estudo que foi apoiado pela Fundação Gulbenkian, refere-se ao que pensam os europeus sobre o desfecho mais provável da guerra entre a Rússia e a Ucrânia em que, em média, apenas 10% acredita que a Ucrânia vai vencer, 20% entende que a Rússia vencerá e 37% deseja que seja negociada a paz. Dos 12 países do universo do estudo, a Polónia e Portugal são os únicos em que a percentagem daqueles que acreditam na vitória da Ucrânia é superior à percentagem daqueles que acreditam na vitória da Rússia. Portugal tem mesmo os valores extremos, isto é, há 17% que acreditam na vitória da Ucrânia e apenas 11 % que acreditam na vitória da Rússia, havendo 35% de portugueses que desejam que seja negociada a paz.
Outra das conclusões do estudo refere-se às opções que na opinião dos europeus deve ser feita em relação à guerra e, em média, há 31% de europeus que entende que a Europa deve apoiar a Ucrânia para reaver os seus territórios ocupados, enquanto 41% defende que a Ucrânia deve ser pressionada para negociar um acordo de paz com a Rússia. Também nesta questão Portugal se distingue com valores extremos, pois 48% dos portugueses acha que a Ucrânia deve ser apoiada para reaver os seus territórios e só 23% acha que a Ucrânia deve ser pressionada para negociar um acordo de paz com a Rússia.
Este estudo está referenciado nas edições de hoje do jornal Público e do jornal catalão La Vanguardia, podendo ser lido na internet. Os europeus estão pesssimistas em relação a uma vitória da Ucrânia e desejam que a paz seja negociada, mas o que mais surpreende é a posição dos portugueses que, como se constata, são muito permeáveis às campanhas da generalidade dos comentadores televisivos que não são independentes. Porém, importa reter que 37% dos europeus e 35% dos portugueses desejam que seja negociada a paz entre a Ucrânia e a Rússia.

O apelo para o fim dos combates em Gaza

Não é costume, mas falou e, numa “impassioned and unprecedented intervention”, William Arthur Philip Louis, o Príncipe de Gales que é o herdeiro do trono do Reino Unido e dos Reinos da Comunidade de Nações, declarou que “morreu muita gente no conflito de Gaza” e que, “como outros, eu quero o fim dos combates”. O jornal Daily Mail, bem como toda a imprensa britânica, publicou com grande destaque as declarações do Príncipe William que aqui saudamos vivamente.
No mesmo dia, no Conselho de Segurança das Nações Unidas e pela terceira vez, os Estados Unidos vetaram um projecto de resolução apresentado pela Argélia que exigia um cessar-fogo humanitário imediato em Gaza, que recebera 13 votos a favor e a abstenção do Reino Unido.
É cada vez mais difícil compreender o apoio americano a Benjamin Netanyahu e ao seu governo que é uma “coligação de direita ultranacionalista”, considerada como “o mais conservador governo da história de Israel”. Depois de mais de quatro meses de conflito, os massacres do Hamas de 7 de outubro e a libertação de reféns parecem, cada vez mais, ser apenas um pretexto dos radicais israelitas para forçar os palestinianos de Gaza a abandonarem o seu território. Essa é a verdadeira intenção israelita e a comunidade internacional, que inicialmente compreendeu a musculada resposta de Israel, começa a ver que se foi longe demais e a acreditar que se está perante um caso de genocídio.
Provavelmente, o apoio dos Estados Unidos a Israel está relacionado com as eleições presidenciais que se aproximam, mas criam um ambiente hostil aos americanos naquela região que é demasiado preocupante para a paz mundial. Entretanto, a União Europeia instalada em Bruxelas continua cega, surda e muda. Incapaz. Irresponsável. Desumana. Sem respeito pelos seus valores fundamentais baseados nos princípios da liberdade, democracia, igualdade e direitos humanos.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Em memória da luta de Alexei Navalny

As autoridades russas anunciaram a morte numa prisão siberiana de Alexei Navalny, um advogado que foi líder da oposição russa e que ganhou notoriedade por organizar protestos contra Vladimir Putin e o seu governo, denunciando a corrupção nas estruturas estatais russas. Tendo sido objecto de uma tentativa de envenamento em 2020, veio a ser tratado na Alemanha e, após a sua recuperação, teve a coragem de regressar à Rússia, onde não ignorava que viria a ser perseguido, preso e sujeito a severas condições prisionais. A sua morte não surpreendeu ninguém, mas foi um duro golpe para aqueles que, no interior ou no exterior, o consideravam o rosto da luta contra Putin e que anseiam pela democratização da Rússia e pelo contributo russo para o apaziguamento internacional. A imprensa europeia tratou a morte de Navalny como um assassinato ordenado por Putin: “Putin must pay for Navalny murder” (The Daily Telegraph), “Navalny, omicidio de Stato” (La Reppublica) ou “Alexei Navalny, tué par Poutine” (Libération). Porém, a imprensa americana é menos objectiva e não faz acusações, limitando-se a anunciar a morte de Navalny, o adversário de Putin: “Top Putin critic Navalny dies in prision (The Wall Street Journal), “A sudden, predictable death for Alexei Navalny” (The Washington Post) ou “Navalny, thorn in Putin’s side, dies in Artic prison” (The New York Times).
Independentemente de se saber se a morte de Navalny foi acidental, promovida pelo regime de Putin ou ordenada pelo próprio Putin, é necessário enquadrá-la na cultura da violência política russa que vem desde Catarina II, a Grande, que em meados do século XVIII terá mandado assassinar o imperador Pedro III, seu marido, para se tornar na poderosa Imperatriz de Todas as Rússias.
Em quaisquer circunstâncias, quem defende a democracia e a liberdade, mas também o fim da guerra na Ucrânia, só tem que se curvar perante a memória de Alexei Navalny.

Arte e modernidade na cidade de Vigo

A cidade galega de Vigo inaugurou o ascensor Halo de Vigo, uma obra que custou 16 milhões de euros e responde a uma necessidade urbana, mas também acrescenta um valor artístico e arquitectónico à cidade. Apesar da região da Galiza estar em tempo de eleições regionais, a imprensa regional destacou a entrada ao serviço deste ascensor e o jornal Faro de Vigo foi um dos jornais que publicou a sua fotografia em primeira página.
Depois de 16 meses de trabalhos de construção e de alguns adiamentos de prazos, a obra foi inaugurada e a população acorreu à experimentação do novo equipamento, que é uma atracção e já é o novo ícone arquitectónico da cidade. Trata-se de um ascensor panorâmico que vai permitir ultrapassar um desnível de 50 metros entre a parte baixa e a parte alta da cidade, evitando “un rodeo de unos dos kilómetros”. O ascensor dispõe de dois elevadores com capacidade para 17 pessoas cada um, que percorrem os 50 metros de desnível em menos de 30 segundos e que ligam a uma passadeira circular que permite que os peões desfrutem da vista da cidade e da ria de Vigo, isto é, permite a mobilidade pedonal, serve de miradouro sobre a ria e irá transformar-se numa nova atracção da cidade. A estética do novo equipamento é ainda valorizada pela sua silhueta nocturna, pois está dotado de um sistema de iluminação que permite mostrar cores diversas e ajustadas a diferentes situações, o que é uma atracção adicional para o Halo de Vigo.
As cidades procuram cada vez mais potenciar os seus factores de atractividade e de modernidade através de edifícios e de equipamentos de valor arquitectónico.

Diogo Ribeiro é o nosso maior campeão!

Depois de ter vencido a prova dos 50 metros mariposa nos 2024 World Aquatics Championships, que se estão a disputar em Doha, no Qatar, o nadador Diogo Ribeiro ganhou ontem a prova de 100 metros mariposa. 
Não se imaginava que a natação portuguesa se distinguisse no plano internacional, mas estes sucessos talvez sejam os mais brilhantes resultados alguma vez alcançados pelo desporto português. Que me desculpem todos os grandes ídolos que estão sentados na galeria dos mais famosos desportistas portugueses, como Carlos Lopes e Rosa Mota, Alves Barbosa e Joaquim Agostinho, Fernamdo Pimenta e Teresa Portela, Eusébio e Cristiano Ronaldo, Fernando Adrião e António Livramento e tantos outros mais, mas Diogo Ribeiro é mesmo um caso singular.
Luís de Camões, o nosso poeta maior, escreveu na estância III do Canto I d’Os Lusíadas os versos seguintes:

Cesse tudo o que a Musa antiga canta / Que outro Valor mais alto se alevanta.

Estes versos aplicam-se, sem grande exagero, ao nadador de Coimbra que se tornou bicampeão mundial de natação e que, de facto, é “um valor mais alto que se alevanta”. Todos podemos gritar: Bravo!!! O jornal A Bola que se distingue por ser a bíblia do futebol e por se esquecer demasiadas vezes das outras modalidades desportivas, destacou na sua edição de hoje o extraordinário sucesso de Diogo Ribeiro e até alterou o layout da sua edição. Viva Diogo Ribeiro, que é o nosso maior campeão!