quarta-feira, 6 de março de 2013

Uma exposição imperdível na Gulbenkian

Na Galeria de Exposições Temporárias do edifício-sede da Fundação Calouste Gulbenkian está patente a exposição 360º Ciência Descoberta, que aborda uma página pouco conhecida da história da ciência que se desenvolveu durante o período das grandes navegações marítimas dos séculos XV e XVI, na qual os povos ibéricos foram os grandes protagonistas e se tornaram de facto os verdadeiros precursores da moderna ciência europeia do século XVII.
A exposição está didacticamente organizada por núcleos temáticos, revelando o confronto com os saberes antigos e descrevendo as novas realidades observadas no encontro com um novo mundo. Apresenta-nos alguns dos mais simbólicos testemunhos materiais desse período dourado da ciência ibérica, como mapas e manuscritos raros, produtos exóticos e especiarias, instrumentos de navegação e livros, alguns dos quais são mostrados pela primeira vez em Portugal. Trata-se, portanto, de uma narrativa sobre as origens da ciência em Portugal e Espanha, que demonstra claramente o espírito inovador daquele tempo e a sua importância pioneira no contexto da ciência europeia que, muitas vezes, ainda é erradamente atribuída apenas a ingleses, franceses e italianos.
A exposição é acompanhada por um ciclo de conferências e é apoiada por um programa educativo muito inovador que está orientado para escolas e grupos organizados. A exposição é absolutamente imperdível e pode ser visitada até ao dia 2 de Junho.

terça-feira, 5 de março de 2013

A abrir portas ou a promover o portas?

O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros foi de viagem à Índia para abrir portas e levou consigo uma alargada comitiva, onde se incluem 36 empresários mas também a televisão, para nos mostrar o sorridente ministro a inaugurar um ginásio e a informar-nos que a nossa economia precisa de músculo. A comitiva não viajou em classe económica, nem se instalou em hotéis de três estrelas, nem circulou localmente num riquexó barato. Evidentemente que não podia ser assim. São as exigências da dignidade do Estado. Por isso, estas coisas saem caras e se o ministro fizesse uma análise custo-benefício destas iniciativas a que chama “diplomacia económica”, mas que pouco mais são do que propaganda pessoal, ficaria muito surpreendido. Mas ele não resiste à sua paixão por viagens, nem à sua atracção por feiras e mercados. Depois das visitas à Ribeira e ao Bolhão, agora visita os mercados da Índia.
Porém, ele deveria conhecer um estudo realizado na Faculdade de Economia do Porto que o “Jornal de Notícias” divulgou em 24 de Agosto de 2009. O autor desse estudo analisou 12 visitas oficiais efectuadas entre 2005 e 2008, tendo concluído que os empresários portugueses que viajam em comitivas oficiais não as aproveitam para desenvolver negócios com empresários locais, preferindo desenvolver negócios com os outros empresários da comitiva. O estudo defendia que tanto os empresários como o Estado deviam repensar o modelo de funcionamento das visitas oficiais e salientava que não existia qualquer tipo de avaliação quanto à utilidade dessas visitas, que são financiadas por fundos públicos. Além disso, é evidente que os empresários não precisam que lhes abram as portas e, para inaugurar ginásios e promover encontros, já lá temos os nossos diplomatas.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Clientes BPN: quem são e quanto devem?

A imprensa noticia hoje e o Diário de Notícias destaca essa notícia em primeira página, que o governo tem um plano de recuperação do crédito malparado no BPN, o qual atingirá 17 mil devedores e se estima ter um valor de 4,2 mil milhões de euros. Segundo foi divulgado, até ao próximo mês de Julho, o governo irá contratar uma empresa especializada na recuperação de créditos, enquanto já haverá actualmente 13 mil processos em contencioso. Aparentemente, trata-se de boas notícias para os contribuintes portugueses, pois têm sido eles que têm sido chamados a “tapar o buraco” do BPN. Porém, perante a irresponsabilidade e a impunidade com que, desde há muitos meses, tem sido tratado este caso, teremos que ser descrentes e desconfiados. Tem havido uma incompreensível condescendência para com os assaltantes do BPN, muitos dos quais se passeiam por aí e, depois da venda do banco ao BIC, muitas empresas e muitos particulares em dívida deixaram de cumprir as suas obrigações que tinham para com o BPN. A morosidade da Justiça também não nos dá garantias de uma intervenção rápida, justa e eficaz, que assegure o pagamento dos créditos ou o confisco de bens que, sabemos agora, resultaram de um processo de acumulação de riqueza assente em práticas e favorecimentos ilícitos. No passado mês de Janeiro, todos os grupos parlamentares se uniram para exigir que os poderes judiciais actuassem rapidamente para julgar e punir os responsáveis pelos milhões roubados no BPN.
No entanto, o tempo corre e continuamos sem saber quem são e quanto devem aqueles que se aproveitaram do BPN. E todos temos o direito a saber isso.

domingo, 3 de março de 2013

Vozes de protesto para serem ouvidas

As manifestações que ontem se realizaram, um pouco por todo o país, em protesto contra a troika, o governo e as políticas de austeridade, tiveram a sua expressão mais evidente em Lisboa e no Porto e nem é importante saber quantos foram aqueles que nelas participaram.
Em Lisboa desfilaram muitos, muitos milhares de descontentes, de indignados, de desempregados, de reformados, de jovens sem futuro e de gente como eu, que cantou a “Grândola vila morena” e gritou palavras de ordem como “O povo unido jamais será vencido”, a evocar os tempos da conquista da liberdade e da luta contra a tirania. Os manifestantes reclamavam a demissão do governo e reagiam contra as políticas de austeridade e de ataque ao Estado social, de destruição da economia, de empobrecimento generalizado e de insensibilidade social, que estão a ser prosseguidas pelo governo e que ameaçam a coesão social e o futuro.
Embora as manifestações sejam uma prova de força popular e uma forma de expressão democrática e legítima, pouco mais conseguem do que desgastar politicamente o governo e de, eventualmente, levar a algumas alterações na sua orientação política. Porém, enquanto expressões da vontade popular, as manifestações não podem deixar indiferente o homem que elegemos em Janeiro de 2011 para ocupar o Palácio de Belém e que até tem um orçamento de 15 248 380 euros para pensar e para actuar. Por isso, o título do Jornal de Notícias é significativo e é dirigido ao governo, mas também ao homem do leme: oiçam-nos!





The Tall Ships Race 2016 em Lisboa

Num intervalo de poucas horas a cidade de Lisboa voltou a ser notícia por bons motivos, pois vai receber em 2016 a regata anual da Sail Training International - The Tall Ships Race - uma regata/festival náutico em que participam os grandes veleiros e que se realiza todos os anos com escalas em diversos países. Depois da anunciada escala lisboeta da Volvo Ocean Race em 2015, esta visita dos grandes veleiros em 2016 vem confirmar Lisboa como uma cidade marítima de excelência e um importante palco para grandes eventos náuticos internacionais.
A decisão de receber aquela regata/festival em Lisboa só foi possível devido ao envolvimento da Câmara Municipal de Lisboa e ao protocolo que foi assinado entre a autarquia e a Aporvela – Associação Portuguesa de Treino de Vela, o parceiro nacional da Sail Training International que é a entidade que, desde 1982, tem organizado a visita dos grandes veleiros ao porto de Lisboa.
Por outro lado, a decisão de incluir Lisboa na regata de 2016 resulta do sucesso da edição de 2012, na qual a Aporvela contou com o apoio de mais de duas centenas de voluntários. Nessa altura estiveram em Lisboa 49 grandes veleiros com cerca de 2500 jovens tripulantes de 43 nacionalidades, que tiveram a oportunidade de participar em vários eventos, animações de rua e concertos, mas também de conhecer a cidade. Um imponente desfile náutico atraiu ao rio Tejo algumas centenas de pequenas embarcações, enquanto muitos milhares de espectadores assistiram ao desfile nas margens do Tejo.
Para nosso contentamento, em 2016 esperamos voltar a ver o navio-escola Sagres a navegar rio abaixo com todo o pano e com tão numerosa companhia.

sábado, 2 de março de 2013

A Alemanha é rica mas tem fraca memória

A Alemanha é rica mas tem fraca memória, pois esquece que há 60 anos, exactamente no dia 27 de Fevereiro de 1953, houve um grupo de duas dezenas de países, entre os quais a Grécia, a Irlanda e a Espanha, que decidiram perdoar-lhe mais de 60% da sua dívida, através de um acordo assinado em Londres, conforme revelou o diário digital Dinheiro Vivo. Este perdão, que na prática foi uma extensão e reforço das ajudas financeiras directas do Plano Marshall, permitiu aos alemães a redução substancial da sua dívida, contraída antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Segundo um perito citado pelo Dinheiro Vivo, a dívida antes da guerra ascendia a 22,6 mil milhões de marcos, incluindo juros, enquanto a dívida do pós-guerra foi estimada em 16,2 mil milhões. No acordo assinado em Londres esses montantes foram reduzidos para 7,5 mil milhões e 7 mil milhões respectivamente, o que equivale a uma redução de 62,6%. Porém, o acordo foi mais longe ao estabelecer  a possibilidade da Alemanha suspender pagamentos e renegociar as condições, caso ocorresse “uma mudança substancial que limitasse a disponibilidade de recursos" para além de, em alguns casos, ter havido uma redução significativa das taxas de juro aplicadas. O historiador alemão Albrecht Ritschl, que é professor na London School of Economics, numa entrevista à edição on line da revista Der Spiegel (21 de Junho de 2011) afirmou  que “Germany was the biggest debt transgressor of 20th century” e confirmou que existiu de facto um perdão de dívida gigantesco ao país. Porém, agora são os filhos e os netos dos que beneficiaram daquele perdão, que estão a asfixiar quem antes foi solidário e lhes perdoou as dívidas e tantas outras coisas mais.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A Volvo Ocean Race regressa a Lisboa

A organização da Volvo Ocean Race anunciou hoje que Lisboa vai continuar a ser um dos portos de escala da volta ao mundo à vela e que essa presença fica garantida para as duas próximas edições da prova, a realizar em 2014/15 e 2017/18. É uma importante notícia para Portugal, não só em termos desportivos, mas também em termos económicos e promocionais, que só foi possível pelo apoio da Câmara Municipal de Lisboa e pelo êxito que, em Junho de 2012, constituiu a passagem por Lisboa da 11ª edição da prova, que teve um enorme impacto económico avaliado em cerca de 30 milhões de euros e que atraiu muitos milhares de visitantes e espectadores.
A organização revelou que a próxima edição da Volvo Ocean Race partirá de Alicante (Espanha), seguirá para o Recife (Brasil) e, depois de contornar o cabo da Boa Esperança, navegará até Abu Dhabi (EAU). A prova sairá depois para Auckland (Nova Zelândia) e passará o cabo Horn a caminho de Itajaí (Brasil) e de Newport (EUA). A travessia do Atlântico será feita entre Newport e Lisboa e a corrida seguirá depois para Gotemburgo (Suécia) onde termina, estando ainda em aberto a hipótese de haver mais uma ou duas escalas em portos europeus. Faltam 18 meses para o início da 12ª edição da grande corrida e já está garantida a participação de três equipas. O que também está garantido é que a Volvo Ocean Race regressará a Lisboa no Verão de 2015 e que a cidade e o Tejo aparecerão em todas as televisões do planeta.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Postais turísticos de Coimbra

Coimbra é uma cidade de património e de cultura, uma terra de memórias para muita gente e um local que sempre se visita (e fotografa) com agrado. Ontem aconteceu-me isso na Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, uma das artérias que liga a Baixa à Alta da cidade.
Ao longo dessa rua existe uma parede decorada com vários painéis de azulejos azuis e brancos que representam vários monumentos localizados na cidade e a sua história é simples: depois de Abril de 1974, esse extenso muro situado em frente do Mercado D. Pedro V, foi transformado num mural de tipo revolucionário, repetidamente pintado e repintado. Em 1984 foi decidido requalificar esse muro, revestindo-o com azulejos encomendados ao artista gráfico Amílcar Matias. Porém, embora o trabalho produzido tenha um excelente desenho, apenas corresponde a uma colagem de azulejos a lembrar uma série de “postais turísticos de Coimbra”, colocados numa parede branca e esteticamente fria, sem um adequado enquadramento e sem que se lhe reconheça o estatuto artístico que a cidade merecia.
E vem-nos à memória o painel de João Abel Manta existente na Avenida Gulbenkian em Lisboa (1982) ou o painel da Ribeira Negra de Júlio Resende, colocado à saída do tabuleiro inferior da Ponte de D. Luís I, no Porto (1985), que são contemporâneos dos painéis a que chamei “postais turísticos de Coimbra”.
Porém, uma manhã solarenga na Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes permite um curioso jogo de sombras e uma interessante fotografia, até ao mais amador dos fotógrafos.

Macau é exemplo do dinamismo oriental

Realizou-se ontem em Macau a cerimónia do lançamento da primeira pedra de um novo e imponente projecto imobiliário do MGM China Holdings que vai ser desenvolvido no Cotai e que incluirá 1600 quartos de hotel, 500 mesas de jogo e 2500 slot machines, embora 85% da sua área bruta seja dedicada à oferta extra-jogo, como restaurantes, lojas, espaços de diversão, estacionamentos e uma área pedonal de servidão pública. A MGM China Holdings é detida em 51% pelo grupo americano MGM Resorts, numa parceria com Pansy Ho, a filha de Stanley Ho que é a administradora-delegada da MGM macaense. O projecto tem um orçamento de 2,5 mil milhões de USD e terá que ser concluído até Janeiro de 2018, mas os seus promotores esperam antecipá-lo em dois anos.
O Cotai ou Zona do Aterro de Cotai é uma área de aterros que liga as ilhas da Taipa e Coloane e daí o seu nome (Co de Coloane mais tai de Taipa). Esta extensão territorial de Macau que foi conquistada ao mar, foi estudada e começada a formar nos anos 60 e em 1968 foi inaugurada uma estrada a ligar as duas ilhas. A zona de aterros continuou a ser aumentada mas só depois de 1999, com a transferência da administração de Macau para a República Popular da China, foi intensificada a sua formação. Em 2003 iniciou-se a construção de hotéis, resorts de luxo e grandes casinos, bem como a ponte “Flor de Lótus” que liga o Cotai à ilha da Montanha ou Hengqin.
O Cotai tem hoje cerca de 5,2 Km2, o que representa cerca de 20% do território de Macau e, dentro de três anos,  vai ter o novo projecto concluído. A sua maqueta foi divulgada na primeira página dos principais jornais macaenses, nomeadamente o Ponto Final, constando de torres que se assemelham a caixas de jóias alinhadas e que terão cerca de cem metros de altura.
Macau, onde o português é língua oficial, é realmente um exemplo do dinamismo oriental.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A autoridade de Ronaldo em Barcelona

Ontem realizou-se em Barcelona o jogo da 2ª mão da última eliminatória da Taça do Rei, em que se defrontaram as equipas do FC Barcelona e do Real Madrid CF. No jogo da 1ª mão disputado em Madrid, tinham empatado por 1-1, mas desta vez o Real Madrid superiorizou-se de forma inequívoca e triunfou por 3-1, tendo Cristiano Ronaldo brilhado e marcado dois golos.
Ronaldo aparece frequentemente na capa dos jornais espanhóis, sobretudo nos que são publicados em Madrid, mas desta vez houve mais de duas dezenas dos mais importantes que destacaram a vitória do Real Madrid na sua primeira página, ilustrando-a com a fotografia do jogador português a festejar um dos seus golos. Ele é um caso raro de um português de sucesso.
A rivalidade entre o Barcelona e o Real Madrid é histórica e ultrapassa o futebol. Em termos de percepção psicológica o Real Madrid representa a realeza, a língua castelhana e o poder centralista de Madrid, enquanto o Barcelona representa os ideais republicanos, a língua catalã e a ambição independentista pelo que, habitualmente, no Camp Nou se canta o hino catalão e são agitadas bandeiras da Catalunha, mas desta vez “Ronaldo calou o Camp Nou”. Não há na Europa nenhum caso de rivalidade como este, que é acentuado pelo facto dos dois mais famosos futebolistas da actualidade jogarem nessas equipas.
Ontem, no fim do jogo, as bandeiras catalãs não se agitaram. Em contrapartida o jornal madrileno ABC destacou em primeira página a fotografia de Ronaldo e aproveitou para dar uma alfinetada política nos autonomistas catalães ao escrever: “golpe de autoridad del Madrid en Barcelona”.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O Saharistan e a ameaça fundamentalista

A edição de Março do Courrier internacional  já está nas bancas e a sua capa é ilustrada com uma imagem bem elucidativa que nos revela que, por vezes, uma imagem vale mais do que mil palavras: um grupo de jihadistas armados cobre de negro uma vasta região sahariana e infiltra-se por diversos países do “Sahel”, isto é, uma “cintura” que vai desde o Atlântico ao mar Vermelho, passando pelo Senegal, Mauritânia, Mali, Niger, Burkina Faso, Níger, o norte da Nigéria, Chade, Sudão, Etiópia, Eritreia, Djibuti e Somália.
Aquela imagem mostra como o "Saharistan" é uma ameaça fundamentalista e está bem próxima do sul da Europa. A revista dedica alguns artigos à situação de decomposição política, económica e social que atravessa o norte de África, incluindo os planaltos do sul da Argélia e da Líbia e a região do Sahel, que tem vindo a ser dominada por jihadistas fanáticos e a escapar ao controlo de quaisquer governos, sobretudo depois da “primavera árabe”.
O Mali estava a caminho de se transformar numa nova Somália ou de ter um regime talibã do modelo afegão, além de se estar a tornar num trampolim para a escalada do islamismo armado ou do islamo-gangsterismo, como também é chamado.
A perspectiva de um “Saharistan” ou de um “Sahelistan”, mais o receio de contágio, fizeram a França intervir militarmente, com base numa resolução da ONU e no apoio de um vasto leque de países. As principais cidades do Mali, como Gao e Tombuctu, já foram libertadas, mas não se espera uma resolução rápida do problema o que constitui uma preocupação para a Europa e, em especial, para os países da margem norte do Mediterrâneo, incluindo a Península Ibérica.

Ao que isto chegou!

O programa Prós e Contras da RTP tratou ontem do tema da reforma das Forças Armadas, colocado na agenda pública pelo MDN ao anunciar cortes nos seus efectivos e orçamentos, sem cuidar primeiro de estudar as possíveis consequências negativas dessas opções. Quis brilhar e cortar, como lhe foi encomendado. Como se as Forças Armadas fossem uma empresa pública em processo de privatização. Ora este anúncio gerou uma "profunda preocupação" relativamente ao seu futuro, por poderem conduzir à sua desarticulação e descaracterização.
A apresentadora do programa escolheu o tema com oportunidade e conseguiu a presença de especialistas altamente qualificados, embora o MDN tivesse rejeitado o convite para o debate, o que foi lamentável.
O programa foi muito esclarecedor e teve intervenções inteligentes, competentes e excelentes, que saúdo vivamente. De homens que andaram na guerra e lutaram contra ditadura. De homens que comandaram e conhecem as Forças Armadas. De homens que pensam o país e o seu enquadramento internacional. De homens que se orgulham da nossa História e que confiam na capacidade do nosso povo. De homens que reagem à irresponsabilidade e à cegueira desta governação. De homens que não compreendem nem aceitam a leviandade das intenções anunciadas.  
Nos termos constitucionais, as Forças Armadas são o garante da independência nacional, da unidade do Estado e da integridade do território. São uma instituição estruturante do Estado, um símbolo de unidade e coesão nacional e um factor de credibilidade internacional. Os tempos que hão-de vir são muito complexos e as nossas Forças Armadas têm que estar preparadas para servir os objectivos nacionais, que amanhã podem ser diferentes do que são hoje. Não podem estar sujeitas a estas diatribes de um qualquer aguiar hifen branco, que alterna entre o seu escritório de advogados e o ministério que ocupa, mesmo que seja um patriota de bandeirinha na lapela.
Redimensionar as Forças Armadas? Claro! Reformar as Forças Armadas? Sem dúvida! Deixar as Forças Armadas às ordens de um Ministro das Finanças e de uma troika estrangeira? Nunca!
Ao que isto chegou!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Síria: a morte de um país

Na sua última edição a revista The Economist aborda o complexo problema da Síria e da sua guerra civil, caracterizando a situação como “a morte de um país”, devido ao nível de destruição que está a provocar. Iniciada há cerca de dois anos na sequência da contestação ao regime de Bashar al-Assad, a guerra tem aumentado de intensidade e levou à divisão do país entre as forças governamentais e os grupos rebeldes da oposição mas, segundo The Economist, nenhum dos lados tem a vitória ao seu alcance. A situação humanitária na Síria é cada vez mais dramática e as Nações Unidas calculam que já morreram mais de 70 mil sírios, enquanto o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) estima que haja mais de 860 mil refugiados e que o número de deslocados no interior do próprio país seja muito superior. Por todo o território sírio há milhares de casas, fábricas, escolas e hospitais que foram arrasados e há milhões de sírios privados de comida, electricidade, combustível e telefone. A vida brutalizou-se com a guerra, mas também com disputas que nada têm a ver com a revolta. As duas partes armaram os civis e como disse um comandante, “os meus homens habituaram-se a matar”. Há assassinatos e sequestros frequentes e, como acontece em todas as guerras, os seus actores são todos maus. Como aconteceu na Bósnia, no Iraque e na Líbia. Muitos quadros, médicos, professores e engenheiros abandonaram o país e muitos sírios temem que a guerra só termine quando já não houver ninguém para combater. Como titula The Economist, estamos a assistir à morte de um país e a uma catástrofe humanitária, aparentemente perante a indiferença da comunidade internacional.


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Crise, recessão e desemprego na Europa

Segundo as previsões de Inverno da Comissão Europeia, os países da União Europeia deverão registar em 2013 um crescimento global de apenas 0,1%, enquanto na Zona Euro se verificará uma contracção do produto de 0,3%.
Haverá sete países em recessão em 2013: Grécia (4,4%), Chipre (3,5%), Eslovénia (2,0%), Portugal (1,9%), Espanha (1,4%), Itália (1,0%) e Holanda (0,6%), mas o produto também regredirá na Alemanha e na França, que deverão crescer apenas 0,5% e 0,1%, respectivamente. A Europa está, portanto, a viver uma situação de crise, recessão e desemprego, mas o novo grande problema é a Espanha, cujas previsões são aterradoras: o défice das contas públicas será de 6,7% em 2013 (o objectivo era 4,5%) e em 2014 atingirá 7,2% (o objectivo era 2,8%). Assim, a Comissão Europeia já prevê suavizar “consideravelmente o ritmo dos ajustamentos em Espanha”, face à gravidade da recessão e não descarta alargar até 2016 o prazo para que seja alcançado o objectivo de um défice de 3%. Também no capítulo do desemprego as previsões descrevem um cenário negro para Espanha, com a taxa a atingir os 26,9% em 2013, antes de cair, apenas ligeiramente, para os 26,6% em 2014.
Porém, a Espanha parece reagir e o governo de Mariano Rajoy aprovou 50 medidas para estimular o crescimento e a criação de emprego. Os nossos governantes bem podiam ler a edição de hoje do diário ABC. Está lá tudo. Porém, em vez de tomarem medidas, eles insistem no discurso da austeridade e no ataque aos trabalhadores e aos pensionistas, ao mesmo tempo que andam pelo país em acções de propaganda partidária, navegando contra o vento e, naturalmente, a ouvir o protesto popular. Se querem assim, que se aguentem!

Independentistas catalães não desistem

Oriol Junqueras é um político espanhol com 43 anos de idade, alcaide da cidade catalã de San Vicente dels Horts, eurodeputado e actual presidente da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), que defende um estatuto especial ou a independência daquela região autónoma espanhola. Junqueras é historiador e professor associado do Departamento de História Moderna e Contemporânea da Universidade Autónoma de Barcelona e, numa recente entrevista destacada na primeira página do diário El Mundo, declarou que “a Espanha vai perder a Catalunha, como perdeu Cuba, Portugal e Holanda”.
Não é habitual que as declarações dos políticos recorram às lições da História e, por isso, a entrevista é mais interessante, até porque inclui uma referência a Portugal. De facto, a entrevista invoca situações históricas dos séculos XVII (caso de Portugal e da Holanda)  e do século XIX (caso de Cuba), aparecendo numa altura em que, pela primeira vez, a ERC ultrapassa nas intenções directas de voto os nacionalistas de direita da Convergência e União (CiU) dirigidos por Artur Mas. Em 2014, haverá eleições ou um referendo e é possível o reforço do independentismo catalão através de uma coligação entre a ERC e a CiU, com um acordo eleitoral que tenha a independência como único ponto programático. Interrogado sobre o facto da União Europeia já ter declarado não aceitar a divisão de um Estado-membro, o cada vez mais provável líder dos independentistas catalães respondeu que se trata de simples declarações de ocasião e que, quando chegar o momento, não haverá problema.