domingo, 16 de outubro de 2022

A questão de Taiwan e o pensamento de Xi

O 20º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC) teve ontem o seu início em Pequim e os seus trabalhos vão durar uma semana. O congresso realiza-se de cinco em cinco anos e é o mais importante acontecimento da vida política chinesa pois reúne mais de dois mil delegados de todo o país e, no último dia, anuncia os nomes dos sete membros do Comité Permanente do Politburo de PCC, incluindo o actual secretário-geral Xi Jinping.
Ontem Xi Jinping fez o discurso de abertura do congresso e foi directo ao assunto que mais interessa à China e ao mundo, dizendo:

- Trabalharemos com a maior sinceridade e faremos todos os esforços em prol da reunificação pacífica [de Taiwan], mas não renunciaremos nunca ao uso da força e reservamos a possibilidade de adoptar todas as medidas necessárias.

- A resolução da questão de Taiwan é um assunto do povo chinês e deve ser resolvido apenas pelo povo chinês.

Xi Jinping disse, ainda, que “a reunificação da pátria deve ser alcançada e vai ser alcançada” e condenou “o separatismo e a interferência estrangeira” na questão de Taiwan, que é um caso de enorme tensão no Pacífico ocidental e no mundo. O caso nasceu em 1949, durante a guerra civil, quando as tropas comunistas de Mao Tse-Tung tomaram o poder e o general Chiang Kai-shek e o seu governo nacionalista se refugiaram na ilha Formosa ou Taiwan. Desde então, a China e Taiwan vivem como dois territórios autónomos: Taiwan afirma-se como uma república soberana, mas a China insiste que é um território chinês dominado indevidamente por separatistas. Esse é o problema que gera o braço de ferro entre chineses e americanos, pois os Estados Unidos são o principal aliado de Taiwan e têm repetidamente afirmando que defenderão a ilha em caso de intervenção militar do regime de Pequim. O Congresso do PCC e as declarações de Xi Jinping foram notícia na imprensa ocidental e o jornal basco berria destacou a figura do líder chinês, mostrando Mao Tse-Tung como a sua sombra. Porém, não restam dúvidas que está ali o mais grave ponto de tensão do nosso planeta.

A bagunça governamental no Reino Unido

Os jornais britânicos têm concentrado o seu noticiário na crise política que está a atravessar o Reino Unido e que se tem acentuado desde que, no dia 6 de Setembro, as funções de primeira-ministra foram assumidas por Liz Truss.
Vários desses jornais, como o diário The Guardian, utilizam a palavra chaos e alguns comentadores dizem que o cenário é explosivo com a inflação a subir, o agravamento dos custos da energia, a decadência do National Health Service e a multiplicação de greves nos transportes, nos correios, na justiça e na saúde. Por outro lado, Liz Truss é considerada uma “vira casacas” política e ideológica, pois já defendeu a abolição da monarquia britânica e foi uma activíssima defensora da continuidade do Reino Unido na União Europeia, mas por ambição política sempre deu o dito por não dito. Porém, veio a chegar ao poder ao assumir-se como herdeira política de Margareth Thatcher, a “dama de ferro” de quem os conservadores britânicos têm saudades.
Uma das primeiras medidas de Liz Truss foi avançar com um plano económico e um mini-orçamento absolutamente desastrados, por quererem agradar a gregos e a troianos e por implicarem um défice gigantesco. As reacções foram fortes e o chanceler Kwasi Kwarteng, seu amigo e apoiante, foi demitido. Os parlamentares conservadores entraram em estado de choque e já pensam na substituição de Truss por algum dos candidatos que ela derrotou na corrida à liderança, ou mesmo pelo próprio Boris Johnson.
Entretanto, um deputado conservador afirmou que era insustentável que um partido histórico e o governo da sexta maior economia do mundo “tenham uma bagunça de primeiro-ministro”. Nem David Cameron, que falhou no Brexit, nem Theresa May, nem Boris Johnson, estiveram à altura das suas funções. Liz Truss vai pelo mesmo caminho.

sábado, 15 de outubro de 2022

Turquia, Erdoğan e os esforços pela paz

A imprensa turca destaca nas suas edições de ontem o encontro havido entre Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdoğan, que se reuniram à margem da cimeira asiática em Astana, a capital do Cazaquistão, com a generalidade dos jornais turcos a publicar a fotografia dos dois líderes. Segundo os relatos publicados, Putin propôs ao seu homólogo turco que o gás russo possa vir a ser exportado através da Turquia, que poderia tornar-se num grande centro de distribuição, isto é, “a Turquia é a mais confiável rota para o gás destinado ao mercado europeu”, como titula a edição inglesa do diário Daily Sabah.
Este facto mostra claramente que a guerra também é um pretexto para fazer negócios, não só na venda de armamento em larguíssima escala, mas também em muitas outras áreas, como a distribuição de gás, em que até os países ibéricos se mostram interessados.
No actual contexto de guerra, de tragédia humanitária e de enorme destruição, que alimentam a inflação, geram a recessão global e provocam o retrocesso civilizacional do mundo, as conversas entre Putin e Erdoğan, que preside a um país fundador da NATO, mostram que é possível o diálogo, bem como uma rápida saída para o conflito. Em Julho, foi exactamente Erdoğan que, em parceria com as Nações Unidas, conseguiu o acordo que permitiu que fosse retomada a exportação de cereais ucranianos. Em Setembro, também a mediação diplomática turca levou à troca de prisioneiros entre a Rússia e a Ucrânia. Agora, Putin e Erdoğan encontraram-se e, certamente, também discutiram a saída para esta guerra. Porém, no mesmo dia, vimos e ouvimos Jens Stoltenberg (pela NATO) e Josep Borrell (pela União Europeia) a assumirem-se como os mais agressivos e ameaçadores falcões do ocidente e adversários do regime russo.
Entretanto, torna-se evidente que a Ucrânia e Volodymyr Zelensky são, cada vez mais, os pretextos que estão a ser usados para um confronto de interesses mais global.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

A mediação no conflito ucraniano

O jornal The National que se publica na cidade-ilha de Abu Dhabi, a capital dos Emirados Árabes Unidos, destaca como manchete da sua edição de ontem, o apelo do xeque Mohamed para que a Rússia e a Ucrânia conversem e se entendam. Numa altura em que a tensão à volta da Ucrânia se agrava e em que se fala mais de mísseis, de sistemas de defesa anti-aérea e de produção de mais armamento, a voz dos Emirados é prudente e sensata, apelando a conversações entre as partes e à paz, isto é, recusando a lógica que tem prevalecido de destruir ou de enfraquecer o adversário. O xeque Mohamed sabe que nesta guerra não haverá vencedores e que todos sairão a perder.
Os Emirados Árabes Unidos são uma confederação de sete monarquias ou emirados árabes, cujo primeiro-ministro e vice-presidente é o xeque Mohamed, a designação honorífica de Mohammed bin Rashid Al Maktoum, que também é o emir do Dubai. Este homem que é muito poderoso e governa uma das regiões mais ricas do mundo, além de ser o sexto maior produtor de petróleo do mundo, visitou São Petersburgo e encontrou-se com Vladimir Putin, a quem informou da sua política de apoiar a paz e a estabilidade e “pediu a continuação de políticas sérias para resolver a crise ucraniana, independentemente de quão difícil ou complexa possa ser”. Note-se que os Emirados desempenharam um papel fundamental de mediação na recente troca de prisioneiros entre a Rússia e a Ucrânia e que, antes de de visitar São Petersburgo, o xeque Mohamed esteve em Kyev.
Estamos, portanto, perante um activo mediador no conflito ucraniano e os seus esforços nesta causa justificam o nosso aplauso.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Ucrânia: “olho por olho, dente por dente”

O ataque desferido contra a ponte de Kerch foi um duro golpe e uma humilhação para o orgulho russo e veio mostrar que a paz ainda pode estar longe, pois parece abrir uma nova etapa do conflito para a qual se pode aplicar a expressão “olho por olho, dente por dente”, significando que as partes utilizam respostas e punições na mesma proporção dos danos que lhes foram causados. De facto, quarenta e oito horas depois do humilhante ataque à ponte de Kerch, os russos retaliaram e atacaram fortemente Kyev e mais de uma dezena de cidades ucranianas. Esta acção não foi inesperada, mas impressionou pela sua enorme violência, o que levou a que a imprensa internacional utilizasse duas palavras para definir a resposta russa: vingança e terror. Com esta acção e reacção o discurso das partes radicalizou-se. Putin está com o seu orgulho ferido e não cessa de fazer ameaças, culpa o ocidente pelos preços da energia e pela crise económica e diz que “a Rússia está disposta a conversar”, mas continua a prometer mais ataques. Joe Biden declara o seu apoio incondicional à Ucrânia, insiste em continuar a impor custos à Rússia pela sua agressão, acusa-a de crimes de guerra e de atrocidades e oferece-lhe sistemas de defesa antiaérea para que “defendam o seu país e a liberdade”. Entretanto, pela voz do seu falcão-mor Jens Stoltenberg, a NATO pede às empresas de defesa que aumentem a produção de armamento. Só se pensa em canhões, não se pensa em manteiga, como certamente diria o nobel Paul Samuelson. 
Este parece ser, na sua expressão mais simples, o estado do conflito ucraniano e da escalada por que está a passar. Zelensky é cada vez mais um peão neste jogo de alta geopolítica em que ninguém fala em paz e todos parecem apostar na lógica de “olho por olho, dente por dente”.

domingo, 9 de outubro de 2022

A humilhante derrota no estreito de Kerch

Um segmento da ponte de Kerch, que liga o território da Rússia continental com a península da Crimeia, ou que atravessa o estreito que liga o mar Negro com o mar de Azov, foi destruído ontem em resultado de uma explosão de grande violência, provocada pelo incêndio de diversos vagões com combustíveis. Foi um duro golpe para o orgulho da Rússia e foi uma grande vitória para a Ucrânia. O jornal espanhol El Mundo noticia esse duro golpe e diz que Putin procura um contragolpe, o que pode significar a escalada e as suas imprevisíveis consequências.
Aquela ponte foi construída depois da anexação russa da Crimeia em 2014 e representou a determinação russa no que respeita à integração daquela península ucraniana, embora a sua construção sempre tivesse sido condenada internacionalmente. A sua inauguração em 2018 como a maior ponte da Europa, passou a ser um símbolo da capacidade tecnológica da engenharia russa, mas também uma afirmação de poder, ao ligar fisicamente o território russo com a península da Crimeia. Porém, a importância da ponte é não só simbólica, mas também logística pois assegura o reabastecimento da península da Crimeia. Por isso, esta ocorrência não pode ter sido uma casualidade, pois integra-se nas operações de guerra que decorrem na Ucrânia desde 24 de Fevereiro de 2022, sendo mais um exemplo das trágicas destruições que estão a devastar aquela região. Depois das derrotas que tiveram na sua tentativa de dominar Kiev e da perda do cruzador Moskva, esta operação sobre a ponte de Kerch é mais uma humilhante derrota para os russos. Quem imaginasse que o inverno podia vir a aconselhar as partes a começarem a moderar-se e a negociar, deve ter-se enganado. O ataque à ponte de Kerch veio enfurecer o orgulho russo e não ajuda os esforços de paz nos próximos tempos, o que é cada vez mais preocupante. Muito preocupante.

Angola, o apaziguamento e o progresso

O Jornal de Angola deu notícia do encontro havido em Luanda entre o presidente João Lourenço e Adalberto da Costa Júnior, o líder da UNITA e candidato presidencial derrotado, alegadamente para “troca ideias sobre anseios do povo”. Uma fotografia com os dois políticos sorridentes e a apertar as mãos, mostra como esse encontro correu bem.
Em tempos da muita perturbação que vai pelo mundo é uma boa notícia. Há poucas semanas, quando os resultados eleitorais foram equilibrados e revelaram um país dividido, houve quem temesse que Angola entrasse num período de tensão e de instabilidade, mas este encontro e esta fotografia entre os dois líderes vieram mostrar o ambiente democrático que se vive em Angola, que bem útil será para o progresso da sociedade angolana.
Quando assistimos diariamente ao que se passa na campanha eleitoral do Brasil e nos recordamos do que se passou em Janeiro de 2021 com o assalto ao Capitólio sob a inspiração de Donald Trump, só podemos concluir que Angola está a dar um grande exemplo de democracia e de convivência. Esse exemplo é reforçado pelo facto de ter terminado exactamente há vinte anos, a longa guerra civil que durou 27 anos, entre o MPLA e a UNITA, ou entre Cuba e a África do Sul.
O machado de guerra está definitivamente enterrado. Agora é preciso unir esforços para fazer daquela terra tão rica em recursos naturais, uma sociedade mais igualitária e mais desenvolvida para benefício de todos os angolanos.

sábado, 8 de outubro de 2022

Os interesses da indústria do armamento

Celebrou-se hoje, dia 8 de Outubro, o 90º aniversário da Indian Air Force, que foi criada em 1932 pelo governo colonial britânico. Os principais jornais indianos destacam o acontecimento porque a Índia carece deste tipo de celebrações para reforçar a unidade nacional de um país multiétnico, multicultural e multireligioso, onde são faladas mais de trezentas línguas, das quais cerca de três dezenas são línguas oficiais. 
Daí que, a imprensa informe que a Índia tem a quarta maior Força Aérea do mundo e descreva os seus feitos militares, em que aparece a Operação Vijay que em 1961 anexou a Índia Portuguesa. No entanto, para além desse aspecto de fazer convergir o país para a unidade nacional, a Índia tem ambições regionais e, por isso, faz grandes investimentos militares para disputar a hegemonia regional com o Paquistão, o seu rival estratégico e religioso que, tal como a Índia, também é uma potência nuclear.
Tudo isso parece ser normal. Porém, o que é mais surpreendente nestas comemorações é o anúncio publicado na primeira página do jornal The Pioneer, um jornal centenário com edições diárias em várias cidades indianas, em que a General Atomics Aeronautical (ga-asi.com), uma multinacional americana com sede em San Diego, que parece dominar o mercado mundial de Remotely Piloted Aircraft, vulgarmente conhecidos por drones, se anuncia à Força Aérea Indiana através de publicidade paga. Já não se trata de vender viagens turísticas ou de publicitar boeings, mas apenas de vender sofisticado material de guerra. Era costume os americanos, os russos, os franceses e outros produtores de armamento, aparecerem na Índia para discretamente venderem os seus produtos. Ao menos, faziam isso discretamente. Agora a novidade é o anúncio de armamento, o que parece mostrar quem são os interessados nas guerras.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

A arquitectura agrega imaginação e arte

A última edição do jornal i destaca com uma fotografia a toda a largura da sua primeira página uma antevisão do Lucas Museum of Narrative Art, actualmente em construção no Parque de Exposições da cidade de Los Angeles, por iniciativa de George Lucas, um produtor cinematográfico americano de 78 anos de idade, que se tornou famoso como criador das séries Star Wars e Indiana Jones.
George Lucas é uma personalidade multifacetada e, além dos seus interesses no cinema, é milionário, filantropo e coleccionador de arte, tendo reunido mais de cem mil registos de arte, incluindo pinturas, esculturas, fotografias, filmes, bandas desenhadas e objectos utilizados em filmes, como o Parque Jurássico de Steven Spielberg e o Avatar de James Cameron.
Com todo o seu potencial financeiro e de criatividade, George Lucas idealizou um museu actualmente em construção, que foi desenhado pelo arquitecto chinês Ma Yansong e projectado pelo seu gabinete MAD Architects. O design é muito pouco convencional e a construção é elevada acima do solo, criando um espaço de sombra para os visitantes, sendo coberta por vegetação arbórea, mas o que realmente o distingue é o facto de ter sido idealizado como se fosse uma grande nave espacial pronta a descolar a todo o momento. Esse é, seguramente, o seu aspecto mais notável.
As paredes exteriores serão revestidas com vidro e por painéis solares, enquanto o interior é um amplo espaço com cerca de 30 mil metros quadrados, distribuído por cinco andares, que abrigará amplas galerias, dois teatros, restaurantes, lojas, cinemas, salas de aula e uma biblioteca. A colecção museológica incluirá desde mosaicos e ânforas romanas, até à pintura renascentista e contemporânea, mas também a fotografia contemporânea e o cinema.
O Lucas Museum of Narrative Art tem a sua inauguração prevista para 2025.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Viva o 5 de outubro. Viva a República!

Há 112 anos, no dia 5 de Outubro de 1910, da varanda da Câmara Municipal de Lisboa foi proclamada a República Portuguesa pela voz de José Relvas, em nome do Directório do Partido Republicano. A crise monárquica era profunda e já se agravara desde há alguns anos, mas aprofundara-se depois do assassinato do rei D. Carlos e do Príncipe Real, que aconteceu no dia 1 de Fevereiro de 1908 na Praça do Comércio, isto é, estes dois acontecimentos ocorreram em locais situados a menos de cem metros um do outro.
Apesar das muitas vicissitudes por que passou durante alguns anos, o ideal republicano conquistou o povo com o seu hino e a sua bandeira, enquanto as celebrações da implantação da República se tornaram um feriado e uma festa nacional. Porém, como escreveu Luís de Camões há mais de quatro séculos, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e hoje o povo já não celebra a implantação da República, como se verifica na forma como a comunicação social ignora essa data histórica ou a evoca timidamente, apenas à espera dos discursos de circunstância. São sinais dos tempos. Assim aconteceu também com o 1 de Dezembro de 1640 e, qualquer dia, assim acontecerá com o 25 de Abril de 1974.
A cultura do esquecimento das datas e dos acontecimentos históricos só enfraquece a identidade e a unidade nacionais, ao mesmo tempo que tudo é feito para idolatrar o futebol e os sucessos de uma qualquer selecção nacional. Aqui não há celebrações populares da República mas, paradoxalmente, a nossa comunicação social deslumbrou-se em data recente com a Monarquia britânica. O povo não pode ficar refém deste tipo de escolhas dos gatekeepers da comunicação social. A indiferença com que são tratadas as datas e os acontecimentos históricos pelas diferentes instâncias dos poderes públicos e pela comunicação social não é um bom serviço que se presta aos sentimentos populares da mais antiga nação da Europa, esse “nobre povo, nação valente e imortal”.
Viva o 5 de Outubro! Viva a República!

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O Brasil adiou a sua escolha presidencial

Com grande tranquilidade e sem que tenham sido registadas quaisquer ocorrências significativas, a primeira volta das eleições presidenciais brasileiras decorreu ontem e contrariou as sondagens, pois embora Lula da Silva tivesse obtido 48,42% dos votos contra 43,21% de Jair Bolsonaro, a diferença de cerca de 5% é bem menor do que aquilo que as sondagens previam.
Afinal, o eleitorado não mandou o Jair para casa como previram algumas sondagens e, pelo contrário, deixou-o com um esperançoso resultado. Os dois candidatos mais votados recolheram cerca de 91% da totalidade dos votos expressos, o que mostra a enorme polarização do eleitorado brasileiro. Perante estes resultados o jornal Estado de Minas de Belo Horizonte, destaca que o Brasil é “um país dividido” e mostra um mapa em que essa divisão é bem evidente. Temos, portanto, uma segunda volta que se disputará no dia 30 de Outubro entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro e, de acordo com o que foi expresso pela generalidade dos comentadores, o que vai acontecer é imprevisível e a vitória pode chegar a qualquer dos dois candidatos.
Estão a ser feitas as mais diversas análises quanto ao que vai acontecer, pois Lula conseguiu 57 milhões de votos contra 51 milhões de Bolsonaro, mas essa diferença de mais de cinco milhões de votos não garante a sua eleição. A partir de agora vão ser disputados os cerca de nove milhões de votos que foram entregues aos candidatos Simone Tebet e Ciro Gomes e, também, os votos dos 32 milhões de abstencionistas, isto é, há cerca de quarenta milhões de votos que os dois candidatos irão agora procurar atrair.
O que parece não haver dúvida é que vão ser quatro longas semanas de intensa luta política, de ameaças, de insultos, de ódios e de radicalização da sociedade brasileira.

domingo, 2 de outubro de 2022

O Brasil vai mandar o Jair para casa?

Chegou o dia em que os brasileiros irão fazer as suas escolhas políticas através do voto, embora seja a escolha do Presidente da República que vai mobilizar os cidadãos para irem às urnas.
As sondagens dão como possível a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva já hoje, o que pouparia os brasileiros de mais quatro semanas de violência política, de deterioração da situação económica e de instabilidade social. O actual presidente mostrou durante o seu mandato e confirmou na actual campanha eleitoral, a sua medíocre cultura democrática, a sua manifesta ignorância e a sua incapacidade para dirigir o grande país que é o Brasil. O seu alinhamento internacional é perturbador e os seus amigos políticos são muito pouco recomendáveis. Pelo contrário, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva mobiliza, entusiasma e dá esperança ao povo, para além de ter um elevado prestígio internacional pela forma como governou o Brasil entre 2003 e 2011, bem como pelos resultados que obteve no combate à fome e à desigualdade.
Os brasileiros vão hoje escolher o seu presidente e muitos irão votar em Lisboa, que é a mais brasileira cidade do mundo. O que se espera é que a eleição decorra com tranquilidade e que, no fim, o Jair vá para casa. O Brasil precisa disso.
Hoje o jornal berria, que se publica na pequena cidade de Andoain, na província de Gipuzkoa da Comunidade Autónoma do País Basco, dedica a sua primeira página às eleições brasileiras, sendo uma enorme surpresa que numa pequena cidade basca desperte tanto interesse o momento político brasileiro.
Força Brasil!

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

A paz na Ucrânia é cada vez mais urgente

As últimas notícias sobre o conflito da Ucrânia que, com maior ou menor verdade nos vão chegando, parecem mostrar que o regime de Vladimir Putin está a passar por grandes dificuldades, não só no campo de batalha, mas também na ordem política interna e internacional.
A reocupação ucraniana de algumas áreas territoriais, sobretudo na região de Kharkiv, e o reforço da ajuda militar americana, levaram Putin a fazer um discurso ameaçador e a decretar a mobilização de reservistas, ao mesmo tempo que, tanto os chineses como os indianos, não mostraram a solidariedade para com a Rússia que Putin desejava. Depois surgiram o anúncio dos referendos, mais a acção de sabotagem sobre as condutas do Nord Stream e o anúncio do reconhecimento da independência das regiões de Kherson e Zaporijia que, tal como Lugansk e Donetsk, irão ser integradas no território russo apesar da oposição da comunidade internacional, como salientou o secretário-geral das Nações Unidas. Como refere a última edição do Der Spiegel, que exibe na capa uma ilustração de Putin com um olho negro – que corresponde ao mapa da Ucrânia – ele está “perigosamente fraco”.
A ser assim, tal como acontece com os animais acossados, Putin torna-se perigoso e as suas ameaças devem ser levadas a sério, pelo que é necessário que se faça qualquer coisa para acabar com esta guerra e evitar que a arma nuclear seja utilizada. É preciso que a diplomacia regresse a este palco rapidamente, o que de resto parece ser a opinião já dominante dos cidadãos europeus como revelou recentemente o Eurobarómetro.
Ao contrário das guerras de antigamente em que havia vencedores e vencidos, estamos agora num conflito que corre o risco de não ter vencedores, mas apenas vencidos.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

O fornecimento de gás russo à Europa

A notícia mais importante do dia de ontem foi, seguramente, a fuga de gás que se verificou nos gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2, que transportam o gás natural desde a Rússia até à Alemanha, através do mar Báltico, que é depois distribuído por vários países da Europa. Estes gasodutos correm paralelamente numa extensão de 1224 quilómetros de comprimento e têm sido objecto de muitas discussões, pois simbolizam a relação de dependência energética do centro e do ocidente da Europa em relação à Rússia. Essa discussão acentuou-se com o conflito ucraniano em que o gás russo se tornou uma arma de guerra, pois os russos precisam do dinheiro da venda do seu gás natural para alimentar a sua economia de guerra e os ocidentais precisam do gás russo para alimentar as suas economias e para aquecer as suas casas.
Hoje vários jornais publicam a fotografia da mancha provocada pela fuga do gás no mar Báltico, em águas territoriais suecas e dinamarquesas, enquanto todos se interrogam sobre o que realmente se passou, pois foram detectadas explosões na área onde estão assinaladas as fugas de gás.
O jornal holandês deVolksrant destaca com uma fotografia a seis colunas, a enorme mancha resultante da fuga de gás no mar Báltico e diz que “as explosões no Nord Stream são quase certamente sabotagem”. No mesmo sentido estão algumas reacções já conhecidas das autoridades alemãs, dinamarquesas e polacas, pois é difícil imaginar uma avaria técnica simultânea nos dois gasodutos. Significa que toda a gente parece apostar na tese da sabotagem mas, a ser verdadeira, torna-se difícil saber quem poderia e teria capacidade para levar a efeito esta acção. Ou como diria o detective Hercule Poirot, que a ficção televisiva celebrizou, encontre-se quem estaria interessado nesta sabotagem e está encontrado o autor.
O certo é que o fornecimento de gás russo à Europa está em risco e as tensões agravam-se.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Giorgia Meloni agita a unidade europeia

O partido Fratelli d’Italia e a sua presidente Giorgia Meloni venceram as eleições legislativas italianas com 26,19% dos votos, enquanto os resultados dos partidos seus aliados, ou seja, a Liga do Norte de Matteo Salvini (8,93%) e a Força Italia de Silvio Berlusconi (8,28%), vão permitir que a coligação de direita e extrema-direita tenha a maioria parlamentar e Giorgia Meloni possa formar governo. A notícia do jornal La Stampa diz que será a primeira mulher a governar a Itália, mas a generalidade da imprensa diz que a Itália regressa à extrema-direita, com Meloni a governar na linha de Mussolini. Foi a escolha de 50 milhões de italianos que, desta forma, criticaram a política interna italiana e mostraram o seu desagrado com a política europeia seguida por Bruxelas.
A União Europeia reagiu com alguma surpresa a este resultado, pois a coligação italiana vencedora defende muitas posições que são contrárias à filosofia política comunitária, o que pode significar o início de um retrocesso na construção europeia, em que por vezes têm sido dados “passos maiores que a perna”, quer no seu alargamento com critérios discutíveis, quer nas suas posições relativamente aos grandes blocos, sobretudo porque muitas decisões são tomadas à margem da opinião dos cidadãos.
Se Robert Schuman, o francês que foi o verdadeiro pai da união europeia, regressasse à sua Europa, certamente ficaria estupefacto com a situação. Acabaram as discussões sobre a “Europa das Pátrias” ou a “Europa dos Estados”, mas também os debates sobre as soluções intermédias, entre um federalismo integrador europeu que ignora a existência de nações e culturas diferenciadas e os nacionalismos exacerbados e egoísmos nacionalistas. Bruxelas e a sua burocracia tornaram-se arrogantes e menos democráticos e, escondida num sorriso simpático, a presidente Ursula von der Leyen é hoje o símbolo de algum desnorte. 
A entrada em cena de Giorgia Meloni vai perturbar espíritos e agitar as águas mas, também, vai mostrar que a Europa não pensa toda da mesma maneira, ao contrário do que há dias dizia o eminente ministro Cravinho, quando afirmou que a força da Europa está na sua unidade.