segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Ceuta e algumas memórias lusitanas

Terminaram ontem na cidade autónoma de Ceuta as Fiestas Patronales en Honor a Santa Maria de África, a “patrona y madre de Ceuta”, o que foi amplamente noticiado pelo jornal Faro de Ceuta.
A devoção dedicada a Santa Maria de África ou Nossa Senhora de África ou Virgem de África não é exclusiva daquela cidade espanhola do norte de África, pois estendeu-se a outras regiões africanas, como por exemplo à Argélia e ao golfo da Guiné. Porém, segundo se crê, essa devoção teria nascido com a presença portuguesa em Ceuta, pois o mais antigo lugar de culto com esta designação encontra-se naquela cidade e a sua construção inicial data do século XV. A imagem da Virgem "patrona y madre de Ceuta" que é venerada nas festas, terá sido doada à cidade pelo Infante D. Henrique, com o pedido para que todos os sábados se rezasse pela sua alma e a tradição da “sabatina”, que ainda hoje permanece em Ceuta, poderá ter essa origem. A imagem tem na mão um bastão com nós, que foi oferecido pelo último governador português de Ceuta.
Ceuta foi conquistada em 1415 pelo rei D. João I e a partir de 1640 deixou de pertencer a Portugal, por não ter aderido ao movimento da Restauração. No entanto, a cidade manteve a sua bandeira igual à da cidade de Lisboa e o seu brasão com as cinco quinas portuguesas, o que só por si evoca as memórias lusitanas.
Teria sido uma boa oportunidade para visitar Ceuta.

sábado, 4 de agosto de 2012

O uso e o abuso dos cartões de crédito

Nos últimos dias os jornais e as televisões repetiram exaustivamente que, entre 2009 e 2011, oito gestores da INCM - Imprensa Nacional Casa da Moeda gastaram cerca de 27 mil euros em despesas pessoais, utilizando cartões de crédito da empresa. Alguns desses jornais ficaram muito impressionados e escreveram que os “gestores gastaram balúrdio”. O Tribunal de Contas tinha detectado o uso indevido dos cartões de crédito e decidiu que esse dinheiro fosse devolvido, o que já terá sido feito na totalidade. E, aparentemente, ficou tudo certo. Não foi abuso de confiança, nem desonestidade. Foi, simplesmente, uma distracção. Devolve-se e pronto!
Casos como este que ocorreu com os gestores da INCM são, como todos sabemos, muito frequentes e bom seria que o Tribunal de Contas estivesse mais atento ao que se passa nos ministérios, nos organismos e serviços da administração central, nas autarquias e nas empresas públicas. O abuso nas chamadas despesas e no uso do cartão de crédito vulgarizou-se e tem uma dimensão que excede largamente o que se passou na INCM. Uma pequena parte das gorduras do Estado está encoberta pelo despesismo pessoal devido ao uso do cartão de crédito e há que acabar com isso para moralizar a nossa vida pública. Precisamos de bons exemplos.
De vez em quando, chegam-nos algumas notícias que são apenas a ponta de um iceberg que pode ser gigantesco. Quem não se lembra dos abusos dos deputados turistas, dos gestores da Gebalis, do uso indevido de telefones, dos almoços, das viagens, dos hotéis e eu sei lá que mais.  A invenção do dinheiro de plástico (e a correspondente criação de moeda) é uma das causas da crise geral por que passamos e também tem sido um veículo de inqualificáveis abusos praticados por muitos dos que usam esse cartão e que, dessa forma, têm tirado proveito ilícito e lesado impunemente o Estado e o contribuinte.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Relvas está em festa!

O mês de Agosto é um mês de festas e romarias, apesar do calor ser por vezes excessivo e nos suscitar um forte apelo para que procuremos o mar. Poucas cidades, vilas e até aldeias resistem a organizar as suas festas, umas vezes de cariz religioso, outras de cariz profano, mas sempre com presença musical, comes-e-bebes e um acentuado cunho popular. Antigamente a componente musical centrava-se nas actuações das bandas filarmónicas a tocar nos coretos, mas nos tempos modernos essa vertente passa pela apresentação de concertos com outros estilos e outros ritmos musicais mais modernos, incluindo alguns cantores mais ou menos conhecidos do público.
Hoje começam as festas em Relvas, uma localidade da freguesia de Santa Catarina, no concelho das Caldas da Rainha. O nome da terra nada tem a ver com o mais famoso ministro que temos, nem com a sua meteórica actividade académica. Honni soit qui mal y pense!
A partir de hoje Relvas está em festa e vai receber a actuação de alguns dos mais conhecidos grupos musicais do Oeste como a Chaparral Band de Torres Vedras, o Bico d’Obra das Caldas da Rainha ou Os Lord’s de Atouguia da Baleia. Há quem goste. Vão ser cinco dias com muita música e muita luz, com cantores e bailarinas, com muito entusiasmo e muita cerveja. Relvas vai animar-se!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os gestores que alternam

A edição de hoje do jornal de Negócios, tendo por base o relatório de governação de sociedades publicado pela CMVM, relativo ao ano de 2010, informa que “250 gestores têm 4.100 cargos de administração”, isto é, em média cada um destes 250 super-gestores administra mais de 16 empresas. Esta realidade sugere de imediato uma pergunta: será possível ser bom gestor quando se acumulam cargos em 16 empresas?
O caso mais significativo passa-se com Miguel Pais do Amaral, que gere 73 empresas, mas se se incluirem as empresas que gere no estrangeiro, são mais de cem. Porém, segundo declarou, é accionista de todas as empresas em que é administrador e, nesse caso, a eventual ineficiência da sua gestão prejudica-o directamente.
O referido relatório também informava que havia 17 gestores que acumulavam mais de trinta cargos de gestão, nem sempre no mesmo grupo empresarial ou no mesmo sector de actividade. É gente que nada em todas as águas, como os tubarões. A maioria nem são gestores profissionais e muitos são advogados e ex-políticos, o que parece denunciar conflito de interesses e ambição pessoal sem limites. Alguns deles mantêm uma intervenção politico-partidária activa, mas discreta. Estão com um pé em cada lado, como convém. Alternam. Fazem gestão de alterne. Naturalmente, tornaram-se ricos e, consequentemente, tornaram-se muito poderosos e influentes. O jornal de Negócios identifica alguns: o advogado Proença de Carvalho que exerce funções de gestão em 31 sociedades, o socialista Fernando Gomes que tem 29 cargos como administrador e o emproado Nogeira Leite que ocupa 25 cargos de gestão, embora haja também os Rebelos de Sousa, os Lobos Xavier e outras sumidades. São alguns dos nossos super-gestores e, navegando entre empresas e interesses, fazem gestão de alterne.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Michael Phelps: "the greatest Olympian"

O nadador americano Michael Phelps cometeu ontem um feito desportivo extraordinário ao conquistar a sua 19ª medalha olímpica (quinze de ouro, duas de prata e duas de bronze) e ao ultrapassar a performance olímpica da ex-ginasta soviética Larisa Latynina que, em 1956, 1960 e 1964 tinha conquistado 18 medalhas (nove de ouro, cinco de prata e quatro de bronze). Com este único e invejável registo, Michael Phelps pode ser considerado “o maior atleta da história do desporto olímpico” e coloca-se num pedestal acima daquele em que se têm situado alguns dos nomes mais lendários do olimpismo moderno, como Jesse Owens, Emil Zatopek, Bob Beamon, Mark Spitz, Nadia Comaneci, Carl Lewis ou Sergei Bubka.
Agora a estrela olímpica passou a ser Michael Phelps: em 2004 conquistou 6 medalhas de ouro e 2 medalhas de bronze em Atenas e, em 2008, ganhou 8 medalhas de ouro em Pequim. Em Londres conquistou a sua 17ª medalha na estafeta de 4x100 metros livres (medalha de prata), depois a 18.ª medalha foi ganha nos 200 metros mariposa (medalha de prata) e a ambicionada 19ª medalha foi conquistada na estafeta de 4x200 metros livres (medalha de ouro). Michael Phelps é considerado um desportista predestinado e, em boa verdade, ele é um atleta do outro mundo a quem o jornal britânico The Guardian chamou "the greatest Olympian". Além de tudo isto, acontece que Phelps ainda vai voltar a competir...

terça-feira, 31 de julho de 2012

A overdose do Gaspar

Desde o ano de 1987, quando Portugal foi admitido na Comunidade Económica Europeia, que o deslumbramento e as facilidades tomaram conta dos portugueses e dos seus dirigentes. De repente, o país passou a aspirar à prosperidade europeia e Bruxelas tornou-se o destino prioritário dos nossos governantes, autarcas, assessores, técnicos e dirigentes muito diversos. Todos - o Estado, as Empresas e as Famílias - passaram a gastar demasiado em coisas não essenciais ou desnecessárias, com fundos próprios e com fundos comunitários, mas quase sempre com um excessivo endividamento. O Estado deixou-se engordar para satisfazer clientelas partidárias e cometeu exageros que são visíveis pelo país em infra-estruturas por vezes sumptuosas. Directa ou indirectamente, o subsídio passou a fazer parte da vida de muita gente. Os bancos perderam a cabeça e emprestaram o que tinham e o que não tinham. O apelo ao consumo e o crédito barato entusiasmaram os mais desatentos. Foram mais de vinte anos de euforia e de cegueira, até que os ventos da crise chegaram a Portugal, mostrando que os cofres estavam vazios, os credores à porta e que o país estava doente.
Quando alguém está doente, deve-lhe ser administrada a medicamentação adequada e proporcionada, nos exactos termos prescritos pelo médico. Nem mais, nem menos. Ao fim de um ano temos verificado como o monocórdico Gaspar – aquele valentão que ataca os fracos e se agacha com os fortes - com o pretexto de querer corrigir o défice público e reformar o Estado, mas sobretudo em obediência à troika, tem aplicado uma receita ao país que é uma verdadeira overdose. Ora, a realidade é que as overdoses enfraquecem os doentes e o resultado da overdose do Gaspar aí está: a emigração a aumentar, o desemprego a atingir os 15.4%, a pobreza a agravar-se, o pequeno comércio a fechar as portas, o interior a desertificar-se, a esperança a perder-se e a coesão social a fragmentar-se. Até o FMI e a OCDE acham que se tem ido longe demais.

Não esqueçamos os burlões do BPN

O Jornal de Negócios noticiou ontem que a maior burla de sempre na banca do Irão foi julgada por um tribunal que ditou a condenação à morte de quatro pessoas, a prisão perpétua para mais duas e várias condenações com penas de prisão até 25 anos, por envolvimento numa fraude de 2,6 mil milhões de dólares (2,1 mil milhões de euros). A fraude foi conhecida em Setembro do ano passado, a justiça funcionou e em poucos meses ditou a sua sentença. Nos Estados Unidos também se têm verificado condenações por infracções bancárias e a mais simbólica foi a de Bernard Madoff, o autor de uma fraude de 65 mil milhões de dólares (cerca de 45 mil milhões de euros), que já está a cumprir uma pena de 150 anos de prisão.
A ganância financeira e as práticas fraudulentas que lhe estão associadas, também existem na Europa, um pouco por toda a parte, estando ultimamente em destaque o que se passa nas bancas espanhola e inglesa. As notícias de falências, fraudes, burlas, lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito de gestores são frequentes, embora as notícias relativas à criminalização dos seus responsáveis sejam mais raras.
Portugal não está à margem dessa realidade. Porém, havendo quem avalie a fraude do BPN - a fraude do século - em quase 10 mil milhões de euros, parece que a punição dos responsáveis tende a ser esquecida. Já são passados muitos meses e eles continuam a passear-se e, despudoradamente, a exibir os frutos da sua vigarice e das suas burlas. Tornaram-se ricos e poderosos, mas não passam de uns burlões encartados. Todos sabem quem são e por onde andam. Alguns continuam encostados à política e até estão bem colocados no Estado e fora dele, como se nada se tivesse passado.
A justiça não acelera o seu trabalho e a imprensa parece ter-se esquecido do “maior escândalo financeiro da história de Portugal” mas, em nome da nossa dignidade, não podemos esquecer os burlões do BPN.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Nunca se deitam foguetes antes da festa

Esta manhã o jornal i ilustrava a sua primeira página com a fotografia da judoca Telma Monteiro, que foi a porta-bandeira da delegação portuguesa no desfile inaugural dos Jogos Olímpicos, anunciando:
Hoje é dia da primeira medalha portuguesa.
Esse título não significava um desejo, mas apenas aquilo a que vulgarmente se chama “deitar foguetes antes da festa”. Outros jornais limitaram-se a salientar que hoje era o dia de Telma Monteiro e de João Pina, insinuando que os seus currículos desportivos justificavam as melhores expectativas para as provas que os dois judocas disputavam hoje.
Porém, ainda não era meio-dia e, para nossa desolação, já ambos tinham sido eliminados, logo no seu primeiro combate. Para quem, durante anos a fio, se dedicou intensamente ao treino, se privou de uma vida normal e alimentou tão intensos sonhos desportivos, este resultado também foi desolador. No entanto, a incerteza quanto ao resultado final é uma das características da competição desportiva e nem sempre ganham os melhores. Os adeptos do desporto têm que estar preparados para essa dolorosa realidade. Que os outros também são bons. Que nós talvez não sejamos tão bons como nos fazem crer. E, sobretudo, que nunca se devem deitar foguetes antes da festa. Os jornais não podem ser vendedores de ilusões. Nem podem exercer esta irresponsável pressão sobre os atletas. Telma Monteiro e João Pina perderam. Paciência. Ganhar ou perder, é a essência do desporto. Melhores dias virão.

sábado, 28 de julho de 2012

Gente famosa: ousadias & atrevimentos


Segundo ela própria anuncia, a revista GQ foi eleita a melhor revista masculina do ano. Nem a Playboy, nem a Penthouse, nem a Maxim. A audiência masculina prefere a GQ!
Embora eu não seja leitor dessa revista, suponho que uma das razões da apetência masculina por esta revista são as suas capas ousadas, com esbeltas jovens despidas e em poses sugestivas, que procuram notoriedade e popularidade a troco de um qualquer cachet. Aparecer na capa de uma revista, seja cor de rosa ou de outra natureza, é certamente um dos melhores caminhos para se ter acesso à profissão de modelo, para uma eventual entrada no mundo do cinema ou, de uma forma mais geral, para se tornar naquilo a que a prensa amarilla convencionou chamar famoso.
Porém, na edição de Julho/Agosto não foi uma jovem à procura de fama que aceitou aliviar-se da roupa para, como se diz na gíria, fazer capa da revista. Bárbara Guimarães é uma popular profissional do entertainment televisivo, mas terá aceite este ousado papel, ou porque ainda ambiciona mais fama do que a que já tem ou porque precisava do dinheiro do cachet, porque os tempos estão nublados e a vida está realmente muito difícil. Porém, a motivação parece ter sido outra, como revelou numa entrevista alusiva aos seus vinte anos de carreira e à sua natureza sedutora. Foi apenas ousadia e atrevimento. A mulher do ex-ministro Carrilho disse: “Sou atrevida por natureza. O meu marido adora, não acha mal nenhum”. Ficamos todos descansados por saber que não é uma questão de fama, nem de dinheiro. É apenas um atrevimento dela, que ele adora. Assim, sim. Não é barbaridade nenhuma!



Londres foi o centro do mundo

Ontem à noite Londres foi o centro do mundo, durante a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos mas, provavelmente, durante duas semanas, a cidade vai continuar a estar no centro das atenções mundiais devido às esperadas proezas atléticas.
O espectáculo ontem oferecido a muitos milhões de telespectadores foi grandioso e deslumbrante de imaginação, de tecnologia, de luz e de simbolismo, conseguindo mostrar algumas das facetas mais marcantes da história da Grã-Bretanha, desde os primórdios da sua vida rural até à criação do seu famoso Serviço Nacional de Saúde (NHS), passando naturalmente pela revolução industrial. A imprensa mundial e os jornais britânicos não se pouparam em elogios à noite gloriosa e de maravilha.
A cerimónia foi marcada por diversos momentos de grande espectacularidade, como a breve viagem que levou a rainha Isabel II e o agente secreto James Bond a percorrerem Londres de helicóptero e, depois, a saltarem de paraquedas sobre o estádio, que é uma ideia verdadeiramente genial e que ultrapassa muitas convenções que pudéssemos imaginar. Só a ficção do cinema permite esses efeitos. Porém, alguns dos mais conhecidos ícones britânicos contemporâneos que todo mundo conhece e admira, passaram pelo estádio. Houve o humor de Mr. Bean. A fantasia de Mary Poppins e de Harry Potter. A evocação dos Beatles e a música de Paul McCartney. Como se a Grã-Bretanha quisesse mostrar que Londres ainda é o centro ou um dos centros do mundo.
Depois houve o desfile das delegações olímpicas, os discursos apropriados e o acender da chama olímpica, que também foi um espectáculo dentro do espectáculo. Agora, os amantes do desporto vão ter duas semanas de grande interesse televisivo.

terça-feira, 24 de julho de 2012

A crise espanhola e a lusa hipocrisia

A edição de hoje do jornal madrileno La Gaceta traduz a inquietação que atravessa a Espanha, um país “pasto de las llamas”, mas também um país acossado pelos especuladores financeiros que pressionam os juros da dívida e reclamam um resgate, enquanto  a banca e várias comunidades autónomas se vergam ao peso dos credores. A situação é de tal forma complexa que o referido jornal, em vésperas dos Jogos Olímpicos, se refere ao desporto como “a única esperança de Espanha”. Neste inquietante quadro, a entrevista de Felipe González ao jornal El Pais, publicada na edição de 23 de Julho, é um discurso realista ao reconhecer que “a Espanha está a pagar por dez anos de erros baseados numa enorme bolha imobiliária” e ao considerar que Mariano Rajoy tem a obrigação de mobilizar um grande acordo nacional ou de regime para sair da crise. Segundo salientou, os erros resultaram de decisões políticas adoptadas depois de 1998 por José María Aznar, Rodrigo Rato e Mariano Rajoy, que não foram corrigidos pelo governo de Zapatero, que se limitou a “atirar mais gasolina para a fogueira”.
Aqui no rectângulo a evolução não foi muito diferente, mas a nossa hipocrisia cala-se perante os erros do passado, cometidos por sucessivos governos, a começar naturalmente por aquele que foi presidido pelo actual Presidente da República. Passamos pelo pântano e ficamos de tanga. Esquecemos tudo isso. Ávidos de poder e de tacho, os catrogas, os relvas, os borges, os moedas e os nogeiras atiraram-se ao pinto de sousa e imaginaram que o problema estava nas gorduras do Estado e no excesso de institutos públicos. Enganaram-se. Por ignorância ou por má-fé. Não foram competentes, nem responsáveis. Os sinais de ruina do nosso país e uma boa parte do nosso empobrecimento pertencem-lhes.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Tour de France: o triunfo de Wiggins


Terminou ontem em Paris o Tour de France que nesta sua 99ª edição foi ganho, pela primeira vez na sua história iniciada em 1903, por um ciclista inglês – Bradley Wiggins. A imprensa inglesa embandeirou, até porque o êxito aconteceu do outro lado do Canal e a histórica rivalidade com os franceses é tão intensa hoje, como foi nos tempos de Nelson e de Napoleão.
O Tour é uma das mais prestigiadas competições desportivas do mundo e é uma grande festa para os franceses, sendo disputada sempre no mês de Julho, ao longo de cerca de três milhares de quilómetros de estradas que atravessam o território francês e, por vezes, alguns dos países limítrofes. As passagens pelas montanhosas regiões dos Alpes e dos Pirinéus representam as maiores dificuldades para as quase duas centenas de ciclistas que habitualmente tomam parte na corrida.
Este ano, o inglês Bradley Wiggins fez história ao vencer de uma forma indiscutível, embora tivesse o apoio da mais competitiva equipa presente na prova, na qual participaram dois ciclistas portugueses: Rui Costa (18º) e Sérgio Paulinho (50º). Assim, a melhor prestação portuguesa no Tour continua a pertencer a Joaquim Agostinho que, nas corridas de 1978 e 1979, se classificou no 3º lugar.
Pudemos acompanhar o Tour de France, através das transmissões da RTP Informação. Para além das espectaculares imagens que nos chegaram a casa e que nos permitiram saber o andamento da prova passo a passo, também a qualidade do comentário do antigo ciclista Marco Chagas foi de alta qualidade e a lembrar quão incompetentes são a maioria dos comentadores desportivos das nossas televisões.

domingo, 22 de julho de 2012

Austeridade e crise como oportunidades…

A política de austeridade que tem sido seguida em Portugal está a afectar seriamente as nossas estruturas sociais e a transformar a vida das pessoas, criando-lhe dificuldades inesperadas. As medidas fiscais que têm sido adoptadas, o desemprego, a perda de rendimentos do trabalho, a generalizada subida dos preços de bens essenciais e a recessão económica, têm dado origem a um preocupante empobrecimento das famílias. À crise orçamental, juntaram-se a crise financeira, a crise económica e, agora, a crise social. A situação já pode ser classificada como grave. Ao percorrermos as ruas das nossas cidades e vilas, somos confrontados com o desolador retrato de uma crise profunda para a qual não vemos saída no curto prazo, com inúmeras casas comerciais encerradas e abandonadas, enquanto outras procuram resistir ao estertor que as ameaça, através de saldos, promoções e outras formas de atracção da clientela. Se as grandes superfícies já tinham provocado a inviabilização do pequeno comércio, a actual crise parece acelerar o seu fim e aprofundar irremediavelmente esse modelo de negócio.
Porém, no meio desta preocupante situação de austeridade e crise social, há quem não fique de braços caídos e recorra a todos os dotes de imaginação e de iniciativa para obter rendimentos. Seguem, provavelmente, a famosa declaração do nosso primeiro, quando afirmou que a crise deve ser encarada como uma oportunidade para mudar de vida. Será que os “preços do arco-da-velha” e os croquetes a 13 cêntimos, certamente com 23% de IVA incluído, que se anunciam nas proximidades de Santarém, são a concretização de uma oportunidade para mudar de vida?

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tempos de muita incerteza na Síria

Um atentado suicida ocorrido ontem em Damasco atingiu o comando operacional do regime sírio, causando a morte de alguns dos seus principais dirigentes na área da segurança. No atentado terão morrido o ministro da Defesa, o seu vice-ministro que era cunhado de Bashar al-Assad e o chefe do grupo de gestão da crise e ex-ministro da Defesa. Os confrontos dos últimos dias na capital síria e este atentado representam uma escalada da violência que é muito preocupante e parecem mostrar que as tentativas desenvolvidas por Kofi Annan para encontrar uma solução negociada para o conflito têm sido infrutíferas. 
O Conselho de Segurança das Nações Unidas tem procurado a aprovação de algumas resoluções visando uma solução para o conflito, mas a Rússia e a China têm vetado essas propostas, até porque terão aprendido com a crise líbia e desconfiam da retórica humanitária ocidental que, segundo dizem, não passa de "camuflagem para a troca de regimes" e para o reforço da sua influência nesses países. A Rússia é uma velha aliada do regime sírio e, na actual conjuntura em que está ressurgir como potência mundial, não quer perder o seu aliado sírio para a esfera de influência dos Estados Unidos. Nessas condições, o apoio ao regime de Bashar al-Assad tem sido vital na estratégia russa para o Médio Oriente e, por isso, até parece que voltamos ao tempo da Guerra Fria e do confronto indirecto. Contudo, no problema sírio também entram outras variáveis que nos dificultam a compreensão da preocupante situação: a dureza da ditadura de Bashar al-Assad, as complexas rivalidades entre sunitas e xiitas, as sensíveis fronteiras com o Líbano, Israel e o Iraque, além da aliança com o Irão. São tempos de muita incerteza. 


quarta-feira, 18 de julho de 2012

A banca inglesa é corrupta. E por cá?

Durante anos a fio, habituamo-nos a considerar a banca e o sistema financeiro ingleses como verdadeiros referenciais de seriedade e credibilidade, que todo o mundo respeitava. Os homens e as instituições da City eram um farol orientador do sistema bancário e da finança à escala global. Porém, nos últimos anos as coisas evoluíram e, para além de ter sido contagiada pela gananciosa banca americana, a banca inglesa entrou numa crise endógena, muitas vezes associada a práticas fraudulentas. O resultado foi desastroso e o Estado decidiu capitalizar alguns bancos para suster a crise, mas sucedem-se os escândalos e as trafulhices com contornos criminais.
A propósito do escândalo do Barclays Bank e da manipulação das taxas de juro dos empréstimos interbancários, o jornal The Independent de 3 de Julho titulava: “Will we see City bankers behind bars?”. Alguns dias depois foi a revista The Economist que, a propósito do mesmo assunto, utilizou na sua primeira página a palavra “Banksters”. Hoje é o Daily Mail que, lembrando que o HSBC é o maior banco britânico e mundial, noticia em primeira página: “HSBC let drug gangs launder billions”. A revista Time também hoje titula que “Barclays is just the beginning”. As coisas coincidem num ponto: a fraude e a desonestidade tomaram a banca inglesa de assalto e são altamente responsáveis pela crise financeira mundial. No entanto, tanto quanto parece, as autoridades inglesas decidiram actuar. Aqui, no rectângulo, temos tido problemas bancários de diversa natureza, que terão sido muito graves, sobretudo no BPN. A inacção do BdP e da sua governação ajudou ao escandaloso descalabro que já nos custou alguns milhares de milhões de euros. E o que aconteceu? Nada! Ninguém foi responsabilizado e, pelo contrário, muita dessa gente foi premiada, com reformas milionárias ou com lugares no BCE, na CGD, no Estado e sabemos lá onde mais. Uma vergonha!