segunda-feira, 18 de novembro de 2013

José Barroso ou o regresso do cherne

A última edição do semanário Sol informa que Durão Barroso, o cidadão português que desde 2004 preside à Comissão Europeia, prepara o seu regresso a casa e que “optará entre uma candidatura a Belém e uma nova saída para outro cargo internacional”. Em tempos ainda se pensava que se poderia recandidatar para mais um mandato, mas essa ideia foi ultrapassada pelo próprio, ao reconhecer a forma pouco brilhante como exerceu um cargo em que sempre se deixou entalar pelo eixo franco-alemão. O homem teve alguma lucidez e, recentemente, até afirmou: “Dez anos já chega. Dez anos é muito tempo”. Tem toda a razão.
José Barroso vai, portanto, regressar à nossa terra, onde será sempre lembrado por ter lambido as botas a George Bush na cimeira das Lajes de 16 de Março de 2003, associando o nome de Portugal à mentira das armas de destruição maciça e à invasão do Iraque, que se iniciou quatro dias depois. O futuro ex-comissário Barroso será lembrado, também, por ter estado em Bruxelas a servir os interesses dos grandes grupos e dos grandes especuladores financeiros, por ter pactuado com as políticas de austeridade, por ter aprofundado uma crise económica e social que tem afundado a Europa e por ter apoiado as políticas que tanto têm humilhado a Europa do Sul. Ele é um dos homens poderosos da troika de má memória, que tanto nos tem tramado.
Vai voltar e vem rico. Ainda bem para ele. Eu sugiro que se reforme, que descanse e que abdique de receber pensões em Portugal. Se desejar estar activo e quiser um cargo internacional não vai ter problemas, porque os seus amigos rapidamente lhe arranjarão um. Dos bons. O cherne está de volta, mas ao contrário do que escreveu Alexandre O’Neill, não sigamos o cherne!

sábado, 16 de novembro de 2013

A Espanha e a coragem de dizer NÃO!

Na sua edição de hoje o diário El País destaca em primeira página que Bruxelas exige que a Espanha proceda a cortes adicionais de 35 mil milhões de euros nos seus próximos orçamentos, mas o governo responde que não são necessários. Assim, para 2014 o corte recomendado ou sugerido pela Comissão Europeia oscila entre mil e cinco mil milhões de euros, enquanto para 2015 e 2016 os cortes recomendados rondam os 35 mil milhões de euros. Estes cortes visam prevenir o risco de incumprimento do défice público espanhol que, segundo o vice-presidente Olli Rehn, foi de 10,6% em 2012, será este ano de 6,8% e baixará para 5,9% em 2014. Esta preocupação de Bruxelas com o défice público dos países está relacionada com o desejável equilíbrio entre as autonomias orçamentais de cada um deles e a estabilidade da moeda única, um problema que está afectar a Espanha, mas também a Itália, a Finlândia e Malta.
Estas recomendações (ou ameaças) acontecem porque a Comissão Europeia criou um mecanismo de controlo prévio dos orçamentos nacionais para analisar as propostas orçamentais dos vários países antes da sua aprovação pelos parlamentos nacionais o que, para muitos observadores, é uma revolução e uma intromissão na vida soberana dos Estados-membros. Porém, o governo espanhol reagiu a essa ameaça e sustenta que não é necessário nenhuma alteração ao que está planeado, reafirmando que está comprometido com o objectivo do défice público, pelo que rejeita as recomendações da Comissão. É a coragem de dizer "não" aos burocratas de Bruxelas, o que aqui nunca fazemos, como algumas vezes temos visto em directo pela televisão.

O controlo de gestão previne o abuso

O Jornal de Notícias revelou hoje um caso insólito relativamente a um funcionário da Segurança Social de Lisboa que provocou um prejuízo de mais de 500 mil euros ao Estado. De acordo com a notícia, durante cerca de um ano o referido funcionário efectuou milhares de telefonemas para linhas de valor acrescentado através do telefone fixo do serviço em que trabalhava e lhe estava atribuído. A maioria das chamadas terá sido feita para linhas que dão acesso a sorteio de prémios em dinheiro e outros bens.
Este caso, que não é invulgar, só acontece quando a gestão é incompetente. De facto, estes casos de utilização de bens públicos para fins privados, podem acontecer devido a comportamentos abusivos e são potenciadas em situações em que existem muitas linhas telefónicas e muitos utilizadores, mas também em relação a muitos outros bens, desde o uso de viaturas até ao uso de fotocopiadoras. Para prevenir essas situações, existe o controlo de gestão, isto é, os responsáveis pela gestão têm que analisar regularmente a estrutura de custos da sua organização, ou os respectivos balancetes mensais, para detectar as rubricas que revelem ou possam vir a revelar situações anómalas ou desvios orçamentais. Não é um caso de perseguição pidesca de funcionários, mas um simples caso de prevenção e defesa do erário público. Por isso, no caso reportado pelo Jornal de Notícias não podemos deixar de também apontar o dedo aos responsáveis pela gestão que, por incompetência ou omissão, não viram e deixaram que durante um ano acontecesse o que aconteceu.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O caso Prestige: um crime sem castigo

No dia 13 de Novembro de 2002, durante uma tempestade ao largo da costa da Galiza, abriu-se um dos tanques do navio petroleiro Prestige devido a problemas de corrosão, de que resultou o derrame de cerca de cinco milhares de toneladas de fuel-oil. As autoridades espanholas não terão avaliado correctamente o problema e decidiram que o navio fosse rebocado para longe da costa espanhola. Porém, na manhã do dia 19, o navio partiu-se em dois e verteu 22 mil toneladas de fuel numa profundidade de cerca de quatro mil metros, tendo o resto da carga de 50 mil toneladas de combustível pesado sido derramado e contaminado milhares de quilómetros da costa do litoral espanhol, mas também francês e português. A tragédia emocionou o mundo e provocou uma mobilização de mais de 300 mil voluntários, vindos de toda Europa que participaram nas operações de limpeza das praias e das rochas empestadas pela maré negra nas costas da Galiza. Foi uma catástrofe ambiental de enormes proporções, tendo havido grandes prejuízos para a pesca artesanal e para a aquacultura galegas, para além de terem sido afectadas 25 reservas protegidas e morrido muitas dezenas de milhar de aves. Em termos financeiros, foi calculado um prejuízo de quatro mil milhões de euros.
Dez anos depois começou o julgamento para se saber quem foi o responsável pela maré negra provocada pelo naufrágio do Prestige: o armador que tinha um navio liberiano com pavilhão das Bahamas sem as condições de segurança apropriadas, ou o comandante grego que não resguardou o navio da tormenta ou as autoridades espanholas que exigiram que o navio se afastasse da costa quando o deveriam ter socorrido imediatamente para evitar que naufragasse e derramasse a sua carga. As investigaçőes judiciais e o julgamento realizado na Corunha que agora terminou, não chegaram a apurar um responsável directo por este acidente, pelo que foram ilibados todos os que estavam acusados pela maior catástrofe ambiental acontecida em Espanha. Naturalmente, houve reacções de protesto em Espanha e até mesmo em França.

Um crescimento económico muito ilusório

Foi uma boa notícia em que se anuncia que no 3º trimestre do ano o produto cresceu 0,2% e que, em dois trimestres consecutivos, a economia nacional tivera crescimento e saíra da recessão. Este crescimento do produto junta-se à diminuição da taxa de desemprego, ao aumento do índice de produção industrial, à descida das taxas de juro da dívida soberana e à continuação do crescimento das exportações, para fundamentar esperanças em dias melhores. Foi, portanto, uma notícia animadora mas que não justifica alguns discursos de euforia que já foram produzidos pelas cassettes do costume. Como referiu uma antiga ministra das Finanças, tínhamos 40 graus de febre e agora passamos a ter 39.8 graus, ou seja, não saimos da crise e continuamos doentes. A análise deste crescimento da economia há-de mostrar que estes resultados se devem ao aumento das exportações e, em especial, ao bom comportamento do turismo, mas também a alguma recuperação da procura interna. Por isso, estamos sob o efeito de uma sazonalidade positiva, mas o que aí vem é muito preocupante. O investimento continua sem recuperar e a nova onda de austeridade e de cortes no rendimento disponível das famílias que está anunciada para o próximo ano, é muito severa. A oposição não foi escutada e até os deputados do maior partido da maioria que ainda quiseram que fossem aplicadas taxas sobre as PPP e sobre alguns sectores como as telecomunicações e a grande distribuição para atenuar os efeitos económicos recessivos, não foram ouvidos. Se houvesse dúvidas quanto à forma como os nossos governantes se deixam humilhar e obedecem aos diktats e à cegueira da troika, ficaram desfeitas nas últimas horas. Por tudo isso, um crescimento de 0,2% do PIB não passa de uma ilusão. Infelizmente.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Um mercado da arte que surpreende

A leiloeira Christie’s vendeu em Nova Iorque, após cerca de seis minutos de intensa licitação, ou “feroz licitação” como se lhe referiu a BBC, um tríptico do pintor britânico Francis Bacon que foi arrematado por 142,4 milhões de dólares (106 milhões de euros), transformando-se na obra de arte mais cara do mundo. O preço pago pela obra intitulada "Três estudos de Lucian Freud" supera o preço pago pelo quadro "O Grito", do artista norueguês Edvard Munch, que atingiu 119,9 milhões de dólares (89,1 milhões de euros), num leilão organizado pela Sotheby’s em Maio de 2012. Como é habitual nestes casos, o nome do comprador permanece em segredo. Este leilão constituiu um caso surpreendente de dinamismo do mercado internacional da arte e, por isso, diversos jornais espanhóis e franceses destacaram essa notícia.
Apesar da crise mundial, o mercado da arte continua a revelar-se muito atractivo para os coleccionadores e para os investidores, sobretudo em relação à arte do século XX que tem dominado o mercado e registado os preços mais elevados, designadamente nos domínios do impressionismo, da arte moderna e da arte do período pós-guerra. No que respeita aos compradores, que até há pouco tempo eram americanos e europeus, o mercado regista agora a chegada de chineses, russos e indianos, o que também tem contribuido para o seu dinamismo. Assim, calcula-se que o mercado internacional da arte movimente anualmente cerca de 43 mil milhões de euros, o que representa cerca de 25% do PIB português. Por cá, embora tenhamos uma escala completamente diferente e haver quem se esteja a "desfazer dos anéis", o mercado da arte está como o resto, isto é, sem andamento que se veja.

Haja quem mande calar o Barroso e o FMI

Na sua imensa sabedoria o povo diz que “quem muito se abaixa mostra o rabo” e na realidade, muito do que de catastrófico nos está a ser imposto resulta de uma excessiva passividade das nossas autoridades face às exigências dos credores, dos alemães e da troika. As recentes palavras de Barroso e os recados do FMI vão nesse sentido e demonstram o nível de submissão a que nos deixamos chegar. Ouvimos e calamos. Sem reacção. Com cobardia. Ao fim de 30 meses de austeridade e de acentuada degradação da situação económica e social, está à vista o monumental falhanço das políticas impostas pela troika que servilmente têm sido por cá adoptadas, ao mesmo tempo que se acentua a pressão com que nos humilham e que fere a nossa dignidade nacional. Nem a Espanha, nem a Itália, nem a Grécia ou a Irlanda, alguma vez aceitaram este tipo de humilhante relação que nos envergonha e que os nossos dirigentes aceitam sem pestanejar. As contínuas pressões de Merkel, Lagarde ou de Barroso são inaceitáveis e são intromissões intoleráveis na nossa soberania, mesmo que esta esteja diminuida. É preciso dizer-lhes para se calarem. Que queremos ser respeitados no quadro do projecto de solidariedade europeia. A nossa história tem altos e baixos, mas poucas vezes foi tão maltratada. É preciso ser muito claro: o Primeiro-Ministro e o Presidente da República são os maiores responsáveis pela humilhante situação por que passamos, ao alinharem na política do bom aluno que aplica uma austeridade desproporcionada e que, em vez de protegerem os portugueses como é seu dever em resultado do voto que receberam, têm contribuido para o empobrecimento do nosso país, para a destruição do tecido económico, para a degradação da vida social e para a destruição da esperança em dias melhores. Já lá vão 30 meses desde que nos disseram que nada disto nos aconteceria. Vejam o que sucedeu e tomem as devidas consequências. A bem da Nação.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Veterans Day 2013

Ontem, dia 11 de Novembro, comemorou-se em todo o território dos Estados Unidos o Dia dos Veteranos de Guerra ou Veterans Day, um feriado nacional em que se homenageiam aqueles que serviram nas Forças Armadas Americanas. É um grande dia de exaltação patriótica e de unidade para os americanos. Por isso, todos os jornais que se publicaram hoje no país, dedicaram alargadas reportagens às comemorações e quase todos com destaques de primeira página e muitas fotografias alusivas ao acontecimento. O Veterans Day começou a ser celebrado nos Estados Unidos em 1947 e com as suas paradas, discursos, romagens e sessões solenes, enquadradas por marchas militares, bandeiras, uniformes e medalhas, faz parte da cultura dominante da América.
Aqui em Portugal não temos essa tradição por razões diversas e complexas, apesar de termos provavelmente mais de um milhão de antigos combatentes e de já ter havido algumas tentativas para haver um dia que lhes fosse dedicado e em que os portugueses os pudessem homenagear, mas essa iniciativa ainda não faz parte da cultura dominante portuguesa. Assim, já que não temos o nosso Veterans Day e que não há condições para homenagear aqueles que serviram as Forças Armadas, que ao menos houvesse algum respeito por elas. Não é isso que faz o governo e a sua rapaziada, em especial, o ministro branco que, ignorante dessas coisas militares e arrogante por natureza, as afronta repetidamente com um autoritarismo serôdio, para além de desconhecer os seus valores, a sua ética e a sua dignidade. É uma triste personagem que não tem estatuto intelectual nem político para dirigir as nossas Forças Armadas que, no quadro da NATO, são com toda a justiça respeitadas pela sua competência.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O rei vai nu

Ao fim de cerca de 30 meses de governação, começa a ser altura de dizer que o rei vai nu e que, no nosso país, tudo ou quase tudo está muito pior do que estava em Maio de 2011, porque o desemprego aumentou, o défice não diminuiu, a dívida agravou-se, as famílias empobreceram, os jovens estão a emigrar, o pequeno comércio faliu e não há investimento. Vivemos bem pior, embora o número de multimilionários tenha aumentado mais de 10% num só ano, mas isso nem sequer envergonha quem nos governa. Os nossos governantes – o “bando de meninos”, como lhes chamou António Lobo Antunes – deixaram-se humilhar pelos diktats da troika, levados pela sua impreparação, incompetência, ignorância, deslumbramento, irresponsabilidade e fanatismo ideológico. Isso tem sido a nossa desgraça, que o novo-riquismo de Barroso e Constâncio, que são a projecção internacional deste tipo de gente, tanto têm apoiado. O ataque ao Estado social é permanente e a nossa sociedade está decadente e vive amedrontada, pois não se vê uma estratégia nem um rumo para sair deste atoleiro. Eles não previram a recessão, nem são capazes de sair dela. Em vez de atacarem as causas do excesso da despesa que são as PPP, os juros especulativos que nos impõem, as rendas excessivas do sector da energia ou a proliferação de institutos públicos e empresas municipais, atiram-se aos pensionistas e aos funcionários públicos, com medidas socialmente inaceitáveis. Não toleram o Tribunal Constitucional nem quem lhes modere os apetites. Mentem descaradamente e têm medo de andar na rua. Esperava-se que os nossos eleitos defendessem os portugueses, mas revelam uma insensibilidade gritante e ofendem os seus legítimos direitos. Estão ao lado dos especuladores e não são capazes de mobilizar o país. E, no meio desta quase tragédia que tem sido esta governação Passos-Portas ou Portas-Passos, ainda há quem diga que “vamos no bom caminho”, ao mesmo tempo que se ouvem os aplausos ou os silêncios do palácio de Belém...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A catástrofe que passou pelas Filipinas

O tufão Haiyan passou pelas Filipinas provocando uma catástrofe traduzida num número estimado de dez mil mortos e num brutal rasto de destruição material, embora o balanço final ainda esteja por fazer. Baptizado localmente como Yolanda, o tufão parece ter sido a maior tempestade tropical alguma vez gerada no nosso planeta, pelo menos desde que há registos, tendo os ventos atingido velocidades superiores a 370 km por hora e as ondas superado os 15 metros de altura. As chuvas torrenciais e os ventos ciclónicos geraram o caos nas províncias do sul do país. Milhares de casas foram destruidas e muitas aldeias foram literalmente varridas. A electricidade e as comunicações foram cortadas. Segundo relata a edição do Manila Standard Today, a cidade de Tacloban, na província de Leyte, “foi totalmente destruida” e há centenas de cadáveres espalhados pelas ruas, verificando-se muitas acções de pilhagem nos supermercados e nos centros comerciais desta cidade de 200 mil habitantes, em busca de comida, arroz, leite e outros bens alimentares. Embora o arquipélago das Filipinas seja uma região em que frequentemente ocorrem vários tipos de calamidades naturais, incluindo terramotos, tsunamis e tufões, nenhuma delas foi tão grave quanto o tufão Haiyan.
Nestas emergências é habitual mobilizar-se a ajuda e a solidariedade internacionais e, por isso, há diversos países e organizações humanitárias que estão a caminho das Filipinas, pois estima-se que haja 3 ou 4 milhões de desalojados, muitos deles isolados e desesperados, sem assistência médica nem comida, nem electricidade nem nada. Uma calamidade.

domingo, 10 de novembro de 2013

A Venezuela é uma fábrica de "misses"

A Venezuela está a enfrentar uma grave crise económica e social, com uma inflação que já vai nos 48% e com a falta de muitos produtos básicos nos seus circuitos comerciais, daí resultando a progressiva deterioração do seu tecido social e da tranquilidade pública. O controverso Presidente Nicolás Maduro, que há poucos meses sucedeu a Hugo Chávez, tem procurado travar a degradação da qualidade de vida dos venezuelanos, não só através da importação de bens alimentares e de higiene, mas também pela adopção de medidas políticas de características emocionais. Há dias decretou o dia 1 de Novembro como o dia da chegada do Natal para que a felicidade chegue ao povo mais cedo e para que seja criado um ambiente de festa que pacifique o país e que derrote a amargura. Nesse sentido, até criou a Secretaria de Estado da Suprema Felicidade Social, encarregada da gestão de todas as actividades relativas aos projectos sociais desenvolvidos pelo governo.
Até que ontem, no Crocus City Hall em Moscovo, a venezuelana Maria Gabriela Isler foi consagrada como Miss Universo e, de repente, o país passou da amargura à euforia, até porque na Venezuela os concursos de beleza são um motivo de orgulho nacional e foi a sétima vez que uma representante venezuelana venceu o concurso. Por isso, o país é considerado uma "fábrica de misses", porque em 62 anos de história deste concurso, só os Estados Unidos conseguiram mais vitórias (oito).  Nicolás Maduro já congratulou a vencedora e o país entrou em verdadeira euforia, com todos os jornais venezuelanos a apresentar a fotografia de Maria Gabriela Isler e a destacar a notícia. Eis, assim, como uma só miss pode animar tanta gente!

 

Espanha também é vítima do aparelhismo

Na generalidade dos países democráticos, os vencedores das eleições instalam-se no aparelho de Estado por direito próprio, mas criaram o hábito de levar consigo uma multidão de correlegionários e de amigos para ocupar os chamados lugares de confiança. É que existem lugares para todos, desde que pertençam ao partido. É um prémio de militância. Um emprego dos bons.
Em Portugal tem sido assim e os gabinetes ministeriais e as direcções gerais enchem-se de assessores e de técnicos, as empresas públicas renovam-se de administradores e directores, as autarquias e as empresas municipais dão emprego a quem faz parte ou apoiou o partido e, quando necessário, criam-se comissões, institutos e fundações. Esta gente gasta rios de dinheiro. Sempre que se altera o ciclo político é um fartote indiscritível de tacharia que, em elevado grau, também tem sido responsável pelo descalabro das nossas finanças públicas. Em Espanha passa-se o mesmo fenómeno e talvez em grau mais absurdo, pois segundo revela hoje a edição do El Mundo, os partidos políticos dão emprego directo ou indirecto a 145 mil espanhóis. É um número espantoso. São verdadeiras “fábricas de emprego” que vivem dos dinheiros públicos, refere o jornal. Pagam salários a muita gente, onde se incluem os membros do governo, os deputados das 19 câmaras representativas existentes e os 8116 autarcas, muitos deles isentos de obrigações fiscais. Desde que começou a crise, esse número passou de 27.600 para 39.500, a mostrar que os sacrifícios não são para os políticos. Porém, a estes números há que juntar mais 20 mil assessores contratados a dedo como pessoal de confiança (sendo que a sua maior parte são “familiares dos políticos” e membros dos partidos), para além de muitas outras ocupações que o El Mundo destaca e que totalizam 145 mil empregos! Eu julgava que éramos vítimas do nosso aparelhismo que faz deputados, assessores, técnicos especialistas e até secretários de Estado com 20 anos de idade, mas afinal em Espanha ainda parece ser pior.

sábado, 9 de novembro de 2013

Um caso raro de prestígio reconhecido

Exceptuando as gentes do mundo do futebol e, em especial, os casos de Cristiano Ronaldo e José Mourinho, só em raríssimos casos a imprensa internacional tem destacado acontecimentos ou personalidades portuguesas nas suas primeiras páginas. Ontem, aconteceu isso, quando o novo Presidente da Câmara Municipal do Porto foi notícia na primeira página da edição internacional do diário norte-americano The New York Times, que é um dos mais influentes jornais mundiais. É um caso absolutamente raro, provavelmente único nos últimos anos. O jornal destaca a vitória de Rui Moreira nas eleições autárquicas de 29 de Setembro, a que se apresentou como candidato independente e sem o apoio de máquinas partidárias, tendo conseguido um resultado praticamente sem precedentes em Portugal e em quase toda a Europa ocidental: ser eleito Presidente da Câmara de uma grande cidade, sem pertencer a um partido político e a criticar o aparelhismo dos partidos políticos.
O jornal aponta Rui Moreira como um factor de esperança democrática em Portugal e até no espaço político europeu, onde os partidos políticos tradicionais estão a ser vistos com cada vez mais indiferença pelos eleitores que os associam à corrupção, ao desemprego e às políticas de austeridade, salientando a sua posição sobre a crise económica e a crise de liderança e de ideais que se vive na Europa, onde os partidos populistas ou fascisantes tendem a afirmar-se na Grécia, na Itália, na França e na Grã-Bretanha. Além disso, o jornal salienta que Rui Moreira rejeita os vícios do aparelhismo e defende que o nosso país precisava de um programa de ajustamento, mas considera que "o que aconteceu em Portugal foi uma overdose" de austeridade. Este homem é diferente e pode ser uma janela de oportunidade neste lusitano imbróglio. Foi isso que o The New York Times percebeu e destacou.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ele vive abaixo das suas possibilidades

Chama-se São Pedro do Rio Seco o local onde veio ao mundo quando a segunda guerra mundial já tinha terminado há alguns meses e eram altas as expectativas quanto aos tempos de paz que se aproximavam. O rapaz cresceu e estudou. Foi um aluno de excepção na Faculdade de Ciências e cumpriu o serviço militar na Marinha. Homem discreto, atento e inteligente, decidiu-se por uma carreira empresarial que teve muito sucesso, mas porque é solidário e generoso, não esqueceu as suas origens e tem dado o seu contributo para a valorização do seu torrão natal.
Atento observador do mundo e verdadeiro filósofo da sociedade contemporânea, juntou as suas regulares crónicas da blogosfera e publicou-as como “O Mundo em transição – Reflexões sobre crescimento, população, poluição e recursos naturais”. É um livro notável, escrito por um homem que sabe e que pensa, o que começa a ser raro no panorama editorial português.
A propósito dessa iniciativa, ontem juntou muitos amigos, figuras da cultura e da comunicação social, conterrâneos e colegas, jornalistas e companheiros de armas. Foi um notável acontecimento social e cultural, proporcionado por um homem notável que tem sabido viver “abaixo das suas possibilidades”. Foi na rua Ivens, ali ao Chiado, nas instalações do Grémio Literário, o clube criado em 1846 e que teve Alexandre Herculano como seu sócio nº 1. Tive o grato prazer de estar com o L.Q., que conheço e admiro desde há 45 anos.
 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O insulto afasta o desejável consenso

Nas últimas semanas têm sido produzidas algumas afirmações de precipitado optimismo, com base em dois indicadores que registaram uma evolução positiva: o produto cresceu 1,1% no segundo trimestre de 2013 face ao trimestre anterior e, em Setembro, a taxa de desemprego situou-se nos 16,3%, ligeiramente abaixo dos 16,5% registados em Agosto. Estes indicadores trouxeram algum ânimo aos nossos dirigentes. Assim, há um mês atrás, numa entrevista concedida a um jornal sueco, o Presidente da República afirmou que “Portugal já saiu da recessão e apresenta o maior crescimento da Europa”. Depois, o ministro Portas passou a falar em “sinais positivos”, dizendo que “a economia começa a dar sinais de recuperação”, que "é possível que Portugal esteja a poucas semanas de saber oficialmente que saiu de uma recessão técnica” e que “em Junho de 2014 podemos viver uma espécie de 1640 financeiro”. O ministro Lima, apesar de ser mais comedido e mais conhecedor do que o seu pupilo, foi na onda e falou em “milagre económico”. Infelizmente a realidade é outra e só a sazonalidade e a maciça emigração sustentaram aqueles sinais. Poucos acreditam que, com este tipo de austeridade, os desejos de retoma se transformem em realidade, com excepção dos que se sentam na primeira fila das bancadas parlamentares dos partidos da maioria, eventualmente à espera de uma qualquer promoção. Esses aplaudem em delírio. E é esta rapaziada que, perante o ultimato da troika a exigir um compromisso político com a oposição, adopta um intolerável discurso – agressivo, provocatório e insultuoso – que nos chega a casa através das emissões em directo do canal Parlamento. Não é de agora, mas nos últimos tempos o insulto quase tem feito parte da ordem de trabalhos. Assim, nunca haverá consenso, nem o desejável compromisso de que o país carece. Assim, só novas eleições (e outros deputados mais maduros e menos panfletários) poderão resolver este imbróglio.