terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O dilema espanhol: canhões ou manteiga

O economista americano Paul Samuelson ficou famoso por ter sido o primeiro americano a ganhar o Prémio Nobel da Economia, mas também por ter escrito Economics, um livro que se tornou um clássico e que ensinou os fundamentos da ciência económica à maioria dos estudantes de economia da segunda metade do século XX. Nesse livro, ele explica a fronteira das possibilidades de produção através do exemplo dos canhões e da manteiga, isto é, porque o dinheiro é um bem escasso, há que decidir se o dinheiro do contribuinte é usado na compra de armamentos ou na produção de alimentos. Na crise que alguns países europeus atravessam, este paradigma de Samuelson está a revelar-se demasiado verdadeiro. Assim acontece com a Espanha.
Segundo a edição de ontem do jornal ABC, a Marinha espanhola adaptou-se à crise por que passa o país e, desde 2008, abateu 25 dos seus navios que foram substituídos por sete de maior capacidade, enquanto foi cancelada a construção de diversas unidades e foram suspensos alguns projectos futuros, como a construção das fragatas da classe F-110. Esses navios que deveriam ser construídos pela Navantia, obrigaram aqueles estaleiros estatais a procurar e a conseguir encomendas no estrangeiro, tendo-as conseguido na Noruega e na Austrália. Um dos navios abatido, depois de 25 anos de serviço, foi o porta-aviões “Príncipe das Astúrias”, o navio-chefe da Armada espanhola, porque “España no pude sosternelo”, uma vez que a sua modernização e manutenção custaria cem milhões de euros anuais. A Espanha teve que escolher “a produção de manteiga” em vez do “fabrico de canhões”, porque a crise obrigou a que o seu orçamento da Defesa se reduzisse em 32%, pois passou de 8.491 milhões de euros em 2008 para 5.745 milhões de euros em 2014, dos quais 77% se destinam a pagamentos ao pessoal.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O triste caso dos estaleiros de Viana

A edição de ontem do jornal Público destacou a situação por que passa a indústria da construção naval no noroeste da Península Ibérica que, tendo atravessado um prolongado período de crise, parece estar agora a entrar numa fase de renovado dinamismo. Em título de primeira página, o jornal escreve: “Estaleiros da Galiza com trabalho e a crescer em contraste com Viana”. A leitura deste título dá vontade de chorar! De facto, com imaginação, inteligência e diálogo democrático, os galegos procuraram soluções para salvar a sua indústria da construção naval, tendo conseguido um consenso político e social em que participaram as autoridades centrais e regionais, os patrões e os sindicatos, mas também alguns investidores, como foi o caso da petrolífera mexicana Pemex. Acendeu-se uma luz ao fundo do túnel e um sindicalista galego afirmou que “há oito meses não era demagogia falar do risco de desaparecimento desta actividade em Espanha, aliás nos últimos quatro anos a construção naval praticamente desapareceu na Andaluzia e em Valência”. Actualmente, a construção e reparação naval na Galiza, Astúrias e País Basco representam 87 mil postos de trabalho, dos quais 25 mil são empregos directos, enquanto a previsão para 2014 é recuperar os níveis de actividade e os postos de trabalho da última década.
A cem quilómetros de distância de Vigo estão os Estaleiros de Viana do Castelo e é o contraste, que nos envergonha e nos entristece. Segundo um sindicalista galego citado pelo Público, os estaleiros de Viana “têm as melhores instalações, pelo menos as maiores, de toda esta faixa atlântica”, mas o governo concessionou-as ao grupo Martifer, o que significa o lamentável fim da construção naval em Portugal. Porquê?
No dia 17 de Dezembro de 2013, a Rua dos Navegantes já abordara este assunto e escrevera: “Ao contrário das autoridades espanholas que encontraram uma boa solução para o seu problema, o governo português e o ministro Branco não quiseram ou não foram capazes de encontrar uma solução”.

 


 

R. I. P. Eusébio

Eusébio da Silva Ferreira foi um dos mais talentosos futebolistas portugueses de todos os tempos e faleceu ontem com 71 anos de idade. Natural da antiga cidade de Lourenço Marques onde nasceu em Janeiro de 1942, veio para Lisboa em finais de 1960 para ingressar na equipa do Sport Lisboa e Benfica. Em Maio de 1961 fez o primeiro jogo oficial pela sua nova equipa, em Outubro desse ano estreou-se pela selecção nacional e em Maio de 1962 sagrou-se campeão europeu frente ao Real Madrid. Divulgadas pela recém aparecida televisão, as vitórias internacionais do Benfica e os golos de Eusébio tornaram-se um motivo de orgulho para todos os portugueses, sobretudo para aqueles que haviam emigrado.
Porém, o momento porventura mais emocionante da carreira futebolística de Eusébio terá acontecido no dia 23 de Julho de 1966 no Goodison Park em Liverpool, no jogo dos quartos-de-final do Campeonato do Mundo. Portugal defrontava a Coreia do Norte que, em 25 minutos de jogo já marcara três golos. Foi então que Eusébio comandou uma reviravolta ao marcar quatro golos que asseguraram uma vitória sobre os norte-coreanos, um feito que ainda hoje perdura na memória dos portugueses desse tempo.
Eusébio foi, contudo, muito mais do que um futebolista genial. Ele tornou-se um símbolo e um verdadeiro embaixador ao tornar conhecido o nome de Portugal no mundo, num tempo em que não havia comunicação de massas à escala global e em que Portugal era ignorado no concerto das nações. Portugal e Eusébio tornaram-se sinónimos para milhões de pessoas em todo o planeta e, sem nunca ter renegado as suas origens moçambicanas, ele mostrou sempre grande orgulho em ser português.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Um acontecimento cultural relevante

Na sequência de um acordo formalizado entre o Museu Nacional do Prado e o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), estão em Lisboa 57 pinturas de grandes mestres da paisagem do século XVII pertencentes ao museu madrileno, que integram a exposição Rubens, Brueghel, Lorrain - A Paisagem Nórdica do Museu do Prado. Trata-se da primeira exposição apresentada em Lisboa que é composta exclusivamente por obras do Museu do Prado, o mais importante museu de Espanha e um dos mais importantes do mundo e esse facto, por si só, constitui um acontecimento cultural relevante.
A importante exposição inclui algumas das obras mais significativas dos grandes mestres da pintura do norte da Europa, sobretudo dos Países Baixos, que naquela época os italianos designavam por “nórdicos”. Em finais do século XVI verificara-se uma mudança nas temáticas escolhidas pelos pintores “nórdicos” e, entre os novos temas, encontrava-se a paisagem, que acabou por se tornar num género pictórico independente.
A exposição percorre algumas tipologias da pintura de paisagem que surgiram na Flandres e na Holanda ao longo de todo o século XVII, incluindo montanhas, bosques, navios e marinhas, terras exóticas, o quotidiano campestre ou os jardins palacianos, as paisagens geladas do norte ou a luz meridional das paisagens italianas. Porém, o título da exposição é um pouco enganador, porque para nós a palavra “nórdico” refere-se aos países escandinavos, enquanto os pintores e as pinturas apresentadas se referem ao centro da Europa
A exposição foi inaugurada no dia 3 de Dezembro e estará patente ao público até ao dia 30 de Março de 2014. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Uma crise que não é para todos

Os porta-vozes do governo têm utilizado a palavra ténue para classificar os sinais positivos de recuperação económica que se estarão a verificar. De facto, ainda não se vislumbram sinais inequívocos de uma retoma económica sustentada, apesar do país ter saido da recessão em que estava mergulhado desde finais de 2010, da produção nacional ter crescido no segundo e no terceiro trimestres de 2013 e do desemprego ter diminuido ligeiramente, ao mesmo tempo que as exportações e o turismo têm registado um comportamento favorável. Ontem foram conhecidos mais alguns sinais que apontam para a referida recuperação económica ténue, através da divulgação das estatísticas das vendas de automóveis ligeiros de passageiros em 2013.
De acordo com a Associação Automóvel de Portugal (ACAP), o número de veículos comercializados em 2013 totalizou 113 435 – entre ligeiros de passageiros, comerciais ligeiros e veículos pesados (camiões e autocarros) – mas esse número ainda ficou abaixo de metade das mais de 275 mil unidades que se comercializavam anualmente em Portugal antes da crise. Porém, depois das vendas terem batido no fundo em 2012, este ano iniciou-se uma ligeira recuperação com uma subida de 11,7%, o que representou a comercialização de mais 13 249  veículos do que no ano anterior, em que se verificara uma queda anual de quase 41%.
Porém, as estatísticas da ACAP revelam um paradoxo que resulta da política de enriquecer os ricos e de empobrecer a classe média: a crise no sector automóvel não afectou a venda de carros de luxo que aumentou 23,3%, com as marcas Porsche, Jaguar, Lexus, Aston Martin, Ferrari, Bentley, Lamborghini e Lotus a venderem 632 veículos, isto é, mais 120 unidades do que em 2012. Outro dado curioso refere-se à marca BMW que vendeu 7629 unidades, número que se traduziu num aumento de 20% face a 2012 e levou esta marca à sua melhor quota de mercado de sempre (7,2%) e a manter-se na 4ª posição no ranking das marcas de automóveis ligeiros de passageiros mais vendidos em Portugal, depois da Renault, da Volkswagen e da Peugeot. Estes números só mostram que a crise não é para todos e deviam fazer corar de vergonha os nossos governantes.

A mentira e o ataque aos pensionistas

Prossegue a saga da manipulação discursiva e da mentira descarada que o governo tem usado e, nesse aspecto, é bom lembrar as declarações feitas no dia 1 de Abril de 2011 em Vila Franca de Xira pelo então candidato a primeiro-ministro:
- Vai tirar os subsídios de férias aos nossos pais?
- Nós nunca falámos disso. Isso é um disparate!
Com a vitória eleitoral, a mentira instalou-se no discurso governamental. Passou a valer tudo, contrariando-se os programas e as promessas eleitorais, aceitando-se a humilhação perante a troika e desafiando-se muitas vezes o próprio Tribunal Constitucional (TC). Quase três anos de austeridade e sacrifício não resolveram as nossas dificuldades. Agora, para tapar o "buraco" orçamental de 388 milhões de euros (0,2% do PIB) criado pelo chumbo do TC à convergência de pensões do sistema público com o privado, o governo decidiu alargar a base de incidência da Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES) e reforçar o autofinanciamento da ADSE, isto é, atacar sempre os mesmos. É uma obcessão e um fanatismo esta perseguição aos pensionistas. Podiam ir aos lucros monumentais da EDP e similares, às PPP da Mota-Engil, do grupo Espírito Santo e do grupo Mello, às rendas excessivas, aos swaps e, para dar o exemplo, cortar no despesismo dos gabinetes ministeriais e do parlamento. Mas não. Insistem na mesma austeridade contra os mesmos. O irrevogável ministro esqueceu tudo o que disse em Maio sobre “a fronteira que não posso deixar passar” e sobre “o cisma grisalho”. Vale tudo. A mentira continua e é cada vez mais sofisticada, porque o governo anuncia que não haverá mais aumento de impostos, mas na realidade o que ontem foi anunciado é um segundo imposto sobre o rendimento pessoal dos pensionistas, violando assim o preceito constitucional de este imposto ser único.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Emigrantes para fugir à pobreza

Foram hoje levantadas as restrições que vigoravam em nove países comunitários e que impediam que romenos e búlgaros pudessem livremente circular e trabalhar na União Europeia, de que são membros desde 2007. O fim destas restrições está a causar alguma preocupação no Reino Unido e na Alemanha, para onde se espera larga movimentação de emigrantes provenientes daqueles dois países que, conjuntamente, têm cerca de 29 milhões de habitantes. No Reino Unido há quem fale em “invasão” e, de facto, o problema é muito complexo, como revela hoje o The Daily Telegraph, num artigo intitulado “Passport to UK for Europe’s poorest”.
A Roménia e a Bulgária estão situados no sudeste da Europa, onde as fronteiras nacionais mudaram várias vezes ao longo dos séculos. Desse processo histórico resultaram laços muito íntimos entre os países daquela região e, sobretudo, um conceito de nacionalidade muito abrangente. Assim, como cidadãos comunitários, os romenos e os búlgaros têm o direito a circular na Europa e a ter emprego no Reino Unido, ou noutro qualquer país da União Europeia. Porém, os moldavos (porque são quase romenos) e os macedónios (porque são quase búlgaros) também sentem esse direito, enquanto pelas mesmas razões históricas, também há muitos sérvios, ucranianos e turcos que entendem ser elegíveis para possuir passaportes que lhes permitam trabalhar em qualquer parte da União Europeia. Como noticia o jornal inglês, a estação ferroviária internacional de Sofia já tem mais movimento de gente que foge à pobreza e que tudo arrisca, mas aos pedidos de passaporte dos romenos e dos búlgaros, vão juntar-se os pedidos dos cidadãos dos países vizinhos que têm ou reivindicam ter nacionalidade romena ou búlgara. Mais um problema para a Europa ou não?

Um novo ano

Chegou o novo ano de 2014 e, um pouco por toda a parte, houve festa para animar as populações e atrair turistas, com gente muito eufórica e muita música, muita cor e muito fogo-de-artifício. A exuberância com que algumas cidades festejam a passagem do ano é um seu ex-libris e assim acontece com a cidade australiana de Sydney, onde a festa costuma ser uma das mais imponentes e que é sempre muito destacada pelas cadeias de televisão internacionais, até porque é uma das primeiras a entrar no novo ano. Por isso, todos os jornais australianos a noticiam com grandes fotografias, como hoje fez o The Daily Telegraph de Sydney.
A festa, porém, também foi imponente em Kuala Lumpur, em Moscovo, Londres, Rio de Janeiro e outras cidades como o Funchal, incluindo o  Dubai, que este ano decidiu entrar no Guiness World Records com o maior festival pirotécnico alguma vez apresentado na passagem do ano.
Um novo ano convoca-nos para exprimirmos alguns desejos e, assim, de uma forma sintética e deixando de lado objectivos pessoais, destaco nove desejos:
  1. Uma governação mais competente e mais séria do nosso país
  2. Uma economia que crie mais emprego e mais riqueza
  3. Uma Justiça eficaz para punir os corruptos, os ladrões e os especuladores
  4. Uma luta eficaz contra a pobreza e a desigualdade
  5. Uma Europa mais solidária, mais pacífica e mais próspera
  6. Uma Europa que preserve e reforce o seu modelo social
  7. O fim da guerra na Síria e de todas as outras guerras
  8. A defesa da língua e da cultura portuguesa no mundo
  9. Um brilharete português no Mundial de Futebol

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Portas e os saldos de vistos dourados

Em tempo de promoções e saldos, o governo decidiu fazer saldo de passaportes e autorizações de residência. Foi há um ano que foi criado um regime regime especial de autorização de residência para "actividade de investimento" em território nacional que  permite que cidadãos de países terceiros, que não pertençam à União Europeia ou não integrem o Acordo de Schengen, garantam uma autorização de residência em Portugal. Para a atribuição dessa autorização - o visto gold - é necessário que a “actividade de investimento” seja desenvolvida por um período mínimo de cinco anos, prevendo-se várias opções, em que se incluem a transferência de capital num montante igual ou superior a um milhão de euros, a criação de pelo menos dez postos de trabalho ou a compra de imóveis num valor mínimo de 500 mil euros.
O introdutor em Portugal desta galinha dos ovos de ouro foi o irrevogável ministro Portas. Desde então, a um ritmo muito regular, a sua máquina de propaganda tem feito o elogio do genial ministro e anunciado o sucesso da ideia: entraram 20 milhões de euros e foram concedidos 30 vistos (Junho), 90 milhões e 145 vistos (Setembro) e 306,7 milhões e 471 vistos (Dezembro). Esses “investidores”, que tanto podem ajudar a resolver a nossa crise, vêm da China, Rússia, Angola, Brasil, Líbano, Paquistão, África do Sul, Índia, Colômbia, Tunísia, São Cristóvão e Nevis, Estados Unidos, Ucrânia, Turquia e Guiné-Bissau, segundo tem sido anunciado. Até parece uma nova corrente de fundos comunitários...
Tudo isto reflecte a decadência a que chegamos e o sentido de dignidade nacional a que esta gente nos sujeita. Nesta terra começa a valer tudo e até se vendem passaportes e vistos de residência a troco de um maço de notas. Havia paraísos fiscais, agora há paraísos domiciliários. Seremos um branqueador das muitas traficâncias que se fazem pelo mundo. A lei deixa de ser igual para todos e passa a depender do estatuto económico de cada um. É preciso dizer não à nova idolatria do dinheiro, como nos ensina o Papa Francisco. Seria interessante saber que “actividades de investimento” e quantos empregos já foram ou vão ser criados. Que eu saiba, nenhum partido político ergueu a sua voz contra esta humilhante habilidade e muito poucos jornalistas e comentadores a denunciaram.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A navegar à vela de Sydney para Hobart

Iniciou-se ontem a famosa regata anual Rolex Sydney to Hobart Yacht Race 2013, conhecida na Austrália como a Bluewater Classic, que faz a ligação entre o porto de Sydney na costa oriental da Austrália e o porto de Hobart na ilha da Tasmânia, numa extensão de cerca de 630 milhas (1170 Km). A regata disputa-se desde 1945 e tem a sua largada no Boxing Day, isto é, o dia a seguir ao Natal, atraindo velejadores e embarcações de todo o mundo. É considerada como uma das mais difíceis regatas do mundo, tendo-se tornado num ícone do desporto de verão australiano.
Desde meados dos anos 70 que o número de embarcações participantes tem quase sempre ultrapassado a centena e em 1994 registou-se a participação record de 371 embarcações. O record da regata foi estabelecido em 2012 pelo iate australiano Wild Oats XI que gastou 1 dia, 18 horas, 23 minutos e 12 segundos para ligar Sydney a Hobart e que, este ano, é o favorito.
A edição de hoje do jornal The Sydney Morning Herald destacou na sua primeira página uma fotografia da espectacular largada da regata, que constitui um exemplo de bom fotojornalismo e parece justificar a famosa ideia de que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

O património cultural de Angola

O Jornal de Angola anuncia hoje que o governo angolano apresentará à UNESCO no próximo mês de Janeiro a candidatura do centro histórico da cidade de M’banza Congo, a antiga cidade de São Salvador do Congo e capital da província do Zaire, para integrar a sua lista do Património Mundial da Humanidade. Esta candidatura foi lançada pela primeira vez em 1996, quando Angola apresentou uma lista de locais candidatos para futuramente integrarem a lista da UNESCO, mas o processo tem avançado muito lentamente. Porém, no passado mês de Junho a cidade de M’banza Congo foi classificada com a categoria de Centro Histórico Nacional, um dos pressupostos indispensáveis para que Angola possa formalizar a candidatura da capital do antigo reino do Congo.
A cidade de M’banza Congo foi fundada antes da chegada dos portugueses e era a capital de uma dinastia que governava desde os finais do século XV. Por influência de missionários portugueses, o local tomou o nome de São Salvador do Congo, tendo sido construída uma igreja católica que é provavelmente a mais antiga da África Sub-Saariana e que em 1596 foi elevada ao estatuto de catedral. A cidade tinha muitas edificações de pedra, incluindo o palácio e muitas igrejas e em 1630 teria cem mil habitantes, mas veio a ser abandonada durante as guerras civis que eclodiram no século XVII.
O projecto “M’banza Congo - cidade a desenterrar para preservar" está em curso e pretende estudar aquela que é uma das mais antigas civilizações abaixo do Equador, com vestígios da sua história e da sua evolução soterrados na cidade e ainda por descobrir. Refere-se que Angola, através do Instituto Nacional do Património Cultural, apresentou no passado mês de Junho três pré-candidaturas para virem a ser classificadas como Património Mundial da Humanidade - o Centro Histórico e Arqueológico de M’banza Congo, na província do Zaire, a Paisagem Cultural de Tchitundu-Hulu, na província do Namibe e o Corredor do Kwanza (Luanda/ Kwanza-Norte).

Ilusões de Natal

O nosso primeiro Passos cumpriu o seu dever formal de se dirigir à nação no Natal. Cansado das minhas festividades natalícias, fiz um enorme esforço para não adormecer com aquela lenga-lenga auto-elogiosa que foi lida sem alma e com um optimismo que até parecia que estávamos noutro país. Parecia um discurso de campanha eleitoral, feito por um vendedor de ilusões. Esqueceu a injusta e imoral austeridade que nos impôs e que tem feito empobrecer a classe média e aumentado a fortuna dos mais ricos. Esqueceu a profunda desarticulação que impôs à nossa sociedade, que põe em risco a nossa coesão social. O homem que se deslumbrou com o poder, que quis cair nos braços da troika e que sempre disse que governaria com o FMI, mantém a sua estratégia de obedecer a tudo o que lá de fora lhe mandam fazer, embora agora queira fazer passar a ideia de que quer expulsar a troika e recuperar a soberania nacional porque, com a sua acção, o país foi salvo do colapso.
Disse ele que “a nossa economia começou a dar a volta”, que “começamos a vergar a dívida externa e pública”, que “a economia começou a crescer e acima do ritmo da Europa” e que “em termos líquidos, até ao terceiro trimestre foram criados 120 mil novos postos de trabalho”. É preciso ter muita imaginação e pouco pudor para se dizer isto numa mensagem de Natal, que deveria ser de verdade e de esperança. É uma mera convicção sem fundamento.
A mensagem do nosso primeiro quis mostrar erudição e foi buscar inspiração a algumas frases feitas, que ele certamente aprecia. Disse ele, inspirando-se em George W. Bush, que “na recuperação do nosso país, ninguém pode ficar para trás”. Depois, a finalizar a sua mensagem fez um mix entre Napoleão Bonaparte e Barack Obama, dizendo: “Como um povo orgulhoso, dono do seu próprio destino, que não receia o futuro e que sabe que, do alto de quase 900 anos de história, os seus melhores anos ainda estão para vir”.
Foi, concerteza, uma mensagem a pensar nas eleições que hão-de vir. Merecíamos melhor.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Presentes de Natal

Hoje é dia de Natal e, dada tradição e a solenidade do dia, não se publicaram jornais na generalidade dos países onde predomina a religião cristã, embora os poucos títulos publicados não deixassem de assinalar o festivo dia com notícia de primeira página e adequada ilustração.
O Natal celebra-se um pouco por todo o mundo desde tempos muito antigos e a sua celebração foi-se renovando e adaptando ao longo do tempo, embora mantenha aspectos simbólicos que são comuns a todas as regiões – os presépios, as árvores de Natal, a ceia de Natal, as músicas de Natal e o cerimonial da troca de presentes, uma tradição que se julga estar inspirada na oferta de presentes feita a Jesus Cristo pelos Reis Magos que é relatada na Bíblia. Mais recentemente nasceu a figura do Pai Natal, uma figura lendária nascida na Lapónia e que vestida de vermelho, percorre o mundo na véspera de Natal num trenó puxado por renas para entregar presentes às crianças do mundo inteiro.
Inspirado na troca de presentes, a edição de hoje do Correio Braziliense é, cheia de originalidade, pois destaca “o presente de Natal que os eleitores do DF querem dos políticos”. A síntese das 14 respostas seleccionadas na primeira página é a seguinte:
Espero que parem de roubar. Gostaria que honrassem a palavra. Que tenham mais transparência. Que dêem mais atenção à saúde. Que tenham moral e eficiência. Peço mais consciência e honestidade. Tenham vergonha na cara. Menos corrupção e roubalheira. Mais investimento na saúde, transportes e educação. Ouçam mais o que a população pede. Prestem atenção à segurança pública. Roubem menos e façam mais. Quero o fim da impunidade e do voto secreto. Espero que dêem prioridade à educação.
Seria bem interessante que também se perguntasse aos eleitores portugueses que presente de Natal querem dos políticos. As respostas seriam muito diferentes das que foram dadas em Brasília?

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Há demasiados abutres a voar por aí

O jornal i revela hoje que as empresas públicas comunicaram o pagamento de prémios de quase 38 milhões de euros em 2012, num ano em que os bónus estiveram suspensos para gestores públicos, dirigentes de institutos e reguladores, mas este valor está calculado por defeito porque apenas 55% das empresas responderam ao questionário realizado pela Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP). Relativamente a suplementos, o montante pago ainda é mais impressionante pois atingiu 367 milhões de euros, segundo revela a Direcção-Geral do Tesouro e Finanças (DGTF). Estes valores carecem, naturalmente, de uma análise pormenorizada que aqui não farei, mas revelam que a obcessão do governo na questão da convergência das pensões e na poupança de cerca de 380 milhões de euros (cerca de 0,2% do PIB) é absolutamente ridícula e é um roubo descarado. Um caso de vingança e de insensibilidade contra os mais fracos e mais envelhecidos. O governo e os seus ministros deviam ter vergonha pelo mal que fazem ao país, mas também pelo apoio que dão aos mais fortes e pela perseguição que fazem aos mais fracos. A mentira tornou-se a regra desta gente e parece haver dinheiro para alimentar todas as suas vaidades com assessorias, automóveis e viagens. Se não se trata de pilhagem organizada, parece!
Entretanto, os jornais também anunciaram que, de acordo com a Direcção-Geral do Orçamento (DGO), desde 2012 e até ao  momento, a troika trazida para o nosso país pela dupla Passos-Portas com o apoio de Belém, já recebeu quase três mil milhões de euros em juros e comissões. Os nossos sacrifícios dão para tudo e até para alimentar os bolsos das comitivas de avaliadores da troika que nos visitam e que à nossa custa “se instalam com vista para o Parque”. É esta a solidariedade da troika – FMI, Comissão Europeia de Barroso e BCE de Constâncio e é esta a submissão a que os nossos governantes não reagem!

sábado, 21 de dezembro de 2013

Macau preserva a memória portuguesa

Foi no dia 20 de Dezembro de 1999 que, por acordo entre Portugal e a República Popular da China, o território de Macau voltou a estar sob soberania chinesa, depois de cerca de quatro séculos e meio de administração portuguesa.
Macau foi o primeiro entreposto europeu na China e foi, também, o último território europeu nas costas chinesas, pelo que a sua história não cabe num pequeno texto. Agora, decorridos 14 anos sobre a transferência de soberania, o território de Macau parece apostar no seu passado lusófono para se projectar internacionalmente em diferentes dimensões, promovendo diversas iniciativas. Os jornais macaenses evocaram aquela data e procuraram analisar as transformações por que passou o território, agora designado por Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China. O jornal hojemacau destaca o “Desfile por Macau, Cidade Latina”, que foi transmitido em directo pela televisão e celebrou os 14 anos da transferência de poderes de Portugal para a China, no qual centenas de figurantes desfilaram pelas ruas do centro histórico de Macau durante três horas, desde as ruínas de São Paulo até à praça do Tap Seac, um local amplo com calçada à portuguesa e edifícios históricos. Milhares de turistas e de residentes assistiram a este desfile que, também, serviu para manter viva a herança cultural portuguesa na cidade.
Macau tem servido cada vez mais de ponte entre a China e os países de língua portuguesa, mas também de elo de ligação com os países latinos, pelo que no desfile participaram  grupos locais e do exterior, principalmente de países de língua portuguesa como Portugal e Brasil, mas também de países latinos como a Colômbia, Peru, Argentina, Cuba ou Bolívia.