sábado, 8 de novembro de 2014

Cristiano Ronaldo, o grande promotor

O suplemento de Economia do jornal Expresso noticiou hoje que na próxima semana vai arrancar uma campanha publicitária para atrair turistas chineses ao nosso país, que utiliza a imagem de Cristiano Ronaldo e o slogan “Portugal tem o melhor do mundo. Provavelmente, os técnicos de Publicidade e Marketing que conceberam a campanha tomaram os devidos cuidados para evitar que os fluxos turísticos chineses se encaminhem para Madrid para ver Cristiano Ronaldo no Estádio Santiago Bernabéu, em vez de se dirigirem para Lisboa. Aliás, nesse caso, os operadores turísticos até podem oferecer um bónus adicional e mostrar Rafael Nadal, Plácido Domingo, Júlio Iglésias, António Banderas ou Penélope Cruz, entre muitos mais espanhóis de primeiro plano mundial. É preciso cuidado com estas campanhas, pois não seria a primeira vez que a promoção do nosso país servia outros interesses que não os da nossa indústria turística.
A utilização da imagem de Cristiano Ronaldo nesta campanha é indiscutível, até porque não temos outra. Ele é uma figura mundial e, ainda hoje, o jornal turco Fanatik dedica toda a sua primeira página ao jogador português, embora eu não possa traduzir o que lá está escrito. Afinal, até na Turquia como na China e, certamente no mundo, Cristiano Ronaldo é cada vez mais o símbolo e o promotor de Portugal.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Uma inesperada violência em Bruxelas

 
As televisões mostraram e os jornais explicaram.
Ontem em Bruxelas, a cidade-capital da União Europeia, por onde circulam milhares de burocratas encostados a regimes de privilégio desajustados neste tempo de crise, realizou-se uma manifestação convocada pelas três maiores centrais sindicais belgas – democrata-cristã, socialista e liberal -  que juntou cerca de 100 mil pessoas para protestar contra as reformas económicas e sociais anunciadas pelo novo governo, isto é, contra as medidas de austeridade previstas no próximo orçamento plurianual, que incluem cortes na despesa pública e aumento da carga fiscal.
A receita belga é a do costume, que os portugueses conhecem bem. Tudo é feito para proteger os grandes interesses e para obrigar os contribuintes, os assalariados e os pensionistas – os tais que eles dizem viver acima das suas possibilidades - a pagar a profunda crise europeia, resultante da incompetência dos políticos, da ganância dos financeiros e de uma corrupção cada vez maior e mais atrevida. Os belgas reagiram e a manifestação degenerou em violência, com os manifestantes a incendiar automóveis, a partir montras e a apedrejar a polícia, enquanto esta usava canhões de água e gás lacrimogéneo para dispersar a multidão. Não se imaginava tanta cólera e tanta violência no coração da Europa.
As imagens que nos chegaram são muito preocupantes, porque podem gerar contágios. A reacção belga mostra que já não se trata de fazer imposições humilhantes, como as que foram feitas aos gregos, aos portugueses e aos seus governos gelatinosos, mas que a arrogância neo-liberal está a provocar o centro da Europa. Só que os belgas reagiram e a cólera saiu à rua, como a televisão mostrou e hoje escreveu o Le Soir. Bruxelas ficou sob uma tempestade inesperada e violenta que melhor seria se não alastrasse ao resto do país.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A ideia de viragem é mera propaganda

Desde a campanha eleitoral que em 2011 levou ao poder a actual maioria que me habituei a ouvir algumas mentiras descaradas e, nesse campo, o nosso primeiro Passos é um verdadeiro campeão. Foi ele que prometeu que não haveria aumento de impostos, nem cortes de pensões. Foi ele que prometeu reduzir o défice público através do corte das gorduras do Estado. Foi ele que garantiu não haver despedimentos na função pública. Foi ele que disse estar preparado para governar com a troika e que sempre afirmou que iria para além das seus diktats. Foi ele e o seu governo que não fizeram a reforma do Estado, que aumentaram a dívida pública, que empurraram mais de 300 mil portugueses para a emigração, que aumentaram a pobreza e que minaram a sociedade portuguesa com o desânimo, a incerteza e a insegurança. Os portugueses temem cada vez mais o futuro, estão com índices de confiança muito baixos e não sabem o que os espera o amanhã.
A encenação mentirosa desta gente já cansa e há cada vez menos paciência para os ouvir, até porque as mentiras se repetem. Há dias um artigo publicado num jornal de referência (Público de 30/10/2014) veio chamar-me a atenção para uma faceta do nosso primeiro Passos que, por má interpretação da realidade portuguesa ou por alucinação, tem repetidamente anunciado viragens, que não são mais do que promessas irrealistas e não sustentadas de melhores tempos. Ainda mal tinha chegado a São Bento e já anunciava que 2012 era um ano de viragem económica para o país, mas poucos meses depois dizia que o ano da inversão ou da viragem seria 2013. Como não houve nada disso, passou a anunciar 2014 como o novo ano da viragem económica. Agora anunciou que “2015 é um momento de viragem na recuperação do rendimento dos portugueses”.
O homem sonha com viragens e toma a núvem por Juno. Tornou-se um sonhador que faz uma interpretação enviezada das estatísticas que lhe chegam às mãos. É que as estatísticas só têm sentido quando são confrontadas com a realidade. Servem para tudo e, também, para cada coisa e para o seu contrário. Provavelmente, também é mal aconselhado pelos seus boys e, certamente, não é capaz de articular um discurso sem se deixar enrolar pela marca da propaganda política. Eu não vejo sinais inequívocos de viragem e bem gostava de os ver.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Há mais desporto para além do futebol

A maratona de Nova Iorque é uma das mais famosas provas atléticas que se disputam no mundo e teve ontem a sua 44ª edição com mais de 50 mil participantes e com os atletas quenianos a ocuparem os dois primeiros lugares à chegada, quer na prova masculina quer na prova feminina. Desde há muitos anos que este tipo de provas é dominado por atletas africanos, sobretudo quenianos e etíopes, o que significa que os nossos campeões olímpicos da maratona - Carlos Lopes (Los Angeles, 1984) e Rosa Mota (Seul, 1988) – foram casos muito singulares na afirmação do nosso desporto a nível mundial e não tenham tido verdadeiros seguidores entre nós.
No nosso panorama desportivo são muito poucos os que conseguem ocupar posições de destaque ao nível mundial e os nossos melhores atletas, em vez de serem estimulados pela comunicação social, são quase sempre ignorados, numa lógica de completa subordinação jornalística ao futebol. Assim sucede com os nossos atletas do ténis de mesa, da canoagem ou do remo, mas também com os voleibolistas e os andebolistas, entre outros praticantes desportivos, que têm conseguido boas prestações internacionais.
Ontem, na primeira vez que correu os míticos 42.195 metros da maratona, a atleta Sara Moreira concluiu a sua prova em terceiro lugar logo a seguir a duas atletas quenianas, o que constituiu um notável resultado desportivo, até porque a atleta fez a segunda melhor marca portuguesa de sempre. Quase todos os jornais mencionaram essa proeza num canto escondido da sua primeira página, mas foi o Diário de Notícias que teve a “ousadia” de trazer essa notícia para a sua primeira página com o devido destaque. Porém, os jornais ditos desportivos, em vez da proeza de Sara Moreira destacaram outras coisas, como as irrelevantes e desinteressantes entrevistas dos jogadores Talisca e Casemiro, asim como as declarações do treinador do Sporting a lamentar a falta de atitude dos seus jogadores. É a lógica de vender papel a qualquer preço o que, desportivamente, é muito triste. Parabéns à Sara!

domingo, 2 de novembro de 2014

Turista espacial? Não, obrigado.

Já havia cerca de oito centenas de celebridades e de milionários inscritos para as viagens de turismo espacial organizadas pela Virgin Galactic que se previa fossem iniciadas em 2015, mas durante um voo de teste realizado esta semana sobre o deserto de Mojave, na Califórnia, a nave espacial SpaceShip Two caiu por causas ainda não apuradas e ficou completamente destruida. Este acidente foi grave e foi, também, mais um duro golpe no projecto lançado em 2004 pelo empresário britânico Richard Branson, que já foi afectado por muitos revezes que têm adiado o projecto de levar turistas para o espaço, devido a avarias, acidentes e outros imponderáveis. Inicialmente previstas para ter início no ano de 2007, a nova data para iniciar as viagens comerciais no espaço está agora a ser reavaliada, até porque será necessário preparar um SpaceShip Three.
A ideia da realização de viagens turísticas espaciais tinha nascido como um projecto futurista e utópico, mas a realidade estava cada vez mais próxima de ultrapassar a ficção. O esquema operacional delineado para as viagens previa que, com dois pilotos e seis passageiros a bordo, o SpaceShip Two fosse transportado por outro veículo até aos 13.700 metros de altitude e que, depois, fosse libertado e subisse até aos 100 quilómetros de altitude, propulsionado por um motor próprio. Seria aí que os turistas espaciais poderiam observar a Terra a flutuar no espaço e em que estariam em gravidade zero durante alguns minutos. 
O desastre agora ocorrido teve larga repercussão nos media anglo-saxónicos, como é o caso do The Times, não significando apenas a perda de um piloto de ensaios e um astronómico prejuízo material, mas também mais um atraso na data de início das viagens turísticas espaciais. Além disso, este acidente vai gerar alguma intranquilidade e perda de entusiasmo nas centenas de pessoas que já pagaram 250 mil dólares para participarem nos primeiros voos comerciais e já há quem pense em desistir. Muitas dessas pessoas já terão repensado a aventura com que sonharam e em breve agitarão slogans: Turista espacial? Não, obrigado!

sábado, 1 de novembro de 2014

A Casa dos Estudantes do Império

Numa iniciativa da UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, teve início um programa comemorativo para assinalar os 50 anos do encerramento da Casa dos Estudantes do Império (CEI), que inclui várias iniciativas e se prolongará até Maio de 2015.
A CEI foi criada em 1944 pelo governo de Salazar com o objectivo de apoiar os estudantes brancos, mestiços ou negros oriundos das colónias, mas também para os controlar através da PIDE. As suas funções eram sobretudo de âmbito social, incluindo refeitório e assistência médica, para além da promoção de actividades desportivas e culturais. No entanto, a ideia fundadora que parecia reflectir sentimentos de generosidade para com os estudantes das colónias que se encontravam em Portugal, tinha um acentuado cunho político e era um instrumento destinado a afirmar a dimensão imperial de Portugal, na linha do que sucedera com a Exposição do Mundo Português realizada em 1940.
Apesar de ser financiada pelo Estado português e de ter objectivos sociais, a CEI falhou nos seus propósitos e acabou por ter um papel fundamental nas lutas pela independência das colónias portuguesas, vindo a ser encerrada pelo governo  em 1965. A progressiva politização da elite cultural africana ligada à CEI tinha-se acentuado com as campanhas eleitorais da oposição democrática, com o exemplo das lutas de libertação em diversos países africanos e, por fim, com a intransigência salazarista relativamente à discussão das questões coloniais, pelo que muitos desses jovens estudantes que passaram pelas instalações da CEI em Lisboa e Coimbra, se tornaram líderes dos movimentos de libertação nacional nas colónias portuguesas. É o caso de personalidades como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Pedro Pires, Vasco Cabral, Mário Pinto de Andrade, Marcelino dos Santo, Luandino Vieira, Rui Mingas, Óscar Monteiro, João Craveirinha, Joaquim Chissano, Miguel Trovoada, Francisco Tenreiro, Pepetela e muitos outros intelectuais.
As celebrações começaram esta semana em Coimbra e alguns jornais de língua portuguesa noticiaram o seu início, mas o principal destaque do acontecimento foi dado pelo Mutamba, o suplemento da edição de ontem do semanário angolano Novo Jornal que, além de desenvolvida notícia, até reproduziu a fotografia do edifício onde esteve instalada a CEI no Bairro do Arco do Cego em Lisboa.

Tesouros dos Palácios Reais de Espanha

A Fundação Calouste Gulbenkian iniciou a sua temporada de exposições 2014-2015 com uma exposição intitulada “A História Partilhada. Tesouros dos Palácios Reais de Espanha”, em colaboração com o Património Nacional de Espanha, que é a entidade responsável pela preservação, salvaguarda e divulgação dos bens móveis e imóveis da Coroa Espanhola. No percurso expositivo são exibidas cerca de uma centena e meia de pinturas de grandes mestres como Velázquez, Goya, Caravaggio e El Greco, entre muitos outros pintores famosos, que pertencem ao património artístico acumulado pela Casa Real de Espanha ao longo de quase quatro séculos, sendo particularmente distinguidos os acontecimentos da história de Espanha que foram partilhados com Portugal, sobretudo em consequência de casamentos reais.
A apresentação de uma genealogia simplificada das pessoas reais retratadas na exposição, permite compreender alguns contextos culturais e ligações familiares entre as duas monarquias ibéricas, mesmo para os visitantes menos identificados com o processo histórico peninsular. Assim, a exposição destaca três infantas de Portugal que foram rainhas de Espanha:
- Isabel de Portugal (1503-1539), filha de D. Manuel I e neta dos Reis Católicos, que foi casada com Carlos V e foi mãe de Filipe II de Espanha (I de Portugal);
- Maria Bárbara de Bragança (1711-1758), filha de D. João V, que foi casada com Fernando VI;
- Isabel de Bragança (1797-1818), filha de D. João VI, que casou com Fernando VII e a quem se deve a criação do Museu do Prado.
A exposição estará patente ao público até ao dia 25 de Janeiro de 2015 e constitui uma oportunidade para apreciar algumas grandes obras da produção artística espanhola e europeia mas é, também, uma aula de História contada numa versão pedagógica e interessante.

O palácio dos mil quartos em Ancara

Alguns jornais de difusão internacional destacaram na corrente semana a notícia da inauguração do novo palácio presidencial em Ancara, com comentários mais ou menos escandalizados a respeito de tão gigantesco e polémico conjunto de edifícios, que dispõem de mil quartos. Hoje, a edição do The New York Times também tratou esse assunto e chamou-o à sua primeira página com uma fotografia a cinco colunas, com críticas explícitas à megalomania do Presidente turco Recep Tayyip Erdogan.
O novo palácio irá substituir o Palácio Presidencial de Çankaya, que serviu de residência presidencial desde 1923, quando Mustafa Kemal Atatürk fundou e passou a dirigir o moderno Estado Turco, democrático e secular. Ocupando uma área de 300 mil metros quadrados e com três blocos de edifícios, o novo palácio não só ultrapassa a dimensão das residências oficiais dos Chefes de Estado da França, Grã-Bretanha, Rússia e Estados Unidos, mas também o palácio do sultão de Brunei, registado no Guinness World Records como o de maior dimensão do mundo. Além disso, a descrição da sua sumptuosidade lembra-nos os relatos que foram feitos sobre os palácios da Saddam Hussein e de Muammar al-Kaddafi.
O novo palácio teve um custo estimado entre 300 milhões a 500 milhões de euros, que tem sido considerado exorbitante. A oposição turca tem criticado a desproporcionada dimensão do palácio e tem levantado muitas suspeitas da existência de corrupção ligada ao projecto, considerando o palácio como mais uma demonstração da megalomania e das tendências autoritárias e de islamização de Erdogan. Porém, as críticas também têm surgido de outros sectores sociais turcos, desde o sistema financeiro aos ecologistas. Entretanto, Erdogan já anunciou a intenção de construir o maior aeroporto do mundo em Istambul, além de outros megaprojetos que têm merecido críticas. Com a Turquia candidata a integrar a União Europeia e com a violência da guerra à vista das fronteiras turcas, é caso para perguntar: o que faz correr Erdogan?

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Jordi Savall ressuscitou a música antiga

O musicólogo, músico e maestro catalão Jordi Savall renunciou ao Prémio Nacional de Música que lhe foi atribuído pelo governo espanhol, num acto de protesto contra a política cultural do governo de Mariano Rajoy, que acusou de “irresponsabilidade e incompetência” na defesa das artes. Muitos jornais espanhóis deram destaques de primeira página a esta notícia, associando-a aos problemas políticos por que passa a Catalunha, mas Savall veio esclarecer que a sua atitude tem a ver com a esfera cultural e não com a esfera política.
Jordi Savall é uma referência mundial nos domínios da música medieval, renascentista, barroca e clássica, tendo-se dedicado desde há mais de quarenta anos à recolha e preservação do património musical hispânico e mediterrânico, quer como investigador, quer como intérprete. Fundou diversos grupos musicais, dos quais o mais famoso é o Hespèrion XX/XXI, que criou com a sua mulher Montserrat Figueras, recentemente falecida. Editou mais de duas centenas de discos com repertórios de música antiga, em que se destacam as suas interpretações com viola de gamba, tendo acumulado inúmeros prémios internacionais, nomeadamente um Grammy, tendo-lhe sido atribuído o Prémio Léonie Sonning 2012, que é considerado o Prémio Nobel da Música. É doutor honoris causa por diversas universidades, incluindo a Universidade de Évora.
No passado dia 19 de Outubro o músico esteve em Lisboa num concerto na Fundação Calouste Gulbenkian mas, alguns dias antes, o espectáculo estava esgotado e não havia um só bilhete disponível. No próximo dia 4 de Novembro, Jordi Savall regressa a Portugal e vai apresentar-se na Casa da Música no Porto. Ainda há alguns bilhetes disponíveis nas últimas filas do auditório.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Viagens ao México e propaganda pessoal

O cidadão Paulo Portas preside ao seu partido desde 1998 mas nunca conseguiu transformá-lo noutra coisa que não seja um pequeno partido ou um partido-muleta em que se apoia o PSD para formar maiorias de governo. Embora o cidadão Portas não passe de uma figura de segundo plano na política portuguesa, tem tido uma notoriedade e uma importância políticas demasiado  desproporcionadas em relação ao seu peso eleitoral. Cansa vê-lo e cansa ouvi-lo, sobretudo quando exibe ares de estadista e tiques de espertalhão, ou quando insinua que defende Portugal como ninguém, o que não é verdade.
Quando em Julho de 2013 apresentou o seu irrevogável pedido de demissão, porque ficar no governo seria um acto de dissimulação, parecia dar por findo o seu período de incessantes viagens por todo o mundo, que o tinham transformado num verdadeiro frequent flyer. Mas não resistiu e ficou. Deu o dito por não dito, envergonhando aqueles que nele tinham votado. Ainda lhe encomendaram a reforma do Estado, mas não foi capaz. O que ele quer é viajar, sobretudo quando são os outros a pagar. São difíceis de enumerar os países por onde o tem viajado, pois vão da China à Turquia, de Moçambique ao Brasil, da Índia a Angola. Sempre acompanhado por dezenas de empresários e, certamente, por alguns amigos jornalistas. Coleccionando comendas. Vendendo dívida e vistos gold. Inaugurando ginásios. Oferecendo as empresas portuguesas a interesses e dinheiros mais ou menos obscuros.
Agora o irrevogável voltou ao México com uma comitiva de mais de cinco dezenas de empresas, apregoando que Portugal é um sucesso nas economias europeias, como se os mexicanos não soubessem que não somos nada disso. Assinaram-se contratos já antes negociados, apenas para alimentar a sua propaganda pessoal. Não é sério fazer isso. Acabou por ouvir dizer que Portugal investe pouco no México e por ser ignorado por Carlos Slim.
Porém, numa lógica de custo-benefício, é necessário saber quanto têm custado todas estas viagens aos contribuintes portugueses e que benefícios reais têm trazido ao nosso país. Como contribuinte, os discursos da propaganda não me tranquilizam. É urgente que essa análise seja feita e se conheça a verdadeira dimensão desta continuada operação de propaganda.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Ronaldo é o nosso mais famoso cidadão

Na sua imparável afirmação à escala global que é alimentada por uma auto-promoção sem paralelo no planeta, a indústria do futebol e a imprensa que a serve vão alimentando os entusiasmos dos adeptos e assegurando a sua viabilidade com as mais diversas iniciativas. A atribuição de prémios é uma delas e acontece um pouco por toda a parte, sendo de destacar a Bota de Ouro da UEFA, atribuída anualmente ao melhor marcador dos países membros da UEFA e a Bola de Ouro da FIFA, também atribuída anualmente ao melhor jogador de futebol do mundo. Para além destes dois prestigiados e cobiçados prémios de âmbito internacional, a imprensa desportiva e outras entidades tratam de criar prémios nacionais.
No caso da Espanha, a Liga de Fútbol Profesional (Liga BBVA) atribui todos os anos diversos prémios aos futebolistas que mais se destacaram, através do voto dos três capitães de cada equipa da Liga. Ontem, realizou-se a habitual e imponente cerimónia da entrega dos onze prémios relativos à época de 2013-2014: o melhor jogador, o melhor guarda-redes, o melhor defesa, o melhor médio defensivo, o melhor médio de ataque, o melhor avançado, a revelação, o melhor treinador, o melhor africano, o melhor americano e o melhor golo. Pois Cristiano Ronaldo não ganhou um, mas três troféus – o melhor jogador, o melhor atacante e o autor do melhor golo. No Museu CR7 na cidade do Funchal já se encontram 145 troféus. Passam a ser 148. Como aqui temos referido algumas vezes, ele é o mais famoso português da actualidade.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Afeganistão: o elevado preço da guerra

Na sequência do ataque de 11 de Setembro de 2001 às Torres Gémeas e da recusa do regime talibã em fazer a entrega aos americanos dos líderes da Al-Qaeda instalados no Afeganistão, os Estados Unidos decidiram atacar o regime afegão com o alegado objectivo de encontrar Osama bin Laden. Assim, no dia 7 de Outubro de 2001, os americanos e alguns países ocidentais que se lhes juntaram, começaram a bombardear o Afeganistão, enquanto no terreno actuavam as forças afegãs da Aliança do Norte, adversárias do regime talibã. A intervenção americana foi feita sem qualquer mandato das Nações Unidas, mas como os talibãs depressa perderam Cabul, logo o Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu criar uma Força Internacional de Assistência para a Segurança (ISAF) para intervir no Afeganistão que veio a ser comandada pela NATO. A partir de então aumentou o número de países que destacaram forças militares para o Afeganistão e, em Dezembro de 2008, o ISAF já tinha no terreno mais de 50 mil militares de 41 países, provenientes sobretudo dos países da NATO.
Os Estados Unidos chegaram a ter 68 mil soldados no terreno e até Portugal, apesar de todas as dificuldades económicas e financeiras por que tem passado, decidiu destacar forças para o Afeganistão na lógica do "bom aliado".
Segundo a generalidade dos comentadores a situação afegã está controlada pelas suas forças políticas e militares democráticas. Por isso, a Holanda tornou-se em 2010 o primeiro membro da NATO a retirar as suas tropas do Afeganistão. Agora, foi o Reino Unido, que tendo sido a segunda presença mais numerosa no terreno com 9500 soldados e que já tinha reduzido a sua força para 5200 militares, veio anunciar que vai retirar definitivamente as suas forças do Afeganistão. Naturalmente, a impresa britânica deu grande destaque a essa notícia e, na sua primeira página, a edição do Daily Mirror fez o balanço da intervenção britânica no Afeganistão, salientando que finalmente a guerra está a terminar e que, depois de 13 anos, as forças britânicas tiveram 453 mortos e 2188 feridos, para além de um gasto de 37 mil milhões de libras, algo mais do que sucedeu na guerra das Falklands. Um preço muito elevado, indeed!

sábado, 25 de outubro de 2014

Que o Brasil escolha com sabedoria

Amanhã, cerca de 141 milhões de brasileiros vão escolher o Presidente da República que dirigirá o país durante os próximos 4 anos. O candidato que for eleito vai ter sobre os seus ombros a condução do mais importante país da América Latina que é uma referència na comunidade internacional e que é o quinto mais extenso e o quinto mais populoso país do mundo, que também é a sexta maior economia do mundo.
O Brasil é o país do futebol e do carnaval, mas também é um país de sofisticadas tecnologias nas indústrias aeronáuticas, aeroespaciais e petroquímicas, sendo o maior produtor sul-americano de automóveis, um grande produtor agro-industrial e um pioneiro mundial na exploração petrolífera em águas profundas. Porém, o Brasil também exibe a outra face da moeda, em que se destacam as enormes desigualdades sociais, os acentuados desequilíbrios regionais e os elevados níveis de corrupção.
Segundo indicam as sondagens, os dois candidatos que amanhã se defrontam – Dilma Rousseff e Aécio Neves – estão tecnicamente empatados. Por isso, ainda há um certo grau de incerteza quanto ao provável vencedor, mas a radicalização dos discursos e das propostas feitas durante a campanha eleitoral levaram a uma acentuada bipolarização do eleitorado e da sociedade brasileira, embora se espere que o vencedor tenha a sabedoria bastante para rapidamente unir todos os brasileiros em torno de ideais, valores e projectos comuns. A bem do progresso, da democracia e do bem-estar de todos os brasileiros.
Muitos portugueses vão acompanhar com interesse o que vai acontecer amanhã no país de Machado de Assis, Santos Dumont, Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Pelé e Ayrton Senna. Uns torcerão por Dilma Rosseff e outros por Aécio Neves. Eu confio na sabedoria dos brasileiros e na sua escolha, esperando também que o novo Presidente da República saiba manter e reforçar os laços históricos, culturais e afectivos que unem o Brasil e Portugal.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A luta por Kobani continua muito acesa

O cerco à cidade síria de Kobani já se prolonga há várias semanas e as notícias que nos chegam são muito contraditórias, pois enquanto algumas delas nos informam que os sitiantes jihadistas estão a perder terreno, outras asseguram que a resistência curda que defende a cidade está a chegar aos limites. Porém, a intervenção da aviação aliada parece ter alterado a situação no terreno, assim como a recente autorização turca para que os reforços curdos pudessem juntar-se aos resistentes de Kobani.
As televisões mostraram que a ajuda aliada está a chegar à cidade pelo ar, mas também mostraram que alguns dos lançamentos efectuados cairam em mãos erradas, o que revela que a área controlada pelas forças curdas é muito restrita.
Porém, um retrato da violência que está a passar por Kobani encontra-se hoje em vários jornais internacionais, designadamente na edição do USA TODAY. A partir de Yumurtalik, uma aldeia situada no lado turco da fronteira, o fotojornalista Bulent Kilic da Agência France-Presse captou imagens do monte Tilsehir, sobranceiro à cidade de Kobani, alguns momentos antes de ser atacada pela aviação americana e alguns momentos depois. É uma sequência de imagens impressionante, da qual o USA TODAY apenas publicou duas dessas fotografias na sua primeira página. A fotografia daquela colina na qual os jihadistas tinham hasteado a sua bandeira tinha corrido o mundo, pelo que a sequência agora divulgada é, no plano simbólico, uma pesada derrota para aquelas forças.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Paris está sempre na liderança cultural

No passado dia 20 de Outubro o Presidente François Hollande inaugurou em Paris, o novo edifício-museu da Fundação Louis Vuitton que foi projectado pelo arquitecto canadiano Frank Gehry. Segundo foi divulgado, a ideia deste projecto nasceu em 2001 quando os responsáveis da Fundação visitaram o Museu Guggenheim em Bilbau e decidiram entrar em contacto com o seu autor.
Passados estes anos, a inauguração do novo edifício constituiu um acontecimento relevante no panorama cultural francês, até porque os seus quase 120 mil metros quadrados demoraram sete anos a ser construídos. Segundo Frank Gehry, aquele espaço foi projectado para “criar em Paris um magnífico navio que simbolizasse a cultura francesa”. O jornal Le Parisien rendeu-se à arquitectura do novo edifício e em título de primeira página escreveu que “Paris é a cidade de todas as obras-primas”, o que sendo uma frase exemplar do famoso chauvinismo francês, não deixa de ser verdade.
O novo espaço é dedicado à criação e à arte contemporâneas e abre um novo capítulo na vida cultural francesa, tornando-se também num novo pólo de atracção na já riquíssima oferta cultural francesa.
Amanhã inicia-se o programa cultural que assinalará a abertura do museu ao público que ocorrerá no próximo dia 27, embora o programa da inauguração seja vasto e se desenvolva em três fases, entre Outubro de 2014 e Setembro de 2015, sempre com uma programação que inclui uma exposição, a apresentação de uma parte da coleccção do museu e um programa cultural específico. É com este tipo de iniciativas culturais que a França e a sua capital  se mantém na liderança cultural europeia e conseguem ser o principal destino do turismo internacional.