sexta-feira, 6 de maio de 2016

A união dos portugueses do Luxemburgo

Na sua edição de hoje o diário luxemburguês Le Quotidien homenageia a comunidade portuguesa com um título e uma fotografia de primeira página, a propósito da 49ª peregrinação ao santuário de Nossa Senhora de Fatima em Wiltz.
Tous unis autour de Fatima é o título escolhido pelo jornal para noticiar que milhares de portugueses se dirigiram ontem para Wiltz. Aproveitando um dia de sol radioso, os peregrinos montaram as suas tendas à beira das estradas e fizeram os seus piqueniques em que, segundo salienta o jornal, o bacalhau assado foi rei. A cerimónia religiosa realizada no santuário de Wiltz foi presidida por D. António Francisco dos Santos, o Bispo do Porto, tendo-se seguido uma procissão até à capela de Noertrange. Como refere o jornal, foi um dia de festa e de união entre a comunidade portuguesa do Luxemburgo, que não dispensou a sua bandeira nacional como mostram as fotografias publicadas pelo mesmo diário.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

JRS, um grande manipulador televisivo

Nos últimos dias estalou uma curiosa polémica no espaço público onde se interceptam os interesses da Política e do Jornalismo que, pela sua enorme sensibilidade, muitas vezes dão origem a mal-entendidos.
Os políticos e os jornalistas não perseguem exactamente os mesmos objectivos e a mesma verdade. Embora ambos procurem influenciar a opinião pública, uns visam os favores do eleitorado, enquanto outros visam influenciar os seus leitores. Como os leitores também são eleitores, significa que políticos e jornalistas “pescam nas mesmas águas”.
Todos sabemos que, em geral, os políticos não são perfeitos, mas também sabemos que os jornalistas são geralmente muito imperfeitos e se comportam muitas vezes como agentes político-partidários. A mensagem por eles transmitida não tem apenas um determinado conteúdo, mas também tem um emissor e um meio de transmissão, sobretudo com a televisão. Assim, as mensagens transmitidas tornam-se muito perigosas para a sociedade, porque “o que eles dizem” tem um efeito semelhante a “balas mágicas” que influenciam ou manipulam os “indefesos” leitores, ouvintes e telespectadores.
José Rodrigues dos Santos (JRS) sabe isso muito bem e certamente conhece o livro “You are the message” de Roger Ailes. A sua recente apresentação na RTP sobre a dívida pública portuguesa é um caso de desonesta manipulação. Embora o texto que leu pelo teleponto estivesse formalmente correcto e mostrasse que a dívida pública portuguesa sobe regularmente desde 2000, o jornalista resolveu encená-lo ao pior estilo dos talk shows, transformando numa palhaçada aquilo que podia ser um esclarecimento ou uma notícia. Só lhe faltou a bandeirinha na lapela para fazer uma leitura ainda mais distorcida dos gráficos que apresentou. JRS podia ter dito, mas não disse, que a dívida resulta em larga escala da moeda única e de outras causas muito complexas, incluindo o despesismo da sua RTP, preferindo insinuar que tudo resultava da acção dos seus adversários políticos. JRS tem obra escrita sobre Comunicação e sabe que manipulou e que não foi honesto, o que com ele acontece muitas vezes. É muito grave, para quem tanta ganha e tão pouco faz na RTP, este seu papel de banal mensageiro de interesses partidários.

Marcelo em busca da paz em Moçambique

Desde que tomou posse como Presidente da República, no dia 9 de Março, que Marcelo Rebelo de Sousa tem mantido a corda esticada e actuado com o ritmo frenético que lhe conhecemos desde há muitos anos. Em menos de dois meses, o Presidente Marcelo mostrou como o indivíduo que antes dele ocupou o Palácio de Belém foi um enorme erro de casting, ao mesmo tempo que acumula pontos na escala da popularidade. Aqueles que há bem pouco tempo foram afastados do poder e que a princípio esperavam que dele viesse um apoio divisionista enganaram-se, porque Marcelo não tem alinhado no discurso do bota-abaixo e tem procurado que o ambiente político melhore. Os portugueses, mesmo os que nele não votaram, estão-lhe agradecidos pela inteligência e bom senso com que tem conduzido a relação com o governo e a forma descomplexada como tem reagido à tacanhez e à mediocridade do rapazola de Massamá e da sua cada vez mais reduzida corte de acólitos. É verdade que os ventos fortes e as tempestades virão mais tarde, mas o facto é que neste seu curto tempo de mandato, Marcelo introduziu alegria e optimismo na vida política e social portuguesa, ao contrário do que aconteceu com o Silva de Boliqueime.
Marcelo está de visita a Moçambique, aparentemente sem as grandes comitivas do passado. O jornal moçambicano O País destaca hoje essa visita na sua primeira página e, perante as grandes dificuldades económicas e financeiras por que passa o país e as ameaças de guerra, é bem possível que Marcelo Rebelo de Sousa esteja a trabalhar para a paz em Moçambique. Sim, Marcelo não foi revisitar praias e o que eu lhe posso desejar é que tenha sucesso nesta sua discreta e importantíssima viagem.

domingo, 1 de maio de 2016

R.I.P. Paulo Varela Gomes

Depois de cerca de quatro anos de uma corajosa luta contra a doença, o Paulo Varela Gomes partiu ontem de manhã da sua casa de Podentes, próximo de Penela, deixando um enorme vazio na cultura portuguesa e, de maneira muito especial, no domínio da relação cultural e da amizade entre Goa e Portugal, matéria em que era um dos maiores e mais respeitados especialistas portugueses, sobretudo depois de, entre 1996 e 1998 e entre 2007 e 2009, ter vivido em Goa como representante da Fundação Oriente na Índia.
A Universidade de Coimbra e a comunidade académica também perderam um dos seus maiores expoentes como historiador de arte e, sobretudo, como historiador de arquitectura, conforme atesta a originalidade da sua extensa obra académica, dispersa por monografias, intervenções mediáticas, conferências e intervenções de carácter científico, quer no país quer no estrangeiro. A sua versatilidade intelectual e a sua polivalência no domínio de temas complexos revelou-se igualmente na ficção, na crítica literária e nas obras que publicou nos últimos anos, que a crítica reconheceu e o público apreciou.
Os seus amigos também perderam um companheiro de superior inteligência e de grande erudição, amante da liberdade e da democracia, de discurso assertivo e frontal, cuja intervenção no espaço público se pautou sempre por uma atitude de grande coragem intelectual, vastos conhecimentos e uma enorme coerência cívica. Era um comunicador excepcional e ninguém esquecerá a sua notável participação na série televisiva “O mundo de cá”, o que levou a que a RTP lhe prestasse ontem à noite uma uma justa homenagem, ao transmitir um dos episódios dessa série gravada na Índia e no Sri Lanka em 1995.
Tive o privilégio de o ter conhecido e de com ele ter convivido durante cerca de duas dezenas de anos, dele recebendo sempre muitos ensinamentos, muita camaradagem e muita amizade. A nossa viagem a Diu em Setembro de 1998 e a demorada visita que fizemos à ilha conduzindo rudimentares motocicletas, continuam gravadas na minha memória.
O Paulo foi um grande Homem e teve a dedicada companhia da Patrícia, uma verdadeira mulher-coragem que aqui também justamente evoco.
O Paulo, a sua inteligência e a sua bondade vão fazer-nos muita falta.

sábado, 30 de abril de 2016

As fortalezas lusas do Algarve d’Além-Mar


A cidade portuguesa de Mazagão (El Jadida)

Durante alguns dias fui conhecer Ceuta e alguns locais da costa atlântica de Marrocos, a começar por Alcácer-Ceguer, Arzila e Tânger, a que se seguiram Azamor, Mazagão e Safim, onde as fortificações portuguesas com as suas muralhas e bastiões integram o património arquitectónico local e impressionam pela sua grandiosidade e até pelo seu estado de conservação. A aventura portuguesa em Marrocos começou em 1415 com a conquista de Ceuta, a que se seguiu a tomada de Alcácer-Ceguer (1458) e, depois, de Arzila e de Tânger (1471), pelo que o rei D. Afonso V passou a usar o título de “Rei de Portugal e dos Algarves, d’Áquem e d'Além-Mar em África”.
O senhorio português sobre este Algarve d’Além-Mar, nome que designava o conjunto de praças dominadas pelos portugueses no Norte de África, alargou-se com a ocupação de Safim (1508) e a conquista de Azamor (1514), a que se seguiu a construção de uma nova cidade em Mazagão. A orla costeira marroquina e o acesso ao mar Mediterrâneo, assim como as actividades marítimas na região, passaram a estar controlados pelos portugueses, embora pareça ser incontroverso que, por falta de meios, nunca procuraram o domínio territorial, tendo inclusive abandonado algumas das praças que dominavam. Após a restauração da independência em 1640, a praça de Ceuta optou por permanecer sujeita à coroa espanhola e em 1662 a praça de Tânger foi cedida à coroa inglesa como dote de D. Catarina de Bragança aquando do seu casamento com Carlos II de Inglaterra. Ficou Mazagão como a única fortaleza portuguesa, mas que veio a ser abandonada em 1769 por decisão régia.
Em 2004 as fortificações portuguesas de Mazagão, que hoje se integram na cidade de El Jadida, foram classificadas como património da Humanidade pela UNESCO e hoje são a melhor das memórias portuguesas em Marrocos.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Grandes talentos, grandes aumentos

Há algumas semanas atrás foi revelado com grande polémica à sua volta, que o gestor português Carlos Tavares, actual presidente do grupo PSA Peugeot Citroën, tinha quase duplicado as suas remunerações de 2014 para 2015, passando dos 2,75 para os 5,2 milhões de euros. Muita gente se indignou com esta notícia, incluindo o primeiro-ministro francês Manuel Valls e os dois representantes estatais no conselho de administração daquele grupo automóvel, mas também os sindicatos, porque entendem que esta remuneração não corresponde à realidade em que vivem os assalariados  franceses.
Hoje o diário económico La Tribune retoma esse assunto, destacando a fotografia de Carlos Tavares na sua primeira página e divulgando um estudo sobre as remunerações dos gestores das 40 empresas que integram o CAC 40 (Cotation Assistée en Continu), o mais importante índice bolsista francês. Esse estudo revela que em 2015 o envelope remuneratório dos gestores do CAC 40 aumentou 32% em relação a 2014 e que, no ano de 2015, Carlos Tavares foi o sétimo gestor mais bem pago em França, tendo os seus proveitos totalizado 5 202 839,87 euros, que se repartiram por 1,3 milhões de euros de salário fixo, 1,93 milhões de euros de rendimentos variáveis e 130 mil ações do grupo, valorizadas actualmente em 2,01 milhões de euros. É muito dinheiro em qualquer parte do mundo, certamente porque o mérito é muito grande, como provam os resultados que alcançou. Esse estudo “absolveu” Carlos Tavares, ao salientar que Tavares méritait bien une grosse augmentation e associa esse mérito ao facto de ter recuperado o grupo que se valorizou 58,6% na sua cotação bolsista. O tempo da mala de cartão e do bidonville já lá vai. Como os tempos mudaram para os portugueses em França!

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Um veleiro mostra a outra face do Brasil

Nos últimos tempos as notícias que nos chegam do Brasil são alarmantes, não só pela crise económica e social que se está a aprofundar, mas também pela tensão política que está a dividir o país. As cenas absolutamente condenáveis a que assistimos pela televisão são indignas de um qualquer país democrático e não se enquadram em nenhum quadro constitucional. Goste-se ou não de um Presidente da República, a Presidente da República Federativa do Brasil é um símbolo da nação brasileira e resultou da escolha do povo em eleições livres. No exercício das suas funções, pode ou não ter cometido ilegalidades, pode ou não ser destituida, mas a sua figura não pode ser julgada e insultada num ambiente em que os deputados, muitos deles acusados de corrupção e de enriquecimento ilícito, se comportaram como se pertencessem a uma vulgar torcida de futebol ou a um bando de malfeitores.
Nesse ambiente de grande tensão, a notícia que hoje nos chega de Porto Alegre através do diário ZH é bastante desanuviadora: o veleiro Cisne Branco, a que o jornal chama “embaixada flutuante” vai estar no cais de Porto Alegre e vai poder ser visitado pela população nos próximos dias. O navio pertence à Marinha do Brasil, foi construido nos estaleiros Damen Shipyard em Amesterdão e foi encomendado para as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, tendo entrado ao serviço no ano de 2000. Actualmente, representa o Brasil em eventos náuticos nacionais e internacionais, podendo ser utilizado como navio-escola. Se os deputados brasileiros pudessem visitar o Cisne Branco e inspirar-se no seu simbolismo histórico-cultural, certamente sentiriam um brutal arrepio pelo seu lamentável comportamento que envergonhou o Brasil e talvez aprendessem a tomar as suas legítimas decisões de forma ordeira e sem ofender a dignidade presidencial.

A espanholização da banca portuguesa

O diário económico espanhol Cinco Dias anunciou que a banca portuguesa está mais espanhola, antecipando já que a oferta pública de aquisição (OPA) do banco CaixaBank sobre o português BPI vai ser bem sucedida. A confirmar-se essa operação, depois do Banif ter sido engolido pelo Santander, teremos mais um passo no sentido da chamada espanholização da banca portuguesa.
Porém, o assunto é muito complexo e muito confuso para quem não acompanha as negociatas da finança, porque envolve muita gente. Tudo começou com o BCE a impor as regras da harmonização bancária da União Europeia e a exigir que os dois principais accionistas do BPI, respectivamente o espanhol CaixaBank (44,09%) e a angolana Santoro Finance, Prestação de Serviços (18,57%) se entendessem em relação ao exercício do poder no governo do banco, um problema que interessa à economia e ao sistema financeiro português. Tudo parecia correr bem. A Santoro Finance cedia a sua participação ao CaixaBank e a Santoro Finance ficava com a posição indirecta que o CaixaBank tem no banco angolano BFA. Era uma quase troca e as autoridades portuguesas festejaram o bom sucesso do entendimento e o fim da guerra pela disputa no BPI, mas foi sol de pouca duração. Poucos dias depois a Santoro Finance veio recusar o acordo, quando a imprensa angolana já anunciava que “Isabel dos Santos era maioritária no BFA” e a imprensa espanhola anunciava o domínio do BPI pelo Caixa Bank. Então, o CaixaBank arrancou com uma OPA sobre o BPI e começou a tratar de arranjar 1600 milhões de euros para o efeito, enquanto a Santoro Finance terá dado um passo atrás e já admitiu voltar à mesa das negociações. É preciso que o bom senso regresse, mas não há dúvidas que a “nossa” banca só nos dá dores de cabeça. E não deixa de ser curioso lembrar a arrogância com que essa mesma banca sempre nos tratou nos tempos das vacas gordas.

terça-feira, 19 de abril de 2016

As muito famosas trabalhadoras da moda

Nem a problemática, nem os protagonistas da indústria da moda me interessam muito, mas a frequência com que são tratados nos mass media e as contínuas aparições das trabalhadoras da moda, sobretudo na televisão e nas capas das revistas que estão penduradas nos quiosques, acabam por produzir algum efeito, mesmo naqueles que, como eu, são mais avessos à moda e às suas circunstâncias.
Acontece que, desde há muitos anos, sou bombardeado pela figura de Sara Sampaio, uma jovem portuense de 24 anos de idade que é trabalhadora da moda e que tem sido promovida internacionalmente como modelo ou como supermodelo. Parece que ficou conhecida depois de ganhar em 2007 um concurso chamado Cabelos Pantene, quando ainda era adolescente e, depois, foi só avançar numa profissão que parece ser muito exigente e muito competitiva. Naturalmente que teve sorte, que foi muito ajudada e que passou a aparecer por todo o lado, porque é inteligente ou porque tem tido um bom gestor de carreira. As revistas femininas e outras passaram a informar o que ela faz e o que não faz. Por onde anda e por onde não anda. Quem é ou quem não é o seu namorado. A sua notoriedade só é ultrapassada por alguns futebolistas e a Judite de Sousa, a Catarina Furtado e a Bárbara Guimarães devem roer-se de inveja desta miúda, até porque a sua fotografia não passa para além da TV Guia ou das revistas cor de rosa portuguesas.
Não é um tema que me interesse muito, mas o facto de Sara Sampaio ser escolhida e paga para aparecer na capa das grandes revistas internacionais de moda, leva-me a mostrar a capa da última edição francesa da ELLE, a maior revista de moda do mundo, que publica 42 edições em 60 países e que em França tem uma circulação de um milhão de cópias.
A fama até parece torná-la uma espécie de Cristiano Ronaldo de saias, embora ela nunca use essa peça de vestuário, como se pode verificar nas suas galerias de fotos.

Amadeo volta a Paris cem anos depois

Foi ontem inaugurada no Grand Palais de Paris, com a presença do primeiro-ministro português e da presidente da Câmara Municipal de Paris, uma exposição dedicada à obra de Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918), que se realiza no âmbito das comemorações dos 50 anos da delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian.
Natural de Manhufe, próximo de Amarante, Amadeo viveu em Paris entre 1906 e 1914 e esteve no centro das vanguardas internacionais da arte do seu tempo e, curiosamente, expôs no Grand Palais durante o Salón de Automne de 1912. No ano seguinte participou na exposição internacional de Arte Moderna, em Nova Iorque, Chicago e Boston, tendo vendido sete das oito obras que expusera.
Agora, a exposição do Grand Palais que o JL nos apresentou na sua última edição, revela cerca de 250 obras de Amadeo correspondentes a uma densa produção artística, com registos muito diversos que vão do cubismo ao surrealismo, com largas referências ao seu mundo rural de Manhufe e ao mundo moderno e cosmopolita de Paris.
O grande objectivo desta exposição é internacionalizar Amadeo como grande figura da arte portuguesa. Antes de Amadeo, esteve Picasso e, antes dele, Velázquez. Por estes dias, na loja do Grand Palais haverá catálogos de Amadeo, discos de fado, azulejos e livros de Sophia de Mello Breyner. É uma grande iniciativa cultural portuguesa que vai estar em Paris até 18 de Julho e bom seria que, com o seu indiscutível peso, a Fundação Calouste Gulbenkian também trouxesse esta mostra até nós. Depois de feiras de vinhos e de presuntos que marcaram a nossa presença internacional nos últimos anos, aqui temos uma iniciativa que nos orgulha!

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O Brasil tremeu com o voto dos deputados

O plenário da Câmara dos Deputados brasileira aprovou ontem a abertura do processo de destituição da Presidente Dilma Rousseff por 367 votos a favor, 137 contra, 7 abstenções e 2 ausências, numa sessão marcada por grandes protestos e por dura troca de acusações. Muitos milhares de brasileiros assistiram àquele espectáculo que foi transmitido por todo o país em écrans gigantes, num ambiente mais próximo do futebol e do carnaval do que da gravidade política da situação. A generalidade da imprensa brasileira, caso do Estado de S. Paulo, alinhou nessa onda de euforia pelo avanço do impeachment, mas nos jornais estrangeiros há um clima de apreensão pelo que pode acontecer no futuro, com a proximidade dos Jogos Olímpicos, a recessão económica e a crise generalizada, o que pode dar origem a uma grave situação política e social de radicalização e de contornos imprevisíveis.
No estrangeiro há sempre muita dificuldade em perceber o que se está a passar porque existe um grave problema interno no Brasil, que só os brasileiros poderão compreender e resolver. No entanto, a decisão dos deputados parece ser uma decisão desproporcionada e que abre o caminho não só à destituição da Presidente eleita do Brasil, mas também ao descrédito internacional do país e ao desprestígio das suas instituições. Para um português, que é um estrangeiro especial porque fala a mesma língua dos brasileiros, que compreendeu o que foi dito e que ouviu a gritaria e os insultos dos deputados, a dificuldade ainda é maior porque sabe que cerca de 60% dos deputados presentes na sala, incluindo o seu presidente Eduardo Cunha, têm causas pendentes na Justiça, algumas delas bem graves. Ninguém vai achar normal esta forma brasileira de deitar abaixo os seus Presidentes eleitos pelo povo: ontem foi Collor de Mello, hoje é Dilma Rousseff. Aqueles deputados foram longe de mais. A imprensa internacional está estupefacta. Ninguém compreende aquele julgamento político.
A partir de agora os amigos do Brasil ficam muito apreensivos com o que se possa passar.

Aqui tão perto, a Polisário não dorme

Aqui bem perto de nós há algumas situações de tensão cujas características e níveis de preocupação são bem diversos. Uma dessas situações é a questão do Saara Ocidental.
O Saara Ocidental é uma antiga colónia que a Espanha abandonou em 1975, sem infraestruturas e com um população nómada e totalmente analfabeta, que faz fronteira terrestre com Marrocos, Argélia e Mauritânia. Os saaráuis fundaram a Frente Polisário (Frente Popular para la Liberación de Saguía el-Hamra y de Río de Oro) e em Fevereiro de 1976 proclamaram a independência da República Árabe Saaraui Democrática (RASD), que tem um governo no exílio, reconhecido por cinco dezenas de países. Com a saída espanhola do território, o reino de Marrocos e a Mauritânia ocuparam o Saara Ocidental invocando direitos históricos, mas a Frente Polisário conseguiu expulsar a Mauritânia. Dessa forma, o conflito passou a colocar frente a frente o reino de Marrocos e a Frente Polisário ou, como se diz, Marrocos e a Argélia, que é a grande aliada da Frente Polisário. Enquanto Marrocos oferece uma ampla autonomia ao território sob a soberania marroquina, a Frente Polisário reclama a autodeterminação e a independência do território através de um referendo.
As Nações Unidas intervieram a partir de 1991 e conseguiram que fosse assinado um cessar-fogo e, com base na Resolução 690 do Conselho de Segurança, estabeleceram a MINIURSO (Misión de las Naciones Unidas para el Referéndum del Sáhara Occidental), exactamente para organizar o referendo, mas passados cerca de 25 anos não o conseguiram. Agora, exilado na cidade argelina de Tindouf, que é a sede do governo saaráui no exílio, o presidente Mohamed Abdelaziz fala ao El Watan de Argel para criticar a ineficiência da ONU, denunciar as violações dos direitos humanos no território ocupado pelos marroquinos e avisar que poderá voltar a pegar em armas. Muita gente pensa que a questão é uma pequena borbulha sem importância, mas tem-se visto que certas borbulhas geraram processos inflamatórios que se transformaram em grandes epidemias.

sábado, 16 de abril de 2016

A poesia como farol da língua portuguesa

Se é verdade que, ao longo de mais de quatro séculos, a língua portuguesa nunca se impôs em Macau, também é verdade que há muita gente, mesmo depois da transferência da soberania para a República Popular da China, que insiste na defesa do português e não se cansa de ter iniciativas para a sua promoção. É muito louvável. Assim, por iniciativa do Instituto Politécnico de Macau, realizou-se ontem a 11ª edição do Concurso de Declamação de Poesia em português, uma oportunidade para que a comunidade estudantil chinesa celebre e preste homenagem à língua portuguesa.
De acordo com a organização, o evento visa, sobretudo, “estimular o gosto pela língua portuguesa, pelas culturas e literaturas” e promover o intercâmbio e o diálogo entre as instituições de ensino superior da República Popular da China, onde o português é leccionado.
O acontecimento contou com a presença de doze instituições de ensino superior, mais cinco do que era habitual, incluindo oito do interior da República Popular da China, tendo o número de alunos em competição atingido as 32 participações.
O Jornal Tribuna de Macau destacou a realização deste Concurso com uma fotografia na sua primeira página, mas refere apenas os desempenhos de duas participantes: Li Ruiping que disse o “Poema do Silêncio” de José Régio e Chan Kit Ieng, que concorreu com “A Flor e a Náusea” de Carlos  Drummond de Andrade. É pena que o jornal não nos tenha dado mais informação sobre esta tão interessante iniciativa.

A tourada supera o futebol em entusiasmo

A edição sevilhana do diário ABC relata hoje com grande destaque a 13ª corrida de toiros da Feria de Sevilla que se realizou ontem na Real Maestranza de Sevilla, com a praça cheia para assistir à actuação dos diestros Morante de la Puebla, El Juli e Andrés Roca Rey.
Segundo informa o jornal, enquanto El Juli sofreu uma cornada de 15 centímetros que o mandou para o hospital, o matador Morante de la Puebla teve uma faena de ensueño. O jornal não se poupa em elogios e, na sua primeira página, titula que Sevilla enlouquece con Morante e, mais adiante, num pormenorizado relato da corrida, diz que Morante de la Puebla, por fin, toca el cielo. Não admira, pois Morante é filho da terra.
Morante de la Puebla é o nome artístico de José António Morante Camacho, um toureiro espanhol de 36 anos de idade que nasceu em La Puebla del Rio, nos arredores de Sevilha. A fazer fé no que diz o jornal, a feliz actuação de Morante de la Puebla entusiasmou as 12.700 pessoas que encheram a praça mais famosa e com mais tradição taurina de Espanha e que é classificada como BIC, isto é, “bem de interesse cultural”.
Embora eu não seja aficionado e só consiga ver corridas de toiros à portuguesa, reconheço que a festa brava é um acontecimento cultural muito apreciado e com grande tradição em algumas regiões portuguesas e em muitas regiões espanholas. Na Andaluzia parece mesmo superar o entusiasmo pelo futebol, como atesta a fotografia de primeira página e a desenvolvida reportagem publicada na edição de hoje do diário ABC, num tempo em que parecia que o futebol e a política estariam a concentrar as atenções da cidade. 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Há dívidas para todos os gostos

Na edição da revista TIME que agora foi posta a circular é apresentada com grande destaque a impressionante dívida dos Estados Unidos que atinge 13,903,107,629,266 dólares, isto é, 13,9 triliões de dólares, o que corresponde a 42,998,12 dólares per capita. A revista pergunta depois se o país pode pagar esta dívida e lança uma palavra de ordem: make America solvent again.  O assunto interessa-nos, porque Portugal também tem uma grande dívida pela qual paga anualmente alguns milhares de milhões de euros que satisfazem a gula devoradora dos tenebrosos mercados e que tanta falta nos fazem para melhorar a nossa vida económica e social.
A questão do montante da dívida tem sempre alguma controvérsia porque há dívida externa e dívida interna, há dívida pública e dívida privada e, muitas vezes, atiram-nos com um número sem que seja esclarecido a que dívida se refere o valor anunciado. Para tornar o tema ainda mais controverso, a dívida é por vezes tomada pelo seu valor global, outras vezes é referenciada em relação ao PIB e outras vezes é apresentada em relação ao número de habitantes do país. Portanto, há dívidas para todos os gostos.
Para estudar o assunto em termos comparativos fomos analisar a informação disponibilizada pela conhecida agência de notícias financeiras Bloomberg e, embora os números não coincidam com outras fontes, permitem-nos concluir que os grandes devedores mundiais em termos de dívida per capita são o Japão, a Irlanda, os Estados Unidos e Singapura.
Depois, no ranking da Bloomberg aparecem a Bélgica, a Itália, o Canadá e a França, seguidos pelo Reino Unido, a Suiça, a Áustria e a Grécia. E vão doze! A Holanda, a Alemanha, a Noruega, a Espanha, a Finlândia e a Dinamarca, têm dívidas per capita superiores à dívida portuguesa, que é a 19ª deste ranking e que é apresentada como sendo de 26,770 dólares per capita (quase metade da dívida americana) e que em 2014 correspondia a 125,3% do PIB. Fiquei admirado. Depois de tudo o que foi dito nos últimos anos sobre a nossa dívida e de sermos acusados de viver acima das nossas possibilidades, verificamos que há por aí  muito boa gente que era melhor estar calada e que pensasse numa solução para podermos sair desta armadilha.