sexta-feira, 9 de junho de 2017

Macau, a herança portuguesa e a UNESCO

O território de Macau que desde 1999 constitui a Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China, viu em 2005 o seu centro histórico ser inscrito pela UNESCO na lista do Património Cultural da Humanidade. Esse centro histórico inclui estruturas construidas desde o século XVII e estilos arquitectónicos em que se misturam a tradição portuguesa e a tradição chinesa.
Segundo a edição do hojemacau, o Comité do Património Mundial da UNESCO alertou recentemente o governo de Macau por não estar a dar cumprimento às exigências resultantes daquela classificação e, em especial, pela não entrega do Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico de Macau, ao mesmo tempo que mostrava preocupação pela construção de prédios altos e novos projectos de aterro, que colocam em causa a visibilidade do Farol da Guia e da Colina da Penha.
O problema parece ser sério e, aparentemente, tem a ver com o facto de existirem em Macau grandes interesses imobiliários ligados a entidades que sempre foram poderosas, quer durante a administração portuguesa, quer na actualidade. Essa é uma das razões porque não existe um verdadeiro plano director municipal e porque não funciona o regime relativo à salvaguarda do património cultural que existe desde 2013.
Por isso, o Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico de Macau exigido pela UNESCO desde 2013 corre riscos de não ver a luz do dia e Macau corre o risco de ser retirado da lista do Património Mundial da Humanidade, o que seria bem triste para o nosso orgulho pela herança cultural e pelo património arquitectónico que deixamos na Ásia Oriental.

Manuel Alegre vence Prémio Camões 2017

Manuel Alegre venceu o Prémio Camões 2017, o maior prémio da literatura portuguesa. É um justo prémio para um homem que além do talento literário, cultiva a arte poética de uma forma apaixonante e cuja experiência de vida de militância em grandes causas tem sido exemplar.
Como poeta, Manuel Alegre destacou-se com A Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), que foram apreendidos pelas autoridades do Estado Novo, mas que tiveram grande circulação nos meios intelectuais e estudantis, tendo marcado o seu percurso político de combate contra a ditadura e a guerra colonial. Estas obras ainda constituem referenciais para uma geração e muitos dos seus poemas popularizaram-se nas vozes de Adriano Correia de Oliveira, José Afonso e Amália Rodrigues.
Manuel Alegre foi uma voz de esperança que denunciou a opressão salazarista, a violência da emigração e da guerra, o que lhe custou a prisão e o exílio. O prémio que justamente lhe foi atribuido destaca o conjunto da sua obra literária mas, muitos como eu, acharão que só aquelas duas obras justificariam o Prémio Camões.
O prémio Camões foi instituido em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil para galardoar os autores que tenham contribuido para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa e, de entre os 29 escritores já premiados, encontram-se 12 escritores portugueses. Manuel Alegre junta-se a Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Sophia de Melo Breyner, José Saramago e Eugénio de Andrade, entre outros. Desta vez o jornal Público escolheu bem a sua capa e ao fazer de Manuel Alegre a notícia do dia.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A nova esperança das eleições angolanas

As eleições gerais angolanas estão marcadas para o dia 23 de Agosto e José Eduardo dos Santos (JES), que ocupa a Presidência do Estado e a chefia do Governo desde a morte de Agostinho Neto em Setembro de 1979, não é candidato. Depois de cerca de 38 anos na cadeira do poder, esta retirada de JES do poder só peca por ser demasiado tardia e por ter atrasado o progresso de Angola e ter gerado uma profunda desigualdade entre os angolanos.
Nos termos constitucionais vão ser eleitos 130 deputados por um círculo nacional  e mais 5 deputados por cada uma das 18 províncias angolanas, o que dá um total de 220 deputados. O cabeça de lista pelo círculo nacional do partido ou coligação vencedora é automaticamente eleito Presidente da República e chefe do Governo.
Nas últimas eleições realizadas em 2012 o MPLA obteve 71,8% dos votos (175 deputados), enquanto a UNITA teve 18,6% (32 deputados). A longa permanência do MPLA no poder confere-lhe favoritismo nas eleições de 23 de Agosto e o seu candidato, o general João Manuel Gonçalves Lourenço, será provavelmente o sucessor de JES. O processo eleitoral está a andar com normalidade e o Jornal de Angola anuncia hoje que já foram sorteadas as posições de cada um dos seis concorrente nos boletins de voto.
Porém, na democracia plena a que aspira a sociedade angolana, a realização de eleições é uma condição necessária, mas não suficiente. Depois de um tão longo consulado de JES e do MPLA, a sociedade angolana exige mudança de políticas, de processos e de rostos, num ambiente liberto das burocracias e das prepotências dos interesses instalados, muitas vezes envoltos em suspeitas de enriquecimento ilícito, mas também o respeito pelos direitos da oposição e das forças do progresso nacional. Nos tempos que aí vêm e até ao dia 23 de Agosto, todos vamos ter oportunidade de ver como se comportam as autoridades angolanas e como respeitam ou não respeitam os direitos da oposição, para saber se as eleições angolanas serão autênticas ou não. Cabe-lhes convencer o mundo de que Angola é realmente uma sociedade democrática.

sábado, 3 de junho de 2017

A imprensa galega e a Marinha espanhola

A Marinha espanhola celebrou ontem o 300º aniversário da criação da Real Companhia de Guardas-Marinhas com diversas cerimónias, entre as quais um desfile naval realizado nas águas da ria de Pontevedra, a que presidiu o Rei Filipe VI e a que esteve presente o Rei emérito João Carlos I. Na sua primeira página o jornal La Voz de Galicia classifica o desfile como colossal e no desenvolvimento da notícia nas páginas interiores diz que foi espectacular, isto é, a imprensa galega apreciou o acontecimento e deu-lhe a cobertura que merecia, até porque os reis estavam presentes.
Foram sete navios de guerra da Marinha espanhola a desfilar em coluna, com o porta-aeronaves Juan Carlos I a abrir, seguido pelo navio de aprovisionamento logístico Patiño, por cinco fragatas e pelo submarino Tramontana, os quais saudaram os reis embarcados no navio-patrulha Tornado. Não é comum haver tantos navios de guerra na ria de Pontevedra e, por isso, nas suas margens aglomerou-se muito público para ver e para fotografar.
Realizaram-se depois alguns exercícios demonstrativos da preparação operacional da Marinha espanhola e, de seguida, o cerimonial comemorativo passou para terra. Nas instalações da Escola Naval em Marin, a poucos quilómetros da cidade de Pontevedra, o Rei Filipe VI prestou homenagem aos marinheiros caídos pela Espanha e, porque se cumpria o terceiro ano desde que Juan Carlos I renunciara à Coroa, prestou pública homenagem a seu pai ali presente, terminando com a frase “Gracias majestad!”.
Em Portugal também tivemos recentemente o Dia da Marinha com as principais cerimónias a serem realizadas em Vila do Conde mas, ao contrário do que aconteceu em Espanha onde muitos jornais trouxeram o tema para as suas primeiras páginas, o acontecimento não mereceu qualquer destaque da imprensa portuguesa. Certamente não é porque sejamos uma República, mas apenas porque muitos jornais ainda não sabem cumprir a sua função social de informar.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Vikings, os Guerreiros do Mar

A exposição “Vikings, os Guerreiros do Mar” está patente no Museu de Marinha em Lisboa e é uma das mais interessantes exposições que actualmente se podem ver na capital.
Os vikings ou guerreiros do Norte habitaram há mais de mil anos nas regiões onde hoje estão a Suécia, a Dinamarca e a Noruega, navegaram pelas costas europeias até ao mar Negro e pela costa oriental americana. Deslocavam-se em embarcações rápidas e versáteis e atacavam as populações ribeirinhas com grande volência. Chegaram também ao território que hoje é Portugal e há registos da sua passagem por vários locais do Condado Portucalense e, mais a sul, pelos territórios islâmicos do Al-Andaluz, como Lisboa ou Alcácer do Sal.
A exposição inclui mais de seis centenas de peças originais e resulta de um conhecimento proporcionado pela investigação arqueológica, abordando muitos aspectos relacionados com a história e com a cultura viking.
Organizada pelo Museu Nacional da Dinamarca, a exposição apresenta um atraente lay out que a torna muito agradável e muito útil sob o ponto de vista didáctico, pelo que merece uma visita. A exposição está em itinerância e, antes de visitar Lisboa devido à intervenção do Museu de Marinha junto das autoridades culturais dinamarquesas, já tinha estado patente no Museu Arqueológico de Alicante.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Como o Donald ajuda a coesão europeia

O Presidente Donald Trump anunciou esta noite a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris relativo às alterações climáticas e, dessa forma, renegou um entendimento a que tinham chegado 197 países depois de longas negociações e que já tinha sido assinado pelo seu antecessor.
Esta decisão é um desafio ao mundo e uma prova da política isolacionista do Donald, tendo agravado a tensão entre os dois lados do Atlântico que já estava muito perturbada depois das cimeiras da NATO e do G7. Depois do fracasso que constituiu a primeira viagem do Donald ao estrangeiro em que tudo lhe correu mal e em que mostrou ser um ignorante em política internacional, tínhamos assistido à reacção da chanceler Merkel a afirmar  que a Europa não podia contar mais com os Estados Unidos e que os europeus teriam que agarrar as rédeas do seu próprio destino. Agora o Donald e a sua administração deram mais força às declarações de Angela Merkel porque, com a sua decisão, hostilizaram gravemente a Europa e o mundo. O Donald está cada vez mais isolado e não percebeu como é importante a preservação do planeta e o combate às alterações climáticas. Realmente, os americanos mereciam melhor.
Nesse quadro de grande incompetência e de crescente impopularidade interna e externa do Donald, têm-se revelado a firmeza de Emmanuel Macron e o seu alinhamento com o pensamento da chanceler Merkel, isto é, o eixo franco-alemão parece estar coeso, mas também pronto para defender a Europa e para enfrentar a arrogância do Donald. Se assim for, é caso para dizer que estamos perante uma oportunidade para refazer e unir a Europa.
Hoje, o diário francês Libération reconhece que o Donald está a dar um grande incentivo ao reforço da coesão europeia e agradece-lhe a oportunidade do Velho Continente se regenerar com o sugestivo título: Merci Trump.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A nossa Europa está a ficar sem aliados

A viagem de Donald Trump pelo Médio Oriente e pela Europa gerou alguma controvérsia, o que já não é para admirar. A primeira aconteceu em Riade quando o Donald se atirou ao Irão, cada vez mais normalizado pelas mãos do reeleito Hassan Rohani, ao mesmo tempo que era anunciada uma gigantesca venda de armas à Arábia Saudita, alegadamente para combater o terrorismo islâmico. É um caso em que o negócio ultrapassa todos os princípios, porque a monarquia saudita tem sido acusada de financiar o Estado Islâmico e há quem diga que o Estado Islâmico sempre existiu com o nome de Arábia Saudita. Assim, em nome do negócio do armamento, o Donald tratou de apoiar a Arábia Saudita, de dar uma ajuda indirecta ao Daesh e de aumentar a tensão naquela zona.
Depois vieram a visita ao Papa e as cimeiras da NATO e do G7. Em Bruxelas o Donald deixou críticas aos países da NATO por não contribuirem o suficiente para as despesas militares da organização, só faltando dizer que deveriam comprar mais material americano., isto é, o Donald olha para a NATO e para a Europa numa mera perspectiva empresarial de custo/benefício para os Estados Unidos.
Seguiu-se a reunião do G7 em Taormina, uma localidade siciliana, onde estiveram "seis contra um", como escreveu a imprensa internacional, mas o Donald não se comprometeu com a aplicação do Acordo de Paris sobre alterações climáticas.
Entretanto, em campanha eleitoral em Munique e com uma caneca de cerveja na mão como mostra o diário La Razón, a chanceler Angela Merkel fez o balanço da participação de Donald Trump nas duas referidas reuniões internacionais e afirmou que “a Europa não pode contar mais com os outros”, referindo-se à América de Donald Trump e ao Reino Unido pós-Brexit, acrescentando que "nós, europeus, temos de agarrar as rédeas do nosso próprio destino". "Comprovei isso nos últimos dias", disse a chanceler.
Esta declaração é, de certa, forma uma evidência. Desde 1945 que os Estados Unidos se tornaram uma superpotência sem igual e o Donald apenas está a procurar manter essa hegemonia militar, mas também comercial. O homem quer é negócios. Hoje quer vender armamento, amanhã vai querer construir Trump Towers. Afinal, a ideia de que os Estados Unidos eram aliados da Europa parece não ser muito verdadeira.

domingo, 28 de maio de 2017

Uma imagem vale mais que mil palavras

Na sua mais recente edição a revista The Economist lança um oportuno aviso sobre os oceanos e a sua sustentabilidade, recorrendo a uma expressiva ilustração na sua capa que nos evoca os inúmeros impactos ambientais nocivos para a fauna marítima, que têm conduzido muitos ecosistemas marinhos e costeiros em direcção ao colapso.
O conteúdo da revista é de grande interesse pedagógico pois alerta para os riscos que estão a ameaçar os oceanos e, em certa medida, o futuro da Humanidade, escrevendo que os oceanos sustentam o nosso planeta e a Humanidade, mas que a Humanidade despreza os oceanos. De facto, convergem nos oceanos demasiados comportamentos condenáveis como o despejo de resíduos sólidos poluentes e contaminantes produzidos por algumas indústrias, a pesca excessiva ou predatória, a destruição de áreas costeiras devido à especulação imobiliária e, ainda, os grandes acidentes marítimos resultantes da indústria petrolífera.
O desenvolvimento económico que à escala global se verificou no século XX, não tratou de proteger os oceanos e, em meados desse século, já havia quem afirmasse que os oceanos poderiam conter mais plástico do que peixe. Essa quase profecia não tem qualquer fundamento científico, mas não há dúvida que os oceanos estão ameaçados e que as alterações climáticas que se estão a verificar no planeta estão relacionadas com as alterações que estão a ocorrer nos oceanos.
Os oceanos cobrem quase três quartos do planeta e, para além do seu contributo para a regulação climática, também asseguram a proteína alimentar de que necessitam muitos milhões de pessoas.
As medidas para a preservação dos oceanos são muito urgentes e têm que ser o resultado de melhores comportamentos individuais e colectivos e, sobretudo, da acção dos governos. Um importante passo dado nesse sentido foi o Acordo de Paris, assinado em Abril de 2016 por 175 países, que determina o combate aos efeitos das mudanças climáticas no meio ambiente para tornar o nosso planeta mais sustentável. Foi um grande passo, embora tenhamos agora o Donald a bloquear o que antes foi acordado pelo Barack.
A edição do The Economist presta um serviço a uma grande causa, o que já é pouco habitual nos tempos que correm.

sábado, 27 de maio de 2017

Lisboa: o sol, os turistas e os jacarandás

Lisboa: Avenida D. Carlos I
Há uma onda de optimismo que está a atravessar a sociedade portuguesa e é em Lisboa que mais se sente essa festiva e atraente aragem. Há um mar de turistas que procuram o nosso sol e a nossa tranquilidade, que desfrutam o azul do Tejo e o vai-vém dos cacilheiros, que se estendem pelas escadarias da Ribeira das Naus ou se refrescam no Cais das Colunas. Há uma gastronomia de muitos sabores a desafiar os visitantes e há inúmeras esplanadas que se enchem de jovens e de menos jovens falando línguas muito diversas. A oferta cultural da cidade de expressão popular ou erudita, é muito diversificada e muito convidativa, não deixando ninguém indiferente. A cordialidade dos lisboetas parece insuperável. Os bairros históricos e os museus enchem-se e, mesmo antes das festas da cidade, Lisboa já tem um ar de festa e uma invulgar aparência cosmopolita.
Nesta altura do ano, a cidade parece enfeitar-se e deslumbra com os jacarandás floridos, até porque parecem aumentar todos os anos as ruas, os jardins e as praças que os adoptaram. Lisboa parece ser, realmente, a cidade dos jacarandás. Iluminados pela luz única que a cidade tem, os jacarandás floridos inspiram os fotógrafos e são um elemento adicional para enriquecer a cidade, embora esse deslumbrante festival de cor só dure até meados de Junho. Já lá vai o tempo em que podíamos identificar as mais belas manchas de jacarandás floridos, mas hoje estão por toda a cidade.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Arte e erudição na música portuguesa

Um grande concerto ontem realizado no Teatro Municipal de São Luiz em Lisboa, assinalou os 50 anos de carreira de Pedro Caldeira Cabral, um músico e compositor reconhecido no plano internacional e que, desde há muitos anos, é um símbolo da erudição na música portuguesa.
Ouço a música de Pedro Caldeira Cabral desde há muitos anos e não faltei.
O espectáculo intitulou-se Guitarra de ontem e de hoje e teve como tema a guitarra portuguesa e a sua valorização e promoção, como um importante legado patrimonial da cultura portuguesa. O músico partilhou o palco com Ricardo Rocha e Luís Marques, como convidados especiais, enquanto o excelente programa que foi apresentado incluiu a música antiga, a nova música e a música tradicional.
Pedro Caldeira Cabral nasceu em Lisboa em 1950 e tem uma longa vida de estudo de alaúde, viola de gamba e outros instrumentos musicais, sendo um conhecido intérprete de música antiga em instrumentos históricos.
Em reconhecimento pelo seu importante papel na cultura portuguesa e como expressão da gratidão da nossa comunidade pelo seu labor e talento, o Presidente da República decidiu agraciar Pedro Caldeira Cabral com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D.  Henrique.  E fez muito bem. O meu aplauso.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Economia: a Centeno, o que é de Centeno

A notícia foi divulgada ontem e surpreendeu toda a gente. O poderoso Wolfgang Schäuble, que desde 2005 é o Ministro das Finanças da Alemanha, disse esta terça-feira que Mário Centeno é o “Ronaldo do Ecofin”, o grupo de ministros das Finanças da União Europeia. O jornal i fez uma fotomontagem e, na capa da sua edição de hoje, apresenta Centeno travestido de Ronaldo. 
Durante alguns anos o ministro alemão destacou-se pela arrogância com que se referiu a Portugal, abusando da passividade e do estilo bajulador de Vítor Gaspar e de Maria Luís Albuquerque. Schäuble humilhou Portugal muitas vezes com as suas frequentes ameaças de sanções económicas e, mais recentemente, com a sua hostilidade para com o actual governo português. A desconfiança tem sido permanente e Schäuble até chegou a dizer que as coisas só correram bem em Portugal até ao dia em que o actual governo de António Costa chegou ao poder. Porém, Schäuble teve que meter a viola no saco e, antes tarde que nunca, rendeu-se às evidências e ao seu preconceito ideológico.
Com os bons resultados económicos a aparecer em Portugal, como consequência de muitas circunstâncias mas, sobretudo, devido ao clima de optimismo e confiança que se instalou na sociedade portuguesa pelo estilo do par Marcelo & Costa, o ministro Schäuble parece ter aprendido e ter-se rendido ao mais qualificado dos 23 Ministros das Finanças que Portugal já teve desde 1974, pois dos sete que se doutoraram, só Mário Centeno o fez em Harvard, provavelmente a melhor universidade de economia e gestão do mundo. Por isso, Schäuble cedeu. Portanto, a Centeno, o que é de Centeno.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A dura guerra no mercado do armamento

O presidente Donald Trump está de visita a alguns países do Médio Oriente e da Europa. Começou pela Arábia Saudita, onde assinou 34 acordos comerciais em domínios diversos como a defesa, o petróleo e o transporte aéreo, no montante de 380 mil milhões de dólares, um valor que é aproximadamente o dobro do produto interno bruto anual português. É uma coisa impressionante.
Segundo o jornal económico francês La Tribune foi um "méga-cadeau de bienvenu à Donald Trump" que, com entusiasmo, afirmou: "C'était une journée formidable ! Des centaines de milliards de dollars d'investissements aux Etats-Unis et des emplois, des emplois, des emplois".
Deste montante, cerca de 110 mil milhões de dólares destinam-se à compra de armamento, onde se inclui material de defesa antimíssil, navios militares, aviões tácticos e helicópteros. Naturalmente, os Estados Unidos afirmaram desejar que a Arábia Saudita tenha um papel mais importante na segurança da região do Golfo, que dizem estar ameaçada pelo Irão, mas que também tenha um contributo mais significativo nas operações contra o terrorismo, sobretudo na luta contra o Estado Islâmico e a Al-Qaida.
A Arábia Saudita é um dos maiores importadores mundiais de armamento e, com os contratos agora anunciados com os americanos e o reforço da aliança entre Washington e Ryad, a França vai perder uma enorme fatia do seu mercado do armamento. A luta por esse mercado é dura, como mostram os acordos agora assinados e que vão penalizar muito a economia francesa.
Porém, estas notícias mostram que há uma lógica perversa na política mundial, isto é, para criar empregos e fomentar as suas exportações, alguns países alimentam guerras e o consumo de material de guerra, como se tem visto no Médio Oriente. Esta economia mata, como escreveu o Papa Francisco na sua exortação evangélica Evangelii Gaudium.

sábado, 20 de maio de 2017

O tempestuoso vento que sopra do Brasil

As notícias que nos chegam do Brasil são demasiado preocupantes. As revelações sobre a corrupção que penetrou em todos os escalões da política brasileira e que levaram ao afastamento de Dilma Rousseff da presidência do Brasil e à permanente suspeita sobre Luiz Inácio Lula da Silva, já tinham mostrado uma invulgar dimensão do problema. Era previsível, portanto, que a história continuasse. E continuou. Sucederam-se novas informações obtidas quase sempre através da figura da "delação premiada", que trouxeram ao conhecimento público muitos mais casos que revelam subornos e propinas a milhares de políticos de partidos de todo o espectro parlamentar brasileiro. Ao contrário do que acontece um pouco por todo o mundo em que a corrupção é a excepção, no Brasil a corrupção é a regra.
Um dia destes foi revelada uma conversa entre o actual presidente Michel Temer e um empresário de apelido Batista, no qual aquele parece autorizar o pagamento de subornos. O Supremo Tribunal Federal abriu uma investigação contra Temer sustentada em suspeitas de que cometera crimes de obstrução judicial, organização criminosa e corrupção passiva, mas o presidente do Brasil apressou-se a fazer uma declaração ao país a anunciar que não vai renunciar ao seu cargo. Era de esperar.
Na sua última edição a revista Veja invoca a grandeza do Brasil e a necessidade de grandeza dos homens públicos que ocupam o aparelho de Estado, porque é urgente a rápida regeneração da vida pública brasileira. Porém, a ideia de grandeza pode ter subjacente a ideia de homens providenciais e é preciso muito cuidado com isso.  A revista também lança um veemente apelo para que se acabe com esta lamentável situação, porque os milhões de brasileiros honestos não merecem ser punidos pela desfaçatez e pela ganância dos poderosos. É verdade. No entanto, a revista não aponta uma saída para esta situação que, naturalmente, só pode ser encontrada através da vontade popular expressa através do voto democrático. Só pode ser esse o caminho a seguir pelos nossos irmãos brasileiros.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

R.I.P. Mário Carrascalão

Timor Leste está de luto porque  morreu Mário Carrascalão quando ontem conduzia a sua viatura próximo do bairro do Farol na cidade de Díli e foi acometido de doença súbita. Tinha 80 anos de idade e morreu um dia depois de ter sido galardoado com a mais alta condecoração timorense, que lhe foi entregue por Taur Matan Ruak, um dos antigos líderes da guerrilha e actual chefe de Estado da República de Timor Leste.
Mário Carrascalão nasceu em 1937 em Venilale e era filho de um anarquista português que foi deportado para Timor, tendo vindo para Portugal para completar o ensino secundário e para frequentar o Instituto Superior de Agronomia, onde se licenciou. De regresso a Timor, assumiu o cargo de chefe dos Serviços de Agricultura, função que ocupava quando em 1975 rebentou a guerra civil. Durante a ocupação indonésia foi nomeado governador de Timor Leste, cargo que exerceu entre 1982 e 1992, o que levou a que muitos timorenses o acusassem de traição e de colaboracionismo com o ditador Suharto. Porém, muitos timorenses que passaram pelas prisões indonésias, sempre reconheceram o apoio que Mário Carrascalão deu às suas famílias e até às redes clandestinas, o que permitiu salvar centenas de vidas e manter viva a ideia da independência. Além disso, contribuiu para que centenas de timorenses estudassem em universidades indonésias e, sobretudo, foi o grande impulsionador do diálogo com a Resistência, tendo ele próprio tido encontros com o guerrilheiro Xanana Gusmão em 1983 e 1990, que abriram as portas ao processo que desaguou na independência de Timor-Leste.
Conheci o Engenheiro Mário Carrascalão e com ele convivi em diferentes locais e circunstâncias, designadamente na Fazenda Algarve, próximo de Liquiça, que é propriedade da sua família e onde, provavelmente, será sepultado no cemitério da família.
Biológica e culturalmente, Mário Carrascalão tinha tanto de timorense, como de português. Honrou esses dois legados. Com a sua morte, Timor Leste perdeu um dos seus filhos mais notáveis, mas Portugal também perdeu um dos seus grandes amigos timorenses.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Até o Medina aderiu ao populismo barato

A equipa de futebol do Benfica conquistou a Primeira Liga ou Liga NOS, no âmbito das competições organizadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional e esse facto gerou uma onda de grande alegria entre os benfiquistas. Foi a 36ª vez que o clube triunfou na prova máxima do futebol português, o que supera as 27 vitórias do FC Porto e os 18 triunfos do Sporting, mas também foi a primeira vez que a equipa conseguiu uma quarta vitória consecutiva ou tetracampeonato, um feito que os seus principais rivais já tinham conseguido. O Benfica é uma grande instituição desportiva com muitos milhares de adeptos em todo o mundo que festejaram o êxito da sua equipa de futebol com grande entusiasmo e a festa organizada na Praça Marquês de Pombal em Lisboa, que todas as televisões portuguesas transmitiram em directo, foi simplesmente grandiosa. Os festejos podiam ter acabado ali e acabavam muito bem.
Porém, o autarca Fernando Medina decidiu homenagear a equipa campeã nacional de futebol e exibi-la exactamente na mesma varanda onde José Relvas proclamou a República no dia 5 de Outubro de 1910. Portanto, no plano simbólico, tivemos o jogador Luisão equiparado a José Relvas e esta vitória do Benfica comparada à implantação da República. É demais, num tempo em que futebol já não é um desporto, mas sobretudo um negócio de jogadores e de acumulação de dívidas e de dúvidas. Medina sabe isso, mas cedeu.
Se fosse uma vitória de prestígio internacional talvez se justificasse esta homenagem, mas não foi o caso. A iniciativa de Medina divide os lisboetas e humilha os adeptos dos outros clubes da cidade. Medina abastardou aquela varanda e quer repetir a festa brevemente, segundo disse. Medina é um político inteligente e sensato, mas não resistiu à sua própria clubite, ao populismo e à demagogia eleitoral. A operação que montou serviu a sua ambição política, mas foi um tiro nos pés. Ao olhar para a Praça do Município cheia de gente a vibrar, Medina deve ter pensado nos muitos votos que ali estavam. Que pena. Eu pensava que o Medina era o meu autarca e que não alinhava no populismo barato.