terça-feira, 13 de setembro de 2022

Carlos Alcaraz foi um gigante em NY

A Espanha desportiva está a viver uma onda de euforia e acaba de criar um novo ídolo, chamado Carlos Alcaraz que, no passado domingo e apenas com 19 anos de idade, venceu o US Open e ascendeu a número um do ranking mundial do ténis. Foi a primeira grande vitória da sua promissora carreira e uma boa parte da imprensa espanhola publica a sua fotografia com destaque de primeira página e com rasgados elogios.
Depois de um longo período em que o ténis mundial foi dominado por Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic, a ascensão do jovem Carlos Alcaraz ao topo da hierarquia mundial do ténis significa o início de uma mudança geracional nesta prática desportiva das élites. Como escreveu Luís de Camões há quase quinhentos anos, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / muda-se o ser, muda-se a confiança / todo o mundo é composto de mudança”.
A final do passado domingo foi a primeira da história em que para além da vitória no torneio, também se decidia quem seria o novo líder do ranking mundial e o acaso parece ter escolhido o local mais apropriado para este evento, isto é, o Arthur Ashe Stadium localizado em Flushing Meadows, no bairro de Queens da cidade de Nova Iorque, que é o maior estádio do mundo e que pode receber 23.771 espectadores.
De entre os inúmeros jornais espanhóis desportivos ou generalistas que homenagearam Carlos Alcaraz escolhemos o as e o seu título: un gigante en NY. Assim foi de facto.

domingo, 11 de setembro de 2022

Como acabar com a guerra na Ucrânia?

Como actualmente há menos notícias sobre a guerra na Ucrânia, até parecia que as partes estavam cansadas e que os paióis começavam a estar vazios, o que poderia ser uma boa oportunidade para o trabalho das diplomacias. Porém, nas últimas horas, os ucranianos anunciaram algumas vitórias militares que terão obrigado os russos a recuar, o que pode significar o início de uma grande ofensiva antes que chegue o inverno, com o frio, a neve, as estradas enlameadas e os campos inundados.
Contudo, ontem o jornal croata Večernji list, que se publica em Zagreb, tratou da guerra na Ucrânia e publicou com destaque de primeira página, as fotografias de Joe Biden e de Vladimir Putin e, em segundo plano, as imagens de Angela Merkel e de Olaf Scholz.
Com a ajuda do Google Tradutor procurei saber a tradução dos textos e, em ante-título,  li que a “União Europeia enfrenta o colapso” e, depois em título principal, li a frase “como a Alemanha trouxe a Europa para uma ratoeira neste século, da qual não há saída”.
“Colapso da Europa”, “ratoeira” e “não há saída” são frases ou palavras muito duras e arrasam a esperança de quem deseja que “a tragédia em curso” – assim se refere o jornal àquela guerra – termine rapidamente. A notícia critica severamente a “política estrategicamente cega e de mente estreita de Angela Merkel e toda a elite empresarial alemã”, que estão a prejudicar a Alemanha e toda a Europa.
Não sei se alguma vez algum jornal publicou as fotografias de Joe Biden e de Vladimir Putin como fez o Večernji list, a sugerir que a resolução do conflito depende apenas destes dois homens. Afinal tudo isto é uma coisa bem diferente da narrativa habitual e até há quem diga que, afinal, a culpa é de… Angela Merkel! 
No entanto, a pergunta fica: como acabar com a guerra na Ucrânia?

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

R.I.P. Elizabeth II

Elizabeth II cujo nome de baptismo era Elizabeth Alexandra Mary, faleceu ontem com 96 anos de idade. Desde 1952 que era a rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e de mais catorze Estados independentes e, ainda, chefe da Commonwealth, uma organização que agrega 53 países.
Não me recordo de qualquer acontecimento que suscitasse tanto interesse e tanta unanimidade na imprensa mundial como a notícia do falecimento de Elizabeth II, que hoje ocupa toda a primeira página de inúmeros jornais. O prestígio da Rainha era, seguramente, bem maior do que o do seu próprio país e dos seus políticos, dos quais conviveu com quinze primeiros-ministros! Os britânicos, mesmo aqueles que não gostam da Monarquia nem dos seus vícios e privilégios, gostavam da Rainha que durante setenta anos simbolizou a unidade britânica e a estabilidade nacional, apesar das transformações que aconteceram no mundo depois da 2ª Guerra Mundial e das tropelias em que alguns dos seus filhos e netos se envolveram. Elizabeth II era “uma querida soberana e amada mãe”, como hoje escreveu The Journal, que se publica em Londres.
Um outro jornal escreveu que “a Rainha andou de braço dado com a História” e, de facto assim foi, pois assistiu à 2ª Guerra Mundial e ao declínio do Império Britânico, entre muitos outros grandes acontecimentos de relevo mundial.
O Reino Unido hoje está de luto e há quem já anteveja que se aproximam tempos muito difíceis para a monarquia britânica, para os quais faltará a palavra respeitada, tranquilizadora e conciliadora de Elizabeth II. 
Rest in peace Elizabeth II!

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Parabéns, Brasil!

No dia 7 de Setembro de 1822, o regente que o rei D. João VI, seu pai, deixara à frente do Brasil quando em 1821 regressou Portugal, terá declarado aos seus acompanhantes nas margens do rio Ipiranga, que a separação do Brasil em relação a Portugal era irreversível e terá proferido a frase “independência ou morte”, que ficou conhecida como “o grito do Ipiranga”. 
É muito duvidosa a veracidade desta expressão que o imaginário nacional, a tradição e vontade popular consagraram, mas o dia 7 de Setembro foi declarado feriado nacional no Brasil e é celebrado como o Dia da Independência.
Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, assim se chamava o regente que declarou a independência, era mais conhecido por D. Pedro de Alcântara ou D. Pedro de Bragança, foi o primeiro imperador do Brasil como Pedro I, entre 1822 a 1831 e, também, rei de Portugal e dos Algarves como Pedro IV, entre Março e Maio de 1826.A história de vida de D. Pedro é fascinante e interessa a portugueses e brasileiros, quando se celebram 200 anos sobre o dia em que ele assumiu a independência do Brasil. Ele foi o porta-voz de uma ambição e dos ventos de liberdade que sopravam nas Américas. A independência brasileira foi uma reacção da nobreza colonial rica e branca, tanto brasileira como portuguesa, ao domínio das metrópoles. Foi semelhante aos movimentos que levaram à revolta das colónias inglesas e espanholas, que deram origem à independência americana e às independências das colónias espanholas sul-americanas.
A ligação entre Portugal e o Brasil não é apenas pela língua, pois os laços históricos e culturais entre os dois países são profundíssimos. Por isso, hoje o jornal Público, destaca que é dia para nos associarmos aos brasileiros e dizer-lhes: Parabéns, Brasil!

A Espanha a celebrar a viagem de Elcano

No dia 6 de Setembro de 1522 a nau Victoria chegou defronte de Sanlúcar de Barrameda, na foz do rio Guadalquivir e próximo de Cádis, sob o comando de Juan Sebastián de Elcano, trazendo 18 tripulantes europeus e três homens que tinham embarcado nas Molucas. Estava concluída a primeira viagem de circumnavegação da Terra, pois daquele mesmo local tinham partido no dia 20 de Setembro de 1519 cinco navios com 237 homens comandados por Fernão de Magalhães. A viagem que foi descrita por Antonio Pigafetta e por alguns outros membros da expedição, durou quase três anos. As comemorações desta viagem foram assumidas pelos dois governos ibéricos, cada um deles procurando discretamente chamar a glória deste feito que muitos comparam com a chegada do homem à Lua - a glória de Magalhães (os portugueses) ou a glória de Elcano (os espanhóis).
O facto é que ontem, mostrando como em Espanha tudo foi preparado para alimentar a sua própria narrativa histórica, o navio-escola Juan Sebastián de Elcano regressou de uma longa viagem internacional de representação e integrou-se num desfile naval e aéreo em homenagem a Elcano, realizado ao largo de Sanlúcar, que se integrou nas comemorações do V Centenario de la Primera Circunnavegación. O rei Filipe VI esteve presente, bem como as principais autoridades espanholas e andaluzas. No desfile integraram-se doze navios de guerra, incluindo o LHD Juan Carlos I, o LDP Galicia e quatro modernas fragatas, para além da réplica da nau Victoria e vários aviões Sea Harrier e helicópteros, conforme relata com muito detalhe a edição de hoje do Diario de Cadiz.
Foi uma festa grande em Sanlúcar de Barrameda, porque até a Volta a Espanha foi pensada para que ontem uma etapa ligasse Sanlúcar a Sevilla. Foi, portanto, um dia “histórico y emocionante para todos los sanluqueños”.
Pois que Viva Sanlúcar, que Viva El-Rey e que Viva España!

terça-feira, 6 de setembro de 2022

A minha homenagem a Adriano Moreira

Adriano José Alves Moreira completa hoje cem anos de idade e alguns jornais portugueses prestam-lhe uma justa homenagem a que me associo, porque foi meu professor e de muitos dos meus amigos, todos dele guardando uma imagem de homem de sabedoria, inteligência e sensatez. É reconhecido como um humanista com elevado sentido de serviço público, um cientista político de referência e um activo participante no desenvolvimento do ensino superior em Portugal. A sua voz sempre foi escutada com atenção e respeito, independentemente das posições ideológicas ou partidárias de quem o escuta.
O seu percurso cívico, político e académico são bem conhecidos: licenciado em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, doutorado pela Universidade Complutense de Madrid e pelo ISCSP da Universidade de Lisboa, doutor Honoris Causa por diversas universidades portuguesas e estrangeiras, membro da delegação portuguesa nas Nações Unidas, deputado e vice-presidente da Assembleia da República, presidente do CDS, conselheiro de Estado, presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa e curador da Fundação Oriente, são apenas algumas linhas da sua extensa biografia. Porém, será o cargo de Ministro do Ultramar que ocupou no governo de Salazar entre 13 de Abril de 1961 e 4 de Dezembro de 1962, a marca mais distintiva da sua carreira, não só como patrocinador de profundas reformas no estatuto dos povos das colónias, mas também como dirigente que afrontou Salazar e “assistiu” ao início da guerra em Angola e à queda da Índia Portuguesa.
Hoje é um dia para felicitar o Professor Adriano Moreira pelo seu centésimo aniversário, mas também pelas lições que ao longo da vida nos tem ensinado e que esperamos nos continue a ensinar.

sábado, 3 de setembro de 2022

A Índia e o reforço do seu poder naval

Decorreu ontem no porto de Cochim, no estado indiano de Kerala, a cerimónia de incorporação na Marinha da India do novo porta-aviões INS Vikrant, que foi presidida pelo primeiro-ministro Narendra Modi.
O INS Vikrant foi construído nos estaleiros da Cochin Shipyard Limited, é o primeiro porta-aviões concebido e construído na Índia e, só por isso, é um motivo de orgulho nacional e de confiança quanto às capacidades industriais e tecnológicas do país, apesar da sua construção se ter arrastado durante 13 anos e ter custado cerca de 2,5 mil milhões de dólares. O primeiro-ministro Modi chamou-lhe uma “cidade flutuante” com 1700 tripulantes e considerou-o um “símbolo do potencial nacional”, tendo proporcionado um momento histórico para a Índia e para o seu chefe do governo, por ser um incentivo que pode impulsionar a indústria indiana de defesa.
O navio mede 262 metros de comprimento e tem quase 60 metros de altura, podendo alojar 30 aviões de combate e helicópteros. Com o INS Vikramaditya, o outro porta-aviões indiano, a Índia torna-se cada vez mais um importante e ambicioso actor no cenário geopolítico internacional.
A imprensa indiana de hoje dá conta da entrada ao serviço do novo navio e o jornal The Hindu, chama-lhe “sentinel of the seas”, ao mesmo tempo que analisa o crescente aumento do poder militar indiano.
Duas curiosidades sobre o Vikrant e sobre Cochim.
- O INS Vikrant é o segundo porta-aviões indiano com este nome, tendo o primeiro entrado ao serviço em 1961 e tomado parte nas operações que levaram à “queda da Índia Portuguesa”.
- Cochim foi “o primeiro porto português da Índia”, foi visitado por Pedro Álvares Cabral em 1500 e foi lá que morreu Vasco da Gama na noite de Natal de 1524. Em 1663, após uma presença de um século e meio, os holandeses expulsaram os portugueses da cidade e da costa do Malabar.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

R. I. P. Mikhail Gorbachev

Mikhail Gorbachev, o último presidente da antiga União Soviética, morreu ontem em Moscovo com 91 anos de idade e a imprensa mundial dedica enormes elogios à sua acção política, que conduziu ao fim da Guerra Fria e à abertura do antigo bloco soviético ao mundo ocidental.
Tendo sido eleito secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética em 1985, tornou-se aos 54 anos de idade no líder do maior país do mundo em área territorial e rival ideológico dos Estados Unidos. A partir de então as palavras glasnost (transparência) e perestroika (reestruturação) entraram na vida política soviética e no léxico dos países ocidentais, como símbolos das políticas reformistas de Gorbachev. Como presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev enfrentou a estagnação da era de Leonid Brejnev, abriu-se à comunidade internacional, fez uma grande aposta na democratização e modernização do país, na reforma da economia e da sociedade soviéticas, incluindo uma maior liberdade de expressão e a liberalização da imprensa. Porém, não foi capaz de conter os protestos por maior liberdade que se geraram em várias repúblicas soviéticas, que a partir de 1991 exigiam o fim do comunismo e a independência, tendo acabado por assistir à desintegração do bloco de países do Leste e do seu próprio país, durante os dois anos seguintes.
Por isso, alguns grandes acontecimentos mundiais como a queda do muro de Berlim, a reunificação alemã, as independências dos estados bálticos e a queda dos governos pró-soviéticos na Europa de Leste foram possíveis pela acção directa ou indirecta de Gorbachev. Em 1990 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz. 
Quem sabe se a sua morte não foi acelerada pela mágoa e pela dor provocadas pelo que está a acontecer actualmente na martirizada Ucrânia.
Mikhail Gorbachev é, seguramente, uma das mais relevantes personalidades da segunda metade do século XX, a par de John Kennedy, Charles de Gaulle, François Mitterrand, Margaret Thatcher, Helmut Kohl ou Nelson Mandela. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

A euforia viajante do Presidente Marcelo

O jornal moçambicano O País anuncia na sua edição de hoje que Moçambique e Portugal realizam uma cimeira na próxima semana em Maputo e publica a fotografia dos presidentes dos dois países em caloroso abraço. Desde que no dia 9 de Março de 2016 tomou posse do cargo para que foi eleito, o presidente da República Portuguesa realizou 97 viagens presidenciais a 44 diferentes países, destacando-se Espanha (16 visitas), França (12 visitas), Estados Unidos (8 visitas), Brasil (6 visitas), Cabo Verde e Itália (5 visitas), Angola (4 visitas), Andorra, Bélgica, Grécia, Moçambique, Reino Unido e S. Tomé e Príncipe (3 visitas), Alemanha, Bulgária, Rússia e Vaticano (2 visitas) e, com apenas uma visita, Afeganistão, Áustria, China, Colômbia, Costa do Marfim, Croácia, Cuba, Egipto, Eslovénia, Guatemala, Guiné-Bissau, Hungria, Índia, Israel, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Marrocos, México, Países Baixos, Panamá, República Centro-Africana, Senegal, Suíça, Timor-Leste e Tunísia. Tantas viagens a tantos países, fazem de Marcelo Rebelo de Sousa o mais viajado presidente da História de Portugal que, no corrente ano, já fez viagens a França, Países Baixos, Moçambique, Espanha, Timor-Leste, Reino Unido, Andorra, Brasil e Angola. 
Começa a ser altura de se fazer uma avaliação custo/benefício de tantas viagens porque, aparentemente, delas pouco mais fica do que os afectos populares que recebe e as selfies, além das repetitivas entrevistas espontâneas que lhe são feitas pelos jornalistas seus acompanhantes. Até o jornal O País se rende a esta euforia do presidente português, ao assumir que vai fazer mais uma visita a Moçambique, mas não sabemos se a notícia é falsa ou verdadeira. Porém, se recordamos que Marcelo Rebelo de Sousa esteve em Moçambique em Março, podemos perguntar o que há de novo a justificar esta viagem, se realmente ela estiver para ser feita. Temos tantos problemas por cá, que não se sabe que sentido ou que utilidade têm tantas viagens, para além de não sabermos quem compõe as suas comitivas, nem quanto custa tudo isto aos contribuintes portugueses.

domingo, 28 de agosto de 2022

Filipe Neri Ferrão, o novo cardeal de Goa

O Papa Francisco presidiu ontem na Cidade do Vaticano a um Consistório Ordinário, isto é, uma reunião de cardeais que é destinada a assistir ou ajudar o Papa nas suas decisões. Foi o oitavo Consistório do seu pontificado e nele foram criados 20 novos cardeais, dos quais 16 eleitores e 4 eméritos (não eleitores), com a particularidade de terem sido criados os primeiros cardeais oriundos de Timor-Leste, do Paraguai e de Singapura. Dos 16 novos cardeais eleitores destacam-se o cardeal Filipe Neri António Sebastião do Rosário Ferrão, arcebispo de Goa e Damão e Patriarca das Índias Orientais, e o cardeal Virgílio do Carmo da Silva, arcebispo de Dili. Ambos são falantes de português e ambos dirigem dioceses historicamente ligadas à Igreja de Portugal.
A diocese de Goa foi a primeira diocese asiática da Cristandade, foi criada em 1533 pelo Papa Clemente VII, era inicialmente sufragânea da diocese do Funchal e estendia-se espacialmente desde o cabo da Boa Esperança até à China e ao Japão. 
A diocese de Dili foi criada em 1940 como sufragânea da arquidiocese de Goa, numa altura em que o território de Timor estava ocupado pelas forças japonesas.
Para aqueles que se identificam com a herança cultural portuguesa nascida da sua expansão marítima pelo mundo, ou para aqueles que se orgulham da lusofonia, católicos ou não católicos, a criação destes novos cardeais lusófonos, a que se juntam os dois novos cardeais brasileiros (os arcebispos de Manaus e de Brasília), é um motivo de grande satisfação cultural.
O jormal oHeraldo que se publica em Goa, onde o hinduísmo é a religião dominante, deu um grande destaque à elevação do seu Arcebispo ao Cardinalato e nós, que bem o conhecemos, também aqui expressamos o nosso regozijo.

O incerto destino de um porta-aviões

O jornal Diario de Avisos, que se anuncia como el periódico de Tenerife, destaca na sua última edição a fotografia do porta-aviões brasileiro São Paulo e, com alarmismo, informa que “cruza águas canárias com material radioactivo”.
O navio que desloca 32 mil toneladas e tem 265 metros de comprimento, foi construído em França e entrou ao serviço da Marinha Francesa em 1963 com o nome de FS Foch (R99), mas no ano de 2000 foi vendido ao Brasil, onde tomou o nome de São Paulo. Foi o navio-chefe da Marinha do Brasil, mas teve inúmeros problemas e nunca esteve operacional por períodos superiores a três meses, até que em 2017 foi abatido ao efectivo. Em 2021 o seu casco foi vendido para ser desmantelado e transformado em sucata num estaleiro do porto turco de Aliaga, no mar Egeu.
O navio está contaminado com um indeterminado mas elevado número de toneladas de amianto, altamente cancerígeno e nocivo para o meio ambiente. Daí que as associações ambientalistas brasileiras tenham procurado impedir, sem sucesso, a saída do navio por ser contrária à lei internacional, pois nem o Brasil pode exportar produtos tóxicos, nem a Turquia os pode importar. Porém, no dia 4 de Agosto o São Paulo deixou o Rio de Janeiro a reboque do rebocador holandês Alp Centre e, nesta altura, está na área das ilhas Canárias a navegar em direcção ao estreito de Gibraltar. Entretanto, há dois dias, sob pressão das suas associações ambientalistas, mas também de muitas outras de diferentes países, as autoridades turcas revogaram a autorização de entrada do São Paulo nos seus portos.
Agora, como diz o Diario de Avisos, “una colossal montaña de material tóxico y radioactivo” navega entre as ilhas de Gran Canaria e Fuerteventura, “sin que conste finalmente cuál será su destino”. O jornal lançou o alarme nas ilhas Canárias. O navio foi uma glória da França, mas agora todos o rejeitam.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Ucrânia: vuelve la liga, sigue la guerra

No passado fim-de-semana teve início a Premier League 22/23 na Ucrânia, em que participam 16 equipas, algumas das quais com nomes que incluem palavras que nos são familiares nos últimos meses. Assim acontece com as equipas do FC Dynamo Kyiv, Shakhtar Donestsk, Zorya Luhansk, FC Metalist Kharkiv, FC Lviv, SC Dnipro ou Chornomorets Odesa, entre outras. Com a sua iniciativa de começar o seu campeonato de futebol, as autoridades ucranianas procuram restabelecer alguma normalidade na sua vida com o regresso do futebol, apesar de não ter público e ter abrigos em todos os estádios para prevenir qualquer acção ofensiva russa.
Isto faz-me lembrar os Jogos Olímpicos da Antiguidade que se realizavam em Olímpia, na Grécia Antiga, em honra de Zeus. Quando os Jogos se disputavam, havia arautos que anunciavam a realização dos Jogos e espalhavam pelo país um convite aos atletas e aos espectadores para que neles participassem. Esses arautos também anunciavam uma trégua sagrada, que proibia a guerra durante a realização das Olímpiadas, com o objectivo de assegurar a protecção dos atletas e dos espectadores nas suas deslocações entre as suas terras e Olímpia. Era a celebração da paz num mundo em guerra.
É uma pena que este exemplo não inspire o mundo moderno e que o futebol na Ucrânia não assegure uma trégua e, depois da trégua, a paz.
O jornal espanhol ABC publicou a fotografia do autocarro do Shakhtar Donestsk Football Club a caminho do estádio num cenário de edifícios destruídos e escreveu: vuelve la liga, sigue la guerra.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Ucrânia: 6 meses de guerra e de incerteza

Perfizeram-se hoje seis meses sobre a data em quer Vladimir Putin deu ordem às suas tropas para avançarem sobre Kiev e muitos jornais europeus evocaram esse triste acontecimento nas suas edições de hoje. Passaram-se seis meses e a Ucrânia resistiu, unida e determinada, o que causou a admiração do mundo. Os ucranianos esqueceram as suas rivalidades e as suas diferenças e uniram-se perante a guerra. 
É esse o título que o jornal francês La Croix escolheu para a sua edição de hoje.
Porém, os títulos e as imagens escolhidas pela generalidade da imprensa servem para todos os gostos, mas nenhum deles se atreve a prever o que vai acontecer no terreno nas próximas semanas, isto é, se a contraofensiva ucraniana tem algum sucesso ou, se pelo contrário, a ofensiva russa consegue consolidar as suas posições. No que respeita aos efeitos desta guerra sobre a economia europeia e sobre as posições das opiniões públicas, alguns jornais destacam que a Europa se aproxima da recessão, com o euro a desvalorizar-se face ao dólar, com a quebra da economia alemã, com o aumento do preço do gás, com os efeitos da seca e, ainda, com a imprevisibilidade das eleições italianas.
A Ucrânia parece resistir aos ataques russos e a Rússia não mostra interesse em negociar. Nem o Papa, nem Guterres, nem Erdogan, conseguem quaisquer avanços para que as partes se sentem à mesa das negociações. Ambos apostam na derrota do seu opositor e, por isso, o solo ucraniano parece um gigantesco paiol de armamento. É cada vez mais evidente que a saída para este conflito e para o fim da tragédia que está a arrasar o povo ucraniano, passa por soluções políticas e diplomáticas, onde deverão ser discutidas e arbitradas as questões em disputa. 
Há cada vez mais o receio de estarmos perante um longo conflito de grande desgaste e todos estamos sujeitos às suas incertezas. Tal como nas guerras em que Portugal esteve envolvido na década de 1960 do século XX, a solução destas guerras é política e não militar. 

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Democracia e paz nas eleições em Angola

Cerca de 14 milhões de eleitores vão escolher amanhã o novo presidente da República Popular de Angola e, também, os deputados que irão sentar-se na Assembleia Nacional.
Angola é um grande país com profundas relações históricas e culturais com Portugal e possui a maior população lusófona do mundo depois do Brasil, o que faz com que as eleições angolanas sejam acompanhadas em Portugal com grande interesse. O país viveu duas grandes guerras: a primeira de libertação nacional entre 1961 e 1974 e, logo a seguir à independência, uma guerra civil travada entre 1975 e 2002, em que se enfrentaram o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita).
O MPLA está no poder desde 1975, primeiro com Agostinho Neto, depois com José Eduardo dos Santos e actualmente com João Lourenço que, nas eleições de amanhã, procura a sua reeleição, numa disputa com Adalberto Costa Júnior, um engenheiro electrotécnico formado em Portugal, que é deputado à Assembleia Nacional e líder da Unita.
Todos os analistas consideram que as eleições de amanhã são as mais disputadas de sempre da história política angolana e que, apesar de um ou outro incidente menor, a campanha eleitoral foi esclarecedora e decorreu com elevação. Não há tradição de sondagens em Angola e é grande a incerteza quanto ao resultado. Porém há indicações, ou mesmo duvidosas sondagens, que indicam que João Lourenço pode ser reeleito com 50 a 60% dos votos, enquanto Adalberto Costa Júnior poderá conseguir cerca de 40% dos votos, o que representa uma enorme subida do seu partido. A partir de Lisboa, o jornal de Negócios diz que é tempo de incerteza. O que nos interessa, qualquer que seja o resultado, é que as eleições sejam democráticas, justas, pacíficas e que abram a porta a mais progresso para os angolanos.

domingo, 21 de agosto de 2022

Europa: o calor, a seca e os rios sem água

A água é a fonte da vida humana, além de conservar os ecosistemas e regular o clima, mas é um recurso finito, -embora essa realidade nem sempre seja percebida pelas pessoas habituadas a rodar a torneira e ter a água a correr sob pressão.
A importância da água é uma realidade muito antiga e até originou guerras em muitas regiões do mundo, mas a Europa da abundância tem ignorado esse problema. Porém, a escassez da água chegou à Europa e os europeus têm agora que aprender a conhecer o seu valor, porque dela dependem as comunidades, as economias e os ecosistemas. Com o aumento das temperaturas médias devido ao aquecimento global e às alterações climáticas, que se tem verificado nos últimos anos, é esperado que o problema da escassez de água se agudize. As condições extremas de calor e seca estão a afectar a Europa, mas também os Estados Unidos e a China. É um problema global que está a agravar o modo de vida das populações e as economias, pelo que são necessárias medidas para fazer face a este problema.
Na Europa, o símbolo maior desta ameaça é o rio Reno, um dos seus principais rios, enquanto rota fluvial de comércio e espaço de turismo, pois os níveis de água têm baixado significativamente. Porém, o mesmo está a acontecer com nosso rio Tejo, com o Danúbio, outro grande rio europeu, mas também com o rio Colorado nos Estados Unidos e com o rio Yang-tse na China, entre muitos outros.
Hoje o jornal espanhol ABC apresenta uma grande reportagem a que deu o título Europa se seca e ilustra a capa da edição com uma fotografia do rio Loire, o maior rio da França, que desagua próximo de Nantes na costa atlântica francesa. A expressão “uma imagem vale mais que mil palavras” tem aqui muito cabimento.