terça-feira, 8 de abril de 2014

As eleições gerais na Índia - II

Iniciou-se ontem na República da Índia o processo eleitoral que conduzirá à escolha dos 543 deputados que integrarão o Lok Sabha, a câmara baixa do parlamento, mas também a escolha do novo primeiro-ministro do segundo país mais populoso do mundo e o sétimo em área geográfica.
As eleições legislativas indianas mobilizam cerca de 814 milhões de eleitores que exercerão o seu direito de voto em 930 mil zonas eleitorais através do voto electrónico, controlado em todo o território pela Comissão Eleitoral da Índia, sendo um verdadeiro desafio logístico devido à extensão e à diversidade do território nacional, com regiões montanhosas, desertos e florestas. Por isso, o processo eleitoral é muito lento e decorrerá durante 6 semanas, sendo utilizadas 1,4 milhões de urnas electrónicas que serão transportadas para as regiões mais remotas do território por terra, mar e ar, havendo 11 milhões de pessoas envolvidas nessa operações.
As eleições são, principalmente, uma disputa entre Narendra Modi, do partido nacionalista Bharatiya Janata Party (BJP), e Rahul Gandhi, do Partido do Congresso (INC). A campanha eleitoral tem sido muito dinâmica e os temas dominantes têm sido a corrupção, o desemprego, o aumento da inflação, a desaceleração da actividade económica e a segurança das mulheres. No entanto, o tema mais distintivo entre os dois partidos é a segurança nacional e a tensão fronteiriça relativamente aos seus vizinhos/rivais, nomeadamente o Paquistão e a China que, no caso de vitória do BJP, tenderá a reacender-se naquela que é considerada “the most dangerous border of the world”.
Como nota de curiosidade, regista-se o hábito de muitos jornais indianos “venderem” as suas primeiras páginas como publicidade paga e com apelos directos ao voto, como acontece hoje na edição do Hindustan Times.
 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A tradição inglesa já não é o que era

Disputou-se ontem, ao longo de 6,8 quilómetros das águas do rio Tamisa, a 160ª edição da famosa regata entre as universidades de Oxford e de Cambridge e, desta vez, foi o “oito” de Oxford que venceu. Foi a sua 78ª vitória e, porque as duas equipas empataram uma vez, significa que a equipa de Cambridge tem 81 triunfos registados. Naturalmente, o jornal The Times registou o evento na sua primeira página que, curiosamente, também tem uma chamada de atenção com fotografia do treinador Mourinho.
A Oxford – Cambridge Boat Race (remo) disputa-se desde 1829, arrasta multidões e paixões e é, provavelmente, a mais antiga competição desportiva que se realiza em todo o mundo, embora haja quem queira atribuir esse atributo à America’s Cup (vela) ou até ao Wimbledon Championship (ténis). Desde há duas dezenas de anos que a famosa regata começou a ser patrocinada e se “profissionalizou”, pelo que a tradição já não é o que era. Entrou-se no domínio da alta competição e, recentemente, até o nome da histórica prova passou a ser BNY Mellon Boat Race. Com esta “profissionalização” muita coisa mudou e até a admissão naquelas universidades passou a depender não só dos méritos académicos dos candidatos, pois o seu currículo como remadores também passou a ser importante. Assim, muitos campeões mundiais e olímpicos de remo passaram a integrar as duas universidades, apenas pelo prestígio desportivo de que beneficiavam. A preparação das equipas passou a estar dependente de treinadores profissionais, de fisioterapeutas, de nutricionistas e de outros especialistas, para potenciar o seu rendimento desportivo.
A regata é uma tradição inglesa que é transmitida pela TV para todo o mundo, não sendo um exclusivo da Inglaterra, até porque este ano, dos 18 elementos que integaram as duas equipas só sete eram britânicos, havendo seis norte-americanos, dois neozelandeses, dois canadianos e um alemão.

domingo, 6 de abril de 2014

Um valente soco no estômago!

Quando esta manhã vi a capa do Correio da Manhã tive a sensação de ter levado um valente soco no estômago, pois não imaginava que o deslumbramento e o fascínio novo-riquista de algumas pessoas e entidades continuasse a ofender os princípios básicos de uma sociedade coesa e solidária como aquela a que aspiram e merecem os portugueses, sobretudo em tempos de recessão e de dificuldades.
Num país em que a taxa de risco de pobreza aumentou em 2012 para 18,7%, ou seja, afectava quase dois milhões de portugueses e que é a mais elevada desde 2005; num país que é o mais desigual no seio da zona euro e em que essa desigualdade se acentuou com o aumento da carga fiscal, o corte nas pensões, o desemprego e a diminuição das prestações sociais; num país em que os jovens perdem a esperança e o entusiasmo e emigram aos milhares; num país em que se envelhece com ansiedade e medo pelas incertezas do futuro; num país em que já se anunciam novos cortes que serão de dois mil milhões de euros; num país em que as funções da saúde, da educação e da segurança social são esvaziadas todos os dias de conteúdos e de sentido social; num país que envelhece e cujo interior se desertifica; num país cujo Presidente diz que temos à nossa espera mais vinte anos de disciplina orçamental e supervisão externa; num país em que a governação está entregue a gente inexperiente e ambiciosa que mente descaradamente e sem vergonha... 
Pois é neste país que o Banco de Portugal, que é a autoridade monetária e que deveria ser exemplar na parcimónia com a despesa e um referencial de contenção, decidiu comprar 17 automóveis topo de gama por 634 mil euros, entre o início de 2013 e Fevereiro deste ano, com a marca alemã BMW a dominar as preferências dos beneficiados e a dar uma “ajuda” aos alemães no (des)equilíbrio das nossas contas externas. É o regresso de um feudalismo dos tempos modernos com a recuperação das relações de vassalagem, em que os servos trabalham e pagam os tributos aos senhores feudais. É um caso de falta de senso. É uma vergonha!
 

sábado, 5 de abril de 2014

Há fanáticos ideológicos à solta por aí

Todos nos lembramos da entrada no governo do jovem e promissor Pedro Lomba como secretário de Estado adjunto do ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional, tendo ficado com a missão de conduzir os anunciados briefings diários com jornalistas, que decorreriam às 12:00 horas, com duração máxima de meia hora. Foi há um ano e foi um monumental fiasco. O Lomba fez lombada.
O Lomba nasceu em 1977, cresceu na periferia de Lisboa e seguramente é um jota fiel. O seu primeiro momento de glória política foi a nomeação como secretário de Estado, mas a sua função ficou vazia depois do fiasco dos briefings. Passou muitos meses na penumbra e reapareceu agora sob a forma de uma entrevista publicada no jornal i que, obviamente, foi combinada com o entrevistador que, por acaso, foi recentemente classificado num blogue como “uma espécie de jornalista”, pois enquanto tal prefere fazer favores aos amigos do que dizer a verdade. A entrevista começa com um familiar tratamento por tu  “nasceste em 1977...” – mas mais adiante muda de tom e passa a tratar o secretário adjunto Lomba por você, que é mais reverencial – Os exemplos que me deu...”. Podia ser uma gralha, mas não é. O amigo do Lomba distraiu-se. A entrevista parece um manifesto ideológico cujo conteúdo é, certamente, o objecto dos estudos académicos do Lomba, mas o seu ponto de maior interesse é a seguinte frase:
O governo tenta continuar e desenvolver o espírito do 25 de Abril original”.
Igual a esta tirada filosófica de apoio ao 25 de Abril, só a cena do Relvas a cantar o Grândola ou o Passos de cravo ao peito. Alguns dos meus amigos dirão que o obcecado Lomba tem muita lata, porque não fala dos portugueses, nem dos seus problemas. O Lomba é um jota que não tem experiência, nem vivência do mundo real, nem da gestão da coisa pública, nem de coisa nenhuma. O Lomba é um atrevido. O Lomba é um fiasco e devia estar calado. Não gosto daquele bigodinho e fico assustado por sermos governados por este tipo de fanáticos ideológicos ou de lombas.

As eleições gerais na Índia - I

A partir do próximo dia 7 de Abril vai iniciar-se o complexo processo que são as eleições gerais na Índia, que se estenderão até ao dia 12 de Maio, isto é, durante 36 dias. Na chamada “maior democracia do mundo” irão votar 814 milhões de eleitores residentes nos seus 28 Estados federados, entre os quais haverá cerca de 100 milhões que votarão pela primeira vez.
 Os dois principais partidos em confronto são o Indian National Congress ou Partido do Congresso (INC) e o Bharatiya Janata Party (BJP). O INC é o partido da dinastia Nehru-Gandhi que tem estado no poder nos últimos dez anos e cujo candidato é Rahul Gandhi que, aos 43 anos de idade, aspira tornar-se no primeiro-ministro do país, tal como o seu bisavô (Jawaharlal Nehru), a sua avó (Indira Gandhi) e o seu pai (Rajiv Gandhi). O BJP é um partido nacionalista, com uma poderosa ala ultra-nacionalista, que tem como candidato Narendra Modi, que governou o Estado do Gujarat com sucesso durante os últimos doze anos.
Embora sejam pouco credíveis, as sondagens apontam para um resultado de 35% para o BJP e de 25% para o INC, o que significa que não haverá maioria absoluta e que terão que ser feitas coligações com os inúmeros partidos regionais. A Índia passa por um período de desaceleração do seu crescimento económico, não tem emprego para os milhões de jovens que se formam em cada ano e tem níveis de corrupção e de pobreza elevadíssimos, pelo que o eleitorado e, em especial as novas gerações, exigem mudanças na governação.
Embora por vezes se associe o INC à esquerda e o BJP à direita, no contexto indiano essa classificação não é correcta: o INC é o partido que conquistou a independência, é o herdeiro do poder colonial britânico e é secularista, enquanto o BJP é um partido nacionalista que tem por base a religião hindu e que, muitas vezes, é intolerante e radical, relativamente às minorias religiosas, sobretudo a islâmica. A enorme importância geopolítica das eleições indianas não passou despercebida ao The Economist, que pergunta: quem poderá parar Narendra Modi?

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Ser deputado no Brasil e em Portugal...

A edição de hoje do Correio Braziliense é demolidora para os deputados brasileiros e, na sua primeira página, destaca o título “#vaitrabalhardeputado”, sugerindo aos leitores que vejam quanto custa aos brasileiros que pagam impostos o dia de trabalho de um político, quer na Assembleia Legislativa (deputados estaduais), quer no Congresso Nacional (deputados federais).
Num pequeno texto introdutório o jornal diz: “Eles foram eleitos para legislar a favor do cidadão. Zelar para que os brasileiros tenham serviços públicos como educação, saúde, segurança e transporte de boa qualidade. Como cada um deles custa 62 milhões anuais [de reais*], e haverá em tese apenas 34 sessões deliberativas em 2014, cada dia de ‘serviço efectivo’ das excelências sairá por 1,8 milhões [de reais*]”. É um escracho. Uma vergonha que se repete também no Congresso Nacional. Feitas as contas, cada uma das sessões de votação na Câmara dos Deputados custará nada menos que 3,75 milhões [de reais*]”.
Eu não possuo números que, sobre os deputados portugueses, possam comparar com os deputados brasileiros. Porém, numa altura em que são severamente cortados os rendimentos dos funcionários públicos e dos pensionistas, os deputados portugueses em finais de 2013 aumentaram os seus vencimentos em 4,99%, passando o seu valor global de 9.803.084 euros para 10.293.000 euros. Ainda mais estranho é o que se passa com os seus Subsídios de Férias e de Natal que beneficiam de um aumento de 91,8%, passando de 1.017.270 euros no orçamento de 2013 para 1.951.376 euros no orçamento para 2014.
E aqui está como o Brasil e Portugal têm, não só um passado histórico e uma língua comuns, mas também uma classe política cheia de semelhanças pouco recomendáveis. Porém, aqui neste jardim lusitano parece que não temos jornalistas com o profissionalismo e a coragem necessárias para investigar estas coisas, nem jornais como o Correio Braziliense para denunciar estas realidades.
*Hoje, um euro tem o valor cambial de 3,11 reais. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

VW - um bom investimento anunciado

Com pompa e circunstância foi anunciado pela Autoeuropa que a sua fábrica de Palmela quer duplicar a capacidade exportadora até 2019, através de um investimento de 670 milhões de euros que criará 500 postos de trabalho. Com esse investimento a marca Volkswagen planeia introduzir novas tecnologias de produção que lhe permitam fabricar simultaneamente vários modelos de automóveis. Porém, este investimento ainda está dependente da negociação de um programa de incentivos com a AICEP e da posterior formalização de um contrato entre o Estado e a Volkswagen, que deverá ocorrer durante o segundo semestre deste ano, depois de ser aprovado pela Comissão Europeia. A Autoeuropa vai candidatar-se a incentivos nacionais de ordem diversa, o que significa que irá beneficiar de dinheiros públicos, o que vem confirmar o importante papel económico do Estado, ao contrário do que têm defendido aqueles que acreditam na “mão invisível” para regular toda a economia.
Ao fim de um longo período de brutal quebra do investimento, é a primeira vez que se anuncia um investimento significativo que tem relevância tecnológica, que cria emprego e que incrementa as exportações. É também um investimento de inovação e de expansão, isto é, tem todas as características estruturantes de que carece a economia portuguesa para potenciar o aparecimento ou o fortalecimento das indústrias nacionais. Segundo alguns comentadores de assuntos económicos “é um investimento amigo de Portugal” e acredita-se que a decisão da Volkswagen de aumentar o investimento na fábrica de Palmela teve a influência da chanceler alemã. Se assim foi, ainda bem. Este investimento merece, naturalmente, o devido aplauso.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A Berta e as suas senhas de presença

O Tribunal de Contas considerou ilegal o pagamento de 390.850 euros em senhas de presença a presidentes de câmara e vereadores de cinco municípios da ilha de São Miguel, que foram pagos entre Março de 2004 e Dezembro de 2013 pela associação de municípios da ilha (AMISM).
Hoje o Diário de Notícias informa que foram 18 os autarcas que receberam essas importâncias indevidas que terão que devolver. Entre eles encontra-se Berta Cabral, a Secretária de Estado da Defesa, que recebeu ilegalmente 19.250 euros em senhas de presença enquanto presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, entre 1 de março de 2004 e 31 de dezembro de 2012. Estas ilegalidades mostram a voracidade e a falta de escrúpulos dos nossos políticos e, no caso da Berta, o caso é muito mais grave pois revela um comportamento de gula por dinheiro que é incompatível com o exercício confiável de cargos públicos, quer no governo regional, quer no governo da República.
A Berta é um produto do carreirismo político e nunca lhe faltaram tachos, mas ainda não aprendeu que não vale tudo, sobretudo quando se trata de dinheiros, mas também de princípios. Nesse aspecto, todos nos lembramos do que disse em Setembro de 2012 como candidata do PSD nas eleições regionais dos Açores, quando se demarcou do líder do seu partido e perguntava se alguém a considerava parecida com Pedro Passos Coelho, ao que ela própria respondia: “Eu tenho um passado. Eu não nasci ontem para a política. As pessoas conhecem a minha obra social feita até agora”.
A Berta perdeu as eleições e demitiu-se do partido, mas poucos meses depois aceitou mais um tacho, agora em Lisboa, como Secretária de Estado da Defesa no governo do mesmo Passos Coelho. Até colocou a bandeirinha portuguesa na lapela… Pois é esta mulher que pratica a ilegalidade e é incoerente nos princípios, que gere as Forças Armadas!

segunda-feira, 31 de março de 2014

As reflexões de Alípio Dias

Tendo estado afastado das minhas rotinas durante alguns dias e de algumas das minhas fontes de informação habituais, só agora tive conhecimento da entrevista que Alípio Dias deu ao jornal i e que julgo ter sido publicada na edição do dia 22 de Março a propósito do 40º aniversário do 25 de Abril. O lead da notícia era um bocado enganador, pois a entrevista era muito mais substantiva: “Mandei fechar o Banco Borges às 10 da manhã. Já não tínhamos notas”.
Alípio Dias é uma personalidade relevante do nosso regime democrático: economista, docente universitário, deputado pelo PSD, Secretário de Estado das Finanças e do Orçamento em cinco governos constitucionais, vice-governador do Banco de Portugal, Presidente do Banco Totta & Açores e Administrador do BCP, entre outras funções desempenhadas. A sua entrevista é fluente, muito interessante e, sem comentários, dela destaco algumas passagens.
Sobre o serviço militar obrigatório: O governo ter acabado com o serviço militar obrigatório foi um erro gravíssimo. Não digo que durasse três anos e tal, mas 12 a 14 meses, sim […] porque se misturavam pessoas de norte a sul, gente que não tinha nada com gente que tinha tudo, havia uma miscigenação, uma amálgama, mas aproximava as pessoas, havia camaradagem. Digo-lhe uma coisa: se não fosse a Marinha, a minha vida tinha sido outra.
Sobre as negociações com a troika: Hoje há muita incompetência, é por isso que estamos na situação em que estamos. E é por isso que as negociações com a troika são o que são. Eu fiz as negociações com o FMI: havia coisas que eles não aceitavam, havia outras que não aceitávamos nós. Por isso digo que há incompetência e há desonestidade intelectual. Não é possível manter isto.
Sobre a geração que está hoje no poder: Falta-lhe ser educada. Education, no sentido inglês do termo. Esta geração não teve education, permitem-se fazer tudo, não respeitam constituições, não respeitam leis. Tenho muito respeito pelo Pedro, mas não pode ser. Ele não pode dizer o que disse ao Bloco de Esquerda na Assembleia da República, tem de responder. Mas sabem que estão a conduzir uma política errada […] Porque é que Vítor Gaspar saiu? Percebeu que esta política só nos conduzia à desgraça e não quis participar nisto, safou-se. […] Hoje há muita incompetência, é por isso que estamos na situação em que estamos. E é por isso que as negociações com a troika são o que são. 
É militante do PSD. Já explicou isso a Passos Coelho? Não posso não ser leal e tenho as quotas pagas até 2019. Enviei uma carta ao primeiro-ministro e ao Presidente da República. Acho que estamos no limite, mas o Pedro está convencido de que o divino Espírito Santo o iluminou. Eu acho que estão a abusar. Há uma coisa que vem na Constituição: Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência, ao desenvolvimento, bem como o direito de insurreição contra todas as formas de opressão... Estamos a chegar a esta parte. Escrevi para chamar a atenção e dizer, cuidado, podemos chegar aqui.

sábado, 29 de março de 2014

A EDP e a falta de pudor e de vergonha

A EDP e os interesses que giram à sua volta são privados e não correspondem aos interesses do povo português. Não devia ser assim, mas foi isso que quiseram os que nos governam. Os seus lucros superam os mil milhões de euros anuais e são verdadeiramente obscenos, num país em que a desigualdade e a pobreza se agravam e são chocantes. A EDP e a sua gente engordam à nossa custa. No ano de 2013 as famílias portuguesas gastaram quase 6% do seu rendimento disponível na conta da eletricidade, o que corresponde à maior factura entre os países da União Europeia e, neste ano de 2014 será ainda maior, já que o preço da electricidade voltou a subir (2,8%) e os consumidores tiveram quebra dos seus rendimentos. Pagamos a quarta energia mais cara da União Europeia, em paridade de poder de compra, de acordo com um estudo elaborado pelo Eurostat com base nos preços referentes a Julho de 2013. Neste quadro de verdadeiro assalto às famílias portuguesas e de escandalosa protecção à EDP, há espaço para acomodar alguns amigalhaços, que nem precisam de tachos, nem percebem nada de electricidade. É gente que aceita estes lugares apenas por egoísmo, por vaidade e por ganância, sem pensar nos sacrifícios e nas incertezas por que passam os seus concidadãos. É gente sem pudor e sem vergonha. O Correio da Manhã divulgou hoje os seus nomes e os valores milionários que recebem. São catrogas e cardonas, são macedos e mateus. Ocorre-me o Manifesto Anti-Dantas de José de Almada-Negreiros, porque esta gente que está acantonada na EDP é a versão moderna do Dantas.
     O Dantas é o escárneo da consciência!
     Se o Dantas é portuguez eu quero ser hespanhol!

sexta-feira, 28 de março de 2014

Stiglitz e a dívida pública portuguesa

Joseph Stiglitz, o Prémio Nobel da Economia de 2001, esteve em Macau há alguns meses a convite da Autoridade Monetária e Cambial, mas regressou agora para participar no arranque do Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental (MIECF) e para proferir algumas palestras. O jornal Hoje Macau destaca na sua edição de hoje as principais linhas das intervenções de Stiglitz, em que defende o combate às desigualdades sociais e à corrupção, para além de apontar caminhos que o jornal sintetiza com a frase “morte aos cheques”, porque em sua opinião, mais importante do que dar cheques à população, é necessário o investimento na saúde e na educação, para que sejam áreas acessíveis a todos, uma vez que as desigualdades começam desde a infância.
Interrogado a respeito da situação portuguesa o Prémio Nobel da Economia preferiu não dizer se assinaria o manifesto assinado em Portugal por 74 personalidades em que pedem a reestruturação da dívida pública, mas defendeu que o país precisa de o fazer “de forma profunda” e acrescentou:
“Se essa reestruturação não for suficiente, voltarão a ter problemas dentro de três anos, tal como a Grécia teve”.
Joseph Stiglitz também chamou a atenção para a posição das estruturas europeias:
“Há uma resistência muito grande no Banco Central Europeu e na Alemanha à reestruturação da dívida. Representam os interesses dos credores que querem sempre estrangular o devedor. O que é pouco inteligente, porque estrangulando o devedor conseguem menos do que conseguiriam se o tratassem bem. Mas há uma propensão para estrangular”.
Bom seria que os nossos submissos e insensíveis governantes aprendessem com Stiglitz e, tivessem orgulho no nosso povo,  não se deixando humilhar pela troika, pelos seus funcionários e pelos seus mentores.

VISÃO História e a operação Fim-Regime

A VISÃO História é uma revista especializada em temas de História que se publica trimestralmente desde 2008 e que é dirigida a um público generalista. As temáticas abordadas têm sido sempre muito interessantes e oportunas, com visões diferenciadas, abrangentes e muito bem ilustradas.
A sua mais recente edição tem o número 23 e trata do 25 de Abril de 1974 e da chamada Operação Fim-Regime, em que são descritas as principais acções desenvolvidas nesse dia, contadas pelos militares que as protagonizaram, mas também muitos aspectos da conjuntura política que determinou a criação e depois a acção do Movimento das Forças Armadas. Otelo e Salgueiro Maia lá estão para serem recordados como os principais protagonistas desse dia.
Dessa forma, a revista associa-se às comemorações do 40º aniversário dessa efeméride libertadora. Para quem participou ou acompanhou essa jornada que restituiu a liberdade ao povo português, até parecia que já estava tudo dito e tudo escrito sobre o assunto, mas esta edição da VISÃO História vem mostrar que há sempre novos factos e até alguns protagonistas que não eram do conhecimento público. Trata-se, portanto, de uma edição que se lê com muito agrado e com a qual aprendemos alguma coisa.
 

quarta-feira, 26 de março de 2014

Melhores navegações no mar dos Açores

No passado dia 21 de Março um novo navio iniciou a sua actividade operacional nas ligações marítimas entre as ilhas do grupo central do arquipélago dos Açores, tendo a sua base no porto da Horta. O novo navio tem linhas muito modernas e foi baptizado com o nome de Mestre Simão, em homenagem ao homem que durante muitos anos, com grande coragem e competência, comandou as históricas lanchas Calheta e Espalamaca nas duríssimas travessias do canal do Faial. Propriedade da empresa pública "Atlânticoline", o navio tem 40 metros de comprimento e capacidade para transportar 344 passageiros e 8 viaturas, devendo muito brevemente juntar-se-lhe o Gilberto Mariano, o segundo navio que a empresa vai colocar ao serviço do tráfego nas ilhas do grupo central. 
A entrada ao serviço deste novo navio é um grande acontecimento regional, um elemento de valorização económica e turística e, sobretudo, um importante benefício social para as populações das ilhas do grupo central, tantas vezes sujeitas aos perigos, às incertezas e ao desconforto das travessias feitas em pequenas lanchas e com mar tempestuoso, que preenchem o imaginário de muitas gerações de açoreanos e, em respecial, dos picoenses. Embora o “mau tempo no canal”, que Vitorino Nemésio imortalizou no seu famoso romance, vá continuar a fustigar aqueles que atravessam o canal do Faial, o facto é que o Mestre Simão vai tornar as ligações entre as ilhas do grupo central, especialmente entre o Faial e o Pico, menos problemáticas e mais confortáveis. Eu já experimentei e fiquei satisfeito. É um investimento avultado, mas é um caso de evidente progresso social. Os mares dos Açores são muito duros, mas por aqui as pessoas valem!

Os nossos jovens com vontade de emigrar

O jornal i destaca na sua edição de hoje que, metade dos alunos do 3º ciclo do ensino básico, isto é, jovens entre os 12 e os 15 anos, já pensam em emigar. Esta conclusão resulta de um inquérito e de um estudo promovidos pela associação Empresários pela Inclusão Social (EPIS) que, segundo o jornal, terá sido apresentado hoje na Fundação Calouste Gulbenkian.
O estudo que avaliou expectativas, preferências e capacidades de estudantes de 18 concelhos, revela que 46% dos cerca de dois mil estudantes que participaram no inquérito estão convencidos de que terão de emigar para arranjar trabalho. O estudo mostra que, maioritariamente, os rapazes querem ser desportistas e as raparigas querem ser médicas, mas também tem algumas respostas para temas como o sucesso escolar, as carreiras profissionais, o desemprego, a aparência física e os hobbies, entre outros. Naturalmente que o estudo é importante para pais e professores, mas para a generalidade da população tem um sabor muito amargo. É caso para perguntar o que andam a fazer os nossos governantes que, obcecados pela obediência cega aos nossos credores – que são também nossos parceiros, nossos aliados e nossos amigos – antes sugeriram que uma geração emigrasse e agora deixam que uma outra geração já veja os caminhos da emigração como os caminhos do futuro. Que país é este que estamos a construir, onde tanta gente jovem já pensa em emigrar? Curiosamente e sem qualquer sentido das realidades, em vez de mostrarem preocupação por estarem a tirar a esperança a uma geração, os nossos governantes dizem que os sinais animadores da nossa economia já permitem inverter o ciclo emigratório. Será que acreditam no que dizem?
 

domingo, 23 de março de 2014

As portas que o Paulo abriu

A notícia apareceu na maioria dos jornais portugueses e o Jornal de Notícias destacou-a ontem na sua primeira página: “um burlão chinês com visto dourado”. Trata-se de um caso realmente interessante, mas que não é surpreendente nem inesperado, pois era evidente que o visto gold - um programa lançado no início do ano passado com grande entusiasmo e muita propaganda pelo irrevogável ministro Portas que, dessa maneira, esperava atrair investimento estrangeiro - poderia ter aspectos positivos, mas também ia ser um cavalo de Tróia onde se iriam esconder actividades criminosas de ordem diversa. Agora, quando a Polícia Judiciária deteve um indivíduo chinês que era procurado no seu país e tinha um mandado de detenção internacional por burla, a face obscura do problema surgiu com mais clareza pois o burlão tinha obtido recentemente uma autorização de residência em Portugal ao abrigo dos vistos gold.
Até ao final de 2013 o Estado atribuiu 417 vistos gold que, segundo foi divulgado, representaram um “investimento” total de 316 milhões de euros, dos quais 90% se referiam à aquisição de imóveis. Para quem estudou muitos anos na Rua do Quelhas, o conceito de investimento não é exactamente a aquisição de imóveis com dinheiro que não se sabe de onde vem, mas o conceito foi apropriado e desvirtuado por quem não tem habilitação académica nessa matéria, mas até chegou a ministro. Nessa ganância governamental por dinheiro, até a nacionalidade passou a ter preço!
Por cá foram poucas as vozes que têm mostrado preocupação peloo descrédito que é a venda da nacionalidade, mas o mesmo não aconteceu no Parlamento Europeu, onde foi vivamente criticada a atribuição dos vistos gold por poderem permitir a permanência e a circulação pelo espaço Schengen a todo o tipo de gente. Este caso vem provar que, na sua ânsia de protagonismo, o irrevogável abriu portas a quem não devia. Afinal, como era de esperar, deu mais um tiro no pé.