segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A irresponsabilidade no caso do Banif

Todos nos lembramos de um tempo não muito distante em que a arrogância da banca se impunha sobre a sociedade portuguesa, com o anúncio de milhões de euros de resultados e a atribuição de gigantescos prémios de gestão. Muitos pensavam que era um desvario e uma quase loucura o que se passava com a banca portuguesa que, na sua gananciosa actividade, estimulava os portugueses a endividarem-se para comprar casa, comprar carro, comprar férias, comprar tudo. Era um mar de facilidades para os clientes e, viu-se depois, também um mar de facilidades para os gestores. Aconteceu o escândalo do BPN e esperava-se que a lição tivesse sido aprendida. Não foi. Veio o caso BPP. E o caso BES. Agora vem o Banif. É só mais um caso na banca portuguesa. E é mais uma vergonha, com um custo para os contribuintes que pode chegar a três mil milhões de euros.
Há dois anos o governador do Banco de Portugal tinha dito que o Estado recuperaria com lucro os 1100 milhões de euros que injectara no Banif. Passos Coelho confirmou e até disse que era um bom negócio, pois esse dinheiro ia render juros ao Estado. Depois, instada no Parlamento, a ministra Albuquerque assegurou que tudo tinha sido bem estudado. Agora, a Comissão Europeia veio recordar que desde há muito tempo manifestava preocupações relativamente à viabilidade do Banif. Então, todos sabiam, mas Passos Coelho, Paulo Portas, Maria Luís Albuquerque e todo o anterior governo, mas também Carlos Costa e essa desonesta trupe de incompetentes que se passeia pelo Banco de Portugal, não actuaram e são os responsáveis directos pelo que aconteceu. Por desleixo, por incompetência ou por opção política deixaram arrastar a situação e a intervenção no Banif,  que deveria ter sido feita em 2013, não se fez. Foi essa a “saída limpa” de que tanto se orgulharam! Entretanto Cavaco, que tanto sabe de bancos, está calado, o que até nem admira. Tudo isto é uma irresponsabilidade. Uma vergonha!

Agora é a Espanha que procura uma saída

Tal qual acontecera em Portugal, a Direita que governou a Espanha e que aplicou duras políticas de austeridade à sociedade espanhola, também foi afastada do poder. Nas eleições legislativas ontem realizadas, o PP obteve uma maioria de 28% contra 22% do PSOE, um resultado muito semelhante ao que acontecera em Portugal em Outubro passado quando as forças políticas homólogas portuguesas tiveram 38% e 32%, isto é, os mesmos 6% de diferença. Assim, o PP perdeu a sua maioria absoluta e a hipótese de governar sozinho. Dessa forma, a política espanhola “abre espacio a los pactos” como hoje salienta El País e, tal como cá, também aquela fantasia do “arco da governação” acabou. A política espanhola tem agora que contar com o Podemos (20%), com os Ciudadanos (14%) e com cerca três dezenas de deputados que representam partidos e forças políticas regionais. Aparentemente, será mais difícil encontrar uma solução governativa, embora sejam tantas as combinações possíveis que certamente não haverá necessidade de marcar novas eleições. Ontem, uma das curiosidades esteve nas declarações prestadas pelos líderes partidários, pois todos estiveram de acordo: o PP de Mariano Rajoy deve procurar uma solução governativa, mas ninguém excluiu outras soluções, incluindo a “solução portuguesa” que por cá fez muita gente perder o bom senso e as boas maneiras, a começar nessa figura sem expressão eleitoral que é o troca tintas do Portas e os seus acéfalos seguidores.

domingo, 20 de dezembro de 2015

E não se pode exterminá-los?

Num relatório publicado esta semana e que foi analisado pelo jornal Público, os responsáveis do FMI olharam para a forma como foram desenhados e implementados os programas aplicados durante o período de 2008 a 2015 e verificaram os resultados obtidos, assumindo que teria sido melhor fazer logo à partida uma reestruturação das dívidas públicas demasiado elevadas, como é o caso da portuguesa. De entre os programas analisados está o programa da troika aplicado em Portugal entre 2011 e 2014, no qual o FMI desempenhou um papel fundamental, tanto em termos de financiamento, como de definição das políticas a seguir. E a conclusão é óbvia: o FMI, a troika e aqueles que lhes deram total apoio falharam. Essas falhas resultaram de um brutal irrealismo em relação às realidades económicas e sociais, de uma expectativa demasiado elevada em relação ao efeito das reformas estruturais que foram incapazes de executar, de uma consolidação orçamental demasiado rápida e de um enorme erro no que respeita ao tratamento da resolução da dívida pública. Lamentavelmente, nada acontece aos responsáveis por este trabalhinho, nem a quem tão fanática e acaloradamente os apoiou, embora estes tenham sido postos fora do governo. É bom recordar que em Março de 2014, alguns meses antes do fim do “programa de ajustamento” e da treta da “saída limpa”, um grupo de setenta personalidades de diferentes quadrantes políticos subscreveu um manifesto em que defendeu a chamada “reestruturação responsável da dívida”, como condição para acabar com a política da austeridade pela austeridade, sem a qual não será possível o crescimento e o emprego. Nesse manifesto era feito um apelo para que o nosso país encetasse esforços junto dos seus parceiros europeus para preparar uma reestruturação da dívida pública, que há pouco tempo estava em 229.074 milhões de euros e que em 2014 terá consumido 7,239 mil milhões de euros só em pagamento de juros. O fanatismo neo-liberal não lhes deu ouvidos e, agora, apesar do mea culpa do FMI, os responsáveis por esses desvarios andam por aí a falar, provavelmente sem perceberem o mal que nos fizeram .

Goa e a sua enorme paixão pelo futebol

Até meados dos anos oitenta, o mais antigo jornal de Goa era O Heraldo, que se publicava em português desde 1900, mas que por razões comerciais decidiu adoptar o inglês e suprimir a letra O do início e do fim do seu nome, ficando simplesmente oHeraldo, o que deixa uma certa margem recordatória de outros tempos.
Há vários jornais diários em Goa, uns em inglês, outros em marata e outros em concanim, cada qual com os seus públicos específicos, mas o oHeraldo é o jornal dos católicos e da cada vez mais reduzida memória portuguesa. A edição de hoje do oHeraldo dedica a sua primeira página à final da Indian Super League entre as equipas do FC Goa e do Chennaiyin FC, que hoje se disputa às 18 horas e 50 minutos na cidade de Margão, no Jawarharlal Nehru Stadium, mais conhecido como Fatorda. O pequeno Estado de Goa com pouco mais de um milhão de habitantes “defronta” o Estado de Tamil Nandu com setenta milhões de habitantes e a sua poderosa capital Chennai, a antiga cidade de Madrasta dos ingleses. Será David contra Golias, porque o poder do dinheiro também já domina o futebol indiano.
É uma prática corrente na Índia que a primeira página dos jornais seja ocupada por um anúncio publicitário, mas não é costume que esse anúncio trate do futebol, até porque o futebol ainda não tem a popularidade nacional do cricket. O Estado de Goa é a excepção. O futebol domina a paixão e o interesse desportivo dos goeses e essa é, certamente, uma herança cultural portuguesa dos tempos do Sporting de Goa, do Benfica de Mapuça e dos relatos dominicais da Emissora Nacional.
Hoje na equipa do FC Goa treinada pelo brasileiro Zico, jogarão alguns cidadãos indianos de origem goesa cujos nomes nos recordam um passado recente de convívio cultural entre Goa e Portugal, como Joaquim Abranches, Luís Xavier Barreto, Romeu Fernandes, Nicolau Colaço, Keenan Almeida ou Victorino Fernandes. Se a equipa de Goa hoje ganhar, os goeses e os seus milhares de familiares e amigos que vieram de todo o mundo para passar o Natal em Goa, vão fazer uma grande festa e a circulação automóvel nos 35 quilómetros da Edapally-Panvel Hwy entre Margão e Pangim vai estar pouco recomendável.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Economia do mar gera euforia em Macau

No próximo dia 20 de Dezembro, a Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China (RAEM) vai passar a administrar uma área marítima com 85 quilómetros quadrados.
No início do século XX o território de Macau tinha apenas 11,6 km2 de superfície distribuídos pela península de Macau e pelas ilhas da Taipa e Coloane, mas em meados do século começaram a ser feitos aterros, designadamente entre aquelas ilhas, daí resultando que a actual a RAEM tenha actualmente uma superfície de cerca de 29,5 km2. Com a decisão agora tomada pelo governo de Pequim abre-se a possibilidade de uma parte das novas zonas marítimas poderem vir a ser utilizadas para a construção de aterros, mas também para servir como instrumento de diversificação económica. Segundo revela a edição de hoje do jornal Hoje Macau, o anúncio do alargamento das águas territoriais macaenses provocou uma “onda de euforia”, perante a possibilidade da criação de novas áreas de negócio relacionadas com a economia do mar e de desenvolvimento do turismo náutico, o que significará mais emprego e mais riqueza. O jornal chamou mare nostrum ao alargamento das águas territoriais de Macau. De acordo com as autoridades marítimas, a RAEM dispõe de leis, regulamentos e experiência no âmbito da gestão marítima, designadamente na fiscalização e controlo de embarcações, portos e marinas, nas actividades da pesca e do turismo, bem como noutras actividades marítimias. Assim, a euforia macaense parece justificar-se pelas perspectivas oferecidas pela economia do mar.

Mourinho, a sabedoria e a conta bancária

Ontem foi largamente noticiado que Roman Arkadyevich Abramovich, o dono do Chelsea Football Club que é um dos mais populares clubes do futebol londrino, tinha despedido o português José Mourinho, o treinador da sua equipa de futebol.
Naturalmente que se trata de um acontecimento relevante e por isso é uma notícia, embora eu tivesse ficado surpreendido com a sua inesperada dimensão, isto é, Mourinho é apenas um treinador de futebol e, ao contrário de tantos outras personalidades, a sua acção pouco tem acrescentado para o progresso da Humanidade ou para a paz no mundo.
A primeira coisa que chama a atenção é o facto de se tratar de uma notícia quase universal, pois são inúmeros os jornais que, um pouco por todo o planeta, colocam a fotografia de Mourinho na sua primeira página. No caso da Inglaterra, da Espanha e de Portugal, a notícia do despedimento de Mourinho é ilustrada com uma fotografia e é mesmo a principal notícia em muitos jornais. O diário londrino The Guardian é apenas um deles.
Outro aspecto interessante do despedimento do treinador português é saber-se se foi por mútuo acordo ou se foi um despedimento litigioso. Segundo foi divulgado, tratou-se do fim do contrato por mútuo acordo e Mourinho vai ser indemnizado. Porém, enquanto alguns jornais ingleses referem que Mourinho vai receber uma indemnização de 10 milhões de libras, o The Sun aponta para 18 milhões. Porém, nenhuma imprensa se interessa tanto pelo assunto como a imprensa portuguesa que, sem excepção, trata de apresentar números para todos os gostos, registando valores de 18, 16, 13½, 13 e 10 milhões, sem especificar a moeda. Tem havido milhões de despedimentos e há milhões de desempregados na Europa, mas nenhum deles tem a conta bancária de Mourinho, apenas porque ele sabe cuidar de si.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Afonso de Albuquerque, o Leão dos Mares

Assinalam-se hoje cinco séculos sobre a data da morte de Afonso de Albuquerque, ocorrida a bordo do seu navio na barra de Goa, na manhã do dia 16 de Dezembro de 1515. O cronista Fernão Lopes de Castanheda descreveu esse acontecimento nos seguintes termos:
E dali por diãte se achou de cada vez peor, de maneira que sabado quinze dias de Dezembro á noyte que foy surgir na barra de Goa […] &  hũa hora antes que falecesse se lhe tornou a fala. E estandolhe lendo a paixão de que era muyto devoto, & em que dizia que levava sua esperança de salvação, deu a alma a nosso senhor domingo ante manhaã dezaseys de Dezembro de mil & quinhentos & quinze, vestido em ho abito de Santiago, de cuja ordem era cavaleyro […] pedio perdão de seus pecados antes de seu falecimto. E falecido foy posto na tolda da nao…
Afonso de Albuquerque foi uma das mais proeminentes figuras da História de Portugal e foi o verdadeiro fundador do Estado Português da Índia, ao assegurar-lhe uma base territorial. Tendo nascido em Alhandra de família fidalga no ano de 1453, adquiriu experiência militar desde muito jovem nas conquistas do norte de África e na batalha de Toro. Em 1506 seguiu para a Índia como capitão-mor da costa da Arábia no comando de uma frota de cinco navios da armada de dezasseis navios de Tristão da Cunha. Em 1507 conquistou Ormuz à entrada do golfo Pérsico, em 1510 conquistou Goa na costa ocidental da península Industânica e em 1511 conquistou Malaca, situada na península Malaia e na passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. Em 1509 tinha sucedido a D. Francisco de Almeida como 2º vice-rei e governador Estado Português da Índia, tendo desempenhado esse cargo até à sua morte em 1515. Morreu mal com el rey por amor dos homens, & mal com os homens por amor del rey.
Afonso de Albuquerque não está livre de acusações de desumanidade e barbaridade, mas é realmente uma das grandes figuras da História de Portugal e daí que seja aqui evocado.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A enorme incerteza da política francesa

Os resultados das eleições regionais francesas, que tiveram a sua 1ª volta no dia 6 de Dezembro e a 2ª volta no dia 13 de Dezembro, traduziram-se numa vitória dos Republicanos de Nicolas Sarkozy em 7 regiões e da União da Esquerda de François Hollande em 5 regiões, conforme assinala hoje edição do Le Monde na sua primeira página. Estavam inscritos nos cadernos eleitorais cerca de 45 milhões de franceses, mas apenas 26 milhões votaram e destes apenas foram validados cerca de 25 milhões de votos, o que mostra que em França, tal como em muitos outros países da Europa, os cidadãos confiam cada vez menos nos políticos que têm e consideram a participação eleitoral e a democracia participativa cada vez mais desinteressante.
Nas eleições francesas os votos nacionais distribuiram-se pela União da Direita ou Republicanos (40,2%), pela União da Esquerda ou Socialistas (28,8%) e pela Frente Nacional (27,1%), embora estes resultados não tenham quaisquer consequências imediatas a nível nacional, salvo no que respeita a uma primeira perspectiva das eleições presidenciais de 2017.
Nicolas Sarkozy recuperou na sua ambição de regressar ao Eliseu, enquanto a Frente Nacional que na 1ª volta tinha vencido em seis regiões e se esperava que pudesse vencer em duas ou três regiões, sucumbiu ao apelo ao voto útil feito pelos seus adversários e a uma maior participação eleitoral. Apesar disso, o partido de Marine Le Pen que privilegia o discurso anti-imigração e anti-Europa, teve cerca de 6,8 milhões de votos e esse resultado preocupa a França e a Europa, pois  lança uma enorme incerteza na política francesa.
A propósito, poder-se-à perguntar onde se encontram em Portugal os amigos de Marine Le Pen...

Paris: um acordo para salvar o planeta

A Cimeira de Paris aprovou um acordo que envolve 195 países e que vai dar origem a um novo tratado internacional destinado a conter o aquecimento global do nosso planeta. Depois de vários anos de negociações e de hesitações, o novo o acordo é visto como um passo histórico, pelo seu carácter universal e por ultrapassar divergências que até agora tinham impedido que se encontrasse um substituto do Protocolo de Quioto. Se o conteúdo do acordo for cumprido, na segunda metade deste século o mundo terá praticamente abandonado os combustíveis fósseis e as emissões que restarem de gases com efeito de estufa serão anuladas pela sua absorção por florestas ou pela sua captura e armazenamento. O novo acordo foi possível por ter resultado de uma abordagem inovadora, pois não há metas impostas aos países e são eles que têm que decidir o que fazer. Portanto, a base do acordo são planos nacionais a apresentar a cada cinco anos por todos os países, nos quais prestarão contas do que fizeram ou explicarão qual o seu contributo para a luta contra o aquecimento global. Todos os países têm de participar e não apenas os países desenvolvidos, embora estes tenham de liderar os esforços na redução de emissões de gases com efeito de estufa. O objectivo declarado do acordo é conter a subida dos termómetros a um valor “muito abaixo de 2ºC” e prosseguir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. Além disso, os países desenvolvidos comprometem-se a continuar a financiar as nações em desenvolvimento nas suas políticas de adaptação e mitigação climática. A Cimeira de Paris foi considerada um êxito e Laurent Fabius, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, recebeu o unânime aplauso. A imprensa mundial deu larga cobertura à Cimeira de Paris e aos seus resultados: o The Sydney Morning Herald foi apenas um deles.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A Espanha vai a votos no domingo

As eleições legislativas em Espanha realizam-se no próximo domingo e todos os dias a imprensa publica sondagens. Hoje, também o El País publica a sua sondagem: PP de Mariano Rajoy (25%), PSOE de Pedro Sánchez (21%), Podemos de Pablo Iglesias (18%) e Ciudadanos de Albert Rivera (18%).
Como se vê, a Espanha está embrulhada numa situação governativa semelhante à que aconteceu em Portugal depois das eleições de 4 de Outubro, isto é, nenhuma força política terá maioria para governar e daí que sejam necessárias coligações ou alianças. A imprensa hoje apresenta as duas alternativas que lhe parecem mais prováveis: um pacto entre o PP e o C’s ou uma aliança entre PSOE, Podemos e C’s. Em qualquer dos casos, haverá uma nítida rejeição da actual política de Mariano Rajoy e da sua subordinação aos baronetes neoliberais da Europa. É bem possível que nos próximos dias os espanhóis falem da solução portuguesa, aquela que tanto surpreendeu e deixou engasgados o par Passos & Portas e os jovens radicais que os seguem. Independentemente dos resultados eleitorais que se verificarem em Espanha, não é de prever que alguém faça o ridículo discurso da vírgula que Portas fez e que os seus telmoscorreias repetiram exaustivamente. Observados daqui do rectângulo, parece que nem Rajoy, nem Sánchez, nem Iglesias, nem Rivera, têm o despudor e nem a falta de vergonha exibida durante várias semanas pelos inconsoláveis políticos que perderam o poleiro e pelos seus ideólogos-comentadores do tipo fernandes+marquesmendes.
Atentemos, pois, nas eleições espanholas ou no 20-D, como eles gostam de se lhes referir.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Angela Merkel - person of the year 2015

Desde 1927 que a revista TIME escolhe a Personalidade do Ano e, numa atitude de auto-promoção, a própria revista afirma que, para o melhor ou para o pior, esta escolha influencia o mundo. É um exagero publicitário, até porque no fim do ano se fazem inúmeras escolhas deste tipo sem que alterem o curso da Humanidade. No entanto, esta escolha é uma curiosidade que se repete há 89 anos e que desperta o interesse das pessoas. A escolha deste ano recaiu em Angela Merkel, na linha do que aconteceu com a revista Forbes que a classificou como a segunda pessoa mais poderosa do mundo, numa lista em que, à cabeça, surgem sempre Vladimir Putin, Barack Obama, Xi Jinping e o Papa Francisco.
De acordo com os critérios da popular revista americana, a escolha de Angela Merkel é acertada, não só pela posição que ocupa desde 2005 como chanceler da poderosa Alemanha, mas também pela forma como se tornou a incontestada líder da Europa, cilindrando Barroso e Juncker, Sarkozy e Hollande, entre muitas outras figuras que ocasionalmente aparecem no palco europeu, como Jeroen Dijsselbloem ou Christine Lagarde. As suas posições tornam-se sempre as posições da Europa. É conhecida a sua atitude intransigente em relação à dívida dos países do sul, mas também o seu apoio aos refugiados sírios. É sabido, também, como olha para os problemas da Ucrânia e da Síria sem o radicalismo dos seus parceiros ocidentais, da mesma forma que recusou entrar na cruzada anti-Kadaffi.
Pode concordar-se ou não com a prática política de Angela Merkel, mas há que reconhecer que tem pensamento próprio, o que é uma coisa que desapareceu do “mundo ocidental” e até do pequeno mundo que tomou conta da política no nosso Portugal, onde proliferam papagaios e papagaias que repetem, repetem, repetem ou, se quisermos, mentem, mentem, mentem.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Afinal de que lado está a Turquia?

A revista semanal italiana Tempi que se publica em Milão aborda como tema principal da sua última edição a situação na Turquia e, em especial, o comportamento do seu Presidente Recep Tayyip Erdoğan que, depois de ter sido primeiro-ministro durante cerca de onze anos, foi eleito para a presidência do país em Agosto de 2014.
Não é preciso dominar fluentemente o idioma italiano para perceber que o título Bottino di guerra, que significa despojos ou prendas de guerra, nos conduz à triste realidade de perceber que a Turquia está a tirar vantagens da situação que ela própria ajudou a criar, com a sua oposição a Bashar el-Assad e a sua aliança com a Arábia Saudita. O subtítulo esclarece ainda mais: “protegida pelo guarda-chuva da NATO, a Turquia de Erdoğan pratica o saque na Síria, trafica com o ISIS e pratica a extorsão aos refugiados. E a União Europeia ainda a premeia com três mil milhões de euros”. Realmente...
É sabido que a Turquia tem sido o principal apoio das forças anti-Assad e que é pelo seu território que é feito o contrabando do petróleo que financia o ISIS. Sabe-se, também, que sendo os curdos o grupo que mais tem combatido o radicalismo do ISIS, como se viu em Kobani, tem sido fortemente bombardeado pelos turcos sem que a NATO trave essas acções que, objectivamente, favorecem o ISIS e o jihadismo. O recente abate de um avião russo na fronteira turca, também mostrou que a Turquia não quer ver estranhos a observar o que se passa nas suas fronteiras.
Erdogan tem sido acusado de autoritarismo e de ter a família envolvida em negócios duvidosos, para além de estar a seguir uma orientação islâmica, no país que há muitas décadas tinha sido transformado num Estado secular por Ataturk. Afinal quem é e o que quer Recep Tayyip Erdoğan? A revista Tempi desconfia e eu também. Será que ele é muito diferente de Sadam Hussein e de Bashar el-Assad e de tantos outros lideres daquela região?

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A Venezuela cansou-se do chavismo

As eleições legislativas venezuelanas realizadas no passado domingo tiveram um resultado que, não sendo inesperado surpreendeu, porque depois de 16 anos no poder, o chavismo foi derrotado.
As eleições realizaram-se num quadro de dificuldades económicas devidas à quebra da receita do petróleo e num ambiente de grande perturbação nacional e de quase revolta popular, com uma enorme escassez de alimentos e de medicamentos no mercado, com altas taxas de inflação, com perseguições políticas, muita insegurança e raptos e atentados. O eleitorado polarizou-se em torno de duas grandes coligações: de um lado o GPP ou Gran Polo Patriótico Simón Bolívar, liderado por Nicolas Maduro, o actual presidente da República Bolivariana da Venezuela e herdeiro político de Hugo Chavez e, do outro, o MUD ou Mesa de la Unidad Democratica liderado por Henrique Capriles. Embora se tratasse de duas grandes coligações, cada uma delas com um largo leque de partidos e movimentos, o GPP era classificado de centro-esquerda, enquanto o MUD era classificado de centro-direita. Os quase vinte milhões de eleitores deram a vitória ao MUD, o que aconteceu pela primeira vez em 16 anos. Nicolas Maduro reconheceu a derrota e afirmou que venceu a paz.  Depois de novos ventos em Cuba, de mudanças na Argentina e de ambiente tenso no Brasil, está em curso a mudança na Venezuela.
As eleições venezuelanas têm uma grande importância para Portugal, porque depois do Brasil, a Venezuela é o segundo país da América Latina com mais emigrantes portugueses. Os números oficiais apontam para cerca de quinhentos mil, embora os luso-descendentes possam ultrapassar um milhão. Por isso, tudo o que acontece na Venezuela interessa aos portugueses.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Um galeão para resgatar 300 anos depois

O Presidente da Colômbia Juan Manuel Santos anunciou na passada sexta-feira que os restos do galeão espanhol San José tinham sido encontrados a cerca de 10 milhas do porto de Cartagena das Indias e ontem, numa conferência de imprensa na Base Naval de Cartagena, afirmou: “Estoy muy complacido como jefe de Estado de informar a los colombianos que sin lugar a dudas, sin ningún tipo de duda, hemos encontrado 307 años después de su hundimiento el galeón San José”.
O galeão San José, guarnecido por 60 canhões, foi afundado no dia 8 de Junho de 1708 por navios ingleses quando largava daquele porto em direcção a Espanha, com mais de seiscentos marinheiros a bordo e com um tesouro que incluia ouro do vice-reino de Nova Granada (hoje Colômbia), prata do Perú e pedras preciosas, além de muitos outros objectos religiosos. A partir da documentação coeva existente, foi estimado pelos arqueólogos marítimos colombianos que o valor da carga do San José estaria entre 5 e 10 mil milhões de dólares, caso fosse vendido a colecionadores. Porém, o Presidente Santos anunciou de imediato que os tesouros a resgatar seriam musealizados num edifício apropriado a construir na cidade de Cartagena. A imprensa colombiana destaca este acontecimento e o El Colombiano ilustra a sua primeira página com uma gravura do galeão.
A localização do navio naufragado foi feita em 1991 pela empresa americana Sea Search Armada e levantou-se então um conflito entre o Estado colombiano e a empresa que reclamava metade do valor do tesouro a resgatar. Porém, um tribunal americano já decidiu a favor do Estado colombiano com base na lei colombiana que regulamenta a propriedade do património cultural submerso e que estabelece mecanismos para o resgate das centenas de naufrágios históricos que se encontram em águas colombianas, entre os quais se incluia o galeão San José. A descoberta deste galeão é um grande acontecimento cultural para a Colômbia e os colombianos souberam proteger-se atempadamente dos caça-tesouros.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Iraque, Síria, Líbia… e o Afeganistão

A ignorância e incompetência com que as potências ocidentais, os seus dirigentes máximos e os seus gabinetes de estratégia trataram as chamadas primaveras árabes, levaram ao afastamento de alguns dos seus líderes mais contestados como Saddam Hussein e Muammar Kadaffi, enquanto agora se procura abater Bashar al-Assad. Com o vazio político criado, o poder caiu na rua e a desordem impôs-se nesses países. Na ausência do poder que o ocidente abateu ou desautorizou, surgiu a guerra no Iraque com base numa mentira e a guerra na Síria com base numa teimosia e, daí, surgiu um radicalismo terrorista consubstanciado no ISIS. Apesar de todas as acções militares em curso, o jihadismo está a alastrar e, embora por formas diferentes, atingiu interesses russos, feriu a França com enorme crueldade e, aparentemente, até chegou aos Estados Unidos.
A Líbia é agora o novo foco onde se concentram as atenções jihadistas porque fica na encruzilhada da Europa, África e Médio Oriente. Aí, o ISIS não só dispõe do arsenal militar que sobrou da guerra contra Kadaffi como tem engrossado as suas fileiras com novos combatentes. Sabe-se que está a treinar pilotos na base aérea de Sirte e que a travessia do Mediterrâneo demora menos de uma hora. É a nova ameaça para a Europa, como Kadaffi avisara.
Entretanto, como hoje revela o jornal londrino The Times, o ISIS invadiu o Afeganistão, isto é, um grupo de 1600 combatentes islâmicos internou-se na zona leste do Afeganistão, junto da fronteira com o Paquistão. É o Wilayat Khurasan, a versão afegã do ISIS. Ocupou quatro distritos a sul da cidade de Jalalabad, a pouco mais de uma centena de quilómetros da capital Kabul, tendo instalado um campo de treino militar e procedido a julgamentos corânicos e a decapitações públicas.
Não sei o que mais é preciso para Obama, Putin, Xi Jinping, Hollande, Cameron, Merkel e não sei quem mais, se entenderem.