segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Aproximam-se as eleições espanholas


As eleições legislativas espanholas vão realizar-se no próximo dia 12 de Novembro e não é necessário referir a sua importância para a Espanha e para as pretensões independentistas da Catalunha, mas também para Portugal e para a coesão europeia, até porque já basta de instabilidade, sobretudo aquela que nos vai chegando das Ilhas Britânicas. Nesta altura aparecem sondagens para todos os gostos, que mostram que é cada vez mais estreita a diferença entre a esquerda e a direita parlamentares, isto é, entre o bloco de esquerda formado pelo PSOE, Unidos Podemos e Más País e o bloco de direita constituído pelo PP, Ciudadanos e Vox.
Hoje, os cinco principais candidatos vão confrontar-se no único debate televisivo previsto na campanha eleitoral e há fortes expectativas quanto ao seu efeito sobre os cerca de 35% de eleitores indecisos, mas não faltarão apreciações quanto à reduzida influência das campanhas eleitorais na opção e voto dos eleitores. O jornal ABC é um dos jornais espanhóis que, a uma semana das eleições, publica hoje uma sondagem em que o PSOE de Pedro Sanchez aparece com 27,3% e o PP de Pablo Casado com 21,6%, o que mostra que, desde o passado mês de Abril quando se realizaram as anteriores eleições legislativas, o PSOE desceu quase um ponto percentual e que o PP subiu quase quatro pontos. Por isso, há quem defenda uma coligação entre estes dois partidos cujos projectos não são incompatíveis mas, se assim fosse, lá se ia o principio da alternância democrática do poder.
Portanto, parece sensato que não se façam muitos prognósticos quanto ao futuro politico da Espanha porque os tempos que virão não vão ser fáceis.

domingo, 3 de novembro de 2019

Novo fôlego da independência da Escócia

A Escócia é um reino situado na parte norte das ilhas Britânicas que foi independente desde 843 até 1707, ano em que se uniu com a Inglaterra para formar o Reino Unido da Grã-Bretanha. Durante três séculos os escoceses e os ingleses viveram muito felizes, embora tivessem mantido inúmeras instituições e actividades que nunca foram integradas na sua união, que em 1801 foi estendida à Irlanda, dando origem ao Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda.
Em 1973 o Reino Unido aderiu à Comunidade Europeia e, para além das suas capitais em Edimburgo e Londres, os escoceses passaram também a ter uma outra capital em Bruxelas. E gostaram disso, porque da nova capital lhes chegaram muitas coisas boas. Porém, nos últimos tempos as coisas começaram a mudar, com tensões políticas entre escoceses e ingleses. Daí resultou um referendo sobre a independência da Escócia realizado no dia 18 de Setembro de 2014, em que 44,70% dos escoceses votaram sim, enquanto 55,30% votaram não.
As tensões independentistas serenaram, até que no dia 23 de Junho de 2016 se realizou um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, em que 51,89% dos eleitores votaram sim ao Brexit, embora 67,2% dos escoceses tivessem votado contra. No dia seguinte, a primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon, afirmou que um segundo referendo pela independência da Escócia em relação ao Reino Unido estava em cima da mesa.
Entretanto, passaram mais de três anos e a David Cameron sucedeu Theresa May e, depois, o estarola do Boris Johnson. Tem sido uma confusão e um descrédito completos. Agora estão marcadas eleições para o próximo dia 12 de Dezembro, mas Nicola Sturgeon não perdeu tempo e, como se esperava, exige agora um novo referendo sobre a independência da Escócia.

A inovação da moderna arquitectura

A Fundação OnePulse anunciou na cidade americana de Orlando, no estado da Florida, que depois de um concurso internacional foi aprovado o desenho do novo Museu Nacional e Memorial de Pulse, a construir naquela cidade, que foi proposto por um grupo de arquitectos franceses em colaboração com arquitectos locais. O jornal La Prensa de Orlando, publicou a imagem do monumento que homenageará as 49 vítimas mortais e os 53 feridos que resultaram o massacre terrorista, bem como todos os que foram afectados pela trageia ocorrida no dia 12 de Junho de 2016 na discoteca Pulse, executado em nome do Daesh e que foi considerado "o mais mortal tiroteio em massa da história dos Estados Unidos”.
A proposta vencedora não é definitiva e representa um ponto de partida para discussão e posterior integração de novas ideias, mas o monumento incluirá um espelho de água e um jardim com 49 árvores, além de um museu ao ar livre, jardins verticais e um passeio na cobertura. Com este monumento, a cidade de Orlando procura ultrapassar o trauma que esta tragédia constituiu para a comunidade local e, ao mesmo tempo, é uma aposta numa obra de arquitectura inovadora e de referência. Naturalmente que as grandes obras da arquitectura primeiro se estranham mas depois se entranham, como dizia o slogan publicitário atribuído a Fernando Pessoa.  

sábado, 2 de novembro de 2019

A viagem do “Mayflower” foi há 400 anos

No dia 6 de Setembro de 1620 largou de Plymouth um velho navio de carga de cerca de 30 metros de comprimento chamado Mayflower que transportava 30 tripulantes e 102 passageiros com destino ao outro lado do Atlântico. No dia 11 de Novembro o navio chegou a Cabo Cod, no actual estado de Massachusetts, depois de sessenta e cinco dias de viagem.
Na sua maioria os passageiros do Mayflower eram famílias puritanas que procuravam a sua liberdade longe da Igreja Anglicana, num tempo de grande conflitualidade religiosa nas ilhas britânicas e na Europa. Apenas sobreviveram 53 passageiros, conhecidos depois por pilgrims fathers, que foram os primeiros ingleses protestantes que emigraram para o continente americano e que fundaram as primeiras colónias que vieram a dar origem aos Estados Unidos.
Nos anos 1950 surgiu na Inglaterra a ideia de construir uma réplica do Mayflower para ser oferecida aos Estados Unidos como símbolo da gratidão inglesa pela ajuda americana durante a II Guerra Mundial. Essa réplica foi construída nos estaleiros de Brixham e em 1957 navegou para os Estados Unidos, onde se tornou um navio-museu muito visitado e tendo feito algumas pequenas viagens entre os portos da costa nordeste dos Estados Unidos. Actualmente o navio encontra-se em trabalhos de manutenção e restauro nos estaleiros Mystic em Connecticut, preparando-se para tomar parte no Mayflower Sails 2020, que no próximo ano celebrará em Boston os 400 anos da sua histórica viagem. Em Maio de 2020, quando navegar para Boston, espera-se que o Mayflower tenha a companhia do USS Constitution, que entrou ao serviço em 1797. Segundo o The Boston Globe será a primeira vez que os dois mais simbólicos navios da história americana navegarão juntos. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Donald Trump a caminho da impugnação

Numa conferência proferida há dois dias e que foi divulgada pela revista Visão, o professor Adriano Moreira afirmou que “a maior ameaça actual ao mundo é a incultura e a leviandade do Presidente dos Estados Unidos”. Esta afirmação, feita por alguém cuja lucidez e sabedoria são bem reconhecidas nos meios políticos e académicos, revela que o comportamento de Trump é um problema global e não é apenas um caso muito preocupante para os americanos e para os seus aliados.
Por isso, com uma maioria de 232 votos contra 196, os congressistas da câmara baixa do Congresso ou Câmara dos Representantes dos Estados Unidos acabam de formalizar um processo de impugnação (impeachment) contra o presidente Donald Trump, o que é um acontecimento histórico por ser a quarta vez em 230 anos que o Congresso chega tão perto de uma acusação e julgamento de um presidente dos Estados Unidos. No entanto, este problema acontece não só devido à má gestão e à impreparação de Trump para o cargo, mas também porque se aproximam eleições presidenciais e é o tempo para os Democratas e os Republicanos “contarem espingardas”, sucedendo-se os testemunhos favoráveis ou desfavoráveis à actuação presidencial do Donald.
Porém, mesmo que a Câmara dos Representantes venha a acusar o Donald de “crimes graves”, é muito provável que ele não seja condenado por essa acusação quando o processo subir ao Senado, pois seria necessária uma maioria de dois terços (67 senadores) e o Partido Democrata só pode contar, à partida, com 47 votos. Portanto, a impugnação pode acontecer, mas daí à destituição vai uma grande distância.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Argentina e Brasil com rumos diferentes

Nos últimos tempos realizaram-se eleições presidenciais em Moçambique, na Bolívia e na Argentina, mas enquanto Filipe Nyusi e Evo Morales renovaram os seus mandatos, o presidente Mauricio Macri foi derrotado por Alberto Fernández que vai ser o presidente da Argentina, o país que viu nascer o Papa Francisco e Ernesto "Che" Guevara, Lionel Messi e Diego Maradona, Carlos Gardel e Jorge Luis Borges, Juan Manuel Fangio e Juan Domingo Perón.
Na sua primeira mensagem no Twitter o presidente eleito agradeceu a vitória aos seus apoiantes e publicou uma fotografia em que aparece a desenhar um “L” com o indicador e o polegar da mão esquerda — um símbolo do movimento que pede a libertação de Lula da Silva, o antigo presidente do Brasil. A fotografia vinha acompanhada de um texto que dizia que “também hoje faz anos o meu amigo Lula, um homem extraordinário que está injustamente preso há um ano e meio”, acrescentando “parabéns para si, querido Lula. Espero ver-te em breve”. Jair Bolsonaro, a partir da capital brasileira, não gostou daquelas afirmações e afirmou ser “uma afronta à democracia brasileira e ao sistema judiciário brasileiro”, recusando-se a felicitar o novo presidente da Argentina.
Parece, portanto, abrir-se um tempo de incerteza ou mesmo de tensão entre os dois maiores países da América do Sul, cuja rivalidade vai muito para além do futebol. Porém, a malha de interesses económicos e comerciais entre eles é tão intensa que, certamente, nenhum ousará criar incidentes diplomáticos ou rupturas comerciais. É exactamente isso que salienta a edição de ontem do Correio Braziliense, isto é, a esquerda peronista na Argentina e a direita ultra-conservadora de Jair Bolsonaro vão ter de conviver, embora a navegar com rumos ideológicos bem diferentes.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Abu al-Baghdadi morreu mas o Daesh não

Os Estados Unidos, pela voz de Donald Trump, anunciaram ontem a morte de Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico do Iraque e Síria (ISIS) ou, em árabe, apenas Daesh.
Este facto foi uma grande vitória para Donald Trump que vinha sendo muito criticado pela sua recente decisão de retirar as tropas americanas do norte da Síria, mas também foi um alívio para todos os que, muitas vezes, acompanharam pela televisão as atrocidades e as barbaridades cometidas pela gente que ele comandava.
Abu Bakr al-Baghdadi era um religioso que, depois da invasão americana do Iraque em 2003, estivera preso em Camp Bucca, no território iraquiano, tendo sido nesse centro de detenção mantido pelos militares americanos que lhe nasceu a ideia da criação de um califado. Entretanto, al-Baghdadi estudou na Universidade de Bagdad e doutorou-se em estudos do Alcorão, mas manteve sempre a sua ligação a grupos radicais, pois o seu objectivo era estabelecer o seu próprio Estado por meio da força. Em 2014 anunciou a criação de um califado a que chamou Estado Islâmico do Iraque e Síria, também conhecido por Daesh, que em pouco tempo passou a controlar importantes cidades através da imposição de uma relação de brutalidade contra cerca de 8 milhões de pessoas e da ocupação de um extenso território no Iraque e na Síria.
A instabilidade na região favoreceu o Daesh, mas a reacção não tardou daí resultando a perda da cidade iraquiana de Mossul em 2016, da cidade síria de Racca em 2017 e, em Março deste ano, do seu último bastião que era a cidade síria de Baghouz. O califado durara cinco anos. Abu Bakr al-Baghdadi tinha sido derrotado, mas a ameaça de reaparecer, eventualmente com acções terroristas noutras partes do mundo, perdurava. Agora, com a sua morte o mundo parece poder respirar, mas de facto o Daesh não morreu e, por certo, os seus seguidores não tardarão a aparecer porque a organização era um monstro de muitas cabeças.
Hoje, a notícia da morte de al-Baghdadi foi manchete na imprensa mundial. Era o homem mais procurado do planeta e escolheu o seu próprio fim.

domingo, 27 de outubro de 2019

Um forte protesto continua na Catalunha

Ontem a cidade de Barcelona voltou a ser palco de uma grande manifestação em que participaram cerca de 350.000 pessoas mobilizadas pelos Comités de Defesa da República, os CDR, depois de uma semana em que a calma parecia estar a regressar à cidade.
A contestação surgiu no passado dia 14 de Outubro, quando o Supremo Tribunal espanhol condenou os principais dirigentes políticos catalães envolvidos na tentativa de independência da Catalunha a penas que vão até um máximo de 13 anos de prisão. Essa decisão gerou uma onda de protesto que se repetiu ao longo de vários dias em Barcelona e em outras cidades da região autónoma que, muitas vezes, tem derivado para a violência e para o vandalismo, protagonizado por grupos radicais. Porém, embora o problema catalão se esteja a agudizar até porque não há diálogo à vista entre as partes em conflito, este número de manifestantes é bastante menor do que acontecera com outras manifestações.
Embora esse número seja menor do que antes, isso não significa que haja desmobilização por parte dos independentistas catalães. Num inquérito muito participado que o jornal catalão La Vanguardia abriu aos seus leitores, foram-lhes feitas duas perguntas:
1) Vês solução a curto prazo para o conflito catalão (94,1% de respostas negativas)
2) Aprovas os protestos contra a sentença do procés (27,9% de aprovações).
Significa que os catalães têm a noção de que as pretensões independentistas só poderão vir a ser satisfeitas no longo prazo e, naturalmente, num quadro de negociação e de diálogo democrático, mas também que é muito significativa a discordância relativamente à dura sentença proferida pelo Supremo Tribunal.

sábado, 26 de outubro de 2019

A crise também já chegou à NATO

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), por vezes chamada apenas como Aliança Atlântica, é uma aliança militar que foi assinada no dia 4 de Abril de 1949 por doze países – Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca, Noruega, Itália, Islândia e Portugal.
Depois, a NATO alargou-se e em 1952 entraram a Grécia e a Turquia, em 1955 a Alemanha, em 1982 a Espanha e, numa incompreensível e precipitada decisão, seguiu-se o ingresso de muitos outros países sem qualquer relação física ou cultural com o Atlântico, mas apenas para os isolar de outras influências ou contágios.
Hoje a NATO já agrega 29 estados-membros, o último dos quais é o Montenegro. Provavelmente, já são países a mais. 
A NATO constitui essencialmente um sistema de defesa colectiva em que os seus estados-membros concordam com a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa. Porém, quando um estado-membro se envolve em conflitos militares, a organização costuma consultar-se e tomar posição.
Foi o que agora aconteceu. Com a retirada unilateral americana do norte da Síria e a ofensiva turca na mesma região, os ministros da Defesa da NATO reuniram em Bruxelas e foram muito críticos em relação ao que se passa naquela área, onde os russos estão a reforçar a sua determinante influência junto dos diversos poderes regionais. Donald Trump e Recep Erdogan foram os alvos das críticas ministeriais e, enquanto houve 28 estados-membros a instar a Turquia para que suspendesse as suas operações, também tivemos Erdogan a afirmar que ninguém travará a ofensiva turca.
O facto é que, com 29 membros cultural e politicamente tão diferentes, como é possível sustentar uma aliança que depois da guerra fria perdeu todo o sentido, que actua bem longe do seu quadro atlântico e que insiste em querer manter uma unidade que na realidade não existe? É hoje evidente, até pelo que se passa com o Brexit e com grosseiro anti-europeismo de Trump, que a NATO é uma organização sem qualquer lógica ou coesão racionais e que apenas se mantém porque dá emprego, prestígio e poder a muita gente. Hoje o diário francês Le Monde retrata a “profunda crise” que atravessa a NATO, a organização onde têm assento Trump e Erdogan, mas também Boris Johnson, Matteo Salvini e Viktor Orbán, entre outros figurões.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O Museu do Louvre celebra Leonardo

É inaugurada hoje em Paris e estará patente ao público durante cinco meses no Hall Napoléon do Museu do Louvre, uma exposição evocativa do 500º aniversário da morte de Leonardo da Vinci.
O genial Leonardo viveu no Château du Clos Lucé em Amboise, a pouca distância da residência do rei Francisco I de França, que o convidara para a sua Corte e o nomeara "Primeiro Pintor, Engenheiro e Arquiteto do Rei", tendo ali  vivido três anos entre 1516 e 1519, o ano da sua morte. Por isso, embora seja italiano, a França também parece reivindicar alguma coisa do seu génio.
A exposição está a despertar um invulgar interesse. É a loucura, segundo revela o jornal Aujourd’hui en France. É a maior exposição dedicada ao génio de Leonardo e reúne 162 obras no mesmo espaço expositivo, incluindo 11 das 20 das suas pinturas conhecidas, além de desenhos e manuscritos, que foram identificados e reunidos ao longo de dez anos, num trabalho de pesquisa que exigiu pedidos de empréstimo em todo o mundo. O Museu do Louvre é o principal participante até porque possui a maior colecção de obras de Leonardo, mas a exposição inclui empréstimos de obras cedidas pelo Museu Hermitage de São Petersburgo, pelo British Museum e pelo Museu do Vaticano, entre outros museus de referência mundial. Até a rainha Isabel II permitiu que 24 desenhos que estão na posse da coroa britânica fossem enviados para Paris para serem expostos temporariamente no Louvre. Um desenho pertencente à colecção da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto também integra a exposição.
Curiosamente, a mais famosa obra de Leonardo, a Mona Lisa ou Gioconda, não estará na exposição e só poderá ser vista na galeria onde habitualmente se encontra, porque os organizadores da exposição entenderam que as cerca de 30 mil pessoas que todos os dias querem ver e fotografar aquela obra criariam engarrafamentos intoleráveis na área da exposição. Apesar disso, esperam-se 600 mil visitantes na exposição mais importante do ano que pagarão 17 euros pela visita, mas que terão obrigatoriamente de fazer uma reserva. Porém, diz o jornal que 220 mil bilhetes já estão vendidos...

terça-feira, 22 de outubro de 2019

A mundialização do protesto e da revolta

O nosso mundo está em ebulição e há focos de contestação por todo o nosso planeta, que está mais instável e mais perigoso do que nunca, como escreve na sua edição de hoje o jornal Le Parisien.
De facto, o protesto violento e o vandalismo estão a acontecer do Chile ao Líbano, de Hong Kong à Catalunha, mas também na Argélia, no Reino Unido, na Venezuela, no Iémen e na fronteira entre a Turquia e a Síria, além de outros locais.
Há trinta anos também aconteceu mais ou menos o mesmo fenómeno de contestação, quando o vento da liberdade soprou na praça de Tian'anmen, fez cair o muro de Berlim e acabou com a cortina de ferro que Stalin tinha criado em torno da URSS. Porém, passados esses trinta anos, quando o mundo está a atingir níveis de prosperidade muito elevados, as ondas de contestação e a violência que lhe está associada são surpreendentes.
Hoje, perante as imagens que nos chegam de todas as longitudes, vemos que o mundo está realmente em ebulição, proliferando as revoltas populares nascidas dos mais diferentes pretextos e que provocam a instabilidade, a incerteza e o caos. As pessoas não compreendem o que realmente se passa e assustam-se com uma situação que começa a ficar fora do controlo das autoridades nacionais. O jornal Le Parisien indica e caracteriza os 16 países em que actualmente há conflitos sociais, políticos ou militares e procura algumas respostas. Embora os pretextos para a revolta sejam diversos, uns mais compreensíveis que outros, parecem ser a velocidade de circulação da informação e a difusão de imagens icónicas, que geram o contágio do protesto em diferentes pontos do mundo e a adopção das praxis de violência e de vandalismo, tornando a mundialização da revolta muito mais rápida.

O desconcertante paradoxo venezuelano

Há cerca de seis meses reinava o caos e a incerteza na Venezuela, com meio mundo a hostilizar o regime de Nicolas Maduro e com a população envolvida em grandes manifestações, ora contra o governo venezuelano, ora a favor do regime chavista. A situação económica do país era gravíssima, com carências de bens de primeira necessidade e com uma inflação descontrolada. Donald Trump e alguns dos seus aliados sul-americanos aproveitaram a debilidade venezuelana e ensaiaram um golpe para afastar Maduro do poder, tendo apostado no ambicioso Juan Guaidó, o jovem presidente da Assembleia Nacional que, aos 35 anos de idade, se imaginou como o novo Simon Bolivar dos tempos modernos. A estratégia adoptada passou por intensas campanhas de manipulação da opinião pública nos mass media internacionais e pela intoxicação repetida de fake news, além de outras acções complememtares como foi a encenação mediática das fugas em massa para o Brasil e a ajuda humanitária através da fronteira com a Colômbia, a que aderiu a nossa pouco esclarecida RTP. A gente de Guaidó esperava a deserção maciça para o seu lado dos aparelhos militar e judicial, mas isso não aconteceu e a contestação perdeu fôlego, enquanto o Donald Trump se cansou de ter tido mais um insucesso nas suas políticas de destabilização nos países que não partilham do seu ideário. Durante alguns meses, a Venezuela foi esquecida e a imprensa mundial retirou-a da sua agenda. Até que, provavelmente inspirado pelo que se passa na Catalunha e no Chile, Juan Guaidó reapareceu para convocar uma grande manifestação para o dia 16 de Novembro que, disse, será o “começo de uma revolta popular sem precedentes na Venezuela”. Se não é uma ameaça de insurreição, parece. Mas esperemos para ver.
Porém, o PIB venezuelano caiu 26,8% no 1º trimestre do ano e, tal como hoje anuncia o jornal El Universal, a inflação acumulada no corrente ano já atingiu 4.679,5%! Com estes desempenhos económicos, tanto a Venezuela como o Maduro e o Guaidó são um terrível e desconcertante paradoxo.

sábado, 19 de outubro de 2019

O caos tomou conta da cidade de Santiago

O Chile é um país sul-americano cujo território ocupa uma extensa e estreita faixa entre a cordilheira dos Andes e o oceano Pacífico, estendendo-se ao longo de mais de 6.000 quilómetros. Tem cerca de 18 milhões de habitantes e, a partir dos seus indicadores económicos e sociais, designadamente o índice de desenvolvimento humano, o rendimento per capita, a qualidade de vida, a percepção de corrupção e o índice de pobreza, é considerado o país mais desenvolvido da América Latina.
A sua capital é a cidade de Santiago que, segundo informa a promoção turística, é uma cidade moderna, tem ares europeus mas exibe a diversidade latino-americana. Pois foi nesta cidade que, após vários dias de protesto contra o aumento do preço unitário dos bilhetes do Metropolitano que passaram de 800 para 830 pesos, isto é, um aumento de 3,75%, que ontem aconteceram graves distúrbios a lembrar o que está a acontecer em Barcelona, embora com motivações bem diferentes.
Ontem, milhares de pessoas, especialmente estudantes do ensino médio e universitário, forçaram a entrada nas estações do metropolitano sem pagar, destruíram tudo o que puderam e enfrentaram a polícia. A administração do metropolitano, que transporta diariamente quase 3 milhões de pessoas, decidiu encerrar as estações, o que originou o colapso do principal sistema de transporte urbano. Depois instalou-se o caos por toda a cidade, com a vandalização de 41 estações do metropolitano, a destruição de montras, o incêndio de automóveis e de contentores e até de edifícios. Nesta situação, o presidente Sebastián Piñera decretou o estado de emergência na área metropolitana de Santiago, enquanto foram detidos 308 manifestantes.
Naturalmente que o aumento de 3,75% no preço dos bilhetes do metropolitano é apenas um pretexto para o desafio da ordem democrática estabelecida e um sinal de insatisfação, a que se associaram elementos mais radicais apenas interessados na vandalização do património e na criação de condições de intranquilidade.
Paris, Hong Kong, Barcelona e, agora, Santiago, são meras coincidências ou são sinais dos novos tempos que se aproximam?

O Luxemburgo e a sua marinha mercante

O pequeno grão-ducado do Luxemburgo que tem uma superfície que não chega a ser metade do Algarve e que não tem qualquer ligação ao mar, tem hoje uma importante marinha mercante e cerca de 20.000 inscritos marítimos, segundo informa o jornal luxemburguês Le Quotidien.
Há 217 navios inscritos no registo luxemburguês, representando cerca de 1,41 milhões de toneladas mas, no mínimo, esta realidade parece ser um paradoxo.
Tudo começou em 1990 quando o Luxemburgo decidiu que a sua economia, até então especializada nos sectores financeiro e dos serviços, se lançasse no sector marítimo, como forma de dar oportunidades à sua banca de investimento e de assegurar uma receita fiscal aos cofres luxemburgueses.
Curiosamente, o primeiro navio registado na praça luxemburguesa foi o Prince Henri, um navio-transporte de produtos químicos que antes estava registado na Bélgica, mas a partir de então a procura pela praça luxemburguesa aumentou, apesar de ser uma opção mais cara do que o registo nas praças de Malta ou do Chipre.
Porém, para entrar neste mercado do registo marítimo o Luxemburgo apostou na diferenciação e decidiu não aceitar o registo dos grandes petroleiros com o argumento de que não querem ser coniventes com a poluição causada pelos acidentes marítimos. Além disso, só aceita que o pavilhão luxemburguês seja içado em navios novos, modernos e não poluentes, devendo o proprietário ou armador ter uma base empresarial ou uma sucursal em território luxemburguês. Significa, portanto, que o Luxemburgo se inspirou nas técnicas de marketing e apostou num posicionamento e numa diferenciação do seu “produto”, o que se traduziu já no registo de 217 navios.
Com este negócio inovador mas paradoxal, que é um país sem mar ter uma marinha, o Luxemburgo considera ter aberto mais uma porta para as suas actividades económicas e para o seu melhor posicionamento no mundo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Quem pode confiar na América de Trump?

A recente retirada das tropas especiais americanas que se encontravam no noroeste da Síria e que apoiaram as forças curdas na luta contra o Daesh enquadra-se na campanha presidencial americana que vai acontecer em 2020 e na tentativa de Donald Trump para ser reeleito. Na sua anterior campanha eleitoral, o então candidato Trump tinha afirmado que os Estados Unidos se deviam libertar das guerras sem fim em que estavam envolvidos e tinha prometido trazer os soldados americanos de volta a casa. Foi uma promessa eleitoral fantasiosa e não cumprida e, por isso, com eleições à vista mudou de atitude.
Vai daí, o  Donald Trump decidiu abandonar as tropas curdas que lutaram ao lado das tropas especiais americanas e que apoiaram a força aérea americana para esmagar o califado do Daesh, esquecendo que morreram cerca de 11 mil combatentes curdos, enquanto os americanos tiveram apenas cinco baixas. Como foi largamente comentado, os Estados Unidos tiraram partido da experiência curda para derrotar os terroristas do Daesh com um custo mínimo.
Esta decisão de Trump criou as condições para que os turcos iniciassem uma importante ofensiva militar contra os curdos, de que já resultaram centenas de mortos e a fuga de suas casas de cerca de 160 mil pessoas, enquanto um número indeterminado de combatentes e apoiantes do Daesh que estavam internados e à guarda dos curdos, conseguiram fugir dos seus campos de internamento.
A revista The Economist trata este tema na sua última edição e pergunta quem pode confiar na América de Donald Trump, acrescentando que a sua traição aos curdos é um golpe na credibilidade americana perante o mundo e que levará anos para consertar. A revista diz que Trump errou e que este erro afecta seriamente a credibilidade americana, tanto junto dos seus aliados, como junto dos seus inimigos, interrogando-se quanto ao medo da Coreia do Sul ou da Arábia Saudita de poderem ser abandonadas pelos americanos e ficarem à mercê da Coreia do Norte ou do Irão.
O título escolhido pelo The Economist é significativo: quem pode confiar na América de Trump?