sábado, 22 de julho de 2023

Quando o regresso de um navio é notícia

O navio-escola espanhol Juan Sebastián de Elcano regressou à sua base de Cádiz depois de ter completado o seu XCV Crucero de Instrucción, em que esteve ausente durante 189 dias e em que visitou onze portos de sete países (Brasil, Argentina, Chile, Perú, Colombia, Costa Rica e Estados Unidos).
O quase centenário navio que já efectuou onze viagens de circumnavegação, foi construído exactamente em Cádiz e nesta viagem cruzou pela primeira vez o mítico cabo Horn, no extremo meridional da América do Sul. No seu historial consta que é “o terceiro maior veleiro do mundo”, que navegou mais de um milhão e oitocentas e cinquenta mil milhas por todos os mares do globo, tendo visitado 205 portos de 73 diferentes países. Naturalmente, os portos mais visitados pelo navio foram Cádiz, onde tem a sua base, o porto galego de Marín que é a sede da Escuela Naval Militar de Espanha, os portos das ilhas Canárias por serem o ponto de partida para as travessias atlânticas e, nas duas margens do oceano, os portos de Lisboa e de Nova Iorque.
O Juan Sebastián de Elcano é um verdadeiro ex-libris do município de Cádiz e o seu regresso é notícia. Por isso, o jornal La Voz de Cádiz destaca na sua edição de hoje o regresso do navio-escola espanhol a Cádiz, com uma fotografia do navio a entrar na grande baía gaditana que ocupa toda a primeira página e com a frase “El embajador de España y de Cádiz regresa a su casa”. Este destaque mostra bem como os jornais espanhóis tratam o seu navio-escola e estimulam a autoestima nacional, o que é bem diferente do que fazem os jornais portugueses que, segundo creio, nunca fizeram notícia nem manchete do regresso a Lisboa do nosso belíssimo navio-escola Sagres.

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Ondas de calor que sufocam meio mundo

Uma onda de calor tem perturbado meio mundo e, em especial, o sul da Europa, onde têm sido anunciados recordes históricos de temperatura que afectaram a vida das populações e obrigaram a medidas de emergência. Nos últimos dias, a Espanha, a Itália e a Grécia têm estado a suportar temperaturas muito elevadas com máximos acima dos 40 graus, que já estão a ser consideradas como normais e não como excepção. Na Espanha, conforme anuncia hoje o jornal Málaga Hoy, o dia de ontem foi um dia negro em termos de calor com os termómetros a registarem 44,1 graus. Na ilha Sardenha foram atingidos 48 graus e a cidade grega de Atenas “está cercada” por incêndios, que têm obrigado a evacuações de populações e a restrições às movimentações turísticas.
Os recordes de temperatura também foram atingidos nos Estados Unidos, onde no californiano Vale da Morte, um dos lugares mais quentes do planeta, foram registadas temperaturas superiores a 52 graus no passado domingo. Da mesma forma, também na China e no Japão têm sido registadas temperaturas acima dos 40 graus e a Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas já anunciou que os actuais fenómenos de calor intenso “vão continuar a intensificar-se e o mundo deve preparar-se para ondas de calor mais intensas”. Hoje ninguém tem dúvidas de que o aumento das temperaturas que está a afectar grande parte do planeta é o resultado directo do aquecimento global e das alterações climáticas, mas os dirigentes mais poderosos do mundo continuam a parecer indiferentes a este problema, sobre o qual muito fala António Guterres e poucos mais.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Com Favaios não há desmaios

A Publicidade é uma técnica de comunicação que codifica ideias e as transmite para o espaço público, para influenciar o comportamento das pessoas, levando-as a adquirir um bem ou um serviço, a adoptar uma determinada opinião ou a escolher o candidato a quem deve dar o seu voto. 
Tal como o Jornalismo, a Publicidade também obedece a regras de conduta ética e deve inspirar-se na verdade, embora estas actividades nem sempre cumpram essas regras, sobretudo em ambientes mediáticos do tipo “vale tudo”.
No complexo mundo da comunicação, a codificação de mensagens publicitárias é uma arte em que a imaginação é essencial para que os receptores distingam, reconheçam e adoptem certas mensagens e rejeitem outras mensagens de concorrentes ou de adversários. No quadro de intoxicação publicitária em que vivem as sociedades contemporâneas, a Publicidade por vezes distingue-se como uma expressão de inteligência e de oportunidade. Assim aconteceu um dia destes.
O Supremo Magistrado da Nação estava na Costa da Caparica, sentiu-se mal disposto e desmaiou, tendo sido transportado de urgência numa ambulância dos Bombeiros da Trafaria para o Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide. Era um problema simples, recuperou rapidamente e, no seu habitual estilo de não estar calado, tratou de informar os jornalistas que desmaiou porque… “tomei o moscatel quente”.  
Nestas circunstâncias, a Adega de Favaios que produz o Moscatel do Douro, semelhante ao Moscatel que incomodou o Supremo Magistrado da Nação, veio dizer que “com Favaios não há desmaios”.
Isto é que é Publicidade inteligente e, provavelmente, eficaz.

O brilho de Carlos Alcaraz em Wimbledon

O tenista espanhol Carlos Alcaraz venceu ontem o Torneio de Wimbledon e, aos 20 anos de idade, chegou ao topo da fama e do proveito no circuito mundial do ténis, ao arrecadar nada menos do que 2,3 milhões de libras, o que equivale a cerca de 2,7 milhões de euros. Hoje a sua fotografia ilustra a primeira página de inúmeros jornais internacionais, não só pelo prestígio daquele torneio, mas também porque derrotou ao fim de quatro horas e meia o campeão Novak Djokovic, o homem que obteve mais vitórias até hoje nos torneios do Grande Slam e que há dez anos não perdia em Wimbledon.
Apesar de Espanha estar em campanha eleitoral, a imprensa espanhola esqueceu tudo o mais para se deslumbrar com a proeza de “El Rey Carlitos” e para anunciar o início da “era Alcaraz”. Talvez se justifique este deslumbramento espanhol, porque uma parte do prestígio internacional de Espanha também resulta das proezas dos seus tenistas e havia alguma preocupação pela “queda” do fenomenal Rafael Nadal que, durante mais de uma dezena de anos, deu muitas alegrias aos desportistas espanhóis.
É caso para dizer: rei morto, rei posto.
Para os espanhóis, Rafael Nadal já é um passado glorioso, enquanto Alcaraz passou a ser a garantia de um futuro de alegrias desportivas para nuestros hermanos.

sábado, 15 de julho de 2023

Tragédias marítimas e sinais dos tempos

Quase todos os dias, a imprensa publica notícias relatando grandes tragédias marítimas com perda de muitas vidas, que ocorrem sobretudo nas travessias do Mediterrâneo e na rota canária, em que milhares de pessoas originárias da África, do Médio Oriente e da Ásia fogem da pobreza, da fome e da guerra, procurando trabalho e uma vida melhor na União Europeia. Embarcam em frágeis e inseguras  embarcações, superlotadas e dirigidas por poderosos traficantes. 
No passado mês de Junho, uma embarcação que saíra da Líbia com cerca de 750 migrantes naufragou nas costas gregas, tendo sido apenas encontrados 104 sobreviventes e recuperados 81 corpos, o que foi classificado por uma comissária europeia como “a pior tragédia de sempre no Mediterrâneo”. As instituições comunitárias têm procurado fazer alguma coisa, mas não tem havido consensos e o Pacto de Migração e Asilo da União Europeia tem sido muito criticado, parecendo que os milhares de pessoas que já morreram no Mediterrâneo e nas Canárias são “um preço aceitável” no quadro da política europeia de importação da mão de obra de que necessita o velho Continente. “Esta é uma mancha que irá ficar durante muito tempo na história e na memória da Europa”, disse um deputado português.
Ontem o jornal Diario de Avisos, que se publica em Tenerife, deu notícia de uma canoa que, tendo partido do Sernegal com rumo às ilhas Canárias, esteve à deriva durante 18 dias e na nela ocorreram “al menos 20 muertos”, mas o jornal também refere que se desconhece o paradeiro de três canoas com cerca de 300 pessoas a bordo que “llevan más de 15 dias a la deriva intentando llegar a Canarias”.
São sinais dos tempos, a mostrar o declínio da Europa e a mediocridade dos seus líderes, pois a União Europeia não tem sido capaz de encontrar uma solução humanitariamente digna para as migrações do sul e, demasiadas vezes, parece muito desnorteada com o seu posicionamento geopolítico, não atendendo a este problema, nem às mudanças que se estão a verificar no seu tecido social, como mostraram os recentes distúrbios em França.
“Deixas criar às portas o inimigo, por ires buscar outro de tão longe”, foi o aviso que, pela palavra do velho do Restelo, Luís Camões deixou ao rei de Portugal. Se fosse hoje, o que diria o poeta aos líderes europeus, sobretudo à Ursula, ao Olaf, ao Emmanuel e até ao António?

sexta-feira, 14 de julho de 2023

A lição que nos vem do Tour de France

Hoje celebra-se o 14 Juillet, a Festa Nacional de França, em que se evoca a tomada da Bastilha, que em 1789 constituiu um passo decisivo no arranque da Revolução Francesa. Os franceses festejam este feriado nacional com festas populares e paradas militares por todo o país mas, também, com uma das mais importantes etapas da 110ª edição do Tour de France. Os ciclistas disputam hoje a 13ª etapa iniciando o “assalto” aos Alpes e, no final da etapa, terão que subir os 17 quilómetros do Gran Colombier, a famosa montanha da cordilheira do Jura.
O dinamarquês Jonas Vingegaard e o esloveno Tajed Pogacar têm justificado o favoritismo que lhes era atribuído desde o primeiro dia da prova e ocupam os dois primeiros lugares da tabela classificativa, mas hoje vão entrar na fase final da luta pela vitória. A rivalidade entre ambos é enorme e há grandes interesses comerciais em volta das camisolas que vestem. Porém, como destaca a fotografia que hoje é publicada na edição do jornal La Dépêche du Midi, os dois ciclistas são amigos, são colegas de profissão, têm fair-play e grande desportivismo. Hoje irão medir forças e suscitar o entusiasmo dos milhares de pessoas que os acompanharão na estrada e dos milhões que os irão ver pela televisão, mas eles saberão estar à altura da sua rivalidade e dos interesses que profissionalmente defendem. É uma bela lição que dão ao mundo, numa altura em que no leste da Ucrânia se agudiza a guerra e em que a lógica belicista e os interesses que lhe estão associados se acentuam. 
É uma pena que a paz na Ucrânia não dependa de Vingegaard e de Pogacar, pois eles saberiam lutar pelos seus interesses com determinação e coragem, à mesa das negociações como na estrada, mas certamente em clima de paz e de concórdia.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

A monção na Índia: chuva, muita chuva

A edição de hoje do jornal The Pioneer, que se publica em Nova Delhi, destaca que a fúria da monção (monsoon) devastou o norte da Índia e que, entre sábado e domingo, a capital indiana suportou um forte período de chuvas e registou 153 milímetros de pluviosidade, batendo um recorde de 41 anos, o que parece ser mais um exemplo das alterações climáticas que vão perturbando a estabilidade do nosso planeta.
A monção é um fenómeno meteorológico caracterizado por vento forte que ocorre em várias regiões asiáticas confinantes com os oceanos Índico e Pacífico e que resulta do desigual aquecimento da terra e do mar. O diferencial térmico entre o mar e a terra nessas regiões tropicais e subtropicais provoca ventos que, no caso da monção de Verão da Índia que ocorre de Junho a Setembro, sopram do mar para a terra e transportam muita humidade e provocam chuvas torrenciais, por vezes durante vários dias seguidos, tanto na costa ocidental da Índia, como no interior da península do Industão. A monção fertiliza as terras e ressuscita a vida depois de vários meses de seca extrema, mas a intensidade das chuvas provoca o aumento do caudal dos rios, inundações e deslizamento de terras, que afectam milhares de pessoas e provocam a perda de vidas. Muitas construções e árvores não resistiram à força do binómio vento/chuva, enquanto muitas escolas foram encerradas, o movimento ferroviário foi suspenso e muitos aeroportos foram encerrados por períodos prolongados.
A notícia do jornal The Pioneer relata detalhadamente as ocorrências, muitas delas dramáticas, provocadas pela monção no noroeste da Índia, incluindo na capital Nova Delhi, mas surpreendentemente não há referências ao estado de Goa, onde a monção é usualmente muito intensa em termos de vento, chuva e agitação marítima.

domingo, 9 de julho de 2023

R.I.P. Professor José Mattoso

Com 90 anos de idade faleceu ontem o Professor José Mattoso, uma notável figura da cultura portuguesa, com uma vasta obra publicada sobre a nossa História Medieval. Reconhecido como um dos mais ilustres historiadores medievistas portugueses, como investigador e como professor universitário, era também muito respeitado pelo seu percurso de vida, em que se destacavam a sua militância cívica, a sua inteligência e a sua humildade.
Após o curso liceal que frequentou na sua cidade natal de Leiria, foi monge da Ordem de São Bento, tendo vivido na abadia portuguesa de Singeverga e na cidade belga de Lovaina, em cuja Universidade Católica se licenciou e doutorou em História Medieval.
Depois de cerca de vinte anos de vida monástica, regressou à vida laica em 1970 e iniciou a sua carreira académica em Portugal, onde foi professor catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Em 1987 foi a primeira personalidade a quem foi atribuído o prestigiado Prémio Pessoa e, entre 1996 e 1998, dirigiu o Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Publicou mais de três dezenas de obras de referência, dirigiu a edição em oito volumes da História de Portugal (Círculo de Leitores) e coordenou o projecto de inventariação do Património de Origem Portuguesa no Mundo (Fundação Calouste Gulbenkian).
Viveu em Timor-Leste no período imediatamente anterior e posterior à sua independência, dirigindo de forma competente e persistente a recuperação da memória histórica timorense e a criação dos Arquivos Nacional e da Resistência. Foi aí que o conheci e que com ele privei algumas horas de conversa, rendido à sua cultura, à sua humildade, ao seu espírito de missão e à sua sabedoria.
Portugal e a cultura portuguesa perderam uma das suas mais distintas personalidades da segunda metade do século XX.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

O Tour de France e a loucura dos franceses

As transmissões televisivas diárias têm confirmado a 110ª edição do Tour de France como uma grande prova desportiva, mas também como um entusiástico espectáculo popular de quase loucura, com muitos milhares de pessoas nas bermas das estradas, sobretudo nas altas montanhas, a incitar e aplaudir o colorido pelotão de ciclistas. Embora haja muitos desportos que entusiasmam as multidões, não será exagero afirmar que as Grandes Voltas ciclistas e, em especial o Tour de France, estão no topo desse entusiasmo.
A corrida iniciou-se no País Basco espanhol e à partida tinha o dinamarquês Jonas Vingegaard e o esloveno Tajed Pogacar como grandes favoritos. Como primeira dificuldade, os ciclistas enfrentaram os Pirinéus e as suas montanhas e, na 5ª etapa, Vingegaard deixou Pogacar para trás. Ontem disputou-se a 6ª etapa, na qual os ciclistas subiram o col d’Aspin e o col du Tourmalet e foi a vez de Pogacar deixar Vingegaard para trás. Faltam muitos quilómetros, muitas montanhas e há sempre imprevistos, mas estas duas etapas já mostraram que estamos perante um “duelo de gigantes”, como hoje titula o diário desportivo espanhol as.
O presidente Emmanuel Macron acompanhou a 6ª etapa a bordo de uma viatura, porque é um entusiasta do ciclismo como são todos os franceses e, talvez, para esquecer os graves problemas que tem no país e fora dele. Na meta de Cauterets-Cambasque, o presidente francês viu a chegada de Pogacar, de Vingegaard, do norueguês Johannessen e do português Rúben Guerreiro, que com muito brilho chegou em 4º lugar, mas teve que esperar até que um ciclista francês cortasse a meta em 10º lugar.
O nosso aplauso ao Rúben Guerreiro e os votos para que no “duelo de gigantes” ganhe o melhor.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

O dia mais quente de sempre no mundo

As alterações climáticas são uma realidade cada vez mais sentida no mundo, apesar de ainda haver países que continuam a ignorar os compromissos assumidos com a assinatura dos Acordos Climáticos de Paris de 2015. A persistência com que vão afectando a vida no nosso planeta teve nos últimos dias um episódio significativo, quando na passada segunda-feira foi registada a mais elevada temperatura média de sempre - 17,01 graus C - com os termómetros a ultrapassarem os 45 graus em muitas cidades do Médio Oriente e dos Estados Unidos. Nessa altura, os especialistas afirmaram que esse valor seria ultrapassado em breve e… tinham razão. 
De facto, na terça-feira seguinte, que foi o dia 4 de Julho, o recorde foi novamente batido quando a temperatura média diária do ar na superfície da Terra foi de 17,18 graus C, isto é, foi o dia mais quente de sempre no mundo, segundo os dados medidos nos Estados Unidos pelos serviços da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) e por outras agências. A NOAA regista os valores máximos mundiais da temperatura do ar desde 1979 e o seu maior registo tinha sido estabelecido no dia 24 de Julho de 2022 com 16,92 graus C.
António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, tem sido o grande paladino pela causa da luta contra as alterações climáticas e, perante estes casos, afirmou numa conferência de imprensa em Nova Iorque, estar muito preocupado com a posição do mundo em relação ao clima e com a “falta de ambição e cooperação”, acentuando que "as actuais políticas levarão à catástrofe".
O jornal brasileiro O Globo fez deste caso a notícia do dia, mas os jornais generalistas portugueses destacaram que um tal Di Maria assinara contrato com o Benfica e que as equipas do FC Porto e do SL Benfica se encontrarão no dia 1 de Outubro, na 7ª jornada do campeonato. Que tristeza…

Onda de violência e vandalismo em França

No passado dia 27 de Junho, um jovem francês chamado Nahel de origem magrebina e com 17 anos de idade, foi morto nos arredores de Paris pelo disparo de um agente durante uma operação de controlo policial, quanto tentava esquivar-se com o automóvel que conduzia sem carta de condução. Este episódio inflamou o país e reacendeu a enorme tensão social devida às assimetrias da sociedade francesa, bem como as acusações de racismo feitas às forças de segurança francesas, surgindo na linha dos protestos violentos dos últimos anos, como a reacção ao aumento da idade da reforma ou o movimento dos coletes amarelos. Todas estas situações geraram violência e vandalismo em várias cidades francesas, estando apurado que a idade média dos participantes na onda de protesto é de 17-18 anos.
Segundo revelou o ministro do Interior, os distúrbios ocorridos nos últimos dez dias provocaram incêndios em 2.508 edifícios e a destruição de 12.031 veículos automóveis, enquanto 3.505 pessoas, na sua maioria jovens, foram detidas por suspeita de envolvimento nesses crimes. As forças policiais registaram um total de 23.178 incêndios, dos quais 273 atingiram esquadras da polícia ou quartéis da guarda nacional. Uma enormidade! 
O mundo está estupefacto com esta onda de violência e de vandalismo que se verifica muito frequentemente em França, o país da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. O jornal La Dépêche du Midi, que se publica em Toulouse, exprime bem essa estupefação ao destacar em primeira página que “le monde ne nous reconnaît plus”.
Esta situação mostra-nos a incapacidade de alguns líderes europeus, designadamente Emmanuel Macron, para gerir os actuais problemas sociais que afectam os seus países e obriga-nos a repensar o mundo e a Europa em que temos vivido.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Os BRICS, a OCS e a nova ordem mundial

Na histórica disputa entre o Oriente e o Ocidente, as coisas não correm à mesma velocidade, como se pode observar nas movimentações da OCS e dos BRICS, em ambos os casos por inspiração chinesa. Ontem os líderes da OCS reuniram-se em videoconferência e afirmaram a sua solidariedade à Rússia.
A Organização para a Cooperação de Xangai (OCS) é uma organização política, económica e de segurança liderada pela China, que foi fundada em 2001. Inicialmente, a organização incluia a China, o Cazaquistão, o Quirguistão, a Rússia, o Tajiquistão e o Uzbequistão, mas em 2017 acolheu a Índia e o Paquistão e, em 2021, recebeu o Irão. São nove países que, como já foi salientado, “representam metade da humanidade” e que visam a cooperação em vários domínios, sobretudo em matérias de segurança, mas que tem sido criticada por ser antiocidental, por querer acabar com o dólar enquanto moeda forte do comércio internacional e por querer construir uma aliança militar rival da NATO. A reunião de ontem parece ter reforçado a solidariedade para com a Rússia pois “nenhum estado-membro da OCS votou contra a Rússia em resoluções da ONU desde a invasão da Ucrânia, há quase 500 dias”, como salienta o jornal South China Morning Post que se publica em Hong Kong e que, na sua edição de hoje, destaca as fotografias de Xi Jinping, Putin e Narendra Modi.
Entretanto, tanto a OCS como o grupo dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) alimentam a vontade de reformar o sistema internacional e criar uma nova ordem mundial. Quando no próximo mês se reunirem em Joanesburgo, os líderes dos BRICS irão analisar as candidaturas da Argentina, Egipto, Indonésia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Argélia, Irão e Bangladesh, mas nem a Índia nem o Brasil apoiam tantas adesões pois não querem perder influência na organização.
Assim vai o mundo com muitas disputas e demasiadas guerras.

domingo, 2 de julho de 2023

A festa do Tour de France já começou

Começou ontem a 110ª edição do Tour de France, a maior e mais famosa prova ciclista da actualidade, que este ano teve início na cidade espanhola de Bilbao, que é a capital da província da Biscaia da Comunidade Autónoma do País Basco, ou Euskadi. Partiram 176 ciclistas representando 22 equipas, que vão percorrer 3.405 quilómetros que se repartem por 21 etapas, muitos deles a obrigá-los a pedalar em alta montanha. A prova termina em Paris no dia 23 de Julho e espera-se que os três ciclistas portugueses que integram o pelotão cheguem ao fim, mas também com boas classificações.
Toda a imprensa basca deu grande cobertura ao “historico estreno en Euskadi”, como acontece com a edição de hoje do jornal El Correo, em linha com o enorme entusiasmo popular que se viu na transmissão televisiva em directo da primeira etapa, que percorreu os arredores da cidade e terminou junto do Museu Guggenheim, mas que obrigou os ciclistas as trepar as primeiras montanhas desta prova.
Os favoritos desta 110ª edição são o dinamarquês Jonas Vingegaard, que ganhou em 2022, e o esloveno Tadej Pogacar, que triunfou em 2020 e 2021. Porém, para além dos aspectos desportivos inerentes a esta grande prova mundial, o Tour de France é uma grande festa popular e há sempre a expectativa de podermos assistir a grandes transmissões televisivas que mostram a riqueza patrimonial e paisagística da França e que, esperemos, também sirvam para refrear a preocupante onda de vandalismo que está a atravessar o país.

sábado, 1 de julho de 2023

Bolsonaro inelegível, mas ainda é pouco

O Tribunal Superior Eleitoral do Brasil (TSE) tomou ontem a decisão de declarar o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível até 2030, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação numa reunião com embaixadores estrangeiros realizada no Palácio da Alvorada, por atacar sem provas, o sistema de voto electrónico que é utilizado no Brasil. O TSE decidiu-se pela condenação, por cinco votos contra dois, mas Jair Bolsonaro vai certamente recorrer desta decisão.
Toda a imprensa brasileira deu destaque a esta notícia e a edição do Correio Braziliense publicou a fotografia do Jair e uma sua declaração em que afirmou que antes “levei uma facada na barriga, hoje levei uma facada nas costas com a inelegibilidade”. É caso para dizer que o Tribunal decidiu e que, portanto, está decidido.
Porém, o que surpreende é o facto de ainda não terem sido apuradas as responsabilidades de Jair Bolsonaro nos graves acontecimentos de 8 de Janeiro de 2023 em Brasília, quando alguns milhares dos seus apoiantes, extremistas e vândalos, ocuparam a Praça dos Três Poderes e invadiram o Palácio do Planalto, o Palácio do Congresso Nacional e o Palácio do Supremo Tribunal Federal, com o objectivo de pressionar um golpe militar contra o governo do presidente Lula da Silva e, por essa via, entregar a presidência a Jair Bolsonaro, que tinha sido derrotado nas urnas. Nos meses seguintes foi anunciada a prisão de 2.182 pessoas por participação ou envolvimento na tentativa do golpe bolsonarista, que provocou a destruição e roubo de obras de arte, a destruição parcial de edifícios e, sobretudo, afectou a imagem externa do Brasil.
Bolsonaro foi declarado inelegível politicamente, mas certamente que o Brasil espera que venha a ser acusado criminalmente pelos acontecimentos de 8 de Janeiro de 2023.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Fotografias felizes que são notícia

Os meios de comunicação social tradicionais – imprensa, rádio e televisão – concorrem entre si para conquistar leitores, ouvintes ou telespectadores. Para fazerem melhor jornalismo e terem a preferência do público, esses meios, ou mass media, apostam nas “notícias exclusivas”, nas “notícias em primeira mão” e nas "imagens únicas", até porque no âmbito da rivalidade que sustentam entre si e da própria concorrência comercial, cada um deles pretende chegar, relatar ou mostrar antes do seu concorrente. Por isso, mesmo quando reportam o mesmo acontecimento, cada um dos mass media procura utilizar manchetes e imagens diferentes dos seus concorrentes, para chamar a atenção, suscitar o interesse e levar à vontade de aquisição. Portanto, não é habitual que dois jornais publiquem exactamente a mesma fotografia para ilustrar a capa das suas edições e, quando acontece, é interpretado como um sinal de menor qualidade do jornal e dos seus profissionais.
Hoje acontece que a generalidade dos jornais ingleses publica exactamente a mesma fotografia, mas não é da crise na Rússia, nem da guerra da Ucrânia, nem dos incêndios do Canadá, ou até da crise no NHS, que parece ser bem pior do que a do nosso SNS. A fotografia que hoje "toda a Inglaterra viu", foi captada durante uma partida de cricket, quando um manifestante do grupo activista ambiental Just Stop Oil invadiu o campo e foi bloqueado por Jonny Bairstow, uma das mais famosas estrelas inglesas do cricket, que simplesmente o pegou pela cintura e o levou para fora do campo. Essa mesma fotografia, aliás excelente exemplo de fotojornalismo, ilustrou as capas do jornal The Times, mas também dos jornais The Guardian, The Daily Telegraph, The Independent e The Daily Express.