segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Jair Bolsonaro nega tentativa de golpe

A cidade brasileira de São Paulo assistiu ontem a uma grande manifestação convocada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que juntou um pico de cerca de 185 mil pessoas na avenida Paulista, segundo foi calculado a partir de 43 fotos aéreas feitas durante a manifestação e que foram tratadas por um software específico utilizado pela Universidade de São Paulo. A manifestação foi convocada para protestar contra as investigações em curso relativas à suspeita de participação do próprio Bolsonaro na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, que negou ter tentado fazer um golpe e reclamou a sua inocência.
Bolsonaro, alguns ex-ministros, assessores e militares são alvo de um inquérito dirigido pelo Supremo Tribunal Federal, que investiga o assalto à Praça dos Três Poderes, os actos de vandalismo praticados e a tentativa de golpe de Estado.
Segundo a edição de hoje do jornal Folha de São Paulo, o ex-presidente Jair Bolsonaro declarou que “o que eu busco é a pacificação, é passar uma borracha no passado, é buscar maneira de nós vivermos em paz”. Pediu a concliação entre os brasileiros e a amnistia “para aqueles pobres coitados que estão presos em Brasília”, dirigindo-se a todos os 513 deputados e 81 senadores para promoverem um projecto nesse sentido.
Esta manifestação e este quase apelo de Bolsonaro à pacificação, estará certamente a ser trabalhada porque, embora suscite dúvidas quanto à sua sinceridade, pode ser uma janela de oportunidade para a construção de uma renovada unidade nacional da sociedade brasileira e para o reforço da democracia.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Dois anos de guerra entre Moscovo e Kiev

Passaram dois anos desde o dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia e, nas suas edições de hoje, muitos jornais europeus evocaram essa data. O diário inglês The Independent é um desses jornais e destaca em primeira página que “se a Ucrânia perder, o Ocidente será o próximo”, acrescentando que em dois anos de guerra pelo menos 10.582 civis ucranianos morreram, 19.875 foram feridos e que se estima que 70.000 soldados ucranianos foram mortos.
Nenhum dos muitos jornais que evocaram o dia 24 de fevereiro de 2022 e a guerra que desde então tem devastado as regiões do Leste da Ucrânia, fala em paz ou nos caminhos da paz, apesar dos sentimentos dos cidadãos europeus revelados no recente estudo do European Council on Foreign Relations. Como principal conclusão, esse estudo revela que 37% dos cidadãos europeus reclamam por negociações de paz, com destaque para os gregos (47%), os espanhóis (44%), os italianos (43%) e, até mesmo, os portugueses (35%).
Apesar desse sentimento nacional a favor da paz, o Supremo Magistrado da Nação veio dizer que “Portugal apoiará a Ucrânia pelo tempo que for preciso” e o ministro cravinho afirmou que “temos que redobrar os esforços de apoio à Ucrânia”. Numa altura de grande inquietação quanto ao nosso futuro, com demasiados problemas internos para serem resolvidos, aqueles dois responsáveis portugueses podiam ter falado da paz por que anseiam tantos europeus, mas não o fizeram. Referiram lugares comuns e a frase “o tempo que for preciso”, já antes repetida muitas vezes, quando se podiam ter aconselhado com António Guterres, que hoje afirmou que "chegou a hora de haver paz". É sabido que nunca é fácil parar com a guerra nem com todas as desgraças humanitárias e patrimoniais que a acompanham e, de forma especial, não é fácil acabar com esta guerra russo-ucraniana, que tem contornos de guerra civil ou de afrontamento entre superpoderes.
É cada vez mais evidente que nesta guerra não haverá vencedores e que todos serão perdedores, pelo que é cada dia mais urgente calar os canhões e atender à vontade dos 37% de europeus e 35% de portugueses que aspiram por negociações de paz.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

R.I.P. Artur Jorge

Com 78 anos de idade faleceu ontem o cidadão Artur Jorge Braga de Melo Teixeira, conhecido no mundo do futebol apenas como Artur Jorge. 
Foi um talentoso futebolista que, como avançado, integrou as equipas do FC Porto, Académica de Coimbra, SL Benfica e CF Os Belenenses, mas também a selecção nacional que representou 16 vezes. A partir de 1980 iniciou uma carreira de treinador de futebol, tornando-se o primeiro treinador português a triunfar na Liga dos Campeões Europeus na época de 1986-1987, quando a equipa do FC Porto bateu a equipa do Bayern de Munique em Viena. Enveredou depois por uma carreira internacional treinando várias equipas em França, Espanha, Holanda, Arábia Saudita, Rússia e foi seleccionador das selecções de Portugal, Suiça e Camarões. Hoje há vários treinadores com sucesso internacional, mas Artur Jorge foi o primeiro.
Era um universitário, um intelectual e um homem de cultura, que deixou obra poética publicada, mas também teve intervenção cívica em defesa dos valores da liberdade e da democracia, pelo que sempre foi uma referência do futebol português, sobretudo porque olhava para o futebol como uma arte e não como o negócio em que se tem transformado.
A imprensa portuguesa, sobretudo a imprensa desportiva, homenagearam-no nas suas edições de hoje, enquanto os jornais franceses L’Équipe, Le Parisien e Le Figaro, também lembraram a sua memória e, nas suas edições de hoje, anunciaram a sua morte nas suas primeiras páginas.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Os novos aviões comerciais chineses

Está a decorrer até ao dia 25 de fevereiro em Singapura, o famoso Singapore Airshow 2024 “onde os melhores da aviação se encontram”, como anuncia a sua promoção. Este evento realiza-se bienalmente desde 2008 e é o maior mercado asiático dos sectores aeronáutico e aeroespacial, onde se encontram a oferta e a procura mundiais, através das grandes empresas e das delegações governamentais e militares de alto nível. Este ano regista-se a participação de mais de mil empresas e são esperados mais de 50.000 participantes comerciais provenientes de mais de 50 países. Para além dos seus aspectos de apresentação tecnológica e de promoção comercial, o airshow foi enriquecido com a participação de equipas de acrobacia aérea da Índia, Indonésia, Austrália, Coreia do Sul e Singapura, bem como de um Airbus A350-1000, que é a maior aeronave bimotora da Europa com 74 metros de comprimento e que pode acomodar até 366 passageiros.
Porém, a China parece estar a assumir o maior protagonismo no Singapore Airshow 2024, pois apresentou dois aviões de passageiros C919 fabricados pela Commercial Aircraft Corporation of China (Comac) e três jactos ARJ21, que se estrearam com demonstrações de voo.
Durante muito tempo a China esteve ausente da competição aeronáutica mundial, dominada pelo duopólio Airbus/Boeing nas aeronaves com mais de 100 assentos mas, apesar da sua forte dependência da tecnologia ocidental, parece agora querer concorrer com aquelas empresas. Segundo revelou o jornal Shanghai Daily, duas empresas chinesas de serviços aéreos – a Tibet Airlines e o Henan Civil Aviaation Development and Investment Group – assinaram contratos para a aquisição de 40 aviões C919 e 16 unidades ARJ21. É um começo, mas só o tempo dirá se a indústria aeronáutica chinesa tem pés para andar num caminho em que estão bem instalados a Airbus e a Boeing.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Ucrânia: europeus querem paz negociada

Doze países europeus, incluindo Portugal, participaram num estudo de opinião sobre o conflito na Ucrânia organizado pelo European Council on Foreign Relations que, desde ontem, está disponível na internet.
A principal conclusão deste estudo que foi apoiado pela Fundação Gulbenkian, refere-se ao que pensam os europeus sobre o desfecho mais provável da guerra entre a Rússia e a Ucrânia em que, em média, apenas 10% acredita que a Ucrânia vai vencer, 20% entende que a Rússia vencerá e 37% deseja que seja negociada a paz. Dos 12 países do universo do estudo, a Polónia e Portugal são os únicos em que a percentagem daqueles que acreditam na vitória da Ucrânia é superior à percentagem daqueles que acreditam na vitória da Rússia. Portugal tem mesmo os valores extremos, isto é, há 17% que acreditam na vitória da Ucrânia e apenas 11 % que acreditam na vitória da Rússia, havendo 35% de portugueses que desejam que seja negociada a paz.
Outra das conclusões do estudo refere-se às opções que na opinião dos europeus deve ser feita em relação à guerra e, em média, há 31% de europeus que entende que a Europa deve apoiar a Ucrânia para reaver os seus territórios ocupados, enquanto 41% defende que a Ucrânia deve ser pressionada para negociar um acordo de paz com a Rússia. Também nesta questão Portugal se distingue com valores extremos, pois 48% dos portugueses acha que a Ucrânia deve ser apoiada para reaver os seus territórios e só 23% acha que a Ucrânia deve ser pressionada para negociar um acordo de paz com a Rússia.
Este estudo está referenciado nas edições de hoje do jornal Público e do jornal catalão La Vanguardia, podendo ser lido na internet. Os europeus estão pesssimistas em relação a uma vitória da Ucrânia e desejam que a paz seja negociada, mas o que mais surpreende é a posição dos portugueses que, como se constata, são muito permeáveis às campanhas da generalidade dos comentadores televisivos que não são independentes. Porém, importa reter que 37% dos europeus e 35% dos portugueses desejam que seja negociada a paz entre a Ucrânia e a Rússia.

O apelo para o fim dos combates em Gaza

Não é costume, mas falou e, numa “impassioned and unprecedented intervention”, William Arthur Philip Louis, o Príncipe de Gales que é o herdeiro do trono do Reino Unido e dos Reinos da Comunidade de Nações, declarou que “morreu muita gente no conflito de Gaza” e que, “como outros, eu quero o fim dos combates”. O jornal Daily Mail, bem como toda a imprensa britânica, publicou com grande destaque as declarações do Príncipe William que aqui saudamos vivamente.
No mesmo dia, no Conselho de Segurança das Nações Unidas e pela terceira vez, os Estados Unidos vetaram um projecto de resolução apresentado pela Argélia que exigia um cessar-fogo humanitário imediato em Gaza, que recebera 13 votos a favor e a abstenção do Reino Unido.
É cada vez mais difícil compreender o apoio americano a Benjamin Netanyahu e ao seu governo que é uma “coligação de direita ultranacionalista”, considerada como “o mais conservador governo da história de Israel”. Depois de mais de quatro meses de conflito, os massacres do Hamas de 7 de outubro e a libertação de reféns parecem, cada vez mais, ser apenas um pretexto dos radicais israelitas para forçar os palestinianos de Gaza a abandonarem o seu território. Essa é a verdadeira intenção israelita e a comunidade internacional, que inicialmente compreendeu a musculada resposta de Israel, começa a ver que se foi longe demais e a acreditar que se está perante um caso de genocídio.
Provavelmente, o apoio dos Estados Unidos a Israel está relacionado com as eleições presidenciais que se aproximam, mas criam um ambiente hostil aos americanos naquela região que é demasiado preocupante para a paz mundial. Entretanto, a União Europeia instalada em Bruxelas continua cega, surda e muda. Incapaz. Irresponsável. Desumana. Sem respeito pelos seus valores fundamentais baseados nos princípios da liberdade, democracia, igualdade e direitos humanos.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Em memória da luta de Alexei Navalny

As autoridades russas anunciaram a morte numa prisão siberiana de Alexei Navalny, um advogado que foi líder da oposição russa e que ganhou notoriedade por organizar protestos contra Vladimir Putin e o seu governo, denunciando a corrupção nas estruturas estatais russas. Tendo sido objecto de uma tentativa de envenamento em 2020, veio a ser tratado na Alemanha e, após a sua recuperação, teve a coragem de regressar à Rússia, onde não ignorava que viria a ser perseguido, preso e sujeito a severas condições prisionais. A sua morte não surpreendeu ninguém, mas foi um duro golpe para aqueles que, no interior ou no exterior, o consideravam o rosto da luta contra Putin e que anseiam pela democratização da Rússia e pelo contributo russo para o apaziguamento internacional. A imprensa europeia tratou a morte de Navalny como um assassinato ordenado por Putin: “Putin must pay for Navalny murder” (The Daily Telegraph), “Navalny, omicidio de Stato” (La Reppublica) ou “Alexei Navalny, tué par Poutine” (Libération). Porém, a imprensa americana é menos objectiva e não faz acusações, limitando-se a anunciar a morte de Navalny, o adversário de Putin: “Top Putin critic Navalny dies in prision (The Wall Street Journal), “A sudden, predictable death for Alexei Navalny” (The Washington Post) ou “Navalny, thorn in Putin’s side, dies in Artic prison” (The New York Times).
Independentemente de se saber se a morte de Navalny foi acidental, promovida pelo regime de Putin ou ordenada pelo próprio Putin, é necessário enquadrá-la na cultura da violência política russa que vem desde Catarina II, a Grande, que em meados do século XVIII terá mandado assassinar o imperador Pedro III, seu marido, para se tornar na poderosa Imperatriz de Todas as Rússias.
Em quaisquer circunstâncias, quem defende a democracia e a liberdade, mas também o fim da guerra na Ucrânia, só tem que se curvar perante a memória de Alexei Navalny.

Arte e modernidade na cidade de Vigo

A cidade galega de Vigo inaugurou o ascensor Halo de Vigo, uma obra que custou 16 milhões de euros e responde a uma necessidade urbana, mas também acrescenta um valor artístico e arquitectónico à cidade. Apesar da região da Galiza estar em tempo de eleições regionais, a imprensa regional destacou a entrada ao serviço deste ascensor e o jornal Faro de Vigo foi um dos jornais que publicou a sua fotografia em primeira página.
Depois de 16 meses de trabalhos de construção e de alguns adiamentos de prazos, a obra foi inaugurada e a população acorreu à experimentação do novo equipamento, que é uma atracção e já é o novo ícone arquitectónico da cidade. Trata-se de um ascensor panorâmico que vai permitir ultrapassar um desnível de 50 metros entre a parte baixa e a parte alta da cidade, evitando “un rodeo de unos dos kilómetros”. O ascensor dispõe de dois elevadores com capacidade para 17 pessoas cada um, que percorrem os 50 metros de desnível em menos de 30 segundos e que ligam a uma passadeira circular que permite que os peões desfrutem da vista da cidade e da ria de Vigo, isto é, permite a mobilidade pedonal, serve de miradouro sobre a ria e irá transformar-se numa nova atracção da cidade. A estética do novo equipamento é ainda valorizada pela sua silhueta nocturna, pois está dotado de um sistema de iluminação que permite mostrar cores diversas e ajustadas a diferentes situações, o que é uma atracção adicional para o Halo de Vigo.
As cidades procuram cada vez mais potenciar os seus factores de atractividade e de modernidade através de edifícios e de equipamentos de valor arquitectónico.

Diogo Ribeiro é o nosso maior campeão!

Depois de ter vencido a prova dos 50 metros mariposa nos 2024 World Aquatics Championships, que se estão a disputar em Doha, no Qatar, o nadador Diogo Ribeiro ganhou ontem a prova de 100 metros mariposa. 
Não se imaginava que a natação portuguesa se distinguisse no plano internacional, mas estes sucessos talvez sejam os mais brilhantes resultados alguma vez alcançados pelo desporto português. Que me desculpem todos os grandes ídolos que estão sentados na galeria dos mais famosos desportistas portugueses, como Carlos Lopes e Rosa Mota, Alves Barbosa e Joaquim Agostinho, Fernamdo Pimenta e Teresa Portela, Eusébio e Cristiano Ronaldo, Fernando Adrião e António Livramento e tantos outros mais, mas Diogo Ribeiro é mesmo um caso singular.
Luís de Camões, o nosso poeta maior, escreveu na estância III do Canto I d’Os Lusíadas os versos seguintes:

Cesse tudo o que a Musa antiga canta / Que outro Valor mais alto se alevanta.

Estes versos aplicam-se, sem grande exagero, ao nadador de Coimbra que se tornou bicampeão mundial de natação e que, de facto, é “um valor mais alto que se alevanta”. Todos podemos gritar: Bravo!!! O jornal A Bola que se distingue por ser a bíblia do futebol e por se esquecer demasiadas vezes das outras modalidades desportivas, destacou na sua edição de hoje o extraordinário sucesso de Diogo Ribeiro e até alterou o layout da sua edição. Viva Diogo Ribeiro, que é o nosso maior campeão!

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Toulouse e a audácia da nova arquitectura

A cidade de Toulouse é a capital da região da Occitânia e é a quarta maior cidade da França, depois de Paris, Marselha e Lyon. Localiza-se no sul da França, próximo da fronteira com a Espanha e, na sua área metropolitana, vivem cerca de um milhão e meio de pessoas.
A cidade é o centro da indústria aeroespacial europeia e a sede do gigante aeronáutico AIRBUS, mas também do sistema de posicionamento Galileo, do sistema de satélite SPOT e de outros importantes centros e indústrias de alta tecnologia. Porém, a cidade não tinha um edifício que, pela dimensão e modernidade, estivesse à altura do seu prestígio e ambição. Na sequência de um concurso lançado pelo município de Toulouse, em 2017 foi escolhido um promotor parisience – a Compagnie de Phalsbourg – para desenvolver um projecto imobiliário no centro da cidade – a Tour Occitanie – que se previa ficasse concluído em 2022 e que iria constituir o primeiro aranha-céus da cidade. Tratava-se de um edifício urbano com 150 metros de altura e 38 pisos, incluindo 13.000 m2 de escritórios, mais de cem unidades habitacionais, dois restaurantes, um bar-restaurante panorâmico no topo da torre, um hotel de quatro estrelas e dois mil m2 de lojas. O projecto foi entregue ao famoso arquitecto Daniel Libeskind, em associação com Francis Cardete, um arquitecto local, mas a “audace architecturale” do projecto teve adversários que o consideraram um “désastre environnemental”. Daí que tivessem surgido dois recursos judiciais sucessivos para impedir a construção da Tour Occitanie.
Os tribunais declararam agora que Toulouse vai ter o seu aranha-céus e, na sua edição de ontem, o jornal La Dépêche du Midi dava essa notícia com grande destaque, com uma antevisão do que será a Tour Occitanie e a sua audaciosa arquitectura.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Bruxelas não toma medidas contra Israel

Desde há mais de quatro meses que as Israel Defence Forces (IDF) têm massacrado o povo palestiniano na Faixa de Gaza com destruidores bombardeamentos, a pretexto de perseguirem os radicais do Movimento de Resistência Palestiniana, conhecido pelo acrónimo Hamas. O mundo tem condenado a brutalidade israelita e o Tribunal de Haia decretou que o governo de Benjamin Netanyahu tem de tomar medidas para “prevenir o genocídio”. São referidos cerca de 30 mil mortos palestinianos e as imagens da destruição falam por si. António Guterres tem sido a voz que, tendo condenado o Hamas, tem considerado a “inaceitável” violência israelita em Gaza.
Nos últimos tempos, depois de muitos silêncios mais ou menos cúmplices, alguns líderes mundiais têm condenado Israel, com Joe Biden a considerar que a sua resposta em Gaza “tem sido excessiva”. Também o ministro britânico David Cameron tem insistido com Israel para “interromper o ataque a Rafah” onde cerca de 1,5 milhões de palestinianos estão cercados, enquanto Emmanuel Macron exprimiu “a firme oposição da França à ofensiva israelita em Rafah”. Como diria um conhecido grupo humorista português “há aí palhaços que falam, falam, falam e não os vejo a fazer nada”.
Hoje, o jornal El País informa que a “Espanha reclama que Bruxelas adopte medidas contra Israel” e esta posição espanhola distingue-se como um acto de coragem, quando comparado com a generalizada hipocrisia daqueles que se limitam a condenar Israel, mas continuam a fornecer-lhe tudo o que precisa e nada fazem para travar Netanyahu. A União Europeia deveria fazer ouvir a sua voz na condenação de Israel e tomar medidas concretas, como reclama a Espanha, mas isso ainda não foi feito, enquanto ainda é recordada a inacreditável visita de solidariedade e apoio que Ursula von der Leyen e Roberta Metsola fizeram a Israel em outubro de 2023, onde invocaram o “direito de Israel a defender-se” e, naturalmente, apoiaram a vingança de Netanyahu. 
Bruxelas  cala-se e, naturalmente, quem cala consente... 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Chegou ao fim "a doce ilusão do Carnaval"

Ontem foi a terça-feira de Carnaval e hoje, que é quarta-feira, todos os que se divertiram estão perante “a doce ilusão do Carnaval”, como rezam algumas canções brasileiras. Todos os nossos canais televisivos dedicaram extensos espaços às festividades e mostraram a maior ou menor extravagância dos desfiles carnavalescos. Próximo da fronteira portuguesa, o Carnaval de Badajoz atraiu milhares de pessoas para assistirem a um desfile que durou dez horas e em que participaram 10 mil pessoas, integradas em 54 comparsas ou grupos carnavalescos, 35 carros alegóricos e 16 grupos menores.
Um júri escolheu a comparsa Caribe como vencedora do primeiro prémio do Gran Desfile 2024, que assim obteve a sua terceira vitória em 18 anos, tendo-se apresentado com trajes de criação própria que custaram mais de 200 euros cada um.
Porém, na sua edição de hoje, o jornal La Crónica de Badajoz destaca que a cidade “transbordou” de Carnaval, mas ilustrou a sua primeira página com a fotografia da principal figura da comparsa Caretos Salvavidas que, com 220 elementos, incluindo 115 bailarinos e 73 músicos, foi uma das mais numerosas que se apresentaram. Certamente, muitos portugueses atravessaram a fronteira para assistir aos desfiles de Carnaval em Badajoz, mas estando anunciado pelo jornal Linhas de Elvas, a apresentação de grupos de mascarados e de trapalhões nas ruas do Alandroal, Arronches, Campo Maior, Elvas e Fronteira, ficamos sem saber quais foram as escolhas dos entusiastas carnavalescos daquela região alentejana.

A comunicação social como arma política

O jornal New York Post, um tablóide conservador americano que é o nono jornal de maior circulação nos Estados Unidos, é também o mais antigo jornal do país, pois foi fundado em 1801. Nos últimos tempos, o jornal tem-se destacado por tomar parte na campanha para as eleições presidenciais, por promover notícias e comentários contra o presidente e candidato Joe Biden. Há poucos dias chamava-lhe “velho” e, na sua edição de hoje, de forma depreciativa, chama-lhe “a marca”. Diz o jornal que Tony Bobulinski, um parceiro de negócios da família Biden, testemunhou no inquérito que está em curso visando Joe Biden, que foram feitos negócios em que “o vice-presidente Joe Biden era a marca que o filho Hunter e o irmão James estavam a vender por todo o mundo”, o que o jornal ilustra com uma embalagem de detergente da “marca Biden”.
Esta notícia é uma curiosidade em dois sentidos. Por um lado mostra como há quem se aproveite das suas ligações pessoais ou políticas para abrir portas e fazer negócios e, por outro, mostra como a imprensa escrita, ou televisiva, aproveita estes casos para difamar um qualquer cidadão com objectivos políticos, antes de ser provada a sua culpabilidade. Neste caso, uma declaração de um tal Bobulinshi serviu para “queimar Biden” perante os leitores do New York Post.
Por cá temos ambas as coisas como mostram dois casos recentes, isto é, temos gente que se aproveita do nome do pai para meter cunhas ou fazer negócios, mas também temos canais televisivos e jornalistas que se prestam a entrevistar ex-gestores da TAP, fora de tempo e com evidentes objectivos político-partidários.
A lição é simples: não há informação independente e temos que duvidar cada vez mais daquilo que dizem as televisões, os jornais e a internet.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Os estrangeiros e a identidade nacional

O jornal La Vanguardia que se publica em Barcelona, destaca na sua edição de hoje que em 40 anos, a Catalunha passou de 2% para 21% de população estrangeira. As autoridades catalãs anunciaram em 1987 que tinha sido ultrapassada a barreira dos 6 milhões de habitantes mas, 36 anos depois, registam-se 8 milhões de habitantes. Uma vez que o crescimento demográfico natural da Catalunha é negativo, isto é, há mais mortes que nascimentos, o principal motor desta tendência está na imigração. De acordo com os dados oficiais, só no último ano a Catalunha acrescentou mais 140.000 habitantes à sua população e passou a ser a comunidade espanhola que mais cresce, com a circunstância de 40% dos seus habitantes entre os 25 e os 40 anos ter nascido no estrangeiro.
O problema não é apenas catalão, pois acontece um pouco por toda a Europa e é muito complexo, pois tem a ver com inúmeras variáveis, como a preservação das identidades nacionais, as necessidades de mão-de-obra, o desenvolvimento das economias, a solidariedade e os direitos humanos, a segurança nacional, entre muitas outras.
Segundo os mais recentes dados estatísticos, Portugal também tem um problema semelhante ao da Catalunha. No ano de 2023 viviam em Portugal 798.480 cidadãos estrangeiros em situação legal, ou em regularização pelos serviços oficiais, correspondentes a 7,6% da população portuguesa e eram, sobretudo, brasileiros (29%), britânicos (6%), cabo-verdianos (5%), italianos (4,4%), indianos (4,3%) e romenos (4,1%). De acordo com a Pordata, o número de estrangeiros em Portugal duplicou em dez anos, tendo a nacionalidade portuguesa sido atribuída a cerca de meio milhão de pessoas, sobretudo oriundas dos países lusófonos, embora um em cada três deles viva em risco de pobreza.
Ocorre-me citar, sem quaisquer comentários, um excerto da estância 189 da Miscellania de Garcia de Rezende, publicada em Évora em 1554:
       Vemos no reyno metter / tantos captivos crescer / & iremse hos naturaes / 
       que se assi for, seram mais / elles que nos, a meu ver.
Porém, Garcia de Rezende não está cá para alertar sobre este problema.

Diogo Ribeiro é nome de gente famosa

Diogo Ribeiro foi um famoso cartógrafo português que em 1518 foi trabalhar para o rei Carlos I de Espanha na Casa de Contratación em Sevilha. Foi ele que desenhou os mapas utilizados por Fernão de Magalhães na sua viagem às Molucas por ocidente, que se tornou na primeira viagem de circumnavegação. Embora se tivesse naturalizado espanhol e passasse a ser conhecido como Diego Ribero, o seu nome português não se perdeu. Mais de 500 anos depois, o nome de Diogo Ribeiro volta a subir ao patamar dos famosos, através de um nadador de 19 anos de idade que nasceu em Coimbra e que se tornou o primeiro português campeão do mundo de natação, ao vencer a prova dos 50 metros mariposa nos 2024 World Aquatics Championships, que se está a disputar em Doha, no Qatar.
A natação é uma modalidade desportiva muito exigente e não tem tradição em Portugal, pelo que a proeza individual de Diogo Matos Ribeiro é realmente notável, no que tem de talento, trabalho e determinação. Ninguém imaginava que isso pudesse acontecer. No panorama desportivo nacional é difícil encontrar paralelo com este êxito de Diogo Ribeiro e, talvez, só Fernando Pimenta (canoagem) e Rui Costa (ciclismo), tenham conseguido ser "campeões do mundo". Não me ocorrem outros exemplos, mas esta circunstância não desvaloriza os nossos campeões olímpicos, nem os nossos desportistas de valor internacional que se têm distinguido em outras modalidades colectivas ou individuais.
O sucesso deste "campeão do mundo" foi tão importante que foi destacado pela imprensa portuguesa, tendo o jornal A Bola quase esquecido o futebol na sua edição de hoje e dedicado a sua primeira página ao Menino de Ouro. 
O meu aplauso a este jovem nadador que deu uma grande alegria aos desportistas portugueses!