segunda-feira, 15 de abril de 2024

Prudência e contenção no Médio Oriente

Na interpretação dos conflitos internacionais, sobretudo daqueles em que as partes se provocam, se ameaçam e recorrem a soluções pela via militar, os estudiosos procuram sempre saber as causas dessas situações, mas encontram-se muitas vezes confrontados com um dilema, ou um enigma, que é o de saber quem veio primeiro ao mundo, se foi o ovo ou a galinha. Um pequeno incidente ou um pequeno conflito localizado, servem muitas vezes de pretexto para que uma das partes suba o patamar da conflitualidade e acuse e agrida, ou responda e retalie, como se tem visto na Ucrânia e no Médio Oriente. As causas profundas existem, mas os pretextos são muitas vezes fabricados e ampliados, enquanto as vítimas são, por agora, os ucranianos e os palestinianos. Se em relação ao conflito da Ucrânia com a Rússia costumamos dizer que é a altura de pararem, no que respeita ao conflito do Irão com Israel o que há a dizer é que não comecem.
A comunidade internacional e as maiores potências mundiais, têm repetido a necessidade de haver muita contenção, pois a continuação da escalada é uma séria ameaça à paz mundial, para além de ambas as partes já poderem reclamar que atingiram os seus objectivos, um porque atacou o adversário no seu próprio território e o outro porque deteve centenas de mísseis e drones iranianos. Os Estados Unidos já anunciaram que não querem ser arrastados para o conflito até porque têm eleições presidenciais, enquanto o Reino Unido e a França sabem que se arriscam a que a guerra chegue a Londres e a Paris. Por tudo isto, é preciso baixar as tensões e fazer com que a Diplomacia encontre soluções.
Essa é a orientação que a imprensa mundial parece adoptar, sugerindo prudência a ambas as partes, mas muita prudência, porque está ameaçada a paz mundial. Assim faz, também, a edição de hoje do jornal Dennik N, que se publica na cidade eslovaca de Bratislava.

domingo, 14 de abril de 2024

O confronto não desejado de Irão e Israel

Os espaços televisivos anunciaram ontem à noite que o Irão lançara um ataque aéreo maciço de retaliação contra Israel, que era esperado desde o ataque israelita de 1 de abril contra o complexo diplomático iraniano em Damasco, no qual morreram vários oficiais iranianos. Apesar de viverem há muitos anos em clima de ameaça e de inimizade, foi a primeira vez que o Irão atacou directamente o território israelita, enquanto Israel já antes atacara o solo iraniano. O medo da guerra no Médio Oriente acordou. Toda a região entrou em estado de alerta e o mundo aumentou muito o seu grau de ansiedade e preocupação.
A imprensa matutina ainda não dispunha de informações suficientes e independentes sobre o impacto do ataque iraniano, mas as manchetes já apareceram com o sensacionalismo de “quem quer vender jornais”, assim sucedendo com vários jornais como o nova-iorquino Daily News.
Era sabido que cerca de três centenas de mísseis e de drones tinham sobrevoado o Iraque, a Síria e a Jordânia, mas na sua grande maioria, ou cerca de 99%, terão sido neutralizados pelas forças israelitas, com a ajuda americana e inglesa. Entretanto, as autoridades iranianas declararam que a operação militar contra Israel “foi concluída”, mas que se houver resposta israelita a este ataque “a próxima operação será muito maior” e, ao mesmo tempo, avisaram os Estados Unidos que as suas bases militares na região serão um alvo iraniano, no caso de virem a cooperar em eventuais acções ofensivas israelitas.
Em Israel desvalorizam-se os efeitos do ataque e afirma-se que quase tudo foi abatido, enquanto o Irão se mostra satisfeito com a retaliação que realizou. Não sabemos a verdade, mas desejamos que haja contenção das partes e que a Diplomacia lhes possa mostrar que é melhor pararem…
O facto é que a iniciativa iraniana pode gerar uma escalada perigosíssima. Por isso, foi condenada, sobretudo pelos Estados Unidos e pelos seus amigos e aliados que, mais uma vez, têm dois pesos e duas medidas, pois condenam o Irão por esta acção, mas ainda não condenaram Israel pelos seus excessos e as suas repetidas agressões, além de lhe continuar a fornecer equipamento militar.

sábado, 13 de abril de 2024

Narendra Modi e as eleições indianas

O processo eleitoral indiano arranca no próximo dia 19 de abril e decorrerá em sete fases até ao dia 1 de Junho, com o apuramento dos resultados finais a iniciar-se três dias depois. Com cerca de 1,4 mil milhões de habitantes, a Índia já é o país mais populoso do mundo e os seus cadernos eleitorais têm cerca de 970 milhões de eleitores, que votarão em mais de um milhão de assembleias de voto.
O Bharatiya Janata Party (BJP), que é o partido do actual primeiro-ministro Narendra Modi, é o favorito à vitória e, depois de Jawaharlal Nehru, pode tornar-se no segundo primeiro-ministro indiano a conseguir três mandatos consecutivos. O seu principal adversário é Rahul Gandhi, bisneto de Nehru, que é o candidato do Indian National Congress (INC), mas as sondagens são-lhe muito desfavoráveis.
A este propósito, a revista Newsweek publicou uma entrevista exclusiva com Narendra Modi, classifica-o como unstoppable, isto é, imparável, anunciando que ele “está mudando a Índia e o mundo”. A longa entrevista de Modi é, sobretudo, uma peça de propaganda e uma reportagem muito laudatória em relação à sua liderança, tendo todas as características de uma publireportagem ou reportagem paga.
Modi quer ter um estatuto mais elevado na comunidade internacional e paga para isso, mas porque é muito popular internamente, tudo aponta para que a sua vitória seja muito expressiva. Ele tem liderado a modernização do país, desde as infraestruturas às redes digitais, bem como a luta contra a pobreza. Porém, a sua ambição está cheia de contradições e revela um radical do nacionalismo e do hinduísmo, que coloca as suas hostes do RSS, a milícia paramilitar nacionalista hindu do BJP, a destruir mesquitas e igrejas e a perseguir, por vezes de forma muito violenta, as alargadas comunidades muçulmanas e cristãs da Índia.
Diz-se que a Índia é a maior democracia do mundo, mas há quem disso tenha dúvidas. A última edição portuguesa da revista Le Monde Diplomatique pergunta mesmo se a Índia é uma democracia.

terça-feira, 9 de abril de 2024

O eclipse que impressionou a América

Um eclipse solar total ocorreu ontem, quando a Lua se interpôs entre a Terra e o Sol, dando origem a um espectáculo seguido por milhões de pessoas em grande parte da América do Norte (México, Estados Unidos e Canadá), mas que também foi observado em algumas regiões ocidentais da Europa, incluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira.
Se antigamente os eclipses eram fenómenos venerados e temidos pelas populações, nos tempos modernos tornaram-se um acontecimento de massas, sobretudo pela divulgação prévia que deles é feita pela comunicação social, que acelera o interesse das populações por este tipo de acontecimentos que são esteticamente belos e que impressionam. Por isso, nas suas edições de hoje, a imprensa americana deu eco noticioso a este grande eclipse, publicando fotografias do fenómeno, assim acontecendo com o The Washington Post
Porém, as principais notícias que foram publicadas não foram para explicar o fenómeno, nem para salientar o enorme número de amadores de Astronomia que o acompanharam com óculos e filtros apropriados. A imprensa tratou de descrever os monumentais engarrafamentos que aconteceram nas estradas americanas quando, após a observação do eclipse, todos regressavam a casa. Escreveu-se que “a Améica parou” e, durante os quatro minutos ou menos que durou o eclipse em vários estados americanos, cessou todo o movimento nas estradas, mas depois seguiu-se uma monumental confusão.

domingo, 7 de abril de 2024

Cada vez mais se reclama o fim da guerra

Perfazem-se hoje seis meses sobre a data em que o Hamas provocou Israel, invadindo um festival de música e várias localidades israelitas próximas da fronteira com a Faixa de Gaza, massacrando 1.200 pessoas por vezes de forma cruel e sádica e fazendo 253 reféns. Israel respondeu ao ataque com uma acção militar, tendo invadido a Faixa de Gaza e prometendo acabar com o Hamas. Ninguém esperava outra coisa e Israel usou o seu direito de se defender. As operações militares visaram todos os tipos de estruturas, incluindo escolas e hospitais, com a justificação que serviam de arsenais, de esconderijos ou de escudos humanos para a gente do Hamas. Tem sido umaacção desproporcionada e contrária a todas as leis da guerra. Grande parte do território foi destruído até aos escombros, levando milhares de pessoas a fugir para o sul da Faixa de Gaza. Na cidade de Rafah, junto à fronteira egípcia, encontram-se agora mais de um milhão de refugiados, o que representa seis vezes mais do que a sua anterior população.
Segundo as autoridades palestinianas, a guerra causou até agora 33.175 mortos, incluindo 12.300 crianças e 75.000 feridos. As condições de vida em Rafah e no resto de Gaza são extremamente difíceis, pairando a ameaça de fome e de epidemias, pois faltam alimentos e os hospitais foram destruidos. Fala-se muito em genocídio do povo palestiniano e é cada vez maior a pressão internacional sobre Israel. Depois de muitos meses de indiferença pelo massacre que estava a acontecer, Joe Biden instou Benjamin Netanyahu para implementar um cessar-fogo imediato, sob pena de perder o apoio americano em Gaza, enquanto Rishi Sunak veio, finalmente, reclamar pelo fim da guerra, conforme hoje anuncia o jornal Sunday Express, que é a edição dominical do jornal The Daily Express. Que civilização é a destes homens que apelam ao fim da guerra, mas que ao mesmo tempo, são os principais responsáveis pela venda de armamento a Israel.

sábado, 6 de abril de 2024

A grande festa da Copa del Rey 2024

Hoje às 21.00 horas, no Estádio Olímpico de La Cartuja em Sevilha, disputa-se a final do Campeonato de España – Copa de Su Majestad el Rey ou, simplesmente, Copa del Rey 2024. Trata-se da mais antiga competição do futebol espanhol que foi criada em 1903 e que é disputada anualmente por eliminatórias, tendo como seus maiores vencedores o Barcelona FC (31 vezes), o Athletic Bilbao (23 vezes), o Real Madrid (20 vezes), o Atletico de Madrid (10 vezes) e o Valencia CF (8 vezes).
Este ano os finalistas são o Real Club Deportivo Mallorca que venceu a prova apenas uma vez na época de 2002-2003 e o Athletic Club Bilbao, que embora já tenha ganho a prova 23 vezes, está há quarenta anos sem a vencer. Nos seus percursos, entre outros adversários, o Mallorca ultrapassou o Girona e a Real Sociedad, enquanto o Athletic bateu o Barcelona e o Atletico de Madrid.
Hoje, na final de Sevilha, vão estar em confronto não apenas duas equipas de futebol, mas duas regiões espanholas com tradições, culturas e até línguas diferentes. Tanto a imprensa do País Basco, especialmente da Biscaia, como a imprensa das Baleares, destacam nas suas edições de hoje este jogo de futebol, incentivando as equipas da sua região para que tragam a Copa del Rey para Bilbao ou para Palma de Mallorca.
Dessa imprensa destacamos a original primeira página do jornal El Correo, na qual uma ilustração representa um navio, provavelmente com rumo a Sevilha, no qual viajam os jogadores, os técnicos e os apoiantes do Athletic com as suas bandeiras e com o seu entusiasmo.

Um sismo que foi sentido em Nova Iorque

Um tremor de terra surpreendeu ontem a região de Nova Iorque e foi sentido pela população, embora não tivesse provocado qualquer alarme, nem danos humanos ou materiais. Segundo relata a imprensa, o sismo teve a magnitude de 4,8 com o seu epicentro no vizinho estado de Nova Jersey, a cerca de 80 quilómetros a oeste de Manhattan e foi sentido por cerca de 42 milhões de pessoas, incluindo as populações das cidades de Boston e Filadélfia. Os diplomatas que tomavam parte na sessão do Conselho de Segurança das Nações Unidas também sentiram o sismo, quando era discutida a situação no Médio Oriente. Porém, o sismo não afectou quaisquer edifícios da cidade, embora as autoridades municipais tenham alertado rapidamente as pessoas sobre o perigo de possíveis réplicas ou tremores secundários, que começaram a sentir-se no início da tarde em Nova Jersey.
O estado de Nova Iorque não era abalado por um tremor de terra desde 1884 e esse facto despertou a curiosidade da imprensa. O jornal New York Post dedicou-lhe a capa da sua edição de hoje, com referências ao maior sismo dos últimos 140 anos e utilizou uma ilustração em que a Estátua da Liberdade aparece muito assustada e com a sua coroa desalinhada.
Mesmo com coisas sérias, ou que podem vir a ser sérias, há lugar para o humor.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Stop selling arms to Israel NOW

A edição de hoje do jornal The Independent dedica a sua primeira página à grave situação que se vive no Médio Oriente, onde a tensão tem aumentado devido às sucessivas provocações do governo israelita aos países seus vizinhos, de que se destaca o bombardeamento do consulado iraniano em Damasco. O jornal noticia que Joe Biden avisou Benjamin Netanyahu para se moderar e que reclamou um imediato cessar-fogo em Gaza, mas destaca sobretudo que o mundo assiste horrorizado à conduta imprudente de Israel que acusa de “atacar sistematicamente” os trabalhadores humanitários. Várias linhas vermelhas têm sido ultrapassadas, mas parece que ninguém, especialmente os Estados Unidos e a União Europeia, tratam de reagir, condenar e de aplicar sanções ajustadas perante o comportamento israelita. Daí que o jornal “junte a sua voz a 600 especialistas, deputados e chefes militares que exigem que se pare imediatamente de vender armas a Israel”.
Hoje, também o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas que tem 47 membros, aprovou uma resolução em que mostrou “grande preocupação” pelas atitudes das autoridades israelitas de incitamento ao genocídio, através da “prática da fome de civis como método de guerra” e exigiu a suspensão da venda e transferência de armas para Israel. A resolução foi adoptada com 28 votos a favor, seis votos contra (Estados Unidos, Alemanha, Argentina, Paraguai, Bulgária e Malawi) e 13 abstenções, entre as quais a França, a Índia, o Japão e os Países Baixos.
Actualmente os países que vendem armamento a Israel são os Estados Unidos, a Alemanha, a França, o Reino Unido e a Austrália, o que explica tanta condescendência ou tanto colaboracionismo para com Israel.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Israel ignora todas as linhas vermelhas

Nos conflitos que actualmente estão a devastar a Ucrânia e a Faixa de Gaza têm acontecido alguns excessos que violam as leis da guerra e constituem violações dos direitos humanos, o que é de lamentar mas que é normal acontecer em todas as guerras. Daí que surjam as frequentes acusações de crimes de guerra, fundamentadas ou não fundamentadas, embora muitas delas se enquadrem nas políticas de propaganda para atacar o adversário. Porém, no caso do conflito da Ucrânia e apesar de até haver ameaças nucleares, parece haver alguma contenção, ou um quase acordo de cavalheiros, parecendo estar assumidas algumas linhas vermelhas pelos contendores. Em relação ao conflito na Faixa de Gaza a situação é bem diferente, com os israelitas a ser condenados universalmente pela violência com que estão a punir o povo palestiniano, com quotidianos massacres, com a destruição das suas cidades e com a política de genocídio que estão a conduzir.
Os israelitas nunca respeitaram as resoluções condenatórias das Nações Unidas e, nesta altura em que são governados por Benjamin Netanyahu e pelos seus aliados da extrema-direita radical, decidiram atacar o consulado do Irão em Damasco, a capital da Síria. Antes, já a aviação israelita voava sobre o Líbano e a Síria, atacando o grupo armado libanês Hezbollah e os Guardas da Revolução Iraniana, ambos aliados do presidente sírio Bashar al-Assad, o que nada prenunciava de bom.
O ataque israelita a uma instalação diplomática iraniana, tal como o ataque a trabalhadores humanitários em Gaza, foram demasiado graves e significam uma escalada na conflitualidade no Médio Oriente, pelo que o Irão tratou de anunciar que este ataque “não ficará sem resposta”. O caso é muito sério e poucos jornais o analisaram. O jornal londrino The Times foi uma excepção.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Chuva na Andaluzia e regressa a alegria

Desde meados da década passada que a escassez de chuva na região espanhola da Andaluzia se tornou um problema, que se agravou seriamente a partir de 2022, provocando um dos mais críticos períodos de seca desde que há registos. É uma consequência das alterações climáticas que condiciona fortemente o abastecimento público, pelo que a hipótese de trazer barcos-cisterna de outras regiões para minorar o problema da escassez de água era cada vez mais considerado, sobretudo para abastecer os meios urbanos. A falta de água já tinha levado o famoso Parque Natural de Doñana a uma situação-limite, provocando a morte de muitos animais e a seca de muitas árvores.
Porém, a passagem da depressão Nelson e as chuvas caídas durante a Semana Santa “han dado un pequeño respiro a este espacio protegido” e, como ontem anunciou o jornal Diario de Sevilla, “las lluvias dejan agua para un año más”.
O efeito das últimas chuvas também se sentiu noutras áreas andaluzas e o jornal el Día de Córdoba, também noticiava ontem em primeira página que “Córdoba tiene garantizada el agua de consumo para seis años tras la borrasca Nelson”.
Segundo as autoridades, os benefícios trazidos pelas chuvas da Semana Santa – que prejudicaram as celebrações religiosas e o turismo que lhe está associado – “no es suficiente y aún deberia llover mucho más en los próximos meses para resolver el problema de la sequía”.
Porém, depois de alguns anos de desespero por falta de água, a Andaluzia parece renascer com as chuvas e viver um ambiente de renovada alegria.

sexta-feira, 29 de março de 2024

Há ou não há um risco de guerra global?

Na última cimeira europeia o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez pediu para “rebajar el tono bélico” utilizado por alguns estados-membros, mas a resposta veio do primeiro-ministro polaco Donald Tusk numa entrevista hoje publicada pelo diário espanhol El País. Donald Tusk afirmou que “estamos en una época de preguerra”, acrescentando que “no exagero” e que “nuestro deber no es discutir, sino prepararnos para defendernos”, alertando que “el conflicto en Ucrania puede alargarse”.
Hoje, também a edição do jornal francês La Dépêche du Midi destaca em manchete o título “Economie de guerre: la France se prépare”, na sequência de uma afirmação do seu Ministro do Armamento em que não excluia o recurso de impor à industria francesa a satisfação prioritária das necessidades militares, porque “les stocks de l’armée française étaient adaptés au temps de paix et nous en avons donné une grande partie aux Ukrainieens”.
Há dias foi Lloyd Austin, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, que numa reunião com os seus homónimos de quase cinquenta países declarou que “no nos engañemos, Putin no se detendrá en Ucrania”, enquanto Scholz, Macron e Tusk decidiram reforçar o seu apoio militar à Ucrânia através da aquisição imediata de mais armamento, perante a ameaça de uma nova ofensiva russa.
Não há dúvida que Pedro Sánchez tem razão ao pedir para “rebajar el tono bélico”. Há um discurso de guerra que persiste e preocupa, como se a guerra fosse a solução para a conflitualidade entre países. Não é preciso recorrer às lições da História para saber que as guerras modernas não têm vencedores e que todos saem derrotados. Basta ver as imagens televisivas da morte, do sofrimento e da destruição para condenarmos o “tono bélico” que anda no ar.

quarta-feira, 27 de março de 2024

Invulgar acidente marítimo em Baltimore

Quando na madrugada de ontem largava do porto de Baltimore com destino ao Sri Lanka, o navio porta-contentores Dali que tem 300 metros de comprimento e hasteava a bandeira de Singapura, perdeu capacidade de manobra e colidiu com um pilar da ponte Francis Scott Key. A colisão provocou a imediata queda do seu principal tabuleiro e, numa reacção em cadeia, originou o colapso de outros tabuleiros da mesma ponte, que tem um comprimento de 2,6 quilómetros. Muitos jornais do mundo inteiro, incluindo o The New York Times, publicaram impressionantes fotografias do Dali, carregado com milhares de contentores - 4700 segundo foi depois divulgado - e com uma parte do pavimento da ponte sobre o seu convés.
O navio tinha largado do cais do porto de Baltimore menos de trinta minutos antes com 22 tripulantes e tinha a bordo dois experientes pilotos locais, mas foram detectadas anomalias eléctricas e foi verificado que os seus movimentos estavam descontrolados, pelo que a tripulação emitiu um pedido de socorro que permitiu que as autoridades portuárias ainda tivessem travado o tráfego de veículos na ponte. Além disso, o navio ainda adoptou procedimentos de emergência ao largar âncoras para travar o seu deslocamento descontrolado, mas essa medida que era adequada não produziu qualquer efeito.
O porto de Baltimore é um dos maiores dos Estados Unidos e o colapso da ponte vai afectar a vida económica do estado de Maryland, porque vai obrigar à paralização do tráfego portuário, tanto de carga como de passageiros, mas também afectará toda a Costa Leste dos Estados Unidos. Por isso e porque este ano há eleições nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden considerou que se tratou de um “terrível acidente” e determinou que se inicie a imediata reconstrução da ponte Francis Scott Key.

terça-feira, 26 de março de 2024

A gestão lucrativa mas anti-social da CGD

Os bancos portugueses obtiveram no ano de 2023 os maiores lucros da sua história e, há alguns dias atrás, a imprensa registava que esses lucros atingiram quase 12 milhões de euros diários. O contributo da banca pública para esses resultados foi significativo, pois a Caixa Geral de Depósitos (CGD) apresentou um lucro líquido de 1.291 milhões de euros, correspondentes a cerca de 3,5 milhões de euros diários, o que tem sido assinalado como um enorme sucesso e como um marco histórico, pois vai permitir que, para além dos impostos legais, o Estado ainda venha a arrecadar 525 milhões de euros de dividendos.
Estes lucros que muito boa gente considera escandalosos, foram impulsionados pela principal fonte de receitas que é a margem financeira, isto é, a diferença entre os juros cobrados no crédito e os juros pagos nos depósitos, a que se junta a abusiva e injusta cobrança de vários serviços, como por exemplo a manutenção de contas bancárias. Chama-se a isto esmifrar ou extorquir a clientela.
Acontece que a gestão da CGD alinha numa lógica de competição com os outros bancos comerciais e, muitas vezes, ignora a sua função social, actuando no mercado segundo a mesma lógica mercantil e de maximização de resultados. Segundo refere a edição de hoje do jornal i que dedicou aos “ricos bancos”, a CGD procurou modernizar-se e reestruturar-se através das novas tecnologias e da redução de balcões e de trabalhadores. Assim, segundo o jornal, entre os anos de 2010 e 2023, a CGD passou de 9672 para 6423 trabalhadores (menos 35%) e de 869 para 515 agências (menos 40%).
Estes números falam por si e mostram como a CGD tem adoptado uma gestão contrária ao interesse nacional em vários aspectos, designadamente com o encerramento de balcões em zonas remotas, o que viola a sua obrigação de prestar um serviço social às populações, sobretudo as mais envelhecidas.

segunda-feira, 25 de março de 2024

Os portugueses orgulham-se do 25 de Abril

Na sua edição de hoje, o jornal Público divulga as primeiras conclusões de um estudo académico sobre as atitudes face ao 25 de Abril de 1974, que tem por base um inquérito por questionário que foi dirigido à população portuguesa.
O estudo conclui que 50 anos depois do 25 de Abril de 1974, cerca de 69% dos portugueses fazem uma avaliação muito positiva do legado desse “dia inicial, inteiro e limpo”, com a particularidade dos jovens dos 16 aos 24 anos serem o grupo etário com maior índice de aprovação, que é de cerca de 76%. Depois, há cerca de 24% de portugueses que consideram que o 25 de Abril teve tanto de positivo como de negativo e, finalmente, há cerca de 7% de portugueses que entendem que o 25 de Abril foi mais negativo do que positivo, isto é, os portugueses têm uma diversidade de atitudes em relação àquele histórico acontecimento que, em si mesma, é a expressão da Liberdade que o 25 de Abril lhes proporcionou.
A comparação entre o que se passava em Portugal antes e depois do 25 de Abril de 1974, mostra que, para os portugueses, a Saúde e a Educação foram as áreas que mais melhoraram, mas que também melhoraram muito a Habitação, a Economia, a Integração Regional, a Igualdade Social e até a Justiça, enquanto mais de dois terços dos portugueses acham que a corrupção piorou depois de 1974.
A Democracia que, depois de 48 anos de Ditadura, foi reconquistada pelos portugueses através do 25 de Abril, está a cumprir 50 anos de vida e está viva, como mostrou o inquérito antes referido, tendo sido o ideal inspirador da chamada “terceira vaga da democratização europeia” que chegou à Grécia em 1974 e à Espanha em 1975.

O massacre de Moscovo e o comentariado

Poucos dias depois das eleições presidenciais russas que confirmaram Vladimir Putin no poder, o terror regressou a Moscovo na passada sexta-feira quando um grupo armado de armas automáticas, granadas e bombas incendiárias atacou o Crocus City Hall, o maior teatro da cidade, pouco antes do início de um espectáculo e quando na sala se encontravam alguns milhares de pessoas. Tratou-se de um ataque terrorista de grande violência, de que resultaram 137 mortos e 182 feridos, entre homens, mulheres e crianças. Três dias depois deste massacre de civis inocentes, de que resultou um generalizado envio de condolências às autoridades russas, o enigma persiste quanto à autoria deste massacre, apesar de ter sido reivindicado pelo Isis-K (Islamic State Khorasan), o ramo afegão do Estado Islâmico.
Nos jornais internacionais surgiram as mais diversas interpretações sobre esta acção e o jornal francês Libération refere “o regresso do Estado Islâmico”, embora a questão de se saber quem planeou e apoiou esta acção esteja a gerar alguma controvérsia, com os russos a procurar implicar a Ucrânia nesta acção, eventualmente para justificar acções retaliatórias no contexto da guerra que estão a travar. O aparelho de propaganda russa entrou imediatamente em acção no sentido de mobilizar a seu favor a opinião pública nacional e internacional, através da desvalorização do jihadismo afegão e da repetida insinuação da cumplicidade ucraniana nesta acção terrorista.
O facto é que o Estado Islâmico (ISIS) foi declarado derrotado em 2019 e expulso da Síria e do Iraque, depois de uma campanha militar que até coligou russos e americanos, mas também alguns países europeus e árabes, mas em boa verdade não foi eliminado e reapareceu em Moscovo. Curiosamente, alguns dos nossos comentadores televisivos são tão vesgos e tão fanáticos, que até acusaram Putin de ser o autor do massacre de Moscovo, isto é, quando o mundo ainda procura saber o que se passou, já o comentariado lusitano se tinha apressado a avançar explicações e a identificar responsáveis.