terça-feira, 9 de setembro de 2025

A RPC e o desafio da nova ordem mundial

The Week é uma revista semanal que foi fundada no Reino Unido em 1995 e que a partir de 2001 passou a ter uma edição nos Estados Unidos, mas que não tem grande divulgação fora do espaço anglo-americano. Caracteriza-se por publicar notícias e colunas de opinião originalmente publicadas em órgãos de comunicação estrangeiros e em idiomas diferentes do inglês e, desta forma, a revista pretende mostrar-se imparcial e mostrar as “duas faces de qualquer moeda”, ao publicar textos que abrangem uma ampla gama de perspectivas.
Os seus textos e notícias são curtas para terem uma leitura rápida, cobrem todo mundo e são ilustradas com fotografias e gráficos explicativos, o que deve agradar aos seus leitores que, cada vez menos suportam textos longos e muito rebuscados.
Uma das mais curiosas características da revista são as excelentes ilustrações que habitualmente utiliza nas suas capas e que, quase sempre, “valem mais do que mil palavras”.
Na sua edição mais recente que foi divulgada no passado sábado, a capa tem como título Xi’s new world order, a challenge to the West e mostra o líder chinês Xi Jinping segurando o mundo com ambas as mãos. Trata-se de uma chamada de atenção para a 25ª Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai que juntou na RPC duas dezenas de líderes mundiais, entre os quais Narendra Modi e Vladimir Putin, que já tinha sido classificada “uma frente anti-ocidental liderada pela China”.
Como já aqui referimos noutra oportunidade, a Ásia e o seu dinamismo económico e tecnológico, bem como a sua força demográfica, marcam pontos e o mundo já não é o que era… 
Entretanto, os líderes europeus fazem reuniões e passeiam as suas vaidades.

domingo, 7 de setembro de 2025

Vergonha! ...o justo grito dos europeus

A capa da mais recente edição da revista italiana L’Espresso vale mais que mil palavras e o título escolhido – vergonha – exprime o sentimento de muitos europeus, certamente muitos milhões de homens e mulheres indignados com a forma desumana e assassina como os extremistas de Israel estão a castigar os palestinianos em Gaza, mas também pela insensibilidade, calculismo e cumplicidade como a União Europeia e alguns dos seus dirigentes mais destacados têm calado e consentido o genocídio que está a ser praticado. É uma vergonha, escreveu em título a revista italiana, pois os continuados silêncios de António Costa, de Ursula von der Leyen, de Kaja Kallas, de Roberta Metsola e de outros dirigentes, não são outra coisa.
Todos os dias somos confrontados com imagens de mais violência e mais destruição e com notícias de mais mortes, mais fome, mais desumanidade e mais sofrimento. A ideia sinistra de fazer de Gaza uma Riviera do Mediterrâneo Oriental parece estar em marcha, mas os dirigentes europeus assobiam para o lado e continuam hipocritamente a apresentar-se como os grandes defensores dos direitos humanos, havendo alguns dos seus países que continuam a alimentar o genocídio ao abastecer os extremistas israelitas com armas e munições.
Porém, a cumplicidade europeia para com Israel não é unânime. Alguns países europeus já tinham reconhecido o estado da Palestina antes de ingressar na União Europeia (Bulgária, Polónia, Chéquia, Eslováquia, Hungria, Roménia, Chipre e Suécia) e outros reconheceram-no em 2024 (Irlanda, Espanha e Eslovénia). Mais recentemente, alguns países anunciaram que neste mês de Setembro também o iriam reconhecer (França, Malta e Bélgica). Veremos.
Neste quadro de vergonha, salienta-se a dignidade da Espanha e do governo de Pedro Sánchez que, não só reconheceu o estado da Palestina, como tem defendido a exclusão de Israel de todas competições internacionais, desportivas e outras, comparando a situação com a exclusão da Rússia após a invasão da Ucrânia.

sábado, 6 de setembro de 2025

João Almeida brilhou no cimo do Angliru

Que os desportistas portugueses me desculpem, sobretudo os que apreciam os sucessos dos nossos futebolistas, canoístas, hoquistas, andebolistas e outros praticantes desportivos de alta notoriedade e, por vezes, de grande valor, mas o desempenho ciclista de João Almeida na Vuelta a España 2025 que está a decorrer e que diariamente podemos acompanhar em directo através das transmissões televisivas, está a ser simplesmente notável.
Ontem, nas montanhas do Principado das Asturias, o ciclista João Almeida dominou e venceu a 13ª etapa da prova, corrida entre Cabezón de la Sal e o mítico Alto de L’Angliru, cujo troço final com 12,4 quilómetros tem um declive médio de 9,8%, o que faz deste troço a a escalada mais famosa e mais temida da Vuelta.
O jornal A Bola, provavelmente recordado dos êxitos de Joaquim Agostinho na Vuelta a España (2º em 1974) e no Tour de France (3º em 1978 e 1979), destacou a exibição de João Almeida que, realmente, “brilhou nas alturas” e deu uma grande alegria aos milhares de portugueses que o incitaram com bandeiras e aplausos ao longo da íngreme subida.
A escalada do Alto de L’Angliru só entrou na Vuelta em 1999, mas desde logo os seus vencedores adquiriram um estatuto especial, com os seus nomes a serem gravados num obelisco apropriado que foi instalado no local. Assim, o nome de João Almeida vai ficar gravado nesse obelisco pela vitória brilhante, em que percorreu a subida num excepcional tempo, pois gastou apenas mais um segundo do que o melhor tempo alguma vez feito por um ciclista naquela subida. 
Parabéns ao grande atleta de A-dos-Francos, no concelho das Caldas da Rainha!

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A tragédia que se abateu sobre Lisboa

Ao fim da tarde do dia 3 de Setembro, a notícia correu rápida a anunciar a tragédia: o centenário Elevador da Glória, que através da Calçada da Glória faz a ligação entre o Bairro Alto e a Praça dos Restauradores, em Lisboa, teve um gravíssimo acidente quando o seu cabo estrutural de segurança se partiu e o elevador descarrilou do seu trilho e deslizou a grande velocidade no percurso descendente da calçada, até se desfazer contra a parede na única curva do percurso. A íngreme calçada tem cerca de 275 metros de extensão e um acentuado declive de cerca de 17%, pelo que a velocidade do elevador foi muito elevada e a colisão foi brutal.
Foi uma enorme tragédia que abalou o país e que teve grande repercussão internacional, como se observa por exemplo no diário holandês NRC, pois nela perderam a vida 16 pessoas – portugueses (5), britânicos (3), sul-coreanos (2), canadianos (2), suiço (1), ucraniano (1), americano (1) e francês (1) – além de 23 feridos, dos quais seis deles se encontram em estado grave.
O Elevador da Glória está classificado desde 2002 como Monumento Nacional e é operado pela Companhia Carris de Ferro de Lisboa, uma empresa municipal que é tutelada pela Câmara Municipal de Lisboa. Porém, até ao momento ninguém assumiu responsabilidades técnicas ou políticas pela tragédia, surgindo as mais diversas explicações por parte dos especialistas a que as televisões recorrem, enquanto o presidente Carlos Moedas já está calado há 48 horas.
Foi uma grande tragédia que evidencia situações muito graves e que urge esclarecer, mas muitos lembram que Moedas reclamou a demissão do seu antecessor Medina por situações bem menos graves…

terça-feira, 2 de setembro de 2025

A ambição por uma nova ordem mundial

A 25ª Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai decorreu na cidade chinesa de Tianjin durante dois dias a convite de Xi Jinping, tendo juntado duas dezenas de dirigentes mundiais, entre os quais o indiano Narendra Modi, o russo Vladimir Putin e o iraniano Massoud Pezeshkian, mas também o secretário-geral das Nações Unidas António Guterres, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, com a particularidade destes serem membros da NATO e um deles membro da União Europeia.
Na sua edição de hoje o jornal Le Monde escolheu como título “La Chine au centre d’un front anti-Occident” porque, com esta cimeira, a China procurou intensificar a cooperação económica, energética e digital entre aqueles países, mas também apresentar-se e ser reconhecida como o motor de um multilateralismo “não ocidental”. Em Tianjin estiveram representados quase quatro mil milhões de pessoas que correspondem a cerca de 50% da população mundial e os seus dirigentes ouviram o presidente chinês denunciar a “mentalidade da guerra fria e as acções intimidatórias dos Estados Unidos e dos seus aliados” e apelar “à união das forças do Sul Global”, posicionando-se como o líder desse movimento. Uma das maiores surpresas desta cimeira foi a presença em Tianjin de Narendra Modi, antes rival e agora parceiro de Xi Jinping porque, segundo afirma o jornal, “humilhada por Trump, a India aproxima-se de Pequim”. 
A ambição por uma nova ordem mundial é evidente e, depois da Cimeira de Tianjin, o presidente Xi Jinping vai mostrar ao mundo em Pequim, uma grande parada militar para assinalar o 80º aniversário da rendição do Japão no final da Segunda Guerra Mundial no Oriente, a que assistirão a maioria dos dirigentes que participaram na cimeira e, ainda, o norte-coreano Kim Jong-un. 
A Ásia e o seu dinamismo marcam pontos e o mundo já não é o que era…

sábado, 30 de agosto de 2025

"Aviso de temporal" que ameaça a França

Os tempos não estão a ser fáceis para a Europa, pois está a enfrentar enormes desafios num quadro em que a ordem mundial já não é o que era…
A sua acelerada decadência e a sua irrelevância acentuam-se, com os seus líderes a mostrarem-se incapazes de reagir aos ventos variáveis que sopram do outro lado do Atlântico e a não terem voz própria, enquanto temos Xi Jinping a receber Vladimir Putin, Narendra Modi e Kim Jong-un para assistirem a uma grande parada militar em Pequim e para modelar uma ordem internacional pós-americana na Cimeira da Organização para Cooperação de Xangai.
São tempos realmente difíceis para a Europa, que todos os dias nos mostram como os figurões que a têm representado não são capazes de encontrar soluções para os problemas que afectam ou preocupam os cidadãos europeus.
A França é um bom exemplo desta espécie de agonia em que a Europa está a mergulhar, com um presidente que quis ser o líder dos líderes e que, afinal, nem tem conseguido dar estabilidade ao seu país, que atravessa uma grave crise económica e com preocupantes perspectivas sociais. Hoje, está sob "aviso de temporal". De facto, o primeiro-ministro François Bayrou anunciou que vai submeter-se a um voto de confiança no parlamento por causa da sua proposta de orçamento para 2026, que prevê cortes de 44 mil milhões de euros, para reduzir o défice público que se estima estar nos 5,4% e desacelerar a dívida pública que já representa 114% do PIB francês. Fala-se abertamente no “sobreendividamento francês” e há o risco do FMI intervir se o governo de Bayrou cair, o que pode acontecer nos próximos dias. No meio de tudo o que se antevê no corte de benefícios sociais, o presidente Macron anunciou um ambicioso plano para elevar os gastos em Defesa de 2 para 3,5% do PIB.
A capa da edição de ontem do diário La Croix vale mais que mil palavras.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

O Brasil e o julgamento de Jair Bolsonaro

No próximo dia 2 de Setembro, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e mais sete réus vão começar a ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília, por tentativa de golpe de Estado.
Jair Bolsonaro é acusado como o “principal articulador, maior beneficiário e autor” das várias acções de vandalismo e insubordinação que visaram a ruptura do Estado e a sua manutenção no poder, apesar de ter sido derrotado nas urnas por Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 30 de Outubro de 2022. Porém, Bolsonaro não aceitou a derrota e, no dia 8 de Janeiro de 2023, milhares de fanáticos bolsonaristas assaltaram os edifícios dos Três Poderes em Brasília, para rejeitar os resultados eleitorais, contestar a democracia brasileira e impedir a posse de Lula da Silva, numa acção comparável ao assalto ao Capitólio, feito em Washington pelos apoiantes de Donald Trump no dia 6 de Janeiro de 2021.
Os crimes de que Bolsonaro é acusado são graves e estão tipificados como organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e dano qualificado contra o património do Estado.
Na sua mais recente edição, a revista The Economist dedicou uma alargada reportagem ao julgamento de Bolsonaro com o título “Brazil offers America a lesson in democratic maturity”, referindo que será um teste à forma como os países se podem livrar da febre populista que os assola, tendo como referencial a figura de Donald Trump. Segundo a revista, o “Trump dos trópicos” e os outros réus “serão considerados culpados”, porque a memória dos horrores da ditadura ainda está presente na memória dos brasileiros e a maioria dos políticos, da esquerda e da direita, bem como os grandes empresários, querem esquecer a “loucura de Bolsonaro e a sua polarização radical”.  
O julgamento de Jair Bolsonaro pode ser, de facto, uma grande lição que o Brasil pode ensinar aos Estados Unidos e ao mundo. 
Esperemos que assim seja!

domingo, 24 de agosto de 2025

Netanyahu: ignóbil, vingativo e criminoso

Um relatório das Nações Unidas divulgado há dois dias revelou o que já se suspeitava, isto é, o território de Gaza está numa situação de inanição generalizada, miséria e morte, com mais de meio milhão de pessoas a passar fome. Tudo isto era sabido desde há muito tempo, sobretudo através das imagens televisivas que nos chegam daquele martirizado território mas, a partir de agora, as Nações Unidas declararam oficialmente a fome em Gaza devido às obstruções à ajuda humanitária que, de acordo como o Direito Internacional Humanitário, o governo israelita tem a obrigação de permitir. 
O jornal inglês The Independent destacou esta notícia, mas a generalidade da imprensa ignorou-a, o que mostra claramente quem domina e manipula a informação na Europa.Para além de ter morto brutalmente mais de 60 mil palestinianos dos quais 83% eram civis, de ter destruído o tecido urbano de Gaza e de estar a intensificar a sua vingança sobre os palestinianos, a criminosa situação de fome criada pelo governo de Netanyahu foi objecto de uma entrevista da SIC ao embaixador de Israel em Lisboa, que disse que “não há fome, nunca houve fome e ninguém morreu de fome em Gaza. Podemos ver crianças magras, mas é porque são doentes graves". Como é possível que um animal destes fale assim! É intolerável que um embaixador diga isto, que até envergonha todos os israelitas.Porém, ainda há espaço para vozes independentes e na sua última edição, o semanário Expresso publicou uma entrevista com Ehud Olmert, que foi primeiro-ministro de Israel entre 2006 e 2009 e que deve ser lida por quem ainda tem dúvidas sobre o que se passa em Gaza. Com o título “Basta. Já matámos o suficiente, já destruímos o suficiente”, o entrevistado diz:
“Trata-se de uma guerra ilegítima, conduzida por interesses políticos pessoais do primeiro-ministro. Como consequência, morrem soldados israelitas, mais reféns podem perder a vida e muitos palestinianos inocentes são mortos. Isto é um crime, é algo imperdoável”.
Perante isto, os europeus nada dizem sobre o que faz Netanyahu e, por cá, bem gostaríamos de ouvir o que Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro têm para dizer.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O “cara a cara” que não vai acontecer

Embora o assunto não seja para graças, porque morre muita gente e o património dos beligerantes está a sofrer grandes danos, a guerra da Ucrânia e os seus principais protagonistas têm servido para alimentar o anedotário das redes sociais e até está a chegar aos jornais que, em princípio, são menos sujeitos ao fenómeno da desinformação.
As diligências feitas por Donald Trump, tanto em Anchorage como em Washington, para encontrar uma solução para o conflito ucraniano, inspiraram o diário alemão Die Tageszeitung, que é conhecido como taz e que, face à ideia trumpiana para a realização de um encontro bilateral entre os vladimires de Moscovo e de Kiev, isto é, o Putin e o Zelensky, tratou de fazer uma interpretação gráfica desse desafio na primeira página da sua edição de hoje. Vai daí e com o apoio da IA, o jornal berlinense publicou a imagem de um combate de boxe entre os dois líderes em que, como escreve o jornal, estão cara a cara.
Não há muita gente que tenha passado pela experiência de lutar com todas as suas forças contra um qualquer inimigo e depois, em poucos dias, abraçá-lo fraternalmente como se nada tivesse acontecido. Isso dificilmente acontece. A passagem do estado de guerra para o estado de paz é lento e é feito passo a passo, pelo que muito do que se diz e escreve, corresponde a um estilo comunicacional que precisa de ser alimentado com notícias ou não-notícias, verdadeiras ou não.
Assim, não é provável que Putin e o Zelensky se encontrem cara a cara, sem que antes as suas equipas de negociadores e os mediadores, ou os seus diplomatas, tenham acordado os termos do acordo de paz. É exactamente isso que se espera que aconteça, sobretudo se não houver aquele tipo de beija-mão dos líderes europeus que estiveram em Washington, cuja vaidade só atrasa e dificulta o processo de paz. 

terça-feira, 19 de agosto de 2025

A paz na Ucrânia fica para mais tarde

Eu imaginei – ingenuamente – que a ida de tantos líderes europeus a Washington para se encontrarem com Donald Trump era um pretexto para ficarem na “fotografia da vitória”, ou “na fotografia da paz”. Que era o fim, ou quase o fim da guerra. Que os ucranianos iam finalmente encontrar sossego e viver em paz.
Eles fizeram uma longa viagem transatlântica e encontraram muita pompa e circunstância. A encenação era perfeita e tudo parecia caminhar numa boa direcção. Porém, eles foram encaminhados para uma sala lateral da Casa Branca e esperaram pelo anfitrião, como se estivessem a aguardar uma consulta médica, o que mostrou que a sua presença não era importante e que apenas eram figurantes nesta história em que pouco sorriram.
Os líderes europeus só foram a Washington para serem vistos e sofrerem mais uma humilhação, porque a sua vaidade é superior ao seu bom senso, embora seja difícil entender o que lá foram fazer Ursula von der Leyen, Giorgia Meloni, Mark Rutte e Alexander Stubb, o presidente da Finlândia, simples figurantes nesta comédia trumpiana.
Não se esperavam quaisquer negociações, porque já estão a ser feitas com outros actores, além de ser gente a mais para negociar o que quer que fosse. Porém, apesar de ter havido “little movement toward deal” como hoje titula The Washington Post, os ilustres visitantes tiveram direito a uma fotografia na capa do The New York Times, mas também noutros jornais.
E agora?
Todos parecem desejar o fim da guerra, mas também parece que, cada um à sua maneira, têm interesse nos negócios da guerra, sobretudo as compras e vendas de material militar.
Volodymyr Zelensky está apertado e talvez desconfie de tanta solidariedade europeia, até porque não são coincidentes os interesses (e as rivalidades) de Macron, Starmer e Merz. Aceita falar com Putin e aceita eleições, mas sabe que não pode contar com Donald Trump, mesmo que mude de fato e que se desdobre em elogios e agradecimentos.
Em Anchorage o encontro entre Trump e Putin deixou a bola nas mãos de Zelensky e, repetidamente, Trump afirma que acordo de paz depende agora de Zelensky.

sábado, 16 de agosto de 2025

Anchorage foi uma cimeira de esperança

O encontro de Anchorage correu muito bem, ao contrário do que disseram ontem os comentadores portugueses nas televisões ao afirmarem que “foi uma mão cheia de nada” e do que hoje escreve a generalidade da imprensa internacional, que destaca ideias como “no breakthrough” (The Wall Street Journal) e “no deal” (The Dallas Morning News). Porém, outros jornais foram mais substantivos ao escreverem “Trump says historic peace talks make progress” (New York Post), ou que “Trump acaba com o aislamiento internacional de Putin” (El País), embora o título mais animador venha de Londres e afirme “Peace in their hands“ (The Times).
É verdade. Não houve acordo, mas a paz está nas mãos daqueles duas controversas personagens, como hoje escreve The Times. O formalismo do encontro de Anchorage entre Trump e Putin foi um grande acontecimento porque nos trouxe algum desanuviamento em relação à crescente tensão que nas últimas semanas se vivia entre Washington e Moscovo, inclusive com veladas ameaças nucleares, além de ter sido um passo no sentido da paz na Ucrânia.
Ninguém sabe o que se passou naquele encontro embora muito se especule, mas certamente já estão a ser negociados todos os aspectos de um acordo de paz, parecendo que tudo caminha para a solução que Henry Kissinger sugeriu em 2014, num artigo publicado no jornal The Washington Post.
Ainda é cedo para fazer a história deste conflito, expurgada da propaganda e da desinformação, mas parece cada vez nais evidente que os líderes europeus deveriam ter sido os mediadores desta “guerra entre irmãos” mas que, por vaidade, inexperiência e ignorância, escolheram outro caminho e enganaram Zelensky e os ucranianos, prometendo, enquanto fosse preciso, o que podiam e o que não podiam.
Agora, o que é preciso é fazer avançar o “diálogo de Anchorage” e chegar rapidamente à paz!

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Todos à espera da cimeira de Anchorage

Faltam apenas dois dias para o encontro de Anchorage entre Donald Trump e Vladimir Putin e muito se tem especulado sobre essa reunião que, entre outros assuntos, vai procurar uma solução para o problema da Ucrânia, onde tem morrido muita gente. Seria muito bom que houvesse “fumo branco” e que o povo e as cidades ucranianas voltassem a viver em paz.
Muito se tem especulado, sobretudo através dos incontáveis comentadores que tomaram conta das televisões portuguesas, sobre o que pode acontecer nesse encontro, se Zelensky estará ou não presente no Alasca, se haverá ou não um cessar-fogo, se haverá cedências das partes e que tipo de cedências. Há demasiada especulação daqueles que precisam de alimentar espaços noticiosos e audiências, esquecendo-se que a diplomacia está a trabalhar e que a sua principal regra de conduta é a discrição.
A capa do jornal New York Post diz quase tudo. Os europeus estarão fora a reunião de Anchorage e a sua voz vale cada vez menos, porque tem dirigentes medíocres que, desde 2014, se demitiram da sua função de árbitros de um conflito com características de “guerra civil”, preferindo ressuscitar as tensões da “guerra fria” ao prometerem ajudar a Ucrânia enquanto fosse preciso. Agora estão amuados com a iniciativa do Donald e sabem que a continuar com a sua teimosia vão ter de gastar muito dinheiro.
Não sei se há optimistas quanto ao que vai acontecer em Anchorage. Porém, desde já, há um aspecto bem positivo no encontro porque, certamente, vai arrefecer a tensão nuclear entre a Casa Branca e o Kremlin. Da mesma forma, o frente a frente entre Trump e Putin, que parecem ser homens de negócios, também parece ser um passo no bom sentido para o regresso da paz ao território ucraniano, como quase todos desejam.
Volodymyr Zelensky deveria estar nesse encontro, mas a sua presença talvez perturbasse em vez de ajudar…

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Sorte grande para o Morante de la Puebla

A festa brava, ou a fiesta que Ernest Hemingway consagrou no seu famoso romance The Sun also rises, é uma tradição ibérica cada vez mais contestada, mas que continua bem viva em muitas regiões peninsulares, sobretudo espanholas. Os festejos populares que acontecem durante o Verão, a par da componente religiosa incluem uma diversificada componente lúdica, com muitas atracções de feira, competições desportivas, espectáculos e concertos, que enchem o centro das cidades com música e alegria, mas também contemplam as corridas de touros que, por vezes, acontecem em dias sucessivos.
Na cidade de Pontevedra, em honra da padroeira da província, são anualmente celebradas as Festas da Virxe Peregrina, que se iniciam no segundo sábado de Agosto. É a grande semana daquela cidade galega, situada a cerca de 55 quilómetros da fronteira portuguesa.
A Plaza de Toros de Pontevedra, que é a única praça da região da Galiza e que recebe toda a actividade tauromáquica do noroeste de Espanha, apresentou os cartéis com os melhores diestros para a Feria de La Peregrina 2025, com corridas nos dias 9, 10 e 15 de agosto. Na corrida de ontem, que era o segundo dia da Feria Taurina, actuaram os matadores Morante de la Puebla, Alejandro Talavante e Daniel Luque, para lidarem touros da ganadaria Garcigrande, mas o diestro Morante de la Puebla, um ídolo sevilhano de 45 anos de idade, foi colhido com uma grave cornada durante a faena do seu primeiro touro.
O caso foi destacado como notícia de primeira página em vários jornais espanhóis, como por exemplo no diário madrileno ABC, mas poucas horas depois foi anunciado que Morante de la Puebla teve alta. Uma boa notícia para o diestro e para a sua família ou, dito de outra maneira,  que sorte grande ele teve.

sábado, 9 de agosto de 2025

Romaria d’Agonia: havemos de ir a Viana!

As Festas d’Agonia que ontem começaram na cidade de Viana do Castelo, são um dos maiores acontecimentos culturais e religiosos de Portugal e, desde 1772, realizam-se todos os anos. Este ano, a Romaria dedicada a Nossa Senhora da Agonia vai estender-se até ao dia 20 de agosto e, como sempre, vai atrair milhares de visitantes fascinados pela diversidade dos eventos religiosos, em que se destaca principalmente a Procissão ao mar e ao rio, em que as embarcações vianenses decoradas a preceito, transportam a imagem da Senhora da Agonia pelo rio Lima. Porém, na parte cultural da Romaria destacam-se os tapetes florais criados pela imaginação dos moradores, os sons dos Zé Pereiras, dos bombos e das concertinas, das bandas filarmónicas e dos grupos folclóricos, as arruadas, os concertos e os cantadores ao desafio. 
Porém, um dos pontos mais altos da Romaria é o concorrido e espectacular Desfile da Mordomia, que ocorrerá no dia 14 de agosto, no qual mais de mil mulheres de Viana do Castelo desfilam com os ricos trajes tradicionais minhotos. Depois, no dia 16 de agosto, ocorrerá o habitual Cortejo Histórico-Etnográfico, com mais de 3.000 figurantes que mostram as melhores tradições da cidade.
Tudo acontece num ambiente ímpar de festa e diz-se que quem esteve na Romaria não a esquece e regressa. Como escreveu o poeta Pedro Homem de Melo e Amália cantou, "havemos de ir a Viana", embora o regresso nem sempre seja possível...
Todos os anos, a Romaria é publicitada por um cartaz oficial que tem um rosto e uma imagem oficial, escolhida através de um concurso. Este ano, a imagem central do cartaz é a jovem mordoma Bruna Oliveira Torre, de 17 anos, natural de Abelheira, a envergar o traje de domingar, feito em memória do primeiro traje da família, que foi confeccionado pela avó. 
A todos os meus amigos vianenses, em especial ao FSM, aqui fica o meu aplauso por esta singular manifestação de vitalidade e dinamismo cultural.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

A completa e criminosa destruição de Gaza

A edição de hoje do jornal The Guardian publica uma fotografia aérea do território de Gaza a toda a largura da sua primeira página e, como título, escolheu a frase: “Vista do ar, Gaza é como o rescaldo do apocalipse”. A utilização da palavra apocalipse diz tudo sobre a crueldade do extremismo israelita e a gravidade da situação que está transformada num verdadeiro crime contra a humanidade, cujo responsável é Benjamin Netanyahu, que bem pode ser baptizado como “o carniceiro de Telavive”. 
Hoje, também o The Wall Street Journal (WSJ) informava, com destaque de primeira página, que “muitos israelitas questionam a moralidade da continuada guerra na Faixa de Gaza”, acrescentando que “os protestos e as críticas a Netanyahu vêm aumentando em paralelo com a crise humanitária”.
Apesar da questão israelo-palestiniana dever ser analisada com cuidados redobrados devido à propaganda e à desinformação de ambas as partes, estas informações têm toda a credibilidade e mostram o extremismo de Netanyahu e a destruição completa que, sob as suas ordens, foi feita num território com o pretexto de libertar reféns e acabar com o movimento Hamas. Estão contabilizadas mais de 60.000 mortes, todos os dias morrem palestinianos sob os bombardeamentos israelitas ou com fome, enquanto o monstro a quem o TPI emitiu ordem de prisão por crimes contra a humanidade e crimes de guerra, continua na sua criminosa acção de vingança e extermínio, com o silêncio do mundo ocidental, ou mesmo com o seu apoio. Segundo o WSJ, diversas organizações de direitos humanos israelitas, bem como um antigo director da Mossad, acusam Netanyahu de genocídio, mas as lideranças europeias parecem não ver isso.
No meio desta vergonha que é o comportamento irresponsável, leviano e cobarde de muitos líderes europeus, pouco mais podemos fazer que mostrar solidariedade para com aqueles que estão a ser mortos diariamente pela fome e pelas bombas.