quinta-feira, 18 de abril de 2013

Made-in-the-USA: a reindustrialização



A revista Time dedica a sua última edição a um tema de grande interesse – a reindustrialização da América.
Nos últimos vinte anos a China tornou-se a “fábrica do mundo” e os países ocidentais começaram por valorizar essa situação por razões ambientalistas e de mercado, mas agora começaram a ver a outra face da moeda e a sentir os maus resultados desse modelo de desenvolvimento, que lhes acentua debilidades e dependências. Depois de décadas seguidas em que a América e os países mais desenvolvidos da Europa, se deslumbraram com a terciarização e procederam a uma enorme desindustrialização das suas economias, criando pobreza e desemprego crónicos onde antes havia prosperidade e desenvolvimento, começam a surgir sinais que apontam para a alteração deste quadro.
Nos Estados Unidos, segundo revela esta semana a revista Time, a produção industrial está a crescer a bom ritmo e, nos últimos três anos, foram criados 500 mil postos de trabalho, sendo a primeira vez que, em mais de uma década, aumentou o emprego industrial.
Porém, a nova indústria e as fábricas da actualidade já não têm as características do passado recente e a nova produção industrial made-in-America é agora baseada em tecnologias de ponta, com mais máquinas e com menos trabalhadores do que antes. As novas indústrias e os novos empregos estão a exigir novos conhecimentos, pelo que é indispensável a adaptação dos modelos educativos aos novos tempos. O exemplo dos Estados Unidos mostra que estamos no início de uma reconfiguração da economia global e que em Portugal há muito a fazer nestes domínios.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

A transparência dos ministros franceses



O governo francês acaba de tomar medidas para a transparência financeira dos responsáveis políticos, na sequência do caso Cahuzac, o ministro que mentiu ao declarar que não tinha contas bancárias no estrangeiro e que, dessa maneira, afectou a credibilidade do governo e dos governantes franceses. Esta medida foi, segundo o Libération – o jornal criado em 1968 por Jean-Paul Sartre - o fim do tabu, que até agora protegia a total opacidade do património dos governantes. 
A moralização da vida política passa, entre outras coisas, pela transparência, isto é, a atitude de mostrar as pessoas e as instituições como elas são, sem ocultar os traços da sua personalidade, o seu modo de vida ou o seu património. Por isso, um dos aspectos essenciais da credibilidade dos agentes políticos e dos governantes passa pela divulgação do seu património. É sabido como os agentes políticos investidos em funções têm poder para determinar aquisições, para fazer ajustes directos, para favorecer clientelas e para distorcer concursos, podendo daí retirar benefícios de ordem diversa, designadamente o recebimento de prendas ou de “luvas”, na linha de um comportamento ganancioso, corrupto e de servilismo ao dinheiro. A transparência total ou parcial é um princípio já prevalecente nos países europeus e a França era uma excepção. A partir de agora é possível conhecer detalhadamente o património dos 38 ministros franceses, as suas casas, os seus carros, barcos ou aviões, as suas acções e depósitos bancários. Por cá também é assim mas, aparentemente, a lei não é cumprida.

Futebolistas lusos em alta na Galiza


O diário desportivo Depor que se publica na Corunha, dedica hoje a sua primeira página, não a um, nem a dois, mas a cinco futebolistas portugueses que jogam no Real Club Deportivo de la Coruña, que disputa a Liga Espanhola de Futebol e, em bom português, escreve: “revolução”.
Segundo salienta o diário, os cinco jogadores portugueses que alinham no Depor - Bruno Gama, Pizzi, Sílvio, Salomão e Nélson Oliveira – têm sido os goleadores da equipa e são responsáveis pelo incrível momento da equipa azul e branca que venceu os últimos quatro jogos e, surpreendentemente, deixou o último lugar da tabela classificativa. Há um mês (27ª jornada) o Depor estava em 20º lugar com 17 pontos e, agora (31ª jornada), está em 16º lugar com 29 pontos. A imprensa desportiva tem-se rendido à eficácia dos jogadores portugueses e alguns dos seus títulos são elucidativos:
 

• Portugueses alimentam o sonho do Deportivo


• Legião portuguesa tira Depor da zona de perigo


• El Deportivo más portugués de la historia


• Real Club Deportivo, una casa portuguesa en Riazor

Embora o interesse dos portugueses esteja concentrado essencialmente em Mourinho, Ronaldo e nos outros portugueses do Real Madrid, o facto é que os futebolistas portugueses também estão a despertar euforias na Galiza.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Alemanha: dois pesos e duas medidas



Segundo revelou o jornal i na sua edição de ontem, o governo grego vai recorrer aos tribunais internacionais para exigir à Alemanha que pague o que ainda lhe deve, a título de reparações de guerra, pela ocupação do seu território pelas tropas nazis entre 1941 e 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, e que se estima tenha causado cerca de 300 mil mortes. O jornal informa que “69 anos depois da saída das tropas de Hitler do país”, a Grécia mostra-se disposta a ir até às últimas consequências para reaver a indemnização de guerra a que tem direito e que nunca foi paga na totalidade, acrescida de juros de mora. Essa indemnização, que a Alemanha ainda deve à Grécia, está calculada em mais de 162 mil milhões de euros.
O todo poderoso Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble, já avisou os gregos da inconveniência de trazerem esse assunto à discussão pública, mas o ministro dos Negócios Estrangeiros grego, também já avisou que os gregos não vão esquecer o passado e que serão, em última instância, os tribunais internacionais a decidir. Ora, o ministro Schauble – que parece ser o tutor do nosso gaspar - foi o tal que disse que as críticas à Alemanha se deviam à inveja, o que originou que o acusassem de acordar fantasmas.
Este caso é uma curiosidade pouco conhecida da História da Europa, mas mostra claramente a forma como a Alemanha tem procurado impor-se no espaço europeu, em clara violação do princípio da igualdade dos Estados-membros, da prosperidade partilhada e da solidariedade comunitária, usando dois pesos e duas medidas, isto é, não cumpre as suas obrigações para com alguns países e, sem qualquer contemplação, exige aos outros que cumpram rigorosamente as suas dívidas com juros especulativos.

A monarquia espanhola sob contestação



No ano passado, quando a Espanha já estava mergulhada numa crise económica de enorme dimensão, a sua opinião pública soube que o Rei Juan Carlos tinha viajado para o Botsuana para participar numa dispendiosa caçada aos elefantes, durante a qual partiu uma anca, pelo que veio mais tarde a pedir desculpa aos espanhóis. Porém, os problemas de saúde do Rei continuaram e isso fez cair a sua popularidade nos últimos meses, que se acentuou à medida que se iam conhecendo os pormenores do processo judicial que envolve o seu genro Iñaki Urdangarin e, mais recentemente, também a infanta Cristina, sua filha. Com todos estes casos e a divulgação de alguns escândalos na Família Real, verdadeiros ou falsos, a popularidade do Rei tem caído continuamente e, de acordo com uma sondagem publicada recentemente pelo El País, verifica-se que 53% dos inquiridos desaprovam a forma como o Rei exerce as suas funções. 
Neste contexto, as celebrações do 14 de Abril tiveram este ano uma participação mais significativa do que antes. Todos os anos, nesse dia, os republicanos celebram o início da Segunda República em 1931, que terminou oito anos mais tarde com a vitória do general Franco na guerra civil espanhola. No passado domingo, mais de oito mil manifestantes desfilaram no centro de Madrid agitando centenas de bandeiras republicanas, para comemorar os 82 anos da II República e para exigir o advento da terceira, num país em que o regime monárquico está cada dia mais manchado por escândalos e a perder popularidade. Daí a crescente contestação dos nostálgicos, como lhes chama o jornal madrileno La Gaceta.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Apesar do mau tempo no canal…


Sob o ponto de vista astronómico a Primavera chegou aos Açores há mais de três semanas, mas numa óptica puramente meteorológica parece que o Inverno se continua a estender pelo mês de Abril, pois há uma chuva intensa e persistente, quase quotidiana, assim como uma forte ventania com rajadas frequentes, pelo menos nas ilhas do Grupo Central. Nos canais do Faial e de S. Jorge, o mar corre dos quadrantes de oeste, mostra-se revolto e por vezes alteroso, com muita espuma e alguma rebentação na crista das ondas. O anticiclone continua emigrado para latitudes mais altas e, evidentemente, está a fazer muita falta, pois não se vêem embarcações na faina da pesca.
Porém, as lanchas do Pico desafiam todas as condições meteorológicas porque são tripuladas por marinheiros experientes e, apesar do “mau tempo no canal”, cumprem religiosamente os seus horários e fazem a travessia do canal com segurança. Assim, é sempre possível ir do Pico ao Faial ou da Madalena à Horta, regressando algumas horas depois, porque embora a navegação tenha algum desconforto, esse esforço é compensado pela alegria do reencontro com amigos de há muitos anos, daqueles com quem nos identificamos social e culturalmente e que, entre outras coisas, nos oferecem a partir da sua varanda, o mais deslumbrante panorama paisagístico que é possível apreciar nestas ilhas.
Muito obrigado! Que em breve tenham grandes alegrias, como merecem.

sábado, 13 de abril de 2013

As reflexões de Mário Soares



As coisas da governação não têm corrido bem àquela malta e, recentemente, foi dito que “o país está a ser destruído” e que, assim, iremos afundar-nos. Porém, o governo decidiu dramatizar e teatralizar a situação e tem pretendido passar a mensagem de que não há alternativa política ao actual rumo e tem procurado contrariar a realidade com a falsa ideia de que tudo tem corrido bem (até ao chumbo do Tribunal Constitucional). Assim, a entrevista de Mário Soares ao jornal i é mais um sinal de lucidez a denunciar “o tremendo desastre que está realmente em curso” e o que por ele foi dito, com a sua experiência e sabedoria, é realmente para ser levado em conta.
Perante a grave crise da União Europeia e do euro, Mário Soares considera que é necessário começar por “repor os mercados usurários a obedecer aos estados, e não o contrário”. Por isso, critica a subserviência do governo em relação à troika, que vem operando e ameaçando com arrogância e que tem sido aceite passivamente “como se fosse dona de Portugal”. Na realidade, a troika devia ser uma representante do projecto europeu de solidariedade e de progresso partilhado, mas comporta-se como um verdadeiro bando de abutres que, através de condições muito severas e de juros especulativos, vem atentando contra a dignidade nacional de um estado-nação que é o mais velho da Europa. O que, provavelmente, nem a troika nem os seus luso-interlocutores, sabem.
Mas a crítica de Mário Soares também se dirige ao homem do leme que “se permite passar uma semana na Colômbia e no Peru” e que não tem consciência da gravidade da crise que se vive no país. E, recorrendo à História, recorda o que se passou há 105 anos, em que “por muito menos que isto foi morto o rei D. Carlos”. São apenas algumas das reflexões de Mário Soares.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Uma navegação sem rumo e sem destino



A situação que atravessamos é cada vez mais complexa e a recente decisão do Tribunal Constitucional apenas veio confirmar que o governo já não consegue disfarçar a sua incapacidade para mudar de políticas. O governo diz tudo e o seu contrário. Que não tinha Plano B e afinal…Que não tinha necessidade de mais tempo nem de mais dinheiro e afinal… As previsões são grosseiramente erradas e o professor Marcelo já veio dizer que o ministro Gaspar parece um astrólogo e perdeu credibilidade. O discurso dos partidos da coligação é completamente diferente do discurso que fizeram durante a campanha eleitoral. Não se prepararam. Não estudaram. Não sabem o que se está a passar na economia e na sociedade, nem na eminente ruptura social que nos ameaça. As oposições reclamam o fim desta caminhada sem rumo e desta teimosa escolha de austeridade, sem que seja feita qualquer coisa pelo crescimento e pelo emprego. Mas não são apenas as oposições a protestar. 
Hoje, o Jornal de Notícias destaca em primeira página que “Barões laranja levantam a voz contra o Governo” e lá estão plasmadas as declarações de Manuela Ferreira Leite, António Capucho e Rui Rio. E o que dizem? Que a insistência na austeridade não vai levar a lado nenhum, que há um despacho a proibir novas despesas que “não tem ponta por onde se lhe pegue” e “é sintoma de um governo que já está sem norte e faz disparates desta natureza”, ou que se trata de um governo que “é incapaz e incompetente”. Depois, há Pacheco Pereira que pede a demissão do governo e salienta o seu “espírito de vingança em relação a todos os que lhe criam obstáculos”; e Ângelo Correia que se mostra indignado com a receita de austeridade imposta pelo governo”; e Alberto João Jardim a dizer que “não basta a demissão do ministro das Finanças, mas que tem que ser um novo governo”. E são muitos mais. Contudo, o nosso primeiro é surdo e teimoso. Acusado de ter à sua volta gente inexperiente e incompetente, decidiu recorrer a um maduro. Já tinha um branco, agora tem um maduro. Infelizmente não deve ser com estes maduros que podemos alimentar a esperança em dias melhores.



quarta-feira, 10 de abril de 2013

Lisboa abandonada



Com este título, a última edição da revista Visão inclui uma reportagem que informa que a cidade de Lisboa tem quase cinco mil edifícios devolutos, todos em mau estado de conservação ou a desmoronar-se.
As causas desta situação, que se tem agravado nos últimos anos, são diversas e complexas. São apontadas o êxodo que nos últimos anos tem afastado as pessoas do centro para as periferias, os problemas de heranças em que os herdeiros não se entendem quanto ao destino do imóvel, a exigente burocracia camarária em relação aos projectos de construção ou reconstrução, a rigidez das rendas que ainda não estimula os senhorios a fazer obras e a especulação imobiliária que prefere as construções novas e mais rentáveis do que a reabilitação de prédios antigos. Todas estas causas podem sintetizar-se em especulação imobiliária e crise económica.
Dizem os especialistas que a lei devia facilitar a reconstrução e dificultar a construção, como acontece na França e na Suíça, mas também que, se os proprietários não dão uso à propriedade, o Estado deve intervir e expropriá-la, para a negociar depois a preço justo. A situação ainda é mais complexa porque com a actual crise faltam recursos para tantas obras e, para além disso, actualmente não há gente para encher tanta casa vazia. Porém, é preciso salvar a cidade abandonada e encontrar soluções com urgência, até porque a defesa do património e a reabilitação urbana podem ser boas saídas para a crise económica que atravessamos. Foi isso que John Maynard Keynes nos ensinou!


terça-feira, 9 de abril de 2013

R.I.P. Margaret Thatcher


A morte de Margaret Thatcher aos 87 anos de idade não deixa ninguém indiferente, como de resto se observa na imprensa mundial que hoje destaca o desaparecimento da antiga Primeira-Ministra d0 Reino Unido, enquanto toda a imprensa britânica é unânime na homenagem que lhe presta. Entrou na vida política em 1950, mas só em 1959 conseguiu ser eleita deputada pelo Partido Conservador. A partir de 1961 ganhou notoriedade quando passou a ocupar postos governamentais, primeiro como Secretária de Estado do Ministério de Pensões e Segurança Social no governo de Harold MacMillan e, em 1970, como Ministra da Educação e Ciência no governo de Edward Heath. Em 1975 foi eleita líder do Partido Conservador pelo que também se tornou líder da oposição, sendo a primeira mulher a liderar um dos grandes partidos britânicos.
No início de 1979 o governo trabalhista de James Callaghan foi afastado por uma moção de censura e, depois de eleições gerais, Margaret Thatcher tornou-se na primeira mulher a desempenhar as funções de primeira-ministra do Reino Unido e a ocupar o número 10 de Downing Street, o que sucedeu entre 1979 e 1990. A sua acção contra o declínio nacional e pela afirmação da autonomia britânica foi persistente, resistindo à criação da União Europeia e criticando a União Soviética, o que levou os russos a chamarem-lhe Dama de Ferro. Porém, foi a sua pronta reacção à invasão argentina das Falklands e a vitória britânica que, em 1982, lhe trouxeram apoios internos e reconhecimento internacional. Polémica e teimosa até ao limite do razoável, mas com uma carreira política marcada pela competência e pela coragem, Margaret Thatcher foi uma grande dirigente europeia.

domingo, 7 de abril de 2013

Como eles gostam de viajar à nossa custa



Entre os dias 15 e 19 de Abril e a convite dos seus homólogos, o primeiro magistrado da nação efectuará visitas oficiais à Colômbia e ao Peru que, por acaso, são os dois maiores produtores mundiais de cocaína. É a sua primeira viagem oficial em 2013 e, sabendo-se que os seus antecessores fizeram muitas mais viagens, ficamos na dúvida se é bom ou mau fazer tão poucas viagens. Para esclarecer essa dúvida, era muito desejável que os contribuintes soubessem quanto custou cada viagem oficial, quem integrou a comitiva e que resultados foram obtidos por cada um dos seus membros, isto é, que houvesse uma avaliação custo/benefício de cada viagem presidencial ou ministerial. Se isso não for feito, então todos podemos pensar que essas viagens não passam de requintadas passeatas que os jornalistas-acompanhantes relatam como se fossem coisa importante para o país. 
Nesta viagem, a comitiva presidencial incluirá vários membros do governo, alguns deputados em representação dos grupos parlamentares da Assembleia da República, uma delegação empresarial com representações dos sectores da banca, eléctricas, tecnológicas, distribuição e construção, entre outros e, naturalmente, muitos jornalistas. Não sei qual o interesse do Chefe do Estado em ser acompanhado por tão alargada e dispendiosa comitiva. Muita gente, demasiada gente. Tudo à grande, tudo à nossa conta e tudo a aprofundar o défice e a dívida. Haverá encontros e recepções, troca de comendas, visitas às câmaras municipais de Bogotá e Lima, algumas inaugurações, a presença em seminários económicos a realizar nas duas capitais e os habituais encontros com a comunidade portuguesa desses países que, em ambos os casos e fora os “correios de droga” que cumprem pena de prisão, não chegarão às duas centenas, isto é, a comitiva presidencial será provavelmente maior do que a comunidade que vai ser visitada. Como eles gostam de viajar à nossa custa!

sábado, 6 de abril de 2013

Relvas ou o ministro faz-de-conta

Nas actuais circunstâncias que se vivem na nossa terra, o desafio de governar e ser governante é muito exigente. É para gente experiente, sabedora e com vocação para servir. Não é tempo de facilidades. Por isso, foi com muita surpresa que a opinião pública tomou conhecimento da facilidade com que o ministro Relvas tinha adquirido um diploma de licenciatura, enquanto o comum dos mortais gastou muitos anos das suas vidas para atingir igual objectivo. Foi um caso de batota e de esperteza. Não era preciso esse diploma para ser ministro, nem uma licenciatura é garantia de melhor prestação como governante. Mas o rapaz era atrevido, viu que era fácil ser doutor, que isso lhe dava estatuto político e social e… pronto! Encomendou. Foi uma espécie de take away.
Ao fim de alguns meses de humilhações e de uma entrada directa no anedotário nacional, que as redes sociais difundiram e até internacionalizaram, o ministro Relvas demitiu-se. Devia ter sido demitido há muito tempo, mas o amigo não teve coragem. O seu controverso percurso ministerial foi um rosário de fintas, truques e trafulhices, misturadas com muita arrogância e algumas pouca vergonhas. Recordo o insulto que foi para todos nós o seu réveillon no Copacabana Palace, a emboscada em que caiu no ISCTE e o pavor com que reagiu à grandolada e, finalmente, o deslumbrado e desastrado balanço de despedida, em que se auto-elogiou, se vangloriou por ter feito um primeiro-ministro e se imaginou com um lugar na História. Poor boy! Saiu pela porta das traseiras, sem coragem e sem dignidade, a mostrar que aqueles que o contestavam tinham toda a razão.  

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Angola: onze anos de paz e de progresso

Angola comemorou 11 anos de paz e de progresso e o Jornal de Angola evocou o “dia que mudou o curso da História”, ao relembrar que o país atravessou quatro décadas da sua história em guerra – de 1961 a 1974 contra o poder colonial português e a partir de 1975 numa guerra civil. No dia 4 de Abril de 2002 foi assinado o acordo que pôs fim à guerra entre o governo do MPLA-Popular de Libertação de Angola e a UNITA-Nacional para a Independência Total de Angola, as duas formações políticas de maior influência no país. Os dois partidos calaram as armas e puseram um ponto final a 27 anos de guerra civil.
O impacto da paz repercutiu-se de imediato na economia angolana que, entre 2004 e 2008, registou um crescimento médio de 17% ao ano, suportado pelos aumentos da produção e do preço do petróleo. Porém, com a crise internacional e a acentuada descida das receitas petrolíferas as taxas de crescimento reduziram-se para valores entre 2,4% e 3,4% entre 2009 e 2011. Essa realidade revela que o boom económico angolano deve ser visto com prudência, porque assenta largamente no petróleo que constitui a quase totalidade das exportações do país, mas também porque ainda há muitos angolanos a viver numa situação de pobreza e existe uma desproporcionada concentração de actividades em torno da cidade de Luanda. Para além disso, existem elevados níveis de corrupção, claramente revelados pelos Corruption Perceptions Index 2012 da Transparência Internacional que colocam Angola em 157º lugar entre 174 países.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A importância da criação de emprego

Segundo uma informação veiculada pela imprensa brasileira, o governo federal criou o seu 39º ministério – a Secretaria da Micro e Pequena Empresa - exclusivamente vocacionado para a prossecução de políticas de apoio a micro e pequenas empresas. Essa decisão revela a atenção que é prestada às PME pela sua importância na economia brasileira.
As PME também são muito importantes na economia portuguesa. Segundo os dados fornecidos pelo INE relativos ao ano de 2008, existiam 349 756 PME (classificadas de acordo com a definição europeia) que empregavam 2 178 493 pessoas (72,5% do emprego nacional) e realizavam um volume de negócios de 201,7 mil milhões de euros (57,9% do volume de negócios nacional). Apesar da sua importância, a dimensão da economia portuguesa não justifica que seja criado um ministério específico para as apoiar, como é óbvio.
Porém, nas actuais circunstâncias de recessão e desemprego, o Poder Local e em especial as Câmaras Municipais, têm uma potencialidade única para criar uma estrutura – uma espécie de balcão único municipal – vocacionado para a promoção do desenvolvimento económico local e para apoio à comunidade empresarial, para a ligação às agências do poder central e para a atracção do investimento, a oferta de incentivos apropriados, a desburocratização administrativa, o empreendedorismo e a criação de empresas, a motivação da iniciativa e, sobretudo, a criação de emprego. A Câmara Municipal que tem pelouros para as áreas do Ambiente, Segurança, Urbanismo, Desporto, Habitação, Cultura, Espaços Verdes, Higiene Urbana, etc., etc., deverá ter um papel económico mais activo e ter um pelouro para as actividades económicas e para o emprego, dirigido por um vereador especialmente qualificado para esse efeito.  Isso já acontece em alguns Municípios, mas esse conceito deverá estender-se rapidamente a todo o país. É uma obrigação do Poder Local e é uma necessidade que não pode ficar apenas dependente do "Terreiro do Paço" e de gente que não conhece a realidade local.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Uma preocupante faceta da nossa crise

As dificuldades por que vamos passando e a severa austeridade que nos tem sido imposta, não têm produzido os resultados que todos ambicionávamos. Os indicadores disponíveis sobre as variáveis macroeconómicas e sociais são um retrato da famosa espiral recessiva em que estamos atolados, mas há muitos outros indicadores secundários que retratam a crise. São sinais da nossa espiral depressiva ou de algum desespero que está a tomar conta do nosso quotidiano ou, talvez até, de um certo vale tudo.
A edição de hoje do Jornal de Notícias divulga uma informação de índole estatística que é verdadeiramente alarmante: há 750 condutores por dia a abastecer as suas viaturas de combustível e a fugir sem pagar. Esta estimativa foi divulgada pela Associação Nacional dos Revendedores de Combustíveis (ANAREC) que afirmou que, diariamente, cerca de 30% dos cerca de 2500 postos de combustível instalados em Portugal são vítimas de um caso de abastecimento e fuga que, no final do ano, correspondem a um prejuízo global de quase 7 milhões de euros. Porém, a ANAREC adianta, ainda, que estes números correspondem a estimativas por defeito, pois muitos dos revendedores lesados por esta onda já desistiram de se queixar.
Estes números poderão ser exagerados e corresponder a uma forma de pressão da ANAREC para que este problema seja estudado pelas autoridades, mas reflectem de facto a grave dimensão da crise económica e social que está a afectar a sociedade portuguesa.