quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Emigrantes para fugir à pobreza

Foram hoje levantadas as restrições que vigoravam em nove países comunitários e que impediam que romenos e búlgaros pudessem livremente circular e trabalhar na União Europeia, de que são membros desde 2007. O fim destas restrições está a causar alguma preocupação no Reino Unido e na Alemanha, para onde se espera larga movimentação de emigrantes provenientes daqueles dois países que, conjuntamente, têm cerca de 29 milhões de habitantes. No Reino Unido há quem fale em “invasão” e, de facto, o problema é muito complexo, como revela hoje o The Daily Telegraph, num artigo intitulado “Passport to UK for Europe’s poorest”.
A Roménia e a Bulgária estão situados no sudeste da Europa, onde as fronteiras nacionais mudaram várias vezes ao longo dos séculos. Desse processo histórico resultaram laços muito íntimos entre os países daquela região e, sobretudo, um conceito de nacionalidade muito abrangente. Assim, como cidadãos comunitários, os romenos e os búlgaros têm o direito a circular na Europa e a ter emprego no Reino Unido, ou noutro qualquer país da União Europeia. Porém, os moldavos (porque são quase romenos) e os macedónios (porque são quase búlgaros) também sentem esse direito, enquanto pelas mesmas razões históricas, também há muitos sérvios, ucranianos e turcos que entendem ser elegíveis para possuir passaportes que lhes permitam trabalhar em qualquer parte da União Europeia. Como noticia o jornal inglês, a estação ferroviária internacional de Sofia já tem mais movimento de gente que foge à pobreza e que tudo arrisca, mas aos pedidos de passaporte dos romenos e dos búlgaros, vão juntar-se os pedidos dos cidadãos dos países vizinhos que têm ou reivindicam ter nacionalidade romena ou búlgara. Mais um problema para a Europa ou não?

Um novo ano

Chegou o novo ano de 2014 e, um pouco por toda a parte, houve festa para animar as populações e atrair turistas, com gente muito eufórica e muita música, muita cor e muito fogo-de-artifício. A exuberância com que algumas cidades festejam a passagem do ano é um seu ex-libris e assim acontece com a cidade australiana de Sydney, onde a festa costuma ser uma das mais imponentes e que é sempre muito destacada pelas cadeias de televisão internacionais, até porque é uma das primeiras a entrar no novo ano. Por isso, todos os jornais australianos a noticiam com grandes fotografias, como hoje fez o The Daily Telegraph de Sydney.
A festa, porém, também foi imponente em Kuala Lumpur, em Moscovo, Londres, Rio de Janeiro e outras cidades como o Funchal, incluindo o  Dubai, que este ano decidiu entrar no Guiness World Records com o maior festival pirotécnico alguma vez apresentado na passagem do ano.
Um novo ano convoca-nos para exprimirmos alguns desejos e, assim, de uma forma sintética e deixando de lado objectivos pessoais, destaco nove desejos:
  1. Uma governação mais competente e mais séria do nosso país
  2. Uma economia que crie mais emprego e mais riqueza
  3. Uma Justiça eficaz para punir os corruptos, os ladrões e os especuladores
  4. Uma luta eficaz contra a pobreza e a desigualdade
  5. Uma Europa mais solidária, mais pacífica e mais próspera
  6. Uma Europa que preserve e reforce o seu modelo social
  7. O fim da guerra na Síria e de todas as outras guerras
  8. A defesa da língua e da cultura portuguesa no mundo
  9. Um brilharete português no Mundial de Futebol

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Portas e os saldos de vistos dourados

Em tempo de promoções e saldos, o governo decidiu fazer saldo de passaportes e autorizações de residência. Foi há um ano que foi criado um regime regime especial de autorização de residência para "actividade de investimento" em território nacional que  permite que cidadãos de países terceiros, que não pertençam à União Europeia ou não integrem o Acordo de Schengen, garantam uma autorização de residência em Portugal. Para a atribuição dessa autorização - o visto gold - é necessário que a “actividade de investimento” seja desenvolvida por um período mínimo de cinco anos, prevendo-se várias opções, em que se incluem a transferência de capital num montante igual ou superior a um milhão de euros, a criação de pelo menos dez postos de trabalho ou a compra de imóveis num valor mínimo de 500 mil euros.
O introdutor em Portugal desta galinha dos ovos de ouro foi o irrevogável ministro Portas. Desde então, a um ritmo muito regular, a sua máquina de propaganda tem feito o elogio do genial ministro e anunciado o sucesso da ideia: entraram 20 milhões de euros e foram concedidos 30 vistos (Junho), 90 milhões e 145 vistos (Setembro) e 306,7 milhões e 471 vistos (Dezembro). Esses “investidores”, que tanto podem ajudar a resolver a nossa crise, vêm da China, Rússia, Angola, Brasil, Líbano, Paquistão, África do Sul, Índia, Colômbia, Tunísia, São Cristóvão e Nevis, Estados Unidos, Ucrânia, Turquia e Guiné-Bissau, segundo tem sido anunciado. Até parece uma nova corrente de fundos comunitários...
Tudo isto reflecte a decadência a que chegamos e o sentido de dignidade nacional a que esta gente nos sujeita. Nesta terra começa a valer tudo e até se vendem passaportes e vistos de residência a troco de um maço de notas. Havia paraísos fiscais, agora há paraísos domiciliários. Seremos um branqueador das muitas traficâncias que se fazem pelo mundo. A lei deixa de ser igual para todos e passa a depender do estatuto económico de cada um. É preciso dizer não à nova idolatria do dinheiro, como nos ensina o Papa Francisco. Seria interessante saber que “actividades de investimento” e quantos empregos já foram ou vão ser criados. Que eu saiba, nenhum partido político ergueu a sua voz contra esta humilhante habilidade e muito poucos jornalistas e comentadores a denunciaram.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A navegar à vela de Sydney para Hobart

Iniciou-se ontem a famosa regata anual Rolex Sydney to Hobart Yacht Race 2013, conhecida na Austrália como a Bluewater Classic, que faz a ligação entre o porto de Sydney na costa oriental da Austrália e o porto de Hobart na ilha da Tasmânia, numa extensão de cerca de 630 milhas (1170 Km). A regata disputa-se desde 1945 e tem a sua largada no Boxing Day, isto é, o dia a seguir ao Natal, atraindo velejadores e embarcações de todo o mundo. É considerada como uma das mais difíceis regatas do mundo, tendo-se tornado num ícone do desporto de verão australiano.
Desde meados dos anos 70 que o número de embarcações participantes tem quase sempre ultrapassado a centena e em 1994 registou-se a participação record de 371 embarcações. O record da regata foi estabelecido em 2012 pelo iate australiano Wild Oats XI que gastou 1 dia, 18 horas, 23 minutos e 12 segundos para ligar Sydney a Hobart e que, este ano, é o favorito.
A edição de hoje do jornal The Sydney Morning Herald destacou na sua primeira página uma fotografia da espectacular largada da regata, que constitui um exemplo de bom fotojornalismo e parece justificar a famosa ideia de que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

O património cultural de Angola

O Jornal de Angola anuncia hoje que o governo angolano apresentará à UNESCO no próximo mês de Janeiro a candidatura do centro histórico da cidade de M’banza Congo, a antiga cidade de São Salvador do Congo e capital da província do Zaire, para integrar a sua lista do Património Mundial da Humanidade. Esta candidatura foi lançada pela primeira vez em 1996, quando Angola apresentou uma lista de locais candidatos para futuramente integrarem a lista da UNESCO, mas o processo tem avançado muito lentamente. Porém, no passado mês de Junho a cidade de M’banza Congo foi classificada com a categoria de Centro Histórico Nacional, um dos pressupostos indispensáveis para que Angola possa formalizar a candidatura da capital do antigo reino do Congo.
A cidade de M’banza Congo foi fundada antes da chegada dos portugueses e era a capital de uma dinastia que governava desde os finais do século XV. Por influência de missionários portugueses, o local tomou o nome de São Salvador do Congo, tendo sido construída uma igreja católica que é provavelmente a mais antiga da África Sub-Saariana e que em 1596 foi elevada ao estatuto de catedral. A cidade tinha muitas edificações de pedra, incluindo o palácio e muitas igrejas e em 1630 teria cem mil habitantes, mas veio a ser abandonada durante as guerras civis que eclodiram no século XVII.
O projecto “M’banza Congo - cidade a desenterrar para preservar" está em curso e pretende estudar aquela que é uma das mais antigas civilizações abaixo do Equador, com vestígios da sua história e da sua evolução soterrados na cidade e ainda por descobrir. Refere-se que Angola, através do Instituto Nacional do Património Cultural, apresentou no passado mês de Junho três pré-candidaturas para virem a ser classificadas como Património Mundial da Humanidade - o Centro Histórico e Arqueológico de M’banza Congo, na província do Zaire, a Paisagem Cultural de Tchitundu-Hulu, na província do Namibe e o Corredor do Kwanza (Luanda/ Kwanza-Norte).

Ilusões de Natal

O nosso primeiro Passos cumpriu o seu dever formal de se dirigir à nação no Natal. Cansado das minhas festividades natalícias, fiz um enorme esforço para não adormecer com aquela lenga-lenga auto-elogiosa que foi lida sem alma e com um optimismo que até parecia que estávamos noutro país. Parecia um discurso de campanha eleitoral, feito por um vendedor de ilusões. Esqueceu a injusta e imoral austeridade que nos impôs e que tem feito empobrecer a classe média e aumentado a fortuna dos mais ricos. Esqueceu a profunda desarticulação que impôs à nossa sociedade, que põe em risco a nossa coesão social. O homem que se deslumbrou com o poder, que quis cair nos braços da troika e que sempre disse que governaria com o FMI, mantém a sua estratégia de obedecer a tudo o que lá de fora lhe mandam fazer, embora agora queira fazer passar a ideia de que quer expulsar a troika e recuperar a soberania nacional porque, com a sua acção, o país foi salvo do colapso.
Disse ele que “a nossa economia começou a dar a volta”, que “começamos a vergar a dívida externa e pública”, que “a economia começou a crescer e acima do ritmo da Europa” e que “em termos líquidos, até ao terceiro trimestre foram criados 120 mil novos postos de trabalho”. É preciso ter muita imaginação e pouco pudor para se dizer isto numa mensagem de Natal, que deveria ser de verdade e de esperança. É uma mera convicção sem fundamento.
A mensagem do nosso primeiro quis mostrar erudição e foi buscar inspiração a algumas frases feitas, que ele certamente aprecia. Disse ele, inspirando-se em George W. Bush, que “na recuperação do nosso país, ninguém pode ficar para trás”. Depois, a finalizar a sua mensagem fez um mix entre Napoleão Bonaparte e Barack Obama, dizendo: “Como um povo orgulhoso, dono do seu próprio destino, que não receia o futuro e que sabe que, do alto de quase 900 anos de história, os seus melhores anos ainda estão para vir”.
Foi, concerteza, uma mensagem a pensar nas eleições que hão-de vir. Merecíamos melhor.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Presentes de Natal

Hoje é dia de Natal e, dada tradição e a solenidade do dia, não se publicaram jornais na generalidade dos países onde predomina a religião cristã, embora os poucos títulos publicados não deixassem de assinalar o festivo dia com notícia de primeira página e adequada ilustração.
O Natal celebra-se um pouco por todo o mundo desde tempos muito antigos e a sua celebração foi-se renovando e adaptando ao longo do tempo, embora mantenha aspectos simbólicos que são comuns a todas as regiões – os presépios, as árvores de Natal, a ceia de Natal, as músicas de Natal e o cerimonial da troca de presentes, uma tradição que se julga estar inspirada na oferta de presentes feita a Jesus Cristo pelos Reis Magos que é relatada na Bíblia. Mais recentemente nasceu a figura do Pai Natal, uma figura lendária nascida na Lapónia e que vestida de vermelho, percorre o mundo na véspera de Natal num trenó puxado por renas para entregar presentes às crianças do mundo inteiro.
Inspirado na troca de presentes, a edição de hoje do Correio Braziliense é, cheia de originalidade, pois destaca “o presente de Natal que os eleitores do DF querem dos políticos”. A síntese das 14 respostas seleccionadas na primeira página é a seguinte:
Espero que parem de roubar. Gostaria que honrassem a palavra. Que tenham mais transparência. Que dêem mais atenção à saúde. Que tenham moral e eficiência. Peço mais consciência e honestidade. Tenham vergonha na cara. Menos corrupção e roubalheira. Mais investimento na saúde, transportes e educação. Ouçam mais o que a população pede. Prestem atenção à segurança pública. Roubem menos e façam mais. Quero o fim da impunidade e do voto secreto. Espero que dêem prioridade à educação.
Seria bem interessante que também se perguntasse aos eleitores portugueses que presente de Natal querem dos políticos. As respostas seriam muito diferentes das que foram dadas em Brasília?

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Há demasiados abutres a voar por aí

O jornal i revela hoje que as empresas públicas comunicaram o pagamento de prémios de quase 38 milhões de euros em 2012, num ano em que os bónus estiveram suspensos para gestores públicos, dirigentes de institutos e reguladores, mas este valor está calculado por defeito porque apenas 55% das empresas responderam ao questionário realizado pela Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP). Relativamente a suplementos, o montante pago ainda é mais impressionante pois atingiu 367 milhões de euros, segundo revela a Direcção-Geral do Tesouro e Finanças (DGTF). Estes valores carecem, naturalmente, de uma análise pormenorizada que aqui não farei, mas revelam que a obcessão do governo na questão da convergência das pensões e na poupança de cerca de 380 milhões de euros (cerca de 0,2% do PIB) é absolutamente ridícula e é um roubo descarado. Um caso de vingança e de insensibilidade contra os mais fracos e mais envelhecidos. O governo e os seus ministros deviam ter vergonha pelo mal que fazem ao país, mas também pelo apoio que dão aos mais fortes e pela perseguição que fazem aos mais fracos. A mentira tornou-se a regra desta gente e parece haver dinheiro para alimentar todas as suas vaidades com assessorias, automóveis e viagens. Se não se trata de pilhagem organizada, parece!
Entretanto, os jornais também anunciaram que, de acordo com a Direcção-Geral do Orçamento (DGO), desde 2012 e até ao  momento, a troika trazida para o nosso país pela dupla Passos-Portas com o apoio de Belém, já recebeu quase três mil milhões de euros em juros e comissões. Os nossos sacrifícios dão para tudo e até para alimentar os bolsos das comitivas de avaliadores da troika que nos visitam e que à nossa custa “se instalam com vista para o Parque”. É esta a solidariedade da troika – FMI, Comissão Europeia de Barroso e BCE de Constâncio e é esta a submissão a que os nossos governantes não reagem!

sábado, 21 de dezembro de 2013

Macau preserva a memória portuguesa

Foi no dia 20 de Dezembro de 1999 que, por acordo entre Portugal e a República Popular da China, o território de Macau voltou a estar sob soberania chinesa, depois de cerca de quatro séculos e meio de administração portuguesa.
Macau foi o primeiro entreposto europeu na China e foi, também, o último território europeu nas costas chinesas, pelo que a sua história não cabe num pequeno texto. Agora, decorridos 14 anos sobre a transferência de soberania, o território de Macau parece apostar no seu passado lusófono para se projectar internacionalmente em diferentes dimensões, promovendo diversas iniciativas. Os jornais macaenses evocaram aquela data e procuraram analisar as transformações por que passou o território, agora designado por Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China. O jornal hojemacau destaca o “Desfile por Macau, Cidade Latina”, que foi transmitido em directo pela televisão e celebrou os 14 anos da transferência de poderes de Portugal para a China, no qual centenas de figurantes desfilaram pelas ruas do centro histórico de Macau durante três horas, desde as ruínas de São Paulo até à praça do Tap Seac, um local amplo com calçada à portuguesa e edifícios históricos. Milhares de turistas e de residentes assistiram a este desfile que, também, serviu para manter viva a herança cultural portuguesa na cidade.
Macau tem servido cada vez mais de ponte entre a China e os países de língua portuguesa, mas também de elo de ligação com os países latinos, pelo que no desfile participaram  grupos locais e do exterior, principalmente de países de língua portuguesa como Portugal e Brasil, mas também de países latinos como a Colômbia, Peru, Argentina, Cuba ou Bolívia.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Foi apenas um aviso: ainda não vale tudo

O Tribunal Constitucional (TC) chumbou, por voto unânime dos seus 13 juízes, a lei da convergência das pensões, alegando que "viola o princípio da confiança consagrado na Constituição". Obviamente que, se o governo fosse uma equipa de futebol, depois desta goleada o seu treinador era imediatamente despedido. Porém, não se trata de futebol, mas de um outro tipo de jogo em que o treinador derrotado atira a responsabilidade para terceiros e mantém toda a sua equipa técnica.
Já nas últimas semanas, se assistira a intoleráveis pressões internas e externas sobre o TC, feitas por muita gente, em que se incluiram o primeiro-ministro português e os seus apoiantes, o presidente da Comissão Europeia, o presidente do BCE e os membros da troika. Parecia que o futuro do mundo dependia da decisão do TC, até que ontem foi lido o seu acordão. Independentemente das suas consequências políticas, o acórdão veio mostrar que a nossa Lei Fundamental, elaborada pelos legítimos representantes do povo português, resiste aos ditames de quem a quer ignorar e que a soberania nacional ainda tem quem a respeite e não tolera pressões. Além disso, o acórdão também evidencia que na acção do governo não vale tudo, sobretudo quando essa acção é contrária aos princípios universais das democracias e dos Estados de direito.  Estavam em causa cerca de 370 milhões de euros que apenas representam cerca de 0,2% do PIB, o que mostra como foi absurda e incompreensível a reacção desesperada de alguns lacaios do poder, como se tivesse acontecido uma tragédia nacional. Numa linguagem grosseira e mentirosa condenaram o TC e a oposição, ignorando o que há dias disse, numa entrevista publicada pelo Finantial Times, um dos membros da troika quando afirmou que "as distorções na economia se acumularam ao longo de décadas e que o ajustamento da economia portuguesa vai demorar mais dez a quinze anos". Quem não percebe isso não percebe nada, mas é essa gente que infelizmente nos governa. Entretanto, à custa deste acórdão, a economia e o emprego agradecem.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Papa Francisco - Person of the Year 2013

No ano de 1927 a revista Time teve a iniciativa editorial de escolher “O Homem do Ano” e de lhe dedicar uma edição especial, tendo então escolhido o aviador Charles Lindbergh, que realizara o primeiro voo transatlântico solitário e sem escalas. A revista continuou com a sua iniciativa anual e, nos anos seguintes, entre outras personalidades, foram escolhidos Mahatma Gandhi, Adolf Hitler, Josef Stalin, Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Dwight Eisenhower, entre outros. Em 1999, a revista modernizou a sua iniciativa e em vez de “O Homem do Ano”, passou a escolher a pessoa do ano - Person of the Year - que mantém o espírito anterior e continua a destacar o perfil de um homem, mulher, casal, grupo, ideia, lugar ou máquina que "para o bem ou para o mal, mais influenciou o mundo durante o ano". Este ano a revista Time escolheu o Papa Francisco como a personalidade do ano, depois de em anos anteriores já ter escolhido outros chefes da Igreja Católica, respectivamente João XXIII (1962) e João Paulo II (1994). O Papa Francisco nasceu em Buenos Aires como Jorge Mário Bergoglio e é o primeiro papa nascido no continente americano, tendo sido eleito no dia 13 de Março de 2013.
A escolha da revista Time reconhece a coragem, o prestígio, a bondade e a enorme influência mundial do Papa Francisco no seu curto pontificado, observável através do exemplo da sua atitude e da sua palavra contra a fome, a pobreza, a desigualdade e a exclusão e, em especial, pela sua recente e lúcida exortação apostólica Evangelii Gaudium, em que toma posição sobre os grandes desafios que a Humanidade enfrenta e se declara contra “uma economia de exclusão e de desigualdade social”, porque “essa economia mata”.
Foi uma boa escolha da revista Time.

 

O Brasil escolhe aviões suecos

O governo brasileiro anunciou ontem a escolha dos aviões Gripen NG da fabricante sueca Saab, para equipar e modernizar a Força Aérea Brasileira (FAB), encerrando um processo que foi lançado em 2001 pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. O negócio foi fechado por 4,5 mil milhões de dólares (3,26 mil milhões de euros) e representa a aquisição de 36 unidades que deverão começar a ser entregues em 2018. O desenvolvimento do novo modelo - hoje existe apenas um protótipo do Gripen NG - será feito em conjunto com a FAB e com a Embraer, devendo contar ainda com a participação de outras indústrias brasileiras, o que se traduzirá num projecto de tecnologiza partilhada. A Presidente Dilma Roussef sublinhou que embora o Brasil seja um país pacífico, não ficará indefeso, “pois um país com as suas dimensões deve estar sempre pronto a proteger cidadãos, património e soberania".
Para a aquisição dos caças, o governo brasileiro abriu um concurso que contou com a participação dos franceses da Dassault (modelo Rafale), dos americanos da Boeing (modelo F-18) e dos suecos da Saab (modelo Gripen NG). Os jornais brasileiros destacaram esta notícia, mas alguns jornais franceses como o diário económico La Tribune, também o fizeram para assinalar “o roubo” que os suecos da Saab fizeram aos franceses da Dassault, apesar das habituais pressões presidenciais francesas. Este negócio mostra bem como dois Estados-membros da União Europeia procuram apoiar as suas indústrias, disputando influências e mercados numa verdadeira guerra comercial, que mostra como o espírito nacionalista prevalece sobre o espírito federalista europeu.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Estaleiros: uns sobrevivem, outros não

Na sua edição de hoje o diário La Voz de Galicia anuncia que através de uma das suas filiais, a Pemex-Petróleos Mexicanos assumiu o controlo dos estaleiros Hijos de J. Barreras (Astillero Barreras) em Vigo, com um investimento de 5,1 milhões de euros na compra de 51% do seu capital social. O estaleiro entregara o ferry-boat 'Volcan de Tinamar' em Junho de 2011 e, desde então, passaram-se dois anos e meio sem que os estaleiros tivessem encomendas e trabalho, mas agora recuperam a sua actividade. O jornal galego anuncia que serão criados quatro mil postos de trabalho e que, desta forma, é reactivada a indústria naval espanhola. Os estaleiros Barreras ficam com trabalho garantido para os próximos dois anos, pois já estão asseguradas encomendas no valor de 300 milhões de euros, sendo um navio atuneiro no valor de 85 milhões de euros, mais três navios-tanques e um navio de apoio a plataformas petrolíferas. Entretanto, há conversações para a possível encomenda de mais três outros “grandes navios” e espera-se que essas encomendas sejam confirmadas até ao final do ano.
A menos de cem quilómetros para sul de Vigo situam-se as instalações dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) e, comparando o que se passa nos dois estaleiros, ficamos estupefactos. Uns sobrevivem e dão um acrescentado ânimo à economia espanhola, enquanto outros são extintos por um advogado investido de poderes ministeriais. Já tínhamos o tira-dentes e o mata-frades. Agora temos o mata-estaleiros. Ao contrário das autoridades espanholas que encontraram uma boa solução para o seu problema, o governo português e o ministro Branco não quiseram ou não foram capazes de encontrar uma solução e, na sua ânsia de abater o que ainda mexe, arranjaram uma saída catastrófica que passa pelo despedimento de seis centenas de trabalhadores e pela extinção da maior unidade portuguesa da indústria da construção e reparação naval. Nem sequer foram a Bruxelas pedir ajuda. Ainda não se sabe porquê, mas o Departamento Central de Investigação e Acção Penal já estará a analisar o caso após uma queixa apresentada por suspeitas de gestão danosa no processo de subconcessão dos terrenos e infra-estruturas dos ENVC à Martifer. Por favor sejam rápidos e desmascarem  esta gente.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Angola: prosperidade e muita confiança

O dinamismo da economia e da sociedade angolanas revelam-se todos os dias nos mais diferentes domínios. Cerca de dez anos depois do fim da guerra civil em Angola, o país atravessa um clima de expansionismo económico e de euforia social, resultantes sobretudo das suas enormes riquezas naturais, embora ainda haja uma substancial parte da sua população que não conhece os benefícios da prosperidade.
O bom conhecimento das geografias angolanas e a língua comum fazem com que o quotidiano de Angola se torne facilmente observável em Lisboa, não só pelo que se lê, mas também que se sabe através dos angolanos que por cá circulam ou através dos portugueses que por lá andam.
Ontem, o jornal Sol – Angola destacou em primeira página o projecto de construção de várias torres na ilha de Luanda, implantados numa área de construção com 494 mil metros quadrados e num investimento da ordem dos cinco mil milhões de euros. Também o semanário Expresso noticia hoje que “portugueses apostam no imobiliário na baía de Luanda” e que há portugueses entre os arquitectos e os doze investidores da Sociedade Baía de Luanda, que já requalificou a baía e vai gerir o projecto imobiliário. A primeira fase do projecto arrancará no próximo mês de Janeiro e construirá 25 edifícios que representam cerca de 30% do loteamento total, num investimento de 1,1 mil milhões de euros que se espera fique concluído dentro de três anos. Há realmente prosperidade e muita confiança para aproveitar o magnífico cenário da baía de Luanda.

Uma gaiola dourada em Paris

Há menos de um mês realizou-se em Lisboa uma manifestação contra os cortes previstos no Orçamento do Estado para 2014 que, pela primeira vez, juntou todas as polícias e que se concentrou em frente das escadarias da Assembleia da República. Seriam cerca de 12 mil polícias de diferentes corporações e o ambiente era de alguma tensão como costuma acontecer nessas circunstâncias, com manifestantes a empurrarem as grades de segurança que acabariam por ser recuadas. Em determinada altura os polícias (em protesto) conseguiram furar o cordão dos polícias (em serviço) que os impediam de subir as escadarias da Assembleia da República. Subiram-nas e só pararam à porta do edifício. Foi uma atitude simbólica dos polícias (em protesto) e uma atitude sensata dos polícias (em serviço), mas rapidamente tudo serenou. O governo não esperava esta “grave afronta" ou esta "insubordinação” e decidiu demitir imediatamente o director geral da PSP, vindo a nomear para o cargo o comandante da força policial que, mal ou bem, não evitou que as escadarias fossem ocupadas pelos manifestantes. O assunto nunca foi claramente esclarecido, talvez para poupar a demissão do ministro, como seria normal que acontecesse. Porém, ele aí mostrou que tem pouca verticalidade. Passou menos de um mês e o governo, como salienta hoje o Diário de Notícias, decidiu nomear o antigo director da PSP para um lugar especialmente criado para ele: oficial de ligação do seu ministério na embaixada portuguesa em Paris, onde irá ganhar 12 mil euros por mês, isto é, o triplo do que auferia como diretor da PSP. Nunca esse cargo foi necessário e é uma autêntica e escandalosa gaiola dourada. Podia ser em Alcoutim ou em Penedono, mas teve que ser em Paris. Embrulhem! O homem até podia não aceitar e ficaria na história como um insubornável e incorruptível, mas aceitou. E o ministro podia não criar estes tachos neste tempo tão nebuloso, quando o seu governo abusa da austeridade e promove despedimentos, faz aumentar a pobreza e aumenta a desigualdade. Que vergonha é esta de termos o ministro Macedo a baixar ao nível dos seus pobres pares, ao arranjar tachos que vão ser pagos com os dinheiros das nossas pensões, salários e  impostos e, de uma forma geral, com os nossos sacrifícios, a demonstrar que a austeridade não é para todos! Que vulgar macedo.