quinta-feira, 5 de abril de 2018

Os tempos difíceis por que passa o Brasil

O plenário do Supremo Tribunal Federal do Brasil (STF) decidiu ontem rejeitar por 6 votos contra 5, o pedido de habeas corpus preventivo que havia sido apresentado pela defesa do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, que tinha sido condenado a 12 anos e um mês de prisão na segunda instância, pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região.
Segundo se depreende da leitura da imprensa brasileira, o processo de Lula tem tanto de jurídico como de político, estando a suscitar muitas emoções e a dividir o Brasil. Para uma parte da sociedade brasileira a Justiça deve ser igual para todos e Lula terá de cumprir na prisão a pena a que foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro mas, para a outra parte da sociedade, o ex-presidente Lula é um ídolo que tirou milhões de brasileiros da pobreza, que prestigiou internacionalmente o Brasil e que está à frente das sondagens para as eleições presidenciais de Outubro.
O mais provável é que num país onde a corrupção dos políticos é muito elevada e a ordem pública está ameaçada, aconteça o paradoxo político de um ex-Presidente da República ir para a prisão por um delito menor no contexto da Operação Lava Jato, enquanto a grande criminalidade e os mais notados casos de corrupção parecem ficar impunes. O Brasil está a viver um processo de judicialização da política que é demasiado perigoso para os valores democráticos.
O jornal argentino Página/12 anteviu essa decisão do STF e, na primeira página da sua edição de anteontem, escreveu “golpe dentro do golpe”, significando que depois da destituição de Dilma Rousseff, o establishment brasileiro pressiona na Justiça e nos media para completar a operação de afastamento de Lula da Silva e dos seus aliados, com o chefe do Exército a pronunciar-se contra a impunidade e um outro general reformado a ameaçar com um golpe se Lula não for preso.
Os tempos vão difíceis para o Brasil e é necessária muita prudência para que as paixões pro-Lula e anti-Lula não se confrontem e o país possa viver em ordem e progresso, como está escrito na sua bandeira nacional.

Uma nova solução para a guerra da Síria

Os líderes das potências mais envolvidas na guerra da Síria - Vladimir Putin, Recep  Erdogan e Hassan Rouhani - reuniram-se ontem em Ancara para tentar encontrar pontos de convergência em relação aos seus diferentes interesses regionais e para decidir quanto a uma solução para a guerra, num encontro que assinala a derrota dos americanos e dos seus aliados que tanto apoiaram a revolta contra Bashar al-Assad e, também, a afirmação dos poderes russo, turco e iraniano naquela região do Médio Oriente.
O combate ao Daesh era a prioridade de todos e foi bem sucedido, mas em relação a Bashar al-Assad continua a haver muitas divergências, pelo que os interesses de cada um dos países que se reuniram podem confrontar-se. A Rússia e o Irão continuam a suportar o regime sírio que quer derrotar os rebeldes apoiados pela Turquia, enquanto a mesma Turquia quer derrotar os curdos que são apoiados pelos americanos. Todos estes interesses correm o risco de entrar em choque e, por isso, os amigos (Rússia e Irão) e os inimigos (Turquia) de Bashar al-Assad sentaram-se à mesma mesa, quase ressuscitando o encontro de Fevereiro de 1945 em Yalta, no qual Roosevelt, Stalin e Churchill acordaram estratégias e zonas de influência. Naturalmente, a Rússia domina e procura articular todos estes interesses entre países que não se entendem, não só da Síria e do Irão, mas também da Turquia que, apesar de ser membro da NATO, tem estreita cooperação com os russos que acabam de construir e inaugurar uma poderosa central nuclear na costa turca.
O jornal The Independent publicou a fotografia de Putin, Erdogan e Rouhani que tem o simbolismo de mostrar quem manda naquela região e de atestar que os americanos perderam a batalha da Síria.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Ronaldo: um génio ou um extra-terrestre?

Foi um momento de glória de Cristiano Ronaldo que o mundo do futebol reconheceu.
Aconteceu ontem no Allianz Stadium em Turim aos 64 minutos do jogo em que se defrontavam a equipa italiana da Juventus e o Real Madrid, quando a equipa espanhola vencia por 1-0. Jogava-se no meio-campo da Juventus quando a bola foi lançada para a sua grande área onde estava Cristiano Ronaldo que, de costas para a baliza, se elevou e estendeu a perna para chutar a bola a 2,38 metros do solo, com um pontapé de bicicleta. O pé direito de Ronaldo transformou-se numa verdadeira arma que fez um disparo a 72 quilómetros por hora em direcção à baliza de Buffon. Foi um golo excepcional e um momento raro no futebol. Ninguém ficou indiferente àquele momento e muitos adeptos de ambas as equipas aplaudiram aquele gesto que logo foi considerado uma obra-prima ou coisa feita por um extra-terrestre.
A fotografia do remate de Cristiano Ronaldo correu mundo e ilustrou inúmeras capas de jornais europeus e sul-americanos, como aconteceu com o diário desportivo espanhol Marca que escolheu para título ”o golo”. Porém, para além daquela fotografia, sucederam-se as reportagens e as declarações sobre aquele artístico e genial gesto de Cristiano Ronaldo e sobre as suas invulgares qualidades atléticas. Nunca um português teve tanta notoriedade no nosso planeta. Ele é realmente um génio futebolístico que muitas alegrias continua a dar aos portugueses. Agora, a expressiva fotografia vai rapidamente decorar o Museu CR7 no Funchal que retrata a história do mais famoso futebolista português.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Estudantes gastam 4 milhões em Huelva

A moda já tem alguns anos e os estudantes portugueses finalistas do ensino secundário não abdicam dela, isto é, nesta altura das férias da Páscoa organizam excursões e dirigem-se para o sul de Espanha.
Ontem chegaram a Punta Umbria, uma zona de veraneio situada a menos de cinquenta quilómetros da fronteira de Ayamonte e localizada próximo da cidade de Huelva, cerca de 10.800 visitantes portugueses, entre estudantes e staff de apoio, que viajaram em 200 autocarros.
Pelo terceiro ano consecutivo e durante uma semana tomarão parte no Festival Village Resort Edition, o que representa uma ocupação hoteleira de 100% e um total de cerca de 64.800 pernoitas. Além disso, esta “invasão lusitana” implica a criação de cerca de 1.500 postos de trabalho temporário e um impacto económico da ordem de quatro milhões de euros para o municipio de Punta Umbria: dois milhões cobrados pelos hoteis por alojamento e pensão completa e 1,79 milhões de euros em despesas a efectuar no comércio local em supermercados, souvenirs, bares, cafetarias e outros estabelecimentos.
Punta Umbria tem boas condições para os pré-universitários portugueses que, com idades em torno dos 17-18 anos, podem aproveitar a praia e outros recursos turísticos, embora a maioria prefira a música que é o verdadeiro motor desta festa estudantil. Naturalmente, estas excursões estimulam muitos excessos, mas as autoridades e os organizadores devem estar prevenidos. Finalmente, para o comércio local a “invasão lusitana” é um balão de oxigénio, até porque a Semana Santa terá ficado aquém do desejável.
O jornal Huelva Información destacava hoje que 11.000 portugueses deixarão quatro milhões em Punta Umbria. Era uma grande noticia e um grande negócio proporcionado por gente com grande poder de compra.

A crise da banca é uma vergonha nacional

Segundo os dados ontem publicados pelo Banco de Portugal, o apoio do Estado à banca desde 2007 até 2017 já ultrapassa os 17 mil milhões de euros, embora também tenha sido divulgado que as operações de capitalização dos bancos pesaram 23,7 mil milhões na dívida em 10 anos. Com tantos milhões e com tanta manobra pouco clara para o cidadão comum, é caso para dizer que podem ser anunciados 17 ou 23 mil milhões de euros de ajudas, mas que a banca é cada vez menos confiável e é cada vez mais angustiante suportar a sua incompetente gestão. Os apoios públicos à banca portuguesa têm sido uma contínua conta de somar, numa soma que parece não ter fim. Começou com alguns milhões para acudir ao BPN e, certamente, para salvar uns amigos que por aí andam e, por vezes, com estatutos de gente séria. Depois juntaram-se mais uns milhões para socorrer o colapso do BES e, agora, foram os 3,9 mil milhões de euros entregues à CGD, para além de alguns milhares de milhões de euros em juros. Na passada semana também se soube que o Novo Banco, que ficou com os activos bons do BES, teve prejuízos de 1.395 milhões de euros em 2017 e que, uma vez mais, vai recorrer ao Fundo de Resolução que é do Estado e que é financiado pelos contribuintes portugueses. Tudo isto é demasiado opaco e ninguém ainda foi capaz de acabar com esta trapalhada.
A banca e os banqueiros continuam com os comportamentos e as mordomias de sempre, com as altas remunerações, as mordomias, os carros topo de gama e os cartões de crédito ilimitado. Não se percebe o que faz essa gente, para além de tratarem da sua vidinha. E como são todos muito amigos e muito compadres, até inventaram o termo imparidades para disfarçar os resultados dessa pouca vergonha que é a má gestão e a falta de coragem, mais os calotes, as fraudes e as burlas que consentem ou em que participam. Andamos nisto há dez anos. Ninguém devolve um cêntimo daquilo que desviou ou que roubou. Os jornais esquecem o assunto. Passam os governos e os ministros, mas esta desgraça parece não ter fim. A crise da banca é uma vergonha nacional.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Sevilha iniciou a temporada taurina

Ontem, dia 1 de Abril, aconteceu o Domingo de Resurrección en Sevilla, uno de los días grandes del año taurino, com a primeira das treze corridas de touros programadas para este mês na Real Maestranza de Caballería de  Sevilla.
Foi o início  da temporada sevilhana de 2018 e a edição local do jornal ABC dedicou a sua primeira página ao acontecimento e, tal como muitos outros jornais espanhóis, fez o relato técnico da corrida em que participaram os diestros Antonio Ferrera, José María Manzanares e Andrés Roca Rey com as suas cuadrillas, numa plaza de toros cheia e onde no cabía ni un alfiler. O peruano Andrés Roca Rey foi o triunfador do dia, enquanto José María Manzanares sofreu uma espectacular colhida, embora sem consequências.
A tauromaquia ou arte de lidar touros é uma antiga tradição ibérica que foi exportada para os países americanos de língua espanhola, mas é uma arte muito polémica que tem tantos apaixonados defensores, como persistentes detractores. Na maioria das comunidades espanholas as corridas de touros a pé ou a cavalo são legais e em algumas delas foram declaradas como “bien de interés cultural y patrimonio cultural inmaterial”, mas na Catalunha e nas Canárias foram simplesmente proibidas. Em Portugal existe a mesma polémica a respeito das touradas mas com aspectos próprios, até porque a morte dos touros foi proibida em 1836, tendo surgido desde então os grupos de forcados e as pegas ou imobilização dos touros só com as mãos, que são uma prática exclusivamente portuguesa.
Embora não sendo um aficionado por estas práticas, aprecio o entusiasmo espanhol pela festa brava e reconheço que há muita gente em Portugal que cultiva a cultura taurina, sobretudo no Ribatejo e no Alentejo.

sábado, 31 de março de 2018

Foi suspensa a Barcelona World Race

A Barcelona World Race é uma grande competição vélica organizada pela FNOB (Fundação da Navegação Oceânica de Barcelona) que se realiza de quatro em quatro anos, na qual as embarcações monocasco de dois tripulantes saem de Barcelona e dão a volta ao mundo passando pelos três cabos – cabo da Boa Esperança, cabo Leeuwin e cabo Horn, terminando a prova em Barcelona.
Nas três primeiras edições da prova realizadas em 2007/2008, 2011 e 2015 os vencedores demoraram respectivamente 92, 93 e 84 dias a completar a volta ao mundo.
A 4ª edição desta corrida estava previsto ser iniciada no dia 12 de Janeiro de 2019 e tinha como novidade uma paragem obrigatória em Sydney, o que significava um primeiro troço de corrida desde Barcelona até Sydney (13.500 milhas) e um segundo troço de Sydney até Barcelona (12.500 milhas).
Porém, em face das dificuldades políticas e institucionais por que passa a Catalunha, não apareceram os patrocinadores privados necessários para garantir o financiamento de uma prova desta natureza, pelo que a FNOB decidiu suspender a corrida de 2019. No entanto, a FNOB já está em negociações com a IMOCA (International Monohull Open Classes Association), a associação que agrega os interesses de velejadores, construtores e organizadores, para preparar a edição de 2023 desta prova, por se tratar de um importante evento do calendário mundial dos monocascos de 60 pés e, também, pela sua importância para o turismo e para a imagem de Barcelona.
Alguns jornais espanhóis, nomeadamente o conservador ABC, aproveitaram para responsabilizar o independentismo por esta decisão, mas o facto é que a suspensão desta prova serviu de argumento tanto para os constitucionalistas como para os independentistas.

Goa tem o estatuto de “Europa da Índia”

O jornal hindustan times tem a sua sede em Nova Deli, é o segundo maior jornal da Índia e tem uma circulação superior a um milhão de exemplares.
A sua primeira página costuma ser vendida como suporte de publicidade e foi isso que aconteceu na sua edição de hoje, em que uma empresa denominada Provident Housing, uma subsidiária do grupo Puravankara que se considera como uma das maiores imobiliárias da Índia, comprou esse espaço para dizer aos seus leitores Go home to Goa ou, dito em português, vá para casa em Goa. O anúncio refere-se ao pré-lançamento de um grande empreendimento de apartamentos em condomínio que vai ser construído em Goa, junto a Chicalim e próximo do aeroporto de Dabolim e do porto de Mormugão. O anúncio foi ilustrado com uma fotografia de uma jovem ocidental na praia, deixando subliminarmente a ideia de que “Goa é a Europa da Índia” o que, de resto, é uma ideia que prevalece naquele país.
O empreendimento foi baptizado com o sugestivo nome de  Adora de Goa e, este nome, tal como a fotografia da jovem com vestes ocidentais, visam estimular o interesse dos indianos das classes médias emergentes para a aquisição de um apartamento em Goa, cuja descrição evoca a permanência dos portugueses durante 451 anos.
A curiosidade deste anúncio está apenas no facto da herança cultural portuguesa, visível em muitos aspectos do quotidiano goês, desde o património à língua e passando por muitas práticas culturais, estar a ser usada para atrair os pequenos investidores e o turismo interno indianos para a ocidentalidade, para as praias e para os monumentos de Goa.

As mentiras, o histerismo e a prudência

Eu não me esqueço do dia 16 de Março de 2003 quando George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso se encontraram na Cimeira das Lajes e do início da intervenção militar americana no Iraque, que começou quatro dias depois. O pretexto foi acabar com Saddam Hussein e com as armas de destruição maciça que afinal não existiam, mas este caso serviu para a criação de uma versão mais actualizada sobre o poder da mentira, na linha de pensamento de Joseph Goebbels, a quem se atribui a frase que uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.
Outros casos semelhantes têm acontecido desde então, quer no plano interno, quer no plano internacional, em que a mentira tem sido utilizada para enviezar a realidade, manipular a opinião pública e para produzir determinados efeitos.
O mais recente caso deste tipo de actuação é a expulsão de 23 diplomatas russos pelo presumível envolvimento do Kremlin de Moscovo no envenenamento em território britânico de um ex-espião russo e da sua filha, sem que ainda haja prova dessa acusação. O governo de Theresa May invocou a alta probabilidade das autoridades russas estarem envolvidas nesse caso e, dessa forma, desviou a atenção interna e internacional dos problemas que tem entre mãos. Donald Trump, que acabara de felicitar Putin pela sua reeleição, esqueceu o seu slogan “America first” e decidiu expulsar seis dezenas de diplomatas russos, porque viu estar aí uma forma de perturbar o crescente poder de Vladimir Putin e dar ânimo aos falcões americanos. Depois seguiram-se duas dezenas de países que, simbolicamente e numa solidariedade misturada com hipocrisia, expulsaram alguns diplomatas, casos por exemplo da Alemanha, França e Canadá (quatro cada), Espanha, Itália, Holanda e Dinamarca (dois cada) e Bélgica, Finlândia, Suécia, Hungria, Irlanda e Roménia, entre outros (um cada).
Portugal usou da prudência e foi solidário com os seus parceiros da NATO e da UE, mas não alinhou no histerismo daqueles que confundem a Rússia com a União Soviética e que apostam numa nova guerra fria para alimentar as suas indústrias de armamento. Tudo está por provar e não podem ser as políticas erráticas de Theresa May e de Donald Trump a condicionar a diplomacia portuguesa e a boa relação que o nosso país quer manter com a Rússia e com todos os povos do mundo. Significativamente, o importante Washington Post apenas dedicou uma pequena coluna a este assunto que, certamente, considerou um fait-divers da política internacional para desviar as atenções de outras situações.

quinta-feira, 29 de março de 2018

O sacrifício da vida pela comunidade

A França comoveu-se quando o Presidente Emmanuel Macron prestou homenagem ao tenente-coronel Arnaud Beltrame, que foi morto por um extremista islâmico depois de se ter voluntariado para substituir uma refém que aquele retinha sob ameaça num supermercado de Trèbes, no sul de França.
Vários factores convergiram para que a França se comovesse, mas um deles terá sido a surpresa com que assistiu a um acto de coragem protagonizado por alguém que, certamente, havia jurado defender a comunidade “mesmo com o sacrifício da própria vida”. Essa ideia de defender a pátria ou de defender a comunidade parece cada vez mais uma coisa do passado porque, tanto os soldados como os polícias, se tornaram funcionários, provavelmente com mais deveres e menos direitos do que os outros funcionários. A generalidade dos políticos também se tornaram funcionários e não lutam por causas nem por valores, mas apenas por interesses, mas o mesmo acontece com muitas outras profissões que deveriam servir o interesse público.
Os tempos e as escalas de valores estão a mudar muito rapidamente por toda a parte e o egoismo está a dominar as sociedades, prevalecendo o interesse pessoal ou de grupo sobre o interesse colectivo, como bem se vê nas desigualdades que existem entre os homens e entre as nações. Em muitos aspectos, parece que o mundo já está dominado mais pelo capital tecnológico e pela robótica, do que pela sensibilidade e pela inteligência humanas. É por isso que a corajosa acção do tenente-coronel Arnaud Beltrame surpreendeu e comoveu a França.
A comoção dos franceses extravou as suas fronteiras e sensibilizou alguma imprensa mundial que também ficou surpreendida com este gesto cada vez mais singular de alguém que leva até ao fim o seu juramento de defender a comunidade “mesmo com o sacrifício da própria vida”. The Wall Street Journal foi apenas um dos jornais internacionais que publicou a fotografia do presidente francês junto da urna do malogrado oficial.

Symphony of the seas: a cidade flutuante

Chama-se Symphony of the seas, foi construido nos estaleiros franceses de St. Nazaire e é o maior navio de cruzeiros do mundo. É o 26º navio da Royal Caribbean International, tem 362 metros de comprimento, desloca 228 mil toneladas e pode transportar 6360 passageiros.
É uma cidade flutuante onde existe tudo o que é possível imaginar-se. Para além das suas colossais dimensões, o navio destaca-se pela diversidade de experiências que oferece aos seus passageiros, que incluem 19 piscinas com diferentes actividades lúdicas, pista de patinagem no gelo, simuladores de surf, teatro para 1380 pessoas, 20 restaurantes e lojas das mais prestigiadas marcas internacionais.
A sua viagem inaugural está marcada para o próximo dia 7 de Abril com saída de Barcelona, escalas em Palma de Maiorca, Provence, Florença/Pisa, Roma e Nápoles e regresso a Barcelona. Depois repetirá este circuito mediterrânico durante várias semanas e, no segundo semestre do ano, atravessará o Atlântico para fazer cruzeiros pelas Caraíbas a partir de Miami.
Na passada terça-feira o navio foi apresentado em Málaga e, aparentemente, a Royal Caribbean International convidou meio mundo para essa apresentação mundial, sobretudo agências de viagens e jornais, porque o evento está relatado em inúmeros jornais que divulgam  as características excepcionais do navio, embora nenhum lhe dê o destaque que foi dado pelo Málaga hoy, que dedicou a sua primeira página ao “mayor coloso del mar”.
Com tanta oferta de divertimento e com tanta gente a bordo, uma viagem no Symphony of the seas até talvez se torne numa cansativa viagem...

terça-feira, 27 de março de 2018

A publicidade institucional na Austrália

The Australian é um jornal que se publica em Sydney e que é propriedade de Rupert Murdoch, o famoso magnate da comunicação, sendo também o jornal de circulação nacional mais vendido na Austrália. Na sua edição de hoje o jornal não resistiu e cedeu a sua primeira página à Fincantieri Australia para publicar um anúncio publicitário, certamente por muito dinheiro.
A Fincantieri – Cantieri Navali Italiani S.p.A. é uma das maiores empresas mundiais de construção naval que tem sede em Trieste e que está vocacionada para a construção de navios de grande porte e de alta tecnologia, incluindo navios militares, tendo sido escolhida pelo governo australiano para conceber e construir nove novas fragatas para a Royal Australian Navy, num programa designado por SEA 5000. Por razões operacionais ou por obrigações do contrato, a empresa criou a Fincantieri Australia e instalou escritórios em Camberra e Adelaide, até porque os navios serão construidos em estaleiros australianos e com mão-de-obra maioritariamente australiana, pelo que já assinou diversos acordos com os sindicatos australianos.
Nove fragatas custam muito dinheiro e este negócio da indústria naval italiana deve ter deixado as concorrências francesa, espanhola, inglesa, alemã e outras mais, absolutamente roídas de inveja. Porém, o sucesso dos italianos neste negócio tem como contrapartida a transferência da sua tecnologia e do seu know how para a Austrália.
A importância deste negócio é tal que a Fincantieri Australia decidiu fazer uma campanha de publicidade institucional para aumentar a sua notoriedade e criar uma boa imagem junto da opinião pública, das autoridades decisoras, dos sindicatos e de outros parceiros deste negócio de muitos milhões e de muitos anos. Foi por isso que deve ter pago muito dinheiro para ocupar a primeira página do The Australian.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Os voluntários dão lição aos políticos


Foto SIC Notícias

No dia 15 de Outubro de 2017 aconteceu o grande incêndio que consumiu cerca de 80% dos 11.080 hectares do Pinhal de Leiria. Desde então, essa catástrofe bem como os outros trágicos incêndios que devastaram o país no Verão do ano passado, têm servido para revelar inúmeros “especialistas” em gestão e em incêndios florestais e, também, para procurar os principais “culpados” pelo que aconteceu, numa lógica de combate político.
Porém, enquanto os políticos e os jornalistas têm passado o tempo a discutir quem tem mais culpas ou mais responsabilidades, iludindo que o problema é muito mais complexo do que parece e esquecendo a sua função pedagógica, a sociedade civil tomou iniciativas e tem promovido acções de voluntariado que têm mobilizado alguns milhares de cidadãos que, de todo o país, se têm organizadamente empenhado em acções de reflorestação do Pinhal de Leiria.
Algumas associações ambientalistas, assim como grupos constituídos em empresas e autarquias, têm-se destacado nessas acções, mas no passado domingo houve cerca de cinco mil voluntários que plantaram 67 mil e quinhentos pinheiros bravos. É pouco, mas foi um sinal de interesse pelo bem comum e, por isso, merece muitos elogios. Nesta acção participaram muitas crianças e houve a ajuda de militares e bombeiros, o que constitui uma grande lição para todos os que falam, falam... mas não fazem nada.
É certo que são necessárias pelo menos 3 milhões de árvores para plantar, mas a iniciativa do passado domingo, bem como o envolvimento do Presidente da República e do Primeiro-Ministro em iniciativas semelhantes, é um sinal positivo para a sociedade porque contribui para a sensibilização da comunidade e para os comportamentos amigos da floresta, que muita gente parece não conhecer.
Lamentavelmente, os jornais de referência não destacaram este assunto e, por isso, é um caso de mau jornalismo, a suscitar uma simples pergunta aos seus editores: qual é a agenda por que se regem?

Os novos episódios da questão catalã

A questão da Catalunha, a região autónoma espanhola em que metade da população quer ser independente e a outra metade não quer, teve ontem mais um episódio relevante, quando Carles Puigdemont foi detido pela polícia alemã na sequência de um pedido das autoridades judiciais espanholas.
Não se sabe se Puigdemont se distraiu ou se quis ser detido, nem se vislumbra se quer ser um líder no exílio ou um mártir na Catalunha, mas o facto é que os independentistas catalães vieram para a rua protestar e que esta detenção fez reanimar a contestação às instituições espanholas e a conflitualidade nas ruas das cidades catalãs, onde de imediato houve confrontos e se verificaram alguns feridos.
A Espanha é um estado soberano cuja Constituição diz, no seu artigo 2º, que “la Constitución se fundamenta en la indisoluble unidad de la Nación española, patria común e indivisible de todos los españoles, y reconoce y garantiza el derecho a la autonomía de las nacionalidades y regiones que la integran y la solidaridad entre todas ellas”. O que acontece é que, segundo o Tribunal Constitucional, Carles Puigdemont e alguns outros dirigentes independentistas catalães têm atentado contra a unidade da Espanha e, por isso, afrontam a lei constitucional e estão detidos ou têm sobre eles mandados de detenção.
Albert Rivera, o fundador e presidente do Ciudadanos – Partido de la Ciudadania, que é o maior partido da Catalunha, comentou a detenção de Puigdemont e disse que “se acabó la fuga del golpista”. De facto, a forma como tem sido conduzida a luta pela independência da Catalunha tem sido desastrada e, muitas vezes, tem tido contornos de golpe com que o orgulhoso poder centralista de Madrid não pactua.
O problema da Catalunha continua, portanto, bem vivo, embora os catalães comecem a estar cansados desta história. A História, porém, ensina-nos que quando os líderes de uma ideia ou de um movimento político vão para a prisão, as suas teses acabam por se impor no futuro.

O protesto americano contra a violência

Os americanos estão a protestar contra a livre venda de armas automáticas e munições no país e exigem um maior controlo dos antecedentes criminais de quem compra armas de fogo.
De vez em quando somos confrontados com a notícia de mais um adolescente que comprou uma arma, que a levou para a escola e que decidiu imitar uma qualquer cena do mais recente filme de violência que viu na televisão. A permissividade da legislação americana é total e calcula-se que nos últimos vinte anos terão morrido duas centenas de estudantes em consequência de disparos com armas de fogo dentro das escolas americanas e que mais de 187 mil jovens de cerca de 193 escolas primárias e secundárias assistiram a tiroteios dentro das suas escolas. O principal alvo das manifestações é a NRA (National Rifles Association), uma poderosa organização de 5 milhões de membros que promove e incentiva o uso e porte de armas de fogo, mas por via indirecta a manifestação também era dirigida ao Congresso e ao Presidente dos Estados Unidos que, ainda bem recentemente, sugeriu que os professores fossem armados para a escola.
O protesto foi organizado pelos estudantes da escola da Florida onde no passado mês de Fevereiro ocorreu um massacre de que resultaram 17 mortes, tendo alastrado por todo o país e mobilizado milhões de pessoas. A mobilização dos estudantes foi um sucesso e a manifestação terá sido a maior alguma vez realizada nos Estados Unidos pelo controlo de armas de fogo, havendo quem a tivesse comparado às grandiosas manifestações contra a guerra do Vietnam ou em defesa dos Direitos Civis.
Toda a imprensa americana apoiou as manifestações, caso do New York Post, o que pode conduzir a uma mais rápida alteração de uma legislação que parece incentivar o uso de armas como se os americanos ainda estivessem no século XIX e a instalar-se no Far West.