quinta-feira, 12 de julho de 2018

Será que o Donald vai mandar na Europa?

Donald Trump não se cansa de gritar que os contribuintes americanos estão a pagar demasiado para a defesa militar dos seus parceiros europeus da NATO e acusa alguns desses países de não cumprirem os compromissos de investimento em armamento militar e investigação, enquanto pagam milhões de milhões de dólares em facturas energéticas à Rússia, afirmando, numa evidente provocação, que “a Alemanha está capturada pela Rússia”.
O Donald veio a Bruxelas à Cimeira da NATO e parece ter vindo criar mais problemas na relação entre a Europa e a América, ao insistir que a maioria dos países da NATO afecta menos de 2% do respectivo PIB a despesas com a Defesa, quando de imediato deveriam gastar 2% e, até 2024, aumentar para 4%. O assunto foi destacado na imprensa americana, designadamente no The Wall Street Journal.
No caso de Portugal, em 2017 foram gastos 2.398 milhões de euros em despesas de Defesa, o que equivale a 1,24% do PIB, mas no corrente ano de 2018 essa despesa deverá aumentar para 2.728 milhões de euros, o que equivale a 1,36% da riqueza nacional. Foram estas as despesas autorizadas no orçamento aprovado pelos deputados e, por cá, são eles que decidem.
Até parece que o Donald quer mandar nos países soberanos da Europa, mas o que o ele não sabe é que nas democracias europeias quem manda são os respectivos eleitores e são eles que, através do voto, decidem se querem “canhões ou manteiga”, segundo a famosa alternativa apresentada há muitos anos por Paul Samuelson, o americano que foi um dos primeiros Prémio Nobel da Economia.
O que a NATO  e os seus membros têm que fazer é definir quem é o inimigo. Hoje ninguém sabe quem é o inimigo. Não se sabendo quem é o inimigo, como se pode pressionar para aumentar a despesa militar para o dobro? De resto, o recente uso da NATO para servir interesses particulares, por exemplo no Iraque e na Líbia, foi uma das causas da destabilização mundial que se vive no mundo e continua sem ser assumido como uma intervenção à margem dos princípios da aliança.
Por isso, é natural que alguns dirigentes europeus não aceitem as arrogantes pressões do Donald, que continua a semear ventos um pouco por todo o mundo e, de certo modo, a fazer o que prometeu: "America first"... e os outros que se governem.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Reino Unido, Brexit e todas as dúvidas

As negociações do Brexit têm sido complicadas e, por isso, a primeira-ministra britânica Theresa May tem procurado sempre o apoio do Partido Conservador. Assim aconteceu em data recente, para ultrapassar algumas dúvidas surgidas em torno da opção por um soft Brexit ou por um hard Brexit. Só que, alguns destacados membros do partido e do governo que em 2016 participaram na campanha pelo Brexit, decidiram acusar Theresa May de estar a aceitar um soft Brexit, ou mesmo um Brexit só no papel.
Como consequência, David Davis o ministro do Brexit, renunciou ao seu cargo, acompanhado pelo seu adjunto. Poucas horas depois, também Boris Johnson o ministro dos Negócios Estrangeiros, desde há muito tempo um crítico de algumas posições assumidas por Theresa May no processo de saída da União Europeia, renunciou às suas funções declarando que the Brexit dream is dying. O jornal The Times foi um dos periódicos londrinos que destacou esta declaração de Boris Johnson.
O problema é politicamente muito sério. Os britânicos escolheram o Brexit em Junho de 2016 por uma curtíssima margem de 51,9%, com o voto contra da Escócia, da Irlanda do Norte e da cidade de Londres. Os vencedores terão votado mais contra os imigrantes, mostraram-se apoiantes do racismo e da xenofobia e, provavelmente, não equacionaram as consequências da saída da União Europeia.
A saída destes ministros do governo de Theresa May é um duro golpe para o Brexit, uma vez que muitos sectores políticos e sociais têm agora a esperança “de ver chegar ao fim, finalmente, toda esta loucura” que, segundo dizem, “nunca devia ter acontecido”.
Aguardemos, portanto, o que vai acontecer.

Angola e Portugal: um renovado abraço

Depois de alguns tempos de falta de entendimento e até de ameaça de retaliações, parece que as relações entre Portugal e Angola estão a entrar na linha de onde nunca deviam ter saído. O chamado irritante que tanta tinta fez correr, parece estar ultrapassado e tudo se conjuga para que o Presidente João Lourenço visite Portugal, que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa visite Angola, que as trocas comerciais se acentuem e que a cooperação bilateral se intensifique em todos os domínios.
Portugal e Angola não são apenas dois estados soberanos com assento na comunidade internacional, porque existe entre eles um tão vasto conjunto de afinidades culturais e afectivas resultantes de um convívio secular e de uma história comum, naturalmente marcada pelas vicissitudes próprias de qualquer processo histórico. Porém, dessa relação nasceu um património cultural comum assente na língua portuguesa e um conhecimento recíproco que é intenso e singular. Ninguém conhece Angola como os portugueses e os angolanos sabem que estão em casa quando entram em Portugal.
Por vezes ainda surgem lembranças menos felizes do passado colonial, mas essas são as excepções a confirmar a regra de uma recíproca admiração entre portugueses e angolanos.
O Jornal de Angola fala hoje em momento auspicioso. E tem razão. Numa altura de alguma instabilidade política internacional, é uma boa altura para que os dirigentes portugueses e angolanos saibam encontrar o caminho certo do diálogo e da cooperação para benefício das duas nações.

Espanha e Catalunha: um passo em frente

O problema político da Catalunha é muito complexo, não só porque pode representar o início de um processo de implosão generalizada da Espanha com repercussões contagiantes a uma Europa enfraquecida, mas também porque a própria população catalã está dividida entre o seu legítimo sentimento independentista e a fidelidade à unidade de um estado espanhol multinacional como está definido na Constituição.
No ano passado os ânimos exaltaram-se e tanto o governo espanhol de Mariano Rajoy como o governo catalão de Carles Puigdemont foram além do que seria desejável e, entre outras coisas, renunciaram ao diálogo.
Passou algum tempo e curiosamente no mesmo dia 2 de Junho, Rajoy cedeu o seu lugar de primeiro-ministro a Pedro Sanchez, enquanto o fugitivo Puigdemont foi substituído por Quim Torra.
São dois novos rostos para encarar o problema catalão, depois da fracassada encenação de uma declaração unilateral de independência do passado mês de Outubro, sob a orientação do desorientado Puigdemont, a que o governo espanhol e o Tribunal Constitucional se opuseram.
Ao tomar posse, o separatista Quim Torra desafiou o primeiro-ministro Pedro Sanchez para que o diálogo fosse retomado, depois de meses de crispação. Sanchez aceitou e ontem os dois políticos encontraram-se em Madrid no Palácio de La Moncloa, durante cerca de três horas. Com cordialidade. Com pontos de vista muito diferentes que estão em linha com o que pensaram Rajoy e Puigdemont. Tudo ficou como antes, com uma parte a reivindicar o seu direito à autodeterminação e a outra a defender a unidade do estado espanhol nos termos da Constituição. A reunião não serviu para convencer ninguém, mas foi um passo em frente no caminho do diálogo. Foi um bom princípio.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

O salvamento dos jovens tailandeses

O mundo tem acompanhado com emoção e ansiedade o caso dos jovens que ficaram presos no complexo de cavernas de Tham Luang, que se estende por cerca de 10 km sob uma montanha no norte da Tailândia, a uma profundidade variável entre 800 e 1000 metros. Os 12 jovens praticantes de futebol, acompanhados pelo seu treinador, entraram no complexo de cavernas no fim da tarde do dia 23 de Junho, durante um passeio e foram surpreendidos por uma forte chuvada que inundou o complexo. Nessa contrariedade, o grupo decidiu fugir pelos túneis até se instalar num local seco a 4 km da entrada. Preocupada com o atraso do filho, uma mãe deu o alarme. As autoridades pediram ajuda internacional e foram iniciadas as buscas, tendo sido encontradas as bicicletas dos jovens na entrada do complexo de cavernas, além de mochilas e sapatos.
Porém, os jovens só foram encontrados no dia 2 de Julho, isto é, nove dias depois do seu desaparecimento, por dois mergulhadores britânicos que conseguiram chegar à gruta onde estavam os jovens, situada a cerca de 4 km da entrada. Para chegar até ao grupo, os dois mergulhadores nadaram durante seis horas, num percurso sinuoso e estreito que exige grande domínio das técnicas de natação e de mergulho. A partir de então foi instalado um centro de operações numa câmara do complexo de cavernas situado a 1700 metros de distância da entrada. Ontem foram resgatados quatro jovens e hoje foi anunciado o resgate de mais quatro. A operação de grande dificuldade e risco tem vindo a correr bem. O mundo quase respira de alívio perante esta vitória da tenacidade e da persistência, mas também da coragem dos socorristas. O impossível ou o milagre estão a acontecer.
Porém, para além da competência-coragem dos mergulhadores, o que mais impressiona nesta operação é a quantidade de especialistas de que Portugal dispõe neste domínio, que alimentam horas e horas nos canais televisivos. Até admira que não tenhamos enviado alguns destes luso-especialistas para a Tailândia.

sábado, 7 de julho de 2018

O Brasil também disse adeus ao Mundial

Ontem a selecção brasileira foi derrotada em Kazan pela selecção belga por 2-1 e foi eliminada do Campeonato do Mundo de Futebol. Uma boa parte do Brasil chorou, mas não é caso para isso. No futebol, como na vida, não se ganha sempre e é um erro muito doloroso pensar-se que se pode ganhar sempre ou que os adversários estão sempre condenados a perder. Se os adeptos das equipas que neste campeonato já foram derrotadas na Rússia começassem a chorar, teríamos lágrimas por todo o continente sul-americano desde o México à Argentina, passando pela Colômbia, pelo Peru e pelo Uruguai.
Por isso, os meus amigos brasileiros não têm razões para chorar, nem sequer para ficar tristes. Aqui na península Ibérica, onde também há muitos futebolistas de grande talento, as equipas nacionais de Portugal e da Espanha que tanto prometiam e tanto ambicionavam, também ficaram pelo caminho e não houve nenhuma comoção nacional.
A exagerada mediatização do fenómeno do futebol tem originado que um tão apreciado desporto-espectáculo se tenha transformado num negócio, cujas envolventes emocionais lhe dão contornos de um grande combate ou mesmo de uma grande guerra. Mas futebol não é combate, nem é guerra. É apenas futebol.
E ontem, os belgas que também são muito bons praticantes e muito competitivos, que têm a escola inglesa pois jogam nas suas grandes equipas, marcaram mais golos que os brasileiros. Foi só isso. Não é caso para chorar, nem sequer para ficar triste.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Portugal e Moçambique num novo ciclo

A visita que o primeiro-ministro português está a realizar à República de Moçambique e a que o jornal O País dá hoje um grande destaque, não se enquadra numa vulgar ou protocolar visita de Estado em que se marca presença em alguns locais simbólicos, se depõem coroas de flores, se assinam alguns acordos já antes negociados e se fazem declarações a revelar empatia entre o visitado e o visitante.
A visita de António Costa vai para além do simbolismo da presença do chefe do governo português na III Cimeira Luso-moçambicana, devido às suas ligações emocionais com aquela terra onde em 1929, na antiga cidade de Lourenço Marques, nasceu o seu pai, o escritor Orlando da Costa. De resto, António Costa tem familiares moçambicanos e essa circunstância facilita enormemente o fortalecimento das relações luso-moçambicanas que esta visita consolida.
Durante a visita foram assinados diversos acordos de cooperação, nomeadamente no domínio da segurança social, da administração interna e dos transportes aéreos mas, sobretudo, foram relançadas as relações históricas entre os dois países de língua portuguesa. António Costa foi recebido e conviveu com Filipe Nyusi, o chefe de Estado moçambicano e, das imagens que chegaram até nós, só podemos concluir que se abriram as portas para um novo ciclo de cooperação entre Portugal e Moçambique.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

As bandeiras como símbolo de gratidão

Num país de forte emigração como é Portugal, há os emigrantes que regressam em definitivo e há aqueles que regressam para passar férias e para matar saudades.
Como expressão de gratidão à terra que os acolheu ou como exibição de um sucesso que a emigração proporcionou, muitos desses emigrantes criaram o hábito, que já tem o estatuto de tradição, de hastear a bandeira do país de acolhimento ao lado da bandeira nacional.
Assim, não é raro, sobretudo no Verão, encontrarmos algumas casas nas aldeias portuguesas em que são visíveis as bandeiras de alguns dos países de acolhimento, como por exemplo da França e da Alemanha.
Porém, esta prática tem uma singular expressão nos Açores. Os Açores são historicamente uma terra de emigrantes e nas suas nove ilhas proliferam os sinais que nos recordam essa realidade e são muito frequentes as bandeiras de Portugal e da Região Autónoma, muitas vezes acompanhadas pelas bandeiras dos Estados Unidos da América e do Canadá. Ontem, na ilha do Pico, fui confrontado com uma expressão de amizade luso-canadiana que me era desconhecida: uma bandeira-homenagem em que o escudo português se sobrepõe à folha do plátano-bastardo (Acer pseudoplatanus) que é a árvore nacional do Canadá. A curiosa bandeira flutuava ao vento junto da bandeira da Região Autónoma dos Açores e tratei de a registar próximo da vila da Madalena do Pico.

domingo, 1 de julho de 2018

Portugal nos XVIII Jogos do Mediterrâneo

Os Jogos do Mediterrâneo que, de quatro em quatro anos, se realizam desde 1951 e nos quais participam, através dos respectivos comités olímpicos, os países da orla do Mediterrâneo, terminam hoje em Tarragona. Era previsto que esta 18ª edição se realizasse em 2017, mas devido à instabilidade política e social que afectou a Catalunha no ano passado, os XVIII Jogos do Medioterrâneo foram adiados para o ano de 2018.
Participaram cerca de 4 mil atletas de 26 países mediterrânicos e, pela primeira vez, Portugal foi convidado para participar, tendo-se apresentado na cidade catalã com uma comitiva de 232 atletas para competir em 29 modalidades. Neste ano de estreia, a delegação portuguesa conquistou 24 medalhas, sendo três de ouro, oito de prata e treze de bronze, tendo as medalhas de ouro sido conquistadas no triatlo masculino e feminino e na hipismo por equipas.  As restantes medalhas de prata e de bronze foram conquistadas nas modalidades de tiro, natação, canoagem, ciclismo, atletismo, judo, taekwondo, ténis de mesa e basquetebol feminino. O número de medalhas conquistadas colocou Portugal no 13º lugar no ranking do medalheiro onde se encontram a Itália (155), a Espanha (120), a França (99),  a Turquia (95), o Egipto e a Grécia (45), a Eslovénia (36) e a Sérvia (31). Porém, ser o 13º numa lista de 26 países não é mau nem bom, antes pelo contrário...
Os meios de comunicação portugueses quase ignoraram este acontecimento desportivo, limitando-se a uns brevíssimos apontamentos com classificações, pois andavam demasiado ocupados com o futebol. Alguns atletas portugueses que competiram em Tarragona fizeram oportunas declarações a lamentar o desinteresse da comunicação social portuguesa por estes Jogos e pelas chamadas modalidades amadoras, mas também pelo seu enfeudamento à indústria do futebol. E têm toda a razão!
Os XIX Jogos do Mediterrâneo disputam-se em 2021 na cidade argelina de Oran e só há que esperar que os resultados possam ser ainda melhores do que aqueles que se verificaram em Tarragona.

Sim. Portugal perdeu mas a vida continua

A selecção nacional de futebol jogou ontem os oitavos de final do Campeonato do Mundo e perdeu por 2-1 com a equipa do Uruguai. Os jogadores bateram-se bem, mas o adversário meteu mais golos e ganhou. A imprensa portuguesa destaca hoje “o sonho desfeito”, enquanto as televisões que tanto contribuiram para um histerismo indescritível em torno da participação portuguesa, terão agora que arranjar outros temas para ocupar os seus tempos. Os incontáveis jornalistas e comentadores televisivos que tanto nos massacraram já poderão regressar destas férias na Rússia e descansar depois destas longas jornadas em que se repetiram muitas mil vezes e em que me cansaram.
Sobre a participação portuguesa, que em maior ou menor grau entusiasmou os portugueses, há que afirmar que foi digna e que só não foi mais além porque os adversários também sabem jogar futebol e terão pensado melhor na maneira de abordar o jogo. Ficamos pelos oitavos de final, mas a Holanda e a Itália nem sequer lá estiveram, enquanto a Alemanha nem aos oitavos de final chegou e a Argentina também abandonou ontem a competição depois de ter sido derrotada pela França. Portanto, não há motivos para desconsolos nem frustrações. Nem todos podem ganhar, nem sempre podem ganhar. Perdemos, mas a vida continua. Havemos de ganhar numa próxima vez. Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera!
Muitos jornais internacionais parece que combinaram e destacam nas suas primeiras páginas as fotografias de Ronaldo e Messi, cujas equipas foram ontem eliminadas. Um desses jornais é o El País, mas as fotografias daqueles ídolos aparecem em muitos outros jornais: é o adiós a las estrellas ou a saída de cena dos melhores do mundo.

sábado, 30 de junho de 2018

Vitorino: mais um português em destaque

Os 169 Estados-membros da Organização Internacional das Migrações (OIM), criada em 1951 para encontrar soluções para o problema das migrações, elegeram ontem António Vitorino para o cargo de director-geral daquele organismo que integra a estrutura multilateral da ONU. A candidatura foi formalizada pelo governo português em Dezembro do ano passado e António Vitorino foi eleito depois de eliminar na quarta ronda de votação a candidata costa-riquenha Laura Thompson, a actual vice-directora geral da OIM. Vitorino veio a ser eleito na quinta ronda de votação, à qual compareceu sozinho, tendo sido em todas as rondas o candidato mais votado, enquando o polémico candidato americano Ken Isaacs que fora escolhido por Trump, ficou sempre em último lugar.
A eleição foi muito festejada em Portugal porque se trata de mais um português a ocupar um alto importante da cena internacional para o qual foi eleito por aclamação, tal como acontecera com António Guterres e com Mário Centeno. Estas eleições para altos cargos internacionais evocam-nos outros portugueses que, podendo ter sido candidatos a altos cargos internacionais, escolheram a porta pequena e trabalham como lobistas, por exemplo na Goldman Sachs, ou como funcionários de uma qualquer organização ou, ainda, como facilitadores de negócios.
Não conheço, nem tenho qualquer simpatia pessoal por António Vitorino, mas reconheço que a sua eleição resulta do reconhecimento dos seus méritos e da campanha institucional que foi conduzida a seu favor pelo governo. Porém, a imprensa portuguesa vai de mal a pior e apenas dois jornais referiram numa pequeníssima notícia de primeira página a eleição de Vitorino. Então a sua eleição não é uma grande notícia? Não merecia ao menos uma fotografia na primeira página? Que pobreza de imprensa!

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Joana Vasconcelos no Guggenheim Bilbao

Abre hoje ao público no Museu Guggenheim Bilbao e estará patente até ao dia 11 de Novembro, a exposição “I’m your mirror”, apresentada pela artista plástica Joana Vasconcelos. É a primeira vez que um artista português se apresenta individualmente no mais moderno museu da península Ibérica e esse facto tem um importante significado cultural, em termos de projecção da imagem de Portugal no mundo.
A exposição inclui uma selecção de trinta obras da mais internacional dos artistas portugueses da sua geração, realizadas entre 1997 e a actualidade, entre as quais 14 obras inéditas, como sucede com a instalação de grande dimensão “Egeria”, concebida especificamente para ficar suspensa no átrio do museu concebido pelo arquiteto norte-americano Frank Gehry.
A exposição é uma antologia do trabalho que tem sido desenvolvido por Joana Vasconcelos e que já conquistou o reconhecimento internacional da crítica, designadamente em Versalhes e Veneza, exibindo algumas das obras emblemáticas dos primeiros anos da sua carreira como “Cama Valium” (1998), “Burka” (2002) e “A Noiva” (2001-2005), bem como alguns trabalhos mais recentes como “Marilyn” (2009-2011), “Lilicoptère” (2012), “A Todo o Vapor” (2012) e “Call Center” (2014-2016).
Não é fácil uma deslocação a Bilbau para ver esta importante exposição, mas já está anunciado que a mesma será apresentada a partir de Janeiro no Museu de Serralves.
E aqui está como a projecção da imagem de Portugal no mundo se faz através de um mix em que aparecem Cristiano Ronaldo, António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, mas onde também entram Joana Vasconcelos e outros portugueses reconhecidos internacionalmente pelos seus méritos na arte, na música, na ciência, na literatura ou no desporto.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

A visita oficial que MRS fez ao Donald

Ontem, dia 27 de Junho de 2018, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi recebido na Casa Branca em Washington pelo Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, tendo os dois presidentes mantido uma reunião a sós na Sala Oval durante cerca de 25 minutos, a que se seguiu uma reunião alargada às respectivas equipas de diplomatas e assessores.
Não havia quaisquer assuntos importantes na agenda entre os dois países e MRS nem sequer podia falar em nome da União Europeia. Por isso, foi um encontrosinho para a fotografia, em que  para além das declarações de circunstância, sempre amistosas e elogiosas, os dois presidentes falaram de banalidades diversas, embora o encontro também tenha servido para lembrar ao Donald que Portugal existe e que, como salientou MRS, foi "o primeiro país neutral a reconhecer a independência dos Estados Unidos da América, apesar de ter a Inglaterra como o mais antigo aliado". Como convém, nestes casos, houve uma declaração final em que MRS disse que"não houve nada, mas verdadeiramente nada de relevante naquilo que era convergente ou divergente que não tivesse sido tratado". E ficamos mais descansados.
Tanto quanto sabemos, nas múltiplas viagens presidenciais de MRS desapareceram as extensas comitivas de que os anteriores presidentes tanto gostavam. Anteriormente, eram empresários, banqueiros ou agentes culturais, quase sempre os mesmos, que enchiam os aviões e os hotéis nas viagens presidenciais, com a conta a ser paga pela Presidência da República. Nesse aspecto, MRS inovou e acabou com essa dispendiosa fantasia das comitivas presidenciais. Quanto ao resto, nada mas mesmo nada se pode esperar deste encontro entre MRS e o Donald para além de uma fotografia, que aliás a imprensa portuguesa não deixou de divulgar, embora o Diário de Notícias tenha lamentavelmente sobreposto à dita fotografia uma não-notícia especulativa. Em síntese, é muito útil e animador que possamos exibir pelo mundo um presidente moderno, culto e cosmopolita como é MRS, mesmo que seja só para ser fotografado.

O êxito de Salvador Sobral em Málaga

Salvador Sobral, o músico português que ganhou o Festival da Eurovisão em 2017, iniciou uma tournée por Espanha e actuou ontem no Teatro Cervantes de Málaga. O seu concerto foi um êxito que o jornal Málaga hoy destacou hoje com uma fotografia de primeira página a seis colunas.
Seis meses depois de um transplante cardíaco que se realizou em Lisboa no Hospital de Santa Cruz, o músico português retomou a sua vida normal, embora tenha passado de um quase anonimato artístico para um pedestal de fama. Comunicador, poliglota e com um discurso inteligente e bem humorado, Salvador Sobral foi solicitado para dar entrevistas em que, com humor, recordou uma sua apresentação em Málaga há três anos:
“Toquei em Málaga com mais músicos que público. Éramos um quarteto e havia três pessoas a ouvir-nos. Superdeprimente. Mas voltarei a tocar em bares quando tudo isto (a fama), que é efémera, acabar”.
Uma outra ideia que se destaca nas suas entrevistas é a sua referência à musica dos festivais da canção:
“Foi uma ingenuidade da minha parte pensar que podia mudar alguma coisa. Ganhei a Eurovisão porque era diferente e o que é diferente ganha sempre. Um ano ganhou uma mulher com barba, no outro ano ganhou uma fulana que emite sons de galinha e no outro ano ganhei eu com uma canção bonita”.
O triunfo no Festival da Eurovisão de 2017 projectou-o e permite-lhe ter inúmeros concertos agendados para os próximos tempos em Espanha, Suiça, Alemanha e, naturalmente, Portugal. Ainda bem. Ele mostra-se realista e parece não se deslumbrar com o que lhe está a acontecer. Ele é um homem muito inteligente, de muito valor e de muita coragem, que até sabe que a fama é coisa efémera. O seu êxito não pode deixar de nos emocionar. Parabéns, Salvador Sobral.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

A Europa face à sua própria implosão

O jornal belga Le Soir destaca na sua edição de hoje a situação de fragilidade em que vive a União Europeia, afirmando que está em crise e que, pela primeira vez na sua história, a sua principal ameaça não é externa. O jornal escolheu o sugestivo título “L’Europe contemple son implosion”, porque entende que existe um verdadeiro risco de implosão cada vez mais anunciado, porque é demasiado complexo manter a coesão de 28 estados-membros, com 28 culturas políticas e com 28 interesses conflituantes. Não se trata apenas do Brexit ou da “ditadura orçamental” de Bruxelas, da crise migratória ou das velhas questões da repartição de fundos estruturais. O novo problema da União Europeia são as chamadas democracias iliberais que governam a Hungria de Viktor Orbán e a Polónia de Jaroslaw Kaczynski e que se estão a confrontar com as democracias liberais.
O conceito de iliberismo ou democracia iliberal tem sido utilizado para classificar os regimes ou personalidades democraticamente eleitos ou até reeleitos, mas que ignoram os limites dos seus poderes e não aceitam as regras da democracia liberal de tipo ocidental, actuando segundo a sua própria vontade e privando os cidadãos dos direitos e liberdades fundamentais. Apontam-se os casos de Singapura, China, Índia, Turquia e Rússia que, por vezes, são considerados uma ante-câmara de ditaduras. São casos de algum sucesso económico, mas também são casos de grande nacionalismo e de algum extremismo que perturbam as relações internacionais. Por isso, a Hungria e a Polónia e, mais recentemente a Áustria, começam a ser uma perturbante ameaça para a União Europeia e para o seu projecto de progresso e de solidariedade.