quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Brasão de Ceuta recorda sempre Portugal

A edição de hoje do jornal El Pueblo de Ceuta publica uma entrevista com Juan Jesús Vivas Lara, o actual presidente do governo e alcaide-presidente da Ciudad Autónoma de Ceuta, que tem 65 anos de idade, é economista formado na Universidade de Málaga, representa o Partido Popular e ocupa o seu cargo desde o dia 7 de Fevereiro de 2001.
O presidente-alcaide é escolhido pela Assembleia de Ceuta e confirmado pelo rei de Espanha, mas o facto de levar 18 anos de presidência por escolha democrática dos deputados ceitis é um facto a salientar.
Porém, não é a entrevista que nos desperta a atenção, mas o facto de Juan Vivas ter sido fotografado no seu gabinete em frente do brasão de armas da cidade de Ceuta, que é o escudo português que a cidade conserva desde que foi conquistada por D. João I em Agosto de 1415.
Em 1580, quando Filipe II de Espanha reivindicou os seus direitos ao trono de Portugal, enquanto neto de D. Manuel I e genro de D. João III, foi instituída a União Ibérica mas o governo da cidade de Ceuta continuou a ser da responsabilidade portuguesa. No entanto, quando em 1640 foi restaurada a independência portuguesa, a cidade de Ceuta decidiu não reconhecer D. João IV e permanecer sob o domínio espanhol, o que veio a ser oficializado através do Tratado de Lisboa assinado pelos dois países ibéricos em 1668.
A bandeira de Lisboa gironada com oito peças de negro e prata, assim como o brasão de armas de Portugal, nunca deixaram de ser os símbolos da cidade de Ceuta, que também foi o ponto de partida para a expansão marítima portuguesa.

As sucessivas derrotas de Theresa May

A votação ontem realizada no Parlamento britânico serviu apenas para definir que não haverá Brexit sem um acordo com a União Europeia e que é necessário renegociar alguns pontos desse acordo, sobretudo em relação à fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda.
Theresa May foi mandatada para voltar a Bruxelas, mas depois de ter defendido o acordo antes alcançado e ter visto a sua rejeição no Parlamento por uma diferença de 230 votos, não se vislumbra como poderá convencer a União Europeia a reabrir negociações, sobretudo depois das repetidas declarações dos seus líderes nacionais de que não era possível a retoma de negociações e que se tratava de um assunto encerrado.
Theresa May foi humilhada pelo seu Parlamento e agora terá de ir a Bruxelas para ser humilhada uma vez mais. É um invulgar caso de teimosia que já ninguém compreende. A história do Reino Unido e a sua primeira-ministra não podem dar ao mundo esta imagem de decadência. Winston Churchill e Margaret Thatcher devem estar muito incomodados.  
A menos de dois meses da anunciada saída da União Europeia, o problema está a complicar-se e hoje é evidente que nem os eleitores britânicos, nem os partidos políticos e os seus deputados, sabiam das consequências do que ia acontecer depois do referendo do dia 23 de Junho de 2016. A discussão que se arrasta há muitos meses entre uma corrente que conserva o orgulho vitoriano e uma outra corrente moderna e europeísta, já abalou o prestígio do Reino Unido, que está mesmo à beira de um precipício. A partir de agora ninguém poderá fazer previsões porque, tanto o melhor como o pior, podem acontecer.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A tragédia da barragem do Brumadinho

A notícia da ruptura da barragem do Brumadinho, situada a cerca de 50 quilómetros da cidade de Belo Horizonte, que aconteceu na manhã do dia 25 de Janeiro, não causou inicialmente grande impacto no exterior, até porque essas coisas acontecem de vez em quando, inclusive no Brasil onde há três anos ocorreu um caso semelhante em Mariana, também no Estado de Minas Gerais.
Porém, quando as imagens e os números de mortos e desaparecidos em consequência daquele desastre começaram a ser divulgados, todos ficamos elucidados quanto à enorme dimensão da tragédia.
barragem Mina do Feijão, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, acumulava as lamas tóxicas resultantes da limpeza do minério de ferro e a sua ruptura não só provocou mais um desastre ambiental como, sobretudo, originou uma catástrofe humana que ainda não foi possível quantificar. Estão já confirmados 65 mortos, mas há ainda 279 pessoas desaparecidas, provavelmente soterrados afundados pelas lamas, por onde os bombeiros e os voluntários procuram agora encontrar os desaparecidos. A imprensa brasileira tem dado grande destaque a esta tragédia e o jornal Estado de Minas, que se publica em Belo Horizonte, elogia o trabalho dos bombeiros e dos voluntários, a quem classifica de heróis.
Entretanto, cinco pessoas foram detidas por suspeitas de responsabilidade pelo que aconteceu, incluindo três engenheiros da empresa responsável pela construção e segurança da barragem que é a Vale, S.A., uma multinacional brasileira que é uma das maiores empresas mineiras do mundo e que é a maior produtora mundial de minério de ferro. A lógica da maximização do lucro e a negligência das autoridades é que dão origem a estas catástrofes em Mariana, em Brumadinho ou em Borba.

A crise do Brexit e a palavra da Rainha

Se tudo correr como está previsto, o Reino Unido deixará a União Europeia no próximo dia 29 de Março, isto é, daqui a 60 dias. Porém, a confusão é total, ninguém se entende e já está consolidada a ideia que haverá um adiamento da saída. O plano de Theresa May para o Brexit foi derrotado pelo Parlamento no passado dia 15 de Janeiro, pelo que hoje será apresentado uma espécie de plano B em que já ninguém acredita, a não ser a própria Theresa May.
Nestas circunstâncias, os britânicos voltam a estar confrontados com a discussão em torno do leave ou do remain, havendo ainda os que defendem o soft Brexit e os que temem o hard Brexit. Depois há os inúmeros problemas regionais e sectoriais que estão por resolver, com destaque para a fronteira da Irlanda em que os unionistas e os republicanos da Irlanda do Norte ainda não se entenderam, mas também há a ameaça da Escócia de se divorciar do Reino Unido depois de 300 anos de casamento.
Nesta enorme confusão, a Rainha Isabel II tem mantido a sua tradicional postura de neutralidade em relação aos temas políticos, mas recentemente veio a público apelar discretamente para que os políticos britânicos se entendam e, sem mencionar o Brexit, a disse aos políticos para encontrarem “um caminho comum” e para que fossem respeitados os pontos de vista diferentes. Os analistas de imediato associaram as palavras da Rainha à crise do Brexit e à discussão que vai decorrer em torno do plano B.
O Daily Express foi um dos jornais que destacou as palavras da Rainha indirectamente dirigidas à classe política e que foram um contributo para a cura de uma Grã-Bretanha tão dividida.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A cidade de Lisboa receberá as JMJ 2022

Na passada semana decorreram na cidade do Panamá as Jornadas Mundiais da Juventude, por vezes referidas através da sigla JMJ, que constituem um dos mais importantes acontecimentos religiosos no mundo.
A imprensa deu-lhe a devida relevância, nomeadamente o jornal La Estrella de Panamá, até porque o Papa esteve presente.
As Jornadas Mundiais da Juventude ou JMJ, foram instituídas em 1985 pelo Papa João Paulo II e reúne milhares de jovens de todo o mundo católico, embora também seja aberta a jovens de outras religiões.
Inicialmente, as JMJ foram estabelecidas como um acontecimento anual, mas depois passaram a ser realizadas com intervalos de dois ou de três anos. Os locais são escolhidos pelo Papa e, desde que foram criadas, as JMJ já foram realizadas em Roma, Buenos Aires, Santiago de Compostela, Czestochowa, Denver, Manila, Paris, Roma, Toronto (pontificado de João Paulo II), Colónia, Sydney e Madrid (pontificado de Bento XVI) e Rio de Janeiro, Cracóvia e Panamá (pontificado do Papa Francisco). Segundo consta dos registos, as mais concorridas edições das JMJ aconteceram em Manila em 1995, em que estiveram reunidas 4 milhões de pessoas, e em 2013 no Rio de Janeiro, que recebeu 3,7 milhões de pessoas. Estes números mostram que, para além do seu carácter religioso, as JMJ são também um encontro universal de jovens que procuram a paz e a concórdia ou, como dizem os católicos, um mundo melhor.
No Panamá o Papa Francisco anunciou que Lisboa será a cidade organizadora das próximas Jornadas Mundiais da Juventude e esse anúncio deu origem a inúmeras declarações de euforia por parte de diversas entidades políticas e religiosas portuguesas, sobretudo porque se espera a presença de um milhão de visitantes estrangeiros em Lisboa, o que é um contributo para a afirmação da modernidade da cidade como um centro de paz e de abertura ao mundo, onde confluem as culturas europeias e africanas, asiáticas e americanas.

domingo, 27 de janeiro de 2019

O muro de Trump na fronteira mexicana

O cartoon é uma expressão artística muito apreciada porque de uma forma inteligente e compreensível, explica, analisa e critica uma dada situação, ridicularizando por vezes os seus protagonistas. Por isso, a generalidade dos jornais não o dispensa.  
Nos últimos tempos, a vida política americana tem sido agitada pela obcessão de Donald Trump para que seja construído um muro na fronteira dos Estados Unidos com o México, conforme prometeu na sua campanha eleitoral e que, na sua opinião, ajudaria a conter a imigração ilegal e o tráfico de drogas vindas do sul.
A fronteira americana com o México tem cerca de 3.200 km e o custo previsto para a construção desse muro cobrindo apenas metade da sua extensão ainda está por saber, estimando-se que se situa entre os 12 e os 70 mil milhões de dólares. Os Democratas, que têm a maioria na Câmara dos Representantes, consideram que se trata de um desperdício do dinheiro dos contribuintes e não concordam com a construção desse muro, pelo que daí tem resultado a paralização do governo federal.
O muro de Trump tem estado no centro da política americana e tem dado origem ao aparecimento de muitos cartoons na imprensa mundial. De entre todos, destacamos aqui um dos mais expressivos de quantos conhecemos sobre este controverso assunto da política americana.

sábado, 26 de janeiro de 2019

A situação tensa que vive a Venezuela

A situação na Venezuela continua muito tensa, embora a imprensa venezuelana não exprima essa tensão talvez porque, desde há muitos anos, está habituada ao clima de instabilidade que agora se vive no país e o facto de haver dois presidentes, nem parece perturbá-la. As imagens que nos chegam pela televisão não são suficientemente esclarecedoras, porque o que se passa nas ruas de Caracas não é diferente do que vamos vendo em Atenas, Paris ou Barcelona. As imagens da abertura do ano judicial e da tomada de posição das chefias militares, até parecem mostrar que a vida política venezuelana decorre com toda a normalidade e que a instabilidade anunciada é uma construção mediática com origem nas agências internacionais que combatem o chavismo.
O que sabemos é que meio mundo está contra Maduro e que reconhece o jovem Guaidó como o presidente da Venezuela, mas é evidente que foram os incentivos de Trump e Bolsonaro que levaram à radicalização de posições. A União Europeia tem uma posição mais equilibrada e pede eleições livres e justas, enquanto o regime de Maduro, que tem o apoio da Rússia e da China, mas também de outros países, acusa Guaidó de estar à frente de um golpe com a cumplicidade americana.
Neste quadro, ninguém quer perder e, uma vez mais, lá estão confrontados os grandes interesses estratégicos e económicos dos senhores do costume, à custa dos venezuelanos ou do petróleo venezuelano.
As Forças Armadas da Venezuela já expressaram o seu apoio a Nicolás Maduro, mas o jornal colombiano El Observador pergunta hoje se esse apoio é firme. Essa pergunta parece insinuar que os militares se podem dividir e isso seria trágico. De facto, na tradição sul-americana o papel dos militares é decisivo e o que se espera é que se mantenham coesos, que contribuam para a pacificação política e social do país e que possam evoluir para uma posição de árbitros e de mediadores entre as duas venezuelas que estão em rota de colisão.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Maduro e o fim de ciclo na Venezuela

A proclamação de Juan Guaidó, o jovem presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, que ontem enfrentou Nicolás Maduro e se declarou como presidente interino da República Bolivariana da Venezuela foi uma atitude apoiada sem reservas por diversas instâncias políticas internacionais, a começar pelos vizinhos Brasil e Colômbia, pelos Estados Unidos e por outros países. A imprensa internacional também tem alinhado na condenação do regime de Maduro e tem transmitido a ideia de que já está derrotado e, de facto, as enormes manifestações populares nas ruas das cidades venezuelanas acabarão por afastar Maduro do poder, embora o regime tenha aliados de peso internos e externos, como Cuba, a Rússia, a China e a Turquia. Portanto, se houve quem pressionasse Guaidó para avançar, também haverá quem pressione Maduro para não recuar. Assim, há dois presidentes na Venezuela!
É uma situação muito complexa para os venezuelanos, a juntar à crise económica e social, enquanto algumas ingerências externas, como as posições de Trump e Bolsonaro, se estão a revelar prematuras e só servem para extremar as posições. O anúncio de que os polícias se estão a juntar aos manifestantes, a ser verdadeira, desequilibra a situação nas ruas a favor de Guaidó e das forças democráticas, mas a dúvida ainda subsiste: como irão reagir as Forças Armadas? Será da sua reacção, unidas ou divididas, a favor ou contra Maduro, que a Venezuela sairá desta situação, embora desejavelmente se devam manter coesas e possam vir a arbitrar o conflito político e a pacificar o país.
Mais sensata parece ser a posição da União Europeia e das Nações Unidas que pedem contenção e diálogo, bem como a realização de eleições livres e justas, até porque sabem que há duas venezuelas radicalizadas que é preciso acalmar e unir, para evitar que se confrontem para além da normal luta política, porque isso seria trágico. O que não há dúvidas é que Maduro está de saída e que o ciclo do chavismo está a chegar ao fim.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Uma marca cultural portuguesa em Goa

Começa no próximo dia 1 de Fevereiro em Goa o Monte Music Festival, uma iniciativa da Fundação Oriente que, desde 2001, o organiza anualmente. Durante três dias, não só os goeses, mas também muitos turistas indianos e estrangeiros, procurarão os espaços exteriores e interiores da Capela de Nossa Senhora do Monte, situada numa das mais simbólicas colinas de Velha Goa, para assistir a um dos festivais mais prestigiados da Índia, em que se juntam as tradições musicais clássicas e modernas, tanto ocidentais como indianas.
O festival tem sido uma plataforma de encontro e de comunicação entre as diversas expressões artísticas e musicais do Ocidente e do Oriente e é, seguramente, um dos eventos mais aguardados no calendário cultural de Goa, em que habitualmente são recebidas cerca de três mil pessoas.
O Monte Music Festival é uma iniciativa de grande prestígio para a cultura portuguesa, não só porque nasceu da iniciativa de uma instituição cultural portuguesa, mas também porque tem incluído sempre alguns grupos musicais e artistas portugueses. Com este evento, a memória cultural portuguesa em Goa reanima-se e assume uma postura de modernidade, mostrando que a herança cultural portuguesa em Goa vai para além das igrejas, das muralhas, das casas indo-portuguesas e das saudades do bacalhau e do fado.

domingo, 20 de janeiro de 2019

A voz da Escócia está contra Theresa May

A primeira-ministra britânica Theresa May deverá apresentar amanhã no Parlamento uma nova proposta de acordo para o Brexit, mas mesmo que essa proposta venha a ser aprovada, não é seguro que a União Europeia aceite qualquer alteração ao acordo que já tinha sido alcançado. Por isso, são cada vez mais as vozes que acusam Theresa May de teimosia e que clamam por outras soluções.
Os escoceses são quem mais se opõe ao Brexit. No referendo de 2016 já tinha havido 62% de votos escoceses contra o Brexit, pelo que a contestação aos planos de Theresa May está em linha com a votação de 2016, enquanto o bicentenário jornal The Herald, que se publica em Glasgow, envia hoje uma clara mensagem a Theresa May: stop this now.
Nesta edição, o jornal inclui entrevistas a várias personalidades políticas, empresariais e académicas a que chamou a Escócia cívica, tendo concluído que o Brexit deve ser adiado e que deve ser evitado o caos que será uma saída em finais de Março sem acordo, que seria desastroso para a economia e para a sociedade escocesas.
Os entrevistados acusam a primeira-ministra de, em dois anos e meio, não ter sido capaz de fazer um acordo satisfatório e de ter lançado o Reino Unido numa grande incerteza, afirmando que é preciso parar o relógio, isto é, pedir à União Europeia a extensão do artigo 50 do Tratado de Lisboa - que regula os procedimentos a que deve obedecer o estado-membro que tenha a intenção de abandonar a União Europeia - e voltar a dar a palavra aos eleitores britânicos.

sábado, 19 de janeiro de 2019

O terrorismo regressou à Colômbia

Na passada quinta-feira explodiu um carro-bomba junto de uma escola militar de Bogotá que provocou 21 mortos e 72 feridos. A autoria deste atentado foi atribuída ao Exército de Libertação Nacional (ELN) e, pela sua extrema violência, causou um unânime repúdio nacional até porque, apesar dos avanços e recuos próprios destes processos, havia negociações em curso para encontrar um cessar-fogo e uma paz definitiva para a Colômbia.
As guerrilhas colombianas remontam aos anos de 1960, quando se formaram alguns grupos armados com orientações e programas ideológicos de inspiração diversa. O mais importante desses grupos eram as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que chegaram a dominar cerca de 20% do território nacional e teriam quase 20 mil guerrilheiros. Porém, em Junho de 2016 foi assinado um acordo de paz entre o governo da Colômbia e as FARC e, nesse ano, o presidente Juan Manoel Santos foi distinguido com o Prémio Nobel da Paz, enquanto os membros das FARC se transformaram num partido político a que puseram o nome de Força Alternativa Revolucionária da Colômbia.  
Pensou-se que uma das mais antigas guerrilhas do mundo tinha acabado, mas este atentado veio mostrar que o ELN ainda está activo na Colômbia, pelo que o presidente Iván Duque reagiu com firmeza a este atentado e fez um apelo à unidade dos colombianos contra o terrorismo.
Entretanto, para além deste inesperado reaparecimento do ELN, também a situação política nas fronteiras colombianas com o Brasil e com a Venezuela não pode deixar de merecer a atenção da Colômbia.

Trump quer o regresso dos seus soldados

A última edição da revista Newsweek destaca as recentes decisões de Donald Trump em relação ao Daesh e à Síria, que mostram a sua vontade de trazer de volta para casa os soldados americanos que, segundo a revista, estão actualmente envolvidos em conflitos em sete países. 
Aconteceu que, ignorando os pareceres dos comandos militares e dos seus assessores, o Donald se decidiu recentemente pela retirada dos dois mil soldados americanos que se encontram na Síria, o que deixa os seus aliados curdos à mercê dos turcos, mas também já anunciou a redução significativa das tropas americanas que se encontram no Afeganistão. Essa decisão, foi acompanhada por uma declaração do Donald, que afirmou que “American forces will come home under a banner of victory”, mas muitos observadores afirmam tratar-se uma ilusão que se possa cantar vitória sobre o Daesh, sobre os talibans afegãos ou sobre outras forças adversárias que lutam no Médio Oriente. O que o Donald está a fazer, sem medir as consequências ao nível do descrédito da sua política externa, é uma tentativa para aumentar a sua popularidade ao alinhar na crescente crítica interna às guerras “que nunca mais acabam”, que desgastam as tropas e que custam muito dinheiro. Porém, o Donald acrescenta-lhe um toque pessoal e, embora não tenha nenhuma evidência clara quanto a uma vitória americana, nem de uma derrota dos seus inimigos, promove o regresso dos soldados e trata de “vender” internamente aos cidadãos americanos a ideia de uma vitória militar.
Porém, nem os americanos acreditam que o ISIS ou Daesh, a Al-Qaeda, os Mujahideen, os Talibã ou a Frente al-Nusra, estejam derrotados.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Defesa do património cultural em Macau

Macau é, certamente, o maior símbolo da expansão marítima portuguesa do século XVI na Ásia Oriental e as ruínas da antiga igreja jesuíta da Madre de Deus e do convento de São Paulo são, porventura, o seu mais expressivo ex-libris. Essas ruínas são o que resta desse conjunto arquitectónico barroco depois de um incêndio acontecido em 1835, de que apenas se salvaram a fachada em granito da igreja da Madre de Deus e a escadaria monumental. Essas ruínas são um exemplo único da arquitectura barroca na China e localizam-se no centro histórico de Macau e, desde 2005, fazem parte da Lista do Património Mundial da Unesco.
A fotografia das chamadas ruínas de São Paulo ilustra a primeira página da edição de hoje do jornal Tribuna de Macau, conhecido habitualmente como o jtm, a propósito do Conselho do Património Cultural.
Acontece que a manutenção, reparação ou reconstrução dos edifícios dos mais antigos bairros macaenses se tem tornado um verdadeiro problema, em que se chocam os interesses imobiliários, muitas vezes especulativos, com a política de preservação do património cultural edificado. Aquele Conselho é o garante da salvaguarda desse património, que deve assentar essencialmente no restauro dos edifícios degradados e que se deve opor à sua demolição para reconstrução, embora aceite algumas situações intermédias em que possam ser preservadas apenas as fachadas dos edifícios.
O Conselho do Património Cultural tem competências no que respeita à classificação dos edifícios com interesse cultural de Macau e, por isso, é um alvo dos poderosos interesses imobiliários locais. Porém, o Conselho tem fortes apoios na instância política e a simples reprodução da imagem das ruinas de São Paulo na sua edição de hoje, revela que também tem o apoio da imprensa local de língua portuguesa. Nem podia ser de outra maneira...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O acordo que humilhou Theresa May

Perante o que sucedeu ontem no Parlamento britânico é preciso lembrar que o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia se realizou no dia 23 de Junho de 2016, que votaram 33,5 milhões de eleitores e que 48,11% escolheram remain e 51,89% escolheram leave. A Escócia e a Irlanda do Norte, tal como a cidade de Londres, votaram pelo remain, enquanto a Inglaterra e o País de Gales votaram pelo leave. O Reino Unido ficou dividido e a decisão de avançar com o Brexit tinha uma enorme fragilidade política, como se tem observado.
A primeira-ministra Theresa May avançou para Bruxelas e iniciou as negociações tendentes ao divórcio. O desafio era complexo e à medida que o processo avançava, apareciam inesperadas dificuldades a mostrar que a análise custo-benefício da decisão britânica era mais desfavorável do que inicialmente se pensara. As incertezas começaram a perturbar a opinião pública britânica, mas o acordo entre Londres e Bruxelas acabou por ser obtido.
Ontem, o plano para a saída do Reino Unido da União Europeia teve 202 votos a favor e 432 votos contra. Foi uma estrondosa derrota para o governo de Theresa May que viu 118 dos seus 317 deputados a votar contra a sua proposta. “A complete humiliaton”, escreveu hoje a edição do The Daily Telegraph.
A saída da União Europeia prevista para 29 de Março ficou comprometida. Theresa May tem agora três dias para apresentar uma nova proposta, mas da parte europeia tem sido repetido que não haverá quaisquer revisões do acordo já conseguido.
As hipóteses sobre o que se poderá passar são uma incógnita. Jeremy Corbyn, o líder trabalhista, já anunciou a apresentação de uma moção de censura, o que pode significar que May esteja a poucas horas de se demitir, o que abre a porta a eleições gerais antecipadas, enquanto a realização de um segundo referendo ganha cada vez mais apoiantes. David Cameron bem pode andar preocupado com o imbróglio que arranjou no Reino Unido.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Uma nova estratégia para a Catalunha

A imprensa espanhola é hoje dominada pelo orçamento apresentado pelo governo de Pedro Sanchéz e a nota dominante é o aumento do investimento público na Catalunha, que é interpretado como uma tentativa de adormecer o movimento separatista catalão. O jornal ABC escolheu para título da sua edição que “o golpismo tem prémio” e ilustra a sua primeira página com a Catalunha a festejar com fogo de artifício. Essa também parece ser a opinião das regiões mais desfavorecidas que contestam o favorecimento das regiões do nordeste da Espanha, que são as que menos precisam, mas que mais barulho fazem.
A estratégia de Pedro Sanchez e do governo do PSOE é bem diferente daquela que foi prosseguida por Mariano Rajoy e pelo governo do PP, porque enquanto Rajoy enfrentava duramente os independentistas, Sanchéz tem adoptado a táctica do diálogo e da cedência de alguma coisa, como se vê agora no orçamento que aumenta 52% na Catalunha e 32% em Aragão. Outro jornal madrileno, na linha do que escreveu o ABC, diz que “Sanchéz rega o separatismo com milhões e ainda oferece mais”.
Embora o orçamento também tivesse sido aumentado noutras regiões, como na carenciada Extremadura onde cresceu 27,3%, a opção orçamental gerou muito desagrado nas outras regiões autónomas espanholas, designadamente na Galiza, nas Canárias e no País Basco. A Galiza afirma-se marginalizada e um dos seus mais influentes jornais escreve hoje que o orçamento representa “67 euros menos para cada galego e 93 euros mais para cada catalão”.
Só o futuro nos pode revelar como vai evoluir o problema catalão, embora não pareça que a boa solução se encontre na via orçamental.