sábado, 11 de setembro de 2021

O trágico 9/11 e os traumas da América

Perfazem-se hoje vinte anos sobre a data em que ocorreram os ataques terroristas aos Estados Unidos, dirigidos às Torres Gémeas de Nova Iorque e ao Pentágono em Washington, tendo havido um outro avião que se despenhou em Shanksville, na Pensilvânia. Quatro aviões comerciais foram transformados em mísseis humanos tripulados por dezanove fanáticos militantes da al-Qaeda e daí resultou a morte de 2996 pessoas, das quais 2977 eram inocentes.
O mundo nunca mais foi como antes e a vida dos cidadãos tornou-se mais imprevista e menos segura. A paz e a prosperidade ficaram cada vez mais ameaçadas por acções terroristas, mas também pelas alterações climáticas, pelos efeitos do fanatismo religioso e pela desigualdade entre os seres humanos.
Nessa mesma noite de 11 de Setembro de 2001, o presidente George W. Bush discursou ao mundo para anunciar a determinação americana na perseguição dos terroristas e de quem os apoiava. Menos de um mês depois iniciava-se a ocupação militar do Afeganistão, liderada pelos americanos e com a participação de 46 países aliados, tendo os talibans sido afastados do poder. Porém, Osama bin Laden, o inspirador das acções terroristas contra os Estados Unidos, só veio a ser morto em Junho de 2011, numa altura em que a presença militar estrangeira no Afeganistão parecia não ter fim, tendo-se de facto prolongado por mais dez anos.
Os últimos vinte anos mostraram que o mundo está cada vez mais dividido e que os Estados Unidos deixaram de ser o polícia do mundo, pois as suas aventuras militares, antes no Iraque e depois no Afeganistão, foram duas armadilhas, dois brutais enterros de dinheiro e duas desprestigiantes derrotas. Uma boa parte do caminho para o apaziguamento mundial depende da forma como os Estados Unidos possam ultrapassar os traumas que perseguem o país desde o 11 de Setembro, mas há quem duvide da possibilidade de ultrapassar a contradição americana entre a sua vanguarda tecnológica, económica e cultural, e a outra parte da população pobre, ignorante, desinformada e que até vota em Trump. 
De facto, o principal problema da América é a própria América.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

R.I.P. Jorge Sampaio

Retrato oficial do Presidente
Jorge Sampaio por Paula Rego (2005)
Com 81 anos de idade faleceu hoje Jorge Sampaio. É uma triste notícia para a nação portuguesa porque acaba de perder um dos seus mais ilustres filhos das últimas gerações, que não era apenas um antigo e prestigiado Presidente da República mas, sobretudo, uma referência da Democracia Portuguesa.
Antes do 25 de Abril foi dirigente estudantil no tempo do combate à Ditadura, foi advogado de presos políticos oposicionistas e foi um exemplar defensor da Liberdade e da Democracia. Depois da “madrugada inteira e limpa” foi um esclarecido apoiante dos capitães de Abril que derrubaram a Ditadura, integrou governos provisórios, foi deputado e líder parlamentar e, apesar de se ter filiado no Partido Socialista e ter sido seu secretário-geral, seguiu uma vida política bastante autónoma que o levou à Presidência da Câmara Municipal de Lisboa e à Presidência da República.  Entre muitas outras intervenções relevantes, recordo a sua entrevista à cadeia americana CNN, que se revelou decisiva para a resolução do problema de Timor.
As homenagens que lhe estão a ser prestadas por todos os quadrantes políticos portugueses distinguem o homem de causas e o exemplo de ética, mostrando a grandeza da sua coragem, humanismo e solidariedade. Já ouvira falar dele como oposicionista à Ditadura e, depois de 1974, fui algumas vezes a sessões públicas e a comícios apenas para o ouvir. Nunca tive o privilégio de alguma vez lhe ter falado, apesar de me ter cruzado com ele várias vezes e de, como cidadão, sempre lhe ter dado o meu voto.
Com o desaparecimento de Jorge Sampaio todos perdemos um protagonista de referência da nossa história recente, como homem de cultura, como cidadão exemplar e como político de excelência. 
Homens como Jorge Sampaio fazem muita falta à Democracia portuguesa!

Bolsonaro recua e dá o dito por não dito

Nas recentes celebrações do 199º aniversário da independência do Brasil, pudemos ver e ouvir nas televisões o discurso agressivo e irresponsável de Jair Bolsonaro, em que insultou o Supremo Tribunal Federal (STF) e os seus onze juízes, sobretudo o ministro Alexandre de Moraes, incitando os seus seguidores à desobediência judicial ou mesmo a um levantamento popular. Na rua foi pedida a destituição e a prisão de todos os juízes do STF e até uma intervenção militar que ajudasse a manter Bolsonaro no poder. Foram algumas horas de grande tensão a lembrar as atitudes antidemocráticas e golpistas de Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos que incitou os seus fanáticos seguidores a fazer a insólita invasão do Capitólio no dia 6 de Janeiro de 2021. Bolsonaro ensaiou qualquer coisa semelhante, mas não previu que a dignidade ainda é um valor na sociedade brasileira e na sua esfera judicial, apesar de alguns maus exemplos como o do imprudente e ambicioso Sérgio Moro.
Através da televisão, Luiz Fux, o presidente do STF, reagiu com firmeza e sem equívocos às ameaças de Bolsonaro, que terá concluído que perdeu esta batalha e que tinha ido longe demais ao desafiar o STF. Por isso, dois dias depois do seu inflamado discurso, veio fazer uma declaração em que recua, diz respeitar os poderes dos órgãos constitucionais e até elogia o ministro Alexandre de Moraes que antes atacara com extrema violência verbal. Segundo revelam os jornais, por intermediação do ex-presidente Temer, já está acordado um encontro entre Bolsonaro e Alexandre de Moraes para discutir os acontecimentos de 7 de Setembro.
Parece, portanto, que a tensão no Brasil serenou. Ainda bem.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Histórias de Um Império: exposição a ver

A pandemia do covid-19 desorientou bastante as nossas vidas e os nossos hábitos sociais e culturais mas, apesar de ainda ser necessária muita prudência, começa a sentir-se algum desanuviamento. A vida social agita-se com a retoma das férias, com a chegada dos turistas e com a frequência de restaurantes, enquanto as iniciativas culturais começam a aparecer sobretudo quando podem garantir o “distanciamento social” que as autoridades sanitárias recomendam. Assim acontece com as exposições que, quando são bem planeadas e organizadas, significam aprendizagem e fruição cultural.
Quando ainda está activa no Palácio da Ajuda a excelente exposição D. Maria II. De princesa brasileira a rainha de Portugal. 1819-1853, surge na cidade de Lisboa uma outra exposição intitulada Histórias de Um Império, apresentada pela Fundação Oriente e comissariada por um reconhecido especialista nas artes orientais que é Nuno Vassalo e Silva.
Trata-se uma exposição inédita de obras da Colecção Távora Sequeira Pinto, que documenta, com 150 peças, as relações artísticas entre Portugal e as culturas do império asiático. A exposição centra-se em oito núcleos temáticos e mostra “a riqueza, a complexidade e a surpreendente beleza da arte produzida nas redes comerciais criadas por Portugal, um pouco por toda a Ásia”. As obras de arte e os objetos característicos apresentados documentam uma diversidade muito alargada de origens, tipologias e materiais.
A exposição estará patente até Outubro de 2022 e conta com a publicação de um catálogo que reúne textos de investigadores nacionais e estrangeiros, especialistas nas temáticas abordadas. Segundo foi anunciado, a importante colecção particular de Távora Sequeira Pinto vai encontrar uma nova casa no Matadouro Industrial de Campanhã, uma das 16 futuras “estações” do Museu da Cidade do Porto.
Eu já visitei e recomendo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

O Jair imita o modelo de Donald Trump

A independência do Brasil e a sua separação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves foi um processo que decorreu entre 1821 e 1825, mas que terá como data mais simbólica o dia 7 de Setembro de 1821, quando o príncipe Dom Pedro, o regente que governava o Brasil em nome do seu pai D. João VI que regressara a Lisboa, terá dado o grito do Ipiranga: "É tempo! Independência ou Morte! Estamos separados de Portugal!".
Essa data é uma das mais importantes da História do Brasil e ontem festejavam-se os 199 anos da sua independência.
Num tempo de grande perturbação política, de dificuldades económicas e de crescente contestação ao presidente do Brasil, podia ter sido um dia de apelo à unidade nacional e de incentivo para ultrapassar as dificuldades, mas Jair Bolsonaro aproveitou a data e com a ajuda das igrejas evangélicas, mobilizou a população nas grandes cidades, tratou de atacar o Supremo Tribunal Federal e afirmou não acatar as decisões judiciais. Tal como o energúmeno Donald Trump que incitou os seus apoiantes a invadir o Capitólio, também o desvairado Bolsonaro incitou as massas populares à desobediência. Porém, a impressionante onda verde e amarelo de gente instrumentalizada que encheu as ruas e que as televisões mostraram, também revelou o desespero do Jair pela queda da sua popularidade, pelo abandono dos seus aliados e pelo cerco que a Justiça lhe está a montar. Amedrontado, veio dizer que só sai “preso, morto ou com vitória” e afirmar que “jamais serei preso”, colocando-se acima da Constituição e do povo brasileiro. Um perigo!
No mesmo dia circulou nas redes sociais uma mensagem do ex-presidente Lula da Silva alusiva ao 7 de Setembro, que vale a pena ser vista em https://fb.watch/7T5Z54C_2d/. Que belo discurso e que sensatez. Costuma dizer-se que o Brasil está dividido, mas isso não é necessariamente um problema. A Democracia é sempre isso, uma escolha entre duas ou mais opções, mas quando se fala em Bolsonaro e Lula como opções presidenciais, até dá vontade de rir...

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Realizações televisivas de alta qualidade

Terminou ontem em Santiago de Compostela a 76ª edição da Volta ciclista à Espanha ou Vuelta 2021, com a vitória do ciclista esloveno Primož Roglič, que assim averbou a terceira vitória consecutiva naquela prova que este ano teve uma extensão de 3.417 quilómetros e se distribuiu por 21 etapas. 
Primož Roglič venceu quatro dessas etapas e dominou a prova completamente, deixando o segundo classificado a 4 minutos e 42 segundos. Recentemente ganhara em Tóquio a medalha de ouro olímpica na prova da corrida contra-relógio e com estas vitórias tornou-se um dos mais bem-sucedidos desportistas mundiais da actualidade. Curiosamente, ele foi saltador de esqui e campeão mundial dessa modalidade, só tendo optado pelo ciclismo há cerca de dez anos. Foi uma boa decisão, pois tornou-se um verdadeiro campeão. 
Dos 184 ciclistas que participaram na prova houve dois portugueses à partida e, nos 142 que chegaram ao fim, eles lá estavam: Nelson Oliveira da Movistar terminou em 72ª posição e Rui Olivreira da do UAE Team Emirates acabou em 74º lugar.
Porém, tão interessantes quanto foram a Vuelta 2021 e os seus resultados finais, foram as reportagens televisivas que diariamente foram apresentadas pelo canal Eurosport, que conseguem ser não apenas um detalhado relato da corrida e do entusiasmo popular que suscita, inclusive de muitos portugueses, mas também um excelente documentário que mostra o património natural e arquitectónico espanhol e constitui um casamento perfeito entre Desporto e Património. 
Primož Roglič, foi o campeão na bicicleta, mas a realização das reportagens televisivas também merecia um prémio. O meu aplauso.

O adeus de Angela Merkel 16 anos depois

Aproxima-se a data em que Angela Merkel vai deixar de ser chanceler da Alemanha, um cargo que ocupa desde 2005. Foram dezasseis anos na primeira linha da política mundial, em que muitas vezes foi considerada a mulher mais poderosa do mundo.
Não é este o local para fazer o elogio da carreira política da senhora Merkel, tanto pela forma equilibrada como geriu os negócios da Alemanha durante quatro mandatos, como pelo  prestígio internacional que lhe foi reconhecido e que lhe valeu ser considerada muitas vezes como a líder da União Europeia. Em dezasseis anos de mandato ele enfrentou inúmeras crises com destaque para a ruptura do sistema financeiro global de 2008, para as cíclicas ameaças de dissolução da União Europeia, para a grande onda migratória que teve o seu pico em 2015 e, finalmente, para a pandemia do covid-19. Nessas situações, a Europa olhava para ela e sabia que ninguém era mais capaz do que ela para enfrentar dificuldades e para manter arrumada "a casa comum".
Porém, a chanceler Angela Merkel ainda teve outros contratempos, como foi o acompanhamento das complexas questões da Síria, do Irão e da Ucrânia, assim como o convívio institucional com Donald Trump e Vladimir Putin, mas também com outros figurões como Recep Tayyip Erdoğan, Viktor Orbán ou Boris Johnson.
Quando escrever as suas memórias, ela certamente irá dar um lugar de destaque a um figurão com quem também conviveu institucionalmente durante cerca de nove anos e que se chamava José Barroso, uma figura inesquecível de fura-vidas a quem a própria mulher chamava “o cherne”.
Na sua última edição a prestigiada revista Der Spiegel parece ter iniciado as devidas homenagens a Angela Merkel, que seguramente irão aparecer de muitos lados, porque não é comum que alguém governe tanto tempo com o apoio do voto popular.

sábado, 4 de setembro de 2021

Que o Brasil acorde e ponha o Jair na rua

Quando hoje se conversa com um cidadão brasileiro culto e letrado, podemos facilmente verificar o desencanto com que ele se refere ao seu país e aos seus políticos mas, sobretudo, a forma como censura o seu presidente e os seus inacreditáveis comportamentos.
Porém, “só quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro” e, por isso, é preciso ter muito cuidado na apreciação da informação, verdadeira ou falsa, que chega até nós.
Queixam-se os cidadãos brasileiros que o poder está cada vez mais nas mãos de seitas evangélicas, que a economia está em declínio com o dólar muito alto, com a inflação a crescer, com o desemprego a tornar-se uma chaga social e com a generalidade dos bens essenciais a subirem de preço constantemente. A insegurança pública tem aumentado, fala-se de novo em fome, prossegue a desmatação da Amazónia e a população começa a perceber que Lula da Silva e Dilma Rousseff foram vítimas de mentiras e de golpes antidemocráticos.
Hoje a revista Veja classifica Jair Bolsonaro como um presidente incendiário, devido aos repetidos confrontos e provocações com que ataca o seu próprio governo e os seus ministros, mas também os deputados federais e as autoridades estaduais, dizendo na sua primeira página que Bolsonaro é “inimigo de si mesmo” e que usa uma incompreensível estratégia de sabotagem do seu próprio governo.
Ainda falta cerca de um ano para que os brasileiros usem o voto para expulsar Bolsonaro e escolham alguém capaz para ocupar o Palácio do Planalto, que possa levar o Brasil para o caminho da ordem e do progresso, como está inscrito na sua bandeira nacional. Que o Brasil acorde depressa e ponha o Jair na rua como merece.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Adeus Cabul, com imagem para a História

Há fotografias que se tornam documentos únicos ou simbólicos de grandes acontecimentos e que ficam para a história, assim acontecendo com a imagem esverdeada e com pouca nitidez que hoje é publicada pelo jornal Le Monde, mas também por outros jornais de referência, em que o último soldado americano abandona Cabul. Trata-se do major-general Christopher Donahue de 52 anos de idade que comandava o 82nd Airbone Division e que foi fotografado por uma câmara de visão nocturna a entrar para o último C-17 que saiu de Cabul.
A imagem fixa um momento simbólico, em que é dada por terminada a tarefa de retirada do Afeganistão de todos os militares estrangeiros, bem como de cerca de oitenta mil civis, mas que representa também o fim da mais longa guerra em que os Estados Unidos se envolveram. Segundo foi relatado e as imagens televisivas mostraram, após a descolagem deste último C-17, houve celebrações no aeroporto de Cabul com tiros disparados para o ar e fogo-de-artifício em alguns pontos da cidade.
O mundo tem agora o Emirado Islâmico do Afeganistão, totalitário e teocrático, a dominar um imenso território com 587 mil quilómetros quadrados e cerca de 40 milhões de habitantes, enquanto por aqui se acotovelam e se empurram dezenas de comentadores para falar nas nossas televisões e para explicar o que se vai passar nos tempos que hão de vir.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

America’s Longest War Ends

A mais longa guerra da America terminou é o título da edição de hoje do The Wall Street Journal, mas também de outros jornais americanos, que ilustram a notícia com a fotografia de um Boeing C-17 Globemaster III, um avião de transporte militar desenvolvido para a Força Aérea dos Estados Unidos pela McDonnell Douglas. 
Foram vinte anos de uma presença militar americana e dos seus aliados no Afeganistão, iniciada na sequência dos ataques de 11 de Setembro de 2001, quando o presidente George W. Bush decidiu invadir o país para desmantelar a Al-Qaeda e capturar Osama bin Laden. Essa invasão iniciou-se com os bombardeamentos do dia 7 de Outubro de 2001 e foi feita à revelia das Nações Unidas. O governo Taliban foi derrotado em Cabul, enquanto Hamid Karzai se tornou o presidente do país e o aliado preferencial dos Estados Unidos. Depois foi o processo do costume, com o envio de soldados, a construção de bases e a entrega de material militar e muitos dólares, tendo chegado a haver 130 mil soldados estrangeiros no Afeganistão para combater, mas sobretudo para formar e treinar o novo exército afegão.
Em Maio de 2011 Osama bin Laden foi morto numa operação das forças especiais americanas realizadas no Paquistão e o presidente Obama anunciou um plano para reduzir a presença militar americana no Afeganistão. Em Junho de 2013 as forças afegãs passaram a ser responsáveis pela segurança do país e o governo americano já conversava com as lideranças dos Taliban para negociar a paz. Em 2014 foi eleito Ashraf Ghani para presidente do Afeganistão, quando os Taliban ganhavam terreno e o governo e as forças militares afegãs se afundavam em corrupção.
Apertados pela opinião pública e pela sangria orçamental, em Fevereiro de 2019 a administração de Donald Trump iniciou conversas de alto nível com o Taliban que, um ano depois, culminaram num acordo de paz. O novo presidente Joe Biden decidiu manter o compromisso assumido pelo seu antecessor e garantiu que todas as tropas americanas sairiam do país até 31 de Agosto de 2021, independentemente do andamento das negociações de paz entre os grupos rivais afegãos.
No dia 15 de Agosto os Taliban entraram em Cabul, mas o presidente Ashraf Ghani já tinha fugido. Os americanos também partiram, mas a guerra civil entre as várias facções afegãs, que dura há muitos anos, vai continuar, enquanto os americanos, conforme já prometeu Joe Biden, vão perseguir o terrorismo encabeçado agora pelo Isis-K. 
Parece, portanto, que embora com outro figurino, a guerra vai continuar.

domingo, 29 de agosto de 2021

Ronaldo é muito mais que um futebolista

Rosto do jornal mexicano Récord,
edição de 28 de Agosto de 2021
O futebol é um dos meus desportos favoritos e gosto de acompanhar os grandes jogos e o ambiente festivo que os rodeia, mas sobretudo entusiasma-me o que se passa dentro do campo durante os 90 minutos do jogo, com as habilidades dos grandes futebolistas, os grandes golos e as grandes defesas. Tudo o que decorre à margem desses 90 minutos não me interessa, porque são negociatas com demasiados interesses envolvidos ou são conversas e comentários feitos por alienados, mais ou menos disfarçados de comentadores. Por isso, não me interessam nem acompanho os longos espaços televisivos a discutir se foi ou não foi penalti, se o árbitro apitou bem ou mal ou se as equipas devem comprar ou vender jogadores. Tudo isso faz parte de um negócio de milhões que eu não quero entender, até porque não percebo de onde vêm tantos milhões. 
Porém, o caso de Cristiano Ronaldo é uma excepção nesse mundo do futebol e, por isso, não deve ser ignorado.
Ronaldo era jogador da Juventus de Turim e tem 36 anos de idade, que já é uma idade avançada para um jogador de alta competição, mas foi anunciada a sua transferência para o Manchester United, o clube que entre 2003 e 2009 o projectou para a fama e para o sucesso, tendo os seus adeptos entrado em euforia. Todos pensam que Ronaldo vai ser o dinamizador do ressurgimento dos red devils, que vai tirar o clube da sombra do seu rival Manchester City e que vai voltar a ser um dos maiores clubes do mundo.
Parece que Ronaldo vai ser o mais bem pago jogador do futebol inglês e a sua transferência foi notícia de primeira página com fotografia, pelo menos em duas dezenas de países e em várias dezenas de jornais. É realmente um fenómeno único, o caso deste homem que é mais conhecido no mundo do que o seu próprio país.

Atentado em Cabul e... a guerra continua

Os acordos de Doha que levaram à retirada estrangeira do Afeganistão, também permitiram a entrada dos Taliban em Cabul, o que provocou uma onda de pânico e levou muitos milhares de pessoas, sobretudo aquelas que durante cerca de vinte anos mais colaboraram com as forças americanas e da NATO, a correr para o aeroporto de Cabul na tentativa de abandonar o país. A situação tornou-se caótica, como mostraram muitas reportagens televisivas que chegaram até nós.
Durante as operações de retirada de civis estrangeiros e afegãos no aeroporto de Cabul, verificou-se na passada quinta-feira um duplo atentado suicida em que morreram pelo menos 180 pessoas, entre as quais 13 militares americanos, além de ter havido cerca de duas centenas de feridos.
Os vinte anos de guerra custaram a vida a 1.909 militares americanos em combate, mas este atentado foi um dos mais mortíferos ataques sofridos pelos Estados Unidos no Afeganistão e só dois acidentes com helicópteros, acontecidos em 2005 e 2011, tinham provocado mais vítimas. O ataque foi reivindicado pelo Estado Islâmico-Província de Khorosan, conhecido pela sigla Isis-K e os Estados Unidos não demoraram a retaliar, anunciando ter morto os principais responsáveis pelo atentado.
Este atentado veio mostrar que a instabilidade e a guerra no Afeganistão vão continuar e que os Estados Unidos também irão “continuar” a ter uma presença no país, agora contra o Isis-K e ao lado dos Taliban, o seu anterior inimigo. As voltas que o mundo dá...
Numa atitude de reconhecimento em que os Estados Unidos são exemplares, o jornal The New York Times presta hoje homenagem na sua primeira página aos militares mortos no aeroporto de Cabul.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

A rentrée política e as eleições autárquicas

Na sua edição de hoje o jornal Público dedica o principal espaço da sua primeira página à chamada rentrée política, com a fotografia dos nove líderes dos partidos representados na Assembleia da República. Todos são figuras mediáticas e com percursos políticos apreciados pelos cidadãos que os escolheram e que foram sufragados pelos eleitores. Todos beneficiam da liberdade com que se vive no nosso país, podendo ter discursos e projectos muito distintos. Todos se julgam detentores da verdade, como se na política houvesse verdades absolutas. Todos afirmam a sua vontade de chegar ao poder para conduzir a governação e assegurar mais prosperidade e mais segurança aos portugueses.
Poderia pensar-se que, sendo assim, todos deveriam convergir no sentido do progresso e do bem-estar do povo português, com coerência discursiva e com práticas irrepreensíveis ou mesmo imaculadas, sem abdicar dos seus princípios ideológicos, mas sem egoismos e sem quaisquer cedências a interesses particulares ou de grupo.
Porém, não é isso que se passa porque, muitas vezes, parece que estamos em tempos de “vale tudo” com a luta política a ultrapassar a verdade e o bom senso, com todos ou quase todos a usar a promessa demagógica, a reivindicação irrealista, a manipulação mentirosa da obra feita, o discurso populista irresponsável e a caça ao voto, ignorando com frequência a inteligência e os verdadeiros interesses do povo português.
Estamos a menos de um mês das eleições autárquicas e já se prometem novos tempos, uma terra para todos, mais e melhor futuro ou está na hora da mudança, entre outros slogans propagandísticos. Poucos acreditam nesse tipo de discurso e, dessa forma, a abstenção vai acabar por ganhar. A abstenção ganhou as últimas eleições europeias (69%), as últimas presidenciais (51%) e as últimas legislativas (51%), bem como as autárquicas de 2017 (45%).
Será que os nove líderes partidários podem fazer alguma coisa para melhorar a cidadania, a prática democrática e a participação eleitoral dos cidadãos, em vez de insistirem no discurso demagógico em que todos acabam por cair?

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O Brasil de Jair Bolsonaro e o futuro

As eleições gerais brasileiras estão previstas para serem realizadas no dia 2 de Outubro de 2022 e, nesse dia, entre outras eleições de nível federal ou estadual, os eleitores escolherão o novo presidente da República. Jair Bolsonaro é o presidente desde 1 de Janeiro de 2019 e vai ser avaliado pelo eleitorado brasileiro, mas tudo parece indicar que não será reeleito.
A sua popularidade tem vindo a cair e ele tem sido responsabilizado pela crise sanitária brasileira que, no seu início, ele classificou como uma gripezinha, mas que já provocou mais de meio milhão de mortos. Porém, o desagrado brasileiro com o comportamento presidencial de Bolsonaro tem múltiplos antecedentes em que revelou impreparação para tão importante cargo. Há um ano, certamente em delírio de aspirante a ditador, ele foi capaz de dizer que “eu sou a Constituição”. Os seus atropelos às normas que regulam a vida do país são frequentes e têm sido muitas as atitudes que geraram uma grave crise institucional, cujo ponto mais alto foi o desrespeito ao Supremo Tribunal Federal. A economia brasileira também já sente os efeitos da crise institucional, com a retoma da actividade económica a retardar-se. Em termos de prestígio internacional, o Brasil caíu muitos pontos devido à insensatez e à boçalidade de Jair Bolsonaro.
Uma eloquente forma de avaliar a situação é oferecida pela última edição da revista IstoÉ, cuja capa destaca a instabilidade política, social e económica gerada pelo comportamento de Bolsonaro que está a afectar o Brasil com uma sugestiva frase: ou o Brasil acaba com Bolsonaro ou Bolsonaro acaba com o Brasil.
O que não há dúvida é que a política brasileira vai interessar cada vez mais a margem oriental do Atlântico onde se fala português.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Ciclones tropicais, tempestades e furacões

A costa leste dos Estados Unidos é uma área sujeita a ciclones tropicais formados no Atlântico oriental entre os 10 e os 30 graus de latitude, no golfo do México ou nas Caraíbas.
Os ciclones tropicais têm um ciclo de vida que dura entre duas a três semanas e, durante esse período, movem-se e as suas características evoluem, originando denominações específicas. Em função da velocidade do vento começam por ser designados como "depressões tropicais", depois tornam-se "tempestades tropicais" e, quando o vento sopra com mais de 119 km por hora, passam a ser designados como "furacões" (hurricanes).
O mais recente furacão que atingiu a costa leste dos Estados Unidos foi baptizado como Henri e, como previram as autoridades meteorológicas americanas, foi o primeiro furacão que nos últimos trinta anos atingiu o nordeste dos Estados Unidos, incluindo os estados de Nova Iorque, New Jersey, Maine, Vermont, New Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island. Para além do vento muito forte que derrubou árvores e postes de electricidade que deixaram milhões de pessoas sem energia, o principal impacto do Henri foi a chuva diluviana que provocou inundações, desabamento de terras e cortou estradas. Na noite de sábado, dia 21 de Agosto, no bairro de Manhattan da cidade de Nova Iorque, foi registado um valor da pluviosidade histórico, porque a chuva ultrapassou o anterior máximo registado em… 1888.
A intensidade furiosa do Henri levou a que a edição de ontem do jornal Newsday lhe dedicasse a sua primeira página e deixasse para segundo plano o “Afghanistan chaos”, o covid-19 e a demissão do governador Cuomo.