segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

A tensão russo-ucraniana continua alta

A tensão entre a Rússia e o chamado Ocidente, a propósito da Ucrânia, tem vindo a acentuar-se e o presidente Volodymyr Zelensky foi hoje informado que a invasão russa poderá acontecer na próxima quarta-feira. Poucos acreditam que isso possa acontecer, porque ninguém quer uma guerra no centro da Europa, sobretudo pela escala de destruição a que conduziria. Porém, os falcões iludem a opinião pública e tudo fazem para fazer renascer a rivalidade russo-americana ou a guerra fria, de que tanto carece a indústria do armamento americana para refazer o seu neo-keynesianismo militar, isto é, cria-se a ameaça e exige-se mais armamento. 
Nesse tabuleiro estratégico que é o território ucraniano, a Europa deve ser um mediador e não comportar-se ao lado de uma das partes e com submissão aos interesses estratégicos americanos.
O conflito está bem definido: por temer a Rússia, a Ucrânia quer ligar-se à NATO e à União Europeia, enquanto a Rússia se sente ameaçada e não aceita que a NATO integre a Ucrânia, depois de já ter integrado a Polónia, a Roménia, a Bulgária e os países bálticos. A Rússia sente-se ameaçada e também ameaça. Não se percebe quem provoca quem. A população ucraniana é muito heterogénea e tem muita gente de origem russa, mas o que seguramente justifica esta tensão é a enorme riqueza ucraniana, designadamente em reservas de urânio, titânio, manganés e mercúrio.
A diplomacia tem que actuar e parece que está a a trabalhar com as deslocações de Emmanuel Macron e de Olaf Scoltz a Kiev e a Moscovo, bem como com as videoconferências entre Vladimir Putin e Joe Biden. Há quem pense que Putin só espera por um pretexto para fazer qualquer coisa. Entretanto, o apoio dos falcões está a deslumbrar Zelensky que, em verdadeira histeria, está a armar a população e a dar-lhe instrução militar, incluindo a uma tal Valentyna Konstantynovka de 79 anos de idade, que se tornou capa do jornal The Times e estrela dos noticiários televisivos internacionais, a mostrar que a propaganda é uma arma muito poderosa.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

‘Wonder of the Seas’ é o maior do mundo

O maior navio de cruzeiro alguma vez construído fez esta semana uma escala técnica em Cádis e encheu as páginas dos jornais gaditanos, porque as suas excepcionais dimensões suscitaram o interesse público.
O gigantesco navio chama-se Wonder of the Seas, foi construído nos Chantiers de L’Atlantique em Saint-Nazaire e foi entregue à Royal Caribbean no passado dia 27 de Janeiro, passando a liderar a frota daquela companhia que até agora tinha o Symphony of the Seas, como a sua maior unidade. O navio foi registado em Nassau, nas Bahamas, tem uma tonelagem bruta de 236.857 toneladas, um comprimento de 362 metros que equivale a “tres campos y medio de fútbol, uno a continuación del otro” e 66 metros de largura. A área habitacional do navio tem dezoito decks, pode acomodar até 6.988 passageiros que dispõem de quatro piscinas e vinte restaurantes, sendo servidos por 2.300 tripulantes!
As dimensões do Wonder of the Seas podem ser melhor avaliadas quando comparadas com as dimensões de cada uma das dez unidades porta-aviões americanas da classe Nimitz, que deslocam “apenas” 100.000 toneladas, têm um comprimento máximo de 333 metros e que, em condições normais, alojam “apenas” 5.680 tripulantes.
O navio dirige-se para Fort Lauderdale, na Florida, para iniciar a sua actividade nas Caraíbas, esperando-se que no Verão seja deslocado para o Mediterrâneo, mas a intenção é que seja transferido para a Ásia Oriental para realizar cruzeiros a partir de Xangai e de Hong Kong para os portos do Japão, Vietnam, Correia do Sul e Taiwan.O jornal La Voz de Cádiz publicou uma desenvolvida reportagem sobre o novo navio e destacou que necessitou de “unos 70 camiones y 800 palés com material y comida para aprovisionarse”.
A viagem inaugural do Wonder of the Seas está anunciada para o dia 4 de Março de 2022 a partir de Fort Lauderdale. Para reservas, contacte a Royal Caribbean.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

No desporto até os mais fortes falham

Os Jogos Olímpicos de Pequim iniciaram-se no dia 4 de Fevereiro e vão decorrer até ao dia 20, o que significa que estão no seu sexto dia e que ainda não chegaram a meio. No entanto, até agora já foram distribuídas 135 medalhas por atletas de 25 países, entre os quais houve 19 cujos atletas ganharam medalhas de ouro, com destaque para a Alemanha com seis, a Noruega com cinco e a Áustria, Estados Unidos, Países Baixos e Suécia, com quatro cada um.
Embora os desportos de Inverno sejam pouco conhecidos em Portugal e por isso não despertem muito interesse, as estações televisivas temáticas têm acompanhado o evento, tal como alguma imprensa internacional, que vem destacando em primeira página os triunfos mais ou menos gloriosos dos seus nacionais e algumas das histórias que a opinião pública aprecia.
Uma dessas histórias refere-se a Mikaela Shiffrin, uma esquiadora americana de 26 anos de idade que foi campeã olímpica em Sochi (2014) e em Pyeongchang (2018), mas também campeã do mundo em dezenas de provas de esqui alpino, incluindo o slalom, o downhill, o combinado e outras disciplinas, sendo também detentora de múltiplos recordes. É uma verdadeira estrela do esqui mundial e o orgulho americano no que respeita aos desportos de Inverno, mas em Pequim não conseguiu terminar as duas primeiras provas em que participou, exactamente nas disciplinas em que é mais forte. Foi um descalabro em dois dias maus. Faltam-lhe três provas (super-G, downhill e o combinado alpino), mas Shiffrin está cada vez mais longe de concretizar o seu sonho de se tornar a primeira esquiadora americana a ganhar três medalhas de ouro olímpicas. Para os americanos, Mikaela Shiffrin é uma estrela mediática e um ícone dos desportos de Inverno. O seu coração está despedaçado como escreveu hoje The Jersey Journal, que mostra uma fotografia da desolação da atleta. O desporto, por vezes, é cruel.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Salvem a azulejaria portuguesa em Macau!

A edição de ontem do jtm – Jornal Tribuna de Macau anunciava com grande destaque a informação - “azulejos sem reparação à vista” - mostrando a fotografia de um enorme painel de azulejos portugueses localizado num muro de vedação existente no Parque Municipal Dr. Sun Yat Sen, que se encontram deteriorados. Esse muro vai ser intervencionado para alargamento do passeio adjacente, mas o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) revelou que não tem planos para restaurar os azulejos desse muro que faz parte do referido Parque Municipal e que integra a lista de bens imóveis classificados do território.
Os azulejos são uma das marcas da influência cultural portuguesa em Macau e são um exemplo da coexistência estética entre as culturas portuguesa e chinesa, estando aplicados em muitos locais daquele território e com diferentes funções decorativas ou funcionais.
Eu conheci Macau nos tempos finais da administração portuguesa do território e recordo-me de ter ficado impressionado com a profusão de azulejos que suportam a informação sinalética das ruas, escritas em português e cantonense, mas também com os azulejos existentes em muitos outros locais, recordando-me dos painéis que representam mapas e cenas de Macau antigo nas Portas do Cerco, no átrio interior do edifício do Leal Senado de Macau, na área do farol da Guia, em diversos fontanários espalhados pela cidade e nos painéis que decoram o aeroporto internacional de Macau da autoria de Eduardo Nery.
A notícia de que os painéis de azulejos estão deteriorados e não são para recuperar, é para lastimar pois são uma das marcas identitárias das relações culturais entre portugueses e chineses. Será que alguém pode fazer alguma coisa para salvar a marca da azulejaria portuguesa em Macau?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

O futsal é o jogo que nos dá mais alegrias

O futsal é um jogo de pavilhão que resultou da evolução do futebol de salão, sendo a sua variante mais importante. Costuma dizer-se que toda a gente gosta do futsal porque toda a gente jogou futebol de salão, quando apenas era necessário dispor de um recinto de 25 por 15 metros, duas balizas e dez jogadores. 
O estatuto desta modalidade e a sua popularidade demoraram a ser conquistadas até que a FIFA o adoptou oficialmente como jogo de pavilhão, organizando um Mundial a partir de 1989, enquanto a UEFA veio a organizar um Europeu a partir de 1996.
Portugal também elegeu o futsal e a modalidade tem progredido muito. Nos últimos cinco anos a selecção nacional não teve qualquer derrota nos seus confrontos, daí resultando a vitória nos torneios em que participou, isto é, o Europeu de 2018, o Mundial de 2021 e, ontem, o Europeu de 2022. Neste campeonato disputado em Amesterdão e em outras cidades holandesas, a equipa portuguesa ultrapassou as equipas da Sérvia, da Ucrânia, dos Países Baixos e da Finlândia. Seguiu-se a emocionante meia-final com a Espanha e, finalmente, a espectacular vitória sobre a Rússia. Não é costume, exceptuando o caso do hóquei em patins em tempos idos, que Portugal tenha um desempenho desportivo tão triunfante no panorama internacional. O jornal A Bola chamou-lhes “valentes e imortais”, mas outros jornais chamaram-lhes “campeões da raça”, ou escreveram que “é tudo deles”.
Foi realmente uma grande vitória e uma grande alegria para os portugueses. O meu aplauso!

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Uma aliança russo-chinesa que é um aviso

Vladimir Putin foi a Pequim para assistir à inauguração dos Jogos Olímpicos de Inverno e encontrou-se com o seu homónimo chinês Xi Jinping, daí resultando um abundante noticiário e uma forte mensagem de unidade russo-chinesa, veiculadas pela imprensa internacional.
Na sua edição de hoje o jornal espanhol La Vanguardia destaca que “China y Rusia se alían para hacer frente al poder de EE.UU.”, instando os americanos a travar a expansão da NATO e a dissolver a aliança militar do Indo-Pacífico”, enquanto o jornal El País salienta que os dois países “frente al enimigo común, [mostraram] una elocuente exhibición de unidad”. Do outro lado do Atlântico, também o jornal brasileiro Estado de S.Paulo destacou em título de primeira página que “Putin e Xi decidem selar aliança contra Otan e EUA”. Os mais influentes jornais americanos noticiaram a abertura dos Jogos Olímpicos e, quase em tom de aviso, escreveram em títulos de primeira página: “a show of strength and unity” (The Washington Post), “Putin, Xi unite in challenge to U.S.” (The Wall Street Journal) e “China shows it has arrived” (Houston Chronicle).
Este encontro entre Xi e Putin reforçou a aliança russo-chinesa e traduziu-se no apoio chinês às posições russas sobre a Ucrânia e sobre o alargamento da Nato, mas também no apoio russo às teses chinesas sobre Taiwan e de contestação à aliança estratégica designada por AUKUS.
Bom seria que os falcões da Nato ouvissem os líderes moderados europeus e que se contivessem no discurso e no envio de material militar para a Ucrânia, por vezes a parecer criar um pretexto para uma intervenção russa. Que os nossos comentadores geopolíticos se desencostem. 
Quem semeia ventos pode colher tempestades. O assunto é sério e cabe aqui perguntar uma vez mais: quem provoca quem?

Os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim

A cerimónia inaugural dos XXIV Jogos Olímpicos de Inverno realizou-se ontem no Estádio Nacional de Pequim, conhecido desde 2008 como o Ninho de Pássaro, tendo o presidente chinês Xi Jinping feito a tradicional declaração solene de abertura. Nesta edição vão participar 2900 atletas representando 91 países, entre os quais Portugal, que embora não tenha qualquer tradição nos desportos de inverno, se fará representar por três atletas, certamente imbuídos do verdadeiro espírito olímpico.
Os Jogos Olímpicos deveriam ser a festa maior do desporto mundial, mas são cada vez mais sujeitos a incidências que os afastam do espírito com que foram recriados em 1896 pelo barão Pierre du Coubertin e que se traduz na frase “o importante é competir”.
As disputas políticas entram frequentemente nos Jogos e, assim acontece agora em Pequim, com boicotes diplomáticos e com algumas acusações ao governo chinês por suposta violação de direitos humanos nos seus territórios. Foram os Estados Unidos que no dia 6 de Dezembro anunciaram um boicote diplomático aos Jogos, declarando que não enviariam qualquer representante oficial à China como forma de protesto. Dois dias depois, a Austrália, o Canadá e o Reino Unido solidarizaram-se com a posição americana, a que se seguiram a Bélgica, a Dinamarca, a Lituânia e o Kosovo, enquanto o Japão se aproximou desta posição. Três outros países – a Nova Zelândia, a Suécia e os Países Baixos – invocaram a pandemia do covid-19 para não enviar qualquer representante diplomático à China.
Estes boicotes de natureza política são lamentáveis e não acontecem pela primeira vez. Entretanto, Pequim torna-se a primeira cidade que recebe tanto os Jogos Olímpicos de Verão como os de Inverno, embora tenha sido necessário produzir neve artificial para satisfazer todos os requisitos das diferentes modalidades.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Angola e o longo caminho para a liberdade

O Jornal de Angola evoca hoje o dia 4 de Fevereiro de 1961, quando “o heroísmo abriu caminho para a liberdade”. Nesse dia, um grupo de nacionalistas angolanos - brancos, mestiços e negros - desencadeou ataques simultâneos à cadeia de São Paulo, à Casa de Reclusão Militar e ao quartel da Companhia Móvel da Polícia de Segurança Pública, na cidade de Luanda. Nesse mesmo dia, o vespertino Diário de Lisboa noticiava que “três grupos armados tentaram a noite passada libertar presos em Luanda” e, no dia seguinte, o mesmo jornal informava que “eram estrangeiros na sua maioria os componentes do grupo que assaltou as prisões de Luanda”.
Enquanto a imprensa lisboeta, que era controlada pela censura, desvalorizava o que acontecera em Luanda, a partir de Conacry onde se encontrava instalado, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) de imediato reivindicou a autoria daquelas acções. Aquele dia 4 de Fevereiro passou a ser considerado como a data de início da guerra de libertação nacional que, com muitos protagonistas e muitos episódios, só viria a terminar no dia 11 de Novembro de 1975, com a proclamação da República Popular de Angola.
Porém, com o fim da guerra de libertação e a independência nacional, os angolanos não tiveram a paz e o progresso a que aspiravam, pois imediatamente eclodiu a guerra civil angolana que só terminou em 2002, isto é, há menos de vinte anos. Significa que Angola enfrentou duas guerras consecutivas durante mais de quarenta anos e, nesse sentido, a data de 4 de Fevereiro de 1961 assinala e relembra o início do longo percurso angolano para a liberdade.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

A falta de chuva e a seca meteorológica

A falta de chuva e a consequente seca meteorológica estão a criar grandes problemas em Portugal, sobretudo em relação ao abastecimento público de água, à produção de energia hidroeléctrica, à irrigação das explorações agrícolas e à regeneração das pastagens que afecta a actividade pecuária. Na sua edição de 15 de Janeiro, o jornal Público alertava que “quase todo o país estava em seca meteorológica“, no dia 26 de Janeiro a edição do Jornal de Notícias informava que “a seca alarma a agricultura e agrava a qualidade da água” e, no dia 30 de Janeiro, o Diário de Notícias destacava que “a falta de chuva pode ‘hipotecar’ campanhas agrícolas deste e do próximo ano”.
A seca em Portugal iniciou-se em Novembro e tem-se agravado nas últimas semanas em todo o território nacional, conforme foi relatado pela comunicação social nas últimas semanas, sendo mais severa no sul e no nordeste transmontano. O governo já tomou diversas medidas para minimizar os efeitos da seca, destacando-se a interdição ou condicionamento da produção de hidroelectricidade nas barragens de Alto Lindoso, Alto Rabagão, Vilar/Tabuaço, Cabril e Castelo do Bode, bem como a interrupção da utilização de água para rega na albufeira algarvia da Bravura, em Odeáxere. 
O curioso desta situação é-nos mostrada na edição de hoje do jornal La Región, de Ourense, ao noticiar que Portugal estabeleceu limites à produção de electricidade no Lindoso, acrescentando que “la decisión de las autoridades lusas responde a la sequia y trata de evitar daños ecológicos com una medida que contrasta com la inacción de las espanõlas pese a vivirse la misma situación”. Significa que, por vezes, andamos à frente dos nossos vizinhos e dos nossos parceiros comunitários.

 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Rafa Nadal: el más grande de los grandes

A Espanha vibrou ontem com a façanha do tenista Rafael Nadal que triunfou no Open da Austrália 2022, depois de bater o russo Daniil Medvedev por 3-2, ao fim de 5 horas e 24 minutos de um emocionante jogo. Estando a perder por 2-0, Nadal teve uma notável recuperação que o conduziu a uma surpreendente vitória que, aos 35 anos de idade, faz dele o maior campeão da história do ténis. Foi a segunda vez que ganhou este torneio, que já vencera no longínquo ano de 2009, mas o que mais impressiona é o facto do tenista espanhol ter estado lesionado desde o passado mês de Agosto e agora ter reaparecido em Melbourne em grande forma, o que só foi possível devido à sua grande tenacidade.
Com este triunfo, Rafael Nadal conquistou o seu 21º título do Grand Slam (Open da Australia, Wimbledon Cup, Tournoi de Roland Garros e US Open), desempatando em relação aos seus rivais Roger Federer e Novak Djokovic que, tal como ele, tinham triunfado até agora em vinte títulos do Grand Slam.
A Espanha vibrou com este feito desportivo e a fotografia de Rafael Nadal ocupou hoje a primeira página de muitas dezenas de jornais espanhóis, nacionais e regionais, mas essa notícia e a fotografia do tenista espanhol também aparecem em muitos jornais internacionais, com maior destaque do que a tensão nas fronteiras ucranianas. O jornal El País, que é um jornal de referência internacional, destaca o feito de Rafael Nadal - el más grande de los grandes - e a razão não é para menos, pois trata-se de um acontecimento desportivo notável que deixou eufóricos nuestros hermanos.

Foi quase um tsunami político em Portugal

As eleições legislativas ontem realizadas em Portugal eram uma complexa equação a várias incógnitas, ou era um modelo matemático com muitas variáveis. Estavam sobre a mesa muitas situações para serem avaliadas pelo eleitorado, sobretudo a análise da forma como foi tratada a pandemia do covid-19 e os seus efeitos sobre a sociedade e o nosso modo de vida, mas também o cansaço de uma equipa governativa já com seis anos de actividade e a própria forma como se chegara a estas eleições antecipadas na sequência da não aprovação do Orçamento do Estado para 2022. Além disso, também estavam em causa as questões relativas à debilidade do SNS e da Justiça, bem como o posicionamento relativo de Portugal em relação aos seus parceiros europeus, isto é, saber se convergiu como diziam os socialistas, ou se divergiu como afirmavam os social-democratas. Havia, ainda, muitas dúvidas quanto aos eventuais efeitos sobre o eleitorado das campanhas dirigidas pela “imprensa sensacionalista e justiceira” contra algumas figuras do aparelho político socialista. 
As sondagens voltaram a errar e a mostrar-se pouco fiáveis, porque nos enganaram, eventualmente por manipulação, dolosa ou não, dos resultados. Cinco dias antes da ida às urnas, o Diário de Notícias anunciava a sondagem de uma tal Aximage e escrevia que “Rio passa Costa pela primeira vez”. Três dias depois e a 48 horas da votação, o Público dizia que está “tudo em aberto” e o Expresso escrevia que está “tudo empatado”. 
Afinal António Costa e o seu partido ganharam com maioria absoluta. Uma enorme surpresa. O eleitorado parece ter apreciado positivamente a forma como António Costa geriu a pandemia e deve ter-lhe perdoado alguns dos seus erros, como foi o apoio que deu ao Vieira, ao Cabrita e ao Cravinho, para só citar alguns dos seus protegidos.
Agora vai governar com maioria absoluta mas, sensatamente, no calor da vitória, declarou que maioria absoluta não significava poder absoluto. Assim seja!

domingo, 30 de janeiro de 2022

Portugal vai a votos para o Parlamento

Hoje os portugueses vão votar para escolher os deputados que os representarão no Parlamento e esse é um privilégio do regime democrático em que vivemos desde 1974, coisa que os mais jovens eleitores por vezes desconhecem.
São diversas as forças políticas concorrentes e a campanha eleitoral foi esclarecedora, com muitos debates e uma intensa cobertura mediática, que por vezes até foi excessiva, repetitiva e muito cansativa.
Não faltaram as sondagens a mostrar como se reparte o eleitorado, mas a evidenciar um país dividido entre duas figuras políticas que aspiram à chefia do próximo governo, mais do que entre modelos de governação ou entre opções ideológicas. A clubite partidária tem muita força e os eleitores tendem a seguir as suas crenças emocionais em desfavor de princípios ou de uma racionalidade operacional. Está tudo em aberto e a margem de erro das sondagens não permitem prognosticar quem serão os vencedores, embora permitam prever que há sérios riscos de ingovernabilidade nos tempos mais próximos.
Hoje lá irei cumprir o meu dever cívico, do qual não abdico, até porque sou do tempo da "longa noite" em que não havia eleições, nem partidos, nem quaisquer hipóteses de opções políticas. Porém, o nosso sistema eleitoral precisa de ser revisto, porque é altamente provável que eu nunca saiba qual o deputado que me vai representar, isto é, o Parlamento vai encher-se uma vez mais de figuras partidárias que ninguém conhece e que não têm qualquer afinidade com o voto dos eleitores sem partido. Os deputados são propriedade exclusiva dos partidos e não são, como deveriam ser, representantes dos eleitores de Beja ou Vila Real, de Ponta Delgada ou do Funchal. Nos sistemas anglo-saxónicos os eleitores sabem sempre quem é o seu deputado, mas no nosso sistema isso não é possível. 
Como eu gostava de saber quem é o meu deputado!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

‘Os Lusíadas’ perfazem 450 anos de idade

Os Lusíadas foram escritos por Luís Vaz de Camões e tiveram a sua primeira edição em 1572, isto é, estão “vivos aos 450 anos” como enuncia a mais recente edição do Jornal de Letras, Artes e Ideias ou, de forma mais simples, do Jornal de Letras.
A obra é um poema que enaltece a pátria portuguesa e o mar, desenvolvendo-se em torno da viagem pioneira em que Vasco da Gama chegou às costas da Índia em 1498 e que mostrou que “o mar unia e já não separava”.
Antigamente, o currículo liceal obrigava a um longo estudo da obra e à sua interpretação, sendo de boa norma que os estudantes soubessem algumas das suas estrofes de cor. Daí que se encontre muita gente menos jovem que, sem qualquer dificuldade, ainda pode declamar com segurança:

As armas e os Barões assinalados

Que, da Ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana.

Porém, eu ainda conservo na memória alguns versos da estrofe xcv do Canto IV, isto é, o episódio do Velho do Restelo, os quais aqui reproduzo por me terem ocorrido muitas vezes nos últimos tempos. 

Ó glória de mandar, ó vã cobiça

Desta vaidade a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C’uma aura popular, que honra se chama!

 Saúdo, portanto, a iniciativa do Jornal de Letras ao dar início à evocação nacional dos 450 anos da publicação d’Os Lusíadas.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

O crescente interesse na língua portuguesa

A expansão marítima portuguesa foi pioneira no quadro da expansão europeia no Oriente e a língua portuguesa tornou-se a língua franca naquelas regiões até ao século XIX, daí resultando que muitas palavras portuguesas enriqueceram os vocabulários de algumas línguas orientais, como o hindi, o concanim, o cingalês, o malaio, o bahasa indonésio ou o tetum. Porém, a segunda metade do século XIX e, sobretudo o século XX, impuseram definitivamente o inglês como a principal língua de comunicação na Ásia do Sul e na Oceânia.
Apesar de ser a língua oficial do Estado da Índia, de Macau e de Timor até meados do século XX, o português nunca foi a língua de comunicação de corrente nesses territórios e só foi adoptado pelas elites e por franjas minoritárias das sociedades locais, pelo que muitos portugueses que no tempo colonial visitavam esses territórios se impressionavam com a dura realidade de quase ninguém falar português.
Os tempos mudaram. Timor tornou-se independente em 2002, adoptou o português como língua oficial e, segundo afirmou recentemente José Ramos-Horta, se no tempo colonial se estimava que existia 1% de falantes de português, “hoje, a estatística oficial aponta para cima de 40%”. Em Goa tem sido feito um grande esforço, por parte do Instituto Camões e da Fundação Oriente, para apoiar as escolas onde se ensina português, que tem produzido bons resultados, embora não sejam conhecidas estatísticas. Finalmente, foi ontem anunciado pelo jornal Tribuna de Macau, com base nas estatísticas oficiais, que no corrente ano lectivo de 2021/2022, há em Macau 8.800 alunos a estudar português no ensino secundário, quando nos três anos anteriores tinham sido registados 6.700, 8.000 e 8.400 alunos. A mesma fonte indica que 1.482 estudantes frequentam cursos em português na Universidade de Macau.
Estes números revelam um continuado aumento do interesse pela aprendizagem da língua portuguesa, embora haja muitas interpretações a respeito desta realidade. A mais lógica é a que se baseia na convicção de que o conhecimento do português “pode abrir a porta” para um passaporte português, ou para maior facilidade em chegar a Portugal, à União Europeia, ao Brasil ou aos países africanos de expressão portuguesa. 
Não são saudades, nem qualquer portuguesismo tardio, mas apenas o interesse prático.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

O renascimento bem inesperado do Daesh

A guerra na Síria teve início em Março de 2011, quando o mundo árabe atravessava uma onda de protestos que ficou conhecida por Primavera Árabe, mas mais de uma dezena de anos depois, essa guerra ainda não acabou. Porém, a República Árabe Síria e o seu líder Bashar al-Assad deixaram de ser notícia nos mass media internacionais, pelo que pouco se sabe sobre o que se passa no terreno.
Parece que o regime de Bashar al-Assad controla grande parte do território sírio em consequência do apoio ou da intervenção russa, mas que continua a haver bolsas controladas pela oposição ou pelas oposições sírias, sobretudo na fronteira com a Turquia e no Curdistão sírio. Parece, também, que há tréguas ou que existe algum apaziguamento entre as Forças Armadas da Síria e as Forças Democráticas Sírias (SDF), uma aliança militar liderada pelos curdos e que integra outras forças da oposição síria, talvez porque procurem entender-se ou porque têm um inimigo comum: o Daesh ou ISIS (Estado Islâmico do Iraque e Síria).
Neste quadro de ausência de informação, o jornal saudita Arab News que se publica em Jeddah, noticia na sua edição de hoje que, há quatro dias, o Daesh atacou uma prisão síria em Ghwayran, no nordeste do país, que é controlada pelas forças de segurança curdas que pertencem às SDF. Nessa prisão encontra-se a maioria dos 12.000 prisioneiros suspeitos de pertencerem ao Daesh, dos quais mais de 2.000 são estrangeiros de cerca de cinquenta países.
Pois o Daesh reapareceu e atacou essa prisão para libertar os seus militantes jihadistas. Um carro-bomba atingiu a entrada da prisão e uma outra explosão ocorreu nas proximidades, após o que os militantes do Daesh atacaram as forças curdas e tentaram assaltar a prisão. Mais de setenta militantes do Daesh foram mortos, mas também morreram 17 combatentes curdos. A luta pela prisão parece continuar, embora as SDF afirmem estar a dominar a situação. O jornal refere que “o número de mortos subiu para 136 após quatro dias de combates ferozes” e informa que “foi a maior operação do Daesh desde a queda do califado em Março de 2019”.
Afinal, ao contrário do que foi dito por Donald Trump, o autoproclamado califado do Daesh não desapareceu