segunda-feira, 25 de março de 2019

Realmente, parece haver duas Venezuelas

É muito incerta a situação que se vive na Venezuela, sobretudo depois de 23 de Janeiro de 2019, quando Juan Guaidó se auto-proclamou Presidente do país. A partir de então intensificou-se uma campanha internacional contra Nicolas Maduro e o seu regime, apoiada nos mass media internacionais que se mobilizaram em torno da ajuda humanitária e da ocupação do poder pelos chavistas de Maduro, que é considerada ilegítima pela oposição. A intensidade dessa campanha faz-nos desconfiar, até porque a leitura da imprensa venezuelana revela que ainda é plural, sem parecer estar enfeudada a Maduro ou a Guaidó, pois veicula as diferentes posições dos partidos venezuelanos e insiste que “urge buscar acuerdo politico en el país”.
Há uma crise séria, mas os militares e os juízes continuam com Maduro. Porém, há novos episódios todos os dias. Um deles foi a prisão de um colaborador próximo de Guaidó, alegadamente envolvido em operações de financiamento de um grupo paramilitar que iria desencadear atentados terroristas para destabilizar, ainda mais, o país. O outro foi a vitória do vino tinto, isto é, a equipa nacional de futebol sobre a Argentina de Messi, o que elevou a auto-estima venezuelana.
Ontem a notícia, veiculada por toda a imprensa venezuelana, incluindo o jornal El Clarín de la Victoria para Aragua, foi a chegada ao aeroporto de Maiquetía de dois aviões da Força Aérea Russa, um gigante Antonov An-124 carregado com 35 toneladas de material e um Ilyushin Il-62 com 99 militares comandados por um general. É uma notícia preocupante porque os objectivos desta missão são desconhecidos, embora tivesse sido adiantado que resultam de compromissos relativos aos contratos de carácter técnico-militar existentes entre a Rússia e a Venezuela.
Esta notícia não vai agradar nada ao Donald. Realmente, parece haver duas Venezuelas: uma que a Rússia apoia e outra com que o Donald sonha. Além disso, a notícia mostra uma realidade diferente daquela que nos tem sido mostrada, nomeadamente pelos chamados enviados especiais portugueses que se deslocaram à Venezuela e que não tiveram o cuidado ou o profissionalismo de mostrar as duas faces da história.

domingo, 24 de março de 2019

Marinha de Espanha e unidade nacional

O jornal espanhol ABC destaca na primeira página da sua edição de hoje uma fotografia das longas filas de visitantes que no porto basco de Getxo quiseram ver o porta-aviões Juan Carlos I, “el buque insignia de la Armada”. Da mesma forma, também o Diario de Cádiz também destaca hoje a visita que a fragata Blas de Lezo fez ao porto de Cádiz, na Andaluzia, onde foi visitado por muita gente. Na passada semana, a fragata Cristóbal Colón estivera no porto asturiano de Avilés, onde esteve aberto a visitas do público, o que foi relatado pelo jornal La Voz de Avilés.
Significa que, em três diferentes regiões espanholas, estiveram três navios da Marinha de Espanha em visitas de cortesia e abertos ao público para visitas, factos de que a imprensa fez eco, o que não deixa de ter uma leitura política.
Com estas visitas a diferentes portos do seu território, os navios da Marinha espanhola dão um forte contributo para o reforço dos sentimentos de unidade nacional do país vizinho, onde existem 17 comunidades autónomas, algumas das quais com tendências separatistas. Por outro lado, os milhares de visitantes que estiveram no Juan Carlos I, mas também nas duas outras fragatas, puderam apreciar a capacidade tecnológica da Marinha de Espanha e dos seus profissionais, o que é um estimulante tributo de reconhecimento por parte da sociedade civil espanhola. Finalmente, a cobertura que a imprensa deu a estes acontecimentos mostra como os espanhóis se interessam pela sua Marinha. Assim fosse em Portugal.

A queda de Baghouz não é o fim do Daesh

Alguma imprensa britânica e francesa, caso do Le Monde, anunciou a queda de Baghouz , o último reduto do Daesh, situado nos confins da parte leste da Síria, junto da fronteira com o Iraque. Há alguns dias, também Donald Trump anunciara o fim do Daesh. Significa que o califado que adoptou o nome de Estado Islâmico do Iraque e da Síria durou cinco anos e que, depois de em 2017 ter perdido as suas capitais de Mossul (Iraque) e Rakka (Síria), tinha um fim anunciado.
Porém, a queda de Baghouz não é o fim do Daesh, pois a organização chefiada por Abu Bakr al-Baghdadi criou ramificações e células em vários países e é natural que continue a sua actividade, agora com uma diferente estratégia, que não passa pela ocupação de território, mas que continua com a prática contínua de atrocidades, assassínios em massa, execuções arbitrárias, roubos, saques e violações, isto é, o terror.
Nas últimas semanas, as forças curdas e sírias capturaram algumas centenas de combatentes do Daesh, muitos deles originários de países europeus, mas agora ninguém sabe o que fazer com eles, nem sequer com as suas famílias.
O assunto está na ordem do dia e um dos seus aspectos mais curiosos acontece com as chamadas noivas do Daesh, que tendo aderido ao movimento terrorista, parecem reivindicar agora todos os direitos sociais que tinham nos seus países, antes de se juntarem ao grupo jihadista islâmico. Em alguns casos essas pessoas já estão a reivindicar o direito de serem libertadas, repatriadas e apoiadas pelos seus países de origem, o que é verdadeiramente paradoxal. Muitas dessas mulheres têm agora crianças o que torna o problema mais complexo por razões humanitárias, mas o Le Monde chama a atenção para essa gente que pode aparecer como “des bombes à retardement”.

Um Reino Unido cada vez mais desunido

A confusão é total e são cada vez menos aqueles que se interessam pelo Brexit e pelo futuro da Grã-Bretanha. O poderoso Reino Unido que ”governou o mundo durante o século XIX”, que no século XX se afirmou sem equívocos em duas guerras mundiais e que, mais recentemente, navegou pelo Atlântico Sul em defesa das ilhas Falklands, está agora sem rumo e o que vier a acontecer será sempre um desastre. Ficar ou sair, com ou sem acordo, representará sempre e por muitos anos, um símbolo de decadência que colocará o Reino Unido num patamar de inferioridade em relação à comunidade internacional. Quem pensou que o Reino Unido se transformaria numa República das Bananas? Ninguém imaginou este cenário de confusão, nem este futuro de incerteza. A força e a determinação de Winston Churchill ou de Margareth Tatcher são coisas do pasado. Theresa May revelou-se uma personagem incapaz, dominada por uma obcecada teimosia e sem ter a noção da importância do momento histórico que lhe caiu nas mãos.
O Brexit, enquanto decisão soberana do eleitorado britânico falhou, mas o que é mais surpreendente é que Theresa May deixou arrastar o problema e parece nunca ter tido a intenção de se demitir. Agora, é a União Europeia que, cansada deste processo, impõe as suas regras e encosta o Reino Unido à parede.
Porém, ainda ontem em Londres, um milhão de pessoas reclamou contra a incapacidade dos seus políticos e exigiu que seja realizado um novo referendo, defendendo que o Reino Unido permaneça na União Europeia. Foi uma manifestação histórica diz hoje o jornal espanhol La Razón.
Se ao menos adiassem a decisão por um ano, para formar um novo Parlamento e para amadurecer ideias, por certo que se encontraria a solução mais desejada e mais consensual. Assim, tudo se conjuga para que o proceso corra mal, que ocorra uma grave crise económica e social e que não tardem as reivindicações da Escócia e da Irlanda do Norte a desunir e a enfraquer ainda mais o Reino Unido.

sábado, 23 de março de 2019

O porta-aviões simboliza prestígio e poder

O porta-aviões espanhol Juan Carlos I visitou pela primeira vez o Euskadi ou Comunidade Autónoma do País Basco, estando atracado no porto de Getxo, situado na margem nascente da ria de Bilbau.
Hoje, o diário El Correo publica na sua primeira página uma fotografia a seis colunas daquele “castillo de acero” que desloca 27 mil toneladas, que tem 231 metros de comprimento e que é operacionalizado por 400 tripulantes. A visita do navio ao Euskadi e o destaque que lhe é dada pela imprensa basca, são reveladores da sua importância simbólica para a afirmação externa e interna da Espanha.
O Juan Carlos I também tem sido classificado como navio de protecção estratégica ou como navio de assalto anfíbio, embora apareça mais vezes classificado como porta-aviões. É um navio muito caro, mas é um símbolo de poder e de prestígio, que serve para múltiplas funções e tarefas e, em especial, para afirmar um país no contexto internacional. Segundo consta dos seus registos, o Juan Carlos I tem ou pode ter 25 caças-bombardeiros AV-8 Harrier II como principal equipamento, mas pode receber helicópteros, 1200 fuzileiros, 46 tanques Leopard 2E, quatro barcaças de desembarque e quatro lanchas pneumáticas de desembarque. 
Portugal não tem porta-aviões, mas bem precisava de um navio polivalente que pudesse projectar poder, influência e solidariedade, sobretudo em tempos de crise ou de calamidade, não só nas suas regiões insulares, como também nas áreas atlânticas a que historicamente está ligado. Porém, as opções políticas têm sido outras...

sexta-feira, 22 de março de 2019

Sobre um futuro mais promissor da CPLP

A propósito da comemoração do seu 39º aniversário, a última edição do Jornal de Letras dedica um alargado espaço à CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), uma organização internacional criada no dia 17 de Julho de 1996 que integra os países lusófonos. O seu principal objectivo é o aprofundamento da amizade mútua e da cooperação entre os seus membros e, como o seu nome indica, a língua portuguesa é o elemento essencial dessa comunidade que visa congregar afectos e interesses.
Jorge Carlos Fonseca, o Presidente da República de Cabo Verde e que actualmente preside à CPLP, assina nessa edição um texto muito optimista sobre as perspectivas de evolução da organização e da língua portuguesa.
Porém, apesar de levar mais de vinte anos de vida, a CPLP ainda não conseguiu afirmar-se internacionalmente, sobretudo no que respeita ao reconhecimento do português como língua de trabalho nas Nações Unidas e em outras organizações internacionais. Por outro lado, também a cooperação entre os diversos membros da CPLP, que é um ponto importante dos seus estatutos, tem estado muito abaixo do que é desejável.
Com os traumas de um passado colonial e em alguns casos de guerra cada vez mais distantes, o futuro da CPLP é agora mais promissor, pois começam a ser melhor compreendidas as vantagens de uma cooperação que pode beneficiar os seus povos. A recepção feita recentemente em Angola ao Presidente da República Portuguesa ou a pronta solidariedade portuguesa para com a tragédia que passou por Moçambique, são apenas dois exemplos da amizade entre os povos lusófonos e que mostram o potencial de cooperação que está por concretizar. A maré é agora mais favorável do que antes e o Presidente Jorge Carlos Fonseca é um excelente timoneiro para conduzir essa nau que é a CPLP.

quinta-feira, 21 de março de 2019

O apoio dos portugueses a Moçambique

Cada nova notícia que nos chega de Moçambique e, sobretudo, cada nova imagem que recebemos, ajudam-nos a compreender a dimensão da enorme tragédia que se vive naquele país a que nos ligam raízes históricas e tão fortes sentimentos de fraternidade.
A edição de hoje do jornal O País noticia que estão 60 mil pessoas penduradas em tectos e árvores e que tendem a aumentar as zonas inundadas na província de Sofala, devido à subida dos caudais dos rios Púngué e Búzi.
Como ontem foi afirmado “Portugal estará na linha da frente do apoio internacional humanitário e técnico a Moçambique nesta hora muito difícil” e, nesse sentido, uma força de reacção rápida portuguesa constituída por quarenta militares dos quais 25 são fuzileiros especiais equipados com botes de borracha, duas equipas cinotécnicas da GNR com cães especializados em busca e salvamento, além de médicos e de enfermeiros, já partiu para Moçambique para ajudar no socorro às populações vítimas do ciclone Idai. Entretanto, com o incentivo do Presidente da República, que considera Moçambique a sua segunda Pátria, e com a acção do governo que está a mobilizar todos os meios possíveis de auxílio, a solidariedade portuguesa não vai faltar aos moçambicanos neste tempo de grande tragédia. Da mesma forma, diversas iniciativas de recolha de ajudas estão em curso, não só promovidas pelo governo português, mas também por diversas entidades da sociedade civil, com destaque para a Cruz Vermelha Portuguesa e para a Cáritas Portuguesa.
A solidariedade portuguesa não faltará e Moçambique vencerá!

quarta-feira, 20 de março de 2019

Uma nova aliança entre o Donald e o Jair

O Presidente Jair Bolsonaro viajou para os Estados Unidos para um encontro com Donald Trump e, dessa forma, não só satisfez a sua enorme vontade de se encontrar com o seu ídolo político, como também rompeu a tradição dos chefes de Estado brasileiros de iniciarem as suas visitas ao estrangeiro pela vizinha Argentina.
Segundo foi revelado pela imprensa, houve trocas de elogios, muitas promessas de cooperação e a assinatura de alguns acordos de natureza económica e militar, mas parece que o assunto principal das conversações foi a Venezuela. O Donald e o Jair apoiam o auto-proclamado presidente Juan Guaidó e querem ver Nicolas Maduro fora do poder, embora no mesmo dia a Rússia tenha advertido os Estados Unidos para que não se envolvesse nos assuntos internos venezuelanos e haver organizações ibero-americanas de Direitos Humanos que acusam os Estados Unidos de promover uma guerra civil na Venezuela. Não se sabe o que terá sido pedido ao Jair em relação à Venezuela, mas esperemos que ele não tenha sido contagiado pela agressividade obsessiva do Donald.
O jornal Correio do Brasil diz que o encontro foi um completo fiasco que superou as piores previsões. O Jair foi subserviente e cedeu em questões sensíveis à soberania nacional do Brasil, sem nada receber em troca para além de uma vaga promessa de, contrariando a geografia, o Brasil poder vir a integrar a NATO que é uma aliança atlântica do norte e da qual o Donald não gosta, nem é dono.
Os dois presidentes sairam deste encontro ideologicamente aliados e afirmaram ter muitas coisas em comum e, no fim, transformaram a Sala Oval num campo de futebol, com o Donald a oferecer ao Jair uma camisola da selecção norte-americana, enquanto o Jair retribuiu o mesmo gesto com uma camisola da selecção brasileira com o número 10 e o nome de Trump.

terça-feira, 19 de março de 2019

A solidariedade para com Moçambique

A República Popular de Moçambique e os moçambicanos vivem dias muito difíceis depois da tragédia que resultou da passagem do ciclone Idai sobre o seu território, sobretudo nas províncias de Tete, Manica, Sofala e Zambézia, que ligam o norte e o sul do país, mas que também afectou seriamente os vizinhos estados do Zimbabwe e do Malawi.
Mais do que os relatos, nomeadamente no diário O País, bem como as declarações das autoridades que chegam até nós, são as fotografias que nos expressam a enorme tragédia, que o próprio Presidente da República Filipe Nyusi classificou como um desastre humanitário, no qual terão perecido muitas centenas de pessoas. A conjugação das cheias dos rios Púngué e Búzi e, depois dos ventos ciclónicos, arrasou povoações inteiras, destruiu casas, pontes, instalações públicas e colheitas, afectando mais de um milhão de pessoas, enquanto a cidade da Beira, a segunda maior cidade moçambicana, terá sido destruída em cerca de 90% da sua área urbana. Os prejuízos humanos e materiais são incalculáveis.
A catástrofe já foi descrita como o pior desastre do hemisfério sul. Perante a dimensão da tragédia, as Nações Unidas e a União Europeia já fizeram seguir para Moçambique alguma ajuda humanitária de emergência e o governo português já afirmou que  Portugal estará na linha da frente do apoio internacional humanitário e técnico a Moçambique nesta hora muito difícil”. Não pode ser de outra maneira.
Nesse sentido, um membro do governo português já seguiu para Maputo para avaliar necessidades e recolher as solicitações das autoridades moçambicanas, para que sem demora se inicie uma cadeia de auxílio e de solidariedade de Portugal em prol do povo moçambicano.
Tal como aconteceu noutras circunstâncias graves, como por exemplo recentemente com a destruição de Timor, os portugueses não deixarão de ser solidários com o povo moçambicano.

Bercow desespera com a teimosia de May

John Bercow é um deputado britânico de 56 anos de idade que foi eleito para a Câmara dos Comuns pela primeira vez em 1997 pelo círculo eleitoral de Buckingham. Em 2009 candidatou-se a presidente ou speaker dessa Câmara e, actualmente, está no seu terceiro mandato. Bercow é um experimentado político e um respeitado académico que dirige duas universidades, mas só recentemente se tornou conhecido do público devido ao Brexit.
As suas aparições televisivas mostraram a forma eficaz como dirigia os trabalhos parlamentares e como era respeitado o seu grito de order, durante as acaloradas discussões parlamentares.
Entretanto, com a aproximação do dia em que a Grã-Bretanha deveria abandonar a União Europeia, a primeira-ministra Theresa May persiste na sua teimosia de procurar a aprovação do acordo que negociou com Bruxelas e que já foi chumbado duas vezes, parecendo querer arrastar até ao último dia o pedido de adiamento do Brexit. Vai daí, resolveu apresentar pela terceira vez à votação o seu plano de acordo, mas teve que recuar pois John Bercow informou que não irá permitir uma nova votação do acordo para o Brexit, a não ser que Theresa May traga um texto que seja substancialmente diferente daquele que foi votado na semana passada e foi derrotado por 149 votos.
Toda a imprensa britânica destaca a coragem política do conservador John Bercow, que afirmou que se limita a cumprir a lei, enquanto o gabinete de Theresa May o acusa de sabotar o acordo, conforme anuncia hoje o jornal The Times. O facto é que estamos a dez dias da data anunciada para o Brexit e ninguém se arrisca a fazer previsões sobre o que vai acontecer.

segunda-feira, 18 de março de 2019

O protesto dos coletes amarelos de Paris

Pela 18ª semana consecutiva os “coletes amarelos” franceses estiveram activos no passado fim de semana ao convocarem mais um dia de protesto em que se manifestaram com grande violência, sobretudo no centro de Paris e, em especial, nos Campos Elíseos. Houve automóveis incendiados, lojas saqueadas e destruídas, quiosques arrasados, uma agência bancária assaltada e até foi atacado o restaurante Le Fouquet, o favorito do Presidente Emmanuel Macron.
As imagens divulgadas mostram chamas e fumos negros em muitos locais, a denunciar actos de grande vandalismo que o jornal Le Figaro classificou como insuportáveis e que alguns jornalistas atribuiram aos “profissionais do tumulto”. Essas imagens evocam-nos o ditador alemão Adolf Hitler, quando em Agosto de 1944 perguntava se Paris já estava a arder. Agora há quem diga que Paris está de novo a arder, embora provavelmente com mais intensidade do que acontecera quando da retirada alemã de 1944.
Hoje já não há dúvidas que alguns grupos extremistas se terão infiltrado no protesto dos “coletes amarelos” e serão esses grupos os principais responsáveis pelas destruições que se têm repetido nos últimos fins de semana de protesto.
Foi anunciado que cinco mil agentes da polícia foram mobilizados para a zona dos Campos Elísios, onde foram detidas 230 pessoas das cerca de 10 mil que protestaram em Paris. Ao fim de 18 semanas de protesto e de destruições em larga escala, também há quem acuse as autoridades por falta de firmeza na repressão dos responsáveis pelas destruições que, naturalmente, vão para além do seu legítimo protesto.

domingo, 17 de março de 2019

O independentismo catalão voltou à rua

Depois da aparente letargia que se seguiu aos acontecimentos de Outubro de 2017, o independentismo catalão está a reaparecer com grande dinamismo e com novas polémicas, sobretudo depois do início do julgamento dos 12 políticos catalães envolvidos no chamado procés.
A primeira dessas polémicas é a intenção do partido independentista Junts per Catalunya (JxCat) de apresentar como seu cabeça de lista às eleições europeias de 26 de Maio, o antigo presidente da Generalitat Carles Puigdemont que está exilado na Bélgica desde Outubro de 2017. Outra polémica resulta da exigência da Junta Eleitoral Central para que sejam retirados dos edifícios públicos regionais as bandeiras independentistas e os laços amarelos, símbolo de apoio aos políticos separatistas presos pelo seu envolvimento no referendo de autodeterminação, o que o governo da Catalunha se tem recusado a fazer.
Estes casos revelaram-se mobilizadores e ontem, em Madrid, realizou-se uma grande manifestação convocada por cerca de seis dezenas de associações de toda a Espanha, em que participaram dezenas de milhares de pessoas e que foi encabeçada por Quim Torra e por outros membros do governo catalão, a reclamar contra o julgamento dos independentistas que estão presos e a exigir a sua libertação, sob o lema “A autodeterminação não é delito. Democracia é decidir”. Vieram da Catalunha cerca de 500 autocarros e 15 comboios de alta velocidade e, segundo o cálculo efectuado pelo jornal La Vanguardia, estiveram em Madrid 55.800 manifestantes.
Entretanto, os partidos políticos espanhóis estão em pré-campanha para as eleições legislativas que se vão realizar no dia 28 de Abril, menos de um mês antes das eleições europeias, regionais e municipais de 26 de Maio, o que significa que a questão catalã vai estar em destaque.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Um dia de terror numa escola brasileira

Um massacre numa manhã de autêntico terror, que causou uma dezena de vítimas mortais, enlutou o Brasil. O jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, destaca em título de primeira página que “o Brasil volta a copiar o horror dos Estados Unidos”.
Aconteceu, ontem, numa escola de Suzano, um município situado na região metropolitana de São Paulo, quando dois jovens antigos alunos dessa escola estadual entraram nas suas instalações, provavelmente não vigiadas, tendo disparado sobre estudantes e funcionários da escola. No mesmo dia, um dos atiradores da escola de Suzano tinha publicado na sua página do Facebook várias fotografias em que aparecia armado e usava uma máscara com uma caveira estampada, bem como o boné e o relógio utilizados durante o tiroteio.
O massacre de Suzano volta a levantar a questão e o debate sobre a liberalização do uso e porte de arma no Brasil, que foi uma das bandeiras de Jair Bolsonaro para atingir a presidência da República.
De acordo com a lei aprovada por Bolsonaro, qualquer brasileiro maior de 25 anos e sem antecedentes criminais pode ter uma arma em casa, não sendo necessário que o seu possuidor prove que dela necessite. Porém, se não existem restrições importantes quanto à posse de arma, no que respeita ao porte de arma, que é a possibilidade de andar armado na via pública, a lei é muito mais restritiva. O facto é que os dois estudantes de Suzano tiveram acesso a armas e provocaram um massacre, o que obriga a que todo o Brasil repense este problema e o resolva no sentido de uma sociedade equilibrada e sem violência.

quarta-feira, 13 de março de 2019

O dia da ressureição de Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo nasceu no Funchal há 34 anos e muita gente pensa que essa idade já não é recomendável para jogar futebol, sobretudo na alta-roda das competições internacionais e, ainda por cima, como atacante.
Quando em Julho de 2018 o famoso futebolista deixou Madrid a caminho de Turim, eu pensei, e muitos pensaram como eu, que a Juventus não tinha comprado um futebolista por 100 milhões de euros, mas que adquirira, sobretudo, um ícone publicitário ou uma imagem de marca, para melhorar o marketing do clube e para o ajudar a voltar ao topo do futebol europeu.
O tempo parecia dar razão a essas pessoas, pois Cristiano Ronaldo deixou de aparecer na selecção portuguesa, teve problemas com o fisco espanhol e com a justiça americana e pareceu ter perdido o seu habitual alto rendimento futebolístico. Até a Bola de Ouro lhe escapou para Luka Modric, o croata que fora seu companheiro no Real Madrid.
Porém, Cristiano Ronaldo ressuscitou ontem em Turim e tratou de pôr em delírio um estádio cheio e os adeptos da Juventus. Defrontando o Atletico de Madrid e, depois de ter perdido por 2-0 no primeiro jogo disputado na capital espanhola, desforrou-se com 3-0 e passou aos quartos de final da Liga dos Campeões. Cristiano Ronaldo marcou os três golos e a imprensa italiana, mas também a espanhola, a portuguesa e a latino-americana esgotaram os adjectivos elogiosos.
Até La Gazzetta dello Sport, a "bíblia" do futebol italiano, se rendeu a Cristiano Ronaldo. É mesmo um caso raro de talento futebolístico que bate todos, ou quase todos, os recordes do mundo do futebol.

May volta a ser derrotada no Parlamento

O Parlamento britânico votou ontem o novo acordo para a saída da Grã-Bretanha da União Europeia e, pela segunda vez, a primeira-ministra Theresa May foi derrotada, sendo essa derrota hoje destacada por toda a imprensa britânica.
À semelhança do que aconteceu na votação de 15 de Janeiro, quando o acordo foi chumbado por 432 votos a 202 (derrota por 230 votos), a votação de ontem resultou num novo chumbo pois 391 deputados votaram contra o acordo, que teve somente 242 votos favoráveis (derrota por 149 votos). Significa que as alterações introduzidas nas últimas semanas no texto do acordo convenceram alguns deputados, embora 62% dos membros do Parlamento britânico continuem a recusá-lo.
Hoje os deputados britânicos vão decidir se aceitam uma saída da União Europeia sem acordo, o chamado Brexit duro. Se o aceitarem haverá uma "crise sísmica na Europa", mas se recusarem essa opção, os deputados votam amanhã um adiamento do Brexit para além do dia 29 de Março, a chamada extensão do Artigo 50 do Tratado de Lisboa.
Enquanto os deputados discutem acaloradamente e se embrulham nesta questão, com Theresa May a revelar uma inacreditável teimosia, há manifestações em frente do Parlamento que têm convivido bem, umas a favor e outras contra o Brexit. Ninguém adianta cenários nem previsões, mas é cada vez mais provável que a saída para este caso seja um pedido de extensão do Artigo 50, seguida da demissão de Theresa May e da convocação de eleições gerais, em que os partidos e os candidatos a deputados afirmem, prévia e claramente, a sua posição em relação ao Brexit. Talvez assim se evite a vergonha que seria um novo referendo. Não há outra saída.