domingo, 24 de novembro de 2019

O mérito lusitano na vitória do Flamengo


Não tenho qualquer simpatia pelo treinador de futebol Jorge Jesus, nem pelo seu perfil cultural, nem pela vaidade que exibe em tudo o que faz e, por isso, quando raramente a ele me refiro faço-o sempre numa postura de superioridade intelectual e com apreciações de escárnio e maldizer. Porém, ontem ele deu-me uma valente bofetada de luva branca ao promover por todo o Brasil o nome de Portugal e o bom nome dos portugueses, como poucos o terão feito ao longo da história. Com a vitória do Flamengo sobre o River Plate na Taça Libertadores da América, o treinador Jorge Jesus tornou-se o mais famoso português que o Brasil conheceu, ultrapassando a notoriedade de Pedro Álvares Cabral, do Imperador D. Pedro I que em 1822 deu o grito do Ipiranga ou da dupla Cabral-Coutinho que em 1922 fez a primeira ligação aérea entre Portugal e o Brasil.
Jorge Jesus brilhou na final disputada em Lima, que foi emocionante e foi vista em todo o mundo. Aos 88 minutos o River Plate vencia por 1-0 e parecia que a sorte do jogo estava traçada, com os argentinos a conquistarem a sua quinta Taça Libertadores. Porém, deu-se o inesperado e, em três minutos, o Flamengo deu a volta ao resultado. Venceu por 2-1. O último golo foi marcado aos 90+2 minutos e deixou em delírio os adeptos do Flamengo, mas também todos os brasileiros e muitos portugueses que assistiram ao jogo pela televisão. O treinador fez os números do costume e até se embrulhou numa bandeira portuguesa, dedicando a vitória ao povo português e afirmando que “tenho muito orgulho em ser português”, uma frase que os brasileiros bem precisavam de ouvir porque, por vezes, usam de uma indesculpável arrogância para com os portugueses. 
Foi um acontecimento mediático inesquecível e o Rio de Janeiro vai ter um Carnaval antecipado. Quem imaginaria que um homem como o treinador Jorge Jesus iria colocar Portugal na agenda dos brasileiros e que o seu rosto iria “substituir” o de Jesus Cristo na estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro?

sábado, 23 de novembro de 2019

Nem o príncipe escapa aos mass media


O Príncipe André é um dos quatro filhos da Rainha Isabel II e do Príncipe Filipe, Duque de Edimburgo, sendo mais novo do que os seus irmãos Carlos e Ana e mais velho do que o seu irmão Eduardo. Quando nasceu em 1960 era o segundo elemento na linha de sucessão ao trono britânico e, só por isso, era um personalidade importante da Família Real Britânica.
Em 1978 ingressou na Royal Navy tornando-se piloto de helicópteros e em 1982 serviu a bordo do HMS Invencible durante a guerra das Falkland. Foi considerado um herói de guerra por ter tido activa participação nos combates. Continuou depois a servir a Royal Navy como piloto e como instrutor de voo, tendo atingido o posto de Capitão de Fragata, após o que separou do serviço. Em 2015 foi “promovido” a Vice-Almirante honorário. Consta que era o filho favorito da Rainha.
Enquanto membro da Família Real e supostamente o filho favorito da Rainha, o Príncipe André esteve envolvido em inúmeras actividades comerciais, culturais e filantrópicas, muitas vezes como representante especial do Reino Unido, mas parece que também teve ligações com Jeffrey Epstein, um reconhecido criminoso americano condenado por crimes sexuais e que, entretanto, faleceu. Recentemente, o Príncipe André foi entrevistado e o conteúdo da sua entrevista foi severamente criticado pelos mass media ingleses e americanos, que trataram imediatamente de o condenar pelo seu envolvimento no “escândalo Epstein”. O Príncipe não resistiu e tratou de pedir à Rainha, sua mãe, para se retirar da vida pública.
O assunto não é suficientemente interessante nem importante, mas o jornal New York Post dedicou-lhe a sua primeira página de forma bem sugestiva. Só por isso, aqui lhe fazemos referência como uma curiosidade da vida dos príncipes.

Um Brasil que hoje torce pelo Flamengo


O Estádio Monumental de Lima recebe hoje a final da Taça Libertadores da América em que se defrontam os brasileiros do Flamengo e os argentinos do River Plate, pelo que a imprensa brasileira não fala noutra coisa. O entusiasmo parece ser indescritível e a edição do jornal O Dia diz que hoje estão 40 milhões em campo, uma vez que o Flamengo é considerado como o único clube do mundo que tem 40 milhões de torcedores.
A Taça Libertadores da América disputa-se desde 1960 e é a principal competição entre clubes profissionais de futebol da América do Sul, correspondendo à Liga dos Campeões organizada pela UEFA na Europa. No seu já longo historial destacam-se as equipas dos países da costa atlântica – Argentina, Brasil e Uruguai – registando-se as vitórias do Independiente (7 vezes), do Boca Juniors (6 vezes), do Peñarol (5 vezes) e do River Plate (4 vezes), enquanto o Flamengo apenas conseguiu uma vitória em 1981.
Hoje encontram-se as equipas do River Plate e do Flamengo, mas enquanto o River Plate ocupa o 1º lugar no ranking de pontos da Taça Libertadores, o Flamengo ocupa a modesta 27ª posição, o que historicamente dá favoritismo aos argentinos. O Flamengo participou 13 vezes na prova que só venceu uma vez e, portanto, está há 38 anos sem conquistar aquele ambicionado troféu.
Hoje, sob a direcção do treinador português Jorge Jesus, o Flamengo aspira à vitória. A cidade do Rio de Janeiro e os 40 milhões de torcedores do Flamengo vivem este momento com grande entusiasmo e até o famoso monumento do Cristo Redentor foi vestido com as cores do Flamengo. Hoje, todo o Brasil torce pelo Flamengo e, deste lado do Atlântico, também nos juntamos à torcida.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

R.I.P. José Mário Branco

A inesperada notícia chegou ontem de manhã e anunciava que o músico e compositor José Mário Branco falecera aos 77 anos de idade.
Como resultado da sua actividade política contra a ditadura do Estado Novo foi perseguido e preso pela polícia política, escolhendo depois os caminhos do exílio e foi em Paris que, em 1971, gravou o seu primeiro álbum a solo, intitulado Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, um título que retirou de um soneto de Camões, a que juntou canções com textos de autores como Natália Correia e Alexandre O’Neill.
Pouco tempo depois, numa altura em que a dureza da guerra se acentuava na Guiné e em que o General António de Spínola procurava uma saída política para um conflito cada dia mais doloroso mas que o intransigente governo de Lisboa nunca aceitou, a voz de José Mário Branco “circulava” em gravações por alguns meios militares nos rios e matas da Guiné e não deixava ninguém indiferente.
José Mário Branco foi, por isso e por tudo o que sempre fez com convicção e coerência, um símbolo da resistência e da insatisfação ao regime político em que Portugal viveu até ao 25 de Abril de 1974. Seguramente, ele é uma referência maior da luta política de antes e depois da revolução de Abril, sem quaisquer cedências ao seu inconformismo político e cultural, seguindo sempre numa linha de intervenção em que revelava a sua inquietação e mostrava que a cantiga é uma arma. Era um inspirado músico, compositor e criador cultural num importante período histórico do nosso Portugal e a sua obra vai permanecer. 
Aqui lhe expresso a minha homenagem pelas suas inspiradoras canções e pela obra musical que nos deixou.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

No futebol a alegria do povo é a vitória


É verdade que o futebol é cada vez mais um produto muito pouco recomendável, porque a beleza do espectáculo vem sendo substituída por uma doentia alienação das pessoas alimentada pelos mass media; é verdade que os espaços que as estações televisivas dedicam às discussões sobre o futebol são longos, desinteressantes, pouco educativos e quase obscenos, constituindo um ataque à inteligência das pessoas; é verdade que à volta do futebol vive uma panóplia de interesses com transferências, patrocínios, comissões, transmissões televisivas, direitos de imagem e outras actividades assessórias que fazem daquele espectáculo um negócio.
É verdade tudo isso mas, apesar dessas realidades, eu gosto de ver aqueles “artistas” durante os 90 minutos em que “trabalham”, com os golos e os remates fora da área, os dribles e os livres directos, as defesas espectaculares, a ansiedade no momento do penalti e a alegria vibrante dos adeptos.
Ontem a selecção portuguesa de futebol - ou como certa imprensa costuma dizer Ronaldo & Companhia – ganhou ao Luxemburgo. O jogo não entusiasmou e até foi enervante, mas a vitória bastou para que todos ficassem contentes. O povo gosta mais de vitórias do que de bons espectáculos de futebol. A derrota, mesmo que num bom espectáculo não interessa, pois não alimenta as emoções. Ganhar é que é importante e Portugal apurou-se para o Euro 2020. Foi a 11ª vez consecutiva que isso aconteceu em Mundiais e Europeus, isto é, desde o ano de 2000 que a equipa portuguesa não falha uma grande competição internacional. Ora isso é uma grande alegria para o povo e eu partilho dessa alegria. Portugal sorri e eu aplaudo!

domingo, 17 de novembro de 2019

A crise boliviana e o risco de contágio

A crise boliviana surgiu na sequência das eleições de 20 de Outubro que deram a vitória a Evo Morales, mas que a Organização dos Estados Americanos denunciou terem sido fraudulentas, daí resultando a intervenção dos chefes militares que levou à renúncia e depois ao exílio de Evo Morales.
A imagem externa da Bolívia era de um país estável e que tinha em Evo Morales um presidente um pouco extravagante mas consensual, mas os acontecimentos dos últimos dias vieram mostrar um país dividido entre aqueles que denunciam a fraude eleitoral e os que acusam os chefes militares de um golpe de estado. O facto é que há quem fale em clima de pré-guerra civil e que as duas partes já se enfrentaram de forma muito violenta, tendo daí resultado algumas vítimas, embora diferentes sectores da sociedade boliviana, incluindo a Igreja, tenham iniciado campanhas com “marchas y oraciones” a pedir a pacificação da Bolívia, como hoje salienta El Diario, el decano de la prensa boliviana.
Hoje existe uma grande probabilidade de contágio do descontentamento nos países da América do Sul, onde existem problemas comuns de insatisfação das populações, de desigualdade social e de aspirações não satisfeitas e esse risco de contágio deve ser evitado, em nome da paz naquele continente.
Porém, logo que Evo Morales renunciou, a senadora Jeanine Añez apareceu a assumir a presidência e essa sucessão foi tão rápida, mesmo sem o apoio do parlamento boliviano, que muita gente desconfiou que ali havia algo de estranho. Realmente, há uma grande semelhança entre o que se passou na Bolívia (afastamento de Evo Morales) com aquilo que insistentemente se quer fazer na Venezuela (afastamento de Nicolas Maduro) e com o que já foi feito no Brasil (afastamento de Lula da Silva e de Dilma Roussef). O mesmo objectivo, embora o modus operandi seja um pouco diferente.

sábado, 16 de novembro de 2019

Alguma Espanha está muito desconfiada


A Espanha está suspensa do pré-acordo a que chegaram o PSOE e o Podemos para formar um governo de coligação, embora ainda lhes faltem alguns apoios parlamentares vindos dos pequenos partidos, seja por via de votos favoráveis, seja por via da abstenção.
Por uma questão de filosofia política, mas também para assegurar os apoios de que carece, o futuro governo vai certamente aumentar a despesa pública e, em especial, as despesas sociais. Os partidos da oposição e muitos agentes económicos vêm anunciando preocupações pelo ritmo insustentável do crescimento da despesa pública que se adivinha, cuja contrapartida terá que vir do aumento dos impostos. Além disso, consideram que o pré-acordo que foi assinado dá excessivos poderes ao Podemos de Pablo Iglésias, que quer controlar 16.500 milhões de euros da despesa pública, segundo revela o jornal el Economista.
Nos sectores políticos da direita afirma-se que “no hay suficientes ricos en España para los disparates de Podemos”, o que até está em linha com o pensamento expresso por Pedro Sánchez quando há poucos meses disse que  no dormiría tranquilo si tuviera en el Gobierno a Pablo Iglesias”. Portanto, com estes exercícios de malabarismo político de Sánchez e de populismo de Iglésias, há quem já chame ao governo em formação “un Gobierno Frankenstein de izquierdas”, um pouco ao estilo da geringonça portuguesa. Segundo o jornal já referido, milhares de contribuintes temem por uma forte subida dos impostos e há uma avalanche de consultas para levar as suas fortunas para Portugal. No entanto, como se costuma dizer por cá, a procissão ainda vai no adro e muita água ainda vai correr por debaixo das pontes.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Bilbau uma cidade cada vez mais cultural


A cidade basca de Bilbau alberga desde 1997 o Museu Guggenheim Bilbao, um dos cinco museus espalhados pelo mundo que pertencem à Fundação Solomon R. Guggenheim, tendo sido projectado por Frank Gehry, um famoso arquitecto canadiano naturalizado americano. Com este equipamento a cidade ritalizou-se e passou a atrair visitantes de toda a parte.
Agora, em consequência dos efeitos culturais gerados pelo Museu Guggenheim, a cidade decidiu apostar em novas iniciativas e uma delas é a colocação de uma artística cúpula na Plaza de Toros de Vista Alegre, que é a terceira praça mais importante da Espanha, depois de Madrid e Sevilha, podendo receber cerca de 15 mil espectadores.
Com a colocação da cúpula, a adaptação do espaço e a modernização das instalações, a empresa proprietária da Vista Alegre pretende atrair eventos de ócio e cultura entre Outubro e Junho, isto é, fora da época taurina, esperando dessa forma rentabilizar a praça de touros que deixou de ser sustentável apenas com a festa tauromáquica. A cúpula será uma estrutura semi-fixa que terá capacidade para cerca de 4.000 pessoas e poderá abrigar eventos como concertos, espectáculos, exposições ou feiras, “algo que Bilbau não tinha”.
O jornal Deia que se publica em Bilbau, destaca hoje na sua primeira página La nueva Vista Alegre, futurista y multiusos, que vai certamente tornar-se em mais um atractivo para a vida cultural de Bilbau e para o turismo. Entretanto, o Parque Mayer em Lisboa continua à espera que se faça qualquer coisa que o possa valorizar.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Veneza é vítima das alterações climáticas


Mais de 85% da cidade de Veneza está inundada e muitos jornais internacionais publicam hoje imagens da famosa Praça de São Marcos, coberta por uma toalha de água e sem turistas, enquanto uma estação televisiva até mostrou a insólita imagem de um homem nadando naquela praça. É a pior cheia dos últimos 50 anos, com o nível da água a atingir 1,87 metros, o que corresponde ao segundo maior nível de que há registo. Na cripta da Basílica de São Marcos a água subiu até à altura de 1,20 metros, tendo sido a sexta vez em 1200 anos que a basílica sofreu uma inundação e a quarta vez que isso aconteceu nos últimos 20 anos.
A cidade de Veneza tem uma configuração geográfica sui-generis e o seu centro histórico fica situado sobre várias ilhas de uma grande lagoa da costa do mar Adriático, estando servido por 177 canais e mais de quatrocentas pontes, sendo uma cidade absolutamente pedonal onde o transporte é assegurado por embarcações.
A lagoa de Veneza tem três ligações ao mar e está sujeita a grandes variações do seu nível de água devido às marés, sobretudo as marés vivas do Outono, conhecidas por acqua alta e que habitualmente inundam parte da cidade histórica. É o que está a acontecer agora. O jornal La Repubblica destaca a sigla SOS e as autoridades locais declararam o estado de emergência, ao mesmo tempo que exigem que o projecto Mose, constituído por uma rede de barreiras destinadas a proteger a lagoa e impedir a subida do nível da água através das suas três ligações ao mar, que foi anunciado em 2003 e que está orçamentado em 5,5 mil milhões de euros, seja terminado. 
As alterações climáticas são a causa das inundações de Veneza, mas também dos maiores incêndios florestais de sempre que estão a acontecer na Austrália, que podem durar meses e que já se aproximam de Sydney. Porém, o Donald e alguns outros Donalds, nem sequer subscrevem o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas de 2015...

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Um abraço que põe a Espanha a respirar


Poucas horas depois de serem conhecidos os resultados das eleições espanholas e quando todos os comentadores políticos apontavam para uma situação ainda mais difícil do que aquela que lhes dera origem, aconteceu uma enorme surpresa quando o PSOE e o Podemos anunciaram um pré-acordo de coligação para governar e a fotografia de um abraço entre Pedro Sánchez e Pablo Iglesias encheu a capa dos jornais espanhóis. O acordo que não tinham conseguido em Julho, foi agora conseguido em poucas horas, porque ambos sabiam que estavam condenados a entender-se e porque a continuação do impasse levaria a novas eleições e à continuação da subida da direita espanhola. Pedro Sánchez cedeu a sua intransigência do passado Verão e trocou a sua sobrevivência política por uma coligação – a primeira da história democrática espanhola como hoje se lhe refere o La Vanguardia – em que, segundo se soube, o Podemos ocupará uma vice-presidência e três pastas no futuro governo.
O preacuerdo entre o PSOE e o Podemos consta de dez pontos que, entre outras matérias, tratam do emprego, da economia, das alterações climáticas e da cultura, mas sobretudo do problema da Catalunha. O ponto 9 do preacuerdo salienta que o governo espanhol terá como prioridade garantir a convivência na Catalunha e a normalização da sua vida política e, com esse fim, fomentará o diálogo, procurando fórmulas de entendimento e encontro, sempre dentro da Constituição.
Este acordo foi um passo importante para a estabilidade política espanhola e foi um alívio para muita gente, dentro e fora da Espanha. Porém, os deputados do PSOE (120) e os deputados do Podemos (35) não são suficientes para assegurar a maioria no Parlamento espanhol (350), pelo que Pedro Sánchez, agora com Pablo Iglesias, vai precisar de conversar e de negociar com os pequenos partidos e com os partidos independentistas, isto é, a Espanha apenas começou a respirar e a ver uma solução no horizonte. 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A Bolívia também entrou na onda da crise


Nos últimos dias a agenda da imprensa sul-americana tem sido ocupada, não pela Venezuela ou pelo Chile, mas pela Bolívia, onde Evo Morales exercia a presidência desde 2006 e, aparentemente, com grande apoio popular.
Acontece que se realizaram eleições gerais no passado dia 20 de Outubro, tendo sido anunciada a vitória de Evo Morales para mais um mandato presidencial. A oposição boliviana denunciou de imediato que houve grossa fraude eleitoral e contestou aquele resultado, pedindo uma nova votação que fosse fiscalizada pela comunidade internacional, ao mesmo tempo que veio protestar para as ruas. As contestações do nosso tempo começam sempre por um pretexto mais ou menos justo, mas a seguir vem a reivindicação por uma vida melhor e por menos desigualdade social, por vezes de forma violenta. Antigamente, este tipo de contestação só acontecia nos regimes totalitários, mas agora também está a acontecer nas democracias. 
Na Bolívia, um enorme país mas apenas com 10 milhões de habitantes, a contestação subiu de tom e, como tem sido habitual um pouco por todo o mundo, os grupos radicais depressa passaram a tomar conta dos protestos que se tornaram violentos. O governo boliviano até avisou que estava a caminho um golpe de estado, sobretudo depois de alguns quartéis da Polícia, incluindo na cidade de La Paz, terem decidido não reprimir as manifestações. Entretanto, a Organização dos Estados Americanos declarou que as eleições foram fraudulentas e, no mesmo dia, Evo Morales convocou novas eleições. Já era tarde. Os chefes militares pediram a Evo Morales que abandonasse o seu cargo para que a paz voltasse ao país e ele renunciou pouco depois. O primeiro presidente de origem indígena da Bolívia aceitou a oferta do México e seguiu para o exílio.
Só os próximos dias nos ajudarão a compreender o que se passou, mas a realidade é que, por motivos aparentemente bem diferentes, sopram ventos muito frescos na Bolívia, no Chile e na Venezuela.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O enorme impasse político da Espanha

As eleições legislativas que ontem se realizaram em Espanha deixaram os espanhóis muito nervosos e preocupados. Na verdade, depois do impasse ou do bloqueio político resultante das eleições do passado dia 28 de Abril, o acto eleitoral de ontem visava ultrapassar essa situação através do aparecimento de maiorias ou coligações, mas a Espanha surgiu ainda mais dividida e com os discursos dos líderes políticos mais radicalizado. É certo que os socialistas do PSOE voltaram a ganhar, agora com 28% dos votos mas sem maioria absoluta, tendo visto reduzir-se a sua margem negocial para eventuais alianças à esquerda num quadro parlamentar muito complexo. O PP aumentou a sua votação e tornou-se a alternativa ao PSOE, enquanto o Vox se tornou a terceira força política espanhola devido ao seu firme discurso pela unidade nacional que conquistou o eleitorado, enquanto o Ciudadanos sofreu uma brutal derrota o que levou à imediata demissão do seu líder. No parlamento espanhol estão agora representados 16 partidos ou movimentos políticos, incluindo os partidos independentistas da Catalunha com 23 deputados e alguns pequenos partidos nacionalistas do País Basco, da Galiza, da Cantábria e de Aragão.
O futuro político da Espanha está, portanto, muito sombrio. Ao ouvirem-se os líderes partidários e os comentadores políticos não se vislumbra saída para esta situação, pois o radicalismo parece ter tomado conta de todos eles, ao mesmo tempo que continua alguma violência nas ruas da Catalunha que, de facto, é o ponto-chave do futuro político da Espanha.
Aqui ao lado, também se vive com preocupação pelas consequências económicas e outras que a crise espanhola nos pode trazer, mas é caso para nos congratularmos pela paz social que se tem vivido e pelo diálogo que vai havendo, esperando-se que não haja qualquer tipo de contágio espanhol.

Angola festeja 44 anos de independência

Foi no dia 11 de Dezembro de 1975 que Angola se tornou independente, quando a bandeira portuguesa foi arriada no Palácio do Governo em Luanda e foi hasteada a bandeira angolana. Nesse dia, o presidente Agostinho Neto proferiu um discurso em que declarou que “em nome do Povo angolano, o Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola, proclama solenemente perante a África e o Mundo a Independência de Angola” e, também, que “a República Popular de Angola tratará com especial atenção as relações com Portugal e, porque deseja que elas sejam duradoiras, estabelecê-Ias-á numa base nova despida de qualquer vestígio colonial”.
Era então um tempo complexo e difícil, porque o território nacional estava ocupado por forças militares dos três movimentos nacionalistas (MPLA, FNLA e UNITA) e por forças estrangeiras (Cula, África do Sul e outras), pelo que além da proclamação da independência nacional feita em Luanda por Agostinho Neto, também Holden Roberto no Ambriz e Jonas Savimbi no Huambo, fizeram proclamações da independência.
A guerra de libertação nacional tinha durado de 1961 a 1974, mas seguiu-se uma dolorosa e longa guerra civil angolana com larga participação de forças estrangeiras, que se estendeu de 1975 a 2002.
A República Popular de Angola vive em paz há 17 anos e a sua caminhada para o progresso, depois de cerca de 40 anos consecutivos de guerra, continua a ser feita de forma gradual, mas democrática e sustentada. Hoje os angolanos podem festejar os 44 anos da sua independência em paz, em harmonia e em unidade nacional, superando todos os traumas do passado e as naturais diversidades das suas regiões e dos seus povos. Ninguém tem dúvidas que Angola é um país de futuro e de esperança para os quase 30 milhões de angolanos.

domingo, 10 de novembro de 2019

Lula regressa para lutar pelo Brasil

Depois de 580 dias na prisão e na sequência de uma decisão do Supremo Tribunal Federal brasileiro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi libertado da prisão de Curitiba, conforme relata a Folha de S.Paulo.
Embora não conheça os detalhes jurídicos da acusação, do julgamento e da condenação de Lula da Silva, nem as razões que agora ditaram a sua libertação, o caso Lula sempre me despertou interesse, sobretudo porque se trata de um homem cuja presidência, exercida entre 2003 e 2011, prestigiou internacionalmente o Brasil. O seu percurso político e a sua experiência operária e sindical levaram-no à presidência do quinto maior país do mundo (96 vezes maior do que Portugal), desenvolvendo o famoso programa “Fome Zero”, que foi reconhecido pelas Nações Unidas como o mais eficente programa mundial de redução da pobreza, com cerca de 40 milhões de brasileiros a ascenderem a uma nova classe média e com o número de pessoas que passam fome a ser reduzido em 50%. Evidentemente que esta mensagem de sucesso que vingou no exterior, não terá tido o mesmo reconhecimento interno, mas o facto é que os brasileiros se preparavam para levar Lula da Silva de novo à presidência. Porém, as acusações veiculadas e ampliadas pela imprensa, a par dos agentes da Justiça brasileira, travaram a hipótese de Lula da Silva disputar as eleições presidenciais de 2018 e daí resultou a vitória de Jair Bolsonaro, um presidente que não prestigia o seu país.    
À saída da prisão, Lula era esperado por muitos dos seus correligionários e atacou “o lado podre do Estado, da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal”, prometendo que ia lutar pelo Brasil. Os seus adversários não lhe vão dar tréguas para o devolver à prisão, mas a oposição ao actual regime brasileiro ganhou uma maior coesão e uma poderosa bandeira chamada Luiz Inácio Lula da Silva.

sábado, 9 de novembro de 2019

Celebrando a queda do muro de Berlim

Está hoje a comemorar-se, na Alemanha e em outros países, o 30º aniversário da queda do muro de Berlim, um acontecimento que, de forma simbólica, acelerou a reunificação alemã, bem como o fim do sovietismo e da guerra fria.
Depois da 2ª Guerra Mundial a Alemanha e a cidade de Berlim ficaram divididas em quatro sectores de ocupação - soviético, americano, francês e britânico – mas as relações entre as autoridades ocupantes, sobretudo soviéticas e ocidentais, foram geralmente tensas e daí resultaram duas moedas em circulação, dois ideais políticos e, por fim, duas Alemanhas. Em 1949, os três sectores ocidentais (americano, francês e britânico) passaram a constituir a República Federal Alemã (RFA) e o sector oriental (soviético) tornou-se na República Democrática Alemã (RDA). O ambiente político e o desenvolvimento económico das duas Alemanhas eram bem diferentes e, até 1961, calcula-se que quase 3 milhões de pessoas tivessem deixado a RDA em direcção à florescente RFA. Para contrariar esta realidade, em Agosto de 1961 as autoridades de Berlim Oriental decidiram iniciar a construção de um muro de cerca de 4 metros de altura que separava as duas partes da cidade de Berlim e, ao longo dele, uma avenida também conhecida por “faixa da morte”, dotada de sistemas de alarme e pela qual circulavam constantemente veículos policiais. O muro de Berlim tornou-se o ícone da das tensões Leste-Oeste e o símbolo da chamada Guerra Fria.
No dia 9 de Novembro de 1989, sob forte pressão popular, o governo da RDA afirmou que era permitida a passagem para o lado oeste da cidade e milhares de pessoas atravessaram para Berlim Ocidental. A destruição do muro começou então por iniciativa popular. Tinha durado 28 anos e, entre 1961 e 1989, mais de cinco mil pessoas tentaram atravessá-lo. Cerca de uma centena delas morreu quando procurava a liberdade.