sábado, 19 de outubro de 2013

O Pico e o seu poder de atracção

Mais uma vez andei pela ilha do Pico, que é  a segunda maior ilha dos Açores e sobre a qual vale sempre a pena repetir o que sobre ela disse Raúl Brandão em As ilhas desconhecidas:
“O Pico é a mais bela, a mais extraordinária ilha dos Açores, duma beleza que só a ele lhe pertence, duma cor admirável e com um estranho poder de atracção. É mais do que uma ilha - é uma estátua erguida até ao céu e amolgada pelo fogo - é outro Adamastor como o do cabo das Tormentas".
Podia considerar-se estar tudo dito com estas palavras ou considerar-se que Raúl Brandão apenas utilizou uma retórica desproporcionada, mas na realidade esta ilha tem um estranho poder de atracção sobre os forasteiros, pela imponência da montanha e pelas cores dos seus mares, das suas encostas e dos seus “mistérios”. Porém, o mesmo não se poderá dizer em relação aos picoenses que, sem actividades económicas relevantes para além da pecuária, vão procurando outros locais alternativos para viver e para trabalhar. Assim, a ilha envelhece, desertifica-se e vai acumulando histórias e memórias de um passado de isolamento e de fainas baleeiras de grande temeridade e dureza, mas também das boas lembranças que chegavam da longínqua América, para onde muitos açorianos tinham emigrado desde meados do século XIX.  
Tem havido muito progresso na ilha, mas até agora, nem o sistema político, nem a autonomia regional, nem a economia global conseguiram ainda dar passos consequentes para resolver a equação económica e social destas comunidades e para um melhor aproveitamento destes 447 Km2 de superfície, cuja paisagem natural tem sido tão bem preservada. Porém, há que confiar que melhores dias virão porque esta exemplar riqueza cultural e esta emocionante paisagem são singulares e vão perdurar no tempo. Eu deixo a ilha hoje para regressar ao rectângulo, mas voltarei sempre.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Angola, o estado da Nação e a parceria

Durante seu o discurso sobre o estado da Nação pronunciado no dia 15 de Outubro na Assembleia Nacional de Angola, o Presidente José Eduardo dos Santos anunciou o fim da intenção de estabelecer uma parceria estratégica com Portugal, semelhante às que Angola tem com os Estados Unidos, a China e o Brasil. Depois de ter salientado que Angola tem relações estáveis com quase todos os países do mundo, afirmou que "só com Portugal as coisas não estão bem” e acrescentou que têm surgido incompreensões ao nível da cúpula e, por isso,  o clima político actual não aconselha à construção da parceria estratégica antes anunciada.
Porém, o Presidente angolano não anunciou qualquer corte de relações com Portugal, nem sequer o fim da prevista parceria estratégica, pois apenas se referiu à “cúpula” e ao “clima político actual”, o que é um recado bem direccionado à incompetência e alguma leviandade com que tem sido tratada a relação Portugal-Angola, que é bem mais forte do que as circunstâncias políticas conjunturais. No entanto, os interesses angolanos e portugueses estão em causa e, por isso, a forma de fazer política deve ser repensada para proteger as centenas de empresas portuguesas que têm negócios com Angola e os 150 mil portugueses que por lá trabalham, mas também os legítimos interesses angolanos que se instalaram em Portugal. Perante as dificuldades que atravessamos, Angola tem sido um importante ponto de apoio para Portugal, mas Portugal também tem sido um paraíso para as elites angolanas. É um jogo de interesses e de vantagens comuns, mas nesse jogo que agora foi posto em causa, há que alterar comportamentos. Comecemos por corrigir os comportamentos dos nossos políticos, dos nossos empresários e dos nossos jornalistas para que “não vendam a alma ao diabo”, nem pactuem com comportamentos económicos de menor transparência que, como sabemos, acontecem e estão à vista em Portugal. Não sejamos como o Machete, nem como os muitos machetes que andam cá e lá. Nos negócios, como na vida, não vale tudo. Foi essa nossa fraqueza e, em muitos casos, subserviência, que deu força ao discurso do estado da Nação de José Eduardo dos Santos.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Despesismo do governo é mau exemplo

O Orçamento do Estado para 2014 é muito duro para os contribuintes, para os funcionários públicos e para os reformados e pensionistas, mas não tem o mesmo grau de exigência para aqueles que deviam dar o exemplo da contenção e da parcimónia, isto é, os governantes. Assim, sem bons exemplos, eles nunca conseguirão comandar esta nau e far-nos-ão andar à deriva como tem acontecido. No próximo ano os ministros e os respectivos gabinetes vão gastar mais do nosso dinheiro, pois verifica-se um aumento de cerca de 8,13% na sua despesa, quando comparado com a estimativa de despesa incluida no segundo orçamento rectificativo para o ano corrente. O governo engordou por via das várias remodelações decididas ao longo dos últimos meses com mais ministros, mais secretários de Estado, mais assessores e mais equipas de apoio, pelo que hoje já tem mais gente (56) do que o maior dos governos de Sócrates (55) que o primeiro ministro e o seu amigo catroga apontavam como exemplo de gorduras do Estado. Alguns gabinetes irão reforçar de forma significativa os respectivos orçamentos para 2014, como acontece por exemplo com a Presidência do Conselho de Ministros. É um mau exemplo por gastar mais, mas é uma falta de pudor por retirar esse dinheiro aos reformados. O Correio da Manha dá-nos hoje a exacta medida deste desregramento e deste despudor ao anunciar que a equipa do primeiro ministro é constituída por 60 pessoas, onde se incluem dez secretárias que ganham 1882 euros cada uma, onze motoristas que recebem 1848 euros cada qual e nove assessores que auferem uma média de 3653,81 euros. O jornal fez as contas e concluiu que esse gabinete custa 134 900 euros por mês, de acordo com a lista de nomeações publicada pelo Governo, com um salário médio de 2248 euros. Porém, todos sabemos que não é assim. Nesses gabinetes gasta-se à tripa forra e, por isso, a despesa da Presidência do Conselho de Ministros ainda será acrescentada com as viagens, as ajudas de custo, as despesas de representação, as horas extraordinárias, as viaturas, as refeições, os telemóveis e eu sei lá que mais, fazendo com que este despesismo seja um mau exemplo que passa para a sociedade.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Um Orçamento que ainda nos afunda mais

O governo anunciou a sua proposta do Orçamento do Estado para 2014 e, embora o vice-portas tivesse recentemente informado que não haveria mais austeridade, o facto é que a proposta governamental inclui novos e brutais cortes nos salários e nas pensões, assim como mais impostos e taxas. No seu conjunto o Orçamento significa um severo corte nos gastos públicos de cerca de 3,9 mil milhões de euros, ou seja, cerca de 2,3% do PIB. Trata-se de mais um brutal pacote de austeridade e, mesmo os partidos do governo, reconhecem que a proposta tem medidas gravosas. Este Orçamento é o terceiro preparado pelo actual governo e é a melhor prova da má governação que nos tem orientado. Antes de se instalarem no poder, prometeram que nunca haveria aumento de impostos nem cortes nas pensões e essas promessas foram uma descarada mentira. Nunca reconheceram a sua impreparação, nem a sua postura adolescente e de xicos-espertos. Têm-nos mentido repetidamente.
Hoje, o Diário de Notícias diz que é uma austeridade desigual, pois 82% resulta dos cortes na função pública, nos reformados, nos pensionistas e nos sectores da Educação e da Saúde, enquanto apenas 4% dessa austeridade vem das taxas para a banca, das petrolíferas e das redes de energia. Alguns destes cortes são imorais, injustos e inconstitucionais e vão afectar, uma vez mais, a procura interna, o produto e o emprego, além de contribuírem para o aumento da pobreza. Os grandes interesses empresariais quase ficam intocados e os seus encargos fiscais serão aliviados para estimular o investimento, mas o que vai acontecer é uma maior fuga de capitais.
Este Orçamento do Estado é uma verdadeira humilhação para os portugueses e uma vergonha para quem o patrocinou. Afunda-nos e empobrece-nos, mas eu não acredito que sejam capazes de o cumprir.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Moçambique e a importância do cajú

O semanário moçambicano Domingo que se publica na cidade do Maputo e que  é um dos periódicos publicados pela Sociedade do Notícias, SA , na sua última edição, dedica uma extensa reportagem ao cajú e à sua economia específica, dizendo que está em alta. E parece que sim.
Moçambique já foi um dos maiores produtores e exportadores mundiais de castanha de cajú até finais da década de 1970. Naquela altura, produzia cerca de 200 mil toneladas por ano, mas após a independência verificou-se uma redução da produção para as 15 mil toneladas anuais. Os tempos mudaram e, actualmente, o Instituto de Fomento do Cajú pretende recuperar o lugar que perdeu: na campanha de 2010-2011 foram exportadas cerca de 112 mil toneladas de castanha, mas na campanha seguinte as condições agro-climáticas trouxeram a produção para cerca de 80 mil toneladas. Na presente campanha de 2012-2013, a estimativa aponta para uma produção de 110 mil toneladas e esse resultado está a mostrar a importância económica e social do cajú para os moçambicanos. Actualmente, mais de 40 por cento dos agricultores moçambicanos, ou cerca de um milhão de agregados familiares produzem castanha de cajú, uma das poucas culturas fiáveis que os agricultores conseguem produzir no país. Na província de Nampula, a castanha de cajú, representa cerca de um quinto dos rendimentos totais dos agregados familiares e aproximadamente dois terços do total dos rendimentos em dinheiro. Perante este quadro, há um plano para aumentar o plantio de cajueiros e para expandir as áreas de produção de castanha de cajú, mas também para instalar novas fábricas de processamento que levem a um maior valor acrescentado do cajú moçambicano. Moçambique é actualmente um médio produtor mundial e quer recuperar quota de mercado a nível mundial, porque isso contribui para acabar com a pobreza de grande parte da sua população rural e para equilibrar a balança comercial do país.

Autumn beauty

Há dias destacamos aqui a primeira página do The Daily Telegraph por ter publicado a fotografia de uma onda gigante a rebentar sobre o farol de Seaham Harbour, no distrito de County Durham, no noroeste da Inglaterra.
Hoje é o jornal The Times que, na sua primeira página, destaca uma fotografia de Batcombe Vale, na região do Somerset, no sudoeste da Inglaterra, com a legenda “Autumn beauty”, na qual se pode observar a espessa neblina que cobre uma vasta área e que apenas deixa a copa das árvores à vista.
São duas excelentes fotografias a justificar que “uma imagem vale mais do que mil palavras”, mas a publicação destas duas fotografias em dois prestigiados jornais ingleses, separada por poucos dias, revela uma maneira diferente de fazer jornalismo, que é pouco habitual. Não se trata de optar entre conteúdos genéricos ou conteúdos especializados, nem de publicar notícias e opiniões sobre os mais diversos interesses sociais, com maior ou menor sensacionalismo para atrair leitores. O que estes jornais fazem é a promoção do fotojornalismo, isto é, a difusão da informação através da imagem com o apoio de um texto, em vez da habitual informação escrita apoiada por uma fotografia. Assim, o fotojornalismo mostra que pode ir para além das imagens das guerras, das catástrofes ou das competições desportivas e tratar temas tão vulgares, mas esteticamente atraentes, como é a chegada do Outono.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Air Costa para bem voar na Índia!

A Índia é uma federação de Estados com muitos contrastes culturais, muita gente, muitas religiões e mais de quatrocentas línguas e dialectos, havendo 23 línguas oficiais nos seus 28 Estados. O quarto maior desses Estados é o Andhra Pradesh, que é três vezes maior que Portugal e tem 84 milhões de habitantes, sendo a sua língua nacional o telugu (a 16ª língua mais falada no mundo). O seu principal jornal é o Eenadu (ఈనాడు) que se publica em Hyderabad, que tem seis milhões de leitores e que é redigido em telugu que, naturalmente, não domino. Na sua edição de hoje, o que chama a atenção dos leitores, no meio dos caracteres que não compreendemos, é uma notícia e um anúncio da Air Costa.
A Air Costa é a primeira companhia aérea regional do Estado de Andhra Pradesh e iniciou exactamente hoje os seus voos comerciais com dois aviões Embraer E-170 de fabrico brasileiro. A sua base será na cidade de Vijayawada e, por agora, voará para Hyderabad, Chennai, Bangalore, Jaipur e Ahmedabad mas, em Novembro, quando receber dois novos Embraer E-190, também voará para Madurai, Visakhapatnam, Goa, Thriuvananthapuram e Mysore. Até ao fim de 2014 a Air Costa espera ter uma frota de dez Embraer E-190. Na Índia é frequente, muito frequente, o aparecimento de companhias aéreas privadas de carácter regional, nacional e internacional que, com toda a lógica económica, nascem, crescem e morrem. A Air Costa será provavelmente mais uma delas, mas o que verdadeiramente surpreende é este nome em Andhra Pradesh.

domingo, 13 de outubro de 2013

Há novos protagonistas na Catalunha

Celebrou-se ontem o Dia Nacional da Espanha e, na cidade-capital da Comunidade Autónoma da Catalunha, que tanto tem defendido a sua independência, esse dia ficou assinalado por uma manifestação da chamada maioria silenciosa que se opõe ao projecto independentista. Como sempre sucede em todos os tipos de manifestações, a contabilização do número de manifestantes que participam é distorcida, mas parece que umas cem mil pessoas encheram a praça da Catalunha em Barcelona e, esse número, satisfez a organização.
Os participantes quiseram afirmar-se como "catalães que se sentem espanhóis" e invocar a Hispanidade como um valor cultural comum que é partilhado universalmente, tendo adoptado bandeiras espanholas e catalãs coladas e utilizado como principal slogan a frase Som Catalunya –Somos España (Somos Catalunha, Somos Espanha), como noticia o jornal La Vanguardia.
O príncipe Filipe que, por doença do Rei, presidiu pela primeira vez às cerimónias militares do Dia Nacional da Espanha que decorreram em Madrid, discursou depois numa cerimónia pública e, tal como os manifestantes de Barcelona, apelou à unidade e a um futuro comum. Significa que a reivindicação independentista catalã que até agora se exprimia nas ruas sem contraditório e com grande força, passou a ter uma força que se lhe opõe também nas ruas, o que pode aumentar a tensão social e perturbar o processo democrático catalão. Serão uns e os outros. É preciso cuidado e, por isso, é a altura dos dirigentes nacionais actuarem e com rapidez.
 

As belas fotografias do Outono

No hemisfério norte, o Outono começa habitualmente no dia 23 de Setembro, quando o Sol no seu movimento orbital aparente cruza o plano do Equador Celeste. É o equinócio do Outono e, depois do dia ter sido maior do que a noite durante seis meses, a partir dessa data, a noite vinga-se e será maior do que o dia durante seis meses.
No Outono baixam as temperaturas e aumenta a pluviosidade, as árvores perdem as suas folhas verdes, há mais nevoeiro e mais neve, o tempo torna-se sombrio e, no mar, as tempestades são mais frequentes.
O jornal inglês The Daily Telegraph, que qualquer dia é bicentenário e tem uma circulação diária de quase um milhão de cópias, quis evocar o recém chegado Outono e decidiu publicar na sua primeira página uma fotografia de uma onda gigante a atormentar um farol. Como acontece com frequência nos jornais ingleses foi mais uma vez escolhido o espectacular encontro do mar do Norte com o farol de Seaham Harbour, no distrito de County Durham, no noroeste da Inglaterra. É uma imagem que se repete muitas vezes todos os anos e que realmente impressiona. Um grande documento fotográfico! 
 
 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

As pensões vitalícias são uma aberração

É um dos temas do momento, porque é muito populista e assenta perfeitamente no nosso actual momento político, certamente para disfarçar o tsunami orçamental que nos vão apresentar na próxima semana: trata-se da proposta governamental para cortar em 15% as subvenções vitalícias dos titulares de cargos políticos.
Essa regalia foi extinta em 2005, mas continua a ser atribuída aos políticos que nessa data já tinham adquirido esse direito e, por isso, o seu número não cessa de aumentar, obrigando a sacar mensalmente quase um milhão de euros por mês dos nossos impostos para lhes pagar. Esta transferência é uma situação que nos envergonha a todos, incluindo aqueles que a recebem! Estas quatro centenas de políticos que recebem uma pensão vitalícia por terem servido ou terem-se servido do Estado, não estiveram integrados em nenhum regime contributivo e beneficiam de um direito que eles próprios criaram em seu proveito, o que torna mais aberrante a situação.
Apesar da relação destes beneficiários ser secreta (vá-se lá saber porquê), os seus nomes vão aparecendo na blogosfera e verificamos que a maioria é possuidora de fortuna pessoal ou ocupa altos e bem remunerados cargos: Carlos Melancia, Eduardo Catroga, Álvaro Barreto, Zita Seabra, António Vitorino, Joaquim Ferreira do Amaral, Duarte Lima, Dias Loureiro, Santana Lopes, Marques Mendes, Mário Soares, José Penedos, João Cravinho, Carlos Encarnação, Odete Santos, Isabel de Castro, Manuel Alegre, Cavaco Silva, Ângelo Correia, Armando Vara, Almeida Santos, Rui Gomes da Silva, Manuela Ferreira Leite, Alberto João Jardim, Freitas do Amaral, Jorge Coelho, Carlos Brito, Fernando Rosas, Miguel Relvas, José Lello e assim por diante.
Enquanto há muitos milhares de reformados que descontaram durante muitos e muitos anos e agora são sujeitos a cortes nas suas magras pensões, estes políticos que nada descontaram têm estado até agora intocáveis nesta aberração que são as suas pensões vitalícias. Como é injusto e cruel tudo isto! Por isso, em vez de lhes ser aplicado um desconto de 15%, melhor seria acabar com essas transferências e obrigá-los a devolver tudo o que já receberam e que foi pago com os nossos impostos.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Eles já procuram bodes expiatórios

O actual governo tomou posse no dia 21 de Junho de 2011 e, portanto, já leva quase 28 meses de actividade. Não vale a pena usar quaisquer indicadores económicos ou sociais para conhecer a nossa realidade, porque ela está à vista de todos: as desigualdades acentuaram-se, aumentou a pobreza, há uma geração de gente qualificada que continua sem emprego, os mais capazes emigraram e os mais incapazes tornaram-se assessores, o território continua a desertificar-se, o pequeno comércio está a morrer e os problemas financeiros – dívida e défice – continuam como antes, ou talvez, pior. Uns dias dizem-nos que estamos no bom caminho, para no dia seguinte nos ameaçarem com um segundo resgate e nos imporem mais cortes aos nossos rendimentos do trabalho. Apesar das políticas seguidas serem um insucesso ou mesmo uma quase tragédia, eles insistem no mesmo caminho e atacam os mais fracos, enquanto cobardemente estão de cócoras perante a banca, a edp, a galp, as ppp e os outros tubarões que tomaram conta da nossa terra com a cumplicidade destes políticos. Já não há linhas vermelhas e para o par passos-portas já parece valer tudo.
Nos últimos dias e em antecipação à apresentação do Orçamento do Estado, toda a artilharia governamental e dos seus lambe-botas, se virou contra a Constituição e contra os juízes do Tribunal Constitucional, usando a ameaça e procurando, desde já, um bode expiatório para o vendaval que se aproxima. Ora, é preciso dizer claramente que a Constituição não tem de se adaptar às decisões políticas do governo, mas este e as suas políticas é que têm de se adaptar à Constituição. Que, ao menos em Belém, se perceba isto e se actue em conformidade.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

EDP: um Estado dentro do Estado?

No seu recente discurso ao país sob a forma de conferência de imprensa o irrevogável ministro portas ultrapassou as marcas e atirou muita poeira para os olhos dos portugueses. Entre as coisas que anunciou para exibir o seu populismo e a sua (in)coerência, destacou-se o anúncio de medidas de poupança que o governo vai adoptar no próximo ano, que não afectam directamente os contribuintes, nem os reformados, nem os funcionários públicos. Era o ataque ao capital que este governo fazia, pela boca do corajoso ministro e a medida anunciada era, nada mais nada menos, que uma nova taxa sobre as rendas das produtoras de electricidade. Finalmente, a população via uma decisão que contribuia para a moralização da nossa vida fiscal!
Porém, o presidente não executivo da EDP que dá pelo nome de catroga, reagiu imediatamente e, esquecendo-se que a empresa teve um lucro de 1125 milhões de euros em 2011 e um lucro de 1012 milhões de euros em 2012, veio dizer que se tratava de uma taxa injusta, que violava os contratos assinados com a China Three Gorges, a empresa que detém 21,35% do seu capital e que, além disso, também iria afectar os consumidores. E fica a dúvida: catroga é mandarete ou mandarim?
A personagem tornou-se conhecida dos portugueses pelo seu estilo caceteiro e pela ignorância com que tratou os problemas do Estado, ao insistir que se resolviam com o corte de gorduras. Depois foi premiado e passou a ganhar cerca de 45 mil euros por mês, coisa que o comentador mendes, seu correlegionário, considerou mais ou menos pornográfica. Deixou de ter vergonha. É um novo-rico. E disse, ainda, que com esta medida, a credibilidade do Estado ficaria em xeque. É caso para ver como o dueto passos-portas vai resolver o xeque que já lhe foi posto pelos accionistas chineses da EDP e pelo seu amigo catroga.

domingo, 6 de outubro de 2013

Australia: sails of the century

A generalidade dos países marítimos conserva tradições e evoca memórias do seu passado de ligação ao mar, através de diversas manifestações que visam a preservação desse legado. Uma dessas manifestações é a chamada revista naval, um evento em que um significativo número de navios de vários países se reúne e desfila a propósito de um acontecimento considerado relevante para o país organizador.
É com esse espírito que a Austrália organiza no porto de Sydney, entre os dias 3 e 11 de Outubro, a International Fleet Review (IFR), na qual participam 40 navios de guerra e 17 veleiros de cerca de duas dezenas de países. O evento comemora o primeiro centenário da entrada no porto de Sydney da nova Royal Australian Navy: no dia 4 de Outubro de 1913 entraram na baía de Sydney o navio-chefe HMAS Australia, à frente dos HMAS Melbourne, Sydney, Encounter, Warrego, Parramatta e Yarra, tendo então sido saudados por milhares de pessoas. Foi um momento de grande exaltação patriótica e de orgulho nacional que, como reconhecem os historiadores, muito contribuiu para a afirmação e para o progresso da Austrália.
Apesar do período de crise por que passa a Europa, a tradição marítima europeia estará presente na baía de Sydney por navios da Grã-Bretanha, França, Espanha e Holanda. A imprensa australiana destaca este evento e o The Sydney Morning Herald titula “Sails of the  century”, apresentando uma sugestiva imagem em que um veleiro navega, tendo por fundo a Sydney Harbour Bridge, um dos ex-libris da cidade. E aqui está, como um país jovem e quase sem história arranja pretextos para reforçar a sua coesão nacional, enquanto por aqui vamos assistindo à destruição de símbolos marcantes da nossa história por gente sem estatuto cultural, que até nos governa.

sábado, 5 de outubro de 2013

Viva a República!

O dia de hoje não foi feriado nacional porque no ano passado, a pretexto da crise económica e de um novo Código do Trabalho, foram eliminados os feriados de 5 de Outubro (Implantação da República) e de 1 de Dezembro (Restauração da Independência), além de dois outros feriados religiosos.
Assim, a implantação da República foi discretamente comemorada no salão nobre dos Paços de Concelho, com a leitura de dois discursos e a presença de muitas entidades oficiais, além de muitos assessores e seguranças, mas sem a participação popular porque o povo estava a trabalhar. Um pequeno grupo de manifestantes fez-se ouvir com as suas vaias, assobios e gritos de demissão.
De tudo isto, aproveitou-se o discurso do recém-eleito Presidente da Câmara Municipal de Lisboa que, para além de ter prestado homenagem a Raúl Rego, disse: "Estamos numa crise e temos de a vencer. Estamos num impasse e temos de o ultrapassar. Mas não podemos vencer este impasse secundarizando a democracia e as suas regras. Pelo contrário, devemos usar a democracia como referência e argumento para, em sua defesa, nos unirmos e mobilizarmos".
Criticou o "vale tudo político" e o "vale tudo financeiro e económico", isto é, que as "regras fundamentais da democracia ou do Estado de Direito sejam ignoradas ou postergadas, em nome de objetivos imediatos ou sob pressão dos acontecimentos" e acrescentou que "a crise tem de ser combatida com as regras e os instrumentos da democracia" e "na convicção de que não há contradição entre democracia e desenvolvimento económico".
Ora aqui está um discurso apropriado, que honra a República. Terá sido ouvido por aqueles a quem se destinava?

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O irrevogável ministro da propaganda

Foi ontem anunciado com alguma solenidade que a troika fez uma avaliação positiva do programa de ajustamento económico e financeiro em curso e o mesmo personagem que dias antes falava do penta, falou agora em corridas de cinco mil metros. O homem é mesmo um desportista, além de habilidoso e espertalhão, mas não pode pensar que os outros estão distraídos e não o topam. Há três meses decidiu irrevogavelmente demitir-se, porque seria um acto de dissimulação se continuasse no governo, mas deu o dito por não dito e ficou. A bem da nação! Assim se criou uma crise política que assustou os nossos credores e tem custado milhões. Porém, o personagem acha que valeu a pena porque lhe permitiu chegar onde queria, isto é, manda naquela malta toda, desde as albuquerques aos moedas, passando pelo próprio passos.
Entretanto, ele disse que são visíveis sinais de melhoria do clima económico e que, este ano, o produto já não cairá 2,3% como previsto, mas apenas 1,8%, enquanto o desemprego não se situará nos previstos 18,2%  mas que ficará pelos 17,4%. É isto que o anima? Ora o défice público continua sem cair, a pobreza aumenta, o pequeno comércio está bloqueado, os jovens emigram e a dívida pública continua a aumentar. Porém, há dúvidas sobre a real andamento da economia e eles não se entendem sobre se a dívida é ou não é sustentável. No meio de toda esta desorientação e de tanta propaganda, vieram dizer-nos que todas as medidas de carácter excepcional serão mantidas no orçamento do próximo ano e que não há qualquer possibilidade de haver uma redução de impostos para as famílias no próximo ano. Então, se há sinais de melhoria, por que razão nos escondem os cortes e nos vão continuar a atrofiar?