quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O enorme Guterres e o pequenino Barroso

No mesmo dia em que o Conselho de Segurança das Nações Unidas escolheu António Guterres para seu secretário-geral por unanimidade e aclamação, o semanário francês Politis centra a sua edição na “Europe des profiteurs” e destaca na sua primeira página a fotografia de José Manuel Barroso, o ex-presidente da Comissão Europeia.
Fui ao Micro Robert, o meu dicionário de francês, para saber o significado exacto daquela palavra “profiteur” e verifiquei que significa “personne qui tire des profits malhonnêtes ou immoraux de quelque chose”. Fiquei estarrecido! No mesmo dia em que a comunidade internacional elogiava e enaltecia a figura exemplar de António Guterres e que o nosso orgulho passava por um raro momento de entusiasmo colectivo, um semanário francês com uma circulação de algumas dezenas de milhar de exemplares revela alguns detalhes sobre “l’avidité et l’affairisme” dos ex-comissários europeus e destaca a promiscuidade entre os interesses das grandes instituições financeiras e as autoridades comunitárias que, segundo salienta o semanário, já não surpreende ninguém.
A figura central dessas críticas é José Manuel Barroso, o homem que aceitou aliar-se à Goldman Sachs pelo dinheiro que lhe ofereciam. Para ele, não houve princípios nem valores. Apenas a febre do dinheiro. Porém, o semanário vai mais longe e informa que no próximo dia 12 de Outubro, os sindicatos dos antigos funcionários europeus irão remeter aos presidentes das três instituições da União Europeia uma petição, na qual reclamam “medidas fortes e exemplares contra José Manuel Barroso por se ter ligado à Goldman Sachs”, a qual é feita em sete línguas e já recolheu 150 mil assinaturas. Uma vergonha!
O contraste entre estes dois antigos primeiros-ministros de Portugal não podia ser mais evidente: um deles entra nas Nações Unidas por unanimidade e aclamação, enquanto outro entra no Goldman Sachs ganancioso e sem princípios, mas humilhado e ridicularizado pela imprensa e pela opinião públicas mundiais. Um grande e um pequenino. Como é possível haver quem seja capaz de comparar estes dois homens, como têm feito nas últimas horas alguns políticos muito medíocres e analfabetos que por aí andam.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Os meus parabéns para António Guterres

O Diário de Notícias anunciava na sua edição de hoje que “Guterres vai a votos frente a candidata de última hora”. Depois de ter vencido as cinco primeiras votações para a escolha do novo secretário-geral das Nações Unidas realizadas entre os 15 membros do Conselho de Segurança, o candidato António Guterres cuja candidatura para aquele cargo foi proposta em Fevereiro pelo governo português, foi confrontado com o aparecimento de uma nova candidatura, protagonizada pela búlgara Kristalina Georgieva com o apoio do seu governo, da chanceler Merkel e da Comissão Europeia.
Muita gente que apoiava a candidatura de Guterres, incluindo muitos comentadores, criticaram o aparecimento tardio de Georgieva e começaram a imaginar negociações de bastidores, sobretudo entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, de que poderia resultar a eleição de um outro candidato. Nessas circunstâncias, as características pessoais e a experiência política de António Guterres podiam deixar de impressionar o Conselho de Segurança, como acontecera até então.
Hoje a meio da tarde a notícia chegou: António Gueterres venceu a sexta votação dos membros do Conselho de Segurança, sem ter tido nenhum veto dos seus membros permanentes.
Pouco depois, o embaixador russo Vitaly Churkin, rodeado pelos embaixadores dos outros membros do Conselho de Segurança afirmou: "Hoje, depois da nossa sexta votação, temos um favorito claro e o seu nome é António Guterres. Decidimos avançar para um voto formal amanhã de manhã e esperamos fazê-lo por aclamação".
Foi a vitória de António Guterres e do governo português, num processo em que todos se uniram em torno de um homem exemplar (excepto um tal Mário David e mais alguns rapazolas que andam por Bruxelas), mas que também foi a afirmação do prestígio de que Portugal goza no mundo como país culturalmente aberto e amante da paz e do progresso.
Eu sou daqueles que acham que é bom para o nosso país que o secretário-geral da ONU seja um português! Estou orgulhoso. Parabéns e boa sorte!

Aniversário da implantação da República

Celebram-se hoje 106 anos sobre a data em que foi implantada a República Portuguesa, na sequência de uma revolta preparada pelo Partido Republicano Português que foi bem sucedida.
O descontentamento popular era enorme devido à crise económica e social, havendo fortes críticas à subordinação nacional aos interesses britânicos, ao poder da Igreja, aos gastos da Família Real e ao governo da Ditadura. Esse descontentamento vinha-se acumulando desde há muitos anos e os adversários da Monarquia aumentavam. O Regicídeo de 1908 foi um sério aviso. Quando os marinheiros e os soldados se revoltaram em Lisboa estavam politicamente enquadrados pelos partidos republicanos e por outras organizações políticas, tinham o apoio da população e encontraram uma resistência débil. Na Rotunda impôs-se a tenacidade, a coragem e a inteligência do comissário naval Machado dos Santos e na manhã do dia 5 de Outubro de 1910, os dirigentes do Partido Republicano Português dirigiram-se para os Paços do Concelho, de cuja varanda José Relvas proclamou a República em nome do Povo, do Exército e da Armada. Pela mesma hora o rei D. Manuel II e a Rainha D. Amélia suamãe, embarcaram na Ericeira para o exílio.
O dia 5 de Outubro passou a ser um dia de grande unidade nacional. Durante muitos anos foi feriado, teve cerimónia oficial e foi dia de festa. Depois deixou de ser tudo isso. Voltou o feriado e a cerimónia oficial, mas a festa foi esquecida, inclusive pela Imprensa.
Hoje, apenas o Diário de Notícias da Madeira evoca a proclamação da República e fá-lo com grande destaque. São sinais dos tempos e da falta de memória histórica por que passa a nossa Imprensa que, certamente, esteve muito envolvida no cocktail da inauguração do Maat.

Maat: o novo museu que nos enche a vista

Foi inaugurado ontem em Lisboa o novo Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia que resultou de uma iniciativa da Fundação EDP e que a publicidade e a imprensa já consagraram pela sigla maat.
Localizado na margem do rio Tejo na zona de Belém, o maat foi desenhado pela arquitecta britânica Amanda Levete e traz novas formas arquitectónicas à cidade de Lisboa, alinhando-se na mesma zona da cidade com outras expressões da arquitectura contemporânea, como são as instalações da Fundação Champalimaud concebidas pelo arquitecto goês Charles Correa e o Museu Nacional dos Coches desenhado pelo arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha. Esta zona histórica da cidade onde se encontram alguns dos mais simbólicos monumentos portugueses que evocam o nosso passado histórico, fica agora enriquecida com mais uma construção moderna, futurista e de grande qualidade arquitectónica, que valoriza a cidade de Lisboa e que tem características para se tornar uma referência no circuito internacional da arte contemporânea, para além de ser um novo e sofisticado miradouro sobre o Tejo.  
A EDP e a sua Fundação estão de parabéns por esta iniciativa cultural e aqui fica registado o meu aplauso, com base naquilo que a televisão nos mostrou e os jornais escreveram, porque só mais tarde visitarei este novo equipamento cultural.
Porém, os jornais dizem que o maat custou 20 milhões de euros. Assim sendo, esta obra custou apenas 2% do lucro anual da EDP que, habitualmente, atinge mais de mil milhões de euros. Nessas circunstâncias, os merecidos louvores à EDP têm que ser controlados, até porque todos esses lucros resultam da prática continuada e abusiva de preços exagerados que a EDP pratica nos seus fornecimentos de energia aos consumidores. Por isso, a EDP não exagerou na sua generosidade cultural, pois limitou-se a devolver à fruição dos cidadãos uma parte daquilo que mensalmente lhes tinha retirado.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Índia e o Paquistão em rota de colisão?

A descolonização e a partilha da Índia Inglesa aconteceu em 1947 e dela resultou a criação da Índia e do Paquistão como Estados independentes, numa separação em que o factor religioso foi dominante. Porém, a partilha dessa região do Império Britânico não ficou bem resolvida e, desde então, os muçulmanos de Islamabad e os hindus de Nova Delhi já se envolveram em quatro guerras em 1947, 1965, 1971 e 1999, embora esses conflitos tenham sido sempre muito localizados.
A rivalidade indo-paquistanesa não é só religiosa mas também é política, pois resulta das suas discordâncias em relação ao território de Jammu e Caxemira, que é considerado o lugar mais perigoso ou a fronteira mais perigosa do mundo, daí resultando a presença da UN Military Observer Group in India and Pakistan (UNMOGIP), que desde 1949 observa o que se passa e procura dissuadir aqueles países de se envolverem em acções militares. Ambos os países reivindicam essa região, a China não se mostra desinteressada e há os movimentos locais independentistas.
Os atritos e as incursões são frequentes e geram tensões que, muitas vezes, tendem para a escalada. Assim tem acontecido nos últimos dias, como tem sido noticiado por alguma imprensa internacional, o que já levou as Nações Unidas a recomendar moderação aos dois países que, como se sabe, dispõem de armamento nuclear.
Embora a imprensa indiana ainda não tenha tratado deste tema porque ainda estará nos limites do tolerável, a última edição em hindi da revista Outlook (आउटलुक), que se publica em Nova Delhi, chama a atenção para a situação que se está a viver e mostra uma fotografia da extravagante cerimónia militar do encerramento da fronteira em Wagah, no Punjab, à qual assistem muitas centenas de pessoas entusiasmadas e delirantes, como se fosse um grande espectáculo musical ou desportivo. A publicação desta fotografia na mais influente revista indiana não pode deixar de ser “um apelo ao nacionalismo indiano face à ameaça de agressão paquistanesa”. Certamente que em Islamabad também haverá revistas com semelhantes "apelos ao nacionalismo paquistanês face à ameaça de agressão indiana". Tem sido sempre assim desde 1947, isto é, desde que o hindu Jawaharlal Nerhu e o islamita Muhammad Ali Jinnah se desentenderam.

O referendo ameaça a paz na Colômbia

As enormes expectativas criadas há uma semana com a assinatura dos acordos de Cartagena e com o fim da guerra civil, tremeram ontem na Colômbia com o anúncio dos resultados do referendo promovido pelo Presidente Juan Manuel Santos: 49,8% dos colombianos disseram sim aos acordos de Cartagena, mas 50,2% recusaram-no. Em termos mais simples, o povo colombiano rejeitou o acordo de paz com as FARC.
Tal como aconteceu recentemente no Reino Unido, os referendos têm por vezes resultados inesperados e que tudo complicam...
A interpretação destes resultados mostra que os colombianos querem a paz, mas estão divididos e não a aceitam a qualquer preço. Assim, uma boa parte da população parece não querer esquecer e perdoar as práticas de terror desenvolvidas pelos guerrilheiros durante tantos anos e não aceita os termos negociados para a sua integração na sociedade colombiana.
Sabia-se das dificuldades que os guerrilheiros teriam na sua transição da selva para a cidade, mas não se imaginava que houvesse um tão forte sentimento de rejeição aos guerrilheiros, o que significa que as feridas da guerra são ainda muito profundas.
Hoje o jornal El Heraldo publica uma declaração de Juan Manuel Santos: “no me rendiré, seguié buscando la paz hasta el último minuto de mi mandato”. De facto, a tarefa que o Presidente da República da Colômbia tem pela frente é complexa e difícil mas, apesar da ameaça que é o resultado do referendo, os colombianos vão certamente ultrapassar esta dificuldade.

domingo, 2 de outubro de 2016

Argentinos festejam no Mundial de futsal

A cidade colombiana de Cali assistiu ontem à final da Copa Mundial de Fútsal de la FIFA – Colômbia 2016, em que a equipa da Argentina derrotou a equipa da Rússia por 5-4, tornando-se campeã mundial pela primeira vez nesta modalidade que, até então, apenas tinha tido o Brasil e a Espanha como campeões. Antes, jogaram as equipas de Portugal e do Irão para discutir o 3º lugar, mas depois de um empate por 2-2 no tempo regulamentar, a sorte dos pontapés de grande penalidade sorriu ao Irão e a equipa portuguesa regressou de Cali com um 4º lugar.
A vitória argentina teve honras de primeira página na maior parte dos jornais argentinos, como sucedeu com o diário Clarín que salientou em título “la alegria más grande en el futsal”, mas os jornais portugueses não deram qualquer destaque à participação portuguesa neste campeonato mundial. Apesar da equipa portuguesa não tenha atingido o resultado de 2000 quando se classificou em 3º lugar no campeonato do mundo disputado na Guatemala, a participação portuguesa em 2016 foi muito positiva, como se pôde observar através das transmissões directas da RTP. Depois de defrontar a Colômbia (1-1), o Panamá (9-0), o Uzbequistão (5-1), a Costa Rica (4-0) e o Azerbaijão (3-2), a equipa defrontou a Argentina nas meias-finais e foi derrotada por 5-2. Com esta derrota no jogo de acesso à final, a selecção portuguesa foi disputar o 3º lugar com o Irão e perdeu esse jogo.
A espetacularidade do futsal é entusiasmante e o 4º lugar obtido em Cali pela selecção portuguesa merece aplauso, tal como o virtuoso Ricardo Braga ou Ricardinho, um filho de Gondomar que além de já ser considerado o melhor jogador do mundo, foi o maior marcador de golos (12) nesta Copa Mundial de Fútsal de la FIFA – Colômbia 2016. Porém, a grande festa foi argentina como se vê na fotografia publicada pelo diário Clarín e na restante imprensa argentina.

Um caso tão triste “born in Boliqueime”

Os livros que tratam da Ciência da Comunicação ensinam que uma notícia é um relato de um acontecimento verdadeiro ou não. Assim, a notícia da primeira página do Público de ontem, segundo a qual “Cavaco pagou durante 15 anos metade do IMI que devia ter pago”, pode referir-se a uma facto verdadeiro ou não verdadeiro, mas é com certeza mais uma achega para confirmar a desastrada apetência de Aníbal Cavaco Silva por dinheiro e a sua ânsia por atingir uma situação material que apague o seu passado rural e altere o seu estatuto identitário de born in Boliqueime. A história é longa, controversa e não cabe toda aqui.
Por escritura realizada em 9 de Julho de 1998, Cavaco trocou a sua vivenda Mariani de Montechoro pela Gaivota Azul no empreendimento da Aldeia da Coelha, sendo atribuido o valor de 135 mil euros a cada uma das casas, embora fossem muito diferentes. Ele fez que não viu. Segundo refere a notícia, o contribuinte Cavaco terá fornecido às Finanças dados errados da sua nova casa, da sua área e das suas características, o que terá feito cair para cerca de metade os impostos que devia pagar. Ele fez que não viu. Entretanto, em 2009 a autoridade tributária considerava que, pelo menos desde 1999, a casa de Cavaco tinha um valor patrimonial de 199.469 euros, mas em 2015 os mesmos serviços reavaliaram a mesma casa e chegaram a um valor muito diferente: 392.220 euros. O jornal não conseguiu apurar se as Finanças lhe exigiram ou não que pagasse o diferencial entre os impostos que pagou desde 2000 e aqueles que realmente devia ter pago.
Porém, a trapalhada contributiva de Cavaco tem outros contornos nada exemplares para quem ocupou os mais altos cargos do Estado. Assim, tendo sido accionista da S.L.N., que era a detentora do BPN, em 2001 adquiriu 105.378 acções dessa sociedade gerida pelos seus amigos Oliveira e Costa e Dias Loureiro. Dois anos depois, essas acções que tinham sido compradas a um euro cada uma foram recompradas pela S.L.N. a 2,4 euros, o que significou um lucro de 147,5 mil euros, enquanto a sua filha lucrou ainda mais ao embolsar um lucro de 209,4 mil euros. Uma mais-valia de cerca de 150% em dois anos! Como é que um economista tão experiente não viu anormalidade neste caso?
Depois Cavaco foi para Belém e, pasme-se, abdicou do seu vencimento como Presidente da República para beneficiar da pensão de reforma que era mais elevada, isto é, Cavaco alheou-se demasiadas vezes dos princípios de cidadania em que devia ter sido exemplar, fazendo negócios cinzentos com acções e não cumprindo obrigações fiscais.
Cavaco continua a ser um caso triste da nossa história recente.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

R.I.P. D. Arquimínio Rodrigues da Costa

Faleceu no dia 12 de Setembro em São Mateus, a freguesia da ilha do Pico onde nasceu em 1924, aquele que foi o último bispo português de Macau. Chamava-se Arquimínio Rodrigues da Costa e tinha 92 anos de idade. Na sua última edição, o semanário O Clarim que se publica em português e que é propriedade da Diocese de Macau, homenageia o seu antigo Bispo, classificando-o como “diplomata, inteligente e amigo”.
Ainda adolescente foi  para Macau para frequentar o seminário de S. José, onde foi ordenado sacerdote e onde veio a ser professor. Depois de um período de férias nos Açores, de onde estivera ausente entre 1938 e 1956, seguiu para Roma onde frequentou o curso de direito canónico na Pontifícia Universidade Gregoriana, aí concluindo a sua licenciatura em 1959.
De regresso a Macau retomou as suas funções docentes e em 1962 tornou-se reitor do seminário de S. José. Segundo uma nota da diocese de Macau era um “professor competentíssimo, um sacerdote cheio de humildade e um poliglota, com destaque para o mandarim e o cantonense, em que fala e prega fluentemente”. Devido à ausência do respectivo titular, em 1963 foi nomeado governador do Bispado de Macau, mas em 1976 foi elevado à dignidade episcopal pelo Papa Paulo VI e foi nomeado definitivamente Bispo de Macau.
Dom Arquimínio Rodrigues da Costa serviu no território de Macau duas comunidades culturalmente heterogéneas durante cerca de cinquenta anos e teve o apreço e o reconhecimento dos macaenses e das autoridades portuguesas. Em 1988 pediu a sua resignação e pouco tempo depois fixou residência na sua ilha do Pico, ocupando-se nas tarefas de recuperação do seu património familiar em São Mateus e na cooperação com a igreja local.
Era um dos cincos Bispos naturais da ilha do Pico que, ao longo do século XX, serviram a igreja católica em Goa, Macau e Timor. Dezassete dias depois do seu falecimento aqui fica registado um louvor à sua acção missionária.

Tavares e o seu optimismo para o futuro

A edição semanal do jornal económico francês La Tribune publica hoje uma grande entrevista com Carlos Tavares, o português de 58 anos de idade que desde 2014 dirige o grupo francês PSA, cujas marcas de excelência são a Peugeot e a Citroën. A entrevista é destacada com uma fotografia que ocupa a totalidade da capa do jornal.
O conteúdo da entrevista é, sobretudo, a revelação de um pensamento ordenado sobre o futuro da indústria automóvel e de um gestor optimista. Tavares acredita que as necessidades de mobilidade das pessoas vai aumentar e que a procura do automóvel também vai continuar a aumentar, mas que terá de continuar a assentar na segurança e no conforto. Por isso, está confiante. De resto, os seus dois anos à frente do grupo PSA têm sido de grande sucesso em todos os domínios, uma vez que o grupo passou de um estado de quase falência para uma situação de grande dinamismo, assente numa nova cultura de empresa baseada nos conceitos de frugalidade e na agilidade, de que tem resultado um melhor ambiente empresarial, um diálogo frutuoso com os sindicatos e uma substancial melhoria dos resultados comerciais. Segundo Tavares, aproximam-se novos desafios, incluindo a instalação do grupo no grande mercado do futuro que é a Índia, mas o grupo PSA, tal como a maioria dos construtores automóveis, acumularam muitos anos de experiência e de sabedoria que, por exemplo a Apple e a Google não têm, o que constituiu um factor de segurança nos seus investimentos e actividades.
O grupo PSA está instalado em Portugal desde Fevereiro de 1964 através do Centro de Produção de Mangualde da PSA (CPMG), que é a maior empresa do distrito de Viseu e que ocupa o 9º lugar entre as maiores exportadoras do país, uma vez que cerca de 91% da sua produção é exportada. No ano passado, os seus 730 efectivos produziram 46.584 veículos de dois modelos: o Citroën Berlingo e o Peugeot Partner. Bem precisamos desta e de muitas outras PSA.
Boa sorte Carlos Tavares!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A paz na Colômbia como exemplo a seguir

Numa cerimónia pública realizada ontem na cidade colombiana de Cartagena, Juan Manuel Santos o Presidente da República da Colômbia e Rodrigo Londoño Jiménez (Timochenko) o chefe máximo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), assinaram um acordo de paz de 297 páginas que põe um ponto final a 52 anos de uma guerra civil, que causou mais de 260 mil mortos e seis milhões de desalojados.
Era o mais longo conflito armado da América Latina. Um minuto de silêncio, com o público de pé, antecedeu o acto simbólico, numa cerimónia que contou com a presença de Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, do rei emérito de Espanha João Carlos, de John Kerry o secretário de Estado dos Estados Unidos e de 15 chefes de Estado latino-americanos, entre os quais Raúl Castro.
Os emotivos discursos pronunciados foram muito ovacionados: Rodrigo Londoño disse que "em nome das FARC, peço perdão a todas as vítimas do conflito", enquanto Juan Manuel Santos afirmou que “esta é a libertação que dá o perdão. O perdão que não só liberta o perdoado mas também – e acima de tudo – o que perdoa”. O acordo assinado em Cartagena abre muito boas perspectivas para o futuro dos colombianos, mas também para todos os que procuram a paz noutras partes do mundo. Todos os jornais colombianos publicaram nas suas primeiras páginas a histórica fotografia da assinatura do acordo que acabou com uma tão longa guerra que o mundo aplaudiu, naturalmente a pensar num desfecho semelhante para a martirizada Síria. Como afirmou o Presidente Juan Manuel Santos “hay una guerra menos en el mundo, y es la de Colombia”.
Que o exemplo colombiano frutifique.

domingo, 25 de setembro de 2016

Doñana: um parque único aqui tão perto

A excelente fotografia escolhida pelo Diario de Sevilla para ilustrar a sua edição de hoje fala por si só, pois mostra a boa saúde do Espacio Natural de Doñana que em 1994 foi declarado pela UNESCO como Património da Humanidade. Situado na Andaluzia e ocupando a margem direita do estuário do rio Guadalquivir, o Parque Nacional de Doñana é a maior reserva biológica espanhola e estende-se pelas províncias de Huelva, Sevilha e Cádis numa extensão de cerca de 50 mil hectares. É uma enorme área protegida e é notável pela grande variedade e diversidade da fauna e da flora, mas também pelos seus acidentes naturais, como por exemplo as lagoas, as marismas e as dunas. Nele habitam várias espécies de aves em perigo de extinção e uma grande população de garças mediterrânicas, além de nele se procurarem abrigo durante o inverno mais de meio milhão de aves aquáticas, em busca de temperaturas mais amenas.
O parque está incluido na Lista Verde da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o que significa que está de “boa saúde”, apesar do Verão excepcionalmente quente deste ano o ter ameaçado e ter gerado receios de poder ser considerado “em perigo”. A reportagem que o Diário de Sevilla hoje dedicou a Doñana merece aplauso, pois mostra como a imprensa não tem necessariamente de abusar dos temas sensacionalistas e da futebolice, como acontece frequentemente em Portugal.

Bosch e a “exposição europeia do ano”

Tem estado exposta em Madrid uma mostra com o título El Bosco. A Exposição do V Centenário, que foi organizada pelo Museu do Prado e foi dedicada à obra do pintor holandês Hieronymus Bosch (1450-1516). A exposição foi inaugurada no dia 31 de Maio com pompa e circunstância e estava previsto que terminasse no dia 11 de Setembro, mas a enorme afluência de público obrigou ao seu prolongamento por mais duas semanas.
A mostra tornou-se numa verdadeira “exposição europeia do ano”, tendo registado mais de 600 mil visitantes. Nunca uma exposição temporária tivera tantos visitantes no Museu do Prado. Segundo os relatos da imprensa, designadamente na edição de hoje do Diário de Notícias, os horários da visita foram substancialmente dilatados e houve filas diárias contínuas que obrigaram a horas de espera.
Um pouco de todo o mundo vieram excursões propositadamente para ver as 21 obras de Bosch que o Museu do Prado reuniu. Entre os 21 quadros apresentados na mostra, provenientes de nove países europeus e de cinco cidades americanas, encontrava-se o tríptico Tentações de Santo Antão, que foi um dos quadros mais apreciados pelo público e que pertence ao acervo do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Esta obra regressará em breve ao seu lugar na exposição permanente nas Janelas Verdes, onde pode ser apreciado com o tempo e a contemplação que merece e que uma exposição temporária como a de Madrid não permite.
Portanto, atrevo-me a recomendar: se não viu, vá ver; se já viu, vá rever!

sábado, 24 de setembro de 2016

Um navio é sempre belo, mas um veleiro...

 
O diário Levante que se publica na cidade espanhola de Valência destaca na sua edição de hoje a visita ao seu porto do navio-escola Amerigo Vespucci, que está a efectuar a sua 80ª viagem de instrução de cadetes. O emblemático navio, que está a celebrar 85 anos de vida, largou do porto de Livorno e navegou pelo Atlântico e pelo mar do Norte. Agora esta “embaixada italiana” regressa a casa e, neste fim de semana no porto de Valência, abre as suas portas aos valencianos que, segundo diz o jornal, irão “al abordaje del buque escuela de la Marina italiana”.
O Amerigo Vespucci é, provavelmente, um dos mais belos veleiros do mundo e, habitualmente, participa nos grandes desfiles navais organizados pela Sail Training Association. O navio possui três mastros, mede cerca de cem metros de comprimento, desloca 4.700 toneladas e tem uma superfície vélica de 2.400 metros quadrados distribuida por 24 velas.
A cidade de Valência e o seu principal periódico não deixaram de assinalar a presença no seu porto do Amerigo Vespucci, certamente porque a identidade e a cultura valencianas são marítimas e mediterrânicas. Em Lisboa, porém, não seria assim. Apesar de muito ter  mudado nos últimos anos, a cidade e os seus jornalistas continuam de costas voltadas para o Tejo, para o mar e para as coisas do mar. No país que tantas vezes se reclama de país de marinheiros e que possui o navio-escola Sagres, que também é reconhecido como um dos mais belos veleiros do mundo, o interesse da imprensa pelo nosso património marítimo é mínimo.
Fernando Pessoa escreveu em 1915 na Ode Marítima que “um navio será sempre belo, só porque é um navio”, quando ainda não havia a  Sagres nem o  Amerigo Vespucci. É pena que poucos “gatekeepers” e poucos jornalistas portugueses tenham a opinião de Álvaro de Campos.

Gibraltar está sob a ameaça do Brexit

O território britânico de Gibraltar fica situado na orla oriental da baía de Algeciras, no extremo sul da península Ibérica. Foi tomado no dia 4 de Agosto de 1704 por uma esquadra anglo-holandesa, durante a Guerra da Sucessão espanhola e foi cedida definitivamente pelo Tratado de Utrecht de 1713, que confirmou à Inglaterra a “plena e inteira propriedade da cidade e castelo de Gibraltar, com o seu porto e fortalezas que lhe correspondem, para que a goze com inteiro direito e para sempre”. Hoje o Peñón, como lhe chamam os espanhóis, ocupa uma área de 6,8 km2 e tem uma população de cerca de 30 mil pessoas.
A Espanha sempre reivindicou a sua soberania sobre o rochedo de Gibraltar, mas a população gibraltina também a recusou sempre.
Existe uma íntima relação económica entre Gibraltar e as regiões vizinhas, porque Gibraltar emprega muitos milhares de espanhóis e importa muitos bens e serviços de Espanha, sobretudo produtos alimentares. Com o anunciado Brexit as relações entre o Reino Unido e a União Europeia vão mudar por completo e, naturalmente, também as relações entre Gibraltar e a Espanha. A vida em Gibraltar depende demasiado da sua vizinhança espanhola e os gibraltinos não apoiam o Brexit. Sabendo disso, as autoridades espanholas estão a ver uma oportunidade única para tratar o contencioso de Gibraltar de uma maneira que consideram justa e propõem uma solução que passa por uma cosoberania, pela dupla nacionalidade dos gibraltinos e por um estatuto de autonomia política que lhes permitiria manter um regime de governo praticamente igual ao seu actual auto-governo. Londres desconfia e afirma não estar disposta a perder a sua soberania sobre o Peñón, nem a fazer nenhum acordo de que os gibraltinos não sejam parte. Hoje, o diário ABC trata do assunto e já pinta as águas gibraltinas com as cores espanholas, mas certamente que o caso vai continuar sem solução por muito tempo.