sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Macau preserva o seu património cultural

O jornal Tribuna de Macau aborda na sua edição de hoje o património de Macau, cuja preservação é apontada como uma história de sucesso, ilustrando-a com as imagens da ermida e do farol da Guia, que foi construído pelos portugueses em 1865 e é o mais antigo farol da costa sul da China.
Apesar do desenvolvimento e da modernização do território, bem como da pressão imobiliária e da contínua alteração da linha de costa original por via dos aterros que têm acontecido nas últimas décadas, tem sido possível preservar alguns dos testemunhos materiais da passagem dos portugueses por Macau e da interacção entre as culturas chinesa e portuguesa. Daí que em 2005, a UNESCO tenha incluído o centro histórico de Macau na World Heritage List, reconhecendo o valor simbólico do monte da Guia e do seu farol, do templo de A-Ma, da Fortaleza do Monte, da colina da Penha ou das ruínas de S. Paulo, mas também a forma como foi conciliada a “zona histórica” da antiga cidade de Macau, com a modernidade da sua arquitectura contemporânea.
Havia algumas dúvidas quanto à capacidade e sensibilidade dos macaenses para preservarem o seu património classificado, sobretudo porque ocupa espaços comercialmente muito valiosos que atraem interesses imobiliários muito poderosos, mas a Lei de Salvaguarda do Património Cultural aprovada em 2013 e o crescente interesse das autoridades e da população, parecem dar garantias de que a preservação do património cultural de Macau é uma história de sucesso e que os 450 anos de presença portuguesa não são para esquecer.

Construção naval para animar a economia

A imprensa galega dá grande destaque à reunião do governo espanhol que hoje vai aprovar a construção de cinco fragatas F-110, que irão substituir as cinco fragatas da classe Santa Maria, que estão baseadas em Rota e que se aproximam dos 35 anos de vida.
Os estaleiros da Navantia e a cidade de Ferrol estão em festa, bem como a Marinha espanhola. Depois de alguns anos de séria crise económica e social no sector da construção naval galego, esta notícia, segundo um governante galego, "es el mejor regalo de Reyes que podríamos recibir, un regalo de Reyes por adelantado que hará felices a muchas familias gallegas" e o jornal El Correo Gallego diz que se trata de um balão de oxigénio para a comarca de Ferrol.
A indústria da construção naval na Galiza passou por um período muito negro entre 2011 e 2014, com uma grande baixa de salários e muito desemprego, o que levou muitos trabalhadores a mudaram de sector ou a emigrar. O impacto na demografia e no tecido social da região foi enorme, com a perda de cerca de mil habitantes por ano. O anúncio da construção das fragatas F-110 para a Marinha espanhola representa uma mudança de rumo para os estaleiros e para a região, pois serão criados 7000 empregos durante dez anos, dos quais 1300 directos pela Navantia e 2200 directos por empresas associadas, acrescidos de cerca de 3500 empregos indirectos. Segundo foi divulgado, o projecto representa um investimento de 4.325 milhões de euros, mas tão decisivo quanto a modernização da Marinha espanhola é a animação da economia galega e a recuperação dos estaleiros da Navantia.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

As pesadas derrotas de May e de Macron

O Brexit de Theresa May e os coletes amarelos de Emmanuel Macron têm provocado muita instabilidade no Reino Unido e na França, embora de contornos diferentes. Ontem, quer Theresa May quer Emmanuel Macron, vieram assumir o revés das suas políticas e declarar-se derrotados, mas a derrota do Reino Unido e da França não são nada boas para a Europa...
May surpreendeu ao decidir suspender a discussão e votação do acordo sobre o Brexit celebrado com a União Europeia que deveria realizar-se hoje e esse adiamento significa que o governo britânico percebeu que ia ser derrotado, lançando mais incertezas e mais dúvidas quanto ao futuro. Assim, ao empurrar a discussão do problema para mais tarde, a sua derrota vai aprofundar-se e tudo se conjuga para que haja eleições antecipadas e que o Brexit venha a cair no caixote do lixo, embora todo o cenário político britânico seja cada vez mais imprevisível e incerto.
Quanto a Macron, que ontem falou aos franceses numa declaração que muito o enfraqueceu, tratou de lhes pedir desculpa, de prometer várias coisas e de satisfazer várias reivindicações dos coletes amarelos, sobretudo a redução dos impostos e o aumento do salário mínimo, numa tentativa de travar a sua cólera. Dizem os analistas que falou tarde demais e que a revolta popular, agora contra a desigualdade e a injustiça, não vai parar, o que é bem preocupante. Há mesmo quem lhe chame a Revolução Francesa de 2018.
Na sua edição de hoje, o americano The Wall Street Journal associa as duas situações porque, tanto num caso como no outro, o poder político está a ser fortemente contestado e vê-se obrigado a ceder à voz da opinião pública ou ao poder da rua. Embora sujeitos a ventos diferentes, o Reino Unido e a França tremem e, se esses países tremem, a Europa corre sérios riscos de também tremer porque, para o bem ou para o mal, a globalização já não deixa ninguém isolado. Lá longe e no meio de tanta incerteza na velha Europa, o Donald parece satisfeito.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Confusão e incerteza ensombram o Brexit

A última edição da revista The Economist trata das enorme dúvidas que estão a turvar o horizonte dos britânicos relativamente ao Brexit e aponta um caminho, ou “a melhor maneira de sair da confusão do Brexit”.
O acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia foi negociado durante 17 meses e chegou ao fim num texto de 585 páginas, tendo sido aprovado pelo Conselho Europeu no dia 25 de Novembro, por entre declarações de ser um “dia triste”, ou ser mesmo “uma tragédia”, como disse Jean-Claude Juncker.
Em qualquer acordo há sempre cedências de ambas as partes e, para muitos deputados britânicos, os negociadores de Theresa May cederam demasiado. Na próxima terça-feira, o acordo de 585 páginas vai ser votado no Parlamento britânico e há sérias dúvidas quanto ao resultado, porque há demasiada confusão e muita incerteza quanto ao futuro, o que de resto é retratado na capa que ilustra a última edição do The Economist. A eventual rejeição do acordo de saída do Reino Unido da União Europeia e da declaração sobre as relações futuras entre ambos poderá acontecer como resultado de um consenso inesperado entre eurocépticos e euroentusiastas, unidos à volta do Partido Trabalhista, dos Liberais Democratas, dos nacionalistas escoceses, galeses e de muitos conservadores. O problema continua a dividir os britânicos e, aparentemente, Theresa May não vai conseguir que o acordo seja aprovado. A confusão será ainda maior, com uns a defender a revogação do acordo e outros a sua renegociação, que a União Europeia não parece aceitar. Há uma grande desorientação entre os políticos e aumenta a oposição a Theresa May , assim como a convicção de que o Brexit falhou. A ser assim, a saída deste imbróglio poderá ser um novo referendo ou, mais provavelmente, eleições gerais antecipadas.
O que não há dúvidas é que a votação da próxima terça-feira pode muito bem lançar mais incerteza no futuro do Reino Unido, mas também na União Europeia.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Um país com greves, demasiadas greves

De entre os direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores, no seu  artigo 57º a Constituição da República Portuguesa garante o direito à greve. Portanto, ninguém pode acusar os grevistas que estão a perturbar a vida dos portugueses nas escolas, nos tribunais, nos hospitais ou nos transportes, de qualquer ilegalidade porque ao fazerem greve eles estarão a defender os seus direitos contra o patronato opressor.
Hoje, o Expresso fala em greves e mais greves, na sua maior parte incompreensíveis para a população. Porém, quando os juízes, os professores, os enfermeiros, os médicos, os bombeiros, os guardas prisionais, os funcionários judiciais, os notários, os estivadores, os farmacêuticos, os técnicos de diagnóstico, os ferroviários e muitas outras organizações profissionais, declaram a greve contra o patrão Estado, ficamos naturalmente apreensivos porque as exigências que esta gente faz, são exactamente a mesma coisa que fazer uma exigência para que os cidadãos paguem mais impostos. Significa, portanto, que os juízes, os professores, os enfermeiros e por aí em diante, querem comer mais do bolo estatal, o que significa que querem que eu e os meus concidadãos paguemos mais impostos.
Os directórios partidários e sindicais lutam pelo poder e em tempo pré-eleitoral iniciaram o seu combate político. É um combate político porque, cada vez menos, esses directórios defendem os cidadãos que supostamente representam. É isso que fazem o Arménio, mais o Nogeira, a Avoila e até o sindicalista Ventinhas. Naturalmente, a adesão dos trabalhadores a estas lutas sindicais com fins político-partidários, revela um comportamento pavloviano, isto é, revela reflexos incondicionados, porque ninguém informado e de bom senso, nomeadamente os juízes, os professores, os enfermeiros e por aí em diante, adere a estas greves que, muitas vezes, estão contra os seus próprios interesses e apenas servem as estratégias de poder dos directórios partidários e sindicais.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Nem sempre há mau tempo no Canal

O canal do Faial separa as ilhas do Faial e do Pico e ficou celebrizado nas palavras de Vitorino Nemésio, o autor do romance Mau tempo no canal. Qualquer viajante que atravesse aquelas três milhas do canal, da ilha do Faial para a ilha do Pico ou da ilha do Pico para a ilha do Faial, nem sempre encontra o mar sereno, mas tem sempre uma paisagem marítima deslumbrante: de um lado a montanha do Pico e do outro lado a baía orlada de morros vulcânicos e a graciosidade da cidade da Horta, pequena e bela, com o seu casario branco descendo pela encosta até ao mar.
Recentemente, já próximo do crepúsculo vespertino, estava sentado no internacionalmente famoso Cella Bar - que já é um ex-libris da ilha do Pico - e tratei de fotografar o canal com o meu Samsung, com os ilhéus da Madalena em primeiro plano e com o Monte da Guia e o Monte Queimado em segundo plano. São três cones vulcânicos que, no seu conjunto, constituem um dos mais expressivos quadros da paisagem marítima açoriana. Não sei se é uma fotografia de artista, mas agrada-me e por isso a partilho com os meus leitores nesta Rua dos Navegantes.

Paris é Paris, mas Lisboa é Lisboa

O movimento dos coletes amarelos está a lançar crescentes preocupações, não só na França, mas um pouco também por toda a Europa, porque já ultrapassou a questão de partida que foi o aumento dos combustíveis e se centra agora na contestação ao modelo de sociedade em que vivem os franceses e os outros europeus. O recuo do Presidente Macron não foi suficiente para travar o protesto, talvez porque tivesse chegado tarde demais e quando o radicalismo já tinha tomado conta do movimento.
Hoje os jornais franceses revelam receios pelo que possa acontecer amanhã em Paris e nas outras cidades francesas, mas as imagens televisivas que nos chegam de outras cidades europeias, por exemplo na Espanha e na Grécia, mostram que a contestação "à francesa" já lá chegou. É um momento de grande preocupação para os europeus, porque acontece quando a instabilidade está a ameaçar todo o continente com o Brexit, com a tensão na Ucrânia e a saída de Angela Merkel, a derrota de Macron, as tensões migratórias e as derivas populistas de alguns países. A Europa parece estar a perder o seu rumo.
Aqui nesta periferia ocidental da Europa também algo de instável está a acontecer, embora pareça estar associado às eleições que se aproximam. Com a recuperação do poder de compra dos trabalhadores e a melhoria global da situação económica do país, era de esperar a paz social. Porém, os partidos políticos e os sindicatos têm apoiado inúmeras greves que, embora possam ser justas e defendam os trabalhadores, não são mais do que instrumentos de luta política. Muitas das greves em curso ocorrem em sectores privilegiados da sociedade, nomeadamente no sector público, onde os direitos e as garantias dos trabalhadores são mais protegidos do que em qualquer outro sector. Os portugueses, e em especial os contribuintes, não compreendem este surto grevista e há fundados receios de que as greves e algum radicalismo a elas associado, possam ter graves consequências para o país. Algumas já estão à vista. Ninguém quer ver aqui o que está a acontecer em Paris. Que cada qual assuma as suas responsabilidades.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Os deputados precisam de viajar tanto?

Na sua edição de ontem o jornal i anunciou que o Parlamento estava fora de controlo e que era impossível fiscalizar se os pagamentos feitos aos deputados lhes eram devidos, destacando que em 2017 tinham sido feitos pagamentos de viagens no valor de 3 milhões de euros.
Nos últimos tempos os jornais impressos ou televisionados têm-se transformado em verdadeiros panfletos e o primeiro dever de qualquer leitor ou espectador é duvidar de tudo o que eles dizem, que pode ser verdadeiro ou não. Por isso, peguei numa calculadora e fui fazer contas, verificando que aquela despesa correspondia a cerca de 13.040 euros anuais e a cerca de 1086 euros mensais por cada deputado. A ser verdade é um caso escandaloso, porque ninguém percebe as razões pelas quais os deputados viajam tanto. 
Muitos daqueles que nos representam no Parlamento e que tanto têm feito para desacreditar a Democracia, deveriam ser um exemplo de cidadania mas parece que se deslumbram com a facilidade com que acumulam benesses ao seu salário que, não sendo muito elevado, está largamente acima da média dos salários daqueles que os elegeram.
O problema poderá estar nas generosas dotações orçamentais do Parlamento, provavelmente acima das possibilidades dos contribuintes. Repare-se que em 2019 o funcionamento do Parlamento vai custar 83 milhões de euros aos portugueses, dos quais 51 milhões para despesas com pessoal onde, por exemplo, se incluem um subsídio de 14.017 euros para o Grupo Desportivo Parlamentar e um outro subsídio de 46 mil euros para a Associação dos ex-Deputados. Com dinheiro para estas coisas, também não faltará dinheiro para viajar e passa a funcionar a lei da oferta e da procura, isto é, havendo oferta de dinheiro, há mais procura de viagens.
Será que os deputados precisam de viajar tanto?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Xi e o agrado pela sua visita a Portugal

Todos os jornais portugueses publicam hoje uma fotografia alusiva à visita oficial do Presidente Xi Jinping a Portugal e o caso não é para menos, mas ainda é mais surpreendente quando o 人民网 - Renmin Ribao, um dos mais importantes jornais de Xangai, noticia esta visita do presidente chinês a este pequeno país do ocidente e lhe dedica quatro fotografias.
Não se imaginava que a imprensa chinesa desse tanto destaque a esta visita mas, certamente, isso é uma prova da admiração chinesa pelos portugueses e da forma como ambos conviveram em Macau durante quase 500 anos.
Ontem o Presidente Xi Jinping foi recebido no Palácio de Belém pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, mostrou-se muito agradado com a calorosa recepção e lembrou o contributo português para o progresso da humanidade, com um papel importante nas relações entre Ocidente e Oriente. Entretanto, preparavam-se os 17 acordos de cooperação que vão ser assinados, de âmbito económico, cultural, científico e académico. Como envolvente desta visita, Xi Jinping falou do projecto "Uma faixa, uma rota" que até já foi apelidado de "Plano Marshall" chinês para o mundo, o qual pretende abrir a China ao mundo através da construção de uma malha ferroviária internacional e de novos portos, aeroportos e outras infraestruturas. É uma nova rota da seda. Portugal está interessado nesse projecto e coloca em cima da mesa o porto de águas profundas de Sines, que bem pode fazer a ligação entre a Rota da Seda terrestre e a Rota da Seda marítima.
Xi Jinping ainda vai passar pela Assembleia da República e pelos Palácios da Ajuda e de Queluz. É uma recepção em grande estilo a um dos maiores países do mundo. Perfeito. Porém, seria bom que os nossos responsáveis estivessem à altura das circunstâncias e não se deslumbrassem em afectos e que, em nome do interesse nacional, estivessem atentos à estratégia chinesa.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Xi em Lisboa: tudo à grande e à chinesa

No seu percurso de nove séculos de história, o nosso Portugal regista dois momentos, entre outros, em que sob a forma de embaixadas ao Papa, mostrou grande exuberância e ostentação. O primeiro foi a faustosa embaixada de D. Manuel ao Papa Leão X em 1514 que até incluia um exótico elefante e, o segundo, foi a embaixada de D. João V ao Papa Clemente XI em 1716, que exibia “uma riqueza nunca vista” segundo os relatos da época.
Só a cidade de Roma viu desfilar essas magníficas embaixadas e, por isso, o povo de Lisboa só veio a saber o que era fausto e ostentação quando em 1807 as tropas de Junot entraram em Lisboa. Jean-Andoche Junot gostava de se passear pela cidade com o seu séquito e o povo deslumbrou-se com aquelas faustosos comitivas em que era tudo “à grande e à francesa”. Os tempos mudaram e esse tipo de embaixadas e de ostentações já são coisas do passado.
Porém, o que se anuncia em relação à visita do Presidente Xi Jinping da República Popular da China que hoje se inicia, não deixa de nos recordar esses episódios da nossa história, pois a comitiva chinesa reservou para si um dos melhores hotéis da cidade por dois mihões de euros e não dispensou as limusinas blindadas que vieram propositadamente da China, segundo anuncia hoje o jornal i. Era à grande e à francesa, agora vai ser à grande e à chinesa...
Xi Jinping parece dar grande importância a esta visita e tem razões para isso, até porque a obra deixada pelos portugueses em Macau terá sido uma agradável surpresa para a China. Por isso, ele já afirmou que Portugal é uma peça importante na estratégia de globalização da economia chinesa, não só pela posição que ocupa na Europa mas também pelas suas relações com os países de língua oficial portuguesa. Mas é preciso cuidado com os afectos porque os chineses não dão ponto sem nó...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Todo o mundo é composto de mudança

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo o mundo é composto de mudança...
Isto escreveu Luís de Camões, em meados do século XVI, mas foi exactamente isso que aconteceu ontem na Andaluzia, uma comunidade autónoma espanhola com 87 mil km2 e com mais de 8 milhões de habitantes, isto é, uma comunidade aqui ao lado e com quase o mesmo tamanho geográfico e demográfico de Portugal.
O PSOE governava a Andaluzia há 36 anos e ontem, apesar de ter sido o partido mais votado nas eleições regionais, apenas conseguiu eleger 33 dos 109 deputados do parlamento andaluz. Estes deputados, somados com os 17 da coligação de esquerda Adelante Andalucia, somam 50 deputados, o que fica abaixo da maioria absoluta de 55 deputados que é necessária para formar governo. Por outro lado, os partidos e coligações de direita conseguiram uma maioria de 59 deputados (PP com 26 deputados, Ciudadanos com 21 deputados e o novo Vox com 12 deputados). Parece não haver dúvidas sobre o que vai acontecer ao governo da Andaluzia, depois da derrota do PSOE e do PP, isto é, os partidos tradicionais da Espanha e com o aparecimento do Vox, que se declara de extrema-direita.
É, como se costuma dizer nestas circunstâncias, um terramoto político. O problema está em avaliar até que ponto este terramoto terá réplicas, não só no resto da Espanha, mas até mesmo em Portugal, uma vez que sociologicamente há poucas diferenças entre a Andaluzia e Portugal. O facto é que na Andaluzia, tal como em Portugal, o partido mais votado não irá governar.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Coletes amarelos puseram Paris a arder

O protesto contra o aumento dos combustíveis começou há algumas semanas em Paris e noutras cidades francesas e, desde logo, os manifestantes se identificaram pelo uso de coletes amarelos. Era, ou parecia ser, um movimento espontâneo, sem a tutela de qualquer sindicato ou partido político. Aconteceu num fim de semana e, no fim de semana seguinte, repetiu-se. Ontem, pela terceira vez, os coletes amarelos vieram para a rua desafiar o governo e exigir a demissão de Emmanuel Macron.
A concentração no Arco do Triunfo deu origem a confrontos violentos com a polícia, houve 270 detenções e 92 feridos, enquanto um edifício e muitos automóveis foram incendiados. Nas ruas que convergem para os Campos Elíseos formaram-se barricadas, incendiaram-se automóveis e foram ateados focos de incêndio em lojas, a lembrar o Maio de 1968 ou o desespero de Hitler em Agosto de 1944 quando perguntou se Paris já estava  a arder.
Embora a dimensão do protesto pareça ser bem pequena e ainda não tenha alterado o quotidiano semanal dos franceses, o que está a inquietar o governo é a enorme popularidade dos coletes amarelos entre a população francesa, porque a sua bandeira já não é apenas a da luta contra o aumento do preço dos combustíveis, mas também a da luta pelo poder de compra dos assalariados, das desigualdades sociais e regionais e de outras reivindicações bem diversas, que vão desde a redução de todos os impostos até a demissão de Macron. O que não se imaginava é que um movimento desta natureza, aparentemente tão genuíno e tão espontâneo, tivesse incendiado Paris. É, portanto, um tema para ser pensado por sociólogos e cientistas políticos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A persistência da agitação na Catalunha

Depois da agitação independentista que ele próprio alimentou, o governo da Catalunha e o seu presidente Quim Torra enfrentam agora um Otoño caliente, como diz hoje o jornal elPeriódico de Barcelona. O protesto parece ser generalizado e tem dado origem a grandes manifestações de massas em que as bandeiras da Catalunha foram substituídas pelas bandeiras de diversas cores dos sindicatos e em que se têm registado confrontos e algumas destruições na via pública. Há inúmeros conflitos laborais e greves que duram há vários dias, nomeadamente dos médicos, professores, estudantes e funcionários públicos. Os sindicatos reclamam pela reversão dos cortes remuneratórios aplicados em 2011, pelo pagamento do trabalho extraordinário e de uma forma geral pela reposição do poder de compra dos seus trabalhadores.
Nesta altura do ano, é normal intensificar-se a reivindicação sindical, mas no caso da Catalunha é bem curioso como as manifestações que até há bem pouco tempo eram a favor do independentista Quim Torra, sejam agora contra a sua governação e com algum grau de radicalismo. No seu caso bem se pode dizer que “semeou ventos” e que está a “colher tempestades”, mas também se pode dizer que em tão pouco tempo passou de bestial a besta em, como se fosse um treinador de futebol.
Provavelmente não foi feito o retrato sociológico dos manifestantes catalães, mas talvez sejam os mesmos, aqueles que idolatraram Torra e aqueles que agora o insultam, o que significa simplesmente que as massas são manipuláveis, o que é um facto bem conhecido das teorias da comunicação.

Macau procura preservar a língua patuá

Os portugueses instalaram-se na península de Macau em meados do século XVI e desde então começou a afirmar-se uma língua crioula de base portuguesa, influenciada pelas línguas chinesas, malaias e cingalesas, mas também de inglês, do tailandês, do japonês e de algumas línguas indianas. Essa língua é conhecida como o Patuá macaense, outras vezes como o Papia Cristam di Macau e outras, ainda, como Doci Papiaçam di Macau.
Ao longo do século XX, com o aparecimento de novos meios de comunicação, o Patuá deixou de ser uma língua corrente, entrou em vias de extinção e era conhecido apenas por um número cada vez menor de macaenses. Até que em 1993 surgiu uma associação cultural com o objectivo expresso de salvar e divulgar essa língua crioula, enquanto símbolo identitário, histórico e cultural de Macau. Essa associação é o Grupo de Teatro Dóci Papiaçám di Macau, fundado e dinamizado pelo advogado macaense Miguel de Senna Fernandes, que o jornal Tribuna de Macau destaca na sua última edição.
O Dóci Papiaçám di Macau, tal como outros grupos e associações culturais macaenses, tem procurado proteger o Patuá macaense, apresentando peças teatrais e músicas em Patuá, publicando um Dicionário Português-Patuá e mantendo o objectivo de incluir o Patuá na Lista do Património Oral e Imaterial da Humanidade da Unesco.
O grupo celebra agora 25 anos de vida e a sua actividade é considerada uma referência da cultura macaense por ter feito renascer o interesse pelo Patuá e por agregar pessoas de etnias, classes sociais, idades e sensibilidades diversas, o que de certa forma representa a identidade do território de Macau, isto é, “um lugar comum a muitas pessoas diferentes”.

domingo, 25 de novembro de 2018

Uma visita de grande sucesso político

A visita oficial de três dias do Presidente João Lourenço a Portugal foi um acontecimento político muito importante para as relações entre Portugal e Angola, pois traduziu-se numa permanente manifestação de cumplicidades e de afectos entre os presidentes de Portugal e de Angola e, por essa via, entre o povo angolano e o povo português.  
Os ares frios e distantes dos tempos do  ex-presidente José Eduardo dos Santos, já fazem parte do passado. João Lourenço veio trazer-nos uma nova Angola e os portugueses perceberam e estão a aplaudir a mudança que está a acontecer no país, que também está a melhorar a sua imagem no mundo. Com a sua coragem, o seu sorriso e o seu discurso, João Lourenço conquistou a simpatia dos portugueses e, tendo aludido à anormalidade de terem decorrido nove anos sem que o chefe de Estado angolano tivesse visitado Portugal, afirmou que “os amigos querem-se juntos”. Nas relações entre Angola e Portugal, não se pode falar apenas em interesses como acontece nas relações internacionais, porque para além dos interesses há afectos, há história, há cultura e há um conhecimento recíproco.
A economia e o investimento estiveram no centro das conversações. Naturalmente. De facto, Portugal e Angola perceberam que precisam ambos do outro e que os seus interesses são compatíveis e complementares. Porém, para lá de uma dúzia de acordos de cooperação que foram assinados, o discurso de João Lourenço não se poupou nas palavras e falou de corrupção, nepotismo, bajulação e impunidade, porque a nova Angola exige uma nova atitude do poder. Disse que quando se propôs combater a corrupção em Angola já sabia que estava a mexer num “ninho de marimbondos”. A metáfora da destruição do ninho de marimbondos agradou aos portugueses e o Jornal de Angola registou-a para a posteridade.