quinta-feira, 6 de agosto de 2020

A gigantesca tragédia ocorrida em Beirute


A violência da explosão que ontem devastou a zona portuária de Beirute foi captada em impressionantes imagens que as televisões mostraram e que lembraram os ataques atómicos feitos em Agosto de 1945 às cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Quando hoje se evoca o 75º aniversário da bomba de Hiroshima, a tragédia de Beirute serviu para que muitos países se unissem em solidariedade com o Líbano e para que o mundo pudesse ver os horrores das grandes catástrofes, quer sejam provocadas por acção do homem, quer resultem de causas naturais.
Porém, se os fenómenos naturais – sismos, vulcões, furacões, inundações, tsunamis e outras fatalidades – raramente são previsíveis e não dependem da intervenção humana, outro tanto não acontece, quer na guerra quer na paz, com as catástrofes que resultam da actividade do homem, das suas acções terroristas ou, ainda, dos seus erros e das suas negligências.
Numa rápida análise podemos evocar algumas catástrofes mais recentes que foram atribuídas à negligência do homem e, por vezes, associadas à sua ganância económica ou ao desprezo pelas normas ambientais. Os exemplos porventura mais conhecidos serão o desastre ocorrido em 1984 numa fábrica de pesticidas na cidade indiana de Bhopal, o acidente ocorrido em 1986 com um reactor nuclear na cidade ucraniana de Chernobyl ou, ainda, o rompimento das barragens brasileiras de Mariana em 2015 e do Brumadinho em 2019.
O desastre de Beirute, ao que se sabe até agora, resultou da forma negligente como estavam armazenadas nas instalações portuárias cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amónio, que explodiram. A explosão foi verdadeiramente arrepiante e os seus efeitos foram devastadores. Espera-se que ao menos tenha servido para moderar as decisões dos mais poderosos líderes mundiais no sentido de acabar com as guerras. Hoje, a imprensa mundial solidariza-se com o povo libanês e com os habitantes de Beirute, que têm sido vítimas de tantas calamidades nos últimos anos.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

O jornal do homem que vai "arrasar"


Ninguém tem dúvidas que a comunicação social portuguesa atravessa uma grave crise de ausência de qualidade e de credibilidade. Ler jornais ou ver televisão é um exercício doloroso para o leitor ou para o telespectador, que são confrontados com uma informação sensacionalista e até inverdadeira, desproporcionada, repetitiva, desinteressante, servindo interesses particulares e que, por vezes, é escandalosamente mentirosa. Naturalmente, há algumas excepções mas isso são raridades, porque ab initio os meios de comunicação estão alinhados com interesses, mais ou menos escondidos, além de lutarem pelas audiências e pelo bolo publicitário.
Numa altura em que muita coisa importante acontece e em que há uma grande incerteza no mundo, a futebolite voltou a tomar conta da nossa comunicação social, não para assinalar qualquer acontecimento desportivo relevante, mas apenas para promover a chegada de um treinador de futebol arvorado em messias e da sua enervante vaidade pessoal. A cobertura mediática deste vulgar episódio, que até talvez merecesse uma notícia de rodapé numa página par do jornal, foi intensiva e extensiva, transformando-se numa acção de propaganda que teve a cumplicidade dos jornais e das televisões. Nem A Bola resistiu a esta loucura mediática.   
Durante muitos anos, o prestígio de Cândido de Oliveira fez daquele jornal uma referência da imprensa desportiva e o jornal português de maior difusão. Era considerado como a bíblia do futebol e as suas edições chegavam a todo o mundo, parecendo que por vezes até serviam para que os leitores aprendessem português. Porém, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, como escreveu Camões. Esquecendo aquilo a que o próprio jornal no domingo chamou “domínio azul”, tratou de se submeter servilmente à onda mediática dominante e assumir-se como porta-voz de um homem que é treinador de futebol e que nem sequer é benfiquista, destacando-lhe os seus disparatados dislates como aquele “vamos arrasar”. Qual é a seriedade de A Bola, agora escandalosamente alinhada com um treinador que promete arrasar? Arrasar o quê ou arrasar quem? Os benfiquistas que se cuidem porque, mesmo com os favores que A Bola faz a este treinador, cuja arrogância faz lembrar uma espécie de Trump ou de Bolsonaro do futebol, vão ter uma caminhada difícil pela frente. Ou será que acreditam neste malabarista e nesta orquestração?

sábado, 1 de agosto de 2020

O brutal colapso das economias europeias


Começaram a conhecer-se os desempenhos económicos da maioria dos países e o jornal espanhol ABC tratou hoje de publicar na primeira página da sua edição um gráfico que representa as quebras do PIB em alguns países, entre os quais os do sul da Europa.
Assim, o gráfico mostra que no 2º trimestre de 2020, em relação ao trimestre anterior, o produto nacional dos Estados Unidos caiu 9,5%, da Alemanha 10,1%, da Itália 12,4%, da França 13,8%, de Portugal 14,1% e de Espanha 18,5%.
O jornal, que é desafecto ao actual governo espanhol, salienta “o descalabro histórico da riqueza espanhola” e coloca a fotografia do primeiro-ministro Pedro Sánchez numa clara insinuação de que este descalabro resulta da acção do governo, o que não é verdade e é injusto, pois o governo espanhol, tal como os governos dos outros países da União Europeia, têm feito tudo para controlar a pandemia e para minimizar os seus efeitos económicos. É verdade que este descalabro não tem precedentes desde a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e que, este resultado do 2º trimestre triplica o mau resultado do 1º trimestre, quando a economia espanhola caira 5,1%. O facto é que os resultados são todos maus com a economia da Zona Euro a cair 12,1% e com o produto do conjunto da União Europeia a cair 11,9%, segundo os dados revelados pelo Eurostat. A queda do produto espanhol junta-se à tragédia que tem sido a morte de quase 30 mil cidadãos espanhóis devido ao covid-19 e, no momento difícil que vive a Espanha, o jornal ABC prestou-se a divulgar uma notícia verdadeira, mas com insinuações ligeiras e nada sérias. O mesmo poderia ter acontecido com qualquer jornal português porque Portugal, tal como a Espanha, tem a sua economia muito dependente do turismo e teve uma quebra no produto de 14,1%. Porém, com mais ou menos confinamentos, com mais ou menos críticas de uma ou outra corporação, parece que por cá ainda puxamos todos para o mesmo lado a pensar em melhores dias.

O trambolhão da economia americana


O anúncio feito pelo Bureau of Economic Analysis dos Estados Unidos de que o Produto Interno Bruto (PIB) americano diminuiu 32,9% no segundo trimestre de 2020, em relação ao mesmo período do ano anterior, deixou os americanos estupefactos, pois tamanha quebra no produto nacional não acontecia desde 1945, quando se processou a desmobilização militar depois do fim da 2ª Guerra Mundial.
Perante estes números, o jornal New York Post pergunta aos seus leitores “quando é que chegaremos ao fundo”, parecendo ter perspectivas pouco animadoras quanto aos próximos meses, com base nas respostas pouco apropriadas que têm sido dadas pela administração de Donald Trump. A desejada retoma da economia confronta-se com a hipótese de uma segunda vaga da pandemia, o que torna a incerteza muito maior numa altura em que a economia americana entrou oficialmente em recessão.
O desempenho e o resultado económico dos Estados Unidos resultam da rapidez e da intensidade com que o surto de covid-19 atingiu o país, mas também da forma incompetente e arrogante como o presidente encarou a pandemia, chegando mesmo a desautorizar os seus assessores científicos e os governadores de vários estados.
Porém, há que salientar que existem diferentes critérios para medir a evolução do PIB, umas vezes comparando-o com o período homólogo do ano anterior e nesse caso o resultado foi de 32,9%, enquanto se a comparação for feita com o trimestre anterior a queda do produto foi de 9,5%. De qualquer forma, é a maior queda do produto americano desde que existem os actuais registos e esse facto tem forte repercussão nas outras economias.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Donald Trump, the Presid-end


Por causa do covid-19 a crise económica e social deu a volta ao mundo e a todos afectou, mas nos Estados Unidos essa crise parece ser das mais profundas, não só porque a pandemia já causou mais de 150 mil óbitos, mas também porque a economia caiu 32,9% no segundo trimestre de 2020. Tratando-se do segundo trimestre consecutivo em queda, significa que os Estados Unidos entraram oficialmente em recessão e, porque se trata da maior economia mundial, o panorama é muito preocupante. Para além dos aspectos sanitários, os contornos da crise americana são visíveis sobretudo no desemprego, que já atinge cerca de 39 milhões de americanos.
Tudo isto acontece em ano eleitoral e, independentemente da má ou péssima governação de Donald Trump, será ele que vai acabar por “pagar as favas”, isto é, que não vai conseguir a sua reeleição. Se assim acontecer, os Estados Unidos e o mundo tirarão largo proveito de um novo clima de apaziguamento mundial, que gerará vozes e comportamentos estimulantes de confiança e de esperança para vencer a actual crise, que tem sido acelerada e aprofundada pelo discurso agressivo, arrogante e boçal de Donald John Trump, o 45º presidente dos Estados Unidos.
Na sua última edição a revista alemã Der Spiegel vaticina o fim da presidência do Donald, mas antes ainda vai passar muita água por debaixo das pontes ou, como diz o povo, “até ao lavar dos cestos é vindima”.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Agrava-se a situação em Cabo Delgado


No âmbito da sua vida militar e da guerra colonial, muitos portugueses conheceram a actual província moçambicana de Cabo Delgado e, por isso, é natural que lhes interessem todas as notícias que de lá chegam.
Durante alguns anos era referido o interesse turístico e a descoberta de enormes reservas de gás natural, o que estava a atrair investimento estrangeiro para a região, mas em Outubro de 2017 foram efectuados ataques armados na vila de Mocímboa da Praia por alegados insurgentes islamistas, eventualmente com ligações a grupos radicais estrangeiros. Esses ataques violentos sucederam-se e estão identificados três em 2017, dezanove em 2018, trinta e quatro em 2019 e quarenta e três nos primeiros quatro meses de 2020, o que significa que a situação se está a agravar, com centenas de mortos e milhares de refugiados.
Parece não haver ainda um conhecimento sobre o que realmente se passa, mas já se fala em guerra civil, até porque as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique não estarão a dominar a situação, como mostram as estatísticas e o agravamento da situação.
Recentemente, o governo de Filipe Nyusi lembrou-se do êxito que um grupo mercenário do Zimbabwe obtivera em 1985 contra o quartel-general da Renamo e decidiu contratar o coronel zimbabweano Lionel Dick e o seu grupo, o Dick Advisory Group (DAG) para ajudarem a combater os insurgentes que há três anos aterrorizam a região de Cabo Delgado, o que foi noticiado pelo semanário Savana. Nesta altura a situação é muito complexa pois não se sabe quem são e o que reivindicam os atacantes. Alguns cenários apontam para uma poderosa rede criminosa ligada ao tráfico do marfim, dos rubis e das esmeraldas e outros referem o negócio da heroína, ambos com fortes ligações ao jhiadismo e ao Daesh. Porém há quem entenda que se trata de uma revolta contra a Frelimo ou mesmo o início de uma secessão de Cabo Delgado. O facto é que a situação se agrava.

domingo, 26 de julho de 2020

Trump-Biden: vem aí a batalha eleitoral


Na sua edição de hoje o jornal francês Le Télégramme recorda que estamos a cem dias das eleições presidenciais americanas, ou do fim do combate eleitoral entre o actual presidente Donald Trump e o candidato democrata Joe Biden. Apesar da importância que esta escolha tem para o mundo, é muito estranho que este assunto ainda não esteja nas agendas dos grandes mass media internacionais e que seja um jornal da Bretanha a lembrar este momento simbólico da corrida presidencial e das eleições que se realizam no dia 3 de Novembro. Segundo as sondagens mais recentes o democrata Joe Biden está à frente de Trump nas intenções de voto por 8 a 10 pontos, enquanto o Texas, que é um estado decisivo em número de delegados e que em 2016 votou maioritariamente em Trump, divide agora os seus votos igualmente pelos dois candidatos. Estes dois indicadores são desanimadores para Trump e reforçam o entusiasmo da campanha de Biden.
Nos Estados Unidos, a crise do covid-19 já causou quase 145.000 mortos, 4 milhões de infectados e, só nas duas últimas semanas, revelou mais de um milhão de testes positivos. O homem que sempre se recusou a usar máscara aparece agora com ela presa ao rosto e essa mudança de atitude revela ignorância e arrogância, mas também uma enorme leviandade presidencial. Trump tem desvalorizado a gravidade da pandemia e tem atacado insistentemente Joe Biden, mas o seu estilo de permanente improvisão, de discurso confuso e de ziguezague parecem ter cansado os americanos. As eleições americanas vão ser um julgamento político de Donald Trump, não tanto pela situação económica do país ou pela desorientação nas relações internacionais, mas pela resposta que deu à pandemia do covid-19. Porém, nestes cem dias, alguns imprevistos poderão acontecer e um deles será o comportamento dos agentes políticos e sociais relativamente às questões raciais que renasceram com o assassinato de George Floyd.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Amália também é recordada no Oriente


A popularidade e o prestígio internacional de Amália Rodrigues (1920-1999) foram um fenómeno singular que aconteceu no Portugal do século XX, que então era um país periférico e sem voz na comunidade internacional, sobretudo porque foram construídos sem o apoio das máquinas promocionais do marketing que actualmente tudo nos impingem, incluindo sabonetes e pastas de dentes, destinos turísticos, formas de vestir e até os políticos em que acabamos por votar. Nos aspectos culturais também tudo se passa da mesma maneira e são as máquinas do marketing artístico e cultural, sempre apoiadas pela crítica que raramente é independente, que acabam por determinar as nossas escolhas estéticas. Isso acontece agora, mas não aconteceu com Amália Rodrigues que tudo conquistou com o seu enorme talento, com a sua inteligência e a sua capacidade para falar e cantar em várias línguas, incluindo o castelhano, o galego, o francês, o italiano e o inglês. O seu contributo para a história do fado – que em 2011 a UNESCO declarou como Património Imaterial da Humanidade – foi incalculável, ao introduzir a lírica de Camões e as cantigas trovadorescas de D. Dinis no seu repertório, mas também ao dar a sua voz à poesia de David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Mello, José Carlos Ary dos Santos, Alexandre O’Neill ou Manuel Alegre. 
A sua carreira internacional iniciou-se em 1943 no Teatro Real de Madrid, mas a sua voz e a sua presença chegaram a todo o mundo durante mais de cinquenta anos. Ao recordar-se o centenário do seu nascimento, muitas homenagens lhe têm sido prestadas não só em Portugal, mas também nas geografias da diáspora portuguesa, incluindo Macau onde o jornal Ponto Final lhe dedicou toda a primeira página de uma edição, mas também em Goa, onde o fado continua a ser muito apreciado e a voz e o estilo único de Amália são uma referência para muitos jovens cantores goeses e um dos maiores símbolos da herança cultural portuguesa.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

A memória sempre presente de Amália


Se fosse viva, Amália Rodrigues completaria hoje cem anos de idade e os portugueses lembraram hoje essa figura singular da nossa vida cultural através de uma homenagem que lhe foi prestada pela Assembleia da República. Porém, as homenagens que lhe foram prestadas por iniciativa da sociedade civil e de muitas associações culturais mostram a grandeza de uma pessoa de forte personalidade e grande talento que, através da sua voz, se tornou conhecida e foi aplaudida internacionalmente. Num tempo de um Portugal sombrio, autoritário, paroquial e “orgulhosamente só”, Amália foi a outra imagem do país, foi o rosto e a voz da cultura portuguesa e foi aclamada e adorada pelos portugueses de todas as classes sociais e de todas as latitudes.
Em 1964, juntamente com muitos outros companheiros, tivemos o privilégio de conhecer e conviver com Amália Rodrigues durante alguns dias numa pequena ilha atlântica, onde se encontrava envolvida em actividades cinematográficas. Todos então pudemos apreciar a simplicidade e a riqueza humana daquela mulher sorridente, coloquial e sempre bem disposta, que então já era uma figura conhecida em meio mundo, onde se impusera pelo seu talento artístico e pela sua inteligência. Ela foi uma criadora que revolucionou o fado, ao dar voz aos poetas portugueses que levou até ao povo, mas também ao levar a música popular até às elites culturais. O sucesso de Amália foi sempre ascendente e o seu prestígio nacional foi inigualável, como era demonstrado pela devoção com que os portugueses a adoravam.
Em Outubro de 1999 deixou-nos, mas a devoção nacional por Amália continuou. Hoje, o seu rosto e a sua voz são memórias que continuam vivas no imaginário português.

“Vélorution” ou a nova moda da bicicleta


O semanário francês L’OBS destaca como tema principal da sua edição desta semana a vélorution ou a revolução das bicicletas nos centros urbanos que, de uma maneira entusiástica, está a levar cada vez mais pessoas a adoptar a bicicleta como meio de transporte, mas também como um instrumento de lazer e de prática de exercício físico.
A maioria das autoridades autárquicas tem incentivado as práticas ciclistas em nome do ambiente e da diminuição da circulação automóvel, da redução da poluição e da melhor qualidade do ar.
Lisboa está na primeira linha da vélorution portuguesa, sendo considerada a cidade europeia mais sustentável e sido eleita a Capital Verde Europeia 2020, o que aconteceu pela primeira vez a uma cidade do sul da Europa. Essa eleição resultou da avaliação de um júri que apreciou a evolução positiva que Lisboa tem registado em todas as doze áreas-chave, entre as quais se contam a energia, água, mobilidade, resíduos, qualidade do ar ou ruído. Porém, a adaptação da cidade de Lisboa tem vários problemas, o primeiro dos quais é a própria geografia da cidade dispersa sobre colinas, sobretudo na zona histórica da cidade, onde as ruas são estreitas. Por outro lado, esta rápida alteração da filosofia de transporte urbano que se aplaude, poderá estar a ser feita a um ritmo demasiado apressado, o que está a gerar conflitualidade entre os ciclistas que se assumem como os utentes prioritários e exclusivos da via pública e os automobilistas com hábitos enraizados de muitos anos e que até pagam imposto de circulação. As revoluções precisam de tempo para serem aceites. Nos próximos tempos vai ser necessário muito bom senso para circular em Lisboa, quer de automóvel, quer de bicicleta.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Poderá ser o novo Renascimento europeu


Toda a imprensa europeia destaca o acordo a que se chegou em Bruxelas para ultrapassar a crise provocada pela pandemia e para aproveitar esta oportunidade para reconstruir a Europa numa perspectiva de mudança energética e digital, mas também numa nova visão ambiental que minimize as ameaças provocadas pelas alterações climáticas. A fotografia em que se felicitam a presidente da Comissão Europeia Ursula van der Leyen e o presidente do Conselho Europeu Charles Michel ilustrou a primeira página de alguns jornais e mostra que é nos momentos difíceis que se reforça a unidade. Foi dito que é um momento histórico e, de facto, podemos estar perante um novo Renascimento que ilumine a Europa e os europeus.
A Europa carece cada vez mais de unidade para vencer as tendências nacionalistas que tendem a minar o projecto de paz e de solidariedade que nasceu em 1957 e que hoje é a União Europeia. O acordo agora conseguido vai no bom sentido e é um momento alto para o projecto europeu, não só por procurar reparar os danos económicos e sociais provocados pela pandemia do covid-19, mas também por dar início à própria modernização desse projecto e nele envolver as novas gerações.
Porém, sobretudo em Portugal, é necessário que os agentes políticos e os jornalistas tenham uma atitude pedagógica perante o público, o que nem sempre acontece, pois parece que ficam deslumbrados com os números e deixam no ar a ideia de que tudo serão facilidades. Afirmar que “o governo vai ter 18 milhões de euros por dia” ou escrever que “Portugal vai ter 6000 milhões de fundos por ano” é enganoso ou até mesmo mentiroso, pois cria ilusões nos portugueses. Para que não seja uma oportunidade perdida, esse dinheiro vai implicar a apresentação de projectos compatíveis com o acordo alcançado, criatividade, imaginação, realismo, muita responsabilidade e vontade política de mudança. É um enorme desafio.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Um acordo europeu que ilumina o futuro


A pandemia que a partir de Março afectou seriamente o modo de vida no mundo e que causou prejuízos económicos e sociais incalculáveis, ainda está longe de estar ultrapassada, apesar de começarem a aparecer notícias referindo a possibilidade de estar próxima a descoberta de uma vacina eficaz. Entretanto, em paralelo com a luta contra o covid-19, também estão a ser tomadas medidas para combater a crise económica e social como o lay-off, o teletrabalho, diferimento de obrigações fiscais e muitas outras.
Porém, a dimensão desta crise que vem sendo considerada como a mais grave que o mundo alguma vez suportou, levou a União Europeia a procurar uma saída. Assim, os 27 líderes europeus reuniram em Bruxelas para encontrar uma resposta coordenada à crise provocada pela pandemia e ao fim de cinco dias e de mais de 90 horas de negociações, chegaram a um acordo. As declarações produzidas por diversos líderes revelaram muita euforia e muita confiança naquilo a que chamaram um acordo histórico. São muitas centenas de milhões de euros que constituirão um fundo de recuperação destinado a combater a crise provocada pelo covid-19, a modernizar a economia, a combater as alterações climáticas e a apoiar as transições energética e digital, que será financiado pela emissão conjunta de dívida nos mercados financeiros, através da Comissão Europeia. Os números que estão a ser divulgados são tão grandes que obrigam a um estudo sobre o seu destino e sobre os seus destinatários no espaço europeu.
António Costa, que parece ter sido um importante protagonista nestas negociações, afirmou: “No conjunto, nestes [próximos] dez anos, Portugal terá para executar um total de 57,9 mil milhões de euros. Obviamente, é um enorme desafio”. É realmente muito dinheiro e bom seria que, desde já, se instalasse um sentido de responsabilidade e de independência, que prevenisse e travasse os oportunistas e os abusadores que, como se tem visto desde 1986, são verdadeiras aves de rapina especializadas na pilhagem de dinheiros comunitários. 

domingo, 19 de julho de 2020

Hagia Sophia como nova bandeira de quê?


No passado dia 10 de Junho, com base numa recomendação do Conselho de Estado da Turquia, o presidente Recep Tayvip Erdoğan assinou um decreto que determina a reclassificação da Basílica de Santa Sofia, também conhecida como Hagia Sophia, que em 1934 tinha sido convertida em museu e se tinha tornado um símbolo do secularismo e da moderna Turquia sob a direcção de Mustafa Ataturk. O majestoso edifício que é famoso pela sua enorme cúpula que é um exemplo único da excelência da arquitectura bizantina, foi inicialmente construído no século VI para servir de catedral de Constantinopla, mas em 1453 com a queda do Império Romano do Oriente a cidade foi renomeada como Istambul e a catedral foi transformada em mesquita, até que em 1934 foi adaptada como museu. Com a decisão agora tomada por Erdoğan, a Hagia Sophia vai voltar a ser uma mesquita, o que mostra a complexidade de quinze séculos de História das relações europeias e turcas ou das tradições cristãs e islâmicas.
A decisão turca gerou críticas internas e interessou a opinião pública europeia pois a reconversão da Hagia Sophia vem sendo interpretada como uma jogada nacionalista ditada pelas ambições políticas internas de Erdoğan, mas também pelos desejos turcos de verem o seu país tornar-se uma potência regional e de, eventualmente, se poderem entusiasmar num afrontamento político e religioso à Europa que não deseja ter  um polo de instabilidade na sua fronteira oriental. O jornal Público diz que Erdoğan está a enterrar de vez a Turquia laica e, de facto, assim parece.
Paradoxalmente, a Turquia continua a pertencer à NATO, enquanto faz negócios com a Rússia e apazigua as suas tensões com o Irão. É mesmo complexa aquela região do mundo.

sábado, 18 de julho de 2020

A crise sanitária parece estar para durar


A imprensa espanhola vem utilizando a palavra rebrotes para caracterizar a situação que se vive no país em que, aparentemente, estão a reaparecer os focos infecciosos de covid-19, pelo que diversas comunidades autónomas estão a reforçar as medidas sanitárias de protecção, incluindo o confinamento social obrigatório e outras medidas incluindo o uso obrigatório de máscaras. O jornal catalão el Periódico anuncia que nas comunidades autónomas da Catalunha e de Aragão o vírus avança sem controlo, mas as notícias relativas à Andaluzia e à Galiza também são preocupantes.
Por outro lado, as notícias que nos chegam da Austrália e dos Estados Unidos, bem como do Brasil e da Índia, revelam que ainda estamos muito longe de ultrapassar a crise pandémica que nos está a afectar desde Março e que, provavelmente, teremos que continuar a esperar pelo aparecimento de uma vacina que nos devolva a esperança em relação à normalização da nossa vida.
Apesar de todas as medidas adoptadas para superar a crise sanitária, o facto é que a crise económica também se agrava, pois a confiança dos agentes económicos tem dado poucos sinais de recuperação. Todos vemos que os aviões voam com poucos passageiros, que os restaurantes continuam vazios e que a maioria das lojas continua sem clientes. Começa a desenhar-se uma situação de calamidade mundial com muito desemprego e muita pobreza, o que nem os mais radicais adeptos da teoria dos ciclos económicos tinha previsto.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Macau: o património português à deriva


O Centro Histórico de Macau foi classificado pela Unesco e entrou na lista do Património Mundial da Humanidade em 2005, mas quinze anos depois, o legado português deixado naquele território ao longo de quase cinco séculos, numa fusão entre as arquitecturas e as tradições culturais chinesas e portuguesas, parece estar em perigo. Na sua edição de hoje, o jornal Macau hoje titula que o património está à deriva e ilustra essa manchete com a fotografia do Farol da Guia, que é o mais antigo farol das costas chinesas.
A classificação da Unesco representou um ponto alto na afirmação da permanência cultural portuguesa em Macau ao integrar vários sítios e construções históricas como o edifício e o largo do Leal Senado, a Santa Casa da Misericórdia, as igrejas da Sé, de São Lourenço, de Santo António, de Santo Agostinho, de São Domingos, as Ruínas de São Paulo e o Largo da Companhia de Jesus, além do Farol da Guia. O Grupo para a Salvaguarda do Farol da Guia tem criticado a gestão do património histórico em Macau, sobretudo o simbólico farol, denunciando que já quase se não vislumbra por estar entalado entre prédios altos que descaracterizam aquela colina. Porém, a mesma crítica é feita em relação a outros edifícios classificados, cada vez mais desenquadrados da nova paisagem urbana macaense. Significa, portanto, que a construção urbana tem mais força que a protecção do património, apesar da pressão que tem sido feita sobre as autoridades da Região Administrativa Especial de Macau para que tome medidas decisivas para reduzir a altura dos edifícios em construção e dos edifícios que vierem a ser construídos. Porém, será uma luta bem difícil, provavelmente inglória.