quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Voltou a moda dos “golpes de estado”

Numa altura em que as agendas mediáticas andam ocupadas com o futebol e com a guerra na Ucrânia, ainda há surpreendentes notícias de tentativas de “golpes de estado” na Alemanha e no Perú, o que não se imaginava que pudesse acontecer, pois esse tipo de intervenção parecia estar fora de moda, até mesmo na América do Sul, quanto mais na Alemanha.
Na Alemanha, que é o principal país da União Europeia, foi desmantelada uma rede que se suspeita estar a preparar um “golpe de estado”, através da invasão do Bundestag, do derrube do governo e da imposição de uma nova ordem constitucional.
No Perú também terá acontecido uma tentativa de “golpe de estado”, promovida por Pedro Castillo, isto é, pelo próprio presidente da República. Castillo foi eleito em 2021 na 2ª volta das eleições presidenciais peruanas, mas durante a campanha eleitoral já era acusado de ser “o Nicolás Maduro do Perú”, pelos seus sinais de autoritarismo. A sua presidência decorreu em permanente clima de crise política e com frequentes acusações directas de ser um agente activo da alta corrupção, pelo que no seu curto mandato foi confrontado com três pedidos de impeachment. Ontem, dia 7 de dezembro, o Parlamento procurou destitui-lo por “incapacidade moral”, mas Castillo antecipou-se e decretou a sua dissolução. Porém, cerca de duas horas depois o impeachment foi mesmo votado e aprovado com 101 votos a favor, seis contra e dez abstenções. O Congresso, e depois o Supremo Tribunal do Perú, classificaram a atitude ditatorial de Castillo como “golpe de estado”, pelo foi destituído e imediatamente detido por violação da Constituição, ao mesmo tempo que era dada posse à vice-presidente Dina Boluarte para o substituir. O diário Uno, que se publica em Lima, mostra as fotografias de Castillo e de Boluarte, ou as imagens de la traición e de la esperanza.
Portanto, na Alemanha e no Perú, terá havido duas tentativas de “golpe de estado”, que é uma coisa que se julgava impensável em quase todo o mundo no século XXI.

Qatar: o apoio dos goeses aos portugueses

O Campeonato do Mundo de Futebol está a interessar quase todo o mundo e, por isso, a vitória de Portugal sobre a Suiça teve uma enorme repercussão na imprensa mundial.
Um dos casos mais curiosos do entusiasmo pela selecção portuguesa acontece em Goa, um território que os portugueses governaram durante 451 anos e que em 1961 foi integrado pela força na República da Índia. Mudou a soberania em Goa e houve tentativas dos novos poderes para apagar a memória lusitana, mas os traços culturais portugueses permaneceram na sociedade goesa. O entusiasmo com que os goeses apoiam a selecção nacional de futebol que está no Qatar, demonstra exactamente isso.
A goleada portuguesa sobre a Suíça por 6-1 foi destacada na edição do centenário jornal oHeraldo que se publica em Pangim, com quatro fotografias que mostram o entusiasmo dos goeses pela selecção portuguesa, quer em Goa, quer na diáspora goesa que vive no Qatar. Diz o jornal que “casas, autocarros e gente de Goa se vestem com as cores portuguesas” e que os apoiantes de Portugal “não querem outra coisa que não seja que a taça vá para Lisboa no dia 18 de dezembro”.
O apoio dos goeses à equipa portuguesa de futebol é emocionante, tal como é emocionante o entusiasmo com que se festejam os seus êxitos nas comunidades portuguesas e nos territórios onde deixamos as nossas marcas culturais, que nem sempre foram positivas. Porém, a alegria do futebol faz esquecer essas coisas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Portugal entre “los 8 grandes” do futebol

Ontem foi um dia de festa para o futebol português pela robusta e até inesperada vitória obtida sobre a equipa da Suíça, que colocou a selecção portuguesa nos quartos de final do Campeonato do Mundo e deu uma enorme alegria aos portugueses, em especial aos que vivem e trabalham naquele país. A imprensa portuguesa escreveu em letras bem grandes as palavras demolidor e fulminante. No mundo do futebolez, em que se usa e abusa do adjectivo “histórico” para tudo e mais alguma coisa, a exibição de ontem e o resultado de 6-1, bem justificam a título excepcional a utilização da palavra histórica, até porque veio mostrar que a maravilha de que aqui se falara como sendo um atributo futebolístico brasileiro, afinal também é português. Aqueles jogadores são notáveis em talento e em determinação e, para muita gente, até merecem as fortunas que lhes pagam.
Com aquele resultado, como hoje lembra o jornal peruano Líbero, estão encontrados los 8 grandes, isto é, Portugal está entre as oito melhores equipas de futebol do mundo. Naturalmente que isso é agradável pela alegria que transmite ao povo – que bem precisa de alegrias – mas seria bem mais interessante se estivéssemos entre os oito melhores do mundo em prosperidade económica e qualidade de vida, em protecção social e solidariedade, no combate às desigualdades e à pobreza, no apoio aos mais necessitados, em responsabilidade ambiental e na luta contra o clientelismo que tanto afecta a harmonia da sociedade portuguesa. Lamentavelmente, todas essas causas ficam subordinadas aos interesses políticos imediatos e à busca de popularidade que a generalidade dos políticos persegue à boleia do futebol. 
Assim, eu aplaudo e fico muito satisfeito com o desempenho da selecção nacional de futebol, mas não me agrada nada tanta euforia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

A maravilha brasileira chegou ao Qatar

Estão a decorrer os jogos dos oitavos de final do Campeonato do Mundo e, sem surpresas, estão a ser apuradas as equipas mais fortes e com maior favoritismo. Ontem, o Brasil eliminou a equipa da Coreia do Sul treinada pelo português Paulo Bento e, sobretudo na primeira parte, exibiu-se a um nível artístico que pode igualar-se a um bailado ou a um número de circo, com os artistas bem sincronizados na apresentação das suas habilidades com a bola. Naturalmente, os jornais brasileiros não perderam tempo e trataram de heroicizar os seus neymares, mas o que realmente espanta é a capa do jornal italiano Corrierre dello Sport que se publica em Roma que, para além de publicar uma fotografia da festa brasileira a toda a largura da primeira página, escolheu o título “Maravilha!”, isto é, em vez de escrever a palavra italiana meraviglia, escreveu a palavra portuguesa maravilhaEste tributo ao futebol brasileiro também é uma consequência da frustração italiana de nem sequer ter sido apurada para o Qatar 2022.
Uma outra curiosidade desta edição é o destaque que Ronaldo tem na mesma primeira página, não porque marque golos ou jogue bem, mas apenas porque a Arábia Saudita parece que lhe vai pagar 500 milhões de euros por dois anos e meio de contrato. A ser assim, serão 16 milhões de euros por mês e 547 mil euros por dia. É mesmo uma grande jogada e é um outro tipo de maravilha...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Há entendimento entre Biden e Macron?

Emmanuel Macron foi em visita oficial aos Estados Unidos e a enorme zanga franco-americana que resultara do cancelamento do contrato para o fornecimento de submarinos franceses à Austrália, que os americanos reverteram a seu favor, parece ter sido ultrapassada. A fotografia publicada pelo Financial Times, com os dois líderes cheios de sorrisos, parece mostrar um relacionamento menos tenso e mais efectivo. Porém, estes dois velhos amigos e aliados, pelo menos desde 1776, também tinham na agenda outros assuntos como o défice energético europeu e, sobretudo, a guerra na Ucrânia e, nesse ponto, surgiram algumas divergências. Ambos acusam Putin de estar a levar a guerra a alvos civis e de utilizar o inverno para derrotar o moral ucraniano, prometendo reforçar o seu apoio à Ucrânia, embora Macron entenda que a guerra deva terminar rapidamente na mesa de negociações e não no campo de batalha. Por isso, Macron entende que “o Ocidente deve dar garantias à Rússia” e que é necessário “acomodar Putin”, o que não agrada aos falcões que o querem derrotar, mesmo que a Ucrânia seja destruída e o seu povo sofra.
De facto, desde o início da guerra que Joe Biden e os seus amigos defendem que a Ucrânia deve ser ajudada para vencer a guerra e que a Rússia deve ser derrotada, até porque essa atitude fortalece a economia americana. Porém, a escolha de Macron como interlocutor europeu dos Estados Unidos tem algum significado. Segundo os analistas, o Reino Unido marginalizou-se com o Brexit e Rishi Sunak ainda está a aprender, enquanto Olaf Scholz é cauteloso e ainda não tem a autoridade de Angela Merkel. Por isso, Emmanuel Macron parece ser a pessoa certa para abrir as portas a um cessar-fogo e a negociações de paz, pelo que até já anunciou que voltará em breve a falar com Putin.
Nunca se falou tanto em negociações de paz como nos últimos dias.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Há que deixar o Ronaldo em sossego!

Terminou a primeira fase do Campeonato do Mundo de Futebol com uma curiosidade, pois as três equipas que tinham vencido os seus dois primeiros jogos, assegurando desde logo a passagem aos oitavos de final – França, Brasil e Portugal – perderam o seu terceiro jogo. Contra todas as previsões, a França perdeu com a Tunísia, o Brasil perdeu com os Camarões e Portugal perdeu com a Coreia do Sul, provavelmente porque jogaram sem as principais figuras das suas equipas, ou porque puseram-se a facilitar. 
De entre as dezasseis equipas apuradas para os oitavos de final, destacam-se as dificuldades por que passaram a Espanha e a Argentina para seguir em frente, a surpreendente passagem dos Estados Unidos e da Austrália, bem com as eliminações da Alemanha, da Bélgica e do Uruguai. Das dezasseis equipas apuradas são oito europeias, duas africanas, duas sul-americanas, duas asiáticas, uma americana e uma australiana, a mostrar que a Europa ainda domina o futebol, mas que esse domínio já não é o que era. A selecção portuguesa está no grupo das dezasseis que entram na nova fase do torneio e vai defrontar a Suíça, sendo bem possível que siga em frente para alegrar todos os portugueses e, em especial, aqueles que vivem longe e alimentam a saudade da sua terra com o futebol, o bacalhau e pouco mais.
Porém, começa a ser preocupante a obsessão dos jornalistas portugueses com o Cristiano Ronaldo e a sua vida, o seu contrato, o que disse e o que não disse, os golos que marca ou que não marca, como se fosse apenas ele a integrar a equipa nacional. É uma postura de quase voyeurismo, de seguidismo doentio ou de um jornalismo de subalternos, que só serve para destabilizar e perturbar o desempenho da equipa. Deixem o Ronaldo em sossego e vamos confiar

Há sinais ténues para acabar com a guerra

Embora de uma forma muito discreta, as forças em confronto na Ucrânia começam a dar sinais de cansaço e a falar em negociações de paz. Porém, enquanto Joe Biden põe como condição a retirada da Rússia dos territórios ucranianos ocupados, já Vladimir Putin põe como condição prévia o reconhecimento da ocupação russa desses territórios, isto é, as condições são à partida inaceitáveis pelas partes, o que mostra que há lugar para a diplomacia e para a arbitragem. No terreno, parece que o inverno não permite que haja soluções militares, mas também parece que começa a haver falta de mísseis e de obuses de artilharia. Entretanto, embora se vão trocando prisioneiros a mostrar que há canais de comunicação entre as partes, continua a destruição das cidades e o enorme sofrimento do povo que não tem a culpa da situação. A NATO insiste na promessa de apoio enquanto for necessário e não mostra sinais de apaziguamento, enquanto a União Europeia deixou de ter voz neste assunto e, lamentavelmente, se colocou sob a tutela americana e dos seus interesses, tanto estratégicos como económicos, como se vê com a prosperidade das suas indústrias do armamento e da energia.
No meio deste imbróglio, a edição de hoje do jornal espanhol ABC publica uma reportagem intitulada “No es Ucrania, es Toledo”, sobre o treino que 64 recrutas ucranianos, sem experiência militar prévia, estão a receber na Academia de Infanteria del Ejército de Tierra de Toledo, para servirem depois no exército do seu país. O programa de treino prolonga-se por cinco semanas, com um horário de trabalho de seis dias e meio por semana e com jornadas de 10-12 horas, tudo a ser suportado pela Misión de Asistencia Militar de la UE en Apoyo a Ucrania. Segundo revela o jornal, esta é a terceira instrução espanhola a soldados ucranianos em território espanhol, o que mostra que a Espanha aproveita e que, em nome da solidariedade, está a facturar os seus serviços a Bruxelas. Afinal, como se vê, os sinais de continuação da guerra são bem mais fortes do que os ténues sinais para acabar com ela.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

O património que pertence às ex-colónias

A última edição do semanário Expresso destacou como manchete que o governo vai fazer uma lista de património a devolver às ex-colónias, porque tem havido alguns movimentos de opinião em diversos países, sobretudo africanos, que reivindicam que o seu património arqueológico ou etnográfico, que foi retirado por estados estrangeiros, seja devolvido. Na realidade, os grandes museus europeus como o British Museum (Londres), o Louvre (Paris), o Neues Museum (Berlim) e o Museu do Vaticano (Roma) têm nos seus acervos as maiores colecções de peças arqueológicas do mundo, que normalmente resultaram de pilhagens, feitas nos territórios coloniais ou em países sob domínio militar, embora também haja muitas aquisições por compra e muitas doações. Ao longo do processo histórico, desde os vikings aos exércitos de Hitler, passando pelos soldados de Napoleão, a pilhagem de peças arqueológicas, de escultura e de pintura, foi prática corrente nos territórios das antigas civilizações do Egipto, da Turquia, do Iraque e um pouco por todo o mundo.
O assunto é pertinente e, embora muitas das peças desse património estejam devidamente preservadas nos museus onde se encontram, é legítimo que alguns países reivindiquem a sua devolução, como é legítimo que o Estado português elabore uma lista de património a devolver às ex-colónias. Porém, essa lista pouco será diferente de um conjunto vazio, isto é, parece não ter havido pilhagens de património nas ex-colónias portuguesas, como se pode observar nos nossos museus. Quem conheceu o Portugal de além-mar sabe que, por razões diversas, as eventuais operações de pilhagem ou transferência de património para fins museológicos ou outros, se existiu foi absolutamente marginal.  
Claro que há mobiliário, estatuária, cerâmica e muito artesanato com origem nas ex-colónias, mas todo esse património não chegou a Portugal por pilhagem ou outra forma ilegal. 
Em Portugal não há património relevante que deva ser devolvido às ex-colónias. Faça-se a lista, para que não fiquem dúvidas.

sábado, 26 de novembro de 2022

Quem ganha com a guerra na Ucrânia?

A guerra na Ucrânia dura há nove meses e, portanto, há nove meses que aqui defendemos que é necessário um cessar-fogo que conduza à paz. O sofrimento do povo ucraniano é agora mais visível, não só na enorme destruição do seu património urbano, nos seus milhões de refugiados e na sua economia que está paralisada, mas também no frio e na escuridão que se abateu sobre as suas cidades.
O cidadão comum já tem dúvidas sobre quem quer e quem não quer a paz, porque a generalidade dos actores deste conflito, incluindo a generalidade dos especialistas e dos comentadores, parece apenas apostar em mísseis e mais mísseis. Nesse contexto, a edição especial da prestigiada revista francesa L’Express que ontem começou a circular sob o título Les Etats-Unis, grands gagnants de la guerre en Ukraine, aparenta ser um documento importante para compreender a situação.
Segundo a referida revista, o apoio americano à Ucrânia tornou os Estados Unidos o vencedor desta guerra, apesar de nem um só soldado americano ter pisado o solo ucraniano, escrevendo ainda que “os Estados Unidos nunca perdem a oportunidade de uma guerra para promover os seus interesses económicos” e acrescentando que é a hora da Europa “s'en aperçoive, et réagisse”, isto é, perceber e reagir. No armamento, no gás, nos cereais, na Nato… os americanos são os grandes ganhadores na guerra da Ucrânia, mas há outros vencedores, como a Argélia, a Turquia, a Coreia do Sul e o Canadá que “esfregam as mãos” pelos lucros inesperados que a guerra lhes trouxe com os hidrocarbonetos, o trigo ou a mediação. A revista ainda revela como os príncipes do Golfo se tornaram os novos reis do mundo e aborda a indústria francesa do armamento que desejaria ter uma intervenção mais activa.
Teremos de procurar a revista para a ler e para saber mais sobre quem ganha com a guerra, porque já sabemos que quem perde é o povo ucraniano e que, por tabela, também perdem os europeus que tendem a tornar-se cada vez mais irrelevantes.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Qatar: Cristiano Ronaldo “hace historia”

Não temos vontade de conduzir esta Rua dos Navegantes para a área da futebolice, mas o facto é que o futebol está a dominar a agenda mediática. Certos temas importantes saíram das manchetes da imprensa e da televisão, assim acontecendo com as guerras da Ucrânia e do Iémen, a tensão no estreito de Taiwan, as alterações climáticas, a crise energética, a agitação no Irão, a fome no mundo, a transferência de poderes no Brasil e muitos outros temas. A tematização mediática é o que é e, agora, é o futebol que manda!
Ontem a selecção portuguesa entrou com o pé direito no Mundial do Qatar e venceu a sua congénere do Gana por 3-2, mas foi uma vitória sofrida, com muitos erros e pouca ambição. Aqueles jogadores podem fazer melhor e o entusiasmo popular merecia mais. A presença de Marcelo Rebelo de Sousa nada acrescentou de positivo à exibição portuguesa, embora as suas declarações sobre direitos humanos, obviamente, tivessem feito tremer o xeque Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani que, com 42 anos de idade, é o emir do Qatar.
Hoje toda a imprensa portuguesa destaca que, com o golo que ontem marcou ao Gana, o capitão Cristiano Ronaldo se tornou no único jogador que marcou golos em cinco edições do Mundial. É um feito notável de um jogador notável, que todo o mundo conhece e admira, embora já tenha perdido o fulgor atlético de outros anos. Na sua edição de hoje o jornal espanhol Marca homenageou Cristiano Ronaldo com uma fotografia em que abraça a bola com que iria marcar o penalti que transformou em golo de Portugal e, como legenda, escreveu “CR7 hace historia”. 
Parabéns ao Cristiano Ronaldo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Portugal e Brasil em estreia hoje no Qatar

Portugal está hoje a viver um dia de grande excitação e euforia a propósito do Mundial de Futebol do Qatar, porque esta tarde vai acontecer a estreia da selecção nacional contra a equipa do Gana. Os jornais e as televisões não falam noutra coisa e as pessoas a quem se pede um prognóstico, tratam de manifestar um enorme optimismo, avançando com a sua previsão do resultado e até com os nomes dos jogadores que vão marcar os golos...
Naturalmente que todos os portugueses desejam que a sua selecção triunfe porque será sempre uma grande alegria e nós bem precisamos delas, mas a onda de optimismo criada até pode ser contraproducente, a não ser que o apoio do presidente da República possa ajudar a meter alguns golos. Logo se verá…
Hoje também se estreia a selecção brasileira contra a equipa da Sérvia e nesse jogo há uma curiosidade e uma grande dúvida: com que equipamento se vai apresentar a selecção canarinha, que é sempre uma das grandes favoritas para ganhar a competição? O verde e o amarelo são as suas cores identitárias e é assim que todo o mundo a reconhece, mas essas cores e essa camisola foram recentemente apropriadas pelo presidente Jair Bolsonaro na campanha eleitoral para a sua reeleição, que perdeu a favor de Luiz Inácio Lula da Silva. 
Como salienta a última edição da revista Isto É a propósito do equipamento da selecção brasileira, "a camisa é do povo”. Por isso ficamos com a curiosidade de ver, daqui a algumas horas, como vai ou não vai apresentar-se a selecção brasileira, pois a camisa que for escolhida terá algum significado político.
Por fim, o nosso voto muito directo e muito simples: que Portugal vença o Gana e que o Brasil triunfe sobre a Sérvia. Os portugueses e os brasileiros merecem essas alegrias!

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Há Qatar e Qatar... há gastar e gastar

Na semana passada, quando a selecção nacional de futebol bateu a sua congénere da Nigéria por 4-0, um desmedido entusiasmo tomou conta daqueles que mais influenciam o nosso país, isto é, as televisões e os seus gatekeepers. O presidente da República associou-se a essa onda e logo tratou de anunciar que estaria no Qatar para apoiar a selecção, porque disse ser “de interesse nacional”, tendo essa intenção aqui sido criticada, mais por razões económicas do que por razões políticas.
Nos dias seguintes muitas vozes se levantaram contra aquela intenção do presidente da República, porque a sua deslocação iria caucionar o regime do Qatar, que viola os direitos humanos e discrimina as mulheres, mas que também iria dar cobertura ao duvidoso processo que levou à sua escolha para acolher o Mundial de Futebol. 
Inteligente e hábil, Marcelo Rebelo de Sousa desdobrou-se então em explicações e tratou de garantir que iria falar em direitos humanos aos qataris e que iria apenas para apoiar a selecção. Todos ficamos mais sossegados, embora sem saber se o presidente iria falar antes ou depois do jogo, mas também sem saber se só leva cachecol ou também leva uma bandeirinha, ou se usaria outros adereços próprios das claques...
Hoje o Expresso Curto publica um texto intitulado “Marcellum Falcon”, que nos esclarece sobre o Falcon que Marcelo tantas vezes utiliza e que já voa a caminho do Qatar. São cerca de 15.000 quilómetros de ida e volta a gastar combustível, para ver um jogo de futebol, em tempos que deveriam ser de contenção. E de bons exemplos. Por isso, a questão do custo para o erário público desta deslocação para apoiar a selecção num jogo de futebol contra a equipa do Gana, não pode ser ignorada. Quem integra a comitiva do Senhor Presidente? Onde ficará instalada a comitiva do Senhor Presidente? Quanto custa toda esta operação destinada a satisfazer a vontade pessoal do Senhor Presidente?
Todos os contribuintes deveriam conhecer as respostas a estas questões, devidamente discriminadas e quantificadas em euros. Ponto final.

Qatar 2022: don’t cry for me Argentina

Estão disputados os primeiros oito dos sessenta e quatro jogos do Mundial do Qatar e a primeira grande surpresa já aconteceu com a derrota da Argentina perante a Arábia Saudita. Em termos de lógica futebolística esse resultado era impensável e a imprensa argentina, mas também a de alguns outros países, relatou esse inesperado resultado de uma equipa que aspirava chegar à final (e pode continuar a aspirar). 
“De la euforia a la decepción” é o título mais comum da imprensa argentina e o suplemento desportivo El Hincha que se publica na cidade de Rosário, curiosamente a cidade natal do ídolo Leonel Messi, mas também do revolucionário Ernesto “Che” Guevara, publicou a fotografia de um Messi derrotado, triste e cabisbaixo, tendo escolhido como título a frase “Desilusión total”. Um jornal inglês destacou essa mesma notícia e escolheu como título “cry for me Argentina”, numa alusão à famosa canção de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice do musical “Evita”. As televisões mostraram as imagens da desilusão argentina e da euforia saudita e essa foi a única surpresa que aconteceu até agora no Qatar, porque todos os outros resultados eram esperados. Porém, uma derrota num jogo de futebol não pode ser motivo para que a nação argentina chore…
Nos dias de chuva e de algum frio que temos suportado, os adeptos do futebol, enquanto arte e espectáculo, estão em festa com as transmissões televisivas, embora todos continuemos a ser incomodados com as longas lengalengas dos comentadores e com o facto dos canais televisivos se terem esquecido que há mais notícias para além do futebol, ao mesmo tempo que passam de forma sublimar, a mensagem enganadora e mentirosa, de que o futebol é a coisa mais importante do mundo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Adiadas a ambição e a urgência na COP27

A 27ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, ou a COP27, concluiu os seus trabalhos em Sharm El Sheikh, depois de terem sido prolongados e terem obrigado a muitas horas suplementares de negociações. 
Ontem, quando foi anunciado o encerramento da COP27 houve duas reacções distintas: uns reclamaram que se tinha conseguido um acordo histórico para a criação de um fundo destinado a ajudar os países mais vulneráveis que são afectados pelas alterações climáticas, enquanto outros criticaram o facto de não terem sido tomadas decisões sobre as questões urgentes, como a redução das emissões ou da utilização de combustíveis fósseis. 
De entre estes, destaca-se António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, que lamentou a falta de ambição da COP27 no que respeita à redução das emissões de gases com efeito de estufa que, na sua opinião, era um tema urgente e inadiável. No mesmo sentido foram as posições da União Europeia que também criticou a falta de ambição em relação à redução das emissões de gases com efeito de estufa no acordo agora aprovado. Essa é, também, a posição do diário francês Libération que, na sua edição de hoje, destaca que a urgência tem que esperar, enquanto o jornal Público destaca que o acordo não chega para tirar o planeta da "auto-estrada" para o inferno.
Perante as conclusões da COP27, que ficaram muito aquém das expectativas, parece que o seu ponto alto foi a participação entusiástica e mobilizadora do presidente eleito do Brasil, que trouxe o seu país de volta ao convívio das nações. 

domingo, 20 de novembro de 2022

Aí está o FIFA World Cup Qatar 2022

Depois de muitos meses de expectativa e de impaciência, o 22º Campeonato do Mundo de Futebol ou o FIFA World Cup começa hoje em Doha, a capital do Qatar. O entusiasmo é enorme em todo o mundo e os meios de comunicação, como a televisão, a internet ou a imprensa, colocaram o Mundial no topo das suas agendas e até houve quem tivesse pedido a suspensão das guerras que perturbam o mundo, enquanto durasse a competição. As críticas ao regime do Qatar têm sido muito duras, mas há quem considere que são um exercício de mera hipocrisia. As ambições das 32 selecções participantes são grandes, embora algumas recolham mais favoritismos que outras, como acontece com o Brasil e a Argentina, mas também com a França e a Espanha. Outros países, como por exemplo Portugal, também publicitam as suas ambições e há quem diga que “estamos aqui para ganhar”, ou que “só iremos para casa no dia 18 de Dezembro”. Como se tem visto em algumas reportagens televisivas, a equipa portuguesa e o seu capitão Cristiano Ronaldo têm muitos apoiantes e suscitam ondas de entusiasmo entre os emigrantes asiáticos no Qatar, sobretudo os que são originários de Goa, mas também de outras regiões da Índia.
A selecção portuguesa está integrada no grupo H e na primeira fase da competição terá que defrontar as equipas do Gana (24 Nov), do Uruguai (28 Nov) e da Coreia do Sul (2 Dez), mas todas as equipas que estão no Qatar estão bem preparadas e a tarefa não será fácil. Felizmente estão anunciadas as transmissões televisivas dos jogos da selecção portuguesa e todos poderemos acompanhar as suas prestações e torcer pelo seu sucesso, embora sejam de rejeitar os excessos de histerismo da imprensa, dos repórteres in loco, dos comentadores televisivos e até de algumas figuras públicas com os seus despropositados comentários.
Porém, a verdade é que “o mundo está de olho na Copa”, como hoje anuncia um jornal brasileiro.