domingo, 9 de junho de 2024

Eleições europeias e guerra na Ucrânia

As eleições parlamentares europeias estão em curso neste fim-se-semana nos 27 estados-membros da União Europeia e, por dever cívico e direito de cidadania, já tratei de votar, embora sem grande entusiasmo. Por cá pouco se sabe sobre o que faz essa instituição que aloja 720 deputados privilegiados e novos-ricos, que ninguém conhece ou sabe o que fazem. Por isso, a ideia de promover temidos, bugalhos ou cotrins a deputados europeus não entusiasma ninguém. Com eles ou sem eles, tudo fica na mesma. Por cá, como na generalidade dos estados-membros, estas eleições servem apenas para consumo interno e para avaliar conjunturas locais, isto é, se Montenegro e PNS, ou Pedro Sánchez e Alberto Feijóo, continuam empatados, se Macron continua em perda para Marine Le Pen, e assim sucessivamemente. Os dois grandes grupos políticos europeus – o Partido Popular europeu (democrata-cristão) e o Partido Socialista Europeu (socialista/social democrata) – têm perdido espaço para a extrema-direita, para os verdes e para os liberais e, por isso, também aí há a curiosidade de ver como evolui a votação de hoje.
A guerra na Ucrânia e a busca da paz deveriam ser a principal preocupação dos europeus. Provavelmente, a maioria dos deputados e dos políticos europeus desconhece os horrores da guerra por que passaram os seus avós e não levantam a sua voz a pedir aos irmãos desavindos da Rússia e da Ucrânia que parem com a catástrofe da guerra e com a escalada que ameaça o mundo e que tratem de construir a paz. Preferem criar narrativas e meias-verdades para alimentar as opiniões públicas e apoiar a florescente indústria militar, à custa da destruição de um país. Hoje o jornal Público apela a que se vote pela Europa e destaca a figura de Camões, pois estamos a celebrar o seu 5º centenário. Daí que aqui citemos as estâncias XCV e XCVI do Canto IV de’Os Lusíadas, para relembrar o aviso do “velho do Restelo”:

Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama!

[…]

A que novos desastres determinas / De levar estes reinos e esta gente?

Quem diria que Joe Biden e Emmanuel Macron, Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky, mas também todos os políticos europeus, deveriam ler Os Lusíadas e aprender com o nosso Luís de Camões?

sexta-feira, 7 de junho de 2024

O Dia D como pretexto para mais guerra

No dia 6 de junho de 1944, as tropas aliadas sob o comando do general Dwight Eisenhower desembarcaram nas praias da Normandia e iniciaram a invasão que levou à libertação da França e à derrota do nazismo alemão, cujo líder era Adolfo Hitler. Foi há oitenta anos que as tropas americanas, inglesas e canadianas enfrentaram a chamada “muralha do Atlântico”, num dia que ficou assinalado na História como o Dia D, embora os franceses gostem de lhe chamar o Jour-J, como se vê na capa da edição de hoje do jornal La Dépêche du Midi.
O desembarque da Normandia foi a maior invasão marítima da história do mundo, teve a participação de quase cinco mil veículos de desembarque e de assalto, que foram escoltados por 289 navios e apoiados por 277 draga-minas que, nesse dia, desembarcaram 156 mil homens que atravessaram o canal da Mancha. No primeiro dia da Operação Overlord, nenhum dos objectivos aliados foi atingido e houve cerca de dez mil baixas, incluindo 4.414 mortos confirmados, enquanto do lado alemão houve cerca de mil baixas.
Esta data costumava ser um dia de homenagem a todos os 156 mil homens que desembarcaram naquele dia 6 de junho, honrando os vivos e os mortos, numa evocação histórica de reconciliação, de repúdio da guerra e de apelo à paz. Porém, o presidente Emmanuel Macron, com o apoio de Joe Biden, Olaf Scholz e Rishi Sunak, transformou esta efeméride num estranho e imprudente passo relativamente à guerra da Ucrânia, ao comparar as situações da França de 1944 e da Ucrânia de 2024. Naturalmente que o anfitrião convida quem quiser para as suas festas e, por isso, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky lá esteve, sem que ele ou a Ucrânia tenham alguma coisa a ver com o Dia D, o que apenas contribui para a escalada da guerra e para afastar a paz que o próprio Macron antes tanto procurou.
Não sei o que faz correr o pequeno Macron, de quem os franceses já pouco gostam e que tanto quer, a exemplo de Napoleão, levar os seus soldados para as fronteiras orientais da Europa.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Modi ganhou na India, mas perdeu força

As eleições na Índia, que é o país mais populoso do mundo e que, por vezes, também é classificado como a maior democracia do mundo, terminaram ao fim de 44 dias e os resultados foram finalmente anunciados: Narendra Modi e o seu Bharatiya Janata Party (BJP) ganharam e vão iniciar um terceiro mandato. Votaram 642 milhões de pessoas, cerca de 66% dos 970 milhões de eleitores inscritos, distribuídos por 29 estados federados e sete Union Territories, isto é, territórios directamente dependentes do governo federal instalado em Nova Delhi.
O Lok Sabha, ou Parlamento Nacional, tem 543 assentos, pelo que a maioria parlamentar se consegue com 272 assentos. A Aliança Democrática Nacional (NDA), uma coligação do BJP com outros partidos menores conseguiu 291 assentos. Porém, Narendra Modi e o BJP conseguiram apenas 240 assentos, um resultado pior do que tinham obtido em 2014 (282 assentos) e em 2019 (303 assentos), o que significa que terão que negociar com os seus aliados regionais para governar, uma vez que perderam a maioria absoluta com que governaram nos últimos dez anos, embora o nacionalismo hindu se mantenha no poder. Do lado da oposição, continua o sentimento de orfandade pela falta de Nehru e dos seus descendentes, embora tenha havido alguma recuperação. A coligação Aliança Nacional para o Desenvolvimento Inclusivo da India (INDIA) elegeu 234 deputados, dos quais 99 do Indian National Congress (INC), um dos quais é Rahul Gandhi, bisneto de Nehru.
Estes números são indicados na edição de hoje do jornal O Heraldo, que se publica em Goa, cuja primeira página contém muita publicidade, incluindo uma notícia necrológica relativa a Felicia Cardoz, um nome com evidente conotação portuguesa.
Como curiosidade regista-se que o estado de Goa escolheu um deputado do BJP (North Goa) e um deputado do INC (South Goa) e que o Union Territory of Dadra & Nagar Haveli and Daman & Diu escolheu o candidato do BJP.


Os 500 anos do nascimento de Camões

Luís de Camões nasceu em Lisboa em 1524 e é considerado o maior poeta português por ter escrito “Os Lusíadas”, a obra maior da literatura portuguesa. No mês de maio do ano de 2021, quando se aproximava a celebração dos 500 anos sobre essa efeméride, o governo lembrou esse acontecimento e tratou de aprovar uma Resolução do Conselho de Ministros que determinou a realização das Comemorações do Quinto Centenário do Nascimento de Luís de Camões, tendo nomeado uma comissária e definido a criação de uma estrutura de missão e de diversas comissões.
Porém, nada disto parece ter avançado, à excepção da escolha da comissária, ou seja, passaram-se três anos em que Pedro Adão e Silva andou distraido. Agora que há um novo governo, através da Resolução nº 69/2024, de 3 de junho, o Conselho de Ministros criou a estrutura de missão responsável pelas Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões, com o objectivo de celebrar o seu contributo para a história da literatura e da língua portuguesas, a terem lugar durante dois anos, a partir de 10 de junho de 2024.
Esta distracção do XXIV Governo Constitucional foi emendada pelo actual governo e não terá prejudicado as iniciativas da sociedade civil, muitas delas já em curso, por exemplo na Universidade de Coimbra, na Biblioteca Nacional, no Arquivo Nacional Torre do Tombo, no Instituto Camões, na Câmara Municipal de Lisboa, em diversos municípios, escolas e até no estrangeiro. Destaca-se, entretanto, a iniciativa do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, cuja edição mais recente é uma “edição comemorativa dos 500 anos de Luís de Camões”, que se saúda e cuja leitura se recomenda
De resto, deseja-se que estas comemorações sirvam sobretudo para proteger e internacionalizar a língua portuguesa!

segunda-feira, 3 de junho de 2024

José Mourinho sempre à caça dos milhões


O mundo do futebol é cada vez mais um mundo fantástico, que atrai multidões, que satisfaz emoções e que movimenta milhões, sobretudo no período que medeia entre o fim de uma época e o início da época seguinte. Nesse período, a que por vezes se chama o defeso, os clubes desportivos tentam reforçar as suas equipas de futebol através da contratação de jogadores e treinadores, ao mesmo tempo que procuram assegurar as suas fontes de financiamento, através de contratos para as transmissões televisivas ou para a exploração de espaços publicitários, que lhes garantam uma gestão desportiva e financeira equilibrada. Porém, a complicar a gestão dos clubes desportivos estão os adeptos e os seus entusiasmos, que exigem para o seu clube os melhores jogadores, os melhores técnicos e, naturalmente, os melhores resultados.
É nesse quadro que o Fenerbahçe Spor Kulübü, ou simplesmente Fenerbahçe, um importante clube turco de Istambul, tratou de contratar o treinador português José Mourinho. A fama deste treinador é tão grande que os jornais turcos esqueceram o Recep Tayyip Erdoğan, o Biden e o Trump, o Putin e o Zelensky, o Netanyahu e o Stoltemberg, porque, como diria o Camões, um Mourinho “mais alto se alevanta”. É ele que aparece em todas as primeiras páginas dos jornais. Ele é que é a notícia. Dizem os jornais que o treinador português vai ganhar 10 milhões de euros por época, acrescidos de bónus por objectivos atingidos. Não sei se ele é tão bom treinador como os dirigentes do Fenerbahçe pensam que é, mas sei que ele sabe muito de marketing e que sabe vender a sua imagem de marca como poucos, tendo levado os adeptos à loucura, como mostra a capa da edição de hoje do jornal desportivo fotoMaç.
Aos milhares de adeptos que o esperavam no Ulker Fenerbahçe Sukru Saracoglu Stadium, o novo ttreinador mostrou muita sabedoria e disse-lhes o que eles queriam ouvir: “Normalmente um treinador é amado depois de vitórias, mas neste caso sinto que sou amado ainda antes”, ou “esta camisola é a minha pele”, ou ainda, “os vossos sonhos são os meus sonhos”.

domingo, 2 de junho de 2024

Biden, Trump e as eleições americanas

A condenação de Donald Trump que aconteceu no passado dia 30 de Maio por unânime decisão de um júri reunido em Manhattan, foi largamente noticiada pelo mundo, pois trata-se de um homem que é um ex-presidente dos Estados Unidos e que agora está na corrida para regressar à Casa Branca.
Donald Trump reagiu e afirmou que vai recorrer desta sentença, fazendo acusações de que se tratou de um “julgamento fraudulento” e, de acordo com o que ontem citou o jornal inglês The Independent, também afirmou que “nós estamos a viver num estado fascista”. Esta declaração é grave e irresponsável. 
Em ano de eleição presidencial, os americanos estão confrontados com uma grande instabilidade política e com o dilema de escolherem entre o Democratic Party e o Republican Party, ou entre Joe Biden e Donald Trump, ou entre um candidato com 81 e outro com 78 anos de idade. Há cerca de dois anos foi divulgada uma sondagem que mostrava que a maioria dos americanos considerava a instabilidade política a maior ameaça aos Estados Unidos, admitindo o colapso da sua democracia. Desde então as coisas não melhoraram e, pelo contrário, agudizaram-se. Nos seus túmulos, Thomas Jefferson e os signatários da Declaração de Independência dos Estados Unidos de 1776, devem estar muito incomodados pelo espectáculo a que vão assistindo. Recentemente, o eleitorado americano ouviu Joe Biden dizer que Donald Trump “está disposto a sacrificar a democracia para voltar ao poder” e, depois, ouviu Trump dizer que “Biden é a verdadeira ameaça à democracia”. Agora, o mesmo Trump, diz queb“nós estamos a viver num estado fascista”.
Na vida política portuguesa, estamos habituados a ouvir críticas e acusações entre candidaturas rivais, mas esta confrontação made in America é muito mais profunda e altamente preocupante, porque não diz respeito apenas aos Estados Unidos, mas também respeita ao equilíbrio mundial.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

A condenação de Donald Trump e o futuro

Quase toda a imprensa americana destaca as suas edições de hoje o facto de, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um ex-Presidente ter sido condenado por decisão unânime de um júri de 12 membros, que considerou Donald Trump culpado das 34 acusações de suborno no caso Stormy Daniels, ocorrido em 2016. Inúmeros jornais escolheram o título “Trump Guilty” para as suas primeiras páginas, que também é o título escolhido pelo jornal Houston Chronicle, mas também há jornais como The New York Post que escreveu “Injustice” a toda a largura da sua primeira página, classificando a decisão do júri como “um golpe político”. Donald Trump reagiu e afirmou-se vítima de perseguição política “manipulada por um juiz corrupto”, mas também declarou que esta decisão e o seu julgamento se enquadra numa campanha para evitar que concorra e ganhe as eleições de 5 de novembro.
As opiniões dividem-se na sociedade americana quanto ao futuro de Donald Trump, mas poucos acreditam que ele venha a ser condenado nos tribunais e vá parar à prisão. Em quaisquer circunstâncias ele poderá manter a sua candidatura à Casa Branca, porque a Constituição americana não proíbe que um cidadão condenado criminalmente possa disputar a presidência e ocupá-la se tiver mais votos que o seu adversário. Há ainda quem pense que ele irá vitimizar-se perante o eleitorado e que este o vai recompensar com votos.
Há todas as opiniões possíveis sobre a situação. A evolução da situação política da mais poderosa nação do mundo interessa a toda a gente e chegam-nos notícias e comentários, muitas vezes enviezadas e manipuladas, que não nos permitem avaliar o cenário de disputa eleitoral e os seus efeitos sobre a conjuntura internacional. O que todos sabemos é que com Biden ou com Trump na Casa Branca, o futuro dos Estados Unidos e do mundo é cada vez mais uma incerteza.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

As escolhas americanas: Biden ou Trump?

Faltam pouco mais de cinco meses para as eleições americanas e o mundo mostra-se cada vez mais interessado, talvez mesmo preocupado, com o que vai acontecer no dia 5 de novembro de 2024, isto é, se o próximo presidente dos Estados Unidos será o democrata Joe Biden ou o republicano Donald Trump.
Desde há vários meses que as sondagens têm sido favoráveis a Donald Trump, mas se há sondagens para todos os gostos em todo o lado, nos Estados Unidos essa é uma verdade ainda mais evidente. No entanto, os observadores têm destacado o facto de Trump estar em vantagem em cinco estados decisivos – Michigan, Arizona, Nevada, Geórgia e Pensilvânia – enquanto Biden não tem recuperado terreno, apesar da melhoria económica americana e da provável condenação de Trump no caso do pagamento a uma atriz pornográfica com dinheiros públicos. Porém, a mais recente sondagem que se conhece e que é analisada pela revista Newsweek, indica que há uma quebra no apoio a Joe Biden, sobretudo entre os eleitores mais jovens, nos negros e nos hispânicos, que contestam a política americana em relação a Israel. Embora os americanos não estejam a combater na Ucrânia, nem em Gaza, como aconteceu no Vietnam, no Iraque e no Afeganistão, a violência da guerra tem entrado diariamente em sua casa através das trágicas imagens televisivas. Ninguém aprova a violência israelita, mas Joe Biden não consegue acabar com ela. 
O protesto contra o apoio militar americano a Israel tem subido de tom entre os jovens, entre os árabes americanos e até em alguns judeus, que mostram indignação pelas dezenas de milhares de palestinianos mortos em Gaza. As imagens televisivas da tragédia geram um protesto que tem aumentado e podem custar a reeleição a Joe Biden, como refere a capa da Newsweek. Enfim, com Biden ou Trump, muitos americanos temem pelo futuro.

A enorme força dos festivais da Lusofonia

O jornal Correio da Manhã-Canadá que se classifica como “o melhor jornal em língua portuguesa do Canadá”, aparece semanalmente em Brampton, uma comunidade localizada na área metropolitana de Toronto. Na sua última edição, o jornal anuncia que é “já este fim-de-semana” que se inicia o 5º Lusofonia Festival e, ao mesmo tempo, convida cada um dos seus leitores para que “celebre connosco os 50 anos da cidade de Brampton e o Dia de Portugal”. A notícia é ilustrada com o logotipo do 5º Lusofonia Festival, onde se reconhecem as bandeiras dos nove países da CPLP e, também, a bandeira da Região Administrativa Especial de Macau.
A questão da Lusofonia é muito falada em Portugal, mas quase sempre com um conteúdo demasiado retórico e inconsequente. Por outro lado, em muitas das comunidades da diáspora, a Lusofonia é celebrada com orgulho e junta todos aqueles que falam português, com as suas músicas, as suas gastronomias, o seu folclore e artesanato, as suas festividades religiosas e as suas práticas culturais. Assim acontece no Canadá e nos Estados Unidos, na África do Sul e em Macau, mas também em outras comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo e em especial na Europa.
Segundo os seus organizadores esta sequência de eventos na cidade canadiana de Bampton ”celebra a diversidade, fortalece laços económicos e sociais e promove a inclusão”, enriquecendo a comunidade lusófona. Aqueles que vivem ou viveram fora do território nacional envolvem-se com maior entusiasmo nas festividades lusófonas, atenuando as "saudades do fado e do bacalhau", mas evocando também as memórias mais profundas das suas origens. O facto é que estas iniciativas da sociedade civil, designadamente na diáspora, fazem mais pela língua portuguesa do que as conferências, os simpósios e os colóquios que as instituições públicas promovem, muitas vezes com elevados custos para o erário público.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

A breve visita de Zelensky a Lisboa

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky esteve ontem em Lisboa numa visita de cerca de 6 horas e, segundo anuncia o jornal Público, o nosso “apoio militar atinge os 126 milhões de euros já este ano”. Esse apoio solidário à Ucrânia resulta da guerra que está a enfrentar, que para alguns foi iniciada no dia 24 de fevereiro de 2022 com a invasão russa do seu território e, para outros, começou em 2014 com os levantamentos dos separatistas de Lugansk e Donetsk a contestar o autoritarismo de Kiev.
Independentemente da sua génese ou das suas circunstâncias, todas as guerras são indesejáveis pois trazem consigo a morte e a destruição e aquela que se trava em território ucraniano não foge a esta regra. Por isso, há que fazer todos os esforços para acabar com essa catástrofe humana e material, procurando reconciliar amigos e encontrar a paz, com cedências das partes e dos seus aliados. Ao fim de dois anos, ninguém acredita seriamente que possa haver vencedores. Essa é, ou deveria ser, a posição portuguesa, em obediência ao nosso princípio constitucional que preconiza “a solução pacífica dos conflitos internacionais”.
As lições do general prussiano Carl Von Clausewitz, que publicou em 1832 um livro sobre a guerra, incluem uma definição que parece inquestionável: “a Guerra é a continuação da Política por outros meios”. Assim sendo, é a Política que desencadeia as guerras e é a Política que deve acabar com elas, através de vários instrumentos, como por exemplo a Diplomacia. A generalidade dos políticos europeus não parece pensar assim e trata de mobilizar fundos para apoiar militarmente a Ucrânia, sabendo que isso pode contribuir para uma perigosíssima escalada que os seus cidadãos não desejam, como se vê no Eurobarometer.
Evidentemente que as desejáveis negociações de paz não serão fáceis, mas terá que ser esse o caminho. “A paz é o caminho”, disse hoje a Secretária de Estado da Defesa do governo português numa cerimónia militar a que eu assisti,  Não sei se durante a visita de Zelensky a Lisboa se tratou apenas do acordo de cooperação militar bilateral, ou se no recato das conversas, se falou realmente da necessidade que todos temos de ter paz na Ucrânia.

terça-feira, 28 de maio de 2024

Uma brutal guerra contra os palestinianos

No domingo à noite a aviação israelita bombardeou o campo de Tel al-Sultan, na zona oeste de Rafah, causando um incêndio devastador, com o fogo a alastrar e a devorar as tendas de plástico dos refugiados. Segundo as autoridades palestinianas morreram 45 pessoas e o Ministério da Saúde de Gaza acusou esta agressão israelita, afirmando que "nunca antes na história se utilizou um tão grande número de instrumentos de morte em massa diante do mundo como está a acontecer agora em Gaza, onde a população está privada de água, alimentos, medicamentos, eletricidade e combustível, destruindo as infraestruturas e todas as instituições". O próprio Netanyahu, sobre quem recentemente o TPI emitiu um mandado de captura, qualificou este brutal ataque como “um erro trágico”.
Entretanto, alguns daqueles que têm sido cúmplices com Israel, decidiram falar. A União Europeia expressou a sua indignação, tendo aparentemente decidido rever as suas relações com Israel, enquanto Emmanuel Macron se mostrou “indignado”. É muito pouco, pois estas declarações não são sérias, como vamos verificando todos os dias.
Porém, a situação de hipocrisia é bem mais grave. Uma pesquisa efectuada na imprensa europeia mostra como é grande a indiferença perante o massacre a que estão a ser sujeitos os palestinianos. Apenas o jornal El País e, em menor grau, os jornais The Guardian, Le Monde, L’Humanité e o Corriere della Sera, noticiam este grave acontecimento nas suas primeiras páginas. Nos Estados Unidos, tanto o The Washington Post como o The Wall Street Journal se referem ao massacre israelita como um "tragic accident", parecendo desculpabilizar Netanyahu. Tão grave como estas distorções informativas, é o enorme número de agentes contratados em Portugal como comentadores televisivos, para justificar a brutalidade do governo de Netanyahu e tudo lhes permitir em nome da sua luta contra o Hamas.

domingo, 26 de maio de 2024

Portugueses em destaque lá por fora

No 77º Festival de Cinema de Cannes que ontem terminou, o cinema portuguès esteve em destaque pois o cineasta Miguel Gomes ganhou o Prémio de Melhor Realização com o filme “Grand Tour” e, outro cineasta de nome Daniel Soares, recebeu uma menção honrosa pela curta-metragem “Mau por um Momento”. A Palma de Ouro, o mais alto galardão do festival, foi atribuido ao filme “Anora” do americano Sean Baker. 
Não é costume que o cinema português seja premiado internacionalmente e, por isso, a comunicação social tratou de elogiar os premiados, coisa a que me associo. Acontece até que os jornais de referência como o Diário de Notícias, mas também o Público, publicaram uma fotografia a cinco colunas do premiado Miguel Gomes na primeira página das suas edições de hoje. Certamente são critérios editoriais respeitáveis, mas que são difíceis de atender.
Enquanto arte, negócio ou actividade comercial, o cinema é importante, mas também são importantes outras áreas em que os portugueses ontem brilharam e aqueles jornais não lhes deram semelhante destaque. Foi o caso de Bruno Fernandes e Diogo Dallot que venceram a Taça de Inglaterra a jogar futebol pelo Manchester United, mas também de Vitinha e de Nuno Mendes que ganharam a Taça de França a alinhar pelo Paris Saint-Germain. Também na canoagem houve ontem brilho português, pois Fernando Pimenta conquistou a medalha de ouro na prova de K1 500 metros da Taça do Mundo disputada em Poznan, na Polónia. Não sei se na Política Internacional, na Arte ou na Ciência se destacaram ontem outros cidadãos portugueses, mas o Miguel Soares (e os seus patrocinadores) que me desculpem, mas o destaque que os jornais de referência hoje lhe deram é desproporcionado.
Vá-se lá saber porquê…

sexta-feira, 24 de maio de 2024

O fenómeno Taylor Swift está em Lisboa

É hoje! Desde as primeiras horas da manhã que à porta do Estádio da Luz, em Lisboa, se formam filas de entusiastas para tomarem os seus lugares e assistirem ao concerto de Taylor Swift, que se estreia em Portugal para realizar dois espectáculos, hoje e amanhã. Diz a imprensa que os bilhetes para os espectáculos estão esgotados desde julho do ano passado, que a artista e a sua equipa ocuparão um piso inteiro do Hotel Ritz e que o trânsito será cortado em várias ruas nas imediações do estádio.
Há poucos dias eu apenas conhecia vagamente o nome da artista americana, mas perante a taylormania que tomou conta dos mass media portugueses fui saber quem era aquela jovem que tanto entusiasmo despertava em Portugal. Trata-se de Taylor Alison Swift, uma cantora, compositora e actriz de 34 anos de idade, que é natural da Pensilvânia. Neste seu concerto em Portugal o fenómeno Taylor Swift apresentará o Eras Tour que tem sido um enorme sucesso e, segundo dizem as crónicas, deixou de ser um simples espectáculo de entretenimento para se tornar numa alavanca para as economias locais, mas também se diz que pode vir a ser muito importante nas eleições presidenciais americanas de Novembro. Os milhares de pessoas presentes no Estádio da Luz, dizem ainda as crónicas, irão passar colectivamente por diferentes emoções, incluindo “a alegria, o extâse, a felicidade, a euforia, o júbilo, o prazer, o deslumbramento, o entusiasmo”.
Os bilhetes custaram entre 62,5 e 539 euros, o que confirma estarmos perante um grande negócio. Na sua edição de hoje, o jornal Público dedicou a sua primeira página a esta Taylor que parece que vai receber dois milhões de euros por cada um dos seus dois espectáculos. Que grande menina!

quarta-feira, 22 de maio de 2024

A diplomacia autónoma da Espanha

Nas últimas eleições gerais espanholas os eleitorers deram 12,4% dos votos ao partido Vox de Santiago Abascal. Este partido realizou em Madrid no passado fim-de-semana uma convenção, para a qual convidou os líderes de diversos partidos da extrema-direita, incluindo Marine Le Pen, Giorgia Meloni, Viktor Orbán e até o Ventura, mas também o presidente argentino Javier Gerardo Milei, que é o líder do partido La Libertad Avanza e que ganhou as eleições presidenciais argentinas em Dezembro de 2023. Alguns desses líderes deslumbraram-se e excederam-se nas suas declarações, violando as regras de boa conduta política que os visitantes estrangeiros devem ter no país anfitrião. O presidente Javier Milei foi longe demais nessa reunião ao referir-se ao governo de Pedro Sánchez como “socialismo maldito e cancerígeno” e ao acusar de corrupção a sua mulher. O governo espanhol não gostou e reagiu, exigindo respeito e um pedido de desculpas a Javier Milei, ao mesmo tempo que tratou de ameaçar a Argentina com uma resposta “à altura da dignidade de Espanha”. Daí que tenha começado por retirar a embaixadora de Espanha na República Argentina, conforme relata hoje o jornal catalão ara, o que é uma decisão grave no contexto das relações internacionais e da vida diplomática.
Porém, o governo espanhol tem outras frentes de intervenção diplomática e hoje anunciou que, no próximo dia 28, irá reconhecer a Palestina como um estado soberano, em simultâneo com a Noruega e a Irlanda.
Portanto, a Espanha destaca-se com uma diplomacia e uma política externa autónomas, sem subserviências aos novos ditadores, sejam argentinos ou israelitas, coisa que não fazem as autoridades que mandam ou que influenciam em Bruxelas.
Portanto, que viva a España e a sua diplomacia firme e autónoma!

segunda-feira, 20 de maio de 2024

As munições activas da World War II

Quase oitenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial (World War II), nas áreas francesas onde os aliados desembarcaram no dia 6 de Junho de 1994, mas também na costa atlântica, continuam a ser descobertas munições e minas que não detonaram ou que os alemães abandonaram quando retiraram do território francês. 
O jornal La Voix du Nord que se publica na cidade de Lille, anuncia hoje que há milhares de munições de diferentes calibres que estão enterradas e que poluem o litoral na área de Dunquerque, sobretudo nas praias da região de Hauts-de-France, no norte da França e perto da fronteira belga.
Nessa região realizou-se nos últimos dias uma operação de desminagem que obrigou a que 796 residentes de Fort-Nieulay, na cidade de Calais, fossem evacuados.
Porém, o problema também preocupa as comunidades da costa atlântica. Há poucas semanas, os sapadores da Segurança Civil destruiram milhares de munições antiaéreas que tinham sido descobertas num antigo bunker alemão em La Tremblade, perto do farol de Coubre que fica situado no estuário da Gironda, no sudoeste da França.
As operações de desminagem e de destruição ou desactivação de munições do tempo da Segunda Guerra Mundial são complexas e de elevado risco, mas parece que as autoridades francesas estão a intensificar a sua localização e neutralização.
Já não era sem tempo...