sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os independentistas catalães não cedem

Os partidos políticos independentistas da Catalunha chegaram a um acordo para realizar um referendo sobre a independência desta região do nordeste da Espanha no dia 9 de Novembro de 2014, segundo anunciou Artur Mas, o chefe do governo catalão, que também indicou as perguntas a dirigir ao eleitorado:
     - Querem que a Catalunha se transforme num Estado?
     - E em caso afirmativo, querem que seja independente?
A notícia foi destacada por toda a imprensa espanhola, que também destacou a solene declaração de Mariano Rajoy a rejeitar a autorização para a realização ou para qualquer negociação relativa a esse referendo, porque é contrário à unidade indissolúvel da nação espanhola e, portanto, é inconstitucional. O problema é muito sério pois reflecte uma legítima aspiração histórica da Catalunha, mas também porque esconde a grave situação económica catalã que está sob um programa de ajustamento financiado pelo governo central e, sobretudo, porque é um processo que pode conduzir à fragmentação da Espanha. Actualmente os partidos que apoiam a realização do referendo – CiU, ERC, ICV e CUP – dispõem de uma maioria de 88 deputados dos 135 que fazem parte do Parlamento catalão (65%), embora as últimas sondagens apontem para um apoio de apenas 47% do eleitorado à independência catalã.
O referendo não é vinculativo, mas está a fazer aumentar a tensão entre Madrid e Barcelona ou entre Mariano Rajoy e Artur Mas. Curiosamente, caso o referendo catalão se realize, acontecerá menos de dois meses depois do referendo sobre a independência da Escócia que acontecerá no dia 18 de Setembro de 2014, o que pode influenciar os resultados na Catalunha.

Os maus passos e os erros da troika

O Parlamento Europeu decidiu investigar a trapalhada que têm sido os passos e os erros da troika em Portugal, que têm aprofundado a nossa crise e que nos têm conduzido a um progressivo empobrecimento, a uma insustentável situação social e a uma humilhante dependência externa. Apesar do discurso mais ou menos optimista do poder, o quotidiano dos portugueses continua nebuloso, sem esperança e sem futuro.
Christine Lagarde, a directora-geral do FMI, admitiu que o erro em relação aos efeitos da austeridade obrigou Portugal (e a Grécia) a aplicar programas de ajustamento num espaço de tempo demasiado curto, referindo também que os elevados custos da electricidade prejudicam o crescimento económico em Portugal. Durão Barroso, o presidente da Comissão Europeia, tinha dito que a austeridade atingiu o limite, que não fizemos tudo bem e reconhecia que se tinha cedido demasiado a “conselheiros tecnocratas”. Mario Draghi, o presidente do BCE, veio exigir à banca que deixe de aplicar o dinheiro que recebe do BCE no rendoso negócio da dívida pública (que em Portugal ascende a 23,5 mil milhões de euros) para passar a emprestá-lo às empresas.
Estes dirigentes são os principais responsáveis pela troika e disseram o que já tinha sido dito muitas vezes, por muita gente e desde há muito tempo. Porém, teimosa e fanaticamente, o governo quis “ir mais longe que a troika” e avisou que não precisava “nem de mais tempo, nem de mais dinheiro”. O governo e o seu responsável máximo instalaram-se legitimamente no poder, mas não estavam preparados. São medíocres. Deslumbrados. Não conheciam o país. Mandaram emigrar os portugueses e estão a vender o nosso património. Viajam muito e pensam pouco. Tornaram-se os agentes da troika e dos grandes interesses. Habituaram-se a não reagir e a ceder a tudo, a deixar-se humilhar e a não ter dignidade, nem patriotismo, nem orgulho nacional.  Agora sofrem o vexame de ter que receber o Parlamento Europeu para investigar esta trapalhada. É demasiada mentira e muita incompetência. Mário Soares tem razão.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Os americanos repensam o problema sírio

No passado mês de Setembro o governo sírio aceitou entregar o arsenal de armas químicas do seu exército a inspectores internacionais, de acordo com um plano apresentado pela Rússia, travando assim uma mais que provável intervenção americana contra alvos sírios, que o Presidente Obama tinha declarado ser “limitada, proporcional e consequente”. A partir de então, a Síria saiu da agenda dos media internacionais, embora a guerra tivesse continuado com muita dureza, assim como a ajuda militar aos opositores a Bashar El Assad que era fornecida por americanos e ingleses, mas também pela Arábia Saudita e pelo Qatar.
Passaram menos de três meses e, segundo revela hoje o diário espanhol El País, os Estados Unidos e o Reino Unido decidiram retirar a ajuda militar aos rebeldes sírios, designadamente ao Exército Livre Sírio (ELS), porque uma milícia do Estado Islâmico, uma nova amálgama de milícias opositoras do regime, assaltou a sede do Conselho Militar Líbio e vários dos seus depósitos de armas, capturando armas anti-aéreas e anti-tanque. Essa acção levou os Estados Unidos a suspender o apoio aos rebeldes do ELS com receio que essa ajuda vá parar às mãos dos grupos extremistas sunitas, aos jihadistas estrangeiros ou à Al Qaeda, isto é, os americanos parece que aprenderam, que  já repensam o problema sírio e que começam a perceber que a alternativa à ditadura de Bashar El Assad é uma ditadura fundamentalista.  Michael Hayden, o ex-director da CIA veio agora dizer que uma vitória de Bashar El Assad "é o melhor de três muito, muito horríveis cenários" e o único que pode evitar a fragmentação do país.
Entretanto, parece estar em preparação uma conferência de paz a iniciar provavelmente em Janeiro e bom seria que as nações mais poderosas ou mais influentes trabalhassem para a paz na Síria, tendo sempre em mente o que aconteceu ao Iraque e à Síria depois do derrube de Sadam Hussein e de Muamar Kadafi.   

A França também tem uma crise social

Por razões históricas e culturais que, ao longo do processo histórico nem sempre foram as melhores, há uma relação muito intensa entre Portugal e a França. Muitos milhares de portugueses e de luso-descendentes vivem em França e, por isso, tudo o que por lá se passa nos interessa.
Hoje, os jornais franceses destacam a “irrespirable” poluição de Paris e perguntam “pourquoi on respire si mal”, tratam do “chaos centrafricain” e dos dois soldados franceses que lá morreram e anunciam a ambição bretã de participar com uma equipa na America’s Cup de 2017. Porém, os mais surpreendentes destaques da imprensa francesa nas suas edições de hoje dizem respeito à situação social por que passa o país, que é um dos pilares da União Europeia.
O jornal Midi Libre que se publica em Montpellier analisa a situação social francesa, investiga a situação da pobreza e procura compreender essa nova realidade que é “vivre avec 600 euros”, enquanto o diário Le Figaro destaca em primeira página “ces jeunes qui ne voient plus leur avenir en France”. De facto, há muitos milhares de jovens franceses que estão a deixar o país na procura de alternativas para a falta de dinamismo da sua economia e para a não criação de novos empregos, que se verifica no “hexágono”. Esses jovens, afinal tão desesperados como os jovens portugueses, espanhóis, gregos ou italianos, dirigem-se para a Suiça, para a China ou para o Qatar, mas também para os Estados Unidos, para a Austrália e para o Canadá. A Europa está mesmo mal e não se vê quem cuide dela.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Acudam aos jovens, antes que seja tarde

O Jornal de Notícias é um dos jornais que hoje destaca um estudo sobre emigração que acaba de ser divulgado e que revela que 57% dos jovens portugueses, entre os 15 e os 24 anos de idade, querem emigrar para conseguir um emprego e melhores condições de vida, ou já emigraram. O estudo foi encomendado pela seguradora Zurich e avaliou a situação em 12 países de diversos continentes, incluindo os vizinhos da Espanha, da Itália, da Irlanda e de Marrocos, concluindo que Portugal é país da Europa com maior desejo de emigração (57%), igualado pelos marroquinos e apenas superado pelos russos com 64%, embora estes tenham outras motivações. Relativamente às outras faixas etárias, o valor da vontade de emigrar dos portugueses também é muito elevado. Na faixa etária entre os 25 e os 34 anos, os que ponderam emigrar ou que já o fizeram representa 50% e, na faixa etária entre os 35 e os 44 anos, essa vontade ainda se aproxima dos 50%. Este fenómeno era evidente nas nossas famílias e no nosso círculo de amigos, traduzindo-se, por exemplo, no facto de em 2012 terem emigrado mais de 121 mil portugueses, o mais elevado número desde 1966.
A situação está a ter graves consequências económicas e demográficas, porque está a conduzir ou a acelerar o processo de empobrecimento e de envelhecimento da população portuguesa. A catástrofe social é uma ameaça efectiva e a emigração jovem tende a tornar-se no nosso “vesúvio a soterrar pompeia”.
Perante este desafio, muito complexo e a exigir urgentes medidas para o atenuar, assistimos à irresponsável indiferença dos nossos governantes, que sorriem sem vergonha apenas porque o produto cresceu 0,1%! Eles até podem reduzir a dívida, diminuir o défice, fazer “um milagre económico”, restaurar a nossa credibilidade externa, etc. & tal, mas com esta indiferença estão realmente a acabar com o país.

 

Há indignação e protesto na Ucrânia

A Ucrânia está a passar por momentos de grande tensão e o protesto contra o governo e contra o Presidente Viktor Yanukovytch tem mobilizado algumas centenas de milhares de pessoas nas ruas de Kiev, que reclamam pela aproximação à União Europeia e pelo seu afastamento da Rússia. No domingo, um grupo de manifestantes com o rosto coberto e que empunhavam bandeiras do partido ultranacionalista, destruiu a estátua de Lenine, o líder da revolução russa de 1917. Este simbólico acto anti-russo, a lembrar o derrube da estátua de Sadam Hussein, revela a grande instabilidade por que está a passar o país.
A Ucrânia é um país da Europa Oriental com quase 50 milhões de habitantes que tem fronteiras com a Rússia e com a União Europeia (Roménia, Hungria, Eslováquia e Polónia), encontra-se na fronteira entre a chamada “civilização ocidental” e a “civilização russa”, pelo que é natural que haja forças e interesses reclamando maior ligação a um dos dois referidos blocos.  No entanto, não se trata apenas de questões civilizacionais, culturais, históricas e espirituais, pois o problema também envolve dimensões geoestratégicas de natureza económica, logística e militar. É, portanto, um assunto interno da Ucrânia, mas é um assunto muito importante para a Europa. Curiosamente, enquanto vários países da União Europeia estão a sofrer os efeitos da crise e da austeridade, com manifestações, bloqueios e protestos violentos que põem em causa os seus fundamentos e a moeda única, na longínqua Ucrânia é derrubada uma estátua de Lenine no centro de Kiev e reclama-se a “europeização” do país e a adopção dos valores europeus. O que se está a passar em Kiev não é indiferente para a União Europeia, nem sequer para os portugueses que se habituaram a conviver com uma numerosa comunidade ucraniana, que tão bem se adaptou à sua cultura e ao seu modo de vida.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

United Colors of Football

Aproxima-se o Campeonato do Mundo de Futebol – o Brasil 2014 – e o entusiasmo já está instalado na comunicação social dos 32 países participantes, sobretudo depois do sorteio das equipas que vão integrar cada um dos 8 grupos. O sorteio teve transmissão televisiva em directo para todo o mundo e os resultados desse sorteio deram origem a muitos comentários relativos às hipóteses de cada equipa passar ou não passar a 1ª fase. Uns mais eufóricos que outros, mas todos muito confiantes. Sabemos como o futebol se tornou uma das maiores indústrias do nosso tempo e como os jogadores mais talentosos são contratados pelas equipas mais ricas que, cada vez mais, são uma miscelânea de nacionalidades. Assim, há equipas inglesas com poucos ou nenhuns jogadores ingleses, há equipas portuguesas com poucos jogadores portugueses e o mesmo acontece na generalidade dos países europeus.
Hoje o diário desportivo as, que se publica em Madrid, publica uma fotografia de seis futebolistas do Real Madrid que, certamente, estarão no Brasil em Junho de 2014 a representar a Argentina, França, Espanha, Portugal, Brasil e Croácia. O que é curioso é que, mesmo em Portugal, a equipa do Futebol Clube do Porto poderia juntar numa mesma fotografia, não seis mas nove jogadores que provavelmente vão estar no Brasil a representar Portugal, Brasil, França, Argentina, Rússia, México, Bélgica, Colômbia e Argélia. Esses atletas trabalham para o mesmo clube que lhes paga os seus avultados salários, passam um ano inteiro conjuntamente em treinos, estágios, viagens, concentrações e jogos, habituam-se a falar a mesma língua e, depois, por uma só vez, encontram-se frente a frente durante 90 minutos a jogar por diferentes equipas.
Esta verdadeira salada futebolística obriga-nos a pensar o Brasil 2014 como uma grande festa desportiva cheia de bons actores e não como uma  guerra entre nações rivais.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela e a hipocrisia anibalesca

O desaparecimento de Nelson Mandela obriga-nos a uma reflexão sobre a vida do homem e do legado político de tolerância e de apaziguamento que deixou ao seu país, ao continente africano e ao mundo, porque ele foi um exemplo e hoje estamos carentes de exemplos como o que ele nos deu. É isso o que está  a ser feito por todo o mundo e, nesse aspecto, não somos excepção e até tivemos o privilégio de ter ouvido o depoimento de alguns portugueses que o conheceram e com ele conviveram. Nessa reflexão, tem sido recordada a 77ª sessão plenária da Assembleia Geral das Nações Unidas realizada no dia 20 de Novembro de 1987 em foi aprovada a Resolução A/RES/42/23 (G) sobre a acção internacional a desenvolver para a eliminação do apartheid, que o condena expressamente e que, no seu ponto 4, insta o governo sul-africano a “release immediately and unconditionally Nelson Mandela and all other political prisioners, detainers and restricters”. Soube-se agora pela imprensa que essa Resolução das Nações Unidas foi aprovada com 129 votos a favor e 23 abstenções, tendo havido apenas três países que votaram contra: os Estados Unidos de Ronald Reagan, o Reino Unido de Margareth Tatcher e o Portugal de Cavaco Silva. Estávamos em Novembro de 1987 e o mundo pressionava a África do Sul para libertar Nelson Mandela, o que só aconteceu cerca de 27 meses depois, em Fevereiro de 1990, perante a indiferença ou mesmo a não aprovação do governo português.
Agora, o mesmo homem que deu instruções para se votar contra a libertação de Nelson Mandela e que nada fez para que fosse libertado, escreve que ele “deixa um extraordinário legado de universalidade que perdurará por gerações” e que “o  exemplo de coragem política, a sua estatura moral e a confiança que depositava na capacidade de reconciliação constituem verdadeiras lições de humanidade”. Como é possível tanta hipocrisia política e esta enorme cambalhota do Aníbal?

R. I. P. Nelson Mandela

A notícia era esperada desde há algumas semanas mas, apesar disso, consternou o mundo como se pode verificar nas muitas dezenas de jornais que em todo o mundo homenagearam Nelson Mandela com a publicação da fotografia em primeira página do homem que foi o primeiro presidente negro da República da África do Sul e que morreu ontem na sua casa de Joanesburgo com 95 anos de idade.
Nascido em 1918, formou-se em Direito e tornou-se um activista e lutador contra o regime do apartheid que foi oficializado em 1948 e que negava à maioria negra, aos mestiços e aos asiáticos todos os direitos políticos, económicos e sociais. Em 1961 foi consequente com os seus ideais e passou à clandestinidade para se tornar o primeiro comandante do MK, a ala militar do ANC. Capturado, veio a ser condenado a prisão perpétua em 1964 por sabotagem e conspiração. Passou 18 anos na prisão de alta segurança da ilha de Robben Island onde se tornou o prisioneiro número 46 664, esteve depois na prisão de Pollsmoor e, por fim, na cadeia de Victor Verste, perto da Cidade do Cabo. Cumpriu 27 anos de prisão e no dia 11 de Fevereiro de 1990 foi  libertado, depois de receber garantias de que todos os outros prisioneiros políticos seriam libertados como ele. Em 1993 ganhou o prémio Nobel da Paz juntamente com o Presidente Frederick de Klerk, em reconhecimento dos esforços comuns para instaurar uma democracia na República da África do Sul. Em 1994 foi eleito para a presidência do país, tendo cumprido o seu mandato até 1999. Depois de terminado o seu mandato de cinco anos, retirou-se da política e passou a dedicar-se, através da fundação com o seu nome, a uma nova causa – o combate e a prevenção da sida. O presidente Jacob Zuma anunciou a morte de Nelson Mandela e dirigiu-se aos sul-africanos referindo que “Mandela uniu-nos e é unidos que nos devemos despedir dele”. Só quem conheceu o apartheid pode realmente compreender o que foi a luta de Mandela e, depois, a sua magnanimidade para com os seus adversários. O seu nome entra directamente na restrita galeria das mais importantes personalidades do século XX, onde estavam Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Winston Churchill, Mikail Gorbachev e João Paulo II.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um português no governo do Luxemburgo

O novo governo do Luxemburgo, que ontem tomou posse e é presidido por Xavier Bettel, resulta de uma coligação entre liberais, socialistas e verdes, tendo posto fim a duas décadas de Jean-Claude Juncker como chefe do governo do Grão-ducado. Hoje, o diário luxemburguês Le Quotidien noticia o início da Era Bettel, em contraponto à Era Juncker.
O governo inclui como ministro da Justiça o cidadão Felix Braz, um militante dos Verdes com 47 anos de idade, sendo a primeira vez que um luso-descendente desempenha funções governativas no país que tem cerca de 13% de portugueses na sua população residente, pelo que a presença no governo de um ministro de origem portuguesa é um facto muito normal e, em certa medida, também um “prémio” para uma comunidade muito respeitada. Félix Braz é filho de portugueses naturais de Castro Marim e nasceu em 1966 no Luxemburgo. Em 1994 foi eleito pela primeira vez para a autarquia de Esch-sur-Alzette, tendo assumido o cargo de vereador em 1999. Em 2004, tornou-se o primeiro deputado luso-descendente no Luxemburgo. Depois da cerimónia de tomada de posse realizada no Palácio Grão-Ducal onde jurou “fidelidade ao Grão-Duque, obediência à Constituição e às leis do Estado” fez, significativamente, as suas primeiras declarações à comunicação social em português.
Entretanto, a primeira tarefa que lhe foi cometida enquanto Ministro da Justiça é a responsabilidade pela elaboração de um código de conduta ou código deontológico, que os membros do governo deverão seguir. Talvez o Ministro Félix Braz possa mandar uma cópia dessas regras de conduta para os nossos governantes.

A dieta mediterrânica como património

A dieta mediterrânica foi esta semana classificada pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, com base numa candidatura apresentada pela Câmara Municipal de Tavira.  
Desde Novembro de 2010 que a dieta mediterrânica já era considerada Património da Humanidade na Espanha, na Grécia, na Itália e em Marrocos, mas estes países juntaram-se à candidatura transnacional coordenada por Portugal e apoiada por Chipre e pela Croácia para, de forma mais abrangente, renovarem a decisão que foi agora aprovada durante a 8ª sessão do Comité Intergovernamental da UNESCO realizada no Azerbaijão.
A dieta mediterrânica não é uma dieta alimentar específica para perder ou ganhar peso, mas antes um conjunto de hábitos alimentares saudáveis. É um estilo de vida que vai muito para além da confecção dos alimentos, pois tem a ver com práticas produtivas na agricultura e nas pescas, com formas de preparação e consumo dos alimentos, com festividades, tradições orais e expressões artísticas. A dieta mediterrânica valoriza o pão, o vinho, o azeite e todos os produtos agrícolas da época, tendo por base um estilo de vida comum aos povos que habitavam a bacia do Mediterrâneo desde há milénios. Para além daquele tronco comum de produtos e comportamentos, cada país tem as suas especificidades e, no caso português, destacam-se as sopas, as açordas, as caldeiradas, as comidas frias de Verão e, até, as grandes sardinhadas que as Festas dos Santos Populares não dispensam.
No domínio do Património Imaterial da Humanidade a dieta mediterrânica junta-se ao fado, constituindo as duas inscrições portuguesas nesta categoria de bens classificados pela UNESCO.
 

Eles comem tudo, eles comem tudo...

Os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) são o maior estaleiro de construção e reparação naval português com actividade desde 1944, ocupam uma área de cerca de 400 mil metros quadrados (quase cem campos de futebol) e, no seu activo, registam a construção de mais de duas centenas de navios de vários tipos. É uma empresa de primeira linha na indústria nacional, mas também é uma empresa emblemática num país tão intimamente ligado ao mar.
Nos últimos anos os ENVC perderam as suas características de excelência como resultado de uma gestão que não foi capaz de se adaptar aos tempos e assegurar novas encomendas e novas escalas de competitividade, nem cumprir contratos, nem garantir prazos, nem controlar custos, enquanto as dificuldades financeiras foram sendo ultrapassadas com a generosidade do Estado. O caso do navio “Atlântida” – encomendado e recusado pela “Atlânticoline” ou pelo Governo Regional dos Açores – é o símbolo mais evidente da grave crise por que passam os ENVC.
Agora, sem que os contribuintes conheçam os contornos do problema nem do negócio, o governo decidiu extinguir os ENVC e adjudicar a subconcessão dos seus terrenos e equipamentos ao Grupo Martifer, que não tem qualquer historial no campo da construção naval. Aparentemente, a solução encontrada resolve um problema que se arrastava há muitos anos e tem o apoio da Comissão Europeia que, uma vez mais, se atreve a contribuir para a destruição do nosso tecido produtivo. Porém, esta solução aparenta ser uma negociata a favor de interesses privados que conduz à destruição da nossa capacidade de construção naval e a uma tragédia social e económica para a região vianense. É tudo demasiado mau e o processo aparenta não ter sido transparente, pelo que o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) já está a acompanhar e a analisar o processo. Esta gente faz o que lhe apetece como se fosse dona do país. A-guiar desta maneira, que mais nos poderá acontecer?

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Austrália escolhe estaleiros espanhóis

O casco do HMAS Adelaide encontra-se na ria de Vigo, pronto para ser embarcado no Blue Marlin - um navio semi-submersível que carrega outros navios - para seguir para a Austrália, o que está a despertar a curiosidade e o interesse da imprensa galega. Trata-se de um dos dois navios de assalto anfíbio LHD (Landing Helicopter Dock) da classe “Camberra”, destinados à Marinha australiana, cujo casco e convés de voo foram construidos nos estaleiros Navantia no Ferrol e que  são concluídos  nos estaleiros australianos da BAE Systems Australia, em Williamstown. Os navios têm 27,5 mil toneladas de deslocamento, 230,82 metros de comprimento e podem transportar 18 helicópteros, 110 viaturas e mais de mil homens.
A ideia da encomenda destes navios nasceu em 2000 a partir da experiência adquirida na operação de manutenção da paz liderada pela International Force for East Timor. Assim, em 2004 foram endereçados convites às empresas estatais francesa e espanhola - Direction des Constructions Navales (DCN) e Navantia - para apresentarem propostas. Em 2007 foi escolhida a proposta espanhola para construir parcialmente os navios, ficando a BAE Systems Australia com o encargo de construir as superestruturas e a instalação de equipamentos. A construção do primeiro navio - o HMAS Camberra - começou em finais de 2008 e em 2011 seguiu para a Austrália. No início de 2011 começou a construção do HMAS Adelaide que seguirá para a Austrália nos próximos dias.
Em 2007 era anunciado que o contrato ascendia a 1411,6 milhões de euros, dos quais 915 milhões seriam facturados pela Navantia, que era a responsável pelo desenho e pela maior parte da construção e calculava-se, também, que 80% do programa de construção das LHD australianas se executaria em Espanha, o que representaria 9 347 700 horas de trabalho para a Navantia.
A Navantia é uma empresa pública espanhola pertencente à Sociedade Estatal de Participações Industriais (SEPI), que controla 100% do seu capital.  Por cá, extinguem-se os Estaleiros Navais de Viana do Castelo.
 

domingo, 1 de dezembro de 2013

O cinema timorense distinguido na Índia

Aos poucos, a República de Timor-Leste afirma-se internacionalmente em novos domínios, como se viu com o filme A Guerra da Beatriz, que acaba de vencer o Golden Peacock ou Pavão de Ouro na categoria de melhor filme da 44ª edição do International Film Festival of India, que ontem se concluiu em Goa. O filme é a primeira longa metragem timorense, tendo sido concebido, produzido, realizado e interpretado por timorenses. É falado em tétum e é legendado em inglês, tendo sido estreado na cidade de Dili no dia 17 de Setembro e apresentado em Outubro no Adelaide Film Festival 2013.
O filme conta a história de Timor-Leste durante o período da ocupação indonésia entre 1975 e 1999, através do amor de uma mulher pelo marido que era membro da Resistência, tendo sido filmado sobretudo na aldeia de Kraras, perto de Viqueque, o local onde há 30 anos ocorreu um massacre perpetrado por soldados indonésios. O filme foi realizado pela timorense Betty Reis e pelo italiano Luigi Acquisto, um dos poucos estrangeiros que esteve envolvido no filme que foi apoiado pela Dili Film Works e pela FairTrade Films Australia. A Guerra da Beatriz, foi escrito pela timorense Irim Tolentino, que também faz o papel de Beatriz, enquanto o elenco é composto por vários actores timorenses, incluindo José da Costa o mais conhecido actor timorense. Depois do sucesso que o filme teve no International Film Festival of India, é com muita expectativa que aguardamos a apresentação em Portugal d’A Guerra da Beatriz.

sábado, 30 de novembro de 2013

Como são famosos os burros de Paradela

Um dos objectivos da União Europeia é a melhoria das condições de vida e de trabalho dos seus cidadãos e a redução das desigualdades sociais e económicas entre as regiões, daí resultando uma especial atenção ao desenvolvimento da agricultura e à protecção e preservação do mundo rural. A Política Agrícola Comum (PAC) é o principal pilar para a concretização desses objectivos, actuando através de um sistema de subsídios à agricultura destinados a assegurar o abastecimento regular de bens alimentares e a garantia aos agricultores de um rendimento em conformidade com os seus desempenhos. A PAC é responsável por cerca de 43% de um orçamento comunitário de muitos milhões de euros e durante muitos anos esses subsídios têm corrido generosamente, sobretudo para os bolsos dos agricultores franceses (22%), espanhóis (15%) e alemães (14%), cabendo aos agricultores portugueses uma pequena fatia de cerca de 2%. Porém, com a chegada da crise e da austeridade acordou-se recentemente que até 2020 as despesas da PAC têm que passar de 43% para 38% do orçamento global.
Acontece que, no quadro da PAC e da preservação do mundo rural, desde 2003 que o burro mirandês está classificado como raça em extinção, o que passou a dar direito a um subsídio de 230 dólares anuais por cada animal. Por isso, o New York Times publicou ontem na sua primeira página uma fotografia de um burro mirandês e escreveu que “em Portugal as bestas de carga vivem de subsídios”. Foi esse o pormenor que interessou o jornal, pois desta vez não tratou do clima, da gastronomia ou do futebol lusitanos, mas foi até às freguesias de Paradela e Ifanes, no concelho de Miranda do Douro, para perceber como são tratadas as zonas rurais, não só no nordeste transmontano, mas também no sul da Europa. Aí o jornalista Raphael Minder verificou que a desertificação demográfica por que passa aquela região é um processo semelhante ao da extinção do burro mirandês, outrora um indispensável instrumento de trabalho,  mas que actualmente corre sérios riscos, mesmo com o subsídio comunitário. Como é curioso o facto do burro mirandês ser tão famoso e ter tido tanto destaque (com fotografia) num dos maiores jornais do mundo.