quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A triste trapalhada dos Mirós

O Estado Português herdou um activo constituído por 85 quadros de Joan Miró que tinham pertencido ao BPN e, lamentavelmente, decidiu vendê-los. Os quadros encontravam-se à guarda da Parvalorem,SA gerida por um tal Nogueira Leite, parecendo ser a única coisa boa que herdamos do BPN, que tanto tem custado aos contribuintes portugueses e que continua a ser um dos maiores escândalos da nossa democracia pela impunidade com que têm sido tratados os responsáveis por essa fraude. A existência desta colecção surrealista em Portugal podia contribuir para uma afirmação de modernidade e para aumentar e diversificar a nossa oferta cultural, tornando-se numa atracção museológica e num polo de atracção para o turismo.  Nessas condições não deveria ter sido decidida a sua venda, conforme propuseram os especialistas e a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), pelo menos sem que houvesse uma prévia discussão pública sobre o assunto. Porém, o Estado e o Ministério das Finanças e a Parvalorem,SA e o Secretário de Estado da Cultura embrulharam-se e, obcecados no seu fanatismo financeiro, decidiram a venda da colecção demonstrando uma total ausência de sensibilidade pela problemática cultural, tendo contratado a venda com a famosa leiloeira Christie’s.
No entanto, não foram cumpridos os procedimentos legais a que a Lei de Bases do Património Cultural obriga e a colecção viajou ilegalmente para Londres sem que a DGPC tivesse autorizado a sua saída. Alguns políticos e muitos cidadãos reagiram e interpuseram uma providência cautelar para suspender a venda da colecção. O tribunal não se opôs à venda dos quadros, mas declarou ilegal a sua saída de Portugal, uma vez que não teve a prévia autorização da DGPC. Porém, muito prudentemente, a leiloeira Christie’s decidiu suspender o leilão, devido às incertezas legais que eventualmente poderiam prejudicar os compradores. Essas incertezas legais não resultaram da opção de vender ou não vender, mas tão só pela saída ilegal das obras para o estrangeiro que as entidades responsáveis não acautelaram. Eis aqui o resultado da teimosia dos fanáticos que nos governam e que se tornou em mais um enxovalho internacional para todos nós.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Uma república demasiado gastadora

A Casa Real Espanhola apresentou ontem no Palacio de La Zarzuela o seu orçamento para o ano de 2014, isto é, divulgou a forma como vai utilizar os 7.775.040 euros que lhe foram atribuídos e que correspondem a um decréscimo de 2% em relação ao ano de 2013. Esta apresentação pública perante os jornalistas resulta da vontade do próprio Rei que, desde 2011 e por virtude das políticas de austeridade, decidiu que o orçamento da Casa Real fosse transparente e aceitou que, desde então, todos os anos fosse diminuido. A novidade deste ano foi a decisão de atribuir um salário fixo e uma verba para representação à Rainha Sofia (131.739 euros) e à Princesa das Astúrias (102.464 euros), de modo a assegurarem o cumprimento das suas apertadas agendas institucionais, enquanto as condições retribuitivas do Rei João Carlos (292.752 euros) e do Príncipe Filipe (146.376 euros) se mantém, embora todos estes valores estejam sujeitos a uma retenção na fonte que vai dos 51% aos 47%. Na detalhada notícia publicada pelo diário La Razón conclui-se que a Monarquia custa 16,6 cêntimos por ano a cada espanhol.
Inversamente, Portugal comporta-se como uma república gastadora. A divulgação dos gastos da Presidência da República é feita pela respectiva Secretaria-Geral, mas é mais opaco e sem a transparência das contas apresentadas aos jornalistas espanhóis. Assim, em 2013 o orçamento da Presidência da República foi de 15.130.000 euros, o que significa que essa entidade custa a cada português cerca de 1,5 euros, ou seja, quase dez vezes mais do que a Casa Real espanhola. Embora os dois orçamentos não possam ser comparados com total exactidão por incluirem diferentes despesas, é evidente que Portugal gasta muito mais do que a Espanha na sua representação institucional, entre outras razões porque se fazem mais viagens presidenciais com alargadas e sumptuosas comitivas, mas também porque tem ao seu dispor uma verdadeira legião de dezenas consultores e assessores. Realmente, o Palácio de Belém não quer ser uma referência de contenção despesista nem procura inspiração no exemplo de parcimónia de Manuel de Arriaga, o seu primeiro morador.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O multiculturalismo e a coesão social

A edição de hoje do The Daily Telegraph destaca que "em cada nove escolas primárias e secundárias inglesas há uma em que o inglês já não é a primeira língua", mas acrescenta mais: um milhão de alunos falam inglês como segunda língua e um em cada cinco alunos não falam inglês em casa. Essa realidade está a preocupar as autoridades inglesas, mas trata-se de um fenómeno que também está a acontecer noutros países europeus e que merece reflexão.
A notícia partiu de um inquérito realizado no Reino Unido como parte do recenseamento escolar anual, ao qual responderam 15.288 escolas primárias e secundárias com informações sobre a língua materna ou a primeira língua dos seus alunos. Verificou-se que em 1.755 escolas frequentadas por um total de 835.174 estudantes havia uma minoria de falantes de inglês e apurou-se que as línguas mais faladas pelos alunos eram urdu, bengali, punjabi, somali, polaco, hindi, gujarati, tamil, português, árabe e espanhol. A pequena cidade de Reading, situada no condado de Berkshire nos arredores de Londres, é chamada a “babel dos dialectos” pois verifica-se que as crianças da cidade falam mais de 150 línguas e dialectos nas suas casas.
O problema é conhecido na generalidade dos países europeus e resulta da atracção que a União Europeia continua a exercer sobre muitas populações, não só da sua periferia, como também do norte de África, da antiga Índia Inglesa e de outras regiões. Há que lhe dar muita atenção. Para os países receptores é necessário um esforço para proteger a diversidade cultural e assegurar a coesão social, o que implica o reconhecimento do multiculturalismo e, reciprocamente, é necessário que os emigrantes também se obriguem a um esforço de integração e que respeitem as sociedades de acolhimento e as culturas locais. Esse é um dos grandes desafios do nosso tempo a merecer debate e reflexão, pelo que a notícia do The Daily Telegraph é mais um alerta.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Os temporais na costa norte de Espanha

Nos últimos dias o golfo da Biscaia esteve sob violento temporal que assolou a costa norte da Península Ibérica e afectou a orla marítima das comunidades autónomas espanholas do País Basco, Cantábria, Astúrias e Galiza. Os jornais das principais cidades desta região, sobretudo os diários de San Sebastián, Santander, Gijón e Oviedo, destacaram este temporal que teve uma invulgar violência e ilustraram as suas primeiras páginas com imagens impressionantes da fúria do mar. Assim aconteceu, por exemplo com o El Diario Vasco que se publica em San Sebastián, que apresenta uma imagem invulgar e impressionante das ondas a rebentar sobre a ponte de Kursaal, no centro da cidade.
Segundo a informação veiculada por esses jornais a agitação marítima foi desproporcionada, tendo sido registadas ondas com mais de 11 metros e ventos com velocidades superiores a 100 km por hora, de que resultaram danos materiais em algumas infraestruturas costeiras, o corte de estradas e a inactividade da pesca local. Houve pelo menos uma vítima mortal dos temporais no pequeno porto de pesca de Ondarroa, onde o temporal terá sido mais violento.
Como se costuma dizer, o mar é belo mas não se pode brincar com ele. 

A Ucrânia está em pé de guerra

Depois de cerca de dois meses de contestação e de um levantamento com grande apoio  popular nas ruas de Kiev e de outras cidades ucranianas com barricadas e ocupação de edifícios, a situação teve ontem uma evolução significativa, quando o governo se demitiu e o Parlamento revogou as leis que permitiram a repressão do protesto popular. Poderá, assim, abrir-se uma porta para o fim da crise ucraniana, embora a oposição continue a exigir a amnistia para os detidos nos protestos, a revisão da Constituição e a marcação de eleições presidenciais antecipadas, pois continuam sem confiar no Presidente Victor Yanukovich. O que está em causa parece ser uma clivagem profunda da sociedade ucraniana, dividida entre uma ligação preferencial à Rússia e a adesão à União Europeia, mas também muitas divergências quanto ao futuro do leste da Europa. A crise começou quando o presidente ucraniano Yanukovich decidiu não assinar um acordo de associação com a União Europeia, optando por uma união alfandegária proposta pela Rússia, o que provocou manifestações pró-europeias que alastraram e se têm agravado. Ontem a situação acalmou, mas a estabilidade da Ucrânia e da Europa continuam ameaçadas. Por isso, ontem o presidente russo Vladimir Putin esteve em Bruxelas e a comissária europeia Catherine Ashton esteve em Kiev. Tanto a União Européia como a Rússia têm interesse em que a situação se resolva com rapidez, antes que atinja proporções mais graves. Hoje, no Parlamento, o primeiro presidente do país desde a independência conquistada em 1991, Leonid Kravchuk, afirmou que a Ucrânia está “à beira de uma guerra civil” em consequência do confronto entre as autoridades e os opositores, generalizado a todo o país. Era a única coisa que ainda não tinha sido dita com tanta clareza.
A Ucrânia é um grande país com 600 mil km2 de superfície e mais de 45 milhões de habitantes. Geograficamente é um país distante, mas desde que mais de 40 mil ucranianos trabalharam ou trabalham em Portugal, todos ficamos mais inquietos com o que se está a passar e o que pode vir a acontecer naquele país, com cujas gentes nos habituamos a conviver.

domingo, 26 de janeiro de 2014

O cavaquinho até já tem um museu

Há menos de 6 meses e por iniciativa do músico Júlio Pereira, foi constituída em Lisboa uma associação denominada Associação Cultural e Museu Cavaquinho com o objectivo de documentar, preservar e promover a história e a prática do cavaquinho, ao mesmo tempo que em declarações públicas, o músico classificou o ano de 2014 como “o ano do cavaquinho”.
Não imaginei que houvesse algum interesse cultural na promoção da história do cavaquinho, nem que se justificasse a escolha do ano de 2014 como o ano do cavaquinho porque, por ignorância minha, julgava-o um instrumento menor e sem qualquer relevância cultural, para além pensar que tinha origem algarvia, quando afinal é de origem minhota.
Porém, eu estava enganado e o cavaquinho da notícia não é o que eu pensava. Fiz confusão. O cavaquinho é um instrumento musical tetracórdio – também chamado braguinha, braga, machete, machetinho ou machete-de-braga - que foi adoptado pela cultura popular portuguesa, mas que foi levado para várias regiões do mundo, sendo actualmente conhecidos mais de uma centena de modelos diferentes, por exemplo em Cabo Verde, no Brasil, nas ilhas Hawai e até na Indonésia.
O músico Júlio Pereira tem sido o grande divulgador do cavaquinho em Portugal, tendo editado em 1981 o seu primeiro álbum inteiramente dedicado ao instrumento e acaba de editar um livro/CD sobre o mesmo cavaquinho. A sua iniciativa de criar uma associação internacional e um museu é, portanto, muito meritória.
 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sacos azuis em tempos de austeridade

A edição de hoje do Correio da Manhã destaca que o “Governo tem saco azul de 523 milhões de euros”, com base no facto do Orçamento do Estado para 2014 incluir uma rubrica designada por “dotação provisional” que inclui essa verba sem estar associada a qualquer tipo de despesa. De acordo com a Lei de Enquadramento Orçamental, o orçamento do Ministério das Finanças inclui uma “dotação provisional” destinada a fazer face a despesas não previsíveis e inadiáveis. Porém, em 2013 essa rubrica foi dotada apenas com 20 milhões de euros e agora aumentou 26 vezes, tendo sido aprovada pelos deputados da maioria. Este escândalo  foi revelado em primeira mão na televisão pela antiga ministra Ferreira Leite, que então lhe chamou um enorme Fundo de Maneio. Ora isto é inexplicável e acontece quando se aproximam eleições, quando se intensificou o ataque aos pensionistas e aos funcionários públicos e quando é cada vez é mais evidente que o ataque às pensões e aos salários se insere num modelo ideológico que visa retirar rendimentos aos portugueses e empobrecer o país.
A troika e o governo bem poderiam cortar nas gorduras do Estado – que o amigo Catroga bem pode identificar – nas PPP, na EDP, na banca, nos estudos e pareceres dos advogados-tubarões, nos lucros das grandes empresas monopolistas, na multidão de assessores e consultores, nas viagens e nas comitivas e em tantas outras coisas mais. A austeridade só será compreendida se for necessária para reduzir a dívida ou o défice, mas deve atravessar toda a sociedade e não ser dirigida apenas aos mais fracos. Assim, tal como está a acontecer na Europa, também o nosso Portugal se afasta cada vez mais de um projecto de solidariedade. Haverá alguém que compreenda que se cortem pensões e salários em nome da redução da despesa e, simultaneamente, haja uma dotação provisional de 523 milhões de euros para despesas não previsíveis e inadiáveis, nas mãos de uma qualquer albuquerque? Tanto poder nem o Afonso de Albuquerque teve. Faz algum sentido? Terá relação com as eleições que se aproximam? Está quase a valer tudo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Um Branquinho que gosta de dinheirinho

Por vezes somos confrontados com pequenas coisas da vida política que só servem para nos incomodar e para nos tornarem mais cépticos em relação à viabilidade de um projecto colectivo gizado por um tal Afonso Henriques, que já leva quase nove séculos e se chama Portugal. Então não é que, apesar da austeridade e da necessidade de forte contenção orçamental imposta pelo governo em 2013 e 2014, um tal Branquinho ao ser nomeado secretário de Estado, optou por não abrir mão do seu subsídio de alojamento por não ter residência em Lisboa? Não lhe bastava o salário e as despesas de representação, mais as ajudas de custo e o subsídio de alimentação, as despesas de telefone, a viatura com motorista e o cartão de crédito. Etc. A sua ânsia de facturar levou-o a não prescindir destes 753 euros por mês! Esta pobreza de espírito e esta ganância por dinheiro faz-me uma azia, que nem o Kompensan me alivia. Mas quem é este Branquinho?
Branquinho foi um jota precoce e com 27 anos já era deputado, mas basta ver o seu currículo oficial para concluir que nunca exerceu uma profissão e que é um boy que tem vivido à custa do seu partido e dos contribuintes, tendo-se tornado conhecido por alguns casos muito confusos que envolvem muito dinheiro. Em 2002 era o único detentor da empresa de publicidade NTM à qual foi adjudicada uma campanha de comunicação para um programa de formação profissional autárquico gerido pelo seu guru Miguel Relvas, no valor de quase 450 mil euros, caso que está a ser investigado pelo Ministério Público. Mais tarde voltamos a ouvir falar dele quando foi contratado pela famosa Ongoing que, em dez meses, lhe pagou 200 mil euros pelos serviços prestados. Agora está no governo e requereu 753 euros por mês, a que tem direito como subsídio de alojamento. Podia recusar o subsídio e o ridículo, mas não o fez. É assim este Branquinho que gosta de dinheirinho, que é Agostinho mas que não passa de um coitadinho!

Os novos paraísos fiscais dos chineses

A página da ICIJ - International Consortium of Investigative Journalists na internet e as edições de vários órgãos de comunicação internacionais como a BBC, o Le Monde, o Washington Post, o The Guardian e o El País, entre outros, deram a notícia: há 37 mil chineses com activos em paraísos fiscais e, entre eles, há muitos familiares da élite comunista da China, assim como políticos, empresários de sucesso e grandes companhias estatais. Esta notícia resultou de uma demorada investigação em que participaram 86 jornalistas de 46 países que consultaram dois milhões de documentos em arquivo e revelou informações sobre as fortunas escondidas das élites chinesas e sobre a gigantesca rede de abusos, ilegalidades e corrupção que sustentam a segunda economia do mundo. É o Chinaleaks.
A China escolheu a liberalização da sua economia mantendo a ditadura do partido único segundo a fórmula de Deng Xiao Ping - um país, dois sistemas - e isto gerou algumas disfunções. A par de um impressionante crescimento económico que tirou milhões de chineses da pobreza e que enriqueceu a camada dirigente, acentuou-se um brutal crescimento das desigualdades sociais e geográficas, a corrupção alastrou em larga escala e até surgiu uma bolha imobiliária semelhante à que tanta desgraça causou no Ocidente. O enorme escândalo agora revelado por esta investigação da ICIJ até obrigou o governo chinês a bloquear a informação da internet sobre este caso.
O que é interessante é ver a forma como essa teia de corrupção e lavagem de dinheiro dos milionários chineses se estendeu à Europa, cada vez mais transformada num paraíso fiscal para os chineses. Portugal não ficou fora da rede e aqui compraram a EDP, a REN e a EDP Renováveis. Depois ficaram com a Caixa Seguros, o que significa que a Multicare também é chinesa. Já andam a namorar as águas, os mármores, a banca e a energia solar. Centenas deles já têm o visto gold. Pequeninos, muito pequeninos, alguns dos nossos dirigentes deslumbraram-se. Julgam que o dinheiro vale tudo. São uns vulgares vende-pátrias. O que dirão a isto o irrevogável Portas, o goldman Arnaut, o oriental Catroga, o eléctrico Mexia e a malta do Conselho Geral e de Supervisão da EDP?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Síria: à procura da paz em Montreux

A desejada conferência de paz para a Síria começa hoje em Montreux, mas não se esperam quaisquer resultados imediatos. Depois de cerca de três anos de guerra cruel e sangrenta que matou mais de 130 mil pessoas, fez milhões de refugiados, devastou a economia e destruiu as cidades que antes eram prósperas, os representantes de mais de trinta países vão apelar às partes para negociarem uma solução para o conflito, a que se seguirá, o primeiro frente-a-frente entre os beligerantes ainda esta semana, apenas com a presença dos mediadores das Nações Unidas.
De um lado estarão o Governo Sírio de Bashar el-Assad e os seus aliados libaneses do Hezbollah. Do outro lado estarão os representantes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, dos extremistas da Jabhat Al-Nusra, da Frente Islâmica e do Conselho Superior Militar Sírio. Aparentemente, nenhuma das partes procura ou espera um fim rápido para o conflito, porque do lado do governo tem havido algumas vitórias militares no terreno que pretende consolidar e, do lado da oposição, continua a divisão e a conflitualidade, além de ainda estar longe de alcançar os objectivos mínimos a que se propõe, em especial o afastamento de Bashar el-Assad. Esta primeira ronda de negociações directas mediadas pela Rússia e pelos Estados Unidos vão decorrer durante sete a dez dias, a que se seguirá um curto período de reflexão e de consultas, esperando-se que os diplomatas saibam criar medidas de confiança e levar as partes a dar pequenos passos na direcção da paz, através de acordos de cessar-fogos locais e da abertura de corredores humanitários.
Entretanto, é preciso ter presente que o conflito evoluiu para uma “guerra por procuração” entre o Irão (xiita) e a Arábia Saudita (sunita), mas também entre os interesses da Rússia e dos Estados Unidos. As negociações são, por isso, demasiado complexas e, como diz hoje o Libération, é a paz impossível. Porém, é preciso que não seja assim.

A França recupera as línguas regionais

A Europa foi sempre um mosaico de povos, de culturas e de línguas que, ao longo do processo histórico, se confrontaram ou se aculturaram, dando origem a uma enorme variedade de nações e línguas nacionais.  A França é um exemplo dessa evolução, pois no território francês viveram (e vivem) povos com línguas e dialectos distintos, como sucede com o bretão, o occitano, o provençal, o corso, o basco, o catalão, o baixo-alemão e alguns mais. Com o tempo, o dialeto da região de Paris – o franciano – acabou por suplantar os outros dialetos e transformou-se na base da língua oficial da França, num processo semelhante ao que sucedeu em Espanha com o castelhano, que se transformou na língua espanhola. A unificação linguística acentuou-se em França com o Decreto de Villers-Cotterêts de 1539, com o qual o Rei Francisco impôs o francês como a língua oficial  da Corte e dos procedimentos administrativos, em vez do latim que era usado até então.
O francês impôs-se mundialmente e é a língua oficial de três dezenas de países de vários continentes e, na Europa, é falado na Bélgica, Suíça, Luxemburgo e Mónaco. Porém, quando o fenómeno da globalização se acentua e tende a unificar padrões culturais, comportamentos e línguas, está a verificar-se um interesse renovado pelas línguas regionais da França, algumas das quais a UNESCO classifica como línguas em extinção.  O jornal La Croix trata hoje desse problema e revela que o governo francês aposta e apoia a promoção dessas línguas e que o número de escolas bilingues está a aumentar, sobretudo na Bretanha e na Córsega, mas também na Alsácia e no País Basco francês. Contudo, este interesse pelas línguas regionais não parece estar associado a movimentos separatistas.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Os bifes do Café Império

No número 205 da Avenida Almirante Reis, em Lisboa, localiza-se o famoso Café Império, num edifício de traço arquitectónico modernista que foi projectado por Cassiano Branco em 1947. Esse edifício foi concluído em 1952, embora o café só tivesse sido inaugurado em 1955, tendo sido classificado em 1966 como imóvel de interesse público pelo IPAR - Instituto Português do Património Arquitectónico. O Café Império tornou-se então um importante espaço de convívio da vida lisboeta, sobretudo para quem estudava ou para quem conspirava naquele tempo da ditadura. Havia a imponente escadaria de acesso ao café, as inúmeras mesas redondas, os empregados de calça preta e jaqueta branca, os engraxadores e a sala dos bilhares mas, sobretudo, havia muitas tertúlias. O café fechava às duas e meia da madrugada e pela noite dentro servia os famosos "bifes à Império"que lhe trouxeram fama e rivalidade com os bifes da Portugália, cada qual com os seus adeptos e o seu apreciado molho.
Um dia a IURD adquiriu todo o edifício onde também existia o Cinema Império, encerrou o café e iniciou obras para o transformar num local de culto, mas a contestação levou a que a obra fosse embargada pela Câmara Municipal. Nessas circunstâncias, a IURD viu-se obrigada a trespassar o café a uma empresa de restauração que manteve os empregados da casa e renovou o estabelecimento com o objectivo recuperar a qualidade e o simbolismo que no passado havia sido reconhecido. O Café Império abriu ao público em 2006 com assinalável sucesso, voltando a reunir tertúlias e a servir os bifes que lhe deram fama e, agora, junto à sua porta, decidiu publicitar esses mesmos “bifes à Império”, sobretudo para quem está “farto de Coelho”. A clientela vai certamente aumentar!

Sobre o estado da nação

Depois de mais de trinta meses de governação da actual maioria e a quatro meses de terminar o programa de ajustamento que foi acordado com a troika, é altura de se começarem a fazer balanços, até porque se aproximam as eleições europeias. O governo e a sua gente querem passar a ideia de que o programa foi um sucesso e até parece estar a ser criado um ambiente de euforia. É bom que se contenham e que não ofendam quem passou e está a passar mal por causa da sua insensibilidade e do seu fanatismo ideológico. A troika vai-se embora, mas os problemas acumulados desde há muitos anos ficam cá, com um país mais triste, mais desigual e mais envelhecido. Porém, é preciso recordar quem chumbou o PEC4 e chamou a troika, dizendo que o seu programa era o programa da troika e que iria surpreender por ir mais longe do que as imposições da dita troika. Nem se pode esquecer a promessa de resolver o problema das Finanças Públicas com o corte nas “gorduras do Estado”, nem a declaração pré-eleitoral mais simbólica de Passos: "Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos que não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro".
Foi uma enorme mentira. Sem qualquer pudor, o governo foi ao bolso dos mais pobres e cortou salários e confiscou pensões. Não tocou nos interesses instalados. Não corrigiu o défice público que continua excessivo. Fez aumentar substancialmente a dívida pública. Atacou as políticas sociais e, em especial, cortou na saúde e na educação. Privatizou sem cuidar do interesse nacional. Humilhou as Forças Armadas. Tentou repetidamente violar a Constituição.
Como consequência das suas políticas, o produto nacional regrediu e o desemprego tornou-se um grave problema social. Foram destruídos mais de 300 mil postos de trabalho líquidos. Aumentaram as desigualdades, as injustiças e a pobreza. Foram empurradas mais de 200 mil pessoas para a emigração, incluindo jovens altamente qualificados. O aparelho de Estado foi ocupado por “assessores de aviário”, uns ex-jotas ambiciosos e impreparados para os quais não faltam bons salários, nem Audi, nem BMW.
Para saber o que se passa nem é preciso consultar estatísticas. Basta observar ou, então, escutar o que dizem Bagão Félix, Ferreira Leite ou Pacheco Pereira.

sábado, 18 de janeiro de 2014

O impacto da tecnologia sobre o emprego

Na sua última edição, a revista The Economist escolheu as questões da tecnologia e do emprego como tema central, ilustrando-o com a imagem de um tornado a destruir um escritório. É uma imagem eloquente. Na realidade, o efeito das tecnologias sobre o emprego foi sempre muito importante e se na Revolução Industrial substituiu os tecelões artesanais pelos teares mecânicos, também na Revolução Digital dos nossos dias está a destruir muitos dos postos de trabalho que sustentaram a classe média no século XX. Há cem anos, nos países industrializados, a agricultura ocupava um terço da mão-de-obra, mas actualmente a agricultura ocupa apenas 2% da população e produz muito mais. Porém, esses trabalhadores excedentários não foram para o desemprego, tendo sido absorvidos por outros empregos mais sofisticados e mais bem pagos. A sociedade desenvolveu-se e o ser humano passou a viver melhor.
O que se passa actualmente é semelhante pois estão a desaparecer postos de trabalho em consequência da inovação tecnológica, caso dos dactilógrafos, dos vendedores de bilhetes, dos caixas dos bancos e de muitos outros intervenientes nas linhas de produção. Até agora, os postos de trabalho mais vulneráveis ​​às novas tecnologias eram os que envolviam tarefas repetitivas de rotina, mas graças ao aumento exponencial da capacidade de processamento e à presença da informação digitalizada, os computadores são cada vez mais capazes de realizar tarefas complexas de forma mais barata e eficaz do que as pessoas. Assim se gera o desemprego e se acentua um desemprego estrutural de efeitos sociais imprevisíveis. Por isso, o The Economist afirma que é preciso mais investimento na educação, nomeadamente em educação pré-escolar, uma vez que as capacidades cognitivas e sociais que as crianças aprendem nos seus primeiros anos definem grande parte do seu potencial futuro, enquanto os adultos vão precisar cada vez mais de formação continuada. Segundo aquela revista, é preciso mais inovação e uma renovada capacidade para inventar novos bens e serviços para empregar os milhões de pessoas que cairam no desemprego mas, ainda segundo o The Economist, os governos não estão preparados para isso.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Goa recebe os III Jogos da Lusofonia

A terceira edição dos Jogos da Lusofonia iniciam-se amanhã em Goa e decorrerão até ao dia 29 de Janeiro, com a participação de cerca de 1500 atletas provenientes de 12 países - Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor (membros plenos da ACOLOP - Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa) e Guiné Equatorial, Índia (Goa) e Sri Lanka (membros associados da ACOLOP).
Os Jogos da Lusofonia são um evento desportivo entre os países de língua portuguesa, constituindo a versão portuguesa dos Jogos Olímpicos, dos Jogos da  Commonwealth ou dos Jeux de la Francophonie. As duas primeiras edições dos disputaram-se em Macau (2006) e em Lisboa (2009), tendo os resultados desportivos favorecido o Brasil (133 medalhas), Portugal (125), Macau (26), Angola (19) e Cabo Verde (13). Nesta edição Portugal vai estar representado por 57 atletas que participarão apenas em seis das dez modalidades presentes nos Jogos, designadamente nas provas de atletismo, judo, taekwondo, ténis de mesa, voleibol de praia e wushu, mas não vai estar presente nas provas de basquetebol, voleibol, desporto para deficientes e, sobretudo, no torneio de futebol, o que constitui uma desilusão para os goeses, uma vez que o futebol é o desporto-rei de Goa.
É lamentável que as nossas autoridades desportivas e até governamentais não tenham actuado no sentido de que fosse apresentada uma representação mais numerosa e mais credenciada, uma vez que só uma atleta olímpica estará em Goa (a judoca Yahima Ramirez). O atraso nas datas dos Jogos da Lusofonia, deslocados de Novembro para Janeiro devido a atrasos verificados na construção de novos recintos desportivos, terá alterado a programação da representação portuguesa e desviado os principais nomes do desporto nacional, muitos deles subsidiados pelo Estado. Porém, isso não é razão suficiente para justificar este desinteresse e esta presença tão pobre. A memória portuguesa em Goa merecia um outro tipo de representação.