sábado, 14 de outubro de 2017

A Europa diz "não" à república catalana


No dia 29 de Setembro escrevemos aqui que a independência da Catalunha ficava adiada e que nenhum país europeu apoiava a Catalunha porque,” em maior ou menor grau, todos têm as suas próprias catalunhas na Escócia, na Flandres, na Córsega, na Sardenha e em tantos outras regiões americanas, russas ou chinesas”.
De facto, assim está a acontecer, sucedendo-se as declarações de apoio à unidade da Espanha. Hoje, os jornais espanhóis, como por exemplo o elPeriódico, destacam as declarações de Jean Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, que veio agora tomar posição e afirmar que não quer “uma União Europeia de 98 países dentro de 15 anos”, que não apoia a pretensão da Catalunha e quer evitar o contágio independentista.
Um dos principais objectivos da União Europeia é a coesão económica, social e territorial, assim como a solidariedade entre os seus Estados-membros para promover o seu desenvolvimento harmonioso, a redução das disparidades e o atraso das regiões menos favorecidas. Por isso, no caso da Catalunha, a par de uma legítima aspiração histórica, está a uma vontade egoista de pagar menos e de ser menos solidária, o que contraria o espírito da União Europeia.
Porém, essa falta de solidariedade não é apenas catalã. Todos nos lembramos das declarações de Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo, quando criticava os países do sul e, hoje mesmo, a imprensa refere a realização no próximo dia 22 de Outubro de referendos na Lombardia (região de Milão) e no Véneto (região de Veneza), que são as mais ricas regiões de Itália, alegadamente para conseguirem maior autonomia financeira em relação ao governo de Roma, mas o facto é que o virus independentista no norte da Itália apenas está adormecido.
Quanto à Catalunha, a incerteza continua. Desde o dia 1 de Outubro, houve mais de cinco centenas de empresas que já mudaram a sua sede para fora da Catalunha, mas as linhas mais radicais de apoio à independência continuam activas e a pressionar Carles Puigdemont.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Os 20 anos do Museu Guggenheim Bilbao

A Espanha tem estado concentrada na situação política que se vive na Catalunha e que todos os dias regista novos episódios em que se torna evidente a perda de força das teses soberanistas. Os independentistas terão a História pelo seu lado mas não conseguem nenhum apoio internacional, estão ameaçados pelo caos económico e o seu projecto político afasta-se claramente da Europa da solidariedade. A razão começa a sobrepor-se à emoção e muitos começam a desmobilizar. Carles Puigdemont e as suas coligações começam a fracturar-se, embora ainda não se vislumbre a luz ao fundo do túnel quanto à solução da instabilidade na Catalunha.
Entretanto, o jornal El Correo que se publica na cidade de Bilbau, a capital da província da Vizcaya, uma das três províncias da Comunidade Autónoma do País Basco, não deixou de publicar hoje uma fotografia do seu mais conhecido ícone – o Museu Guggenheim Bilbao, um museu de arte contemporânea que foi desenhado pela equipa do arquitecto Frank Gehry e que foi inaugurado em 1997. A propósito do 20º aniversário da sua inauguração, o Ayuntamiento de Bilbao, a Diputación de Bizkaia e a Iberdrola encomendaram a uma empresa britânica um espectáculo de luz, cor e som com cerca de 20 minutos de duração que está a ser apresentado até ao próximo sábado, desde as 20.30 às 23.00 horas. O espectáculo intitula-se “Reflexões”, é exibido sete vezes por dia e nele trabalhou uma equipa de cinquenta pessoas durante um ano, que é a mesma que foi responsável pelo vídeo inaugural dos Jogos Olímpicos de Londres. Segundo dizem as crónicas, o efeito é deslumbrante, embora torne intransitáveis as ruas mais próximas.
Curiosamente, nas proximidades encontra-se o Paraninfo da Universidade do País Basco, uma obra do arquitecto português Álvaro Siza Vieira que foi inaugurada em 2010.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O caos económico ameaça a Catalunha

Os acontecimentos na Catalunha têm-se sucedido com enorme rapidez, sobretudo depois do dia 1 de Outubro, com avanços e recuos a fazerem lembrar-nos o Verão Quente de 1975 em Portugal.
O referendo realizado nesse dia foi um acto meramente simbólico e sem credibilidade, mas efectuou-se apesar das tentativas da polícia para o bloquear. O governo da Catalunha tratou de anunciar vitória e acusou a polícia nacional de acções desproporcionadas e violentas de que resultaram muitas centenas de feridos, mas esses anúncios não passaram de acções de propaganda. Entretanto, as forças apoiantes da unidade da Espanha reagiram e vieram para as ruas de Barcelona numa grande manifestação, comparável às que tinham apoiado a realização do referendo e a independência da Catalunha. A Catalunha ficou mais dividida. Os defensores da unidade da Espanha ganharam um novo fôlego, enquanto os independentistas perderam uma parte do seu fulgor. Ao mesmo tempo surgiram os anúncios da retirada da Catalunha das sedes de muitas empresas, enquanto chegavam de diversas capitais europeias muitos avisos de que a independência da Catalunha significaria a saída da União Europeia. A ideologia começou a ceder à economia e alguns jornais começaram a falar em caos, como sucede hoje com El País. O cerco às teses de Carles Puigdemont e Oriol Junqueras acentuou-se, interna e internacionalmente. O seu aventureirismo e os seus saltos no escuro foram desmascarados. O recuo parecia ser a atitude mais sensata e mais prudente para evitar o agravamento da crise económica e social que já se anuncia na Catalunha, mas havia o compromisso de declarar a DUI (Declaração Unilateral de Independência).
Ontem, Carles Puigdemont falou no Parlamento da Catalunha e não foi capaz de desenrolar o novelo em que se envolveu. Acusou o governo de Mariano Rajoy, vitimizou-se e não deixou claro se declarou ou não a independência, voltando a pedir uma mediação internacional para negociar, embora saiba que o governo espanhol a rejeita. Os seus apoiantes independentistas da CUP ficaram decepcionados e ameaçam abandoná-lo. O seu recuo para ganhar tempo mostra que já foi engolido pelos acontecimentos. Esta manhã o governo espanhol encostou-o à parede e perguntou-lhe se declarou ou não a independência da Catalunha. Puigdemont ficou encurralado "entre a espada e a parede", vai ser "preso por ter cão e preso por não o ter" e vai ter um triste fim político.
Como aqui escrevemos no dia 29 de Setembro, o futuro da Catalunha terá de ser conduzido por gente mais capaz que os Puigdemont e os Oriol Junqueras, que já perderam esta batalha pela independência da Catalunha.

As alegrias únicas que o futebol nos dá

A selecção nacional de futebol venceu ontem a selecção suiça no estádio da Luz e apurou-se para o Campeonato do Mundo de Futebol que, no próximo ano, se vai disputar na Rússia.
A noite de ontem, serviu não só para assegurar esse apuramento, mas também para elevar o orgulho nacional e a auto-estima dos portugueses. Com esse festejado triunfo, Portugal ingressou no restrito grupo de países que estará no Mundial, o que o torna sujeito num dos temas dominantes da actualidade, porque a partir de agora, através dos meios de comunicação social, o mundo vai falar das selecções e dos países que vão estar presentes na Rússia.
As imagens televisivas foram esclarecedoras quanto ao entusiasmo ou mesmo à euforia dos portugueses. De resto, quase tudo parece correr bem nesta terra, desde a paz social até ao bom desempenho da economia, passando pela estabilidade política, pela multidão de turistas que nos visitam e pelo futebol. Só a prolongada seca, a persistência dos incêndios, o aumento da dívida externa e a demagogia de certas figuras políticas nos contrariam o nosso contentamento.
A imprensa destacou, naturalmente, o apuramento português e o jornal A Bola escolheu o sugestivo título de Nação Valente, retirado do texto do Hino Nacional que milhares de espectadores cantaram no final do jogo, num inesperado momento de grande emoção.
Infelizmente, este momento de euforia vai ser efémero nas nossas televisões. Vão voltar rapidamente os longos espaços televisivos com enjoativos debates sobre o futebol caseiro e com a exibição de um doentio fanatismo clubístico, apoiado no discurso injurioso dos dirigentes, nas vicissitudes das arbitragens ou na enfadonha discussão sobre se numa determinada jogada houve mão na bola ou bola na mão.
É uma pena que as televisões, sobretudo o serviço público de televisão, dê guarida a tantos fanáticos investidos em comentadores de televisão.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Che Guevara, 50 anos depois da sua morte

Foi há 50 anos, no dia 9 de Outubro de 1967, que Ernesto Guevara de la Serna, mundialmente conhecido como “Che” Guevara, foi executado em La Higuera, na província de Vallegrande, no sudoeste da Bolívia. Tinha 39 anos de idade e a revista Time considerou-o uma das cem personalidades mais importantes do século XX.
Nascera em 1928 na cidade argentina de Rosário no seio de uma família abastada e formara-se em Medicina na Universidade de Buenos Aires, mas veio a trocar a vida confortável que o esperava por uma causa em que acreditou, ao juntar-se aos oposicionistas cubanos que lutavam contra o ditador Fulgêncio Baptista, então exilados no México. No dia 26 de Novembro de 1956 integrou o grupo de 82 homens que sob o comando de Fidel de Castro, partiu do porto mexicano de Tuxpan a bordo do pequeno iate Granma e, uma semana depois, desembarcou numa praia da província cubana do Oriente. Durante o desembarque o grupo foi atacado pela aviação cubana e apenas 12 homens sobreviveram. Ernesto Guevara foi um deles. Esse pequeno núcleo de sobreviventes reagrupou-se na Sierra Maestra, conduziu a guerrilha contra o regime cubano e cerca de 25 meses depois, no dia 1 de Janeiro de 1959, as forças do exército rebelde entraram triunfantes em Havana. Foi uma grande vitória militar e o médico argentino que integrara a guerrilha, tornara-se num dos seus mais destacados comandantes. Mais do que Fidel, Camilo ou Raúl, o Che tornou-se o símbolo da vitória.
Sobre a revolução cubana que foi dura, violenta e sangrenta já quase tudo foi escrito, quer pelos seus inflamados defensores, quer pelos seus intransigentes críticos.
Depois de ter ocupado vários importantes cargos no período pós-revolucionário, o Che deixou Cuba em 1965 com a intenção de levar a luta armada ao Terceiro Mundo. Nunca mais voltou a Cuba. Primeiro esteve em África a apoiar a independência do Congo e, depois, instalou-se nas montanhas da Bolívia onde, inspirado no exemplo da Sierra Maestra, pretendeu criar um foco guerrilheiro. Porém, não teve os apoios populares por que esperava e foi derrotado. No dia 8 de Outubro de 1967 foi capturado pelas forças militares bolivianas apoiadas pela CIA, quando estava ferido e doente. Na manhã seguinte, veio de La Paz a ordem para que fosse executado e a ordem foi cumprida com uma rajada de espingarda metralhadora. Nasceu então o mito do Che revolucionário, idealista e mártir.
Cinquenta anos depois, o simbolo maior da revolução cubana e da utopia da libertação dos povos da América Latina mantém-se vivo. As actuais gerações que por todo mundo  usam a imagem do Che, quase como uma marca comercial de sucesso, mas não o fazem por razões políticas ou ideais revolucionários, mas apenas porque ele representa um homem de causas e de ideais que não se deixou corromper pelo poder e que tudo sacrificou a esses valores. Por isso, o seu exemplo continua presente um pouco por todo o lado e alguns jornais, como o diário boliviano La Razón, evocam o homem e a sua memória.

sábado, 7 de outubro de 2017

Mocímboa da Praia e as minhas memórias

Mocímboa da Praia é uma localidade por onde passam muitas das minhas memórias pessoais, consolidadas há muitos anos quando visitava a sua pequena baía e vestia a camisa do botão de âncora.
Localizada na costa moçambicana da província de Cabo Delgado e a menos de 100 quilómetros da fronteira com a Tanzânia, a vila apareceu ontem referida com grande destaque no diário moçambicano O País, com o título "Tensão em Mocímboa da Praia". As notícias referem que a povoação foi atacada por cerca de três dezenas de elementos fundamentalistas islâmicos que integram uma célula do grupo terrorista Al-Shabab, que também actua na Somália e no Quénia. O grupo terá atacado três ou quatro postos policiais e, segundo as informações disponíveis, nos confrontos havidos terão sido abatidos dez terroristas e detidos quinze, enquanto terão sido mortos quatro agentes policiais. Uma parte do grupo atacante parece ainda estar a ocupar parte da vila, pelo que a tensão é muito grande, com as ruas desertas e quase todo o comércio e serviços fechados, incluindo as instituições estatais.
A presença em território moçambicano deste grupo fundamentalista islâmico, que é formado maioritariamente por jovens, já dura há alguns anos, mas tem vindo a intensificar-se nos últimos tempos. Segundo informa o jornal, vários contingentes da Unidade de Intervenção Rápida da Polícia moçambicana estão na região a fim de restabelecer a ordem.
Moçambique já tem alguns problemas sérios, mas não pode deixar de dar muita atenção a esta ameaça, até porque o islamismo tem uma forte implantação naquela região que, há pouco mais de cem anos, era dominada pelo sultanato de Zanzibar. Portanto, as autoridades moçambicanas têm que estar atentas e actuar enquanto é tempo.

The Times e o bom fotojornalismo inglês

A imprensa britânica cultiva o fotojornalismo, por certo como nenhuma outra no mundo, sobretudo quando regista imagens de efemérides astronómicas ou de paisagens marítimas.
Nessa linha editorial, o diário The Times destaca hoje na sua primeira página e com grande destaque uma fotografia a quatro colunas da Lua cheia, captada no Solent, isto é, o canal que separa o sul da Inglaterra da ilha de Wight, próximo de um dos quatro fortes construídos no século XIX para proteger o porto de Portsmouth de qualquer ataque marítimo vindo do sul. É uma bela fotografia que valoriza a capa do jornal.
A Lua ocupa um lugar importante em muitas mitologias e lendas populares de inúmeras culturas do nosso planeta. De acordo com a cultura britânica e norte-americana, cada uma das Luas cheias que ocorre durante o ano tem um nome diferente relacionado com as estações do ano no hemisfério norte e que serve de referencial para as diversas épocas agrícolas. A Lua cheia de Setembro é a mais próxima do equinócio do Outono (22 de Setembro) e é conhecida como a Harvest Moon ou Fruit Moon. Porém, neste ano de 2017, essa Lua cheia só aconteceu em Outubro o que já não acontecia desde 2009.
Foi essa imagem da Lua cheia sobre o Solent que o jornal The Times publicou.
Curiosamente, a mesma edição anuncia uma entrevista com António Horta Osório, o presidente executivo do famoso Lloyds Bank que afirma que, no exercício das suas relevantes funções, o stress quase o quebrou.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa

No quadro da globalização e, em especial, da abertura económica que hoje caracteriza a União Europeia, as cidades competem para valorizar a sua base económica e para atrair actividades e recursos. O caso da Agência Europeia do Medicamento que vai sair de Londres e para a qual se candidataram 19 cidades para a acomodar no futuro, mostra como é dura a luta das cidades para atrair organizações, actividades, eventos, congressos, investimentos e tudo o que possa gerar rendimentos, criar empregos, aumentar a notoriedade, valorizar a sua imagem e atrair visitantes.
Portugal e em particular a sua capital não têm descurado esta nova filosofia. Apesar de ser um país e periférico e de muitas vezes não poder competir com os seus parceiros economicamente mais fortes, Portugal tem desenvolvido um significativo esforço no sentido de se modernizar e de atrair grandes eventos internacionais. Assim aconteceu com a Expo 98, com o Euro 2004 e com a Web Summit 2016, mas também com o Rock in Rio que é um dos maiores festivais de música do mundo e que desde 2004 se tem realizado em Lisboa ou com a Volvo Ocean Race, a volta ao mundo à vela que desde 2012 escala o porto de Lisboa. A cidade de Lisboa tem sido a cidade portuguesa mais beneficiada com estes eventos, tendo aproveitado a sua relação íntima com o rio Tejo para se afirmar, daí resultando que tenha sido contemplada com a construção de novas infraestruturas que vêm harmonizando essa relação, muito importante para o turismo e para a economia do mar.
Depois da construção do Centro de Investigação para o Desconhecido da Fundação Champalimaud, um projeto de autoria do arquitecto goês Charles Correa que foi inaugurado em 2010 e do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia que foi concebido pela arquitecta britânica Amanda Levete, inaugurado em 2016, está em vias de ser inaugurado o novo Terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia, uma obra da autoria do arquitecto Carrilho da Graça.
Hoje o jornal Público publicou uma entrevista com o autor da obra e, por acaso, havia hoje 4 grandes navios de cruzeiro atracados nos cais adjacentes ao novo Terminal, a mostrar que o turismo de massa está em Lisboa.

A Catalunha terá de esperar mais tempo

A edição que hoje foi posta a circular da revista The Economist destaca como tema principal a situação na Catalunha e afirma que “quem fizer a declaração de independência será responsável pelo enorme dano que se fará à Catalunha e aos catalães, à Espanha e aos espanhóis e à Europa e aos europeus”.
Carles Puigdemont tem ameaçado que fará brevemente a DUI (Declaración Unilateral de Independencia), mas os seus entusiasmados apoiantes parece que se estão lentamente a desmobilizar. Ao fim de alguns dias de verdadeira insurreição patrocinada pelo governo catalão, o balanço começa a ser muito desfavorável para os independentistas, pois não conseguiram reconhecimento internacional e começam a assistir aos primeiros sinais de uma crise económica e financeira que se aproxima e que será muito dura para a população.
O referendo do dia 1 de Outubro foi uma farsa em que cada um votou como quis, as vezes que quis e nos locais que quis. As cargas policiais que vimos foram sobretudo respostas a provocações e não foram diferentes das que acontecem para resolver problemas com claques do futebol. Ninguém viu um único dos mais de oito centenas de feridos que foram anunciados e que, por serem desproporcionados, não foram levados a sério.
Os dirigentes independentistas já estão derrotados pela sua própria estratégia que não serviu a sua causa, eventualmente justa, mas que requeria uma abordagem menos emocionada e mais racional, menos de rua e mais de negociação. A generalizada desobediência e a quase insurreição popular que foi patrocinada pelos independentistas não agradou aos seus possíveis aliados europeus que têm as suas próprias catalunhas e não querem abrir nenhuma caixa de Pandora, num tempo em que há outros problemas para resolver. Carles Puigdemont e Oriol Junqueras já perderam esta batalha. Parece-me que a independência da Catalunha vai ter de esperar.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O feriado e a evocação da República

Completaram-se hoje 107 anos sobre a data em que foi proclamada a República em Portugal, em consequência de uma revolução organizada pelo Partido Republicano, em que participaram a Carbonária, uma organização clandestina e republicana, cerca de dois mil soldados e marinheiros e muitos populares armados. A monarquia constitucional portuguesa passava por grandes dificuldades e  tinha perdido credibilidade e a confiança do povo, pelo menos desde os tempos do mapa cor-de-rosa e do ultimato inglês, que se agravava em cada dia com a instabilidade política e social em que o país vivia e com o crescente acolhimento dos ideais republicanos. O regicídio de 1908 foi o ponto alto do ataque à Monarquia e dois anos depois as forças da Rotunda triunfaram sobre as forças monárquicas e o novo regime foi proclamado da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa.
A República afirmou-se como um regime de base popular e com um programa de modernização que parecia capaz de devolver aos portugueses o prestígio internacional abalado e de dinamizar a economia e a sociedade. Os principais símbolos nacionais como a bandeira, o hino e a moeda foram mudados e a toponímia urbana rapidamente introduziu os nomes de República, Almirante Reis e Miguel Bombarda.
O imaginário popular adoptou a República e um dos mais populares cartazes que então se produziram ainda hoje podem ser vistos em alguns velhos estabelecimentos.
O dia 5 de Outubro passou a ser um dia de grande festa nacional, sempre com grande participação popular, até que esse dia feriado nacional foi suprimido em 2013 por um governo sem perspectiva histórica, assim ficando até 2015 em nome de um aumento da produtividade da economia nacional.
Em 2016, e em boa hora, o feriado do 5 de Outubro foi restabelecido e é esse dia de festa a que me associo hoje com um "Viva a República".

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Autárquicas mostram um país cor-de-rosa

As eleições autárquicas realizaram-se no passado domingo e embora os resultados representem as escolhas dos eleitores perante as alternativas locais que lhes foram apresentadas, não deixam de ter um significado nacional.
Como de costume, cada um minimiza as derrotas e maximiza as vitórias, porque os números não têm igual significado na matemática eleitoral, dependendo de quem os usa. Por isso, não têm faltado comentadores e comentários bem diversos. Porém, sem excepção, todos têm destacado o Partido Socialista como o grande vencedor destas eleições pelo número de câmaras que venceu a nível nacional, designadamente nas principais cidades. De facto, das 308 câmaras municipais em discussão eleitoral o PS venceu em 158, mais o Funchal e Felgueiras em coligação, o que lhe garante a continuidade da presidência da Associação Nacional de Municípios. À frente das vitórias socialistas está, naturalmente, a cidade de Lisboa, onde Fernando Medina foi reeleito com 42,02% dos votos, mas onde a candidata do CDS obteve 20,57% dos votos, o que é um resultado surpreendente, embora tivesse beneficiado largamente da fraqueza da candidata do PSD a quem “roubou” uma boa parte dos seus votos. Na sua histérica euforia, a futura vereadora Assunção bem pode ir pensando que este caso não se volta a repetir e que nas próximas eleições voltará a ser em Lisboa o que é a nível nacional, isto é, quase nada.
O grande derrotado destas eleições foi o PSD que teve os piores resultados da sua história autárquica, sobretudo nas grandes cidades, embora esses resultados pareçam não impressionar o seu presidente que continua agarrado ao poder, sem perceber que a sua derrota resultou em grande parte das suas más escolhas de candidatos. O PCP, através da sua coligação eleitoral, perdeu 9 câmaras municipais, designadamente Almada, Beja e Barreiro, mas ainda governa 23 câmaras municipais, o que é significativo. O Bloco de Esquerda ficou com pouco para contar e não conseguiu beliscar nem o Partido Socialista, nem António Costa, como tanto procurou.
António Costa tem beneficiado de uma conjuntura europeia e nacional muito favoráveis e os resultados da sua governação têm sido excepcionais, com mais crescimento económico, mais emprego, menos défice, saída dos défices excessivos e do lixo das agências de notação financeira, reposição de rendimentos e, sobretudo, mais optimismo e mais confiança dos agentes económicos. A solução governativa que escolheu e que acabou com aquela tristeza que era o  “arco da governação”, não só se revelou muito inclusiva, como resultou positivamente para o bem do país. Os eleitores mostraram o seu agrado e deram-lhe o seu voto.
O país continua a viver o seu quotidiano sem medo do diabo e ficou mais cor-de-rosa, como anunciaram as notícias da Sapo 24.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A tensão na Catalunha agravou-se muito

Ontem foi o dia do referendo na Catalunha e, como se esperava, as coisas não correram com normalidade e a tensão foi muito grande. Os independentistas de Puigdemont levaram a sua farsa eleitoral até limites inesperados e até anunciaram que o si à independência da Catalunha obtivera 90% de votos e que se tinham registado 761 feridos em resultado das cargas policiais. Estes números não têm qualquer credibilidade, mas os efeitos produzidos através das imagens televisivas foi devastador, porque a luta dos catalães entrou nas agendas mediáticas internacionais, ganhou os seus primeiros apoios internacionais e deu alento aos muitos regionalismos e egoismos que existem pela Europa.
O governo de Mariano Rajoy tem o apoio dos principais países da Europa e dos Estados Unidos e tem o dever constitucional de denunciar a ilegalidade da farsa referendária conduzida por dirigentes irresponsáveis, mas também tem a obrigação de conhecer as aspirações históricas e o orgulho catalão e de não o afrontar com a ocupação policial da Catalunha, quase como uma força militarizada de ocupação.   
Portanto, ontem o referendo não existiu porque a polícia nacional o inviabilizou, mas a causa catalã ganhou uma nova expressão cada vez mais difícil de controlar.
A tradição espanhola não exclui a violência e os independentistas sabem disso. Por isso, apesar de continuarem a desafiar o governo de Madrid, a sua estratégia passa agora por pedir negociações para a independência da Catalunha com mediação internacional, o que não cabe na cabeça de ninguém. A independência está por agora derrotada, até porque a outra metade da Catalunha rejeita a independência e defende a unidade da Espanha. Neste imbróglio é curioso observar o que se passa com um dos mais importantes jornais catalães que é o elPeriódico, que se publica em Barcelona e que é subsidiado generosamente pela Generalitat de Catalunya, não admirando por isso que seja a sua voz oficiosa.
Assim, na sua edição do passado dia 7 de Setembro o jornal anunciou Desobediencia e os independentistas desobedeceram. Hoje, o mesmo jornal escreveu Insurrección. Será esse o próximo passo de Puigdemont e da sua gente? Será a greve geral de amanhã um passo nesse sentido?

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A independência da Catalunha fica adiada

Desde que no passado mês de Agosto o Parlamento da Catalunha aprovou uma proposta de lei intitulada Ley de Transitoriedad Jurídica y Fundacional de la República, que o movimento independentista catalão se mobilizou para o referendo marcado para o próximo dia 1 de Outubro. De acordo com esse texto, se o referendo vencer, nem que seja por um voto de diferença, o presidente do governo Carles Puigdemont fará uma declaração de independência unilateral, mas se isso vier a acontecer, não será mais que uma declaração simbólica, sem valor jurídico e sem qualquer credibilidade internacional
O que se tem passado na Catalunha no último mês tem sido uma escalada de tensão e de erros das duas partes em confronto. De um lado estão as autoridades independentistas catalãs que mobilizaram as suas forças para a rua em apoio do referendo e, do outro, estão as autoridades centrais de Madrid que exigiram a sua anulação, mas porque não foram obedecidas e com base na decisão do Tribunal Constitucional de Espanha, reagiram e tomaram medidas drásticas que já inviabilizaram a sua realização. A Catalunha está, portanto, politicamente dividida entre o movimento independentista e a sua fidelidade à Espanha das Autonomias mas, por agora, o independentismo sai derrotado pela forma populista e desastrada como Carles Puigdemont e a sua gente conduziram a luta. A opção independentista pode ter muito apoio nas ruas e nos sectores mais dinâmicos da sociedade catalã, mas não têm qualquer apoio no resto da Espanha que não quer ser desmembrada, nem na comunidade internacional que não quer ver catalunhas nos seus próprios países. É por isso que nenhum país europeu apoia a Catalunha porque, em maior ou menor grau, todos têm as suas próprias catalunhas na Escócia, na Flandres, na Córsega, na Sardenha e em tantos outras regiões americanas, russas ou chinesas.
Porém, a História ensina-nos que as aspirações independentistas catalãs não são diferentes dos sentimentos portugueses que triunfaram em 1640, embora a mesma História tenha traçado destinos diferentes às duas nações. Significa que as autoridades catalãs têm a legitimidade democrática para lutar pela independência da Catalunha, mas também têm a obrigação de saber que nenhum poder central instalado em Madrid lhes facilitará a vida, pelo que essa sua aspiração exigirá tempo, paciência e muitas negociações, mas também a compreensão da comunidade internacional. O que está acontecer com o Brexit mostra que uma eventual separação exigiria negociações muito demoradas e complexas.
Os dirigentes do independentismo catalão deslumbraram-se e foram longe de mais. Não estudaram a conjuntura internacional e não tiveram aliados. Os catalães já começaram a rejeitar estes saltos no abismo conduzidos com motivações emocionais e por movimentos radicais, que podem ter efeitos devastadores para a economia e para a sociedade catalã. A aspiração independentista catalã vai provavelmente sair reforçada deste processo, mas vai exigir que no futuro seja conduzida por gente mais capaz que os Puigdemont e os Oriol Junqueras.
A independência da Catalunha vai ficar adiada, mas ninguém sabe por quanto tempo.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O outro fantasma de Pyongyang

O jornalista brasileiro Renato Alves do diário Correio Braziliense conseguiu um visto especial para visitar a Coreia do Norte durante dez dias e, apesar da vigilância a que esteve sujeito pelo regime de Kim Jong-un, conseguiu recolher mais de 500 fotografias, dezenas de curtos vídeos e muitas histórias.
No passado dia 3 de Setembro, data em que se realizou o sexto e, até então, mais potente teste nuclear norte-coreano, o jornalista estava em Pyongyang e sentiu a terra tremer debaixo dos seus pés.
A extensa reportagem dessa visita à Coreia do Norte começou a ser publicada no seu jornal com o título “Passaporte para o segredo” e ontem foi dedicada ao “fantasma de 105 andares” ou ao “ícone do desperdício” que existe em Pyongyang.
Trata-se de um arranha-céus inacabado que se situa no centro da cidade e que é impossível não ser visto com os seus 330 metros de altura. Seria ou é o Hotel Ryugyong, pensado como o maior hotel do mundo e como símbolo de modernidade de um país ambicioso e em ascensão.
A sua construção iniciou-se em 1987, mas nunca foi concluído devido aos mais diversos contratempos, desde a falta de financiamento até ao aparecimento de problemas estruturais. Em 2011 o governo norte-coreano decidiu concluir o exterior do enorme edifício em forma de pirâmide, com painéis de vidro e antenas de telecomunicações, mas o seu interior continuou vazio. Trinta anos depois do início da sua construção, a fachada do Hotel Ryugyong está completa e com as janelas instaladas, mas o seu interior continua vazio, enquanto os seus 3 mil quartos continuam sem equipamentos e sem hóspedes. Caso tivesse sido concluído em 1989 seria o maior hotel do mundo, mas actualmente seria apenas o 47º mais alto e o quinto maior em número de quartos.
Em vez de Kim Jong-un e Donald Trump se ameaçarem constantemente, porque não chegam a um acordo para que a experiência hoteleira da Trump Organization, que opera a partir da Trump Tower em Manhattan, possa resolver o problema do Hotel Ryugyong? O Donald nunca escondeu que gosta de bons negócios e esta pode ser uma boa oportunidade para estender os seus interesses até à Coreia do Norte.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Estado do Curdistão vai ter de esperar

Está prevista para hoje a realização de um referendo sobre a independência no Curdistão iraquiano, mas paira sobre esta iniciativa uma grande apreensão, havendo muitos observadores que consideram que esta iniciativa pode dar origem a um agravamento ainda maior da situação naquela região do mundo.
O Curdistão é uma grande região do Médio Oriente, geográfica e culturalmente habitada pelo povo curdo, com uma área de cerca de 500 mil quilómetros quadrados e que se estende por vários países, estimando-se que existam cerca de 35 milhões de curdos, sobretudo na Turquia (18 milhões), no Irão (8 milhões), no Iraque (5 milhões), na Síria (2 milhões) e na diáspora curda (2 milhões). A ambição dos curdos para criar um Estado independente acentuou-se depois do fim da I Guerra Mundial, quando o Império Otomano foi derrotado e as potências vitoriosas redesenharam o mapa político do Médio Oriente, mas deixaram o povo curdo sem um Estado próprio. Essa ambição curda confronta-se com os interesses dos países que “ocupam” o seu território e, por isso, tem sido vítima da sua hostilidade, sobretudo na Turquia, onde cerca de um terço do seu território é habitado pelos curdos. No caso do Iraque, em que 20% da população é curda, a perseguição levada a efeito por Saddam Hussein foi brutal e foi um aviso que alertou a comunidade internacional para a necessidade de proteger o povo curdo.
Por isso, após as guerras do Golfo de 1991 e de 2003, o Curdistão iraquiano adquiriu um estatuto de autonomia que é único em todo o “território curdo”, que as autoridades de Bagdad foram “obrigadas” a aceitar. Agora, em nome dos direitos dos curdos, o Curdistão iraquiano mobilizou-se em torno do presidente Massoud Barzani que é o principal promotor do referendo, que só os curdos querem e que todos os “países ocupantes” rejeitam, ameaçando com represálias. Nada se espera deste referendo e o The New York Times até sugere que o cancelem para evitar males maiores, enquanto a ONU pediu que fosse cancelado.
O problema curdo só terá uma solução justa num quadro de negociações alargadas e complexas que ultrapasse as enormes rivalidades e as conflitualidades actuais dos “ocupantes”.