terça-feira, 12 de janeiro de 2021

As vacinas, o Natal e o relaxamento social

Os países ibéricos estão a passar por um acentuado agravamento da crise pandémica nos últimos dias e alguns especialistas atribuem esta situação a algum relaxamento que se verificou durante o período de Natal, embora não haja unanimidade a esse respeito. 
Em Espanha passou-se a mesma situação e o jornal catalão La Vanguardia chama-lhe relajación de la Navidad, enquanto o Diário de Cadiz refere la resaca de Navidad. As autoridades sanitárias portuguesas atenuaram as medidas de confinamento no Natal mas os resultados foram decepcionantes, o que tem servido para que alguns comentadores e os políticos do costume tenham espaço e tema para falar, abusando do habitual argumento de que “eu tinha avisado”, mesmo quando não tinham avisado nada. O facto é que a chamada terceira vaga chegou pelo que, nos próximos dias, são de esperar algumas medidas mais severas de confinamento. 
As notícias da chegada das primeiras vacinas geraram uma natural onda de euforia e terá sido essa euforia, mais que a animação de Natal, que deram origem à relaxação portuguesa e à la resaca de Navidad espanhola. Porém, o que nos interessa é que a pandemia esteja em vias de regredir rapidamente para que possamos recuperar o nosso modo de vida, sem medo, sem máscara e sem distanciamento social.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A Pátria honrai que a Pátria vos contempla

O jornal Ponto Final é um dos três jornais em língua portuguesa da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China (RAEM) e foi fundado em 1991 quando o território era administrado pela República Portuguesa. 
Actualmente o chefe do Executivo de Macau é Ho lat-seng e a RAEM, que vivia um período de prosperidade, está agora a sofrer as vicissitudes económicas devidas à crise pandémica. As medidas tomadas pelas autoridades sanitárias macaenses não diferem das que são tomadas em outros países, embora em grau diverso. Na sua edição de hoje o jornal destaca, entre outros assuntos, as limitações que continuam a ser impostas aos estrangeiros para pretendam entrar em Macau, até que a situação epidémica tenha um claro abrandamento. Naturalmente, esta medida é criticada, porque lá como cá, qualquer medida das autoridades sanitárias é criticada pelos que entendem que se foi longe demais e pelos que entendem que se ficou aquém do possível e necessário. Porém, o que aqui se destaca é a fotografia das Portas do Cerco que foi escolhida pelo jornal para sugerir a fronteira da RAEM com o território da RPC. 
Nessa fotografia pode continuar a ler-se a frase “A Pátria honrai que a Pátria vos contempla”, que desde 1871 encima o arco das Portas do Cerco e que desde 1836 é a divisa dos navios da Armada, como determinou o Ministro da Marinha e Ultramar José da Silva Mendes Leal. Aquela frase mostra a íntima relação que houve entre Macau e a Marinha, mas também parece mostrar que as autoridades macaenses preservam a herança cultural portuguesa.

domingo, 10 de janeiro de 2021

A neve e o frio que tanto nos afectam

No início da semana o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) alertou num comunicado que se aproximava a depressão Filomena centrada a sul do arquipélago dos Açores e que os seus efeitos se iriam sentir no arquipélago da Madeira e no sul do continente, isto é, previam-se dias de chuva, vento forte, agitação marítima e muito frio. 
Assim aconteceu e a ilha da Madeira esteve sob temporal, enquanto o continente está a ser varrido por uma onda de frio, com as temperaturas nocturnas a descerem abaixo de zero em quase todo o país e com queda de neve em muitas regiões, incluindo no Alentejo. Não estamos habituados a este frio. Não há aquecimento que lhe resista. A depressão Filomena está a ser demasiado dura. 
Porém, a Filomena entrou pela vizinha Espanha e não foi mais moderada para com os espanhóis. Antes pelo contrário, pois levou o frio a todo o território e cobriu de branco quase todo o país. A região de Madrid foi coberta pelo maior nevão registado nas últimas décadas, que cortou várias estradas e bloqueou centenas de automobilistas, levou ao encerramento do aeroporto e provocou cortes no abastecimento de electricidade. A capital espanhola está paralisada e o frio é intenso, enquanto nos Picos da Europa, no reino das Astúrias, a estação de Veja de Liordes registou a temperatura mínima de -35.6 graus, que é um recorde absoluto desde que há registos. Será mais uma manifestação das alterações climáticas em curso? 
O jornal El País dedica a sua primeira página à nevada que cobriu Madrid, deixando apenas um pequeno espaço sobre o triste final do mandato de Donald Trump.

sábado, 9 de janeiro de 2021

É o princípio do pior ou do melhor?

Depois de uma certa euforia que se verificou com a chegada das primeiras vacinas contra o covid-19, as últimas notícias têm sido devastadoras e preocupantes. Ontem foi anunciado que nas últimas 24 horas houve 10.176 de novos casos de pessoas infectadas e 118 óbitos. Nunca os números tinham sido tão elevados em Portugal e o jornal Público escreve na sua edição de hoje que é “o princípio do pior”. 
Porém, como o espaço público está cheio de pseudo-especialistas que nos vão enchendo a cabeça com as mais desencontradas das suas verdades, fica-nos a dúvida sobre se é realmente o princípio do pior como hoje titula aquele jornal ou se estamos apenas a pagar a factura dos descuidos e de alguma extravagância que a época natalícia propiciou. Por outras palavras, fica-nos a dúvida sobre se é o princípio do pior ou se é o princípio do melhor. O facto é que o assunto é muito sério e que, para além das normais medidas preventivas de defesa pessoal para evitar contágios, há cada vez menos lugar para facilitismos e para exposições desnecessárias. 
Tão grave como o covid-19 é que nos descuidemos e que baixemos os nossos níveis de actividade física e intelectual ou que nos rendamos à quebra das nossas rotinas. Por isso, para além dos cuidados que a situação pandémica a todos obriga, há que manter muita serenidade e muita confiança, porque há que pensar que os dias melhores estão para vir. Significa, portanto, que há que ter todos os cuidados, mas que também é preciso pensamento positivo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Ainda o Donald e o assalto ao Capitólio

A imagem de alguns fanáticos a assaltar o Capitólio, publicada pelo The New York Times e por muitos outros jornais, vai ficar gravada na história dos Estados Unidos, tal como as fotografias do ataque às Torres Gémeas acontecido no dia 11 de Setembro de 2001. O que aconteceu no dia 6 de Janeiro de 2021 e que todo o mundo viu em directo pela televisão, foi uma quase insurreição armada contra as instituições democráticas americanas tentada por algumas centenas de indivíduos, que se deslocaram de diferentes regiões dos Estados Unidos para apoiar o presidente cessante e para evitar que a vitória eleitoral de Joe Biden fosse certificada. 
O que vimos foi impensável, com o próprio Presidente dos Estados Unidos a incitar um bando de fanáticos para usarem a violência e assaltarem o Capitólio, o que veio a ser considerado pelo vice-presidente Mike Pence como “um dia sombrio na história da capital dos Estados Unidos”. As reacções internas e internacionais foram de unânime condenação e acentuam a vergonha e a desonra que constituiu o comportamento de Donald Trump, havendo uma forte corrente interna que pede o seu imediato afastamento por demência, por abuso de poder ou por traição ao seu juramento constitucional. 
Faltam duas semanas para que o novo presidente tome posse e até lá ainda vai correr muita água debaixo das pontes, pelo que nenhuma das declarações de Trump merece credibilidade. Naturalmente, esta triste comédia vai ser estudada para saber se houve ou não houve um plano de Trump para se manter no poder que falhou, mas também para elogiar o comportamento sensato de Mike Pence, que muito contribuiu para que o plano de Trump falhasse.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O fim do Donald e a invasão do Capitólio

As cenas que ontem nos foram mostradas em directo pelas televisões pareciam vir de uma república das bananas ou ser cenas de um qualquer filme histórico sobre a tomada da Bastilha em Paris no ano de 1789 ou o assalto ao Palácio de Inverno em Petrogrado no ano de 1917. Aquilo não poderia passar-se nos Estados Unidos, mas de facto tratava-se da invasão do Capitólio, o simbólico edifício que na cidade de Washington aloja o Congresso, isto é, as duas câmaras constitucionais - o Senado e a Câmara dos Representantes. É, portanto, a sede da Democracia americana. 
Ontem decorria a sessão presidida pelo vice-presidente Mike Pence, para confirmar os resultados eleitorais de 3 de Novembro passado, quando algumas centenas de desordeiros encorajados por Donald Trump invadiram o Capitólio, supostamente para impedir os trabalhos do Congresso. As cenas que vimos em directo mostravam um clima insurrecional que envergonha a América e faz rir o mundo. Houve quatro mortos e 52 pessoas foram detidas. Só depois o Congresso recomeçou os seus trabalhos, tendo formalmente declarado a vitória de Joe Biden e de Kamala Harris. 
Donald Trump perdeu mais uma tentativa para reverter a sua derrota eleitoral e continua a mostrar evidentes sintomas de demência ao não querer deixar a Casa Branca. O Partido Republicano e o seu vice-presidente abandonaram-no. As redes sociais suspenderam-lhe as contas. Muitas personalidades como Obama e George W. Bush condenaram-no e nem uma só voz respeitável apareceu a defendê-lo. Não se sabe se chegou a perguntar se Washington já estava a arder, mas o que se passou coloca Donald Trump numa galeria de gente que não merece o respeito de ninguém, tanto na América como no mundo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

R.I.P. Carlos do Carmo

Carlos do Carmo faleceu aos 81 anos de idade e a comunicação social foi unânime no elogio a um homem que era a voz e uma referência obrigatória na história do fado, mas que também era um homem de cultura e um defensor de causas. 
A sua carreira artística passou por inúmeros palcos internacionais e começou em 1980 no Olympia de Paris, mas também por muitos outros palcos em todos os continentes, tendo recebido vários prémios internacionais como o Prémio Goya em Espanha, o Grammy Latino de Carreira em Hollywood e a Grand Médaille de Vermeil da cidade de Paris, a mais alta distinção cultural da capital francesa e, segundo as palavras do Presidente da República “foi a voz de Portugal cá dentro e lá fora, prestigiando não apenas o fado como toda a nossa cultura”. A sua voz foi sempre estimulante, tanto nos tempos da Ditadura, como nos tempos da Democracia. No seu repertório incorporou textos de grandes poetas, em particular do seu amigo Ary dos Santos que com ele assinou o famoso álbum Um Homem na Cidade, editado em 1997. Foi um dos principais embaixadores da Candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade e a sua carreira foi distinguida com várias condecorações.
Carlos do Carmo falava fluentemente francês, inglês, alemão e espanhol e foi um defensor da língua e da cultura portuguesa, como reconhece na sua edição de hoje o jornal macaense Ponto Final que destaca que a sua voz também aproximou Macau de Portugal. Era um lutador por causas políticas e sociais e afirmava-se um homem de esquerda e um defensor dos ideais do 25 de Abril. 
As cerimónias fúnebres de Carlos do Carmo realizam-se hoje.

sábado, 2 de janeiro de 2021

2021: nova esperança e novos desafios

O novo ano já corre há mais de 24 horas e sucedem-se os balanços sobre o que foi o ano de 2020, enquanto se fazem previsões sobre o que vai acontecer em 2021. 
Temos vivido num quadro de incerteza que nos foi trazido pela crise pandémica e o aparecimento de vacinas que asseguram protecção para o covid-19, que aconteceu nas últimas semanas do ano, foi um facto que deu uma renovada esperança ao mundo. Portanto, o ano de 2021 é um ano de esperança, como destaca o Correio Braziliense na sua primeira edição do ano. 
Porém, depois dos fogos de artifício e dos tradicionais festejos que assinalaram a entrada no novo ano, a realidade apresenta-se com muitos desafios para ultrapassar os gravosos efeitos sociais e económicos da pandemia, que alteraram o nosso modo de vida e o nosso sistema de valores, o modo de produção da nossa sociedade, os padrões de consumo e as características do trabalho, do emprego e do lazer. Nada vai ser como antes e, por isso, confrontamo-nos com os desafios de um tempo diferente que está a chegar, num quadro mais impessoal de convivência e da chamada transição digital que nos obriga a ficar cada vez mais dependentes de um computador. 
Nessas circunstâncias, a geração dos mais velhos que é a minha, vai ter maior dificuldade de adaptação ao mundo que se está a desenhar e, por isso, vai ser cada vez mais necessário resistir ao ghetto que nos pode cercar, lutar contra a crescente desumanização do quotidiano e reforçar a solidariedade e o convívio com os amigos para que não fiquemos submersos pelo que aí vem.
Naturalmente, para todos aqui ficam os desejos de um Bom Ano.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

O ano de 2020 termina. Mejor año nuevo!

Hoje é o último dia do ano de 2020 e, por todo o mundo, muitos jornais despedem-se de um ano que querem esquecer e transmitem mensagens de esperança no ano de 2021, que se inicia dentro de poucas horas. De entre essas mensagens de esperança para o novo ano, destacamos a mensagem bem simples que aparece hoje na capa dos principais jornais de Madrid e de Barcelona. Diz apenas Mejor año nuevo e vem assinada com um pequeno M, quase escondido, mas que a generalidade dos leitores identifica espontaneamente com a Movistar, a marca comercial de grande notoriedade da operadora de telefonia móvel do grupo Telefónica, que opera em Espanha e em vários países latino-americanos como a Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, México, Panamá, Peru, Uruguai, Venezuela e Brasil, neste caso através da operadora Vivo. É uma presença publicitária de grande criatividade que reforça a imagem de marca da Movistar e que aumenta os níveis de confiança da sua clientela. 
Em situações de crise económica e social como aquela que o mundo atravessa, este tipo de mensagens publicitárias não se destina a aumentar as vendas ou a angariar clientes, mas apenas a reforçar o prestígio das marcas e a gerar uma confiança acrescentada no público. Com esta mensagem a desejar mejor año nuevo, a Movistar reforça a sua presença junto do público e deixa no subconsciente dos seus clientes actuais ou potenciais, a ideia de que é melhor e mais confiável do que as outras operadoras de telefonia móvel que operam em Espanha - a Orange, a Vodafone e a Yoigo.
E nós, tal como a Movistar, também desejamos mejor año nuevo aos nossos leitores.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Cristiano Ronaldo e Globe Soccer Awards

No passado dia 27 de Dezembro realizou-se no emirado do Dubai a gala dos Globe Soccer Awards 2020, uns prémios que têm uma relevância mínima no mundo do futebol, mas que permitem que os árabes endinheirados que gostam de futebol possam conviver com algumas estrelas do futebol mundial. 
O Dubai é conhecido por ser um luxuoso shopping center, pela sua arquitectura moderna, pela sua animada vida nocturna e pelo dinheiro que movimenta. Por isso, um evento como os Globe Soccer Awards assenta muito bem naquele cenário de modernidade. 
Este ano realizou-se a 12ª edição daquele evento e havia três portugueses candidatos a disputar os títulos de melhor jogador do século, melhor treinador do século e melhor empresário do século, tendo a gala sido realizada no majestoso arranha-céus Burj Khalifa, uma torre com 830 metros de altura, que se destaca num mar de arranha-céus. Jorge Mendes e Cristiano Ronaldo têm assinatura nestes prémios e foram escolhidos como empresário do século e jogador do século, enquanto José Mourinho ficou sem prémio desta vez. Quando ainda faltam oitenta anos para acabar o século é demasiado ridículo que já estejam a ser escolhidos o empresário e o jogador do século e, por isso, a imprensa desportiva tratou este assunto de forma muito discreta, porque o evento não merecia mais. Curiosamente, a maior referência que encontramos a este evento encontra-se no diário La Opinión, um jornal americano de língua espanhola que se publica em Los Angeles desde 1926, que ilustra a primeira página da sua edição de ontem com uma foto de Cristiano Ronaldo a três colunas e com a legenda Monstruo! Não se imaginaria tanta popularidade do Cristiano Ronaldo na Califórnia e não há dúvida que ele é, provavelmente, o maior embaixador que alguma vez tivemos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Um conselho ao Donald: stop the insanity

Tínhamos imaginado que a vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais americanas que sucessivos tribunais confirmaram, tinha acabado de vez com a nefasta presidência de Donald Trump que tanto prejudicou o prestígio internacional dos Estados Unidos. Além disso, a declaração dos especialistas de que se tratou da ”mais segura eleição da história dos Estados Unidos”, parecia acabar de vez com as teorias conspirativas do Donald. O assunto parecia ter ficado arrumado, mas as coisas não parecem ser exactamente assim. 
Numa altura em que a crise pandémica está muito intensa nos Estados Unidos, com mais de 200 mil contágios e três mil óbitos diários, com os hospitais à beira do colapso mas com as esperanças concentradas na nova vacina, o Donald continua amuado com o país, nada diz sobre a crise pandémica e repete a sua costumada gritaria em que insiste que que ganhou as eleições. Deste seu comportamento irresponsável tem resultado a perda de aliados e um isolamento cada vez maior, até porque não pára de fazer asneiras, não só através do boicote ao Congresso que lhe tirou o tapete mas, sobretudo, pela forma leviana e desonesta como vem distribuindo indultos a algumas dezenas de amigos e apoiantes, alguns deles já condenados. 
Na sua edição de hoje o jornal New York Post não o poupa e diz-lhe mesmo para parar com a sua insanidade. Stop the insanity é um invulgar apelo feito ao Donald para acabar com a louca cruzada em que se tem envolvido, mas a América e o mundo ainda terão de esperar 23 dias para o ver fora da Casa Branca.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Bispo de Pemba e guerra em Cabo Delgado

A província moçambicana de Cabo Delgado tem vivido em estado de guerra desde 2017 e como resultado da acção armada de grupos insurgentes estão contabilizados dois mil mortos e 600 mil deslocados. As raízes do conflito são complexas mas parecem assentar em sérias divergências com um governo que se encontra a 2.500 quilómetros de distância e que tem revelado incapacidade para discutir a situação e para ajudar os que precisam, optando por uma abordagem essencialmente militar e parecendo esquecer a componente religiosa do conflito. No litoral de Cabo Delgado o islamismo está implantado há muitos séculos e do actual descontentamento tem resultado a progressiva radicalização no terreno, com ideologias e práticas jihadistas inspiradas pelas suas ligações à umma regional e global. Por outro lado, a riqueza local em gás natural e outros recursos é também uma variável importante neste conflito e o Estado Islâmico, que inicialmente não se terá envolvido na insurgência, parece que desde há alguns meses passou a dominar a actuação dos grupos armados insurgentes. 
As Nações Unidas e o Papa têm referido as suas preocupações, sobretudo em relação aos deslocados, calculando-se que na cidade de Pemba se encontrem cerca de 150 mil pessoas deslocadas e em deficientes condições humanitárias. É nesse contexto que D. Luiz Fernando Lisboa, o missionário brasileiro que é Bispo de Pemba, se tem erguido com uma das vozes mais críticas do governo moçambicano pela sua inoperância na abordagem deste conflito, na denúncia do radicalismo e das violações de direitos humanos que ocorrem no terreno e pelo seu trabalho na ajuda e protecção dos deslocados que fugiram do mato. 
Há uma semana o Bispo de Pemba foi recebido em prolongada audiência pelo Papa Francisco e agora o semanário independente Savana, que se publica em Maputo, escolheu-o como “a nossa figura do ano”, por ser “a voz da tragédia de Cabo Delgado”. Daqui de muito longe, recordamos a antiga cidade de Porto Amélia, achamos que o semanário escolheu bem e daí o nosso aplauso. 

Uma vacina que é o sorriso do mundo

Tudo começou em Dezembro de 2019 quando foram detectados alguns casos de uma misteriosa pneumonia na cidade chinesa de Wuhan, que depressa se espalhou por toda a China e por outros países asiáticos. Essa estranha pneumonia chegou aos Estados Unidos no dia 20 de Janeiro de 2020 e, logo a seguir, entrou na Europa no dia 24 de Janeiro através da França. No dia 11 de Fevereiro a OMS identificou o vírus – SARS-CoV-2 – como causador dessa pneumonia e anunciou o nome oficial da doença que passou a chamar-se covid-19. Um mês depois, a OMS declarou o surto de covid-19 como uma epidemia que, até agora já infectou mais de oitenta milhões de pessoas e já provocou 1.757.665 mortes. 
A Ciência começou a trabalhar imediatamente na pesquisa de uma vacina e, no meio de muitas especulações ditadas pela política e pela competição comercial, os resultados acabaram por aparecer como se fosse um milagre que trouxe esperança ao mundo. A União Europeia deu um forte contributo para financiar alguns projectos de investigação e, desde o princípio, atribuiu subsídios às principais empresas farmacêuticas – AstraZeneca, Sanofi-GSK, Janssen Pharmaceutica NV, BioNTech-Pfizer, CureVac e Moderna – para assegurar que os estados-membros pudessem comprar as vacinas logo que fossem aprovadas pela Agência Europeia do Medicamento e iniciassem o processo de vacinação ao mesmo tempo em todos eles. 
A vacina já chegou a Portugal como anuncia o jornal Público e a vacinação vai começar hoje em Lisboa, Coimbra e Porto, de acordo com as prioridades previamente estabelecidas pelas autoridades de saúde. É um sinal de esperança para ultrapassar a crise sanitária, económica e social que se abateu sobre o mundo, mas é também uma grande vitória da Ciência de que nos devemos orgulhar.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Vem aí a nova Europa a 27. Quem ganhou?

Na próxima sexta-feira o Reino Unido deixa de pertencer à União Europeia e esse facto não pode deixar de entristecer os europeus, que perdem um dos seus mais importantes membros. A Europa a 28 passa a uma Europa a 27 e a hipótese de saída de um qualquer outro membro torna-se, a partir de agora, uma ameaça ou uma probabilidade cada vez maior. Apesar de ter sido um divórcio amigável e de uns falarem nos “nossos amigos europeus” e dos outros se referirem aos “nossos amigos britânicos”, o facto é que o dia 31 de Dezembro de 2020 vai realmente ser um dia triste para os europeistas, porque representa um divórcio e, quando isso acontece, nada voltará a ser como dantes. O acordo a que as duas partes chegaram parece assegurar a estabilidade económica e comercial, a protecção do mercado do trabalho e dos imigrantes, a continuação da luta comum contra o terrorismo, entre outros temas importantes para o futuro, mas a perda de um membro é uma marca muito negativa no futuro da União Europeia.
Porém, também há quem veja um alívio nesta saída do Reino Unido, pois a sua frequente reacção ao eixo franco-alemão levava-o muitas vezes a posições de conflitualidade e, por isso, o jornal Courrier Picard que se publica em Amiens, no norte de França, dedica a sua edição de hoje àquele divórcio com um significativo au revoir.
Só o tempo dirá quem vai beneficiar mais com o Brexit, isto é, se será o Reino Unido a recuperar a sua arrogância vitoriana e a livrar-se da ingerência de Bruxelas, ou se vai ser a União Europeia a libertar-se de um parceiro incómodo e exigente. Se calhar nenhum deles vai ganhar...

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

O acordo do Brexit e a luta da Escócia

A União Europeia e o Reino Unido, ou Bruxelas e Londres, chegaram a um acordo que, depois de avanços e recuos, consuma finalmente o Brexit e a decisão de 51,89% do eleitorado britânico, que escolheu a saída do projecto europeu no referendo de 23 de Junho de 2016. Toda a gente festejou este acordo porque, sem ele, o futuro estava muito cinzento e o caos económico era mesmo uma ameaça. O acordo está inscrito em cerca de duas mil páginas que confirmam o fim do período de transição e o início de uma nova relação económica e social entre o Reino Unido e a União Europeia. Toda a gente veio dizer que o acordo é justo e equilibrado e, provavelmente, é. Porém, quando Ursula von der Leyen se referiu a este acordo com alívio, também afirmou a “doce tristeza da despedida”, porque é a primeira vez que há uma deserção da União Europeia como hoje salienta o jornal espanhol La Vanguardia. Nestas coisas há sempre o risco de contágio e se esta deserção tiver outros seguidores, pode abrir-se a porta à desintegração do projecto europeu. 
A concretização do Brexit ainda vai continuar a perturbar a política e a economia britânicas e, neste momento, já reabriu a questão escocesa. A Escócia votou por larga maioria pela permanência do Reino Unido na União Europeia (62%) e a primeira-ministra Nicole Sturgeon veio de imediato lembrar que o Brexit aconteceu contra a vontade do povo escocês e afirmar que chegou o tempo da nação escocesa se tornar “uma nação europeia independente”. A Escócia precisa da autorização de Londres para realizar um referendo sobre a independência e essa luta vai certamente acentuar-se nos próximos meses.
Ainda terão que passar alguns anos para que o Reino Unido possa fazer um balanço dos custos e benefícios desta saída da União Europeia, mas é muito possível que nessa altura o Reino Unido já não seja espacialmente o que era.